segunda-feira, 18 de agosto de 2025

"Afirma Pereira" de Antonio Tabucchi

 Antonio Tabucchi (1943-2012) foi um renomado escritor, tradutor, crítico literário e acadêmico italiano, conhecido por sua vasta obra literária que explora temas como a reconstrução da identidade, a memória e a realidade. Tabucchi foi um apaixonado estudioso da literatura portuguesa, traduzindo para o italiano diversas obras de Fernando Pessoa, Carlos Drummond de Andrade e outros autores lusófonos. Sua paixão por Portugal levou-o a viver em Lisboa por longos períodos, casado com uma portuguesa.

"Afirma Pereira – um testemunho" (Sostiene Pereira: uma testimonianza, no original; Pereira Maintains/Declares, em inglês), publicado originalmente em 1994, é uma de suas obras mais aclamadas, vencedor dos Prêmios Super Campiello, Scanno e Jean Monnet de Literatura Europeia. A obra foi transformada em filme em 1995, apresentando Marcello Mastroianni em uma das suas últimas grandes interpretações. Mastroianni disse ter se apaixonado pelo personagem[1]. "Principalmente por sua transformação e pela forma quase poética como ela acontece. Ele começa a conhecer pessoas e vai descobrindo que vivia de uma forma que não era normal, à parte. Toma consciência de que vive em um mundo perigoso, mas ao descobrir o mundo ele renasce".

Há ainda uma adaptação da obra para HQ, feita pelo francês Pierre-Henry Gomont em 2016.

O jornalista Pereira é viúvo, vive sozinho e é diretor da página de cultura de um pequeno jornal, no centro velho da Lisboa de 1938. No verão quente de Lisboa, transitando entre a Rua das Saudades, a Praça da Alegria e a Rua da Liberdade, Pereira reflete sobre a morte enquanto consome limonadas e omeletes com ervas no Café Orquídea, e à noite conversa com o retrato da falecida e pensa como seria a vida se tivessem tido um filho.

Percebe que o autoritarismo do regime salazarista vai se infiltrando devagar na vida portuguesa, ouve notícias sobre a guerra civil espanhola e outros movimentos na Itália e Alemanha, mas procura não se envolver e ocupar-se da tradução de contos de seus escritores franceses preferidos.

Pereira não sabe explicar direito o motivo que o levou a contratar e sustentar um estagiário com nome italiano e uma bela namorada, que só produzia necrológios impublicáveis e sumia por longos períodos, metido com sabe-se-lá-o-quê, e que trouxeram conflitos para a sua consciência. Em encontros e conversas com Monteiro Rossi e Marta, padre Antônio, o garçom Manoel, o diretor do jornal, uma senhora judia no trem, a zeladora do prédio e o médico Dr Cardoso, Pereira vai se dando conta que há mudanças em seu mundo interior, assim como o mundo exterior muda e fica mais perigoso.

Entre irônica e melancólica, a trajetória de Pereira para abraçar seu novo ‘eu hegemônico’ é uma história de autoafirmação, que surge de um embate (ou seria uma fusão?) entre o íntimo e o político[2]. Pereira faz (ou é instado a fazer) um movimento de deixar a sua pálida zona de conforto para descobrir ou exercitar uma coragem que nem sabia que existia em si e que mobiliza uma energia vital.

O ponto de vista narrativo é uma questão central na obra: é uma narração em terceira pessoa e o narrador está registrando um depoimento do personagem. Uma alternativa de interpretação, como desdobramento do universo ficcional da história, é que Pereira está prestando esclarecimentos a alguma autoridade no exílio ou mesmo que foi capturado pelo regime salazarista e está tendo que se explicar. A alternativa que me agrada mais é a que nos induz a nota do autor no início do livro: ele, Tabucchi, está emprestando o seu ouvido e sua pena ao personagem que pediu para ser contado, solicitou que seus atos, suas motivações, suas dúvidas, sua transformação fossem registrados para que outros fiquem sabendo.

Naquela época, ele ainda não se chamava Pereira, ainda não tinha traços definidos, era algo vago, fugidio e indistinto, mas já tinha vontade de ser protagonista de um livro. Era apenas um personagem à procura de autor. [...]. Naquela noite de setembro, compreendi vagamente que uma alma, que vagava no espaço do éter, precisava de mim para se narrar, para descrever uma escolha, um tormento, uma vida.(Tabucchi)

Esse recurso narrativo produz várias passagens interessantes no texto. O narrador não sabe tudo de Pereira, só o que ele decide contar. Pereira não considera que sua infância, seus sonhos ou algumas lembranças da juventude precisem ser comentadas com o narrador, já que não guardam interesse para a história que ele quer contar. É o personagem que conduz a narrativa.

A escolha do verbo afirmar traz ambiguidades de sentido para a obra. Primeiro, além de asseverar algo, exime o narrador da responsabilidade sobre o que está sendo narrado, simulando um distanciamento entre narrador e personagem, dando objetividade à narrativa. Segundo, num sentido mais metafórico, diz respeito à tomada de posição, à necessidade de Pereira se afirmar quanto ao contexto político que vivenciava. (Vargas, S.L., 2018[3])

Outro recurso interessante que o autor emprega é a gradual construção do personagem e de seu ambiente emocional a partir de detalhes do ambiente físico: seus incômodos físicos com o calor e com seu corpo e suas obsessões alimentares (limonadas e omeletes) e atenção aos cheiros (fedor de fritura da zeladora) são bastante reiteradas no início do texto, e ao longo de suas transformações internas, vão aparecendo também de outras formas com novos elementos (limonada sem açúcar, salada de peixe,...).

Tabucchi escreveu esse livro no início do período Berlusconi. Estaria o autor também em um processo de reconstrução de identidade e o fez através do Pereira? Na Itália, durante a campanha eleitoral, a oposição contra o polêmico magnata da comunicação (??!!) agregou-se em torno deste livro. O protagonista desse romance tornou-se um símbolo da defesa da liberdade de informação para os adversários políticos de todos os regimes antidemocráticos. Memórias, testemunho de um ser ficcional, mas que é também canal de expressão de uma confederação de almas que lidaram e ainda vão lidar com sociedades autoritárias. A atualidade da obra é incontestável, afirmamos nós.

 "As dúvidas são como manchas na camisa lavadas branco. A tarefa de cada escritor e de cada homem de letras é instalar dúvidas para a perfeição, porque perfeição gera ideologias, ditadores e ideias totalitárias. Democracia não é um estado de perfeição". (Tabucchi, 1999)

 

Entrevista 2002

https://anabelamotaribeiro.pt/antonio-tabucchi-57601

"Há uma coisa que aparece sublinearmente em todos os livros, e no «Afirma Pereira» chama-se «Confederação das Almas», que vai ao encontro desse ser plural. A «Confederação das Almas», elaborada pelos chamados Médicos Filósofos, implica vários eus e um eu hegemónico numa determinada altura da vida. Esta descoberta, que encaixa também no arquétipo do Pessoa, é anterior a Pessoa para si?

·       Essa sugestão vem antes do conhecimento do Pessoa. Vem, sobretudo, com o Pirandello. Quando descobri o Pirandello, vírgula, sem o descobrir, vírgula, foi no liceu. Era uma leitura obrigatória. Mas logo a seguir, no intervalo que tive entre o liceu e a universidade, senti o desejo e a curiosidade de descobrir certas coisas e de reler certos autores, entre os quais o Pirandello. A partir daí as descobertas foram por analogias. Foram as leituras de uma analogia que me parece muito importante no século XX na literatura, na filosofia, na psicologia: a psicanálise. A descoberta que a alma cristã, que é o arquétipo, não é una e indivisível, mas que o homem tem dentro de si quase um exército que constitui nesta multiplicidade uma especificidade e unidade que é aquela pessoa. Isto passa-se com o Pirandello, com o Pessoa, com o Unamuno, com o Freud, enfim, com uma grande parte da grande literatura do século XX."

 

Entrevista 2006:

http://www.publico.pt/Cultura/este-foi-o-livro-que-me-custou-mais-escrever---1539336?all=1

Andei sobretudo a pensar numa coisa que me interessava e interessa muitíssimo: a voz. A voz humana. O conflito, simbólico, entre a voz e a escrita.

No livro, contraria a ideia feita de que às palavras, leva-as o vento. Pelo contrário, diz: “verba manent”, as palavras ficam…

 "Eu queria escrever um livro em que o estatuto da voz fosse maior do que o estatuto da escrita. A voz é um fundamento da nossa civilização ocidental. Ela gozou sempre de um estatuto mais importante do que a escrita. A civilização ocidental nasce com essa visão da voz fecundante, criadora. “Ao princípio era o verbo.” O mais antigo dos mitos gregos, o mito órfico, atribui um poder à voz que nunca foi atribuído à escrita. Orfeu canta. E quando ele canta, diz o mito, as árvores inclinam-se e as feras amansam. Graças à potência da voz, ele pode sossegar, tranquilizar, convencer os monstros dos infernos e recuperar o cadáver. A ideia da ressurreição é atribuída ao poder da voz, nunca ao da escrita. Os que escrevem, são os escribas. Cristo não tinha bibliotecas, dizia Fernando Pessoa…Cristo não escreve. Cristo fala, são os outros que escrevem. E aí há esta pequena arrogância de Tristano, que diz ao escritor: tu és o escriba, eu sou a voz. Por que é que a voz é mais importante? Porque é orgânica, biológica. A escrita não é biológica, é mineral.

Mas é através da escrita que a voz permanece. Diz-se que, mais do que as palavras, contam os nossos actos. Ao privilegiar a voz do protagonista, dá-se-lhe a possibilidade de ele compor a vida à maneira que mais lhe convém, reescrevendo a história. Qual será a versão mais verdadeira?

Eu pus em exórdio o verso de Paulo Celan: “Quem testemunha pela testemunha?” O jogo poderia ser este: há uma voz que fala; um ouvido e um escritor que transcreve, à sua maneira, com as suas palavras (e escrever com as suas palavras já significa modificar); o qual passa a um terceiro, que sou eu, com o meu nome escrito aqui [no frontispício do livro], que escrevo verdadeiramente. Neste trânsito da verdade, há o facto de que, se calhar, a verdade é múltipla."

 



[1] https://www1.folha.uol.com.br/fsp/1994/11/23/ilustrada/18.html

[2]  Camassa, J. B. de O. (2017). Romance de uma (auto)afirmação: o íntimo e o político em Afirma Pereira, de Antonio Tabucchi. Primeiros Escritos8(1), 217-227. https://doi.org/10.11606/issn.2594-5920.primeirosestudos.2017.136817

[3] VARGAS, S. L. . Pós-modernismo e identidade em Afirma Pereira, de Antônio Tabucchi. Revista Letras Raras, Campina Grande, v. 7, n. 1, p. 58–74, 2023. Disponível em: https://revistas.editora.ufcg.edu.br/index.php/RLR/article/view/1561. Acesso em: 16 fev. 2025.

Nenhum comentário:

Postar um comentário