quarta-feira, 14 de junho de 2017

Um Grão de Trigo - Ngugi Wa Thiong´o

Um Grão de Trigo (1967; edição Alfaguara 2015)
Autor: Ngugi Wa Thiong´o (1938, Quênia)
by Daniela
 



Uhuru Kenyatta foi eleito em 2013 como o quarto presidente da República do Quênia. Quando do seu nascimento, em 1961, seu pai Jomo Kenyatta, liberado após 8 anos de prisão, já liderava as negociações com a Inglaterra para a independência do Quênia,   e lhe deu o nome desta esperança.  A Uhuru viria a se concretizar em 1963, encerrando o período de cerca de 70 anos de colonização inglesa no território kikuyu, combatida de forma organizada desde os anos 20. 
O processo de descolonização do Quênia é o pano de fundo da ficção histórica de Ngugi Wa Thiong´o, escrita em 1967. A história se passa nos dias anteriores à Uhuru, na vila de Thabai, onde os personagens têm suas interações marcadas pelas cicatrizes do período de Emergência (1952 a 1960) que foi decretado pelas autoridades inglesas locais em resposta à rebelião Mau Mau. Os personagens principais (Mugo, Mumbi, Gynkonio,  Karanja, Kihika) carregam, cada um na sua solidão, seus atos de heroísmo, sacrifício e traição. O autor, Ngugi, é da mesma geração de seus personagens e viveu o período de rebelião dos quenianos contra os ingleses, que deixou entre 130 e 300 mil mortos (curiosidade: o avô do Obama passou por um campo de detenção no Quênia).
Kihika cresceu ouvindo dos anciãos de Thabai histórias sobre o Movimento de resistência à colonização inglesa, seus heróis, sacrifícios e feitos. Alguns meses depois que a Emergência foi  decretada e Jomo Kenyatta e outras lideranças do Movimento foram presos, Kihika foi se esconder na floresta, liderando um grupo de rebeldes. Após assassinar o chefe do distrito, Robson, Kihika é capturado e enforcado em praça pública.

“Em verdade, em verdade vos digo: se o grão de trigo que cai na terra não morrer, permanecerá só; mas se morrer, produzirá muito fruto.”
João 12,24 (versículo sublinhado em preto na Bíblia de Kihika)
No dia da celebração da Uhuru, os organizadores da festa na vila querem homenageá-lo e alguns articulam para que seu traidor seja desmascarado publicamente. Mugo, considerado por todos um herói por ter resistido a torturas e greve de fome nos campos de detenção sem entregar ninguém, é convidado a discursar na homenagem, mas se recusa a ir, ele só quer ser deixado em paz. Desde o começo ele queria ser deixado em paz, não acreditava na capacidade do Movimento de se contrapor aos britânicos e só queria trabalhar o seu pedaço de terra. Por isso a raiva de Kihika, do discurso de Kihika e da vez que ele apareceu em sua casa na noite em que assassinou Robson e o tragou para uma causa que não era sua.  Por isso o entregou para as autoridades inglesas.
Mumbi , irmã de Kihika, e Gynkonio viveram o amor nos tempos da Emergência, mas a prisão de Gynkonio por seis anos em campo de detenção abriu um fosso profundo entre os dois. Para voltar para casa, Gynkonio confessa seu juramento ao Movimento, mas encontra Mumbi com um filho de seu maior rival, Karanja. Karanja, que pertencia ao grupo do jovem Kihika, opta por colaborar com os ingleses em troca de migalhas de poder sobre seus iguais, e tem que viver com sua traição particular.
‘De fato, o maior feito de Ngugi no romance é o uso de um conjunto de narrativas múltiplas, nas quais o passado só pode ser representado através da consciência de um grupo de personagens cujas intenções e desejos são tão complexos e conflitados que , no fim, a história do nacionalismo no Quênia se torna um enigma.”  (Simon Gikandi, prefácio)
O ponto de vista do narrador onisciente facilita a construção dos personagens a partir de suas memórias, medos, desejos e frustrações, e essa construção se dá ao longo de toda a trama, em eventos não lineares no tempo. Os fatos, ou a interpretação deles por cada um, vão sendo revelados aos poucos, com maestria. Os inúmeros personagens secundários (tem até uma fitopatologista na história!) colorem a paisagem narrativa e dão uma dimensão do drama coletivo da época. O tradutor optou por não traduzir alguns termos, como  jembe e panga; shamba; shauri, o que dá um efeito interessante ao texto. Curioso também é que no capítulo 14, quando começa a descrição do dia da Uhuru, há uma cena que é narrada na primeira pessoa do plural (p251-253 – nossa aldeia, tecemos, esperávamos, temíamos, nossos corações), que interpretei como um relato testemunhal do autor.
Depois do sucesso do romance, escrito em inglês quando o autor estudava na Universidade de Leeds, James Ngugi (seu nome de batismo) adotou o nome atual e passou a escrever somente no idioma gikuyu. Em 1977, no governo do presidente Jomo Kenyatta, líder nacionalista exaltado em “Um grão de trigo”, Ngugi foi preso por causa das críticas sociais de seus romances e peças em gikuyu. Libertado um ano depois, continuou a ser perseguido e exilou-se nos Estados Unidos, onde vive até hoje, dando aulas na Universidade da Califórnia-Irvine. Em 2004, quando voltou ao Quênia pela primeira vez depois de 22 anos, sua casa foi invadida por três ladrões, que o agrediram e estupraram sua mulher. Os invasores foram presos e condenados à morte.
“Como romancista, é claro que não me interesso por situações em preto e branco, tento ver as nuances das personalidades e da História. “Um grão de trigo” expressava meus sentimentos na época, quatro anos depois da independência, quando eu sentia que muitas metas da luta pela libertação estavam sendo deixadas de lado pelo novo governo pós-colonial. O romance investigava aquele momento, quando não tínhamos uma ideia clara do que estava errado, mas sentíamos que algo não ia bem. Daí a ambiguidade, talvez.” (entrevista do autor na FLIP, 2015)
https://oglobo.globo.com/cultura/livros/atracao-da-flip-2015-escritor-queniano-ngugi-wa-thiongo-fala-sobre-dilemas-da-africa-16036074
O que tem que morrer para germinar?
“Insensato! O que semeias não readquire vida a não ser que morra. E o que semeias não é o corpo da futura planta que deve nascer, mas um simples grão de trigo ou de qualquer outra espécie.”
 Ia Coríntios 15, 36
Disse o Senhor a Moisés: “Vai ter com o faraó e dize-lhe: Assim fala o Senhor, Deixa o meu povo partir.”
Êxodo 8.1

terça-feira, 13 de junho de 2017

Um Grão de Trigo


de Ngugi wa Thiong'o
Por Carlos Guido Azevedo

Romance muito interessante sobre a luta de independência do Quênia. 
Impressiona a simplicidade da abordagem humanística do tema. Não há longas descrições sobre o domínio Inglês e suas barbaridades, elas aparecem muito sutilmente nas descrições da vida de cada personagem, que lutam para dar normalidade e viverem suas alegrias e paixões em um meio hostil e opressor, diante de um inimigo onipresente e armado, capaz de cooptar parte da comunidade e transformar pessoas simples em temidos guerrilheiros. 
A inovação do romance, todavia, vem da forma pessoal de abordagem do tema, com simplicidade e sem expectativa de gerar uma odisseia, a estória é contada passo a passo da luta de libertação do Quênia com os Mau Mau enfrentando a organização inglesa sem armas e sem estrutura, num esforço pessoal de cada cidadão e cidadã que faz o juramento pela libertação, e que se trona a principal preocupação do colonizador. No entanto, não expressa um ódio avassalador sobre o colonizador, que as vezes é descrito até com certa admiração e respeito, em função da força, da tecnologia e da organização. 
Assim, a estória se desenvolve centrada no funcionamento da aldeia Thabai em particular, a aldeia original é queimada, os habitantes são obrigados a construir outra em lugar mais visível em pouco tempo. Os homens são levados para a prisão por longos anos e cada drama da vida das famílias é mostrado de modo quase independente. Como também, os personagens, são descritos em capítulos próprios quase isolados da trama.
A vida comum da aldeia é colocada como pano de fundo da luta pela sobrevivência, mais que luta pela independência. A fragilidade é superada pela criação de heróis e a mitificação dos homens que lutam, como Kihika que fora martirizado pelos ingleses nos arredores da aldeia.
A aldeia Thabai, também precisa honrar seus heróis vivos, mas precisa antes mitiza-los, como se diria hoje, esta necessidade encontra eco na vida sofrida e pouco conhecida de Mugo, o pretenso herói da aldeia que havia lutado ao lado de Kihika, sofrera anos de prisão e não denunciara seus amigos nem sob tortura, em longas jornadas em diferentes presídios.
Mugo estava reconstruindo a vida na sua aldeia, com trabalho duro na sua Shamba, curtindo sua nova cabana e sua solidão, sem buscar nem aceitar elogios. Mas, a aldeia precisa honrar seu herói vivo, que é capaz de falar com Deus e até faz milagres. Mugo é instado a assumir o papel de líder, de herói, na festa da independência, a Uhru, e até fazer o discurso principal, afinal o Quênia estava livre do colonizador inglês. No entanto, ele se nega, peremptoriamente a esse papel.
Durante estes festejos, no dia do Huru, antigos guerrilheiros, comandados pelo General R planejavam expor e executar o suposto traidor que levou Kihika à morte. Eles tinham certeza que fora o Karanja. Ninguém sabia, de fato, quem havia entregue Kihika, mas se desconfiava que, era mais que justo que Karanja fosse morto e assumisse o crime, afinal ele havia traído muitos, trabalhado a serviço de Thompson e, matado muitos companheiros, como se fossem animais. 
Na festa de Uhru, o grande dia da independência do Quênia, a Aldeia comemora em festa animada, mas seus habitantes já desconfiavam que os deputados que substituiriam os colonizadores, não seriam muito diferentes desses e que iriam continuar explorando o povo simples da mesma forma.

Mugo, estava pronto para ser tomado como o herói típico da aldeia, mas em sua solidão, ele curtia uma profunda tristeza por ter em um momento, de fraqueza pela ausência de perspectiva própria de futuro, pela fragilidade pessoal, desejando recompor sua vida financeira, viu o prêmio por informações sobre Kihika como a solução da sua vida e o entregou ao temido Chefe do Distrito, John Thompson.
O ambiente fica muito tenso no momento em que o General R pede que o traidor de Kihika se entregue. Todos ficam esperando que Karanja se entregue e, ele mesmo sabia que poderia ser morto naquele dia e tinha ido à festa aceitando o risco, porque não se via mais naquela realidade da aldeia.
Neste momento, um pouco antes do horário fixado para seu discurso final, Mugo chega e assume a culpa na frente de toda a comunidade gerando um anticlímax e uma mudança significativa de expectativa na comunidade, que mesmo sabendo que seu herói seria morto, não cessa de respeita-lo e expressar sua admiração pela coragem e personalidade de assumir seu erro publicamente. 
Deixando no ar a pergunta: Quem seria capaz de fazer aquilo, se não nosso herói Mugo?
Afinal, como um grão de trigo ele tinha que ser enterrado para renascer como herói.

Indico com louvor.
Mas, informo que não é romance de diversão.
“Na verdade, como lí em meio digital e com muita pressa, tive que refazer a estória mentalmente para poder compreender a sua lógica, que no momento da leitura me pareceu muito desconjuntada”.

terça-feira, 16 de maio de 2017

A PESTE

de Albert Camus

por Claudine Duarte

 “E sabia, também, que viria talvez o dia em que, para desgraça e ensinamento dos homens, a peste acordaria os seus ratos e os mandaria morrer numa cidade feliz.”

A OBRA
Em primeiro lugar, recomendo o livro. Sem restrições.
Albert Camus publicou o livro A Peste, em 1947, reforçando sua luta de jornalista para que as lições da guerra não fossem esquecidas. Lutava contra a indiferença nas páginas do jornal francês Combat.
Escreveu uma alegoria: uma epidemia assola uma cidade da mesma forma que a ocupação nazista assolara a França. E como no final da guerra, a epidemia cessa, a ocupação termina e as pessoas retomam suas vidas apáticas.
Camus foi contemplado com o Prêmio Nobel de Literatura em 1957 e, no seu discurso à Academia Sueca, cabe destacar um trecho:
"Cada geração se sente, sem dúvida, condenada a reformar o mundo. No entanto, a minha sabe que não o reformará. Mas a sua tarefa é talvez ainda maior. Ela consiste em impedir que o mundo se desfaça. Herdeira de uma história corrupta onde se mesclam revoluções decaídas, tecnologias enlouquecidas, deuses mortos e ideologias esgotadas, onde poderes medíocres podem hoje a tudo destruir, mas não sabem mais convencer, onde a inteligência se rebaixou para servir ao ódio e à opressão, esta geração tem o débito, com ela mesma e com as gerações próximas, de restabelecer, a partir de suas próprias negações, um pouco daquilo que faz a dignidade de viver e de morrer. Ante um mundo ameaçado pela desintegração, onde nossos grandes inquisidores tentam estabelecer definitivamente o reinado da morte, ela sabe que devem numa espécie de corrida maluca contra o relógio, restaurar entre as nações uma paz (que não é aquela da servidão), conciliar novamente o trabalho e a cultura, e recriar entre todos os homens uma Arca da Aliança. Não há garantias de que ela possa cumprir essa tarefa imensa, mas é certo de que, em qualquer lugar do mundo, ela já tem o desafio duplo da verdade e da liberdade, e, ocasionalmente, sabe morrer por ele sem ódio."
Essa aliança citada em seu discurso pode ser representada no decorrer da história d'A Peste, onde a cidade de Oran, na Argélia, e seus habitantes sofrem com uma epidemia que não entendem de onde veio e nem mesmo como irá embora. Junto ao médico, Dr. Rieux, uma confraria de outros homens, é criada com intuito de lutar, resistir e debelar o inimigo comum: a peste. A aliança de Oran é formada por Tarroux, escritor; Cottard, contrabandista; Paneloux, padre jesuíta; Grand, funcionário público; Rambert, jornalista; Castel, cientista; e Othon, juiz. Todos eles, ligados de alguma forma ao Dr. Rieux, médico e narrador da história, tornam-se solidários e participam com suas limitações e conhecimentos dos episódios em que a cidade vive e morre durante a epidemia.
A cidade de Oran, construida de costas para o mar, tem uma vida tranquila e cheia de hábitos. Diz o autor, no primeiro capítulo: 'a vida não é muito emocionante, ao menos desconhece-se a desordem.' As pessoas vivem para o trabalho, acumulando riquezas e, com rotina meticulosa, mal tem tempo para as coisas do coração: 'Em Oran, como no resto do mundo, por falta de tempo ou de reflexão, somos obrigados a amar sem saber.' E é nessa cidade que a palavra Peste é pronunciada, com muito espanto, após algumas mortes de cidadãos e de ratos agonizantes. 
"Os flagelos, na verdade, são uma coisa comum, mas é difícil acreditar neles quando se abatem sobre nós. Houve no mundo igual número de pestes e de guerras. E contundo as pestes, como as guerras, encontram sempre as pessoas igualmente desprevenidas. (...) Simplesmente, quando se é médico, faz-se uma ideia da dor e tem-se um pouco mais de imaginação. (...) Números flutuavam na sua memória e ele dizia a si mesmo que umas três dezenas de pestes que a história conheceu tinham feito perto de cem milhões de mortos. Mas que são cem milhões de mortos? Quando se fez a guerra, já é muito saber o que é um morto. E visto que um homem morto só tem significado se o vemos morrer, cem milhões de cadáveres semeados ao longo da história esfumaçam-se na imaginação."
Com a identidade do inimigo reconhecida - a peste bubônica - foi aberto o caminho para que sentimentos anestesiados pela rotina fossem resgatados. Os homens que integram a aliança em torno do Dr. Rieux descobrem, dentro de cada um, a capacidade para redefinir valores e crenças, reestabelecendo relações humanas, com solidariedade e compaixão. O jornalista Rampert, mesmo com chance de fugir ao cerco imposto pela doença, decide ficar e ajudar os demais.
Assim sendo, o livro permite interpretações tanto pela ótica política como por um olhar filosófico-existencial. São produzidas reflexões sobre nossa finitude, nosso amor à vida e, principalmente, sobre nossa capacidade de transformação. São 300 páginas extremamente bem escritas que nos apresentam pensamentos profundos sobre nossa dor, medo e solidão gerados por uma doença ou por algo que nos ameaça e que não podemos controlar.
Com o advento da epidemia, os habitantes de Oran redescobrem a vida, transformam a forma com que se relacionam, laços entre casais são fortalecidos e vários amadurecem ao experimentar a dor da separação de seus entes queridos, seja pela morte ou pelo isolamento. Destaco a cena de amizade entre Rieux e Tarroux:
"É ainda por isso que essa epidemia não me ensina nada senão que é preciso combatê-la a seu lado. Sei, de ciência certa (sim, Rieux, sei tudo da vida como vê), que cada um traz em si a peste, porque ninguém, não, ninguém no mundo está isento dela. (...) E como é preciso ter vontade e atenção para nunca se ficar distraído! (...) É por isso que todos parecem cansados (...) Foi assim que decidi por-me do lado das vítimas, em todas as ocasiões, para limitar os prejuízos. No meio delas, posso ao menos procurar saber como se chega à paz.
 (...)Depois de um silêncio, o médico soergueu-se um pouco e perguntou-lhe se tinha alguma ideia sobre o caminho que era preciso seguir para se chegar à paz.
- Tenho. A simpatia. (...) Sabe o que devíamos fazer em prol da amizade? (...) Tomar um banho de mar.
(...) Durante alguns minutos, avançaram com a mesma cadência e o mesmo vigor, solitários, longe do mundo, libertos enfim da cidade e da peste. (...) Sem nada dizerem, ambos aceleraram os movimentos, fustigados por essa surpresa do mar. (...) Quando viram de longe a sentinela da peste, Rieux sabia que Tarroux dizia para si próprio, como ele, que a doença acabava por esquecê-los, que isso era bom, e que agora era preciso recomeçar. Sim, era preciso recomeçar e a peste não esquecia ninguém por muito tempo."
No último capítulo, o narrador explica o motivo pelo qual decidiu redigir a crônica sobre Oran e sua peste, reafirmando a crença humanista de Camus:
"O velho tinha razão, os homens eram sempre os mesmos. Mas essa era sua força e a sua inocência, e era aqui que Rieux, acima de toda a dor, sentia que se juntava a eles. (...) Decidiu, então, redigir esta narrativa, que termina aqui, para não ser daqueles que se calam, para depor a favor das vítimas da peste, para deixar ao menos uma lembrança da injustiça e da violência que lhes tinham sido feitas e para dizer simplesmente o que se aprende no meio dos flagelos: que há nos homens mais coisas a admirar que coisas a desprezar."

O HOMEM
Segundo Otto Lara Rezende: Aqui está um homem. Um grande homem. Um grande escritor. Um escritor torturado pelos problemas e pelas indagações que o acompanham por toda parte. (...) Jornalista combativo e combatente, Camus tomou parte da Resistência. Nascido em Argel, transferiu-se em 1940 para a França e seu nome de lá se irradiou por toda parte. Ex-militante político, tendo sido membro do Partido Comunista, Camus viveu inflamado pela paixão da Justiça. Espírito polêmico e independente, de certo modo foi um solitário.
Ficcionista, publicou, entre outras obras: O Estrangeiro, A Peste e A Queda. Ensaísta, é autor de O Mito de Sísifo. Dramaturgo, cabe ressaltar peças de sua autoria: Calígula, O Mal-entendido e Estado de Sítio, quase como uma adaptação de A Peste para o teatro. Também produziu uma adaptação do livro Os Possessos, de Dostoiévski, em peça homônima desenvolvida em 3 atos.
Morreu em janeiro de 1960, num acidente de carro, ironicamente com o bilhete do trem no bolso... num trecho de A Peste, Rieux anota "Apostavam no acaso, e o acaso não pertence a ninguém".

segunda-feira, 15 de maio de 2017

A PESTE


de Albert Camus
por Carlos Guido Azevedo

Resistente a leitura de qualquer dos livros de Camus e de outros existencialistas, fui induzido por Claudine a superar minha relutância, que tem base na consciência da incapacidade de resistir aos encantos desses escritores que tendem a menosprezar o valor da vida, da fé e do destino do homem. Assim, tenho evitado lê-los, como evito o cigarro e a outras substâncias.
A Peste foi uma grande surpresa, um clássico onde a vida fez sentido e a morte foi tratada com respeito e dignidade. Naturalmente, por instinto, assumo algum personagem durante a leitura, desta vez foi o jornalista Rambert, acho por similaridade, com minha síndrome de “não sou daqui, nem vim pra ficar”, que me invade em cada lugar diferente que tenho morado, nessa minha vida meio nômade.
Conhece Oran? Vai se familiarizar com ela fácil, é a cidade atacada pela epidemia. Qualquer um pode ver, sentir os cheiros, a poeira e os barulhos de Oran descritos por Camus, através de poucos e certeiros traços escritos com sensibilidade. Afinal, para travar conhecimento com uma cidade, “basta saber como se trabalha, como se ama e como se morre nela”. Oran foi fechada, atacada pela peste negra, ninguém podia sair ou entrar na cidade, seus habitantes tiveram que viver a circunstância de “apartados do mundo”.
O sentimento de isolamento é que faz Oran universal ao transformar todos os moradores em “separados”. É aí que o leitor se descobre em Oran, lá, “como no resto do mundo, por falta de tempo e de reflexão, somos obrigados a amar sem saber”.
O cronista, Dr. Bernand Rieux, no olho do furacão não se faz herói ou observador onisciente, economiza personagens, toma emprestado anotações de outros, mas observa os habitantes em grupos com maestria, eles é que demoram a se perceberem no coletivo. Diante do perigo, tentam negá-lo, fugir, transferir a responsabilidade para outros, tentam toda espécie de fuga, até encararem a tragédia de frente e viverem o melhor possível, diante das circunstâncias.
Jean Tarrou, cujas anotações apoiam Rieux, observa os comentários da população e anota em seu caderno, pensamentos tipo: “Pergunta: Como fazer para não se perder tempo? Resposta: Senti-lo em toda a sua extensão. Meios: Passar os dias na sala de espera de um dentista, numa cadeira desconfortável”; e dá outras formas de se prestar atenção ao tempo. Aliás, o tempo é um dos assuntos mais marcantes do livro, como se arrasta, se acelera, passa desapercebido ou toma velocidade de vendaval em função das circunstâncias ditadas pela epidemia, pela natureza e pelo estado de espírito do observador. Tarrou, ajuda Rieux em todas as tarefas e faz uma amizade tão sólida que acaba morando na sua casa e lá falecendo como uma das últimas vítimas da epidemia.
Raymond Rabert o jornalista tomado de surpresa pelo fechamento das portas da cidade enquanto fazia uma reportagem, representa bem os pensamentos do separado, impedido de ir ao encontro marcado com a amada, não se sente minimamente pertencente a cidade e busca fugir de todos os modos legais ou não. A grande questão da peste na cidade, parece ser esmaecida pela problemática humana da apartação, da separação do ser amado, das dúvidas sobre se, se continua sendo amado, dada a distância, a própria vida da amada, as circunstâncias que ela vive longe, se ela ou ele ainda é a mesma ou se transformou em outa pessoa, são questões que vão envolver todos os separados. Sem qualquer julgamento Rieux vai aconselhando Rabert em cada etapa de suas tentativas de fuga, e este acaba se sentindo útil, fazendo amizades e colaborando corajosamente na luta contra a epidemia.
A todo instante vemos demonstrações de amizade entre as pessoas que emocionam e revelam a verdadeira humanidade do texto, as caminhadas em grupo para visitação de doentes, o desprendimento de pessoas simples que se dedicam a apoiar, organizar dispensários, isolamentos e até o própria funcionamento da cidade, lutando para buscar a normalidade, fazer funcionar as repartições, o comércio e a vida afinal, diante de tantas restrições, limitações e agruras. As famílias parecem se unirem mais, os bairros ganham características distintas se harmonizam, dialogam, estão todos dentro do mesmo caldeirão.
Joseph Grand o empregado da Câmara um funcionário dedicado à burocracia, parece o mais comum e sem méritos dos seres, frágil e insignificante, até que aos poucos vai se dando a conhecer e se revela “um dos raros homens que tem a coragem de assumir seus sentimentos”. Um apaixonado pela escrita e pelo dever, centrado em esculpir um único parágrafo do seu futuro livro, para o qual os críticos iriam tirar o chapéu.
Cottard o empresário, suicida frustrado, procurado pela justiça que torce pela doença, a Peste é sua salvação. Com tudo fora de ordem não haverá pressa em lhe mandar prender e acompanha com desenvoltura o crescendo da doença, colaborando em tudo, mas parece torcer para que nunca se acabe, enlouquecendo quando sente que o seu final vai chegando.
Mas, de todos os personagens o mais marcante para mim, por questão de religião, foi o padre Paneloux, tribuno carismático que expressa a busca de compreender a epidemia, primeiramente, interpreta a peste como a ira de Deus contra os pecados da cidade, querendo que todos se penitenciem, peçam perdão, porém, acompanhamos sua transformação depois de assistir ao sofrimento e morte de uma criança, o filho do juiz. Paneloux faz um novo sermão e recoloca os seus pensamentos de incompreensão e dúvidas, quando o fatalismo e o existencialismo se apresentam e levam Paneloux a se entregar a doença não como um mal, mas como um benefício enviado por Deus, já que em seu raciocínio se devia “aceitar tudo ou negar tudo” e ele não queria negar tudo e acaba se contaminando e morrendo com a doença.
Há muito o que se falar e sobretudo o que se pensar a respeito desse instigante livro, desde a sua originalidade, a erudição do autor, os inusitados pontos de vista que clareiam ângulos diferentes de uma mesma estória, o ressalto à amizade entre os homens, como sentimento mais forte de superação de dificuldades, elo de enfrentamento e crescimento da emoção, respeito e coragem para enfrentar a fraqueza coletiva.
Conclui o livro com a síntese: “Sabiam agora que, se há qualquer coisa que se pode desejar sempre e obter algumas vezes, essa qualquer coisa é a ternura humana...” e avança em seu niilismo “e aos outros que buscaram por cima do homem..., não houvera resposta...é justo que, vez por outra a alegria viesse a recompensar os que se contentam com o homem e seu pobre terrível amor”.

Gostei muito e recomendo com louvor.
Mas preciso ter cuidado.

terça-feira, 11 de abril de 2017

CONTAR TUDO

de Jeremias Gamboa


por Cristiane Vianna Rauen


Contar tudo é um livro sobre o penoso processo criativo de um jovem escritor da periferia de Lima. Nas 531 páginas de sua redação muito bem escrita, Gabriel Lisboa nos conta toda a trajetória que percorreu durante dez anos de sua vida para finalmente escrever o seu primeiro romance.
A narrativa se inicia no verão de 1995 quando o tio de Gabriel, Emilio, também seu pai adotivo, consegue uma entrevista de emprego num periódico oposicionista de nome Proceso. Impressionado pelo fato de Gabriel estudar numa das universidades mais prestigiadas de Lima e ter uma bolsa integral por desempenho acadêmico, Francisco De Rivera concede ao rapaz o emprego. De Rivera é apresentado, então, ao leitor como a primeira influência ao jovem escritor, assim como seu colega de trabalho e mentor, Saúl Vegas.
Em sua primeira experiência de trabalho, na Proceso, Gabriel se especializa e passa a alcançar cada vez mais destaque como jovem jornalista. O ofício lhe permite aprimorar sua capacidade de redação, lhe traz prestígio e ascensão. No entanto, Gabriel sente que ainda precisa escrever.
É nesse momento, na universidade, que conhece sua maior influência no processo criativo, Santiago Monteiro, o seu amigo poeta. Monteiro o convida a participar das aulas no curso de Oficina de Poesia. A partir de então um novo mundo abre-se diante de Gabriel e muitas novas influências surgem em sua vida, como Jorge Ramírez Zavala, também poeta, e Bruno Lorente, o Spanton.
Nas férias de verão seguintes, já cansado do ritmo e da falta de pagamento de salários da Proceso, Gabriel consegue emprego no periódico La Industria, para onde também tinha sido transferido De Rivera. Gabriel passa por algumas seções do La Industria até alcançar o cargo de redator da revista de seu maior interesse, a Semana, cujo editor era o próprio De Rivera. Na Semana, Gabriel atinge destaque e projeção com suas matérias até o momento em que é convidado a assumir o posto de editor do periódico.
Esse poderia ser o início de uma promissora carreira jornalística para nosso protagonista, no entanto, é nesse momento que o romance tem sua reviravolta. Gabriel torna-se um excelente editor da Semana, administra uma grande equipe, executa fechamentos irretocáveis, porém sente-se completamente frustrado e perdido.
Inicia-se o período negro da vida de Gabriel, que envolve-se cada vez mais com bebidas, drogas, noites mal dormidas e uma insatisfação e ausência de sentido em seu trabalho.  Quando o caminho parecia não ter mais volta, Gabriel se atém ao seu maior desejo, escrever, e decide demitir-se na edição da Semana para se dedicar integralmente à redação de seu livro.
Sem emprego, vivendo apenas das economias que seus trabalhos anteriores haviam lhe proporcionado, Gabriel enfrenta novamente o bloqueio criativo que o angustia durante toda a narrativa. A necessidade o obriga a dar aulas no curso de Expressão Escrita na faculdade, convite feito pelo editor dos livros de seus amigos Monteiro e Zavala, Jaime Estrada.
É nesse curso que Gabriel conhece Fernanda, a primeira pessoa que Gabriel sente amar realmente e que o influencia das mais diversas formas, transformando definitivamente sua vida.
 A história de Gabriel mostra que o processo de produção da escrita é difícil, inconstante, insólito - apesar de ancorado em influências diversas, e muito particular. Enquanto seus amigos já produziam materiais publicáveis, o jovem permanecia paralisado, inerte, preso a traumas perturbadores detalhadamente descritos na obra. Até que, finalmente, sem razão certa, ou motivo aparece, consegue desabafar de uma só vez e nos contar tudo.
Um livro extenso, de fácil compreensão e leitura, que prende a atenção do leitor e nos faz imaginar, em diferentes momentos, que o excesso de “verdade” e de detalhes nos relatos do narrador pode se dever, em certa medida, a uma autobiografia disfarçada.
Minha opinião: recomendo.


segunda-feira, 10 de abril de 2017

Contar Tudo


de Jeremias Gamboa
por Carlos Guido Azevedo

Jeremias Gamboa ou Gabriel Lisboa, como se denomina no livre, quase autobiográfico é um jovem escritor peruano que tinha muita dificuldade de escrever. Sofreu dez anos de bloqueio psicológico para conseguir realizar seu sonho de se tronar escritor e “escrever algo” para sua vida, como um livro que o tornasse famoso.
Embora desenvolvendo todas as competências intelectuais para atingir seu intento, tornando-se um competente jornalista, chegando a dominar todas as fases de elaboração de algumas revistas e, mesmo construindo uma sólida formação intelectual dentro da boa Universidade de Lima, tendo frequentado diversos cursos e chegado mesmo a ensinar em diversas cadeiras as técnicas de redação, Gabriel Lisboa não conseguia assumir a responsabilidade de “escrever algo”.
Tendo, afinal, aprimorado sua capacidade incomum de perceber e descrever ambientes e pessoas em diferentes matizes dos subúrbios de Lima e identificado situações e costumes inusitados através de crônicas centrais das revistas, que lhe renderam sucesso no meio jornalístico, mas, mesmo assim, Gabriel sentiu que o jornalismo não o realizaria e abandonou radicalmente a profissão.
Integrado a um grupo de neófitos pensadores e potenciais escritores e poetas, um pouco de loucos, um pouco de artistas e muito de imaturos e inconsequentes com a vida e suas responsabilidades, Gabriel encontrou o ambiente adequado para esconder suas restrições psicológicas, sua insensatez com a vida e principalmente fortalecer sua afetividade numa relação de dependência e sujeição afetiva que o faria sempre caudal e dependente dos “monstros” como se chamavam os adeptos da confraria em seus “Conciliábulos”.
A absoluta imaturidade dos monstros está longamente definida nas dificuldades de todos no relacionamento com o sexo feminino e na dificuldade da entrega afetiva de cada um, quando por sua vez, vão encontrando suas parceiras e deixando o nosso herói cada vez mais só, a cada finalização de romances que lhe ocorriam e quando ia em busca de apoio e explicações para cada uma das suas frustrações com Cecília, Cláudia, Fernanda, etc.
Pois bem, depois de quase dez anos de bloqueio, mesmo detendo todas as competências específicas para a realização do seu intento, Gabriel só se sente capaz de buscar seu objetivo de tornar-se um escritor, quando afinal, abandonado pelos amigos, curtindo a traição de Fernanda, viu sua turma evadir-se, seu dinheiro sumir e a idade dos trinta chegar.
Afinal, encontra seu tema perfeito, ele mesmo e sua trajetória até aquele momento de superação, senta e começa a escrever, sua própria viagem de dez anos à Jack Kerouac em On The Road, e o faz com tanto empenho, com tal verve, tal dedicação que conta tudo em seus mínimos detalhes, esgotando a paciência de qualquer leitor com suas 530 folhas de eventos absolutamente insignificantes, numa reedição medíocre de Marcel Proust em Busca do Tempo Perdido.
Ficando o leitor extenuado e insatisfeito sem encontrar nele, as inovações descritivas do Kerouac ou a qualidade da escrita e do deslumbramento de Proust.

Recomendo, exclusivamente, para colegas que querem ser escritores e passam por dificuldades de criação.