terça-feira, 12 de agosto de 2014

A COSTUREIRA E O CANGACEIRO


 

France de Pontes Peebes

Nova Fronteira

por Mônica Dias


Classificação do texto: romance
Tempo em que acontece: século XX de 1928 a 1935
Espaço: sertão de Pernambuco, Recife

Sem dúvida um relato sem igual da ambientação do romance, de forma que é táctil para o leitor toda a aridez de um serão que vem sendo descrito, contado mas que no fundo continua o mesmo desde o inicio dos tempos até pelo menos em 2012 (ano em que eu estive pela última vez na caatinga).

Existe uma riqueza descritiva do ambiente, da caracterização dos personagens. A autora consegue fazer-nos transportar para dentro da historia, para sentir toda aquela frieza da sociedade recifense e tb a caatinga. A dualidade permeia tanto os personagens quanto as circunstâncias que cada um vive. Tudo costurado.

Também antecipa detalhes futuros  penso que com objetivo de prender a atenção do leitor, embora o enredo por si só consegue este objetivo.

Grandes temas:
-       consciência do bem e do mau (nem tudo é só bom ou só mau)
-       mudança das regras sociais
-       força e inconformismo das regras sociais
-       acordos tácitos das relações
-       as escolhas de cada um
-       o local de origem, os laços familiares e o feminino manifesto de forma particularizada de cada uma das irmãs


Recomendo o livro com louvor. 9

Coerência temporal
Insere dados históricos de forma coerente
Personagens
Formação nordestina baseada em valores
Qual delas é a costureira? Tendo em vista que o título original é “A costureira”
Narrativa é uma costura perfeita de pontos amarrados e avesso perfeito
Narrador onisciente do entorno de cada um que descreve (tem liberdade narrativa deste PDV)
Costura determinava o entendimento de cada uma da realidade.

terça-feira, 8 de julho de 2014

O CAMINHO DE IDA


Autor: Ricardo Piglia
Editora: Companhia das Letras, 2014

Resenha em 29 de junho de 2014, por Virginia de Vasconcellos

Este romance de Piglia mescla de forma singular elementos autobiográficos e princípios do gênero policial-detetivesco. O enredo se desenrola nos Estados Unidos, mais precisamente num campus universitário, na década de 1990.

Na primeira parte do livro, vemos a partida do Professor Emilio Renzi de Buenos Aires e a sua despedida de uma vida sem sentido. Em seguida, a sua chegada numa universidade americana de renome, onde deverá ministrar um Seminário sobre literatura.

O professor Renzi é considerado um alter ego do autor e protagonista habitual de outras suas novelas.
Aqui estão os elementos biográficos: Renzi é nascido em Adrogué, como Piglia. É especialista em literatura, como Piglia. E Piglia, é profundo conhecedor de universidades americanas, pois lá residiu durante quinze anos.

Na novela, tudo começa quando Renzi é convidado pela Ida Brown, uma estrela do mundo acadêmico, “sedutora e polêmica” Diretora do departamento. Com ela inicia um affaire, um caso, uma relação clandestina que o enleva.

Entretanto, a esperança de uma aventura renovadora para Renzi é cortada quando incidentes aparentemente inexplicáveis culminam na trágica morte da professora Ida em um acidente. O corpo é encontrado num carro, com a mão queimada.

Este acontecimento marca o início da segunda parte da história, quando então se inicia a trama detetivesca.  A endogâmica vida do campus é alterada. Suspeita-se que a morte de Ida esteja conectada com uma série de atentados contra eminências do mundo acadêmico, ligadas a tecnologias e pesquisas científicas.

Na medida em que a narrativa avança, surge a figura do autor dos atentados -Thomas Munk – um brilhante matemático que se afastou da carreira e do mundo contemporâneo. 

Este complexo e interessante personagem é amplamente inspirado no UNABOMBER - lendário terrorista americano que, de fato, cometeu dezesseis atentados a bomba desde 1978, conseguindo matar três pessoas e ferir ou mutilar outras vinte e três, numa guerrilha individual contra o “estado corporativo”. Em 21 de abril de 1995, Unabomber fez acompanhar um dos ataques de um manifesto de 62 páginas, intitulado “A sociedade Industrial e seu futuro”. Por recomendação do FBI, The Washington Post publicou este manifesto em 19 de setembro de 1995.[i] Esta é a realidade inspiradora da trama desenvolvida por Piglia. É uma representação ficcional da vida de Theodore John "Ted" Kaczynski, o verdadeiro nome do Recycler, um matemático excepcional de Berkeley.

Na realidade, o matemático "Ted" Kaczynski, no seu Manifesto, “exigia nada menos que uma revolução global: destruir não os governos, mas as bases econômica e tecnológica da sociedade atual”. Foi preso em abril de 1996, reconhecido e denunciado pelo irmão, conforme descrito por Piglia.[ii]

Na ficção, Renzi não suporta a dúvida se Ida Brown foi colaboradora ou vítima - e contrata um detetive de Nova York para elucidar a questão; e, finalmente, acaba por empreender uma viagem para visitar o Thomas Munk na prisão.

A meu ver, o autor não desvenda o mistério de Ida, e nem parece ser este o ponto central do livro.
Antes de tudo, coloca em exame a violência. Apresenta uma história de terror contra a tecnociência, contra a sociedade industrial, se alimentando dos fatos vividos pelo UNABOMBER.

Embora considerando que tudo neste romance se correlaciona e se constrói desde a literatura, a exposição da violência e o questionamento da sociedade industrial são os temas explosivos e centrais.

O narrador é o personagem Emilio Renzi que conta a história na 1ª. pessoa. A estrutura da narrativa é lógica e fascinante e tem um ritmo envolvente. Segundo comentarista Andrés Russo, “Renzi vai tecendo a relação entre o quotidiano, a autobiografia e a crítica literária” [iii]

O personagem de longe mais interessante fica com Thomas Munk que é imaginado e idealizado com base no retrato do Kaczynski, que, pela Wikipédia, permanece vivo e preso.

Se há intenção do autor em deixar uma mensagem subjacente, poderia ser encontrada na citação seguinte:
“Os campus são pacíficos e elegantes, estão pensados para deixar de fora a experiência e as paixões, mas correm embaixo altas ondas de cólera subterrânea: a terrível violência dos homens educados”

Em conclusão, recomendo o livro com entusiasmo, ainda que o Thomas Munk, a meu ver o mais fascinante da novela, demore um pouco a chegar.

Em tempo:
Curioso observar que o título do livro, nesta edição em português, é publicado todo em letras maiúsculas, não deixando que o leitor perceba que Ida é um nome próprio. Esse artifício levar a pensar que existe um Caminho de ida assim como um Caminho de volta. Neste sentido, é bom lembrar que este livro marcou o regresso definitivo do autor ao seu país. Foi o caminho de volta do Piglia à Argentina.





[i] A ideia de decadência na História Ocidental, de Arthur Herman, Editora Recorde, RJ, 1999 – pág. 14
[ii] Idem citado, pag. 14
[iii] Tradução livre do texto de Andrés Russo em 13 de novembro de 2013


terça-feira, 10 de junho de 2014

O CENTAURO NO JARDIM


 

Moacyr Scliar

Companhia das Letras

por Mônica Dias

Classificação do texto: policial, romance, suspense, espionagem, ficção científica, biografia, realismo mágico
-Tema central do livro: aceitação da individualidade / padrões de normalidade (física, comportamental, emocional)
-Tempo em que o enredo acontece:  século XX entre 1935 e 1974
-Espaço onde acontece: Brasil – Rio Grande do Sul (Quatro Irmãos, Porto Alegre), Marrocos e São Paulo
-Classificação do narrador - onisciente/onipresente ou narrador/personagem em 1a pessoa?
Guadali – o centauro, filho caçula de Leão e Rosa. Tem um irmão mais velho (Bernardo), e 2 irmãs (Débora e Mina). Família judia. Acaba casando com Tita – uma “centaura”.
-Estrutura da narrativa: o livro começa pelo final num encontro de família. Vem depois desde o nascimento do narrador, descrevendo as fases de desenvolvimento do ser humano, seus desejos, formas de consegui-lo. Vai descrevendo as etapas da vida e, na condição de centauro, como vai lidando para viver os fatos da vida, ou seja, o enamoramento, casamento, constituição de uma família, o pertencimento a grupos de amigos, o trabalho.
-Identificação pessoal com personagens: o Centauro me remete à condição de excepcionalidade, ou seja, como é ser ou estar fora dos padrões estabelecidos vigentes em determinado grupo social, ou sociedade.

-Pergunta central do livro: eu me aceito ou busco mudar a minha natureza para me adequar ao padrão vigente?
-Mensagem subjacente: a busca por aquilo que não se tem
-Highlights pessoais:
quando nada poderia acontecer aparece uma esfinge sexy
até os centauros traem!
-Nota para o livro de 1 a 10: 6

Nasce um centauro, ser vivente do mundo mítico, em uma família simples, de origem judaica, cujos ritos tem forte influência no dia-a-dia dos personagens. A mãe que à princípio permanece muda, em choque, frente ao nascimento de um “monstro”, aos poucos vai estabelecendo o vínculo materno com Guedali. Os pais fazem o pacto de manter o cerceamento da liberdade como forma de manter sob controle a situação do crescimento do centauro, evitando contato com qualquer outro ser humano que não os membros da família.
Após um amor platônico frustrado Guedali decide deixar a clausura do espaço familiar (citação pág, 58).
Percorreu campos, galopando em liberdade, se escondendo durante o dia até deparar-se com um circo. Vira atração principal e ao se envolver com a domadora causa uma confusão. Acaba fugindo novamente indo parar numa estância onde conhece uma “centaura, Tita, com quem acaba se casando.
Vivem na estância até surgir a noticia da existência de um médico no Marrocos que faz cirurgias para eliminar excrescências”(pg. 87). Viajam até o Marrocos, realizam a cirurgia, com sucesso para ambos. Voltam ao Brasil, vão morar em São Paulo e casam-se, segundo rito judaico em Porto Alegre, voltam a São Paulo, tem filhos gêmeos, normais. O casal se distancia, Guedali trai, Tita tem encontros com um centauro que aparece na casa deles e que acaba sendo morto pelos guardas do condomínio em que moravam. Guedali some de casa e vai para Marrocos reencontrar o médico, agora decadente e, lhe pede para reverter a cirurgia para voltar a ser centauro (pg. 160).
...galopar pelos campos... é um apelo ancestral (pg. 163)
Nesta estada no Marrocos acaba descobrindo que o médico possui encarcerada uma esfinge – Lolah (metade mulher e metade leoa), com quem acaba tendo um affair. A esfinge fica enlouquecida com a ausência de Guedali, foge da jaula e adentra a sala de cirurgia destruindo o cavalo que seria implantado em Guedali, fazendo com que seu “protetor” tenha que abatê-la a tiros. O médico descobre o affair culpando Guedali pela desgraça e este resolve voltar ao Brasil.
Retorna para a fazenda em que nasceu e reencontra um bugre que havia encontrado na infância, solicitando ao mesmo que fizesse um ritual para que retornasse a ser centauro (pg. 190) e, neste momento a reza faz chover acabando com a estiagem e salvando a plantação de soja da região. Neste momento vem à cavalo Tita para resgatar Guedali daquele local e retornam à São Paulo.

terça-feira, 13 de maio de 2014

AMOR, DE NOVO


de Doris Lessing


por Mônica Dias

É uma historia dentro da historia que traz uma protagonista, Sarah, vivida em uma Inglaterra contemporânea. É um relato de uma vida normal de seres humanos, casamento, filhos, viuvez, trabalhar, sustentar e, neste sentido desenvolve sua carreira como escritora/roteirista/diretora de teatro, cuja base não é a empresa, Green Bird, mas sim a relação de amizade entre ela e seus 3 outros sócios-fundadores. Várias passagens descrevem a relação de um amor fraterno porque envolve a compreensão de uns pelos outros de seus percalços particulares. Não é um amor de entrega total e, por isto não ameaça. Esse, o amor de entrega total, a protagonista racionalmente decidiu retirá-lo da lista das experiências a serem vividas; pelo menos desde 20 anos atrás.

Tem como pano paralelo sua cruz familiar, a relação com seu irmão, buscando psicanaliticamente possíveis rastros de uma carência de atenção materna na infância aliada a uma preferência por seu irmão caçula (revivida na cena da menina do parque – pg. 424) que vem desaguar na fundamentação da carência primordial, que no seu olhar já tranquilizado pela passagem da “calamidade” justifica a busca de paliativos para estancar a angústia. “Apaixonar-se é lembrar que somos exilados, e por isso é que o sofredor não quer ser curado...”.

Nada pior para uma decisão racional do que fortes emoções e, neste sentido, Sarah não acredita que deixou escapar uma brecha para entrada do Amor, de novo. Descreve diálogos primorosos com citações de personagens de várias obras literárias em que cada uma das pessoas que formam a sociedade “Julie Vairon” se deixa arrebatar pela permissividade com que esta personagem, Julie, aceitava amar, fazer suas escolhas com “convicção”, assumindo suas consequências.

“Podemos com toda a facilidade entender Julie a partir daquilo que ela recusava” (pg. 55), resume, para mim, o cerne que arrebatou a todos os envolvidos na montagem da peça. Cada um de uma forma e, Sarah arrebatadoramente quando descobre-se desnuda de sua fortaleza racional, permitindo que uma pequena rachadura na estrutura abra a porta para o insidioso sentimento de apaixonar-se novamente, aos 65 anos. Vive esta onda, porque inicia-se em Bill, depois vai para Henry e, me parece que só não vai para Andrew porque não tem mais forças para esta sequencia de altos e baixos, muito mais pela dor do que pelo amor. É tão profundamente arrasada pelo sentimento e pelas sensações, ... sinais inadequados de sexualidade (pg.173), travessia de desertos, momentos de ausência mas, acredita que não se iguala ao sofrimento de seu amigo Stephen que, por fim, acaba suicidando-se.
Este grande amigo é o esteio de lucidez em que ela se permite abrir para uma troca profunda daquilo que vai em sua alma, plenamente correspondida por Stephen. Assim, apesar dar dor insuportável (pg.381) mantém-se realizando as tarefas para a estreia da peça primeiramente na França.

De Julie que escolhe amores pertencentes a classes abastadas a Sarah que vive a possibilidade da entrega para parceiros mais novos vejo que Doris coloca como pano de fundo as estruturas socais que contaminam, restringem as possibilidades que as mulheres poderiam viver, mas que são socialmente inadequadas, cada uma a seu tempo.

A autora traz também o tema da velhice, descrito na citação da pg. 18 e, como envelhecer dói profundamente na alma feminina.

Para mim, foi uma leitura quase dinâmica porque havia apenas iniciado quando fui capturada pelo enredo e, assim, passei a noite em claro finalizando no dia seguinte. O que mais me marcou foi como Sarah identifica apaixonar-se, amar novamente, com uma dor tão pungente que beira as raias da loucura e das manifestações físicas que me deixaram “apavorada” em viver um novo amor. Claro está que todo o quadro desenvolvido por Sarah está no viés do amor conhecido mas não vivido. Suas restrições, padrões sociais, não importa, o lado mostrado em seus sentimentos foi da não-experiência, não-realização daquilo que inadvertidamente deixou brotar.

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Mar de Papoulas



de Amitav Ghosh

Editora Alfaguara, 2011

 Em 1838, as margens do Rio Ganges estão tomadas por plantações de papoulas, que abastecem as fábricas de ópio comandadas pelos ingleses e deixam a população rural da região com pouco o que comer. O destino do ópio é a China e estamos às vésperas da Primeira Guerra do Ópio, declarada pelo Império britânico para forçar o governo chinês a abrir seus portos para os produtos europeus. Este é o cenário geo-político do sexto livro do antropólogo e historiador Amitav Ghosh, primeiro da trilogia da embarcação Ibis, lançado em 2008. Construído para ser um navio de transporte de escravos e degredados, o Ibis veio de Baltimore a Calcutá, passando pela Ilhas Maurício e durante o livro vai empreender uma parte da viagem de volta às ilhas para descarregar mão-de-obra migrante e condenados. O segundo livro da trilogia, Rio de Fumaça, já foi lançado, em 2011.

  
   O Ibis é o palco em que o autor desfila sua rica e diversa fauna de personagens e uma infinidade torturante de termos náuticos e palavras híbridas do inglês com os dialetos hindus (bhojpuri, bengali, laskari, hindustani).  Nas três partes em que o livro está estruturado (I – Terra, II – Rio e III – Oceano), assistimos os personagens (suas histórias, suas premonições, seus destinos) sendo arrastados em direção ao Ibis, atracado em Calcutá, para nele se encontrarem para uma viagem incerta e graficamente dolorosa, e que não acaba neste livro (para nosso desespero e deleite). O autor dá vida e voz a personagens sem lugar na história oficial, sempre feita pelos poderosos.


   Xinguei o tradutor várias vezes durante a jornada, já decidi que o Rio de Fumaça vou ler em inglês. A notinha do tradutor na página 23, após várias passagens de termos incompreensíveis, me pareceu completamente insuficiente para preparar o leitor para a viagem: “Pedimos ao leitor que não se deixe intimidar pela estranheza do pidgin lascar, que beira o incompreensível também no original em inglês. No transcorrer do livro, ele se torna menos frequente, assim como a leitura ocasionará maior familiaridade. Algumas expressões podem ser elucidadas na Crestomatia, ao final do livro, que no entanto não deve ser tomada por um mero glossário.” O livro merecia uma nota mais caprichada do tradutor ou um prefácio que nos introduzisse com mais suavidade na estratégia do autor.


   Somente ao final do livro, quando fui dar maior atenção a este léxico de termos, a Crestomatia do Ibis, foi que compreendi a profunda pesquisa que o autor empreendeu e que as passagens incompreensíveis (e não passíveis de tradução) foram o recurso que ele empregou para imergir o leitor nesta babel, o que me levou a  Riobaldo e suas palavras inventadas. Na Crestomatia, ficamos sabendo que esse registro de certas palavras migrantes (‘...que zarparam de águas orientais rumo às geladas costas da língua inglesa’) era a obsessão do avô da avó do autor (Neel Halder, o ex-raja de Raskhali), que se entregou a prática, por anos a fio, de vaticinar sobre os destino destas palavras e pretendeu colaborar com a construção do que ele denominava ‘Oráculo’ (Oxford English Dictionary), que estava sendo elaborado no final do século XIX.  Mais que o negócio do ópio, a palavras utilizadas na interface de culturas tão diferentes e essa obsessão de Neel por seus usos e destinos, são a inspiração maior do livro, sendo Amitav  Ghosh  agora o guardador da tradição familiar.


   A narrativa é, na maior parte do tempo, linear, vai avançando no tempo e no espaço, com alguns resgates de passado e alguns vislumbres de futuro, tudo muito bem costurado pelo ponto de vista de um narrador onisciente. Os personagens principais (Deeti, Kalua, Zachary, Paulette e Neel) são bem construídos, com brilho próprio, e os personagens secundários (Jodu, Babboo Nob Kissin, Ah Fatt), terciários e o próprio coletivo do Ibis  são também essenciais e dão vida ao tecido que vai sendo composto pelas fibras da história de cada um.


   É uma escrita muito gráfica, com passagens muito intensas em sensações: tive náuseas nas cenas em que Deeti caminha pelo fábrica de ópio a procura de seu marido moribundo (p.96-97); senti os fedores indescritíveis dos ambientes sufocantes do Ibis, nas várias vezes que o autor os descreve com maestria (ver página 180, quando Jodu se deita em um dos jhulis, no dormitório dos lascares); nojo e compaixão no banho que Neel dá em Ah Fatt na prisão (p. 310-311).


   O autor semeia, aqui e ali, pistas dos próximos capítulos (referências ao santuário de Deeti, ou aos descendentes de Kalua ou Maddow Colver, p.272 – “Mais tarde, dentro da dinastia que reinvidicou sua ascendência, muitas histórias seriam inventadas sobre o sobrenome do ancestral fundador e os motivos pelos quais ‘Maddow’ ocorria com tanta frequência entre seus descendentes. Embora muitos decidissem remodelar suas origens, inventando linhagens importantes e fantasiosas para si mesmos, sempre haveria uns poucos que se agarrariam com unhas e dentes à verdade: qual seja, a de que aqueles nomes sagrados eram resultado da língua atrapalhada de um gomusta aflito e da audição imperfeita de um piloto inglês que estava um pouquinho mais do que ressacado”). Dá a entender que a trilogia está toda mapeada, como uma carta náutica, e nos deixa, pasmos e parados naquele convés do Ibis vendo alguns dos personagens principais se afastarem no longboat, com seus destinos em suspenso.

domingo, 16 de março de 2014

NEVE, de Orhan Pamuk

Por Claudine Duarte



Para começar, uma deliciosa confusão com a semelhança dos nomes dos protagonistas:
o poeta , a  neve  e a cidade. KA, Kar, Kars...
(Em turco, neve é kar)

Este é um livro sobre preconceito e divisão. Divisão de ideias, de caminhos, de futuros.
A história se desenvolve durante a visita que o poeta turco, KA, exilado na Alemanha, faz à fronteiriça (e distante) cidade de Kars, bem ao oriente e isolada do resto do mundo por uma nevasca.

Durante os poucos dias que o poeta transita por Kars, além de conviver com seus medos, carências e sonhos, é levado a participar ativamente de um microssistema que reproduz os conflitos étnicos, políticos, raciais e religiosos da Turquia. Conspirações dentro de conspirações arrastam KA por núcleos de personagens ressentidos, paranóicos e, por vezes, ingênuos.

A neve, metáfora forte ao longo do livro para solidão e desolamento, em vários momentos emoldurou momentos de luz, beleza e acolhimento. Como também inspirou, com o desenho de seu fractal (p. 301), a organização dos poemas de KA, em 3 eixos: 
                    RAZÃO,      MEMÓRIA    e       IMAGINAÇÃO. 
Talvez, como a ponta de um fio que possa conduzir à saída desse atormentador labirinto de intolerância criado por fundamentalistas islâmicos e pelos secularistas na Turquia, ainda nos dias de hoje. Talvez. Talvez Pamuk acredite que o conhecimento científico de Francis Bacon tenha o potencial de restabelecer o “império do homem” sobre as coisas:
  • Poesia, como a ciência da imaginação;
  • História, como a ciência da memória;
  •  Filosofia, como a ciência da razão;


e assim, quem sabe, poderemos – humanos, crentes ou não – nos libertarmos e expurgarmos “ídolos” e preconceitos.

KA é seguido pelo onisciente narrador Ohran, escritor que descreve os próprios passos em Kars e Frankfurt à guisa de reconstruir os caminhos do poeta. Com isso, guarda semelhança com o Gregorius de Trem Noturno para Lisboa em busca de refazer os passos de Amadeu: uma vida que se justifica pela – e na – interpretação de outra.

Essa voz do narrador e, que, nos últimos capítulos, é também personagem do livro, contribui com a trama ao anunciar e/ou denunciar futuros próximos:

“Houve um silêncio carregado de tensão, durante o qual Necip levantou seus belos olhos, um dos quais, dentro de duas horas e três minutos, iria ser estourado por uma bala; ele olhou para a rua escura para ver a neve cair devagar, como um poema.“(p. 131)

“Ele quis ter certeza de que iria se voltar e lançar um último e demorado olhar a Ïpek na janela, por isso ao chegar à rua adiantou vários passos em relação aos seus guarda-costas. Quando ele se voltou, lá estava ela, qual uma estátua, à janela do quarto 203 do Hotel Palácio de Neve, ainda com o vestido de veludo negro de noite, os doces ombros arrepiados por causa do frio. Banhada na luz cor de laranja da mesinha de cabeceira, ela era a imagem de felicidade, uma imagem que KA manteria junto a si nos quatro últimos anos que lhe restaram de vida.
Ele nunca mais a viu.”(p. 420)

Orhan Pamuk escreveu o livro entre abril de 1999 e dezembro de 2001, ou seja, antes de ter sido a 1a pessoa da Turquia a receber um Prêmio Nobel (em 2006). Vale ressaltar que, em 2005, foi processado pelo governo por ter se referido, em entrevistas, ao genocídio contra o povo armênio durante a 1a guerra mundial e teve que se defender de acusação por ter insultado a identidade turca.
A viagem de KA a Kars não é acidental. Com seu casaco alemão, metáfora para uma pequena concessão à visão ocidental do mundo, percorre as ruas brancas de Kars enquanto se (re)constrói no amor à bela Ïpek e nas suas questões existenciais da crença (ou não) em Deus.

Alguns personagens merecem notas:

1.     SENDAR bei, o dono do jornal da cidade, e também redator que descreve os fatos antes que aconteçam para garantir a tiragem e leitura da edição do próximo dia e que, às vezes, nem mesmo ele acredita no que escreve...

2.     TURGUT bei, o recluso pai de Ïpek e Kadife e que tem orgulho de ser democrata mas não abandona a razão: “Não basta ser oprimido, é preciso estar com a razão. A maioria dos oprimidos está ridicularmente errada. Em que devo acreditar?”(p. 279) E é utilizado pelo autor narrador para lhe dar um presente nas páginas finais: um exemplar do livro Primeiro Amor, do russo Ivan Turgueniev – pasmem! Traduzido pelo próprio Turgut... E isso depois de citar várias vezes sua admiração pelos escritores russos e seus personagens melancólicos “tão cheios de virtudes, que não conseguem nada da vida.”(p. 13)

3.     NECIP, um dos estudantes secundaristas do colégio religioso que esperava ser escritor de ficção científica e que inspira KA a escrever e recitar seu poema O LUGAR ONDE DEUS NÃO EXISTE, com dúvidas e certezas que nos remetem ao nosso Riobaldo, do Grande Sertão – Veredas:

“Um homem pode ficar todas as noites na casa de chá e jogando com os amigos, pode se divertir tanto com os colegas que não haja um só instante em que não estejam às gargalhadas, pode passar todas as horas do dia batendo papo com seus amigos íntimos – mas se esse  homem abandonou Deus, ainda assim vai ser o homem mais solitário do mundo.”, diz Necip  p. 169

“(...) Com Deus existindo, tudo dá esperança: sempre um milagre é possível, o mundo se resolve. Mas se não tem Deus, há-de a gente perdidos no vaivém, e a vida é burra. É o aberto perigo das grandes e pequenas hora, não se podendo facilitar – é todos contra os acasos. Tendo Deus, é menos grave se descuidar um pouquinho, pois no fim dá certo”, diz Riobaldo p. 76

Voltando a KA, o motivo inicial de sua viagem até a cidade de Kars – o suicídio de várias mulheres jovens – vai se dissolvendo ao longo da trama, sendo inconclusiva sua investigação. Talvez ele tenha ficado mais intrigado com as descobertas, pois achou “estranhamente deprimente que as jovens suicidas tivessem de lutar para conseguir um momento de privacidade para se matarem. (...) Em suas fantasias, o suicídio era uma cerimônia solene (...) levada a cabo sozinho; na verdade, toda vez que se imaginava acabando com a própria vida, o que o assustara fora a indispensável solidão do ritual.”(p. 25-26). E as jovens de Kars se matavam por infelicidades que iam desde uma casamento forçado até por proibições do uso do manto sobre suas cabeças. E prosseguiam desdenhando dos esforços burocráticos do governo e seus cartazes surreais:
“OS SERES HUMANOS SÃO OBRAS PRIMAS DE DEUS,
E O SUICÍDIO É UMA BLASFÊMIA.”

E por falar em manto, “ele”, a falta d”ele” e a proibição d”ele” perpassam todo o livro como algo que paira sobre a cidade ameaçando crenças, descrenças e descréditos em Deus.

NEVE não foi um livro fácil de ler. Para mim, foi como encontrar vários livros dentro do livro e ao “engatar” numa trama, tive que sair seguindo outro personagem e, às vezes, fiquei sem saber algo – ficando com um sabor desagradável de coisa incompleta.

Senti falta de profundidade no Azul, terrorista apaixonado mais por si e por sua imagem de terrorista que pela causa que abraçava. Considerei uma “amostra grátis” a história de amor e sexo entre Azul e cada uma das duas irmãs – Ïpek e Kadife. Algo tão importante e significativo na vida do poeta KA para ter sido tratado de forma tão marginal...

E, para quê e por quê, a morte (assassinato) de KA? Recurso para permitir que Orhan entrasse em sua casa e remexesse em suas coisas e também fosse passar uns dias em Kars?
Confesso que fiquei à espreita de que uma Melinda ou qualquer outra prostituta apareceria com o Caderno Verde e o entregaria para Orhan. Quem sabe, nua, sob o casaco alemão de KA... E aí sim, ouviríamos uma voz grave lendo a frase de Browning que abre o livro:
“Nosso interesse vai para a perigosa fímbria das coisas.”

Imaginei o trapalhão Sunay, mentor e ator do golpe no teatro e de sua própria morte, protagonista de um livro nos moldes – não menos irônico – do “Galvez, Imperador do Acre”, do brasileiro Marcio Souza.

Para a prisão de Muhtar bei, desejei um conto inteiramente dedicado a temas dolorosos como tomada de consciência e vergonha.
“Ele viu mais alguma coisa no olhar que seu amigo lhe deu, e que o acompanharia por muitos anos: Muhtar achava que merecia a surra que estava prestes a levar. (...) Por favor, quando me olhar nos olhos, não reflita a minha vergonha, devolvendo-a a mim.”(p. 82)

E por fim, quão pouco explorada a musa de KA que depois de separar uma terna bagagem, se conforma e desiste de um futuro inexistente na Alemanha, arquétipo feminino de infinitas toalhas jogadas precoce e repetidamente:
“Eu fiz o possível para amar Muhtar, mas não adiantou. Eu amei Azul de todo o meu coração, mas de nada adiantou. Eu achei que poderia aprender a amar KA, mas isso não deu em nada. Eu sonhava com um bebê que nunca veio (...)”(p. 476)

Para fechar, posso acrescentar que NEVE também poderia, mesmo com o pano de fundo da divisão e da intolerância, ser interpretado como um livro sobre o Amor. O Amor de KA por Ïpek, de Muhtar por Ïpek, de Ïpek por Azul, de Kadife por Azul, de Azul por Azul, de Necip por Kadife, de Fazil por Kadife, de Sunay por Sunay, do Sheik por Deus, de Deus por todos, com dúvidas, incertezas, trapalhadas, paranoias, descaminhos, ilusões, esperanças, cisões, acertos e descompassos.

Destaco a forma que o autor apresentou os capítulos com títulos e subtítulos que lembraram páginas da minha infância com os livros de histórias árabes do Malba Tahan e de alguns contos sufi.

Orhan Pamuk introduziu questões e algumas descrições que  abriram  interesse pelos armênios e suas cidades esquecidas e abandonadas à força. O satélite do Google Earth me levou por sobre as ruas de Kars e pela “cidade fantasma” Ani: espectral e envergonhante. 


Recomendo? Com restrições. NEVE é longo, lento, sem herói, sem saga, sem final.