quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

VIDA QUERIDA

de Alice Munro


por Ana Studart

Alice Munro é canadense, nasceu em Wingham, Ontario, em 1931. Casou-se aos 20 anos e teve três filhas. Durante muitos anos, foi apenas mãe e dona de casa. Já lançou 14 coletâneas de contos. Recebeu o Nobel de Literatura em  2013, e foi a primeira vez que um  contista mereceu esse premio.  Viveu no período da 2a Grande Guerra, e um de seus contos, Trem,  trata do tema, um soldado que volta do combate ao encontro da noiva.
A escritora norte- americana Cynthia Ozick considera Alice Munro a “Tchekhov da América”.
Certa vez Munro disse que seus contos seriam “tentativas”, ensaios preparatórios para escrever um romance, mas agora percebe que o conto é sua forma de expressão.  Me pergunto se essa constatação tem alguma relação com  a frase do conto Trem,  onde o personagem Jackson pensa no livro do pai de Belle, intrigado, e se pergunta “por que alguém ia sentar e fazer outro livro, no presente. Hoje”.

Em Vida  Querida, seu último livro, Alice Munro apresenta 14 contos – alguns deles, mini-romances. Os quatro últimos são relatos autobiográficos, classificados como Finale – porque, palavras dela,  são “as primeiras e as últimas – e as mais íntimas – coisas que eu tenho a dizer sobre a minha vida”.

Seus personagens: Munro cria nesses contos mulheres que vivem situações típicas do universo feminino, como Greta, casada,  que se sente atraída por Greg e Harris em detrimento da filha que a acompanha em viagem; Vivien que trabalha  como professora numa instituição para tuberculosos, e vai se deixando dominar e envolver pelo chefe, que foge no dia do casamento; Belle, que é abandonada pelo parceiro no momento em que enfrenta um câncer; Corrie, uma deficiente física que se envolve com um homem casado e são chantageados por uma ex-empregada de Corrie.
Mas Alice Munro não se considera feminista e não aceita o rótulo. “Nunca penso se sou ou não” , E justifica dizendo que as mulheres que descreve não são vítimas - a despeito de personagens como Vivien e Belle.

Seu  estilo é simples e singular.  Simples porque Alice Munro fala de coisas do cotidiano, da vida comum, e singular porque  não desvenda seus enredos com nitidez: eles vão evoluindo e vamos tentando adivinhar onde aquela história vai desembocar.  São pedaços, momentos da vida, onde os  desfechos, quando existem, quase sempre ficam subentendidos. 

Sua narrativa não é sempre linear:  Munro brincou certa vez, dizendo que um conto não é uma estrada pela qual se segue, mas um casa desconhecida onde se entra e se descobre quartos e corredores, quase um labirinto em que o narrador busca o sentido do núcleo familiar. 

O PDV é por vezes do narrador, onisciente, por vezes de algum dos personagens.

O acaso ( ou seria o destino?) parece guiar seus contos e seus personagens – e esse, para mim, é o traço maior do livro. Seria ele a determinar o rumo de nossas vidas?

No primeiro conto, “Que Chegue ao Japão”, (PDV onisciente), há um trem que não se sabe o destino, com  Peter carregando uma mala para a viagem de duas passageiras, Katy e Greta - e de início nem fica claro qual é a filha e qual é a esposa dele. Vai se percebendo com o desenrolar da história, que segue envolvendo desejos e conflitos, e idas e vindas: numa festa de escritores, Greta bebe demais e volta para o hotel de carona com Harris. No trem para Toronto casualmente se envolve com Greg,  e na  chegada à estação Harris, a quem avisara da chegada por  correspondência, a recebe com um beijo.

O melhor exemplo do acaso que conduz os contos de Munro é o  “Trem”, ( PDV do narrador) onde se tem um personagem que salta de um vagão em movimento antes do seu destino final e é acolhido por uma noite em troca de serviço por uma desconhecida. Os consertos na casa se sucedem e o tempo passa até que Belle enfrenta um câncer, ele ouve no hospital a longa história sobre o pai  de Belle que pedia repetidos perdões não se entende porque e depois morre se deixando atropelar por um trem. Alice Munro sugere dois motivos para os pedidos de perdão e o suicídio: com a esposa doente, ele freqüentava prostitutas; e encarou Belle nua no banheiro, o que teria mudado a relação entre pai e filha. O impacto desse relato de Belle destrói o laço que  a une Jackson e ele a abandona no hospital com um “A gente se vê amanhã”. 
Jackson vaga ao acaso pelas ruas, ajuda o proprietário de um prédio que lhe pede que cuide por instantes da portaria, e mais uma vez vai ficando. E então a história nos surpreende com uma volta ao começo,  quando Ileane, a noiva que ele ia encontrar se não tivesse pulado do trem,  por acaso chega  ao prédio onde Jackson trabalha. Ele a reconhece só pela voz e aí vem o feedback: eles tentaram fazer sexo antes dele seguir para a guerra, mas Jackson não se sai bem. Em posterior relação, o desastre se repete. Fica subentendido que sexualidade seria uma explicação para a vida errante de Jackson. Ele pensa no final em procurar a antiga noiva, mas acaba  pegando  um trem para  procurar trabalho numa cidade madeireira.

No conto “Corrie”,  (PDV onisciente) a personagem teve pólio e se relaciona com um homem casado. Chantageada, Corrie paga mensalmente para não ter o romance desvendado. Quando a chantageadora morre, a narrativa fica reticente: “Ela (Corrie) sabe de alguma coisa. Descobriu enquanto dormia. Não existe notícia alguma para dar a ele. Não existe, porque nunca existiu”.  O que ela descobriu?  Que quem recebia o dinheiro era o amante? Ou seria o amante que teria matado a chantageadora? O que Munro quis dizer com a mensagem de Corrie: ”Lílian morreu. Enterrada ontem”. E a resposta: “Tudo bem agora, fique feliz. Breve.” Fique feliz porque o problema acabou ou porque não se verão mais? E esse breve,  significa que eles se encontrarão em breve?

Em “Com Vista para o Lago” ( PDV onisciente) Nancy, que está perdendo a memória, tenta pegar uma receita, mas a médica estava de folga e lhe indicaram esse especialista numa cidade próxima.... Ela esquece o nome do médico e depois de vagar ao acaso  pelas ruas da cidade, acaba trancada dentro  de uma Casa de Repouso, onde vira paciente.

No conto Dolly, ( PDV de Dolly) é o cotidiano que prevalece - junto com o acaso.  Uma história banal, clássica, de ciúmes. Um casal idoso e bem ajustado planeja a morte, quando é sacudido pela chegada de uma vendedora de  cosméticos que se revela  antiga namorada de Franklin.  Ironicamente ela é introduzida na vida do casal pelas mãos de Dolly que, enciumada, sai de casa,  escreve e destrói varias cartas, envia uma, depois se arrepende e volta para o marido. O final é quase feliz, não fosse o medo de Dolly de que Franklin recebesse a carta que ela  finalmente havia postado.

No Finale, Munro fala de suas desventuras. São narrativas autobiográficas, onde ela confessa seus pecados, como o desejo infantil de matar a irmã em Noite:
“A idéia estava ali e balançava na minha cabeça. A idéia de que eu podia estrangular a minha irmã mais nova, que dormia na cama embaixo da minha e que eu amava mais do que qualquer pessoa no mundo.”  Com sono intranqüilo, encontra o pai também insone, e conta seu medo. O pai a tranqüiliza-  a gente as vezes tem esses pensamentos. “Naquela manhã que nascia ele me deu exatamente o que eu precisava ouvir e o que eu logo esqueceria”.

Em O Olho, com 5anos, relata o trauma de ser obrigada pela mãe a ir ao funeral de uma empregada da casa, a quem era muito ligada. A mãe a força a se aproximar do ataúde, e ela acredita que a morta piscou para ela.

Em Vozes, Munro retrata a mãe como uma mulher ambiciosa e rigorosa que “não era estimada” e para quem a vida que vivia “não era o bastante, não tinha lhe dado a posição de que gostaria.”. Nesse conto Munro também confessa sua carência afetiva aos dez anos e o desejo de ser amada como a Peggy da festa seria pelos rapazes que a consolavam. Em suas fantasias, “As mãos deles abençoavam minhas próprias coxas magrelas e as vozes deles me garantiam que eu também era digna de amor”.

Em Vida Querida,  que dá nome ao livro, Munro jovem descreve a vida dura de casada com dois filhos no momento em que a mãe ficou doente e morreu. Ela não foi ao sepultamento e não dramatizou o episódio, embora admita que se sentiu culpada. Mas se perdoa, e conclui:  "Perdoamos o tempo todo".

Sua forma vaga de escrever, deixando conclusões subentendidas, torna intrigantes os contos de Munro. Seu texto produz frases de efeito, como a mãe de Belle, que não estava “exatamente muda, porque conseguia formar palavras, mas tinha perdido boa parte delas. Ou elas que a tinham perdido” (pág 185).
Ou quando ela descreve os pés descalços de Neal em Cascalho: “aqueles pezões com cara de indefesos”. ( pág 106)

E depois a mensagem, também em Cascalho ( pág 110): “o negócio é ser feliz, ele disse. Apesar de tudo. Só tente. Você consegue”. Que se completa com a frase final do livro, em Vida Querida: ”Nós dizemos certas coisas que elas não podem ser perdoadas, ou que nunca vamos nos perdoar. Mas perdoamos- perdoamos o tempo todo.” Se perdoar para ser feliz?

Munro declara que esse é seu ultimo livro, mas já disse isso em outras oportunidades e voltou atrás. Ela explicou para a revista New Yorker porque mudava de ideia: apesar do “estranho desejo de ser ‘mais normal’” e “de fazer as coisas com mais calma, logo vem a inspiração”. Mas acrescenta: “No entanto, desta vez creio que é de verdade. Tenho 81 anos (agora 82) e me esqueço de alguns nomes ou palavras comuns…”

Fiz a leitura dos contos de Alice Munro quase sempre com prazer, e admirei a maneira singular como conduz personagens e enredos, mas o livro não me conquistou a ponto de desejar ler outras coletâneas da autora. Recomendo com restrições - apenas a quem gosta de contos.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

A vida Querida de Alice Munro


O livro Vida Querida é o mais recente livro de contos da ganhadora do Nobel de Literatura em 2013, Alice Munro. Ele contém 10 contos que são caraterizados por serem ambientados na região Canadense do condado de Huron – Ontário, a pequena cidade de Wingham, onde a autora nasceu e ainda mora até os dias atuais. Neles, ela utiliza o narrador onisciente para dar sentido ao mundo por ela retratado. Seus personagens masculinos tendem a capturar a essência do homem comum, enquanto suas personagens femininos são mais complexas.
Por exemplo, a primeira história começa assim: "Uma vez que Peter tinha trazido a mala a bordo do trem, ele parecia ansioso para obter-se fora do caminho ". Peter é o marido de Greta --- e esta é a última que o veremos. Esta é uma história de uma jovem poeta , viajando com sua filha. Alguma coisa acontece no trem,  é sexy e assustador e não qualquer coisa que você espera --- e então, no final , algo mais acontece , algo que pensei que não era nada provável. Tudo isso acontece rápido, e é forte.
Às vezes me aparecia uma duvida  - São romances ou contos ?  Dada a profundidade emocional de alguns contos. Ela consegue em poucas páginas pintar o quadro profundo de suas personagens e toda a trama na quais estão inseridas. são romances compactados, vidas inteiras contadas em 20 a 30 páginas.
Outra marca comum aos contos é que seus personagens experimentam uma revelação que lança luz sobre suas vidas e lhes dá sentido. Ela chega a ser irônica e séria ao mesmo tempo. Ela retrata com maestria as ambiguidades a vida. O mau gosto ou por vezes a crueldades frente à alegria. A inutilidade versus o “especial”. Creio que ela pode ser definida com gótica (ou literatura gótica, um subgênero romântico), pela forma crua como apresenta seus personagens e a resignação com que estes vivem essa “Vida Querida”.
Talvez a melancólica vida de seus personagens tenha origem na própria autora, que pra escapar da vida na fazenda da família, casou muito jovem e teve filhos cedo.  Tudo isso aconteceu há muito tempo atrás, quando a vida da cidade pequena era um mundo e as mulheres que quebraram as regras eram notórios nesse mundo. Na grande maioria, seus personagens têm um sonho muito desejado, que não têm roteiro ou mentores e têm que descobrir a si mesmos
Vários exemplos demonstram isso, uma jovem vai para ensinar em uma escola remota --- tão remota que ela descreve o céu como um "imenso encantamento". Sua tristexa transpasse ao perceber que mudou de um mundo pequeno para outro menor e distante. Há também a história de mulher com câncer que se resina com a morte inevitável – pelo menos é assim que ela se apresenta.  Mesmo depois do surgimento de um soldado em sua vida, que a ajuda a procurar tratamento. Ela mantem-se resignada com o destino
São vidas de pessoas comuns, a maioria das pessoas, como qualquer um de nós. Encontramo-los na rua, no restaurante, no trabalho e, se estamos curiosos, nós queremos saber sobre suas vidas. Alice Munro faz a lição de casa para nós - ela habita essas vidas. As escolhas de seus personagens podem parecer fáceis, mas na verdade são até difíceis. São escolhas humanas no decorrer de vidas queridas.

Curiosidade: Alice Munro é conhecida por republicar seus livros com versões diferentes das originais. Ela já fez isso em pelo menos outros dois livros.

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

A MARCA HUMANA (The Human Stain)

de Philip  Roth

por Ana Luiza Machado

Philip Roth é um celebrado escritor norte americano de ascendência judia, nascido em 19 de março de 1933, em Nova Jérsei. Conquistou diversos prêmios literários em sua carreira, dentre eles o Pulitizer Prize por Pastoral Americana”(1997 ) , teve sua obra Complô contra a América eleita como “o melhor romance histórico americano publicado em 2003-2004”. Figura como um dos três escritores vivos a terem obras publicas na Library Of America.

A marca humana, publicado em 2000, é um das obras que compõe A Trilogia da América,  da qual fazem parte Pastoral Americana e Casei com um comunista. A  estrutura narrativa das obras é comum, em especial, pela existência de um narrador personagem, que embora ocupe um papel secundário na trama dos livros que compõe a trilogia, é de fundamental importância. Oportuno destacar que Nathan Zuckerman, o narrador – personagem, é um alter ego do autor.

Partindo do personagem principal, Coleman Silk , (sumariamente revelado como morto), percorremos as páginas reconstruindo –o , por meio dos acontecimentos e impressões dos personagens secundários e ainda pela imaginação do escritor personagem Natan Zuckerman. No que tange aos personagens secundários, é de se destacar que a denominação e meramente formal, uma vez que na estrutura da obra muitos deles tem vigor suficiente para o protagonismo, tais quais a professora francesa Delfine Houx; e  Faunia Lester, amante do professor Coleman.

 Na trama, Coleman Silk e um professor universitário que se ve envolvido em um escândalo de racismo na Universidade na qual leciona. Acusado de ter ofendido alunos ausentes em sua classe, ele e absorvido por uma onda de acusações. Em meio a tais acontecimentos, ele se depara com inúmeras perdas, as quais o conduzem a uma indignação entorpecente e este sentimento, que o impede de escrever por si mesmo os eventos , o leva ao encontro de Natan Zuckerman para que o escritor escreva  sobre a historia, relacionando tais eventos a perda de um ente querido. Esta é a espinha dorsal da obra,  a qual serve de estrutura para a abordagem dos mais diversos temas, como as consequências da guerra no individuo , a vaidade nos meios acadêmicos, o feminismo, o sexo na velhice, a decrepitude, entre outros.


O elemento do narrador personagem é um traço fundamental da obra , proporcionando ao leitor uma identificação imediata, uma vez que há um jogo contínuo entre “proximidade” e “distância” dos conflitos vivenciados pelos personagens. Tal qual Natan, nós leitores, observamos as agruras e os prazeres dos personagens de maneira às vezes próxima, às vezes distante. O que não impede que o autor nos brinde com ótimas mudanças de ponto vista, trafegando pela mente conturbada dos personagens, revelando seus pensamentos, mudando totalmente o ritmo da narrativa, revelando a personalidade dos personagens por meio de seus pensamentos.

Os sustentáculos de “A Marca Humana” são : o moralismo na era Clinton em decorrência do envolvimento sexual do então presidente norte americano e sua estagiária; o racismo histórico norte americano; o conflito pungente entre a individualidade humana e a identidade compartilhada de grupos de raça.


Considerei o livro excelente. O elemento que o faz memorável para mim é a dimensão universal dos sentimentos humanos nele transcritos,  marca indelével de nossa humanidade. Recomendo com louvor !! Excelente porta de entrada para o universo de Philip Roth.

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

A Lebre com Olhos de Âmbar

de Edmund De Waal

 por Maria Albeti Vitorino

Edmund De Waal nasceu na Inglaterra, além de escritor é um ceramista famoso mundialmente, trabalhou como curador, conferencista, crítico e historiador de arte, é professor de cerâmica da Universidade de Westminster, coleciona vários prêmios e homenagens por seu trabalho. Estudou cerâmica e tornou-se pesquisador do artesanato popular japonês. Seu trabalho, como ceramista, manteve-se praticamente dentro da tradição anglo-oriental.

No livro,  o autor resgata a história de sua família, ao longo de cinco gerações,  tendo como fio condutor uma coleção de 264 miniaturas japonesas (netsuquês) herdadas do seu tio-avó Ignácio (Iggy). 

Ao lado da história de sua família, o autor menciona alguns dos principais momentos da história dos séculos XIX e XX, tais como a Terceira República Francesa, o assassinato do arquiduque Franz Ferdinand, herdeiro do império Habsburgo, a eclosão da 1ª. Guerra Mundial, a derrocada do Império Austro-Húngaro e a segunda Guerra Mundial.

Tudo começa no poder ascendente, em Odessa, da família Ephrussi (antes Efrussi), passa pela capital francesa do final do século XIX,  Viena na época do império Austro-Húngaro e depois sob o jugo do Nazismo.

Narra a separação da família, na fuga da perseguição nazista, como de resto ocorreu com muitas famílias judias, que vão preferencialmente para Suiça, Inglaterra e Estados Unidos. Finalmente, fala do reencontro de alguns membros da família Ephrussi, depois da guerra, alguns na Espanha, outros no Japão e na Inglaterra, com diferentes nacionalidades.

Na primeira parte do livro, o personagem principal é Charles, filho do patriarca Joachim Ephrussi, que mantém um império financista em Odessa, na Rússia Imperial,  e pretende se expandir para o restante da Europa, instalando seus herdeiros nas cidades de Paris e Viena.

Sendo o terceiro filho, Charles Ephrussi pode usufruir da vida mundana em Paris, enquanto os irmãos mais velhos se dedicam aos negócios. Historiador de artes, crítico e colecionador, vive intensamente a era Impressionista e, a partir de 1870, começa a montar sua coleção de miniaturas japonesas. Em 1899, a coleção é enviada para Viena, como presente de casamento ao seu primo Viktor (pai de Ignacio, bisavô de Edmund).

A partir desse momento o livro tem como cenário o Palácio Ephrussi, em Viena, onde agora estão os netsuquês. Nessa cidade, como em Paris, existe um forte sentimento anti-semita, que se manifesta de forma velada.

Com a queda do Império Austro-Húngaro, fica claro o antisemitismo e começa a perseguição aos judeus, que se intensifica com a ocupação nazista, de 1938 a 1945. A família Ephrussi se separa parte vai para Inglaterra, outra parte para os Estados Unidos,  perdem todos seus bens, inclusive os netsuquês, que ficam no palácio de Viena.

No entanto, essas pequenas peças são resgatadas pela governanta Anna,  que não é judia e,  sob o pretexto de auxiliar no acondicionamento dos móveis e obras de arte, consegue dia após dia, sair com todos eles escondidos na sua roupa.

Finda a Segunda Guerra, Anna devolve os netsuquês para Elizabeth (filha de Viktor e avó de Edmund) que entrega ao seu irmão Ignacio. Daí a coleção é levada para o Japão, onde passa a ser exposta novamente e tem seu valor reconhecido. Ignacio, além de contar a história da família para Edmund, deixa pra ele as miniaturas que são levadas para a Inglaterra, onde devem estar  atualmente.

Enfim, o livro narra a história de uma família que teve poder e riqueza, mas que nunca conseguiu uma total aceitação da sociedade, como todos os demais judeus.  Eram sempre vistos como arrivistas, sem pátria e, portanto, apontados como os principais  responsáveis em épocas de crises econômicas. Em virtude das dificuldades financeiras após derrota da Áustria, na 1ª. Guerra, os judeus passaram a ser mais odiados.

Segundo o autor, os judeus aprendiam várias línguas (russo, francês, latim, grego, alemão e inglês), para que pudessem se  sentir em casa em qualquer lugar do mundo, só não podem ser pegos falando iídiche.

Eles tentavam esconder sua religião, sua língua e ao mesmo tempo procuravam se integrar na alta sociedade por meio do auxílio às artes, da associação à grupos influentes, enfim com uma participação na vida do país em que estavam vivendo. No Palácio em Viena, havia uma única cena bíblica, uma pintura do Livro de Ester, numa área frequentada somente pelos judeus.

***


FELICIDADE DEMAIS

de Alice Munro 

Editora: Companhia das Letras- 2010

Too much happiness: stories
Tradução de Alexandre Barbosa de Souza

COMENTÁRIOS por Maria Virginia de Vasconcellos


Embora este livro não pertença à minha categoria predileta, ou seja, não se trata de romance histórico, nem mesmo romance, são dez contos completos que, de fato, valem por dez romances.
Porque completos? Simplesmente eles são lógicos, têm início, meio e um fim normal, geralmente plausível num contexto de país desenvolvido. Cada um deles daria suficiente motivação para conversas em grupo.

Fortes estórias, ou memórias ou o que quer que seja, são de excelente prazer na leitura.
A garra da narrativa de Alice Munro nos coloca em suspense, à espera dos acontecimentos, alegrias e infortúnios, que a vida e a morte podem trazer.

Carrega muita informação sobre a vida contemporânea, sem, entretanto, utilizar mecanismos de tecnologia. Por meio de enredos e estórias complexas sobre o ser humano, descortinam-se os personagens, muitos deles femininos. 
A autora tem a grande habilidade de desenhar, com rapidez e concisão, os traços precisos das personalidades que cria, sem perder a profundidade e o vigor. (“Faz com que mereça a frequente comparação com o russo Anton Tchekov”[1])

Sempre dá vontade de re-iniciar a leitura do conto (com exceção do “Madeira”, onde há uma descrição detalhadas e demorada de árvores, lenhas e matas).

No primeiro relato, Dimensões, Doree volta à prisão para visitar o marido que cometera o mais hediondo dos crimes. É surpreendente não no fato em si, mas no que diz respeito a sentimentos femininos. Impressiona e fascina.

Em Ficção, vemos a delicadeza da transformação de um casamento, o correr da vida, novos enlaces, o fortuito encontro da Joyce, a professora de música, com a ex-aluna e um conto dentro do conto. 
“o que ela tem a ver com isso?” disse Joyce.
E o marido responde: “É que ela se sente ameaçada pela bebida. Ela ainda está muito frágil. É uma coisa que não dá pra a gente entender”.
 Ameaçada. Bebida. Frágil. Que palavras eram essas que meu marido estava usando? Eu devia ter percebido. Ele estava ficando apaixonado..... (pag. 49).
Bastam dois parágrafos para explicar “o golpe fatal que aleija um homem, a brincadeira maldita que transforma olhos claros em pedras cegas”.

Na estória Wenlock Edge uma universitária conta a experiência do relacionamento com a Nina que aparece para morar com ela no quarto alugado. Vai além do esperado a descrição da aventura perversa e das personalidades sórdidas que povoam a existência comum e se utilizam da fragilidade humana. “Pessoas - Em busca de proezas que elas não sabiam trazer dentro de si”. (pag. 108)

Buracos-profundos deixa o leitor perplexo com consequências/impactos que acidentes podem provocar; ou não foi o acidente do Buraco-profundo que trouxe a alteração na vida de um filho? Novamente um casal, agora com filhos, novamente a normalidade transformada drasticamente. Acidentes da vida. Impressionante caracterização dos personagens.

No quinto conto deste volume, Radicais Livres, há relato de depressão, morte, mas o roteiro se transforma numa tensão quase policialesca com a invasão de um inesperado personagem.

Aqui vale um parêntesis para o comentário da Revista Veja – Jerônimo Teixeira – que diz que a autora “exagera no recurso a encontros casuais como motor da ação”, apesar dele reconhecer que ela sabe conduzir a narrativa até momentos tensos.
O fato é que, embora este recurso a encontros casuais seja realmente utilizado de várias formas, discordo inteiramente da conclusão da resenha do Teixeira quando afirma que o mais recente livro da Alice Munro, Vida querida, que parece ter o mesmo estilo deste, “é ficção para ser adotada em cursos de “Estudos Femininos” nas universidades americanas”. Discordo do Teixeira, repito.  A temática não é apenas feminina, mas sim universal.Vale a pena conferir mais este livro.

O sexto conto, Rosto, é um relato marcante sobre relação pais x filho, filho este que tem um defeito físico, uma estranha mancha no rosto que “Parece um pedaço de fígado”. Chega-se ao lirismo ao final, com poesias e sentimentos ternos.

Algumas mulheres, apresenta uma competição sutil e fortíssima entre mulheres, e a consequente solidariedade de uma terceira, digamos, partidária. Tudo na visão de uma menina de 13 anos...

E o Brincadeira de criança? Esta estória, achei até previsível de certa forma, mas  de extrema crueldade. Que crueza na explicitação do mal que pode existir em cada um. Vale uma reflexão, mas não exige julgamentos dos personagens. Será que eles se auto-punem? Qual o grau de consciência de uma criança? É uma confissão? Duas amigas se re-encontram, estando uma no leito de morte.

Mas, o ponto culminante é a estória que dá nome ao livro, ou seja, Felicidade demais.
Aqui sim, há períodos históricos bem delineados: uma russa, brilhante matemática e literata, um ou dois russos exilados, pela Europa, na última década do século XIX.
É a recriação de parte da vida de Sophia Kovalevsky, uma das primeiras mulheres a se tornar professora universitária de matemática, na Suécia. “Ela se consagrou na Alemanha, atuou como jornalista em Petersburgo... e travou contato com grandes personalidades da época”. (contracapa)
Vale a pena mergulhar nesta época com suas contradições e mudanças comportamentais fortes, e quando “feminismo não era nem uma palavra que as pessoas usavam”).

De fato, “tudo podia ter acontecido antes da expulsão de Adão e Eva dos jardins do paraíso”. (pag. 289). E não se deve “provocar o destino a enviar outro golpe”. (pag. 319)

Afinal:
“Quando um homem sai de um quarto, ele deixa tudo pra trás”
E “quando uma mulher vai embora, ela leva consigo tudo o que aconteceu naquele quarto”.

 Recomendo o livro sem restrições e com enorme entusiasmo.



[1] REVISTA Veja – 11 de dezembro, ALÍVIOS PROGRESSISTAS, Jerônimo Teixeira

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

IL BARONE RAMPANTE (O Barão nas Árvores).

de Italo Calvino


por Irene Nogueira de Rezende

Italo Calvino nasceu a 15 de outubro de 1923, em Santiago de las Vegas no subúrbio de Havana, Cuba. Seu pai era um cientista especializado em agronomia e botânica e trabalhou para o governo mexicano e cubano. A mãe era também botânica e professora universitária. O ambiente estimulante de pais professores e cientistas foi fundamental na sua formação intelectual. De volta à Itália com apenas dois anos, foi criado na propriedade da família, perto de San Remo, onde o pai fazia experiências botânicas e cultivava frutas. Essa vivência entre flores e árvores frutíferas foi aproveitada por Calvino para escrever O barão nas árvores. Seus pais lhe proporcionaram uma formação intelectual primorosa e se recusaram a dar orientação religiosa para os filhos.

Com o advento do fascismo a família Calvino se posicionou veementemente contra. Quando foi convocado pelo governo, Ítalo se recusou a lutar ao lado dos fascistas e, com o incentivo da mãe, entra para a Resistência Italiana. Depois da guerra se filia ao Partido Comunista Italiano, abandona o curso de agronomia e entra no curso de Artes. Depois defende sua tese de Mestrado sobre Joseph Conrad. Começa a publicar contos e trabalha como jornalista.

Em 1952 inicia a publicação da trilogia dos antepassados com  O visconde partido ao meio, 1957 vem O barão nas árvores e, em 1959, O cavaleiro inexistente.

Em 1956, depois da invasão da Hungria pelos soviéticos e pouco antes de publicar O barão nas árvores, Calvino se desliga do Partido Comunista publicando uma carta no jornal L’Unitá se justificando e que ficaria famosa como um libelo à liberdade de expressão e de criação. No ano de 1972 publica As cidades invisíveis, um de seus mais belos romances, ambientado em parte do século XIII, onde recria diálogos entre o viajante veneziano Marco Polo e o imperador dos tártaros Kublai Khan, em Cambaluc, atual Pequim.  Sobre esse livro um crítico escreveu que: “Em nenhuma outra obra Ítalo Calvino levou tão longe os valores que considerava fundamentais à sobrevivência da ‘espécie literária’: leveza, rapidez exatidão, visibilidade, multiplicidade e consistência. O leitor verá que é impossível não se perder nessas cidades, como é impossível não se enredar nessas teias de palavras”.

Alguns livros publicados: O castelo dos destinos cruzados, Amores difíceis, Se um viajante numa noite de inverno e seu último trabalho Seis propostas para o próximo milênio, de 1985, uma série de conferências que faria para a Universidade de Harvard e que não pode finalizar porque um derrame o pegou antes, vindo a falecer no dia 19 de setembro de 1985.

O barão nas árvores

Começo pela tradução que, a meu ver, deixa a desejar incluindo expressões que não combinam com a narrativa, como “saco cheio, estou me lixando” e outras mais. A tradução dos nomes próprios também não é adequada – aliás, sou da opinião que não se deve traduzir nomes dos personagens -, porque Cosimo de Rondeau soa muito melhor que Cosme de Rondó. Ombreuse não é muito mais bonito que Penúmbria? O tradutor nos tira a possibilidade de conhecer os personagens pelo seu nome original, pela sua sonoridade nativa, privando ao leitor de usufruir de um nome com um significado próprio da língua de origem, ou mesmo uma associação com algo que seja familiar a cada leitor. Por que não traduziu então o nome do abade Fauchelafleur (algo como decepa flores)? Ou conde d’Estomac por conde Estômago?

Calvino constrói com muita habilidade e originalidade seus personagens, lançando mão do humor como recurso para emoldurá-los, basta notar a irmã Batista e suas inventividades gastronômicas, a mãe com sua dilatada veia militarista, o pai, o senhor Barão, o abade Fauchelafleur, Viola e o próprio Cosme, com suas muitas facetas e criatividade demonstradas durante sua vida nas árvores. Todos os artifícios usados para Cosme se adequar a uma vida nas árvores são tão bem elaborados e ficam tão verossímeis, que o leitor acaba por crer que seria mesmo possível alguém passar a vida pulando de galho em galho sem jamais tocar os pés no chão. Até o cão de Cosme tem uma personalidade peculiar e bem elaborada pelo autor.

Calvino também desconstrói a imagem dos religiosos eruditos, invertendo os papéis tradicionais, colocando Cosme como mestre do abade Fauchelafleur lhe ministrando lições de obras condenadas pela Igreja como a Enciclopédia de Diderot e D’Alembert. Fato que acaba por colocar o religioso em desgraça junto ao Tribunal da Inquisição. Preso e isolado, morre em meio a dúvidas existenciais suscitadas após as leituras e os debates com Cosme.

Interessante também é a tentativa de Cosme criar um Estado Arbóreo chegando a escrever um projeto – Projeto de constituição de um Estado ideal fundado em cima das árvores –  que enviou a Diderot, que o respondeu com um bilhete (adorei essa ironia da resposta por um bilhete, ou seja, Diderot não estava nem aí para os arroubos constitucionais de um nefelibata que morava nas árvores).

O narrador, Biágio, tem aquela natureza mais contemplativa, menos impulsiva e um tanto crítica, levando a crer que, talvez, fosse a voz (e a consciência do próprio Calvino), um autor, logo se vê, preocupado com o hábito de ler, fazendo muitas vezes Cosme de seu paladino em prol da disseminação da rotina da leitura. E para esse objetivo usa do personagem de João do Mato, que larga a vida de rapinagem pelo prazer obsessivo da leitura, chegando ao ponto de, literalmente, com a corda no pescoço, pedir a Cosme para saber como termina um romance que estava lendo por ocasião de seu enforcamento.

As inserções de personagens históricos como Voltaire: “era somente a Natureza que criava fenômenos vivos, agora é a Razão”, Diderot, Rousseau (que não respondeu o livro que Cosme o enviou) e Napoleão Este dando mostras de sua megalomania confunde um capítulo que Alexandre da Macedônia encontra o sábio Diógenes que o pede para se afastar porque sua sombra lhe tapa o sol (Senhor, apenas não tire de mim aquilo que não podes me dar), como se tivesse acontecido com ele próprio.

O texto traz ainda passagens de grande lirismo como o momento da morte da generala com as bolhas de sabão assopradas por Cosme para lhe alegrar os últimos momentos de sua vida. E a morte do próprio Cosme, levado por um balão até o mar que poderia ser interpretada como  uma alegoria celestial indicando sua subida ao céu por uma vida tão pura e inocente.

É bom destacar a preocupação ecológica de Calvino que perpassa o romance, escrito numa época em que não era comum discutir questões ambientais. Preocupação esta explicável pela influência familiar e sua estreita convivência com as plantas desde a mais tenra idade.

Como disse o autor da resenha enviada por Claudine, a estratégia ou o recurso literário de pensar um personagem que vive nas árvores proporciona ao autor maiores alternativas na narrativa: uma no chão e outra em cima das árvores, possibilitando uma série de soluções literárias (e poéticas também) que só enriquecem o romance, além da contextualização histórica abordando uma época de grandes transformações culturais e políticas. Iluminismo, Revolução Francesa, o racionalismo científico, enfim aquele fervilhar de ideias que caracterizou os séculos XVIII e XIX. E isto Calvino soube aproveitar muito bem como moldura para seu romance de fortes pinceladas de realismo fantástico. Recomendo entusiasticamente.

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segunda-feira, 21 de outubro de 2013

MUITO ALÉM DO CORPO

de Luzilá Gonçalves







Por Guido Azevedo

Primeiramente deixem-nos agradecer a presença de todos.
Ficamos honrados e felizes com vocês aqui no Recife que tanto amamos.
Que essa estada seja plena de felicidade e paz.

Quero externar o orgulho de ter um livro de Luzilá sendo lido e discutido por vocês. 
Acho que Pernambuco tem valores literários incontestes e apena alguns ganham projeção nacional, outros labutam em terreno árido e regional e passam muito tempo para serem descobertos e saírem de uma espécie de gueto que as circunstâncias nacionais impõem, embora não seja o caso desta amiga querida que tem seu reconhecimento nacional, em termos de prêmios, cadeira na academias e currículo invejável.
Outra alegria maior com a escolha de Luzilá é de caráter pessoal, Já não aguenta a temática de seca e de miséria como fundamento de apresentação da região.
Luzilá não centraliza sua obra nessa velha e cansada saga nordestina, que parece nos aprisionar como realidade e temática obrigatória, embora sejamos tão rica em outras coisas.
Por outro lado, sua temática predileta, quase ideia fixa, é a luta feminina, a realização do gênero no mundo contemporâneo e nos idos do século XIX.
Este é o tema que lhe é caro é o que mais aproxima vocês amigas dela.
Até parecem missão de vida: A valorização da mulher, a descrição das suas lutas pela liberdade de ser e de expressar sentimentos, de ocupar seu lugar no mundo; Biografia das heroínas nacionais, reconhecidas ou não, mulheres que construíram a ferro e fogo sua saga para a liberdade, nem sempre conquistada em vida.
Assim, Luzilá esta mulher do século XXI, tem mesmo a cabeça no século XIX, o século das grandes definições da humanidade. Doutora em literatura feminina do século XIX, pela Universidade de Paris VII.
Ativa e soberana faz da vida uma experiência única, com um desembaraço, uma delicadeza, uma entrega para a arte e para as causas da justiça que me deixam apaixonado.
Claro, alguma hora isso seria revelado, vez que se trata da minha professora de francês, uma típica francesa como eu sempre a imaginei.
Em sua casa, até o jardineiro fala francês. Outra de suas paixões, como a literatura e a sala de aula. 


Finalmente, chegando ao tema da análise pessoal sobre o livro – Muito Além do Corpo - 

O livro tem como temática: o amor.
Como premissa: Será o amor pelo outro, capaz de dominar o próprio ser e dispensar o ser amado, por carregar em si todas as suas nuances?
Desenvolvimento: A autora tem uma relação profunda com uma pessoa amada...nome? para que? Basta Ele, Eu, Nós .
Ele tem um comportamento muito estranho, desaparece por uns tempos e não gosta de dizer o que andava fazendo. (Coisa típica dos tempos de chumbo, quando não se falava para não comprometer a amada) 
Em um São João, tendo prometido que passariam juntos, Ela recebe uma telefonema onde sabe que ele não vem, não pode ou não quer vir. Sentindo-se só, vai ao cinema, que aparentemente tinha apenas mais um expectador o que acaba aproximando-os. 
Ao se conhecerem notaram uma grande identidade de sentimentos e afinidades, além da coincidência comum de rejeição. Naturalmente acabam se relacionando um daí nascendo um amor, malgrado a diferença de idade entre eles. No entanto, ela se renova. Até perceber que a entrega do amado tinha a ver com sua luta para sobreviver a doença terminal e viver intensamente este período que se demonstra breve.
Em estado de desespero com a perda recebe o abraço do seu amado que vem para consolá-la e retoma o seu lugar na história pessoal dela.

Para o romance como um todo, tenho duas palavras que sintetizaram para mim ao concluir sua leitura: Delicadeza e Sensibilidade.
Delicadeza pela forma como foi tratada a história de amor. Sensibilidade pela descrição de sentimentos e emoções como se fora os cenários de um romance de exterior.
À moda Proust, Luzilá desenvolve seu romance com sentimentos como cenas. São eles que articulam a trama do romance, em particularmente os sentimentos da narradora. Ela não precisou de ambientação de época, de ambiente externo, de tempo ou lugar.
Não precisou caracterização de personagens, figuras, perfis e personalidades. Suas características foram pinceladas através de fragmentos indicativos e necessários à própria trama.
O livro é leve, sutil como um sentimento feminino. (não sei da onde tirei isso.) Mas, entrar nessa emoção, para nós homens, requer uma sensibilidade a mais, abertura para o diferente. 
Minha sensação é que só conseguia ler e sentir o livro, em estado de graça, ou seja, quando conseguia me concentra na leitura, sem qualquer preocupação exterior.
Mais uma vez no caso pessoal esta semelhança emocional com Proust, autor que jamais consegui ler sem estar ligado na obra e nos sentimentos dos personagens.
Mais que uma leitura ligeira e acrítica  este romance exige uma reflexão a cada folha.
Lia parava e pensava na singeleza de cada fato.
Como fazer um livro de amor, sem melodrama, sem paixão desenfreada, sem palavras soltas, com um enredo tão amarrado e tão introspectivo?
Como contar o velho triângulo amoroso com tanta delicadeza que mais parece uma necessidade?
Confesso que anos atrás. Quando tentei ler este livro, logo o abandonei por achar que era delírio de mulher. Acho que na época não estava aberto para um roteiro sem aventura, pouquíssimos diálogos e ainda menos personagens. Na verdade não estava interessado na temática e não conseguia me concentrar, por preconceito ou imaturidade.
No contexto, dois momentos interessantes, mas que destoam do roteiro e da temática e parecem como crônicas apostas ao texto. O primeiro conta o relacionamento dela criança com um bodinho de estimação e sua percepção antecipada da morte como separação do bem amado. 
O segundo fala de uma travessura com o sino da capela do Engenho que ela açodadamente toca e acaba por criar uma grande confusão como se fora o anúncio da morte do coronel do lugar e que acaba sendo quase a sua ressureição ou retorno ao estado de saúde, que tem como desfecho a sua percepção de que pode ser capaz de milagres.

Sabe aquela sensação que nos assalta algumas vezes: “eu poderia ter escrito isso, porque é exatamente o que penso.” Muitas vezes, tive essa sensação ao ler esse livro. 
Naquelas reflexões que dizem respeito ao ato de escrever. Naquelas ânsias de compreender o mundo, de idealizá-lo e, nunca se decepcionar com a realidade, apenas adiar a expectativa.
A crenças inabalável no outro. A certeza de que o amor sempre triunfa. De que não há realização em si mesmo, mas tão somente no outro e de preferencia no ente amado.
O amor doido que acha que se basta. Que tenta dispensar o amor do outro, que todo adolescente pensa encher o mundo com o seu próprio amor, que no fundo é amor próprio.
A própria reflexão sobre o mistério de escrever, o espanto com a construção das palavras criando vidas e tronando-se objeto que adquiriam independência, vida própria.  
Como escrever livros que não sejam de amor? Que não falem de amor, que não busquem o amor, no mínimo de quem o lerá?
Eu Recomendo.
    Muito Além do Corpo (1988)
    A Anti-Poesia de Alberto Caeiro (1990)
    Os Rios Turvos (1993)
    A Garça Malferida (1995)
    Em Busca de Thargélia (1996)
    Humana, Demasiado Humana (2000)
    Voltar a Palermo (2002)
    No Tempo Frágil das Horas (2004)

Como autora e co-autora, publicou mais de 30 livros, entre contos, romances, ensaios, biografias. Em 2000, lançou um ensaio - Humana, Demasiado Humana - sobre a psicanalista Lou Andréas - Salomé, identificada como vivendo " à frente do próprio tempo". Já no seu livro Voltar a Palermo, descreve Buenos Aires, à medida que apresenta uma intensa história de amor, entre uma brasileira e um argentino, nas épocas de repressão política.
Na área do Jornalismo publicou Um Discurso Possível, ensaio sobre a Imprensa Feminina em Pernambuco,1991-1997,apresentando as mulheres pernambucanas que atuaram como jornalistas, no século XIX. A respeito da poesia feminina, Luzilá escreveu Em Busca de Thargelia, antologia em 2 volumes publicada em 1996.
Em 2002, publicou o livro Presença Feminina, por solicitação da Assembléia Legislativa do Estado de Pernambuco, onde ela faz o perfil de nove deputadas estaduais. É detentora de vários prêmios.
Seus romances Muito Além do Corpo, A Garça Mal Ferida e Os Rios Turvos receberam respectivamente os Prêmios Cidade do Recife, O Nestlé e o Prêmio de Biografia da Academia Brasileira de Letras.

GUIDO AZEVEDO

terça-feira, 10 de setembro de 2013

O Buraco da Agulha

de Ken Follet



por Ana Luiza Machado

O Buraco da Agulha (Eye of the Needle) é um romance policial ambientado na Segunda Guerra Mundial,  de autoria do britânico Ken Follet,  jornalista que já havia escrito na época outras obras utilizando pseudônimos.

O Buraco da Agulha ganhou o prêmio Edgar Award em 1979, maior prêmio da literatura de suspense e mistério. Interessante frisar que este ramo da literatura ocupa uma posição marginal e pouco reconhecida no mundo literário. Embora isso não fustigue o quase certo sucesso editorial de obras desse gênero.

A trama se desenvolve no contexto da Segunda Guerra Mundial, centralizando-se na figura do exímio espião alemão, Die Nadel (A Agulha) que se encontra infiltrado em solo inglês com a missão de obter o máximo de informações para o governo nazista.

O livro é dividido em 4 partes e um capítulo final de alta carga dramática e suspense. Os capítulos são muito bem delimitados e as histórias de cada um dos personagens seguem paralelamente. Outra característica da obra são as indicações históricas reais, recurso  que acentua a carga dramática do texto e nos leva a indagar “quantos espiões como este existiram de verdade?”. Os personagens principais são Henri Faber (nome falso utilizado pelo espião alemão Die Nadel);  Percival Goldman, estudioso da idade média  que se torna colaborador da MI5 (serviço de inteligência britânico); Lucy, inglesa casada com um militar inglês, frustada pela indiferença do marido e aprisionada pelos caprichos e frustrações dele em uma ilha escocesa.

O espião alemão Henry Faber se apresenta como um pacato burocrata nas primeiras cenas. No desencadear da trama, sua verdadeira identidade é revelada.  Toda a trama se desenvolve por meio de informações obtidas por esse aparente burocrata. Objetivando evitar o vazamento de informações estratégicas, a polícia britânica recruta o historiador Percival Goldman, para auxiliar nos serviços de contra espionagem.
Com estes personagens envoltos pela Segunda Guerra Mundial, Follet nos conduz à uma caçada emocionante, que surpreendentemente tem seu desfecho ambientado na isolada Ilha das Tormentas, na Escócia, com o casal Lucy e o militar.

Considero o livro um roteiro pronto, apesar de não saber com precisão se se isso desqualifica ou enaltece a obra. Inevitável não mencionar que esta aparente aspiração cinematográfica concretizou-se em 1981 sob a direção de Richard Marquand (Star Wars Episode VI).
O personagem de Henry Faber é aquele que mais se revela na obra, é possível saber um pouco de sua história e como ele construiu uma carreira na espionagem. Percival Goldman também desperta interesse, exercendo um papel decisivo nas caçada ao espião, no entanto a forma pouco crível de seu aceite para trabalhar na MI5, compromete um pouco o personagem. Lucy poderia ser um destaque, mas, a despeito de ser uma heroína, ela não comove. A única conexão que tive com a personagem foi no momento em que ela se resigna com a condição imposta pelo marido (isolamento na ilha e frieza no casamento).

O desfecho poderia nos reservar surpresa melhor considerando que a heroína da trama foi uma mulher. No entanto, o autor prefere nos brindar com um lugar comum que ficaria muito bem em um novela das oito.

Recomendo o livro com reservas, a título de puro entretenimento. Acredito que não há nenhum traço no trabalho que faça distinção da obra entre  qualquer outro livro ou filme de suspense no contexto da Segunda Guerra Mundial. Nenhum dos personagens é marcante ou valioso o suficiente para proporcionar um brilho especial à obra. É mais uma das 6 milhões de histórias possíveis da era Hitler, e nem é das melhores.

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terça-feira, 13 de agosto de 2013

A Trégua

de Primo Levi

 por Luiz Dias Bahia

Trata-se de um livro em que o autor descreve os últimos momentos de confinamento em Auschwitz até a volta a sua cidade natal, Turim, e o encontro com familiares e a vida de antes da II Guerra Mundial. Duas revelações são importantes, inicialmente, para entender o livro: primeiro, o título “A Trégua” parece significar o espaço de tempo entre o fim da citada guerra e o início de outra (a Guerra Fria, como o autor mesmo escreve), que não demoraria muito a ocorrer, por seu relato; Primo é um judeu italiano, e bem no início do livro confessa orgulho pela capacidade de resistência do povo judeu às atrocidades e infâmias do anti-semitismo no II Guerra Mundial. Esses elementos, uma vez claros, explicam o fato de ele descrever a “odisséia” da volta a casa como algo sofrido, mas levemente cômico, quase circense, onde o comportamento dos companheiros é descrito sem niilismo, mas de uma maneira sutilmente bem-humorada e humana, com confessa complacência às características pessoais de cada um. Assim, várias cenas e situações nos fazem sorrir, dada a maneira cômica de sua descrição, apesar da penúria e improviso que encerram. Tudo isso faz com que a situação geral angustiante e adversa seja descrita elegantemente, com sutileza incomum, destilando quase uma filosofia suave dos comportamentos variados que aconteceram. Junto a tudo isso, perpassa o relato uma calma de desespero contido, única maneira, talvez, de percorrer tal “odisséia”.

O sentido nacionalista (italiano) que o autor dá a tudo é inegável. Tanto assim que os dois personagens mais importantes do livro (o autor é um espectador “onisciente”, revelando suas sensações apenas no final) são Leonardo e César. O primeiro, médico, extremamente persistente e imune às tarefas árduas por que passa, parece-nos encarnar Leonardo da Vinci. O segundo, impulsivo ao extremo, imbuído dos propósitos os mais inverossímeis e difíceis de realizar, disposto a assumir todos os riscos, mas ao mesmo tempo não delirante, ao contrário, extremamente pragmático (o que o faz dele um vencedor consumado aos olhos de todos), parece-nos encarnar Júlio César, antigo imperador romano.

Finalmente, no fechamento do livro o autor revela o caráter traumático e persistente em sua vida, mesmo depois de ter voltado para casa, que a experiência no campo de concentração deixou na sua psicologia, expressa (mas não apenas) nos pesadelos recorrentes.

É um livro marcante, não como denúncia, mas pela capacidade invejável do autor de superar a violência recente à qual foi submetido e, mesmo assim, construir um relato às vezes cômico (quase circense), às vezes quase desesperançado (dadas as dificuldades), mas sempre em alto tom de lucidez e humanidade. É um belo livro.

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