sexta-feira, 19 de julho de 2013

Rio das Flores


Miguel Sousa Tavares
Companhia das Letras, 2011

Comentários por Ma. Virginia de Vasconcellos
Brasília,  Julho de 2013

Como perceber as imbricações entre nossas vidas e o momento histórico?
Como identificar os reflexos de questões da sociedade sobre as perturbações na vida individual e nas características mais íntimas do ser humano?

Evocando o sociólogo Wright Mills[1], concordamos que “os homens raramente têm consciência da complexa ligação entre suas vidas e o curso da história mundial. O bem-estar que desfrutam, não o atribuem habitualmente aos grandes altos e baixos das sociedades em que vivem”. Os homens não conseguem nem compreender, nem sentir o jogo que se processa entre a história e a sua biografia e as relações entre ambas, dentro da sociedade.
Pois, nesta saga familiar que transcorre entre 1915 e 1945, esta ligação entre o “eu e o mundo”, entre o indivíduo e suas circunstâncias,  é soberbamente exposta pelo autor, Miguel Sousa Tavares. 
Com um estilo lento, embora denso, ele acentua, a cada momento, o impacto daquela Europa varrida pelas ditaduras e por profundas mudanças sociopolíticas, e a influência dessa situação na vida dos personagens. Especialmente no destino e no caráter dos irmãos Diogo e Pedro.
Valendo-se de uma pesquisa histórica rigorosa, que abarca Portugal de Salazar, a Espanha de Franco e o Brasil de Getúlio, o autor constrói o que ele mesmo classificou de Romance Histórico, misturando o fato real com o mundo imaginário, sem perder de vista a realidade que  encurrala, leva ao desespero e limita o livre-arbítrio dos indivíduos.
Como Wright Mills, ele parece concordar que a informação e o discernimento não são o suficiente para preparar os homens para lidar com o sentimento de inadequação decorrente das transformações.
Sentindo seus valores ameaçados em Portugal, o Diogo se afasta da família e vai para o Brasil. Para ele, já não bastavam as terras do Alentejo, as caçadas, o campo, o desfrute da lareira e da boa mesa proporcionada pela mãe Maria da Glória.  Já não bastava a bela esposa. Precisou de novos ares para respirar a liberdade. Novamente o destino lhe bate à porta e o circunda com a ditadura do Estado Novo no Brasil. Com a diferença que, aqui, ele tem a condição de estrangeiro e se sente livre para refazer totalmente a sua vida tanto financeira como afetiva. E enterra o sentimento de inadequação.
Assim também, levado pela condição do momento, ameaçado pela mudança política, o Pedro vai lutar na guerra civil espanhola.
Mesmo com ideologias e visões de mundo distintas, havia em ambos este sentimento de inadequação decorrente das transformações, seja defendendo-se/libertando-se no Brasil, caso do Diogo, ou defendendo-se/lutando na Espanha, caso do Pedro.
É interessante notar a capacidade do autor para retratar a alma humana, tocando fundo no leitor ao descrever as relações familiares.
Também importante comentar sobre momentos brilhantes de humor ora sutil, ora deslavado e revelado.
A belíssima história dos Ribera Flores além de mostrar, com sensibilidade e delicadeza, suas paixões e amores, também apresenta os costumes,  crenças e valores de sua classe social.  
Ao final do livro, em que pesem as perdas, guerras, desencontros e separações ocorridas, o autor consegue produzir um happy end para seus personagens, e com isso, retira a amargura e acalenta nossos corações. Encontra-se o rio das Flores.
Poderíamos ainda escrever muitas e muitas linhas a comentar, por exemplo, a figura da mulher no início do século XX, sua apatia e indiferença pelo mundo, e comparar com as Amparos, Angelinas e Marias da Glória. Convido vocês a fazerem isso.
Aqui concluímos, afirmando que consideramos este Rio das Flores um dos melhores livros selecionados desde a formação deste grupo e, sem dúvida, recomendamos sua leitura inteiramente sem restrições.

Em tempo:
Vale mencionar que os resumos deste livro que aparecem na capa e contra-capa desta 1ª. edição de 2008 estão muito bem escritos.



[1] MILLS, C. Wright. A Imaginação Sociológica, Rio de Janeiro, Zahar, 1982 (1959) 

sexta-feira, 17 de maio de 2013

FAMA - um romance em nove histórias

de Daniel Khelman


por João Maria



    Fama é um livro bem escrito, bem construído. Com linguagem simples sem ser banal, o autor consegue ser leve e ágil apesar da complexidade do conteúdo.

   São nove histórias muito bem desenvolvidas e bem diferentes umas das outras. elas acontecem em realidades distantes entre si, mas mantém uma ligação, depois de ler as primeiras narrações o leitor (o primeiro conto) comecei a buscar personagens da história anterior e quando não encontrei comecei a buscar algo que as ligasse. Na quarta, encontrei a ligação com a primeira e isto me fez perder a verdadeira ligação. Somente após a última me pareceu claro qual era ligação.

    Na realidade o livro trata sobre como a fama, a publicidade e a tecnologia podem alienar e confundir as pessoas, ao ponto delas perderem a identidade. Boa parte das narrativas que compõem este romance tem origem num mal-entendido. São situações bizarras, causadas muitas vezes pela inversão de papéis entre quem vive a fama e o anonimato, ou por alguém que abandona a vida ordinária para viver algo extremo ou tomar uma decisão inusitada. Tem um cara comum que começa a receber muitas ligações no seu celular recém-adquirido, um autor de livros cheio de manias e um homem viciado em internet que prejudica até sua carreira - irritante aliás.

    As situações que eles passam são absurdas e ao mesmo tempo tão realistas, exploram como pode ser fácil se perder entre a sua vida real e aquela que você mostra as pessoas.

    O autor faz a fronteira entre ficção e realidade ficar muito tênue e mostra como a exposição, seja num livro, na televisão, nos celulares ou na internet, pode tornar as pessoas vulneráveis e mesmo causar a perda da identidade.

    A leitura é envolvente, pois o autor muda o estilo de narrar a cada personagem, que propositadamente são muito diferentes. Além disso, à medida que avancei, me peguei refletindo sobre a realidade e as aparências, o quotidiano e os sonhos e a noção de identidade num mundo cada vez mais saturado de “modernidades” e de pressões geradas por elas.  

Recomendo.

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terça-feira, 9 de abril de 2013

LIBERDADE

de Jonathan Franzen

por João Maria

O cenário do livro é a paranoia norte-americana pós 11 de setembro, ele trata sobre como as pessoas comuns se unem, se separam e como são infelizes.

Talvez infelizes por terem se tornado não exatamente as pessoas que gostariam de ser.

Novamente, “o livro dentro do livro” – o Diário de Patty, muito longo, nos remete sobre as escolhas que fazemos no transcorrer de nossas vidas, muitas delas não percebidas.

Liberdade de escolhas é o tema do livro.

Aliás, aprendi, antes mesmo da leitura deste livro, que cada escolha  implica em uma perda. Ou seja, a cada escolha, menos liberdade. A liberdade das escolhas tem limites e aprisiona.

Esta é a história de Patty e suas escolhas. Entre Walter e Katz, ente uma carreira e uma vida medíocre, etc... E como as escolhas dela foram delimitando o espaço livre e aprisionando-a. principalmente para viver escolhas novas, ou mesmo refazer escolhas.
Descobri pesquisando a vida do autor, que ele é demasiado preocupado com sustentabilidade e superpopulação. Assim, ele transferiu suas preocupações para o personagem Walter e o livro apesar de versar demasiadamente sobre os dois temas não consegue se aprofundar neles.  

Livro difícil de ler, desfocado, com muitos, muitos erros! Os ortográficos denotam falta de zelo, de tão primários.

Cheio de períodos longos e algumas vezes de difícil sentido, o livro é muito demorado em alguns trechos. Ex. migração das espécies das aves   Ele não consegue ser profundo sobre os temas contemporâneos - Questões econômicas, ambientais e políticas, embora esta última esteja presente ao longo de todo o livro.
  
Não recomendo. Um livro para quem tem tempo, muito tempo e tem interesse em relações humanas na sociedade americana pós-11 de setembro e suas crises. 

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quinta-feira, 14 de março de 2013

Aqueles Cães Malditos de Arquelau

de Isaias Pessotti, 1993

 por Daniela Lopes



Na Milão do final de década de 60, um grupo de pesquisadores do Instituto Galilei explora os vilarejos da região em busca de textos antigos, movidos por doença comum, uma bibliomania crônica, e também por prazeres bem cultivados na Itália, boa comida e boa bebida. Em uma destas viagens de final de semana, descobrem, em uma villa histórica no Piemonte, tesouros literários e uma história dos ‘quattrocento’ a ser esclarecida. Quem era o bispo vermelho, personagem ainda cultuado na região e o que se passou ali naquela villa? Só o método científico não daria conta de chegar às respostas do mistério, assim os eruditos apaixonados tem que usar suas habilidades e paixões individuais, a capacidade de observação, a intuição, a obstinação e é claro, a sorte, para montar o quebra-cabeça.


Como o Renato Janine Ribeiro coloca bem no texto da orelha do livro (4ª edição, Editora 34), o romance de estréia de Isaias Pessotti, duplamente premiado com o Jabuti em 1994, trata da paixão e o conhecimento, da paixão do conhecimento, do conhecimento da paixão. É bem evidente que o livro contem elementos autobiográficos, revelando as paixões do próprio autor. O prof. Pessotti, filósofo-psicólogo, viveu e lecionou em Milão na década de 60, e embutiu nos diversos personagens do enredo o seu próprio perfil e interesses acadêmicos (epistemologia; evolução histórica de conceitos da Psicologia; a trajetória do conceito da loucura); provavelmente se deleitou com os mesmos vinhos e pratos mencionados na história, e perambulou pelas mesmas paragens do Piemonte.


A voz do autor não está só no narrador, o latinista Emilio Donatelli, que pesquisa a rota da ideia da loucura. O autor se multiplica nos seus personagens: Anna estuda a história do teatro dramático; Lorenzo Ducci é interessado na história da medicina Greco-romana; Bruno Salvadori pesquisa a história da alquimia; Isabella Pierini,a história do canto gregoriano; Beatrice Bonomi, a história do movimento muscular; Tulio é o neuropsiquiatra que estuda o conceito histórica da deficiência mental; Abelardo Pasquali pesquisa direito antigo; Mauro Adami, a psiquiatria do settecento. Todos estes personagens poderiam ser um só, já que não têm vozes narrativas individuais.


O livro dentro do livro parece estar virando um padrão dentro deste grupo de leitura: novamente temos um livro, o Commentarium, de autoria do bispo vermelho, vai revelando a paixão deste cardeal, ex-inquisidor arrependido, pelo poeta Eurípedes e suas tragédias. Os paralelos entre a vida do cardeal e do pensador grego deslocado do seu tempo desembocam na trágica coincidência na morte de ambos. Quem viu o último Tarantino, Django Livre, teve uma amostra gráfica deste horror, de causar pesadelos noturnos. Malditos Cães...


O desenrolar da história é lento, recheado de discussões histórico-filosóficas, e entremeado de cenas elegantemente descritivas (ainda que muitas vezes exaustivas). O estilo ensaístico e erudito do autor é por vezes cansativo, pois parece evidente que os diálogos e relações entre os personagens são somente um pretexto para o acadêmico desenvolver alguns temas de seu interesse e desfiar referências, de forma mais livre do que teria que fazer se fosse publicar um livro acadêmico ou artigo em periódico. Mesmo a paixão contida do tímido Emílio por Anna tem costura fraca com o enredo.


Gostei do romance, mas não é um livro que dá para recomendar livremente, é preciso conhecer bem seu interlocutor para avaliar se ele não vai se cansar pelo caminho. Não sei se encararia outro romance do autor,mas ele atiçou em mim a curiosidade sobre as tragédias de Eurípedes, ou seja, conseguiu transmitir sua paixão pelo conhecimento da paixão para esta leitora.





terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

A SOMBRA DO VENTO


de Carlos Ruiz Zafrón

por Beth Eloy

A Sombra do  Vento é um romance de Carlos Ruiz Zafón, revelação da literatura espanhola contemporânea. O seu livro, A Sombra do Vento tornou-se um sucesso de crítica e público, com mais de 6 milhões de exemplares vendidos. A história é absolutamente fascinante e a narrativa utilizada pelo autor é completamente envolvente.

O livro está ambientado no período pós-guerra civil espanhola, em 1945, que coincide com o final da 2ª Guerra Mundial. Os seus personagens, adoráveis e misteriosos habitam uma Barcelona do pós-guerra, cenário de insegurança e instabilidade para a população.

Então, é nessa Espanha de Franco, que um garoto de 10 anos, chamado Daniel Sempere, órfão de mãe, inconformado com a sua morte e incapaz de lembrar seu semblante, é presenteado pelo pai com uma visita inesquecível, a um misterioso lugar, no centro histórico da cidade, chamado de O Cemitério dos Livros Esquecidos. O lugar, conhecido de poucos barceloneses, é uma biblioteca secreta que funciona como depósito para obras abandonadas pelo mundo, à espera de alguém que as descubra. É lá que Daniel, incentivado pelo pai, escolhe em meio a uma infinitude de livros, um exemplar de “A Sombra do Vento” de autoria do também barcelonês Julian Carax. A partir da sua leitura, muda a sua vida e a dos personagens que o cercam.

O livro desperta em Daniel um verdadeiro fascínio por aquele autor desconhecido e sua obra. De forma obsessiva, passa a buscar respostas para as suas questões e dúvidas sobre o autor e o mistério que o cerca. É uma história recheada de mistério e paixão. Aliás, paixão é o sentimento que norteia a história e nos é apresentada de todas as formas: lúcida ou delirante, aperfeiçoadora ou destrutiva. É a paixão que aparece nas páginas do livo motivando personagens, heróis e vilões.

As descobertas de Daniel Sempere, remetem a outra história, a de Julian Carax, o seu amor por Penélope Aldaya, a sua amizade com Jorge Aldaya e Miguel Moliner, a paternidade ignorada por Ricardo Aldaya; a conturbada relação com o pai, o chapeleiro Fortuny e sua mãe Sophie, com o seu amor e segredo que envolve a sua relação com o filho. Histórias recheadas de fantasia e realidade pertubadoras. Mas não demora, para que ambos se entrelacem e componham uma única trama, surpreendendo a todos com amores intensos, desesperados, mortes e personagens fortes. Nessa busca, Daniel Sempere nos apresenta uma galeria de personagens que vão ajudá-lo a resolver o mistério de Julian Carax: Dom Gustavo Barcelo, conhecido livreiro bracelonês; sua sobrinha cega, Clara Barcelo, primeiro amor de Daniel e quem revela para ele os primeiros elementos dos mistérios que envolvem Julian Carax; Firmim Romero Torres, mendigo de passado glorioso, envolvimento político e de aguçado senso de humor, que se tornará aliado de Daniel na busca da verdade; seu pai (sem nome) seu verdadeiro anjo de guarda silencioso e respeitoso na sua relação omnisciente e onipresente; Núria Monfort, mulher triste, que guarda um grande e doloroso segredo; Bea Aguilar e Thomaz Aguilar que também fazem parte do seu caminho e das suas buscas; Javier Fumero, o cruel policial que dedica sua vida a perseguir o fantasma de Julian Carax.

Paixão, foi o sentimento que despertou em mim essa obra, a qual eu recomendo com louvor a todos que queiram embarcar nesse universo de fantasia e ludicidade, de dor e realidade, de busca, encontros e reencontros.

“A essa altura, eu já estava reduzido a um bobo completo, à mercê daquela criatura cujas palavras e encantos não tinha jeito, nem vontade de resistir. Desejei que ela não parasse de falar, que a sua voz me envolvesse para sempre e que seu tio não voltasse nunca mais para quebrar aquele instante que pertencia apenas a mim”
“…Bea diz que a arte de ler está morrendo muito aos poucos, que é um ritual íntimo, que um livro é um espelho e só podemos encontrar nele o que carregamos dentro de nós, que colocamos nossa mente e alma na leitura, e que esses bens estâo cada dia mais escassos….”

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Trem Noturno para Lisboa

de Pascal Mercier

Por Claudine Duarte 
“ É um erro, um ato insano de violência, concentrarmo-nos aqui e agora na convicção de estarmos captando aquilo que é essencial. O que interessa seria conseguirmos nos mover, seguros, tranquilos, com humor adequado e a melancolia adequada, na ampla paisagem interior estendida no tempo e no espaço que somos nós.
Por que temos pena de pessoas que não podem viajar? Porque elas, como não podem se expandir exteriormente, também não conseguem se ampliar interiormente, não podem se multiplicar e, assim, não têm a possibilidade de empreender amplas excursões para dentro de si mesmas e descobrir quem ou o que de outro poderiam ter sido.”
                                                                                                                                      Página 253, do livro do Prado em Trem Noturno para Lisboa

       A vida pede `temas´. Todos os (sobre)viventes necessitam e cultivam temas que garantem cadência, ritmo, conforto e lastro às suas vidas.
       Alguns mudam de temas, de casas, de cidades, de companheiros, de amigos, de livros, de praças, de restaurantes... Outros precisam de rostos e lugares conhecidos para, como num num espelho, se reconhecerem e se acalmarem, num sofá ou debaixo de uma marquise amiga enquanto uma chuva passa. Enquanto uns dias passam.
       Às vezes, se muda de ares e lugares, apenas em busca de si mesmo. Outros fazem reformas em suas casas, trocam as cortinas, pintam de outras cores as paredes e até mesmo trocam as poltronas de norte para sul. O tapete virado para Meca não faz mais sentido e talvez fique melhor com umas malas em cima dele lembrando que é preciso viajar...
      E assim, o livro Trem Noturno para Lisboa constrói uma busca para o Professor Raimundus Gregorius.
         Aqui uma pausa para o significado dos nomes escolhidos por Pascal Mercier para o personagem principal de seu livro:

Raimundo é um prenome derivado do germânico Raginmund e latinizado Ragimundus e Raimundus composto de ragin- (“conselho”) e –mund (“proteção”). Ou seja, protetor ou sábio protetor, aquele que dará conselho em prol da segurança dos demais.

Gregório significa cuidadoso, vigilante e indica uma pessoa prudente, que evita ao máximo os conflitos e não emite uma opinião sem antes refletir sobre o assunto. Graças a essa atitude cautelosa, conquista o respeito de todos.
        
        Assim, compreendemos a busca cuidadosa e prudente que Gregorius escolheu. Primeiro, quase um latim moderno, escuta uma língua que o atrai, depois de sabiamente, salvar a moça que - em português - queria dar fim à própria vida. Como cenário, uma ponte. Metáfora para uma transformação, uma passagem. Em segundo lugar, um escritor português e seu livro - também em português. Está colocado um "tema" para se distrair do tédio de seus dias quase sempre iguais: "às quinze para as oito atravessa a (...)".
        E aí, "toma o trem noturno para Lisboa"... para conhecer como viveu e morreu o autor do livro, Prado. Encontra pessoas, visita lugares, conhece fatos e a própria história de Portugal, sem esquecer de sua Suiça natal, de seus alunos e de sua cadeira de Línguas Clássicas na escola de Berna. Partir sem partir.
        Mercier, na verdade o suíço Peter Bieri, ensina filosofia na Suiça e talvez Mundus Gregorius seja um alter ego. Ele constrói o livro em 4 partes. Na primeira parte, com o episódio da ponte como ponto de ruptura ou de ligação com Portugal, trata a partida do professor: trem para Lisboa
        Na segunda parte, Gregorius descobre a vida e a morte de Amadeu Prado e na terceira e maior parte do livro, tenta compreender as razões, atitudes e até as emoções do médico e escritor. Na última, breve e resumida parte, a comprovação de que não deixou Berna: para ela retorna e conclui sua transformação interior depois desta volta pelo tema composto por Prado, Portugal e o Português.

Poderia ser uma Odisséia, mas Mundus não é o herói.

“(...) E mais louco. Quando o tempo de uma vida se torna raro, as regras passam a não valer mais. Então parece que você perdeu o rumo e está maduro para o manicômio. Mas no fundo é precisamente o contrário: para o manicômio deveriam ir aquelas pessoas que não querem se dar conta de que o tempo ficou  raro. Aqueles que continuam como se nada tivesse acontecido. O senhor entende?”
                                                                          Página 292, Gregorius ao Filipe, motorista, no Liceu em Trem Noturno para Lisboa
       A leitura, às vezes, nos leva gentilmente a caminhar por Lisboa nos dias de hoje e pelos relatos dos amigos de Prado, revistamos a Lisboa de Salazar com os conflitos humanos que brotam no correr da vida e das relações.  Amadeu Prado ganha o desprezo de seus pacientes  por ter salvado a vida de um oficial da polícia salazarista e, na tentativa de se redimir, torna-se um membro importante da resistência.
       Vale destacar a profusão dos textos escritos por Prado – que tornam a leitura morosa e cansativa – recheados de questões filosóficas pontuando seu ateísmo e as eternas perguntas em que os seres humanos debatem fé versus razão.
      Raimundus Gregorius dedica a estes textos, o tempo de sua viagem de descoberta rumo a si mesmo. Como se cada linha tivesse sido escrita pelo seu eu desconhecido e que se apresenta a ele até mesmo com cartas trocadas (mas jamais entregues?!) entre Amadeu e seus pais.
      Em resumo, Trem Noturno para Lisboa é um livro sobre um tema para salvar Raimundus Gregorius, que por sua vez descobriu o tema que salvou Amadeu Prado, que talvez tenha salvado Pascal Mercier que por sua vez, e agora com certeza, salvou Peter Bieri.
E aqui estamos nós, salvando a nós mesmos, com livros, resenhas e encontros. Salve 2013!

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Trem Noturno para Lisboa



de Pascal Mercier

por Daniela Lopes

O Trem Noturno para Lisboa traz temas que têm me interessado: processos/viagens de introspecção/autoconhecimento; dificuldades de acesso ao inconsciente e por consequência no entendimento do mundo interior e o mundo exterior à pessoa; o outro como espelho; as situações de arrebatamento ou escolhas da vida em que a gente não opina; além, é claro do amor pela palavra e do passeio por Lisboa, cidade que adoro. “Se é verdade que apenas podemos viver uma pequena parte daquilo que há dentro de nós, o que acontece com o resto?”

Como outsider da vida de Prado, Gregorius torna-se capaz de uma visão do todo desta vida, mais completa do que a visão possível que o próprio Prado ou os personagens que conviveram com ele puderam ter, uma visão que une o seu mundo interior e o exterior, e que alimentam o processo de autoconhecimento e transformação de Gregorius. Pegando o trem para Lisboa, Gregorius foge de sua vida para mergulhar na vida de outro e poder achar seu caminho, estabelecer relações significativas e se reconhecer em sua própria vida.

O inusitado da história de Gregorius e as reflexões filosóficas de Prado, a la Livro do Desassossego me prenderam a atenção o tempo todo, apesar de deslizes percebidos no enredo, que comento mais abaixo. O livro dentro do livro tem elaborações interessantes  que ecoam na nossa vida diária, como a da página 397 (O Veneno Ardente do Desgosto), do mesmo modo que vimos n’A Elegância do Ouriço’. As cartas de Prado para o pai e para mãe, e a carta do pai, que não foram trocadas, são bem dolorosas e tocantes.

Os personagens, principais e secundários , são na maioria consistentes mas alguns são claramente desnecessários para a trama (Natalie Rubin, moça no trem de volta, professora de português), assim como algumas passagens (porque a volta à Berna?, por exemplo). A divisão em partes também não me convenceu: a terceira parte é entitulada "A Tentativa", mas não achei bem colocado (tentativa de quê?). Há pontas soltas que frustram um pouco (e a portuguesa da ponte, com seu número de telefone?), mas que talvez estejam lá para lembrar que a vida não é um enredo bem costurado, ma maioria das vezes.

É claro que fui atrás para ver se Prado seria um personagem verdadeiro, fiquei aliviada em saber que não pois isso tiraria um pouco o brilho do livro, na minha opinião. Achei blog bem interessante de um português, que traz informações sobre o processo de criação do livro a partir de entrevista com o autor. (http://bibliotecariodebabel.com/geral/lisbon-story/)

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quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

A Visita Cruel do Tempo

de Jennifer Egan

por Maria Albeti Vitoriano

O livro A Visita Cruel do Tempo narra várias estórias, ambientadas em São Francisco, Nápoles, em um safári na África, em um país não identificado e em Nova Iorque, num período de aproximadamente 28 anos (antes de 1980 até após a queda das torres gêmeas).
O núcleo central das estórias gira em torno de um grupo de jovens de São Francisco, Bennie Salazar, Scotty, Alice, Jocelyn e Rhea, que viviam envolvidos com música (rock) e drogas, e diversos outros que estão de alguma forma associados a eles, tais como Lou, Sasha, La Doll, Lulu, Stephanie e Jules.
As estórias, normalmente, estão contidas em um capítulo, mostram no conjunto do livro a diferença entre A (o passado)  e B (o presente). Os contos são permeados pela   nostalgia, lembranças do passado, dos amigos que estão distantes ou morrendo. Mostra, no presente, a vida confortável que Bennie conseguiu e de  outro lado,  o submundo em que vive Scotty, quase que num lixão e o leito de hospital de Lou, na sua  própria casa..
Destaca comportamentos moldados pela necessidade de fazer sucesso ou se sentir aceito, como é o caso de Bennie, que vive a angústia em relação à diferença da música que ele gosta e a que ele vende, bem como a convivência forçada com republicanos..
Como o próprio nome do livro insinua a autora parece ter o objetivo de mostrar a ação do tempo sobre as pessoas, suas angústias e o fim dos relacionamentos. Mostra a chegada da velhice e da doença, como é o caso de Lou, cujo filho acabou cometendo suicídio.
Interessante perceber que não existe praticamente nenhum relacionamento estável, talvez somente o de Bennie Salazar com a sua assistente Sasha, a cleptomaníaca que no final  parece ter sido substituída por Lulu.
Alguns têm sucesso, como Bennie, outros não, como é o caso de Scotty. Lou era um bon vivant, teve muitas mulheres e vários filhos, mas no final da vida estava só, acompanhando somente por um enfermeiro.
Na verdade, são várias estórias em paralelo, onde os personagens se cruzam diretamente ou por meio de parentes (irmãos, filhos, cunhados), mas poucas são finalizadas. Fica a dúvida, Sasha se curou da cleptomania, Lou viveu quanto tempo.
O livro é monótono, principalmente no safári da África, um dos momentos mais cansativos do livros, mas é interessante alguns artifícios usados pela autora, como, por exemplo, no Capítulo 3, onde se demora a descobrir  quem está contando a estória – que é Rhea – e no Capítulo 10, onde há uso da 2ª. pessoa, como um personagem que permanece oculto.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

O Centésimo em Roma

de Max Malmann



por Ana Studart


O CENTÉSIMO EM ROMA é um romance de Max Malmann, escritor premiado e conhecido roteirista de “A Grande Família”, que alia história, ficção e suspense policial.

O livro relata, fundamentado em extensa pesquisa da Roma Antiga, a saga do valente centurião Desiderius Dolens, que, nascido em berço pobre, na Suburra, sonha um dia ser cavaleiro, por mérito ou por compra do título.
Esse personagem mistura brutalidade e doçura, coragem e medo, hipocondria, ironia, sarcasmo, rabugice e bom humor, além de uma quase total ausência de escrúpulos – digo quase, porque o episódio da distribuição com sua tropa do dinheiro surrupiado dos cristãos o redimiu um pouco dessa falha de caráter. Apesar de tudo, ao fim do livro vi Desiderius Dolens como um verdadeiro (anti)herói.


PDV:

O narrador é Nepos, suboficial assistente (optio) de Dolens. Descende da nobre família Trebélia, mas renuncia a tudo para se tornar legionário e ser admirado por seus próprios méritos. A narração acontece de duas formas: na terceira pessoa onisciente, quando Nepos relata o presente, e na primeira pessoa, quando Nepos descreve o que acontecera anos atrás. São colocados em capítulos separados e diferenciados por tipos de letra de tamanhos diferentes.


O Título

Para o título, Malmann se inspirou na frase de Julio César, escrita por Plutarco “prefiro ser primeiro numa aldeia do que o segundo em Roma” e outra de Machado de Assis, cujo personagem do conto “Um Homem Celebre” diz se satisfazer em ser o “o centésimo em Roma”. Dolens se satisfaz com o título de cavaleiro.


A Estrutura

O romance está dividido em cinco livros, que se subdividem em capítulos, de modo geral bem curtos, o que dá dinamismo `a leitura.
Achei interessante a diagramação dos dois textos, o atual e o passado: a ficção com tipo maior, e os “documentos históricos” com tipo menor, com trechos do Vita Dolentis de Trebellius Nepos. Até agora estou sem saber em que medida esses documentos são fieis a um texto original.
(O próprio Max Malmann, em entrevista de 24 de julho de 2010 compilada em seu blog, diz que o sebo Nova Roma existe, a Roma do século I existiu, e o carcomido exemplar da Vita Dolentis é tão tangível quanto os bytes que digita...)
De qualquer forma, creio que o autor não pretendeu relatar uma obra histórica fiel, e sim uma visita à Roma antiga com o olhar do século XXI- é quando identificamos no livro a miséria, o suborno, a ambição, a traição, a injustiça, a adulação, o autoritarismo e a corrupção existentes nos nossos dias – e em todos os tempos. Há espaço também para o homossexualismo, bissexualiamo, e uso de drogas- o cânhamo.E tudo foi proposital, como confirma o autor:

“Quis apenas sugerir que a História da Humanidade, alem de cíclica, é ciclotímica”

Quanto ao paralelo entre as potências Império Romano e os Estados Unidos, Max Malmann sugere um talvez, dizendo que nunca quis fazer uma comparação direta entre as guerras santas dos romanos contra cristãos e dos norte americanos contra extremistas do Islã.

O Enredo

O Centésimo em Roma conta a história do período entre 68 e 70 d.C, tempo da guerra civil conhecida como O Ano dos Quatro Imperadores, em que Roma teve uma sucessão de Césares, todos golpistas e emocionalmente desequilibrados, a começar por Nero e seu fascínio pelo fogo, passando pela figura estropiada de Galba, por Otho com suas perucas, e terminando com Vitellius. (Ao fim do livro o autor diz que os retratou de acordo com descrições feitas por Tácito, Suetonio, Plutarco. Parece que eram assim mesmo! )
O livro é recheado de amores, assassinatos e crenças religiosas, formando várias histórias sem que nenhuma seja central. Mesmo o assassinato do senador Trebellius Longinus poderia não existir no livro, sem qualquer prejuízo. O centro do romance é mesmo Desiderius Dolens, que passeia por esses cenários de turbulência política na Urbe de Roma, servindo à autoridade do momento que melhor lhe convém.
A história é boa e bem desenvolvida.
Duas reviravoltas surpreendem o leitor: o Episcopus, o procurado e perseguido Papa cristão, é o pai de Dolens que ele acreditava morto e por quem se endividou para fazer o funeral.
Surpresa final: Dolens, depois de tentar por todos os meios a sua ascenção social, por um acaso fortuito foi nomeado tribuno comandante pelo imperador Otho, (que sempre troca o nome de Dolens por Valens), o que o eleva à condição tão sonhada de cavaleiro.

Os Personagens:

Como sou grande admiradora dos romances de ficção histórica escritos por Marguerite Yourcenar, “Memórias de Adriano”, e “A Obra em Negro”, a princípio estranhei a forma divertida de apresentar diálogos e situações de Max Malmann.
Mas pouco a pouco fui me afeiçoando a Dolens, o carniceiro de Bonna, com sua visão por vezes romântica, por vezes ácida da vida; de Marusia, a germânica que virou uma romana “albina”e tinha o “nome impronunciável”de Galswinth; dos desvelos da mãe, Moderata; do baixinho Nepos, manquitolando com sua bengala, um aristocrata culto que fala grego e renunciou a seus privilégios para se tornar legionário e a quem Dolens castiga sempre com a humilhação de limpar as latrinas da Casta Pretoria, por um prazo que pode ir até as calendas gregas - tarefa que ele cumpre sempre com “estoicismo”; do centurião Julius Atticus, com suas pupilas tortas; e do legionário burrinho Murcus, estendendo o braço na saudação dos romanos, em “Ave!” e irritando Dolens: “Sempre que você me saúda como se eu fosse um nobre, sinto vontade de decepar o seu braço”; do jovem tribuno Domiciano, sobrinho do senador Nerva, protetor de Dolens, que tem por hobby caçar e mutilar moscas, e que mais tarde se torna o imperador César Domiciano Augustos.

Os imperadores recebem qualificativos marcantes: Nero, o “desbrioso”, qualificado como “matricida”, “glutão e tolo” que assassinava a “arte com sua cítara; Sulspicius Galba, um homem “idoso”, “viúvo” e “avarento, que foi imperador “sem pertencer à família dos cesares”, como observa Murcus, evidenciando o pragmatismo de Dolens: “Se ele ordenar que o saudemos como Galba César, nós o saudaremos como Galba César”; Marcus Salvius Otho, salvo do suicídio por Dolens , franzino, baixinho, de saltos, beirando o ridículo, escolhia seus escravos pelos cabelos, para transforma-los em perucas que escondiam sua calvície e lhe caíam da cabeça. Amigo de Nero, casou-se com sua paixão, Popeia, para dá-la a Nero como amante. Em Otho viviam dois homens: “um faminto de glória, outro destinado ao fracasso”..
Vale comentar o brinquedo de Domiciano, um anão indonésio chamado Turpis ( feio), que também dá tempero ao humor do livro.
O romance tem uma infinidade de personagens com nomes que acreditei serem colhidos da antiguidade, para ao fim descobrir, por exemplo, que o sobrenome do (anti)-herói Dolens teve por inspiração o Doyle do autor de Sherlock Holmes, o som das palavras dólmã (roupa militar) dólmen ( titulo megalítico), e golem, do folclore judaico e, para meu espanto, até o nome de Mickey Dolenz, da banda The Monkees!
E Desiderius, claro, vem do desejo....
Foi de grande sabedoria o autor colocar um dicionário de nomes ao final do livro, para que pudéssemos relembrar os personagens ( eu sempre confundia Vitellius com Vespasianus, por exemplo...)
Em resumo, os personagens principais foram bem estruturados e me pareceram todos bem verossímeis.

A Ambientação

O Centésimo em Roma retrata o povo romano e agregados, incluindo césares, senadores, cavaleiros, legionários, centuriões, prostitutas, vestais, punguistas, agiotas, curandeiras, homossexuais e uma grande horda de miseráveis, com suas habitações e palácios.
Estão nele as vielas de lama, os quartéis, o espaço de torturas ( conveniente chamado de Domus Doloris), o Fórum; o Múnus Vestae, a taverna sórdida da Suburra; a suntuosidade extravagante do Domus Aurea, palácio construído por Nero “às custas do Tesouro Público”.
Nessa Roma convivem “germanas tatuadas, asiáticas de pele amarela, egípcias acobreadas, númidas cor da noite, iberos hirsutos, gregos depilados, capadócios de longos bigodes”, etíopes, germanos, judeus, cristãos, aristocratas, plebeus, legionários; vestidos em túnicas de seda, linho ou lã, guerreiros em cotas de malha feitas de anéis de ferro, com elmos, cinturões e botas com cravos na sola.
Embora o autor não se detenha em descrições minuciosas de cenários, o livro nos passa uma imagem bem convincente de como seria viver na Roma no século I d.C. Era como se eu acompanhasse Dolens em seus caminhos pelas vias da Roma antiga. Quase senti aquele cheiro de “molho de peixe, suor e esgoto” da cidade, que Dolens tanto curtia.

Peculiaridades

O próprio Max Malmann relata suas singularidades ao final do romance, lembrando aqueles making of que vem junto com os DVDs.
Ilíada de Homero, Eneida de Virgílio, Édipo Rei, Evangelho, discurso do inglês Chamberlain, Churchill, citações de Shakespeare, Machado de Assis, todos de alguma forma foram inseridos no livro, como confessa o autor. Reconheci com prazer no capitulo XLII do livro Quinto semelhanças com O Incrível Exército de Branca Leone, um dos meus filmes prediletos.
A denominação das cidades é similar à atual: Bonna é a alemã Bonn, e daí por diante.
Descobrimos que a tabula é jogo antecessor ao gamão!
E o “toque”de Max, de sempre iniciar um parágrafo com letra diferente do anterior.
Também construiu versos em dodecassílabos, pelo prazer de faze-los. E assim por diante.

Conclusão

Demorei algumas várias páginas para me adaptar ao ritmo do livro, que me pareceu lento, no começo. Comecei a curtir mesmo a partir do Segundo Livro. Estranhei também, como já disse, o vocabulário com expressões e palavrões atuais.
Os textos em grego eram dispensáveis ou, no mínimo, pediam uma tradução.
O que dá leveza à leitura são os diálogos, muito bem colocados, em geral com humor.
Saboreei especialmente o capítulo XXVIII do Líber Tertius, onde se discutem dogmas cristãos- como o Pai, o Filho e o Espírito Santo formam um único Deus, quando o entendimento era de que deveriam ser três, e seriam equivalentes a Júpiter, Apolo e Mercúrio?
Ou o comentário de Dolens ao saber por Anacletus que não havia orgias nos cultos cristãos:”É incrível que uma religião tão desprovida de atrativos conquiste tantos adeptos”.... E ainda: ”esse deus supostamente único é o pai que deixa o filho morrer na cruz, é o filho que voltou dos mortos, ou é o fantasma voador?”... “você não poderia ter escolhido uma religião menos confusa?
Salta aos olhos o paralelo (jocoso, acredito) feito entre o comunismo e o cristianismo, quando Dolens diz que os cristãos comem criancinhas...
Exemplo de humor: Qual a diferença entre nós e os bárbaros? pergunta Nepos, depois de uma carnificina. Resposta de Dolens: nós fazemos a barba.
Ou a incrível história do boi subversivo que falava mal do imperador, capturado por Dolens e torturado em interrogatório.
A impressão que me fica é que Max Malmann, a despeito do extenso trabalho de pesquisa, se divertiu muito ao escrever esse livro - e eu também me diverti lendo o romance dele.
Há a possibilidade de que o estilo irreverente de seu texto acabe desmerecendo a pesquisa minuciosa que o livro apresenta, mas esse é uma questão para o autor.
Recomendo a leitura, com certeza. O livro é muito bom.

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quarta-feira, 14 de novembro de 2012

O Centésimo em Roma


de Max Mallmann

por Beth Eloy

Deve ser muito difícil escrever um romance histórico pelo que demanda de pesquisa minuciosa para reproduzir o modo de vida de uma época remota e muito distante. Penso exatamente assim quando vejo um belo filme de época. Foi com base em sólida pesquisa, ratificada pelo autor nas Notas Diversas (páginas 399 a 416) que Max Mallman recria com fina ironia a Cidade Eterna entre os anos 68 a 70 d.C: romanos nobres, plebeus, cristãos, judeus, gregos e germanos convivem nessa vastidão que foi o Império Romano, sua intricada geografia e seu modelo político e social, onde se misturavam corrupção, assassinatos, luxúria e muito sangue.

Tornar a história autônoma, fazer com que ela pulse vivacidade pelos personagens, suas ações e a atmosfera que os envolve é o grande desafio de um romance como esse, e de forma muito humilde, o autor, cita, o medo que teve de fracassar e de que as pessoas não gostassem de ler o livro. Ledo engano: o livro é uma bela obra, prazerosa de ser lida, admirada e que nos leva a reflexão sobre nós, nosso modelo de vida, nossa estrurtura social
Lendo a parte final do livro, na qual o autor descreve os modos e os métodos de que se utilizou para a pesquisa histórica de seu romance, não duvidei da forca de vontade e paciência que foram dedicados nesses quatro anos de trabalho.

O protagonista:

Desiderius Dolens, protagonista da história é um atrapalhado centurião que sonha galgar alguns degraus na hierarquia social romana. Para tanto, trabalhou duro como soldado visando promoções e o cargo de cavaleiro da guarda real. De volta de uma campanha da Germânia recebe a alcunha de “Carniceiro de Bonna” - rumores de que havia chacinado uma cidade repleta de crianças, mulheres e idosos sem piedade.
Ao invés disso, ele é designado para comandar uma das coortes urbanas (um tipo de guarda urbana) fatia mais baixa e decadente dos postos militares.

A história:

O assassinato de um senador incumbe Dolens de investigar o fato e daí surgem personagens, suspeitos pelo crime, que podem ajudá-lo ou atrapalhá-lo em sua tão sonhada ascensão.

O centurião não está interessado em resolver o mistério, mesmo com as insistentes investidas de Nepos, filho do senador assassinado e braço direito de Dolens.

Dolens, é um típico exemplo de “macho”, mas em casa é comandado por Galswinth, Moderata, Desidéria, Olímpia e Eutrópia – hilário modelo de relação familiar.

Os personagens são construídos ao longo dos capítulos e aí nos são apresentados imperadores, escravos, cachorros mancos, pigmeus e cristãos com extremo bom humor. Espaço reservo, para o reencontro de Dólens com o seu pai, já na figura de Episcopus.

Dólens é o personagem principal, mas não menos importante o pobre Nepos, sempre levado a limpar latrinas; Eutrópia e suas viagens a base de cânhamo; Galswinth com sua indolência conveniente; Moderata, a mãe centralizadora; Desidéria a irmã dependente e a escrava Olímpia.


A estrutura do livro também é interessante: a mistura de dois tipos de texto, sendo o primeiro sobre os diálogos e descrições sobre o que acontece na hora em que a história é contada; e o segundo, com um estilo mais formal e histórico, conta a história de Desiderius Dólens, sob a perspectiva de Nepos. O primeiro, sempre forte na forma bem humorada como a história foi contada. O segundo, pareceu-me a própria história.

Demorei um pouco para me habituar ao estilo da leitura, mas foi questão de tempo até que me adaptasse a ela.

Encantamento, ao reler, após citação do autor, textos de clássicos, descritos ao longo de alguns capítulos do Liber Primus até o Liber Quintus. Desculpem os mais versados, fiquei emocionada com a estrutura desses textos.

Finalizo recomendando o livro e agradecendo ao Oswaldo Parente por essa ótima indicação