quinta-feira, 12 de julho de 2012

MONSIEUR PAIN


de Roberto Bolaño
Editora: Companhia das Letras

em 25 de junho de 2012
Por Maria Virginia de Vasconcellos

O que dizer do Monsieur Pein? Um tipo maçante, a meu ver. Embora bem caracterizado.
Mas, todo o livro me pareceu enfadonho tanto no estilo como no conteúdo.
( Perdoem os que gostarem; mas verdade é que algo fascinante para alguém pode ser o máximo de tédio para outro leitor).

O personagem me fez lembrar a canção de Geraldo Azevedo chamada “Na primeira manhã que te perdi”: o Monsieur Pein se assemelha a um “conde falando aos passarinhos, a um bumba meu boi sem capitão, desatinado – cruzando ruas, estradas e caminhos, como um carro correndo em contramão, como um boi perdido na multidão.
Como um caco gemendo no porão. Lamento noturno dos viúvos. Solidão.”

Apresenta uma solidão sem fim, um comportamento obsessivo e sem rumo.

A música nordestina é linda e me comoveu desde a primeira vez que ouvi.
Diferentemente, não me identifiquei com o personagem destaque do livro.

Além disso, os detalhes me foram cansativos, os relatos longos e inócuos – melhor dizendo, sem sabor e sem cor.

A narrativa, dita policialesca, foi se arrastando sem surpresas e,  a meu ver, chegou a lugar nenhum.
Qual a mensagem do livro? Divulgação do mesmerismo? Não parece.  Pergunta central? Fico pobre de respostas, sem asas na imaginação e sem interpretações que me enriqueçam.
Para mim, a estória foi tão aborrecida que nem percebi qualidades.
De fato, já nem me lembro do que li e o que li nem me suscitou comentários entusiáticos ou conversas com amigos.

Conclusão: não recomendaria o livro – Não recomendaria - com todas as letras. Sem concessão.
NÃO RECOMENDADO. PONTO FINAL.


quarta-feira, 11 de julho de 2012

Monsieur Pain

de Roberto Bolaño

por Beth Eloy

Fui tomada por sentimentos ambíguos durante a leitura do livro Monsieur Pain, de Roberto Bolãno. Apreciei a técnica narrativa nos transportando a uma rede de mistérios, nos quais sonhos, cenas de filme e caminhos labirínticos ocupam o mesmo espaço. Me senti confusa com essa profusão de mistérios que forma inseridos na tama, mesclando fatos reais e outros ficcionais.
A narrativa, mesmo precisa, talvez aí resida uma grande capacidade do autor, se perdeu num labirinto ocultista e investigativo, onde personagens vão sendo introduzidos na trama sem que fique claro o que é sonho, conspiração, perseguição ou psicose.    

1 - O personagem

O narrador e personagem principal, Pierre Pain, é um pacato e inofensivo francês, temeroso, fraco, enfrentando forças obscuras e potências que ficam muito além do seu entendimento.
Salta entre pensamentos filosóficos, terrores noturnos, sonhos, premonições sempre acompanhado de personagens que aparecem e somem da trama e de outros que aparecem fruto da fantasia e solidão do personagem que o apoiam  no difuso mistério que envolve médicos, hospital, mundo esotéico, guerra e conspirações políticas.
Tudo no romance é ambíguo e suspeito: o filme, o galpão escuro, uma casa de shows, sonhos, premonições, o suicídio de Terzeff, o suborno, os espanhóis subordinadores, Vallejo, Plemeur-Bodou, figuras históricas e de existência comprovada como Pierre Curie e Irene Curie. Todas essa figuras se cruzam num itinerário criativo do autor na sua narrativa.
Nessa busca por pistas que clareassem a minha procura para tantos entendimentos e conjunções do mundo real com o imaginário eu já era uma leitora sacrificada indo para pesquisas no google para tentar respostas que dessem consistência ao meu entendimento.
Apesar da estrutura pesada do livro, dos personagens, da trama entremeada de suspense, investigação, perseguição e sonho achei a redação clara.
Não recomendaria Monsieur Pain como livro de porta de entrada de Roberto Bolãno. Talvez conhecendo mais da sua obra possa entende o sentido da literatura fantástica que me foi apresentado nesse livro.


 

terça-feira, 12 de junho de 2012

O BEST SELLER



de Olivia Goldsmith
Editora: Record, 1996 
(Tradução Alves Calado)
 por Virginia de Vasconcellos em junho de 2012
Trata-se de cinco histórias de autores de livros que num mesmo outono disputam presença na lista dos mais vendidos.  Cada história tem seu personagem principal e uma contrapartida no jogo de cena:
i)                     Camilla Clapfish (Livro: Uma semana em Florença) + Frederick
ii)                   Judith  (Livro: Em plena consciência) + Daniel que roubou a Judith- tornando-se Jude Daniel.
iii)                  Susan Baker Edmonds (…) + Edith + Alf
iv)                  Terry o`Neal (Livro: A duplicidade dos homens) + Opal + Roberta (dona da livraria)
v)                   Geraldo Och Davis (GOD) (…) + seu pai.
Pode-se acrescentar uma sexta história, a da editora Pam Mantiss, que para ganhar dinheiro planeja um livro ghost do autor morto + sua contrapartida, o escritor Stewart, o ghost do ghost,  autor contratado,  que fica revoltado após a publicação de ‘seu’ livro com nome de outro.
O universo editorial é descortinado sem pudor e apresenta-se tanto o lado bom e honesto como o feio e ruim.
Outros personagens (Craig, Emma e Alex - editores e agenciadores) são todos fortes e bem caracterizados, mas divididos de forma bem maniqueísta entre aqueles do bem (os inocentes, inseguros) e os do mal (personalidades sórdidas), sem meio termo. O eterno dilema dual entre o bem e o mal continua sendo atrativo.
Os cenários são bem descritos, com detalhes extremosos sobre os quartos de hotéis, paisagens, varandas, móveis, roupas e ambiente em geral.
A trama e o senso de humor prendem o leitor durante um longo tempo até o momento em que a autora parece se cansar de seus personagens e finaliza de forma abrupta a narrativa: literalmente `sumindo` com a Pam, matando GOD e juntando num mesmo grupo os bonzinhos. Neste ponto, os “merecedores” de felicidade se entrelaçam em casos amorosos.   Não aqueles merecedores da presença nas listas de mais vendidos – listas estas sujeitas a todo tipo de manipulação - mas aqueles que são destituídos de maldade.
Ao final, uma decepção: happy end absoluto porque todos os personagens malignos são castigados impiedosamente, enquanto aqueles confiáveis e bonzinhos são beneficiados com sucesso e alegria.
Na página 400 deste livro há uma citação interessante: “Há uma diferença enorme entre ser um critico ou um resenhista. O resenhista reage à experiência do livro” (Cristopher Lehman-Haupt). Pois nesse sentido, estes meus comentários são próprios de um Resenhista e jamais de um crítico. Minhas reações como comentarista foram de simpatia pelo livro que a meu ver é muito recomendado
Vale acrescentar um comentário sobre o filme israelense “AVIVA, meu amor”, vitorioso de vários prêmios na Polônia e em outros países. Com a mesma força, esse filme apresenta o tema relacionado à história de Jude & Daniel e Pam & Stewart, da nossa autora Goldsmith:  AVIVA, o personagem destaque do filme, é também autora, de contos que são hipocritamente roubados por um antigo e notório escritor-Professor que se encontra sem inspiração para novos livros. Ela vende os contos por necessidade desesperadora de dinheiro e quando são publicados com nome do Professor, toda a sua família descobre e faz com que ela desperte seu sonho e tenha arrependimento pelo seu ato. Ela sabe que já é tarde, pois assinou contrato cedendo ao Professor seus escritos, mas vai pedir o resto ainda não publicado  mesmo considerando que estes nunca deverão ser reconhecidos por editoras.
A presença desta temática, tanto na literatura como no cinema, nos leva a acreditar numa realidade hipócrita no mundo editorial. Esse cenário de escritores iniciantes mostra um calvário com caminhos espinhosos; e a obtenção de publicação pode ocorrer muito mais pelo valor comercial, pela sorte e/ou por meio de relacionamento -  do que por um verdadeiro talento. (assim como acontece algumas vezes em outras áreas profissionais) .
     RESENHA-BESTSELLER.22maio2012.doc




quarta-feira, 9 de maio de 2012

Órfãos do Eldorado

de Milton Hatoum

Companhia das Letras, 2008


por Daniela Lopes

Primeiro contato com o texto do Milton Hatoum. História comprida, de frases curtas, ‘falada’ em primeira pessoa. É a história de vida do narrador, Arminto Cordovil, prisioneiro de sua cidade amazônica e de suas paixões. Narrativa colorida de mitos, árvores, pássaros e cheiros da região.

‘Órfãos do Eldorado’ se passa no início do século passado, no interior da região amazônica, nos arredores de Manaus, onde também nasceu e viveu parte de sua vida o autor, Milton Hatoum. O mito da Cidade Encantada ou Eldorado, que atiçava tanto europeus em busca de ouro, quanto os selvagens, em busca de beleza, liberdade e harmonia em uma cidade submersa, é o pano de fundo desta narrativa. Violência, ódios, culpa, ciúmes e desejos também são personagens principais, como em toda boa história, seja na literatura como na vida.

Arminto Cordovil, neto e filho de figuras proeminentes na sociedade local, nasceu e cresceu ouvindo os mitos dos povos da região, incorporados naturalmente em sua linguagem e visão de mundo. A mãe morreu ao pari-lo, o que trouxe para sua vida culpa e o ódio que o pai lhe tinha. Totalmente órfão aos vinte e poucos anos, sem ter se reconciliado com o pai, devolveu-lhe o ódio, dilapidando a fortuna herdada. Sem rumo na vida, parece buscar sentido para a existência na paixão e obsessão de vida inteira por Dinaura, mulher selvagem, de uma inconstância, mistério e silêncio que intrigam e capturam a alma de Arminto.

A história vai e vem no tempo, mareando a gente com as frases curtas, o que reforça a oralidade da narrativa. Os personagens ao redor de Arminto, seu pai, Dinaura, Florita, Estiliano, a madre espanhola, são apresentados apenas da ótica do contador, que muitas vezes não consegue perceber suas motivações ou sentimentos. 
‘A gente quer entender uma pessoa, só encontra silêncio’. 

Já se disse que os seres humanos sempre foram criadores de mitos, os quais nos auxiliam a lidar com as dificuldades, angústias e incertezas, ampliam os horizontes e promovem o reequilíbrio do homem. Ajudam a lidar com o horror, crueza, violência e falta de significado da vida. A mente humana sai em busca de significados, ela só consegue funcionar se conhecer (ou inventar) um conjunto de regras (Campbell, 2008). No caso desta narrativa, as lendas que o narrador ouvia do povo parecem ser a forma como se lida, ali, com a violência dos desejos do corpo (que não poupa nem brancos nem índios), com as perdas da vida, com as injustiças sociais, com os desmandos do poder. Alguns lidam, alguns fogem da vida, como a índia que se suicida carregada para o fundo das águas, ou como Dinaura, que foge de não-sei-o-quê indo viver no Eldorado de uma colônia de leprosos.

Arminto não foge, fica. Fica esperando a fortuna acabar, fica esperando Dinaura voltar, fica esperando a morte chegar, de mãos dadas com as lembranças do seu mito particular e com as raízes fincadas na sua cidade. 
‘Espero o macucauá cantar no fim da tarde. Ouve só esse canto. Aí nossa noite começa.’

*** 

terça-feira, 8 de maio de 2012

Órfãos do Eldorado

de Milton Hatoum
Editora Schwarck Ltda, 2008


Por Maria Virginia de Vasconcellos
Maio de 2012

Apreciei muitíssimo o texto e considerei o livro super inteligente.
Porque? A primeiríssima qualidade que me agradou foi o estilo. Frases curtas.
Fala pouco e diz muito em 104 páginas. Lê-se como se ouvíssemos estórias ao pé do fogo: conta-se tudo rapidamente para ninguém dormir.

(o oposto das frases super-elaboradas da Muriel Barbery de “Elegância do Ouriço” que acabamos de ler)

É de uma concisão admirável. Toca em diversos temas de forma rápida. Se bem que se aproveita desse estilo para deixar na mente do leitor o papel de terminar a narrativa. Em vários pontos deixa em aberto a interpretação. Confunde-se, portanto, a realidade com os vários mitos mencionados e intercalados ao texto. E o leitor com sua própria visão deve construir sua própria crença.

É também uma ode a Manaus antiga, ao Amazonas às suas lendas e mitos. Tudo parece quimérico, rápido, nesta terra e nesta história que tão bem retrata a vida como ela é: um piscar de olhos em 104 páginas.

O Arminto Cordovil é o anti-herói lúcido sobre a realidade, sobre a verdadeira figura do pai. Pois este pai, sobre a máscara de homem generoso é, na verdade, um sonegador, corrupto, que se aproveita da lassidão das leis, das instituições nacionais neste local e nesta época da exploração da borracha.

Arminto é lúcido sobre o pai, embora completamente perdido na busca insana pelo seu amor Dinaura, um sonho fugidio que tem um final misterioso. No último momento do pseudo encontro entre os dois, tudo permanece vago e cenários são apenas sugeridos. Mesmo assim, o autor lembra que “Arminto está muito mais vivo”. O poder da mente, da crença infinita,  revela a vida de Arminto como se fosse mais um mito. Para o personagem deve existir uma explicação, construída na sua mente. O leitor pode dar asas à imaginação.

Com o desfecho ambíguo, quem termina a obra é você.

Por Maria Virginia de Vasconcellos

terça-feira, 10 de abril de 2012

A Elegância do Ouriço

de Muriel Barbery
por Claudine Duarte

          A elegância do ouriço, de Muriel Barbery, não é um livro que eu compraria. Ganhei de uma prima há quase 2 anos e, apesar de suas expressivas recomendações, o exemplar ficou na prateleira do ‘talvez-algum-dia’. Agora que li, não recomendaria. (Juro que esta rima não foi proposital) Achei o livro maçante... A voz da escritora está em tudo e em todos vomitando filosofia de uma forma cansativa.
        7, Rue de Grenelle, Paris: um edifício de 6 andares com a autora morando na Portaria e acima.
          O livro é narrado, alternadamente, pela zeladora do prédio – uma cinquentona – e por uma adolescente. Descrevendo o cotidiano e, supostamente por pontos de vista paralelos, “pensamentos profundos” e “movimentos do mundo”. São poucas as cenas, excesso de seqüelas e sem trama identificável.
           A idéia da “invisibilidade” e do não se mostrar aos outros considerei um exercício de apologia à inteligência e cultura dentro de uma redoma de arrogância. A garota é a autora criança, a zeladora, a autora nos seus 50 e, não bastasse: chega o senhor Ozu como um brilhante ser masculino (também da autora) para completar a família.
          O engraçado é que a autora teve que matar o crítico de gastronomia, personagem de seu livro anterior, para dar espaço ao senhor Ozu. (Sem problemas, até porque o título traduzido é A Morte do Gourmet e parece extremamente chato também)
       No A elegância do ouriço, temos encontros ingênuos e inverossímeis entre as 3 versões da autora. Penso que se o livro se concentrasse apenas nos diários e nos pensamentos profundos talvez pudesse ficar interessante...
          A narrativa – estranha e aborrecida – privilegia cenas dispensáveis, como a da visita do jovem Arthens procurando o nome de uma flor, e passa correndo pela “catarse” de Renée ‘segurando as mãos de Paloma’. Isso, pra não falar da narração da própria morte... é necessário ser um Mestre-nas-Artes-da-Escrita pra bancar uma cena destas. E a jovem suicida que vira fofoqueira e desiste de queimar tudo para “perseguir os sempres no nunca”?
          No entanto, aprendi palavras novas: forclusão, melopéia e nimbado.... “Googlei” para ver o quadro do Pieter Claesz, ouvir o lamento de Dido e ler trechos relacionados ao texto O porco-espinho e a raposa: um ensaio sobre a visão da historia de Tolstoi, do filósofo Isaiah Berlin.
          A escritora é professora de filosofia e pode ter se inspirado naquele trabalho e na citação de um poeta grego: “A raposa sabe muitas coisas, mas o porco-espinho sabe apenas uma e grandiosa coisa”. — oh, those philosophical French!*
Gostei de conhecer o ensaio e sua classificação de escritores e pensadores, ou mesmo das pessoas em Raposas e “Ouriços”. Recomendo: http://en.wikipedia.org/wiki/The_Hedgehog_and_the_Fox
 
       Para quem ainda não assistiu, vale o interessante trabalho de design que nos apresenta o trailer do livro: http://vimeo.com/37707852
      E mais, considero importante partilhar outros pontos de vista sobre o livro, existem vários bem positivos, tais como : http://peregrinacultural.wordpress.com/2008/07/08/a-elegancia-do-ourico-muriel-barbery
           Com abraços, vale ainda uma visita ao link de resenha que inclui o trailer do filme: http://queromoraremumalivraria.blogspot.com.br/2010/05/elegancia-do-ourico-trailer-do-filme.html


* da crítica do NYTimes, of course! http://www.nytimes.com/2008/09/07/books/review/James-t.html

A Elegância do Ouriço

de Muriel Barbery
Companhia das Letras- 2006

COMENTÁRIOS por Maria Virginia de Vasconcellos
Brasília, abril de 2012

Parte I
Resisti a escrever estas palavras que volteavam pela minha cabeça até ler a página 164 do livro da Muriel Barbery. Foi nessa página que me defrontei com a visão da própria autora sobre texto literário:
“é para ser lido e provocar emoções no leitor” - a pergunta chave é “gostaram deste texto?”

Pois então: no meio do livro decidi começar a dizer se gostei do texto.

Já de início, notei um quê de dissertação acadêmica com dezenas de citações e menções de outros autores, artistas, filmes e personagens da literatura, num tom meio professoral. Cacoete de professora universitária, pensei com meus botões. Pode até parecer ok dissertar sobre fenomenologia, considerando que a autora lecionou filosofia. Mas, para mim foi enjoado. (Não esta buscando isso no livro). Mais enjoado ainda foi apresentar um veredicto apressado sobre Marx: me trouxe uma emoção irritante (lembrando que sou Socióloga de primeira formação).

Por outro lado, temos o senso de humor. Huumm... O humor que se pretende no texto não faz meu gênero: é mais jogo de palavras do que relatos de fatos anedóticos... Trabalha-se muito com estereótipos e imagens preconcebidas: “quem gosta de açúcar mascavo é gente de esquerda”, “cão tal é para classe social xis”, “concierge tem que ser percebida assim”... e por aí vai...

Até a página 164, portanto, as emoções que o texto me causou foram meio de ‘enjoança’, para usar um bom mineirês... um misto de ‘resistência’ à leitura associada a certa ‘preguiça’...(Consequência: quase sempre tinha vontade de voltar ao Agosto de Rubem Fonseca).

E mais ainda: não curto descrição de animais domésticos desde que saí da fazenda aos oito anos de idade. Veja bem: como não sou politicamente correta neste quesito, as muitas descrições de cachorros e gatos  não me trazem sentimentos de sonhos e emoções intrigantes. (Consequência: neste tema saltei parágrafos inteiros na leitura...)

Por último, comento o estilo: 
“O feliz parêntese aberto na crueza do mundo pela camélia sobre o musgo do templo fechou-se sem esperança, e a negrura de todas essas quedas corrói meu coração amargo” (Pag. 112)
Ai! que frase mais enjoada. Diz a autora que: “Pobre de espírito quem não conhece a trama nem a beleza da língua” (pag. 170). Pois é. Eu me sinto taxada como uma pobre de espírito, mas continuo a ler.

Aspectos positivos:
Gostei mais dos “Pensamentos Profundos” e dos “Diários do Movimento do Mundo” – especialmente, quando expressam a falta de sentido da vida, a visão nihilista da existência...vindos de um personagem de apenas 12 anos. Sai do estereótipo...

Bom. Agora apareceu o OZU.
Será que a chegada do OZU, outro estereótipo acabado de japonês, oriental, rico e inteligente vai me trazer emoções novas??? É a grande expectativa.

PAUSA – Parte II
Comentário final:
Sim. A ‘pegada’ desse livro, para mim, veio com a chegada do OZU. Foi seu personagem e sua atuação que modificou a vizinhança, alterou a Sra. Michel, e a mim como leitor. Provocou a curiosidade pelo próximo capítulo. E, por último, valeu a pena o final da história que por ser imprevisto, fechou bem a narrativa. Foi um fechamento real, que encaixou com os comentários filosóficos sobre o tempo e a vida, da qual faz parte a própria morte.

Afinal o livro valeu a pena. Recomendaria, mas com restrições.

quinta-feira, 15 de março de 2012

Terra Sonâmbula


de Mia Couto

por Beth Eloy

O que é o realismo maravilhoso?

No início do século XX, surgiu, na Alemanha, um novo termo que visava designar a nova tendência pictural do período entre as duas Grandes Guerras, o realismo mágico.

Após devastação causada pela Primeira Guerra Mundial, os artistas deste país tentaram, através da pintura, manifestar-se contra a degradação e a miséria em que o país se encontrava. Esta tendência expandiu-se ao resto da Europa, e em alguns países, passou do domínio da pintura para o domínio literário.

Este termo foi posteriormente adaptado à realidade latino-americana, surgindo nas décadas de 30 e 40, um outro termo designado real maravilhoso.
Autores como Gabriel Garcia Marques e Isabel Allende, são qualificados como sendo mágico realistas, colaborando assim, com a presença do realismo mágico na América Latina.

Um dos temas predominantes do real maravilhoso é a afirmação cultural e identidária do continente. Neste sentido, este caráter reivindicativo e cultural, que visava a afirmação da identidade latino-americana, tornou-se não só um meio de distinção face às culturas mundiais, mas também num exemplo a ser seguido por outras culturas com a mesma ambição.

Tal como o continente latino-americano, também o continente africano é marcado pelo exotismo da sua cultura, pelo respeito da tradição aos antepassados e pela forte presença religiosa do cotidiano. Todos esses elementos estão presentes na produção literária africana de expressão portuguesa. Nesse contexto encontra-se Mia Couto.

Através da sua obra, este autor vem contribuindo, grandemente, para a busca da identidade de Moçambique, refletindo sobre a influência da cultura portuguêsa durante a ocupação dos colonizadores e o mísero estado em que o país ficou após a guerra colonial e a guerra interna que devastaram Moçambique.

1 – Qual o tema do livro?

Conta a história de personagens como Tuahir, Muidinga e Kindzu que fogem das atrocidades da guerra, tentando sobreviver e encontrar um rumo para as suas vidas. A fuga dos horrores só é possível através da evasão e do sonho dos personagens.

2 – Qual a premissa central do livro?

Pela voz do narrador é dado o conhecimento ao leitor da interação entre dois mundos aparentemente distintos: o mundo real e o mundo maravilhoso ( o sonho). O narrador relata os efeitos da guerra e da destruição do país, mas também foca a capacidade dos personagens de sonhar. E será por essa capacidade de evadir e sonhar que os personagens sobrevivem ao caos instalado no país e ao estado letárgico que se encontram.
Neste contexto, são apresentados dois personagens centrais no livro : um velho chamado Tuahir e um miúdo a quem o velho chamava de Muidinga.

Pela voz de Muidinga, surge Kindzu, autor dos cadernos, que narra sua vida, desde sua infância até o momento da sua morte.

Ao longo dos capítulos vão sendo narrados acontecimentos do contexto em que vivem, um cenário de pobreza, degradação e vazio em função da guerra e do imaginário africano. Essa é a forma que o autor utilizou para promover a consciência cultural, evidenciando temas da cultura africana.

É utilizada uma linguagem poética para fazer a narrativa da estória. Pelo que pesquisei sobre o Mia Couto essa é uma forma de linguagem que ele utiliza para contar suas estórias, talvez como recurso para amenizar o sofrimento causado pelas guerras.

3 – Existe alguma mensagem subjacente?

É a história do povo moçambicano, suas aventuras, sofrimentos e uma crítica à guerra civil, a dor e a devastação por ela causada.

Fala de Tuahir: “ Foi o que fez a esta guerra: agora todos estamos sozinhos, mortos e vivos. Agora já não há mais pais”.

4 - A estória é bem desenvolvida?

A estória é desenvolvida em dois planos: o primeiro, narra a história de Tuahir e Muidinga em sua luta diária pela sobrevivência; o segundo, é a história de Kindzu contada por ele mesmo em seus cadernos. A partir do momento que Muidinga começa a ler os cadernos, as narrativas vão se intercalando ( às vezes tive que voltar para recuperar alguns personagens) até se encontrarem no final do livro, onde fica explícito que Muidinga pode ser Gaspar, o filho desaparecido de Farida.

5 – O autor se mantém na trama?

Sim. Através do uso da prosa com forte base poética. Essa foi uma característica forte na narrativa do livro.

6 – Capacidade de prender o leitor?

O autor narrou de forma “mágica” os acontecimentos e experiências dos personagens e uso de uma linguagem própria e poética. Tive em algum momento a sensação de estar lendo contos soltos. Ao fechar cada conto achava que não mais me encontraria com os personagens. Eis que de repente, eles voltam, e tive que fazer um esforço para me lembrar do contexto onde estavam inseridos. Exemplo: Surendra, Assani e Antoninho.

7 – Cria identificação do leitor com os personagens?

Sim. Mais o que mais gostei foi o uso de provérbios e expressões de fundo filosófico que me levaram a refletir sobre sonhos, lendas e feridas. Não é um livro apenas de entretenimento. É um livro de reflexão, de curiosidades. A narrativa é muito diferente o que pode fazer com que alguns leitores possam parar no meio da leitura. O próprio uso do português falado em Moçambique, pode promover questionamentos do tipo: o que estou lendo. Vale à pena continuar.

“ O que andas a fazer com um caderno, escreves o que? Nem sei pai. Escrevo conforme vou sonhando. E alguém vai ler isso? Talvez. É bom assim: ensinar alguém a sonhar” Fala de kindzu

“ O que faz andar a estrada? É o sonho. Enquanto a gente sonhar a estrada permanecerá viva. É para isso que servem os caminhos, para nos fazerem parentes do futuro” Fala de Tuhair

“ Esse é o desafio de desequilibrista – ter um pé em cada um dos mundos: o do texto e do verbo. Não se trata apenas de visitar o mundo da oralidade. É preciso deixar-se invadir e dissolver pelo universo das falas, das lendas, dos provérbios” - Mia Couto

quarta-feira, 14 de março de 2012

Terra Sonâmbula

de Mia Couto

comentários de Maria Albeti

Sobre o livro "Terra Sonâmbula".. como disse anteriormente, gostei. Não achei um livro excepcional, daqueles que você quer reler, mas deve ser indicado para outras pessoas (o que já fiz - indiquei e emprestei o livro). Gostei, principalmente, do estilo, mais do que da estória, que na minha visão deixa algumas coisas em aberto, não há um grande enredo.
Li na Folha que Mia Couto é um grande admirador de Guimarães Rosa, seu seguidor e (segundo o crítico) algumas vezes meio plageador. Sem entrar no mérito do plágio, percebe-se muita semelhança, no uso de palavras "novas", pelo menos à luz do nossa língua pátria.
De qualquer forma, me agrada MUITO ler livros escritos em Português, seja qual for o "sotaque".

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

O HIPNOTISTA

de Lars Kepler



por Ana Studart

“ O Hipnotista” é um livro policial, de suspense e ação, que aborda a questão controvertida da hipnose e seus efeitos.

O livro relata de início uma história que parece ser central, o crime na família José Elk, para depois desenvolver uma história paralela, igualmente importante, mas independente: o sequestro de Benjamim. O que interliga os dois enredos são os personagens principais: Joona e Erik.

É um livro com várias tramas de segundo plano e muitos personagens, o que obriga o leitor a voltar páginas para poder identificá-los. Alguns desses personagens poderiam ter sido eliminados, sem prejuizo algum para o livro- muito pelo contrário. Fica, inclusive, difícil de avaliar consistência da narrativa, tal a quantidade de personagens e detalhes.

"O Hipnotista" apresenta personagens densos, de certa forma exagerados, na medida certa para as séries policiais televisivas atuais- e é possível que se transforme mesmo numa.

Apreciei os capítulos curtos- como a trama é por vezes confusa, facilita a leitura. O único capítulo longo, que relembra o grupo experimental de hipnose, destoa do conjunto.

Alguns capítulos adotam a fórmula de prender o leitor deixando uma pergunta intrigante ao final, outros prosseguem a narrativa do capítulo anterior- o que não justificaria a divisão do texto. Por ter sido escrito a quatro mãos, uma pergunta se impõe: qual a divisão para a elaboração do texto? Cada autor escolheu seus personagens e os desenvolveu? Ou cada um adotou uma das duas tramas conjugadas do livro para produzir? É possível que a grande quantidade de personagens, fatos e as tramas paralelas, que muitas vezes confundem o leitor, seja devida a esse fato?

Quanto à construção dos personagens principais:

- Joona é um personagem consistente e equilibrado. Sério, eficiente, é um teimoso sempre certo em suas deduções.

- Erik, apesar de ter sua personalidade construída com coerência ao longo do livro, é um personagem cansativo, sempre ingerindo uma quantidade aflitiva de pílulas. Um psiquiatra desequilibrado, impulsivo, e imaturo

- Simone é uma figura cansativa, quase histérica. Permanece casada com o marido que a traiu dez anos antes, sem perdoá-lo. Acusa Erik na relação com o filho, mas quem cuida dele primorosamente é o pai

- O personagem mais agradável é o pai de Simone, Kennet, policial aposentado. Ele trouxe coerência à busca do neto, para alívio dos leitores. E deu mais consistência à história, embora sua participação no enredo aconteça mais perto do desfecho.

- Josef Elk nâo convence totalmente como personagem. Sua agressividade, maldade e força física não combinam com a franzinice descrita. Os ferimentos que produziu em si mesmo não ficam bem esclarecidos no livro. Mas a fixaçāo dele na irmã é bem construída, com boa montagem da trama entre os dois

-Eva Blau tem uma personalidade bem consistente. Sua paranóia, taras e sexualidade são superlatives

- Lydia é também uma figura densa. Dominadora, é a personagem mais perturbadora e assustadora do livro.

Quanto à apresentação, a capa de “ O Hpnotista” é perfeita, por definir a tesoura ( que no enredo cortará narinas) como central para a trama.

“O Hipnotista” é um livro para ser lido com tempo e atenção. Não se anseia por chegar ao final- eu o li com interesse, mas sem curiosidade que se traduzisse em pressa na leitura. Mas é um bom policial- em nenhuma das duas histórias foi possível adivinhar o desfecho. O suspense é garantido.

A narrativa começa num ritmo lento e ao final se apressa para o desfecho, deixando situações mal explicadas. (Como uma criança doente, fragilizada, mal nutrida e enregelada, seria capaz de resgatar o pai num lago congelado? Ou fazer funcionar o motor de um ônibus sucateado e desativado em pleno inverno?). Faltou aos autores cuidado com a credibilidade, em certas passagens.

Em resumo: é uma história policial muito densa. Criativa, na sua brutalidade. Deixa alguns detalhes sem explicação plausível. Prende o leitor, mas não o suficiente para se devorar rapidamente o livro. Tem personagens e fatos que seriam dispensáveis, que dificultam a leitura e confundem, mas por outro lado, tem figuras muito fortes e bem construídas.

De um a dez, daria uma nota 7 ao “ O Hipnotista”.

Por Ana Studart