Miguel Sousa Tavares
Companhia
das Letras, 2011
Comentários por Ma. Virginia de Vasconcellos
Brasília, Julho de 2013
Como perceber as
imbricações entre nossas vidas e o momento histórico?
Como identificar os
reflexos de questões da sociedade sobre as perturbações na vida individual e
nas características mais íntimas do ser humano?
Evocando o sociólogo Wright Mills[1], concordamos que “os homens raramente têm consciência da complexa ligação entre suas
vidas e o curso da história mundial. O bem-estar que desfrutam, não o atribuem
habitualmente aos grandes altos e baixos das sociedades em que vivem”. Os homens não conseguem nem compreender, nem
sentir o jogo que se processa entre a história e a sua biografia e as relações
entre ambas, dentro da sociedade.
Pois, nesta saga familiar que transcorre entre
1915 e 1945, esta ligação entre o “eu e o mundo”, entre o indivíduo e suas
circunstâncias, é soberbamente exposta
pelo autor, Miguel Sousa Tavares.
Com um estilo lento, embora denso, ele acentua, a cada momento, o
impacto daquela Europa varrida pelas ditaduras e por profundas mudanças
sociopolíticas, e a influência dessa situação na vida dos personagens. Especialmente
no destino e no caráter dos irmãos Diogo e Pedro.
Valendo-se de uma pesquisa histórica rigorosa, que
abarca Portugal de Salazar, a Espanha de Franco e o Brasil de Getúlio, o autor
constrói o que ele mesmo classificou de Romance Histórico, misturando o fato
real com o mundo imaginário, sem perder de vista a realidade que encurrala, leva ao desespero e limita o
livre-arbítrio dos indivíduos.
Como Wright Mills, ele parece concordar que a informação e o
discernimento não são o suficiente para preparar os homens para lidar com o sentimento de inadequação decorrente das
transformações.
Sentindo seus valores ameaçados em Portugal, o
Diogo se afasta da família e vai para o Brasil. Para ele,
já não bastavam as terras do Alentejo, as caçadas, o campo, o desfrute da
lareira e da boa mesa proporcionada pela mãe Maria da Glória. Já não bastava a bela esposa. Precisou de
novos ares para respirar a liberdade. Novamente o destino lhe bate à porta e o
circunda com a ditadura do Estado Novo no Brasil. Com a diferença que, aqui,
ele tem a condição de estrangeiro e se sente livre para refazer totalmente a
sua vida tanto financeira como afetiva. E enterra o sentimento de inadequação.
Assim também, levado pela condição do momento, ameaçado pela mudança
política, o Pedro vai lutar na guerra civil espanhola.
Mesmo com ideologias e visões de mundo distintas, havia em ambos
este sentimento de inadequação decorrente
das transformações, seja defendendo-se/libertando-se no Brasil, caso do
Diogo, ou defendendo-se/lutando na Espanha, caso do Pedro.
É interessante notar a capacidade do autor para retratar a alma
humana, tocando fundo no leitor ao descrever as relações familiares.
Também importante comentar sobre momentos brilhantes de humor ora
sutil, ora deslavado e revelado.
A belíssima história dos Ribera Flores além de mostrar,
com sensibilidade e delicadeza, suas paixões e amores, também apresenta os
costumes, crenças e valores de sua
classe social.
Ao final do livro, em que pesem as perdas, guerras, desencontros e
separações ocorridas, o autor consegue produzir um happy end para seus personagens, e com isso, retira a amargura e
acalenta nossos corações. Encontra-se o rio das Flores.
Poderíamos ainda escrever muitas e muitas linhas
a comentar, por exemplo, a figura da mulher no início do século XX, sua apatia
e indiferença pelo mundo, e comparar com as Amparos, Angelinas e Marias da
Glória. Convido vocês a fazerem isso.
Aqui concluímos, afirmando que consideramos este Rio das Flores um
dos melhores livros selecionados desde a formação deste grupo e, sem dúvida,
recomendamos sua leitura inteiramente sem restrições.
Em tempo:
Vale
mencionar que os resumos deste livro que aparecem na capa e contra-capa desta
1ª. edição de 2008 estão muito bem escritos.
Resenha muito bem elaborada por Maria Virgínia de Vasconcelos, síntese de Rio das Flores que endosso com prazer.
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