quinta-feira, 14 de março de 2013

Aqueles Cães Malditos de Arquelau

de Isaias Pessotti, 1993

 por Daniela Lopes



Na Milão do final de década de 60, um grupo de pesquisadores do Instituto Galilei explora os vilarejos da região em busca de textos antigos, movidos por doença comum, uma bibliomania crônica, e também por prazeres bem cultivados na Itália, boa comida e boa bebida. Em uma destas viagens de final de semana, descobrem, em uma villa histórica no Piemonte, tesouros literários e uma história dos ‘quattrocento’ a ser esclarecida. Quem era o bispo vermelho, personagem ainda cultuado na região e o que se passou ali naquela villa? Só o método científico não daria conta de chegar às respostas do mistério, assim os eruditos apaixonados tem que usar suas habilidades e paixões individuais, a capacidade de observação, a intuição, a obstinação e é claro, a sorte, para montar o quebra-cabeça.


Como o Renato Janine Ribeiro coloca bem no texto da orelha do livro (4ª edição, Editora 34), o romance de estréia de Isaias Pessotti, duplamente premiado com o Jabuti em 1994, trata da paixão e o conhecimento, da paixão do conhecimento, do conhecimento da paixão. É bem evidente que o livro contem elementos autobiográficos, revelando as paixões do próprio autor. O prof. Pessotti, filósofo-psicólogo, viveu e lecionou em Milão na década de 60, e embutiu nos diversos personagens do enredo o seu próprio perfil e interesses acadêmicos (epistemologia; evolução histórica de conceitos da Psicologia; a trajetória do conceito da loucura); provavelmente se deleitou com os mesmos vinhos e pratos mencionados na história, e perambulou pelas mesmas paragens do Piemonte.


A voz do autor não está só no narrador, o latinista Emilio Donatelli, que pesquisa a rota da ideia da loucura. O autor se multiplica nos seus personagens: Anna estuda a história do teatro dramático; Lorenzo Ducci é interessado na história da medicina Greco-romana; Bruno Salvadori pesquisa a história da alquimia; Isabella Pierini,a história do canto gregoriano; Beatrice Bonomi, a história do movimento muscular; Tulio é o neuropsiquiatra que estuda o conceito histórica da deficiência mental; Abelardo Pasquali pesquisa direito antigo; Mauro Adami, a psiquiatria do settecento. Todos estes personagens poderiam ser um só, já que não têm vozes narrativas individuais.


O livro dentro do livro parece estar virando um padrão dentro deste grupo de leitura: novamente temos um livro, o Commentarium, de autoria do bispo vermelho, vai revelando a paixão deste cardeal, ex-inquisidor arrependido, pelo poeta Eurípedes e suas tragédias. Os paralelos entre a vida do cardeal e do pensador grego deslocado do seu tempo desembocam na trágica coincidência na morte de ambos. Quem viu o último Tarantino, Django Livre, teve uma amostra gráfica deste horror, de causar pesadelos noturnos. Malditos Cães...


O desenrolar da história é lento, recheado de discussões histórico-filosóficas, e entremeado de cenas elegantemente descritivas (ainda que muitas vezes exaustivas). O estilo ensaístico e erudito do autor é por vezes cansativo, pois parece evidente que os diálogos e relações entre os personagens são somente um pretexto para o acadêmico desenvolver alguns temas de seu interesse e desfiar referências, de forma mais livre do que teria que fazer se fosse publicar um livro acadêmico ou artigo em periódico. Mesmo a paixão contida do tímido Emílio por Anna tem costura fraca com o enredo.


Gostei do romance, mas não é um livro que dá para recomendar livremente, é preciso conhecer bem seu interlocutor para avaliar se ele não vai se cansar pelo caminho. Não sei se encararia outro romance do autor,mas ele atiçou em mim a curiosidade sobre as tragédias de Eurípedes, ou seja, conseguiu transmitir sua paixão pelo conhecimento da paixão para esta leitora.





terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

A SOMBRA DO VENTO


de Carlos Ruiz Zafrón

por Beth Eloy

A Sombra do  Vento é um romance de Carlos Ruiz Zafón, revelação da literatura espanhola contemporânea. O seu livro, A Sombra do Vento tornou-se um sucesso de crítica e público, com mais de 6 milhões de exemplares vendidos. A história é absolutamente fascinante e a narrativa utilizada pelo autor é completamente envolvente.

O livro está ambientado no período pós-guerra civil espanhola, em 1945, que coincide com o final da 2ª Guerra Mundial. Os seus personagens, adoráveis e misteriosos habitam uma Barcelona do pós-guerra, cenário de insegurança e instabilidade para a população.

Então, é nessa Espanha de Franco, que um garoto de 10 anos, chamado Daniel Sempere, órfão de mãe, inconformado com a sua morte e incapaz de lembrar seu semblante, é presenteado pelo pai com uma visita inesquecível, a um misterioso lugar, no centro histórico da cidade, chamado de O Cemitério dos Livros Esquecidos. O lugar, conhecido de poucos barceloneses, é uma biblioteca secreta que funciona como depósito para obras abandonadas pelo mundo, à espera de alguém que as descubra. É lá que Daniel, incentivado pelo pai, escolhe em meio a uma infinitude de livros, um exemplar de “A Sombra do Vento” de autoria do também barcelonês Julian Carax. A partir da sua leitura, muda a sua vida e a dos personagens que o cercam.

O livro desperta em Daniel um verdadeiro fascínio por aquele autor desconhecido e sua obra. De forma obsessiva, passa a buscar respostas para as suas questões e dúvidas sobre o autor e o mistério que o cerca. É uma história recheada de mistério e paixão. Aliás, paixão é o sentimento que norteia a história e nos é apresentada de todas as formas: lúcida ou delirante, aperfeiçoadora ou destrutiva. É a paixão que aparece nas páginas do livo motivando personagens, heróis e vilões.

As descobertas de Daniel Sempere, remetem a outra história, a de Julian Carax, o seu amor por Penélope Aldaya, a sua amizade com Jorge Aldaya e Miguel Moliner, a paternidade ignorada por Ricardo Aldaya; a conturbada relação com o pai, o chapeleiro Fortuny e sua mãe Sophie, com o seu amor e segredo que envolve a sua relação com o filho. Histórias recheadas de fantasia e realidade pertubadoras. Mas não demora, para que ambos se entrelacem e componham uma única trama, surpreendendo a todos com amores intensos, desesperados, mortes e personagens fortes. Nessa busca, Daniel Sempere nos apresenta uma galeria de personagens que vão ajudá-lo a resolver o mistério de Julian Carax: Dom Gustavo Barcelo, conhecido livreiro bracelonês; sua sobrinha cega, Clara Barcelo, primeiro amor de Daniel e quem revela para ele os primeiros elementos dos mistérios que envolvem Julian Carax; Firmim Romero Torres, mendigo de passado glorioso, envolvimento político e de aguçado senso de humor, que se tornará aliado de Daniel na busca da verdade; seu pai (sem nome) seu verdadeiro anjo de guarda silencioso e respeitoso na sua relação omnisciente e onipresente; Núria Monfort, mulher triste, que guarda um grande e doloroso segredo; Bea Aguilar e Thomaz Aguilar que também fazem parte do seu caminho e das suas buscas; Javier Fumero, o cruel policial que dedica sua vida a perseguir o fantasma de Julian Carax.

Paixão, foi o sentimento que despertou em mim essa obra, a qual eu recomendo com louvor a todos que queiram embarcar nesse universo de fantasia e ludicidade, de dor e realidade, de busca, encontros e reencontros.

“A essa altura, eu já estava reduzido a um bobo completo, à mercê daquela criatura cujas palavras e encantos não tinha jeito, nem vontade de resistir. Desejei que ela não parasse de falar, que a sua voz me envolvesse para sempre e que seu tio não voltasse nunca mais para quebrar aquele instante que pertencia apenas a mim”
“…Bea diz que a arte de ler está morrendo muito aos poucos, que é um ritual íntimo, que um livro é um espelho e só podemos encontrar nele o que carregamos dentro de nós, que colocamos nossa mente e alma na leitura, e que esses bens estâo cada dia mais escassos….”

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Trem Noturno para Lisboa

de Pascal Mercier

Por Claudine Duarte 
“ É um erro, um ato insano de violência, concentrarmo-nos aqui e agora na convicção de estarmos captando aquilo que é essencial. O que interessa seria conseguirmos nos mover, seguros, tranquilos, com humor adequado e a melancolia adequada, na ampla paisagem interior estendida no tempo e no espaço que somos nós.
Por que temos pena de pessoas que não podem viajar? Porque elas, como não podem se expandir exteriormente, também não conseguem se ampliar interiormente, não podem se multiplicar e, assim, não têm a possibilidade de empreender amplas excursões para dentro de si mesmas e descobrir quem ou o que de outro poderiam ter sido.”
                                                                                                                                      Página 253, do livro do Prado em Trem Noturno para Lisboa

       A vida pede `temas´. Todos os (sobre)viventes necessitam e cultivam temas que garantem cadência, ritmo, conforto e lastro às suas vidas.
       Alguns mudam de temas, de casas, de cidades, de companheiros, de amigos, de livros, de praças, de restaurantes... Outros precisam de rostos e lugares conhecidos para, como num num espelho, se reconhecerem e se acalmarem, num sofá ou debaixo de uma marquise amiga enquanto uma chuva passa. Enquanto uns dias passam.
       Às vezes, se muda de ares e lugares, apenas em busca de si mesmo. Outros fazem reformas em suas casas, trocam as cortinas, pintam de outras cores as paredes e até mesmo trocam as poltronas de norte para sul. O tapete virado para Meca não faz mais sentido e talvez fique melhor com umas malas em cima dele lembrando que é preciso viajar...
      E assim, o livro Trem Noturno para Lisboa constrói uma busca para o Professor Raimundus Gregorius.
         Aqui uma pausa para o significado dos nomes escolhidos por Pascal Mercier para o personagem principal de seu livro:

Raimundo é um prenome derivado do germânico Raginmund e latinizado Ragimundus e Raimundus composto de ragin- (“conselho”) e –mund (“proteção”). Ou seja, protetor ou sábio protetor, aquele que dará conselho em prol da segurança dos demais.

Gregório significa cuidadoso, vigilante e indica uma pessoa prudente, que evita ao máximo os conflitos e não emite uma opinião sem antes refletir sobre o assunto. Graças a essa atitude cautelosa, conquista o respeito de todos.
        
        Assim, compreendemos a busca cuidadosa e prudente que Gregorius escolheu. Primeiro, quase um latim moderno, escuta uma língua que o atrai, depois de sabiamente, salvar a moça que - em português - queria dar fim à própria vida. Como cenário, uma ponte. Metáfora para uma transformação, uma passagem. Em segundo lugar, um escritor português e seu livro - também em português. Está colocado um "tema" para se distrair do tédio de seus dias quase sempre iguais: "às quinze para as oito atravessa a (...)".
        E aí, "toma o trem noturno para Lisboa"... para conhecer como viveu e morreu o autor do livro, Prado. Encontra pessoas, visita lugares, conhece fatos e a própria história de Portugal, sem esquecer de sua Suiça natal, de seus alunos e de sua cadeira de Línguas Clássicas na escola de Berna. Partir sem partir.
        Mercier, na verdade o suíço Peter Bieri, ensina filosofia na Suiça e talvez Mundus Gregorius seja um alter ego. Ele constrói o livro em 4 partes. Na primeira parte, com o episódio da ponte como ponto de ruptura ou de ligação com Portugal, trata a partida do professor: trem para Lisboa
        Na segunda parte, Gregorius descobre a vida e a morte de Amadeu Prado e na terceira e maior parte do livro, tenta compreender as razões, atitudes e até as emoções do médico e escritor. Na última, breve e resumida parte, a comprovação de que não deixou Berna: para ela retorna e conclui sua transformação interior depois desta volta pelo tema composto por Prado, Portugal e o Português.

Poderia ser uma Odisséia, mas Mundus não é o herói.

“(...) E mais louco. Quando o tempo de uma vida se torna raro, as regras passam a não valer mais. Então parece que você perdeu o rumo e está maduro para o manicômio. Mas no fundo é precisamente o contrário: para o manicômio deveriam ir aquelas pessoas que não querem se dar conta de que o tempo ficou  raro. Aqueles que continuam como se nada tivesse acontecido. O senhor entende?”
                                                                          Página 292, Gregorius ao Filipe, motorista, no Liceu em Trem Noturno para Lisboa
       A leitura, às vezes, nos leva gentilmente a caminhar por Lisboa nos dias de hoje e pelos relatos dos amigos de Prado, revistamos a Lisboa de Salazar com os conflitos humanos que brotam no correr da vida e das relações.  Amadeu Prado ganha o desprezo de seus pacientes  por ter salvado a vida de um oficial da polícia salazarista e, na tentativa de se redimir, torna-se um membro importante da resistência.
       Vale destacar a profusão dos textos escritos por Prado – que tornam a leitura morosa e cansativa – recheados de questões filosóficas pontuando seu ateísmo e as eternas perguntas em que os seres humanos debatem fé versus razão.
      Raimundus Gregorius dedica a estes textos, o tempo de sua viagem de descoberta rumo a si mesmo. Como se cada linha tivesse sido escrita pelo seu eu desconhecido e que se apresenta a ele até mesmo com cartas trocadas (mas jamais entregues?!) entre Amadeu e seus pais.
      Em resumo, Trem Noturno para Lisboa é um livro sobre um tema para salvar Raimundus Gregorius, que por sua vez descobriu o tema que salvou Amadeu Prado, que talvez tenha salvado Pascal Mercier que por sua vez, e agora com certeza, salvou Peter Bieri.
E aqui estamos nós, salvando a nós mesmos, com livros, resenhas e encontros. Salve 2013!

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Trem Noturno para Lisboa



de Pascal Mercier

por Daniela Lopes

O Trem Noturno para Lisboa traz temas que têm me interessado: processos/viagens de introspecção/autoconhecimento; dificuldades de acesso ao inconsciente e por consequência no entendimento do mundo interior e o mundo exterior à pessoa; o outro como espelho; as situações de arrebatamento ou escolhas da vida em que a gente não opina; além, é claro do amor pela palavra e do passeio por Lisboa, cidade que adoro. “Se é verdade que apenas podemos viver uma pequena parte daquilo que há dentro de nós, o que acontece com o resto?”

Como outsider da vida de Prado, Gregorius torna-se capaz de uma visão do todo desta vida, mais completa do que a visão possível que o próprio Prado ou os personagens que conviveram com ele puderam ter, uma visão que une o seu mundo interior e o exterior, e que alimentam o processo de autoconhecimento e transformação de Gregorius. Pegando o trem para Lisboa, Gregorius foge de sua vida para mergulhar na vida de outro e poder achar seu caminho, estabelecer relações significativas e se reconhecer em sua própria vida.

O inusitado da história de Gregorius e as reflexões filosóficas de Prado, a la Livro do Desassossego me prenderam a atenção o tempo todo, apesar de deslizes percebidos no enredo, que comento mais abaixo. O livro dentro do livro tem elaborações interessantes  que ecoam na nossa vida diária, como a da página 397 (O Veneno Ardente do Desgosto), do mesmo modo que vimos n’A Elegância do Ouriço’. As cartas de Prado para o pai e para mãe, e a carta do pai, que não foram trocadas, são bem dolorosas e tocantes.

Os personagens, principais e secundários , são na maioria consistentes mas alguns são claramente desnecessários para a trama (Natalie Rubin, moça no trem de volta, professora de português), assim como algumas passagens (porque a volta à Berna?, por exemplo). A divisão em partes também não me convenceu: a terceira parte é entitulada "A Tentativa", mas não achei bem colocado (tentativa de quê?). Há pontas soltas que frustram um pouco (e a portuguesa da ponte, com seu número de telefone?), mas que talvez estejam lá para lembrar que a vida não é um enredo bem costurado, ma maioria das vezes.

É claro que fui atrás para ver se Prado seria um personagem verdadeiro, fiquei aliviada em saber que não pois isso tiraria um pouco o brilho do livro, na minha opinião. Achei blog bem interessante de um português, que traz informações sobre o processo de criação do livro a partir de entrevista com o autor. (http://bibliotecariodebabel.com/geral/lisbon-story/)

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quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

A Visita Cruel do Tempo

de Jennifer Egan

por Maria Albeti Vitoriano

O livro A Visita Cruel do Tempo narra várias estórias, ambientadas em São Francisco, Nápoles, em um safári na África, em um país não identificado e em Nova Iorque, num período de aproximadamente 28 anos (antes de 1980 até após a queda das torres gêmeas).
O núcleo central das estórias gira em torno de um grupo de jovens de São Francisco, Bennie Salazar, Scotty, Alice, Jocelyn e Rhea, que viviam envolvidos com música (rock) e drogas, e diversos outros que estão de alguma forma associados a eles, tais como Lou, Sasha, La Doll, Lulu, Stephanie e Jules.
As estórias, normalmente, estão contidas em um capítulo, mostram no conjunto do livro a diferença entre A (o passado)  e B (o presente). Os contos são permeados pela   nostalgia, lembranças do passado, dos amigos que estão distantes ou morrendo. Mostra, no presente, a vida confortável que Bennie conseguiu e de  outro lado,  o submundo em que vive Scotty, quase que num lixão e o leito de hospital de Lou, na sua  própria casa..
Destaca comportamentos moldados pela necessidade de fazer sucesso ou se sentir aceito, como é o caso de Bennie, que vive a angústia em relação à diferença da música que ele gosta e a que ele vende, bem como a convivência forçada com republicanos..
Como o próprio nome do livro insinua a autora parece ter o objetivo de mostrar a ação do tempo sobre as pessoas, suas angústias e o fim dos relacionamentos. Mostra a chegada da velhice e da doença, como é o caso de Lou, cujo filho acabou cometendo suicídio.
Interessante perceber que não existe praticamente nenhum relacionamento estável, talvez somente o de Bennie Salazar com a sua assistente Sasha, a cleptomaníaca que no final  parece ter sido substituída por Lulu.
Alguns têm sucesso, como Bennie, outros não, como é o caso de Scotty. Lou era um bon vivant, teve muitas mulheres e vários filhos, mas no final da vida estava só, acompanhando somente por um enfermeiro.
Na verdade, são várias estórias em paralelo, onde os personagens se cruzam diretamente ou por meio de parentes (irmãos, filhos, cunhados), mas poucas são finalizadas. Fica a dúvida, Sasha se curou da cleptomania, Lou viveu quanto tempo.
O livro é monótono, principalmente no safári da África, um dos momentos mais cansativos do livros, mas é interessante alguns artifícios usados pela autora, como, por exemplo, no Capítulo 3, onde se demora a descobrir  quem está contando a estória – que é Rhea – e no Capítulo 10, onde há uso da 2ª. pessoa, como um personagem que permanece oculto.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

O Centésimo em Roma

de Max Malmann



por Ana Studart


O CENTÉSIMO EM ROMA é um romance de Max Malmann, escritor premiado e conhecido roteirista de “A Grande Família”, que alia história, ficção e suspense policial.

O livro relata, fundamentado em extensa pesquisa da Roma Antiga, a saga do valente centurião Desiderius Dolens, que, nascido em berço pobre, na Suburra, sonha um dia ser cavaleiro, por mérito ou por compra do título.
Esse personagem mistura brutalidade e doçura, coragem e medo, hipocondria, ironia, sarcasmo, rabugice e bom humor, além de uma quase total ausência de escrúpulos – digo quase, porque o episódio da distribuição com sua tropa do dinheiro surrupiado dos cristãos o redimiu um pouco dessa falha de caráter. Apesar de tudo, ao fim do livro vi Desiderius Dolens como um verdadeiro (anti)herói.


PDV:

O narrador é Nepos, suboficial assistente (optio) de Dolens. Descende da nobre família Trebélia, mas renuncia a tudo para se tornar legionário e ser admirado por seus próprios méritos. A narração acontece de duas formas: na terceira pessoa onisciente, quando Nepos relata o presente, e na primeira pessoa, quando Nepos descreve o que acontecera anos atrás. São colocados em capítulos separados e diferenciados por tipos de letra de tamanhos diferentes.


O Título

Para o título, Malmann se inspirou na frase de Julio César, escrita por Plutarco “prefiro ser primeiro numa aldeia do que o segundo em Roma” e outra de Machado de Assis, cujo personagem do conto “Um Homem Celebre” diz se satisfazer em ser o “o centésimo em Roma”. Dolens se satisfaz com o título de cavaleiro.


A Estrutura

O romance está dividido em cinco livros, que se subdividem em capítulos, de modo geral bem curtos, o que dá dinamismo `a leitura.
Achei interessante a diagramação dos dois textos, o atual e o passado: a ficção com tipo maior, e os “documentos históricos” com tipo menor, com trechos do Vita Dolentis de Trebellius Nepos. Até agora estou sem saber em que medida esses documentos são fieis a um texto original.
(O próprio Max Malmann, em entrevista de 24 de julho de 2010 compilada em seu blog, diz que o sebo Nova Roma existe, a Roma do século I existiu, e o carcomido exemplar da Vita Dolentis é tão tangível quanto os bytes que digita...)
De qualquer forma, creio que o autor não pretendeu relatar uma obra histórica fiel, e sim uma visita à Roma antiga com o olhar do século XXI- é quando identificamos no livro a miséria, o suborno, a ambição, a traição, a injustiça, a adulação, o autoritarismo e a corrupção existentes nos nossos dias – e em todos os tempos. Há espaço também para o homossexualismo, bissexualiamo, e uso de drogas- o cânhamo.E tudo foi proposital, como confirma o autor:

“Quis apenas sugerir que a História da Humanidade, alem de cíclica, é ciclotímica”

Quanto ao paralelo entre as potências Império Romano e os Estados Unidos, Max Malmann sugere um talvez, dizendo que nunca quis fazer uma comparação direta entre as guerras santas dos romanos contra cristãos e dos norte americanos contra extremistas do Islã.

O Enredo

O Centésimo em Roma conta a história do período entre 68 e 70 d.C, tempo da guerra civil conhecida como O Ano dos Quatro Imperadores, em que Roma teve uma sucessão de Césares, todos golpistas e emocionalmente desequilibrados, a começar por Nero e seu fascínio pelo fogo, passando pela figura estropiada de Galba, por Otho com suas perucas, e terminando com Vitellius. (Ao fim do livro o autor diz que os retratou de acordo com descrições feitas por Tácito, Suetonio, Plutarco. Parece que eram assim mesmo! )
O livro é recheado de amores, assassinatos e crenças religiosas, formando várias histórias sem que nenhuma seja central. Mesmo o assassinato do senador Trebellius Longinus poderia não existir no livro, sem qualquer prejuízo. O centro do romance é mesmo Desiderius Dolens, que passeia por esses cenários de turbulência política na Urbe de Roma, servindo à autoridade do momento que melhor lhe convém.
A história é boa e bem desenvolvida.
Duas reviravoltas surpreendem o leitor: o Episcopus, o procurado e perseguido Papa cristão, é o pai de Dolens que ele acreditava morto e por quem se endividou para fazer o funeral.
Surpresa final: Dolens, depois de tentar por todos os meios a sua ascenção social, por um acaso fortuito foi nomeado tribuno comandante pelo imperador Otho, (que sempre troca o nome de Dolens por Valens), o que o eleva à condição tão sonhada de cavaleiro.

Os Personagens:

Como sou grande admiradora dos romances de ficção histórica escritos por Marguerite Yourcenar, “Memórias de Adriano”, e “A Obra em Negro”, a princípio estranhei a forma divertida de apresentar diálogos e situações de Max Malmann.
Mas pouco a pouco fui me afeiçoando a Dolens, o carniceiro de Bonna, com sua visão por vezes romântica, por vezes ácida da vida; de Marusia, a germânica que virou uma romana “albina”e tinha o “nome impronunciável”de Galswinth; dos desvelos da mãe, Moderata; do baixinho Nepos, manquitolando com sua bengala, um aristocrata culto que fala grego e renunciou a seus privilégios para se tornar legionário e a quem Dolens castiga sempre com a humilhação de limpar as latrinas da Casta Pretoria, por um prazo que pode ir até as calendas gregas - tarefa que ele cumpre sempre com “estoicismo”; do centurião Julius Atticus, com suas pupilas tortas; e do legionário burrinho Murcus, estendendo o braço na saudação dos romanos, em “Ave!” e irritando Dolens: “Sempre que você me saúda como se eu fosse um nobre, sinto vontade de decepar o seu braço”; do jovem tribuno Domiciano, sobrinho do senador Nerva, protetor de Dolens, que tem por hobby caçar e mutilar moscas, e que mais tarde se torna o imperador César Domiciano Augustos.

Os imperadores recebem qualificativos marcantes: Nero, o “desbrioso”, qualificado como “matricida”, “glutão e tolo” que assassinava a “arte com sua cítara; Sulspicius Galba, um homem “idoso”, “viúvo” e “avarento, que foi imperador “sem pertencer à família dos cesares”, como observa Murcus, evidenciando o pragmatismo de Dolens: “Se ele ordenar que o saudemos como Galba César, nós o saudaremos como Galba César”; Marcus Salvius Otho, salvo do suicídio por Dolens , franzino, baixinho, de saltos, beirando o ridículo, escolhia seus escravos pelos cabelos, para transforma-los em perucas que escondiam sua calvície e lhe caíam da cabeça. Amigo de Nero, casou-se com sua paixão, Popeia, para dá-la a Nero como amante. Em Otho viviam dois homens: “um faminto de glória, outro destinado ao fracasso”..
Vale comentar o brinquedo de Domiciano, um anão indonésio chamado Turpis ( feio), que também dá tempero ao humor do livro.
O romance tem uma infinidade de personagens com nomes que acreditei serem colhidos da antiguidade, para ao fim descobrir, por exemplo, que o sobrenome do (anti)-herói Dolens teve por inspiração o Doyle do autor de Sherlock Holmes, o som das palavras dólmã (roupa militar) dólmen ( titulo megalítico), e golem, do folclore judaico e, para meu espanto, até o nome de Mickey Dolenz, da banda The Monkees!
E Desiderius, claro, vem do desejo....
Foi de grande sabedoria o autor colocar um dicionário de nomes ao final do livro, para que pudéssemos relembrar os personagens ( eu sempre confundia Vitellius com Vespasianus, por exemplo...)
Em resumo, os personagens principais foram bem estruturados e me pareceram todos bem verossímeis.

A Ambientação

O Centésimo em Roma retrata o povo romano e agregados, incluindo césares, senadores, cavaleiros, legionários, centuriões, prostitutas, vestais, punguistas, agiotas, curandeiras, homossexuais e uma grande horda de miseráveis, com suas habitações e palácios.
Estão nele as vielas de lama, os quartéis, o espaço de torturas ( conveniente chamado de Domus Doloris), o Fórum; o Múnus Vestae, a taverna sórdida da Suburra; a suntuosidade extravagante do Domus Aurea, palácio construído por Nero “às custas do Tesouro Público”.
Nessa Roma convivem “germanas tatuadas, asiáticas de pele amarela, egípcias acobreadas, númidas cor da noite, iberos hirsutos, gregos depilados, capadócios de longos bigodes”, etíopes, germanos, judeus, cristãos, aristocratas, plebeus, legionários; vestidos em túnicas de seda, linho ou lã, guerreiros em cotas de malha feitas de anéis de ferro, com elmos, cinturões e botas com cravos na sola.
Embora o autor não se detenha em descrições minuciosas de cenários, o livro nos passa uma imagem bem convincente de como seria viver na Roma no século I d.C. Era como se eu acompanhasse Dolens em seus caminhos pelas vias da Roma antiga. Quase senti aquele cheiro de “molho de peixe, suor e esgoto” da cidade, que Dolens tanto curtia.

Peculiaridades

O próprio Max Malmann relata suas singularidades ao final do romance, lembrando aqueles making of que vem junto com os DVDs.
Ilíada de Homero, Eneida de Virgílio, Édipo Rei, Evangelho, discurso do inglês Chamberlain, Churchill, citações de Shakespeare, Machado de Assis, todos de alguma forma foram inseridos no livro, como confessa o autor. Reconheci com prazer no capitulo XLII do livro Quinto semelhanças com O Incrível Exército de Branca Leone, um dos meus filmes prediletos.
A denominação das cidades é similar à atual: Bonna é a alemã Bonn, e daí por diante.
Descobrimos que a tabula é jogo antecessor ao gamão!
E o “toque”de Max, de sempre iniciar um parágrafo com letra diferente do anterior.
Também construiu versos em dodecassílabos, pelo prazer de faze-los. E assim por diante.

Conclusão

Demorei algumas várias páginas para me adaptar ao ritmo do livro, que me pareceu lento, no começo. Comecei a curtir mesmo a partir do Segundo Livro. Estranhei também, como já disse, o vocabulário com expressões e palavrões atuais.
Os textos em grego eram dispensáveis ou, no mínimo, pediam uma tradução.
O que dá leveza à leitura são os diálogos, muito bem colocados, em geral com humor.
Saboreei especialmente o capítulo XXVIII do Líber Tertius, onde se discutem dogmas cristãos- como o Pai, o Filho e o Espírito Santo formam um único Deus, quando o entendimento era de que deveriam ser três, e seriam equivalentes a Júpiter, Apolo e Mercúrio?
Ou o comentário de Dolens ao saber por Anacletus que não havia orgias nos cultos cristãos:”É incrível que uma religião tão desprovida de atrativos conquiste tantos adeptos”.... E ainda: ”esse deus supostamente único é o pai que deixa o filho morrer na cruz, é o filho que voltou dos mortos, ou é o fantasma voador?”... “você não poderia ter escolhido uma religião menos confusa?
Salta aos olhos o paralelo (jocoso, acredito) feito entre o comunismo e o cristianismo, quando Dolens diz que os cristãos comem criancinhas...
Exemplo de humor: Qual a diferença entre nós e os bárbaros? pergunta Nepos, depois de uma carnificina. Resposta de Dolens: nós fazemos a barba.
Ou a incrível história do boi subversivo que falava mal do imperador, capturado por Dolens e torturado em interrogatório.
A impressão que me fica é que Max Malmann, a despeito do extenso trabalho de pesquisa, se divertiu muito ao escrever esse livro - e eu também me diverti lendo o romance dele.
Há a possibilidade de que o estilo irreverente de seu texto acabe desmerecendo a pesquisa minuciosa que o livro apresenta, mas esse é uma questão para o autor.
Recomendo a leitura, com certeza. O livro é muito bom.

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quarta-feira, 14 de novembro de 2012

O Centésimo em Roma


de Max Mallmann

por Beth Eloy

Deve ser muito difícil escrever um romance histórico pelo que demanda de pesquisa minuciosa para reproduzir o modo de vida de uma época remota e muito distante. Penso exatamente assim quando vejo um belo filme de época. Foi com base em sólida pesquisa, ratificada pelo autor nas Notas Diversas (páginas 399 a 416) que Max Mallman recria com fina ironia a Cidade Eterna entre os anos 68 a 70 d.C: romanos nobres, plebeus, cristãos, judeus, gregos e germanos convivem nessa vastidão que foi o Império Romano, sua intricada geografia e seu modelo político e social, onde se misturavam corrupção, assassinatos, luxúria e muito sangue.

Tornar a história autônoma, fazer com que ela pulse vivacidade pelos personagens, suas ações e a atmosfera que os envolve é o grande desafio de um romance como esse, e de forma muito humilde, o autor, cita, o medo que teve de fracassar e de que as pessoas não gostassem de ler o livro. Ledo engano: o livro é uma bela obra, prazerosa de ser lida, admirada e que nos leva a reflexão sobre nós, nosso modelo de vida, nossa estrurtura social
Lendo a parte final do livro, na qual o autor descreve os modos e os métodos de que se utilizou para a pesquisa histórica de seu romance, não duvidei da forca de vontade e paciência que foram dedicados nesses quatro anos de trabalho.

O protagonista:

Desiderius Dolens, protagonista da história é um atrapalhado centurião que sonha galgar alguns degraus na hierarquia social romana. Para tanto, trabalhou duro como soldado visando promoções e o cargo de cavaleiro da guarda real. De volta de uma campanha da Germânia recebe a alcunha de “Carniceiro de Bonna” - rumores de que havia chacinado uma cidade repleta de crianças, mulheres e idosos sem piedade.
Ao invés disso, ele é designado para comandar uma das coortes urbanas (um tipo de guarda urbana) fatia mais baixa e decadente dos postos militares.

A história:

O assassinato de um senador incumbe Dolens de investigar o fato e daí surgem personagens, suspeitos pelo crime, que podem ajudá-lo ou atrapalhá-lo em sua tão sonhada ascensão.

O centurião não está interessado em resolver o mistério, mesmo com as insistentes investidas de Nepos, filho do senador assassinado e braço direito de Dolens.

Dolens, é um típico exemplo de “macho”, mas em casa é comandado por Galswinth, Moderata, Desidéria, Olímpia e Eutrópia – hilário modelo de relação familiar.

Os personagens são construídos ao longo dos capítulos e aí nos são apresentados imperadores, escravos, cachorros mancos, pigmeus e cristãos com extremo bom humor. Espaço reservo, para o reencontro de Dólens com o seu pai, já na figura de Episcopus.

Dólens é o personagem principal, mas não menos importante o pobre Nepos, sempre levado a limpar latrinas; Eutrópia e suas viagens a base de cânhamo; Galswinth com sua indolência conveniente; Moderata, a mãe centralizadora; Desidéria a irmã dependente e a escrava Olímpia.


A estrutura do livro também é interessante: a mistura de dois tipos de texto, sendo o primeiro sobre os diálogos e descrições sobre o que acontece na hora em que a história é contada; e o segundo, com um estilo mais formal e histórico, conta a história de Desiderius Dólens, sob a perspectiva de Nepos. O primeiro, sempre forte na forma bem humorada como a história foi contada. O segundo, pareceu-me a própria história.

Demorei um pouco para me habituar ao estilo da leitura, mas foi questão de tempo até que me adaptasse a ela.

Encantamento, ao reler, após citação do autor, textos de clássicos, descritos ao longo de alguns capítulos do Liber Primus até o Liber Quintus. Desculpem os mais versados, fiquei emocionada com a estrutura desses textos.

Finalizo recomendando o livro e agradecendo ao Oswaldo Parente por essa ótima indicação


terça-feira, 9 de outubro de 2012

SERENA

de Ian McEwan
Companhia das Letras, 2012


Por Maria Virginia de Vasconcellos em Outubro de 2012

A história se passa no início dos anos 70, numa Inglaterra em crise, com greves e atentados do IRA, numa Londres bagunçada, com ruas imundas e racionamento de energia.

É contada pela personagem principal, na primeira pessoa do singular, pela jovem Serena, que relata nos primeiros capítulos o início de sua vida, sua infância como filha de um religioso, até  ingressar no MI5-Serviço de Segurança Doméstica Britânico, sob a influência de um namorado maduro.
A narrativa prossegue com Serena recebendo a tarefa do MI5 de cooptar e financiar um escritor – sem que ele tome conhecimento – oferecendo generosos subsídios de uma fundação cultural que é uma mera farsa. A intenção é usar intelectuais  europeus na divulgação de idéias anticomunistas, prática do serviço secreto.
É fácil prever que Serena vai se apaixonar pelo simpático escritor e que esse segredo vai dificultar e envenenar a relação amorosa que surge entre os dois. O difícil é imaginar o que vem depois e o final surpreendente e sofisticado dessa obra.

Na sua maturidade, aos 64 anos, o Ian McEwan parece ter consciência de onde quer levar o leitor. Cada frase faz sentido e a estrutura do texto é lógica e coerente. Embora ele misture duas palestras enormes e entediantes realizadas no MI5, que ameaçam estragar a narrativa, não conseguem, porque ao fim das palestras ele nos surpreende ou com uma Shirley Shilling soltando um palavrão ou com uma reviravolta no contexto.
Ele também insere vários contos do escritor Haley – ocupando de 5 a 10 páginas cada um -  mostrando ter uma imaginação fértil na caracterização de personagens paralelos que, afinal, no último capítulo vão ser utilizados e integrados na história principal de forma ardilosa e brilhante. Portanto, apesar desses contornos ou desvios, o McEwan não perde a linha mestra da narrativa até chegar ao seu apogeu ao final do livro.  

Para quem já leu – Reparação (Atonement) – sua publicação mais conhecida - ou assistiu ao filme Desejo e Reparação – que é baseado nesta ficção, sabe que McEwan é capaz de viradas inspiradoras que envolvem e aliviam o leitor. Aliás, ele é fiel ao leitor. Utilizando suas palavras em Serena (pag. 234 dessa edição), parece haver “um contrato tácito com o leitor, que o escritor deve honrar. Nenhum elemento de um mundo imaginário e nenhum de seus personagens deveria poder se dissolver por causa de um capricho do autor. O inventado tem de ser tão sólido e consistente quanto o real.”

E o real é muito sólido neste livro. A ficção tem como entorno fatos reais.
O contexto da cultura do segredo - vivenciado pela Serena– em contraposição à cultura da transparência -  é assunto em voga na atualidade, ainda que apareça com a marca muito mais forte da ideologia antiterrorista do que anticomunista. O MI5 (Military Intelligence, Section 5) é um serviço britânico que existe até hoje e marcou seu centenário em 2009, embora tenha adquirido nomes diferentes no decorrer do século passado. Portanto, os burocratas  Serenas e Greatorex continuam existindo na atualidade.
Pela Wikipédia, sabe-se que a informação mantida pelo MI5 está imune à publicação e abertura (pela Seção 23 da Lei Freedom of Information Act/2000). No ano de 2006, houve acusações de que o MI5 estaria guardando 272.000 arquivos secretos individuais – equivalente a um em 160 adultos de UK –  sendo que algumas dessas fichas sigilosas, dizem respeito a cidadãos que não ameaçam o país, na visão de alguns políticos. [1]

Enquanto isso, é curioso lembrar que o mundo tem caminhado em direção oposta, para o lado da cultura da transparência: existem hoje 96 países com legislação garantindo o acesso à informação controlada pelos governos (dado de julho de 2012). Nos últimos cinco anos do século XX, formou-se uma onda de legislação de transparência, com 40 países seguindo o exemplo dos pioneiros Finlândia, Estados Unidos e Dinamarca.  O Brasil introduziu, recentemente, em novembro de 2011, uma lei vigorosa (LAI no. 12.527, de 18/11/12) e passou a pertencer a esse grupo da busca da transparência. Numa comparação internacional, o sistema brasileiro de acesso à informação situa-se numa posição mediana, dois graus abaixo de United Kingdom. (Global Right to Information Rating: rti-rating.org).

Voltando ao autor McEwan, segundo a resenha do Serena publicada na revista Veja[2], ele afirma que ”Todos os romances são de espionagem”. Ele expande o sentido do termo espionagem acrescentando: ”Romances investigam o que deixamos em segredo, o que resguardamos na intimidade. Em qualquer relacionamento, há coisas que escondemos, que não dizemos diretamente. Estamos todos envolvidos no controle de informação”.  E, há 20 anos, Ewan publicou um romance estritamente sobre espionagem – O Inocente – ambientado na Berlim dividida da Guerra Fria. Em Serena ele está, portanto, retomando o tema. Na verdade, no sentido amplo, parece que a investigação sempre está presente em seus romances.

Vale a pena estender ainda mais o sentido do termo investigação para abarcar a pesquisa da história real que o autor realiza para compor seus personagens. Quando McEwan coloca na boca do Pierre, o agente da CIA lotado em Londres, que vai ao MI5 fazer uma palestra sobre a guerra fria - a guerra das idéias como dizia, a descrição do evento da Conferência Cultural e Científica pela Paz Mundial (que nome singelo!) ele evoca um fato real. Dedica três páginas a descrever o episódio de confronto entre intelectuais, acadêmicos, escritores, músicos em torno das ideologias e, em especial, a atuação do compositor soviético Chostakóvitch, não dissidente: segundo McEwan, todo o ambiente foi financiado pelas agências  de ambos as lados.

Esse mesmo episódio, ocorrido no Waldorf Astoria, em Nova York, é esmiuçado pelo escritor Alex Ross,  no capítulo Admirável Mundo Novo: a guerra fria e a vanguarda dos anos 50 num livro[3] que trata da história da música contemporâneo-erudita no século XX e de suas relações com o mundo ao redor.
Os dois autores divergem em alguns detalhes, por ex. o Ross indica a data do acontecimento em março de 49, enquanto o McEwan o localiza nos anos cinquenta. Contudo, ambos destacam a participação dos intelectuais de diferentes correntes, “Artistas americanos de esquerda de todas as tendências e disciplinas se reuniram no Waldorf para saudar suas contrapartes soviéticas”. Segundo Ross, “A maioria dos que compareceram não sabia até que ponto o evento havia sido arquitetado pelos propagandistas soviéticos”. 
Enfim, a midia da época teria publicado interpretações diversas sobre “uma das primeiras grandes batalhas de propaganda da Guerra Fria cultural” e, em especial, sobre o discurso de Chostakóvitch, orientado/ordenado pelo Kremlin a criticar compositores dissidentes (em especial Stravinski e Schoenberg) como modernistas reacionários.
O fato é que McEwan utilizou um episódio real para caracterizar o seu personagem da CIA que, por sua vez, discursava para influenciar a amestrada burocrata Serena, figura principal da sua ficção. E apesar desse volteio, o autor se mantém na trama sem perder o fio condutor.

Por último, este livro abre a porta para reflexões de cunho pessoal, sobre opções de vida, sobre influências recebidas, sobre erros e acertos nas escolhas profissionais e sobre as sombras ideológicas que perseguem as idéias e a sociedade. Por tudo isso, recomendo o livro principalmente para os que gostam de romances que têm sustentação em acontecimentos verdadeiros, que misturam ficção à realidade.




[1] De acordo com a Open Society Justice Initiative o debate continua – nota de Out 2011.

[2] A burocracia do segredo, Revista Veja, 4 de julho de 2012
[3] Escutando o século XX – O resto é ruído, Ross, Alex, Companhia das Letras, 2009.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

COMER, REZAR, AMAR

de Elizabeth Gilbert
Editora Objetiva, 2006


Por  Virginia de Vasconcellos
Brasília, junho/julho de 2008

Elizabeth Gilbert, no seu livro COMER, REZAR, AMAR expõe sua mente suficientemente divertida para compor frases como “mosquito tão grande que pode currar uma vaca”, “praticar masturbação pensando na Mônica x Clinton”.
E, sem escorregar muito, consegue arrancar elogios até da Hillary Clinton. Também, diante dessa, o que poderia comentar a Sra. Clinton a não ser “Adorei Comer, Rezar, Amar”?

O fato é que o livro apresenta uma fusão de culturas ocidente x oriente, incorporando a Itália, a Índia e Bali, desde uma perspectiva atraente, ainda que definitivamente “americanizada”.  Pois, convenhamos,  aquele que  vivencia somente a cultura desenvolvida dificilmente vai “sacar” um “Xamã Balinês” na sua inteireza; menos ainda vai perceber o que significa e como atua um brasileiro sedutor; ou mesmo perceber uma tramóia de balinesa para tirar dinheiro de americana. Na história, foi o brasileiro que percebeu tudo isso rapidamente...

A ingenuidade da visão do americano é mostrada com honestidade. Aliás, o livro cativa por ser honesto. Apesar de persistir uma americana deslumbrada, a E. Gilbert tem uma mentalidade muito aberta e,  repito, uma cabeça muito divertida.

A experiência no ASRAM indiano é descrita com sinceridade e, embora longa, atrai pelo senso de humor constante da autora.

Também é valiosa a pesquisa cultural, tanto gastronômica, quanto mística e histórica, ainda que a obra não tenha pretensão de estudo sócio-antropológico.  Por exemplo, é curioso descobrir que em Bali, os filhos são chamados não pelo nome, mas pela ordem de chegada: UM, DOIS, TRÊS... e por aí vai.

Por último, e não menos importante, trata com critério as “perdas” impostas às pessoas no decorrer da vida. Esse parecer ser o leit motiv que orienta o personagem central. O livro explora as possibilidades terapêuticas, ocidentais e orientais, sem conceitos ou teorias, descrevendo a diversidade de valores, os vários métodos de superação do ser humano, até culminar no ressuscitar, numa nova paixão, utilizando a própria existência como motor de busca da alegria.

Enfim, o livro entretém, informa e educa. Vale a pena ser lido.