Antonio Tabucchi (1943-2012) foi um renomado escritor, tradutor, crítico literário e acadêmico italiano, conhecido por sua vasta obra literária que explora temas como a reconstrução da identidade, a memória e a realidade. Tabucchi foi um apaixonado estudioso da literatura portuguesa, traduzindo para o italiano diversas obras de Fernando Pessoa, Carlos Drummond de Andrade e outros autores lusófonos. Sua paixão por Portugal levou-o a viver em Lisboa por longos períodos, casado com uma portuguesa.
"Afirma Pereira – um testemunho" (Sostiene Pereira: uma testimonianza, no original; Pereira Maintains/Declares, em inglês), publicado originalmente em 1994, é uma de suas obras mais aclamadas, vencedor dos Prêmios Super Campiello, Scanno e Jean Monnet de Literatura Europeia. A obra foi transformada em filme em 1995, apresentando Marcello Mastroianni em uma das suas últimas grandes interpretações. Mastroianni disse ter se apaixonado pelo personagem[1]. "Principalmente por sua transformação e pela forma quase poética como ela acontece. Ele começa a conhecer pessoas e vai descobrindo que vivia de uma forma que não era normal, à parte. Toma consciência de que vive em um mundo perigoso, mas ao descobrir o mundo ele renasce".
Há ainda uma adaptação da obra para HQ, feita pelo francês
Pierre-Henry Gomont em 2016.
O jornalista Pereira é viúvo, vive sozinho e é diretor da
página de cultura de um pequeno jornal, no centro velho da Lisboa de 1938. No
verão quente de Lisboa, transitando entre a Rua das Saudades, a Praça da
Alegria e a Rua da Liberdade, Pereira reflete sobre a morte enquanto consome
limonadas e omeletes com ervas no Café Orquídea, e à noite conversa com o
retrato da falecida e pensa como seria a vida se tivessem tido um filho.
Percebe que o autoritarismo do regime salazarista vai se
infiltrando devagar na vida portuguesa, ouve notícias sobre a guerra civil
espanhola e outros movimentos na Itália e Alemanha, mas procura não se envolver
e ocupar-se da tradução de contos de seus escritores franceses preferidos.
Pereira não sabe explicar direito o motivo que o levou a
contratar e sustentar um estagiário com nome italiano e uma bela namorada, que
só produzia necrológios impublicáveis e sumia por longos períodos, metido com
sabe-se-lá-o-quê, e que trouxeram conflitos para a sua consciência. Em
encontros e conversas com Monteiro Rossi e Marta, padre Antônio, o garçom
Manoel, o diretor do jornal, uma senhora judia no trem, a zeladora do prédio e
o médico Dr Cardoso, Pereira vai se dando conta que há mudanças em seu mundo
interior, assim como o mundo exterior muda e fica mais perigoso.
Entre irônica e melancólica, a trajetória de Pereira para
abraçar seu novo ‘eu hegemônico’ é uma história de autoafirmação, que surge de
um embate (ou seria uma fusão?) entre o íntimo e o político[2].
Pereira faz (ou é instado a fazer) um movimento de deixar a sua pálida zona de
conforto para descobrir ou exercitar uma coragem que nem sabia que existia em
si e que mobiliza uma energia vital.
O ponto de vista narrativo é uma questão central na obra: é
uma narração em terceira pessoa e o narrador está registrando um depoimento do
personagem. Uma alternativa de interpretação, como desdobramento do universo
ficcional da história, é que Pereira está prestando esclarecimentos a alguma
autoridade no exílio ou mesmo que foi capturado pelo regime salazarista e está
tendo que se explicar. A alternativa que me agrada mais é a que nos induz a
nota do autor no início do livro: ele, Tabucchi, está emprestando o seu ouvido
e sua pena ao personagem que pediu para ser contado, solicitou que seus atos,
suas motivações, suas dúvidas, sua transformação fossem registrados para que
outros fiquem sabendo.
Naquela época, ele ainda não
se chamava Pereira, ainda não tinha traços definidos, era algo vago, fugidio e
indistinto, mas já tinha vontade de ser protagonista de um livro. Era apenas um
personagem à procura de autor. [...]. Naquela noite de setembro, compreendi
vagamente que uma alma, que vagava no espaço do éter, precisava de mim para se
narrar, para descrever uma escolha, um tormento, uma vida.(Tabucchi)
Esse recurso narrativo produz várias passagens interessantes
no texto. O narrador não sabe tudo de Pereira, só o que ele decide contar.
Pereira não considera que sua infância, seus sonhos ou algumas lembranças da
juventude precisem ser comentadas com o narrador, já que não guardam interesse
para a história que ele quer contar. É o personagem que conduz a narrativa.
A escolha do verbo afirmar
traz ambiguidades de sentido para a obra. Primeiro, além de asseverar algo,
exime o narrador da responsabilidade sobre o que está sendo narrado, simulando
um distanciamento entre narrador e personagem, dando objetividade à narrativa.
Segundo, num sentido mais metafórico, diz respeito à tomada de posição, à
necessidade de Pereira se afirmar quanto ao contexto político que vivenciava.
(Vargas, S.L., 2018[3])
Outro recurso interessante que o autor emprega é a gradual
construção do personagem e de seu ambiente emocional a partir de detalhes do
ambiente físico: seus incômodos físicos com o calor e com seu corpo e suas
obsessões alimentares (limonadas e omeletes) e atenção aos cheiros (fedor de
fritura da zeladora) são bastante reiteradas no início do texto, e ao longo de
suas transformações internas, vão aparecendo também de outras formas com novos
elementos (limonada sem açúcar, salada de peixe,...).
Tabucchi escreveu esse livro no início do período
Berlusconi. Estaria o autor também em um processo de reconstrução de identidade
e o fez através do Pereira? Na Itália, durante a campanha eleitoral, a oposição
contra o polêmico magnata da comunicação (??!!) agregou-se em torno deste
livro. O protagonista desse romance tornou-se um símbolo da defesa da liberdade
de informação para os adversários políticos de todos os regimes
antidemocráticos. Memórias, testemunho de um ser ficcional, mas que é também
canal de expressão de uma confederação de almas que lidaram e ainda vão lidar
com sociedades autoritárias. A atualidade da obra é incontestável, afirmamos
nós.
Entrevista 2002
https://anabelamotaribeiro.pt/antonio-tabucchi-57601
"Há uma coisa que aparece sublinearmente em todos os livros,
e no «Afirma Pereira» chama-se «Confederação das Almas», que vai ao encontro
desse ser plural. A «Confederação das Almas», elaborada pelos chamados Médicos
Filósofos, implica vários eus e um eu hegemónico numa determinada altura da
vida. Esta descoberta, que encaixa também no arquétipo do Pessoa, é anterior a
Pessoa para si?
· Essa sugestão vem antes do conhecimento do
Pessoa. Vem, sobretudo, com o Pirandello. Quando descobri o Pirandello,
vírgula, sem o descobrir, vírgula, foi no liceu. Era uma leitura obrigatória.
Mas logo a seguir, no intervalo que tive entre o liceu e a universidade, senti
o desejo e a curiosidade de descobrir certas coisas e de reler certos autores,
entre os quais o Pirandello. A partir daí as descobertas foram por analogias.
Foram as leituras de uma analogia que me parece muito importante no século XX na
literatura, na filosofia, na psicologia: a psicanálise. A descoberta que a alma
cristã, que é o arquétipo, não é una e indivisível, mas que o homem tem dentro
de si quase um exército que constitui nesta multiplicidade uma especificidade e
unidade que é aquela pessoa. Isto passa-se com o Pirandello, com o Pessoa, com
o Unamuno, com o Freud, enfim, com uma grande parte da grande literatura do
século XX."
Entrevista 2006:
http://www.publico.pt/Cultura/este-foi-o-livro-que-me-custou-mais-escrever---1539336?all=1
Andei sobretudo a pensar numa coisa que me interessava e
interessa muitíssimo: a voz. A voz humana. O conflito, simbólico, entre a voz e
a escrita.
No livro, contraria a ideia feita de que às palavras,
leva-as o vento. Pelo contrário, diz: “verba manent”, as palavras ficam…
Mas é através da escrita que a voz permanece. Diz-se que,
mais do que as palavras, contam os nossos actos. Ao privilegiar a voz do
protagonista, dá-se-lhe a possibilidade de ele compor a vida à maneira que mais
lhe convém, reescrevendo a história. Qual será a versão mais verdadeira?
Eu pus em exórdio o verso de Paulo Celan: “Quem testemunha
pela testemunha?” O jogo poderia ser este: há uma voz que fala; um ouvido e um
escritor que transcreve, à sua maneira, com as suas palavras (e escrever com as
suas palavras já significa modificar); o qual passa a um terceiro, que sou eu,
com o meu nome escrito aqui [no frontispício do livro], que escrevo
verdadeiramente. Neste trânsito da verdade, há o facto de que, se calhar, a
verdade é múltipla."
[1] https://www1.folha.uol.com.br/fsp/1994/11/23/ilustrada/18.html
[2] Camassa,
J. B. de O. (2017). Romance de uma (auto)afirmação: o íntimo e o político em
Afirma Pereira, de Antonio Tabucchi. Primeiros Escritos, 8(1),
217-227. https://doi.org/10.11606/issn.2594-5920.primeirosestudos.2017.136817
[3] VARGAS,
S. L. . Pós-modernismo e identidade em Afirma Pereira, de Antônio
Tabucchi. Revista Letras Raras, Campina Grande, v. 7, n. 1, p.
58–74, 2023. Disponível em:
https://revistas.editora.ufcg.edu.br/index.php/RLR/article/view/1561. Acesso
em: 16 fev. 2025.

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