terça-feira, 9 de setembro de 2014

O SORRISO DO LAGARTO

de João Ubaldo Ribeiro
Nova Fronteira, 1989

por Claudine Duarte

“Não tem nada de desilusão nem de trauma, Monteirinho. De fato, posso ter feito um pouco de literatura ainda agora, mas isso você já conhece, é apenas um jeito que eu encontrei de enfrentar a mim mesmo, é como se fosse um exercício de sobrevivência, não sei bem como, mas tenho certeza que é isso. Eu sou isso mesmo que lhe disse, sem tirar nem por. Aliás, sou pior, sou pior, eu sei que sou bem pior, tão pior que nem quero esmiuçar tudo. E ainda pior por causa da desesperança, hoje eu não tenho esperança em nada, acho que meu destino individual e nosso destino coletivo são os mais desalentadores possíveis, geralmente não aguento saber o que está acontecendo, sem ficar fora de mim e com vontade de berrar. Não é cristão não ter esperança, é como se fosse uma danação.”  (João Pedroso)



    
Em tempos de despejar votos em urnas eletrônicas e na esteira dos ecos dos movimentos que demonstraram a insatisfação popular com governantes e desgovernados, a leitura d´O Sorriso do Lagarto, do João Ubaldo, teve um tempero extra. Acompanhar os pensamentos desiludidos do João Pedroso envolvem – e revolvem – inquietações atávicas de nossos sentimentos como cidadãos brasileiros e, intrinsecamente, de seres humanos.


    No romance, Ubaldo nos presenteia com um excelente primeiro capítulo, contando com a maestria dos melhores escritores consegue apresentar alguns dos personagens que, ao longo das próximas 300 páginas, desfiarão seus temores e artimanhas pelas ruas e praias da ilha baiana de Itaparica.


    Aqui, descobrimos que João Pedroso tem um barco, uma peixaria, vários medos e angústias, muito estudo e gratidão ao destino que o levou a largar a vida de biólogo. Também somos apresentados ao “metrossexual” Ângelo Marcos Barreto, médico e político, que entre potes de cremes e colônias, empunha um incrível secador-escova importado, revive as dores de hemorroidas clandestinas e relembra seu caminho de escalada ao poder com a adesão ao partido de direita da época, a ARENA. Nessas páginas iniciais, conhecemos Ana Clara, atual e segunda esposa de Ângelo Marcos, descrita por ele como uma mulher bonita, dona de academia de ginástica para mulheres, “dondoquinha boa, das inofensivas, que conversam bem e não causam mal-estar em coquetéis” e, por ela, ao longo de uma longa conversa com sua fútil amiga Bebel, como uma mulher em processo de mudança e decidida a trair o marido, namorar outro ou, ainda, outros homens como projeto pessoal e filosofia de vida. Ainda no primeiro capítulo, por uma longa conversa de João Pedroso conhecemos Dr. Lúcio Nemésio, médico e administrador do hospital da ilha, que se mostra admirado com os nativos e sua capacidade de sobrevivência, ou seria convivência, a um sem número de vermes e parasitas.


    Nesse ponto uma pausa para contar que o autor nos brinda com erudições literárias, como por exemplo, no momento em que Ana Clara, ao decidir trair o marido, se compara a personagens marcantes como Lady Chatterley de D. H. Lawrence e a Molly, mulher do Bloom em Ulysses de James Joyce.

“Não, não, tipo Molly Bloom, escrachado mesmo, claro que sem um milionésimo da vivência de Molly, igual a ela só mesmo isso de estar aqui, espichada numa cama, pensando as coisas mais loucas a mil por hora, se bem que com pontuação e parágrafos mais decentes(...)"


    Enquanto seu marido, tem ataques megalomaníacos e igualmente eruditos:

“(...) o Secretário do Século. Não, não, não soa bem, a outra versão é bem melhor: o Administrador do Século. Melhor, muito melhor, por aí. Tinha de ter “século”, disto ele fazia questão, até porque não deixava de ser verdadeiro, sob muitos aspectos, inclusive o dinamismo. E depois, Goebbels, o grande Goebbels – ou senão Hitler, um dos dois – já recomendava esse tipo de grandiloquência, funcionava, era eficaz para empolgar as massas, é indispensável pensar grande e falar grande.”


    Ao longo dos próximos capítulos, com uma narrativa ágil e intrincada, João Ubaldo escreve na terceira pessoa tirando bastante proveito do olhar de um narrador onisciente que, em vários momentos e de forma gentil, cede seu lugar para que os personagens apresentem seus pensamentos e pontos de vista. Com seu estilo característico, o autor adota o humor, às vezes leve e muitas vezes corrosivo, em trama recheada de clichês e diálogos inteligentes, enquanto passeia com tranquilidade por temas que variam de reflexões teológicas e conflitos metafísicos a comportamentos sexuais, éticos e sociopolíticos.


    Talvez a adoção do humor seja um caldo em que fique menos intragável a leitura de um livro cujo tema central é o Mal. O Sorriso do Lagarto, pelo próprio autor “é um livro que lida com a má administração do tempo que a humanidade passa na Terra. Acho que escrevi, sim, um romance sobre o mal, que fica transparente na atitude de uma grande parte da classe dominante brasileira – ela detesta nosso país, ela detesta o que nós somos e acoberta todas as violências: a mortalidade infantil, a violência nas cidades, a miséria. Quis escrever um livro sobre o adversário que existe em cada um de nós, sobre a figura de Santanás.”


    A história se inicia na época da soalheira em Itaparica, terra natal de João Ubaldo, com o angustiante encontro de João Pedroso com um lagarto de duas caudas que sorri e o deixa arrepiado como que prenunciando algo ruim. A trama segue, cronologicamente, por quase um ano até finalizar com um límpido céu azul, típico de pós-chuva, com o lagarto ainda sorrindo amedrontadoramente. A ilha tem uma importância estrutural na obra, como espaço social e também como espaço psicológico, pois os principais personagens estão lá por situações que remetem a fugas existenciais, algo como exílios egoístas e quase distópicos. Dos moradores locais, também se depreende que o local não está livre das doenças e misérias que assolam a raça humana:

“Aqui na ilha, se morre de tudo, não tem essa conversa de que aqui não acontece certas mortes – disse Mero Doido, que desde as cinco horas estava fazendo um levantamento dos mortos ligados ao Mercado e das causas de suas mortes. – Você não diz uma doença, inclusive das mais modernas, que alguém aqui não tenha morrido. Até umas doenças que não são nem bem doenças aqui se morre, como Galo Cego, que teve uma espinha no nariz que foi virando câncer e comeu a cara dele toda e ele morreu fedendo e com a cara toda comida. Isso de uma espinha.”


    Um pequeno resumo da obra poderia conter a afirmação que a ilha abriga, temporariamente, o casal formado por Ângelo Marcos e Ana Clara. Ele, um político corrupto e bissexual, convalescendo de um câncer anal. Ela, uma entediada dondoca que resolve trair o marido com João Pedroso, de onde nasce um relacionamento recheado de cenas sensuais e os conduz a  uma forte paixão. Em paralelo, porém centralmente, uma alegoria da personificação do mal que persiste no interior dos seres humanos, presente no cínico vilão Lucio Nemésio, médico que colabora com pesquisadores estrangeiros produzindo criaturas híbridas. João Pedroso denuncia essa experiência genética e é desacreditado pelos poderosos do local não sem antes discutir sobre as fronteiras da ética e da ciência com o médico, que se revela um vilão digno de histórias maniqueístas. Lucio Nemésio representa aqueles seres que envergonham a raça humana, utilizando a evolução (evolução?) de seu conhecimento de forma amoral impingindo a semelhantes, mulheres negras, as degradantes condições de gerar filhos de macacos... as criaturas:

“Alma, novamente? O que é alma? De qualquer forma, sendo animal e não homem, a criatura, segundo os que acreditam na alma, não tem alma. E mesmo levando-se em conta esse argumento de Deus e da evolução, não há nada no projeto que contrarie, tecnicamente, Deus e a evolução, muito bem.”


“Esse negócio de consulta é outra balela supersticiosa. Ninguém devia ser consultado, ninguém entende o suficiente do assunto para orientar essas decisões. Nada é mais ridículo do que a chamada massa ignara opinar sobre o que não entende, sobrepondo-se à opinião de quem entende. É a mesma coisa que essa patifaria mediocrizante e demagógica, que é deixar estudantes e funcionários analfabetos elegerem reitores, chefes de departamento e professores. A democracia é uma farsa e você sabe muito bem disso. O que é que um presidente eleito entende dos assuntos sobre os quais decide - física nuclear, energia elétrica, transportes, agricultura, finanças públicas etc. etc. etc.?”


    Além dos personagens introduzidos no início do livro, também são destaques para a trama ficcional o Padre Monteirinho, o curandeiro Bará da Misericórdia e o pistoleiro Boaventura. 


    Bará é quem primeiro tem contato com as aberrações e as fotografa, partilhando suas preocupações éticas com o padre e depois com João Pedroso. Sua linguagem é, deslocadamente,  estruturada e muito culta como, por exemplo, quando se apresenta e fala sobre seu trabalho de curandeiro ao Padre Monteirinho:

“(...) Muito tempo decorreu antes que me desse conta da inutilidade de resistir a tais acontecimentos, mas fui obrigado a render-me à inexorabilidade do destino, ou como quer que se chame esse apelo, ao qual, se não fosse a pretensão inaudita contida em tal paráfrase, reagiria com a mesma frase do Mestre: Afasta de mim este cálice. (...) Creio em Deus, sim, porque creio no Bem. Mas creio também no Mal e que não me peçam resposta para a mais vexatória questão teológica, a meu aviso aquela que pergunta se, havendo Deus, o Bem, criado tudo, como também haverá criado o Mal?”


    Monteirinho, um depressivo padre, que dependia do isolamento e degredo que a ilha proporcionava para fugir de tentações carnais e mundanas, é transferido para outra paróquia após seu envolvimento com as denúncias de João. No final do livro, ao retornar para buscar “umas coisas”, tem um importante diálogo com Lúcio Nemésio:

“(...) O Senhor não acha terrível criar-se um híbrido do ser humano com um animal e, ainda por cima, chamar esse híbrido de ‘apenas um novo animal’?”

“- Eu vejo nesse híbrido e em outras coisas do mesmo tipo a rejeição do homem de sua semelhança com Deus. Eu vejo o poder, tantas vezes corrupto, como é no Brasil, perpetrando cada vez maiores monstruosidades e se perpetuando de forma hedionda.”


    Boaventura reforça os clichês do livro:  o matador, agora um rico fazendeiro em Goiás (precisava ser em Anápolis?), tem um romance há muitos anos com Ângelo Marcos, o marido traído, sendo os encontros entre os dois representados de forma tão quente e picantemente detalhada quanto as cenas de sexo entre João Pedroso e Ana Clara. Ao descobrir o romance, o marido traído contrata o pistoleiro, seu amante, para matar o amante da esposa... que estava grávida do amante e que, convenientemente e novelescamente, perde o bebê ao cair de uma escada durante uma briga com o marido traído. Ana Clara, ao acordar no hospital e, sabendo que abortou e constatando o “desaparecimento” de João Pedroso, enlouquece e adota a personalidade de Suzanna Fleishman, uma figura meio que alter-ego criada para, esquizofrenicamente, contar suas aventuras amorosas – seus diários como sementes de um futuro best-seller.  


    Na véspera de sua morte, João Pedroso desabafa parte de suas novas compreensões com Padre Monteirinho:

“Estive pensando que realmente esse negócio de nós acharmos que o homem é o filho dileto de Deus é de uma insolência monumental. Por essência, não somos filhos diletos de coisa nenhuma, somos o que nós nos fizermos, aquilo que fizermos de nós mesmos. (..) Acredite, Monteirinho, o lagarto vai sorrir. O homem é por definição um ser moral e, quando ele deixa de ser um ser moral, ele só pode alegar ser filho de Deus latu sensu. À imagem, mas não à semelhança. Acredite, rapaz. Ele está indiferente, o problema é nosso. Além disso, Ele é atemporal, logo todo tempo para Ele é presente, o tempo também é um problema nosso.”


    Depois da conversa com seu amigo e na espera do momento de reencontrar Ana Clara, João revela os principais pontos que abordaria no livro que pretendia escrever, a menos de duas páginas de ser baleado por Boaventura:

“(...) já traçara um plano de pesquisa bibliográfica e começara a anotar alguns temas e ideias, por enquanto desarrumadas. O poder político e econômico sobre a evolução das espécies, notadamente a humana. Se o homem controla a evolução, esta será ditada pelos que detêm o poder. O poder sabe o que é melhor para a espécie, ou sabe apenas o que é melhor para ele a curto prazo?(...) Predeterminação de aptidões. O plano do governo estabelece quotas, com base em projeções estatísticas, para preencher adequadamente as necessidades futuras de mão-de-obra. Nas economias de livre iniciativa, os pais vão estudar essas projeções e investir na feiura dos filhos com aptidões mais lucrativas. Varias maneiras de usar tudo isso para acabar de estropiar o Terceiro Mundo. Pools genéticos superiores monopolizados, como os das galinhas de granja, (...). Países ricos com gerações perfeitas e nós cheios de tudo quanto é problema de saúde geneticamente condicionado e comprando os remédios e geringonças deles para nos tratar.”


    O livro O Sorriso do Lagarto (1989) ecoa provocações de outras obras de ficção científica que tratam de manipulações genéticas, tais como A Ilha do Dr. Moreau (1896), de H.G. Wells, Admirável Mundo Novo (1932), de Aldous Huxley e Os Meninos do Brasil (1976), de Ira Levin: O que é um ser humano? Qual o seu valor? O que é moral? Até onde é eticamente viável o que é cientificamente possível? Há um limite para o desenvolvimento humano?


    Nas obras citadas acima, é possível encontrar a mesma mensagem de desesperança com a humanidade, com o que o homem faz com suas possibilidades em seu tempo presente e, consequentemente, com o seu futuro. Tal como Wells, Huxley e Levin, João Ubaldo escreveu uma história atemporal, onde constata a opção da degradação moral da humanidade pairando universalmente sobre, entre e dentro da própria humanidade. O sorriso do lagarto nos ameaça com um profundo sentimento de falta de saída ou nos alerta para adoção de outros caminhos?

   Identificação? Sim. Com os medos de João Pedroso e de Padre Monteirinho. Com a licença do Drummond: 
 
“Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
Não cantaremos o ódio porque este não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte.
Depois morreremos de medo e sobre nosso túmulos nascerão flores amarelas e medrosas.”
  
    Recomendo? Sim. Para ler sem restrições, paradoxalmente, com alguma dose de humor desesperançado e o medo disponível, à vontade.
 

terça-feira, 12 de agosto de 2014

A COSTUREIRA E O CANGACEIRO


 

France de Pontes Peebes

Nova Fronteira

por Mônica Dias


Classificação do texto: romance
Tempo em que acontece: século XX de 1928 a 1935
Espaço: sertão de Pernambuco, Recife

Sem dúvida um relato sem igual da ambientação do romance, de forma que é táctil para o leitor toda a aridez de um serão que vem sendo descrito, contado mas que no fundo continua o mesmo desde o inicio dos tempos até pelo menos em 2012 (ano em que eu estive pela última vez na caatinga).

Existe uma riqueza descritiva do ambiente, da caracterização dos personagens. A autora consegue fazer-nos transportar para dentro da historia, para sentir toda aquela frieza da sociedade recifense e tb a caatinga. A dualidade permeia tanto os personagens quanto as circunstâncias que cada um vive. Tudo costurado.

Também antecipa detalhes futuros  penso que com objetivo de prender a atenção do leitor, embora o enredo por si só consegue este objetivo.

Grandes temas:
-       consciência do bem e do mau (nem tudo é só bom ou só mau)
-       mudança das regras sociais
-       força e inconformismo das regras sociais
-       acordos tácitos das relações
-       as escolhas de cada um
-       o local de origem, os laços familiares e o feminino manifesto de forma particularizada de cada uma das irmãs


Recomendo o livro com louvor. 9

Coerência temporal
Insere dados históricos de forma coerente
Personagens
Formação nordestina baseada em valores
Qual delas é a costureira? Tendo em vista que o título original é “A costureira”
Narrativa é uma costura perfeita de pontos amarrados e avesso perfeito
Narrador onisciente do entorno de cada um que descreve (tem liberdade narrativa deste PDV)
Costura determinava o entendimento de cada uma da realidade.

terça-feira, 8 de julho de 2014

O CAMINHO DE IDA


Autor: Ricardo Piglia
Editora: Companhia das Letras, 2014

Resenha em 29 de junho de 2014, por Virginia de Vasconcellos

Este romance de Piglia mescla de forma singular elementos autobiográficos e princípios do gênero policial-detetivesco. O enredo se desenrola nos Estados Unidos, mais precisamente num campus universitário, na década de 1990.

Na primeira parte do livro, vemos a partida do Professor Emilio Renzi de Buenos Aires e a sua despedida de uma vida sem sentido. Em seguida, a sua chegada numa universidade americana de renome, onde deverá ministrar um Seminário sobre literatura.

O professor Renzi é considerado um alter ego do autor e protagonista habitual de outras suas novelas.
Aqui estão os elementos biográficos: Renzi é nascido em Adrogué, como Piglia. É especialista em literatura, como Piglia. E Piglia, é profundo conhecedor de universidades americanas, pois lá residiu durante quinze anos.

Na novela, tudo começa quando Renzi é convidado pela Ida Brown, uma estrela do mundo acadêmico, “sedutora e polêmica” Diretora do departamento. Com ela inicia um affaire, um caso, uma relação clandestina que o enleva.

Entretanto, a esperança de uma aventura renovadora para Renzi é cortada quando incidentes aparentemente inexplicáveis culminam na trágica morte da professora Ida em um acidente. O corpo é encontrado num carro, com a mão queimada.

Este acontecimento marca o início da segunda parte da história, quando então se inicia a trama detetivesca.  A endogâmica vida do campus é alterada. Suspeita-se que a morte de Ida esteja conectada com uma série de atentados contra eminências do mundo acadêmico, ligadas a tecnologias e pesquisas científicas.

Na medida em que a narrativa avança, surge a figura do autor dos atentados -Thomas Munk – um brilhante matemático que se afastou da carreira e do mundo contemporâneo. 

Este complexo e interessante personagem é amplamente inspirado no UNABOMBER - lendário terrorista americano que, de fato, cometeu dezesseis atentados a bomba desde 1978, conseguindo matar três pessoas e ferir ou mutilar outras vinte e três, numa guerrilha individual contra o “estado corporativo”. Em 21 de abril de 1995, Unabomber fez acompanhar um dos ataques de um manifesto de 62 páginas, intitulado “A sociedade Industrial e seu futuro”. Por recomendação do FBI, The Washington Post publicou este manifesto em 19 de setembro de 1995.[i] Esta é a realidade inspiradora da trama desenvolvida por Piglia. É uma representação ficcional da vida de Theodore John "Ted" Kaczynski, o verdadeiro nome do Recycler, um matemático excepcional de Berkeley.

Na realidade, o matemático "Ted" Kaczynski, no seu Manifesto, “exigia nada menos que uma revolução global: destruir não os governos, mas as bases econômica e tecnológica da sociedade atual”. Foi preso em abril de 1996, reconhecido e denunciado pelo irmão, conforme descrito por Piglia.[ii]

Na ficção, Renzi não suporta a dúvida se Ida Brown foi colaboradora ou vítima - e contrata um detetive de Nova York para elucidar a questão; e, finalmente, acaba por empreender uma viagem para visitar o Thomas Munk na prisão.

A meu ver, o autor não desvenda o mistério de Ida, e nem parece ser este o ponto central do livro.
Antes de tudo, coloca em exame a violência. Apresenta uma história de terror contra a tecnociência, contra a sociedade industrial, se alimentando dos fatos vividos pelo UNABOMBER.

Embora considerando que tudo neste romance se correlaciona e se constrói desde a literatura, a exposição da violência e o questionamento da sociedade industrial são os temas explosivos e centrais.

O narrador é o personagem Emilio Renzi que conta a história na 1ª. pessoa. A estrutura da narrativa é lógica e fascinante e tem um ritmo envolvente. Segundo comentarista Andrés Russo, “Renzi vai tecendo a relação entre o quotidiano, a autobiografia e a crítica literária” [iii]

O personagem de longe mais interessante fica com Thomas Munk que é imaginado e idealizado com base no retrato do Kaczynski, que, pela Wikipédia, permanece vivo e preso.

Se há intenção do autor em deixar uma mensagem subjacente, poderia ser encontrada na citação seguinte:
“Os campus são pacíficos e elegantes, estão pensados para deixar de fora a experiência e as paixões, mas correm embaixo altas ondas de cólera subterrânea: a terrível violência dos homens educados”

Em conclusão, recomendo o livro com entusiasmo, ainda que o Thomas Munk, a meu ver o mais fascinante da novela, demore um pouco a chegar.

Em tempo:
Curioso observar que o título do livro, nesta edição em português, é publicado todo em letras maiúsculas, não deixando que o leitor perceba que Ida é um nome próprio. Esse artifício levar a pensar que existe um Caminho de ida assim como um Caminho de volta. Neste sentido, é bom lembrar que este livro marcou o regresso definitivo do autor ao seu país. Foi o caminho de volta do Piglia à Argentina.





[i] A ideia de decadência na História Ocidental, de Arthur Herman, Editora Recorde, RJ, 1999 – pág. 14
[ii] Idem citado, pag. 14
[iii] Tradução livre do texto de Andrés Russo em 13 de novembro de 2013


terça-feira, 10 de junho de 2014

O CENTAURO NO JARDIM


 

Moacyr Scliar

Companhia das Letras

por Mônica Dias

Classificação do texto: policial, romance, suspense, espionagem, ficção científica, biografia, realismo mágico
-Tema central do livro: aceitação da individualidade / padrões de normalidade (física, comportamental, emocional)
-Tempo em que o enredo acontece:  século XX entre 1935 e 1974
-Espaço onde acontece: Brasil – Rio Grande do Sul (Quatro Irmãos, Porto Alegre), Marrocos e São Paulo
-Classificação do narrador - onisciente/onipresente ou narrador/personagem em 1a pessoa?
Guadali – o centauro, filho caçula de Leão e Rosa. Tem um irmão mais velho (Bernardo), e 2 irmãs (Débora e Mina). Família judia. Acaba casando com Tita – uma “centaura”.
-Estrutura da narrativa: o livro começa pelo final num encontro de família. Vem depois desde o nascimento do narrador, descrevendo as fases de desenvolvimento do ser humano, seus desejos, formas de consegui-lo. Vai descrevendo as etapas da vida e, na condição de centauro, como vai lidando para viver os fatos da vida, ou seja, o enamoramento, casamento, constituição de uma família, o pertencimento a grupos de amigos, o trabalho.
-Identificação pessoal com personagens: o Centauro me remete à condição de excepcionalidade, ou seja, como é ser ou estar fora dos padrões estabelecidos vigentes em determinado grupo social, ou sociedade.

-Pergunta central do livro: eu me aceito ou busco mudar a minha natureza para me adequar ao padrão vigente?
-Mensagem subjacente: a busca por aquilo que não se tem
-Highlights pessoais:
quando nada poderia acontecer aparece uma esfinge sexy
até os centauros traem!
-Nota para o livro de 1 a 10: 6

Nasce um centauro, ser vivente do mundo mítico, em uma família simples, de origem judaica, cujos ritos tem forte influência no dia-a-dia dos personagens. A mãe que à princípio permanece muda, em choque, frente ao nascimento de um “monstro”, aos poucos vai estabelecendo o vínculo materno com Guedali. Os pais fazem o pacto de manter o cerceamento da liberdade como forma de manter sob controle a situação do crescimento do centauro, evitando contato com qualquer outro ser humano que não os membros da família.
Após um amor platônico frustrado Guedali decide deixar a clausura do espaço familiar (citação pág, 58).
Percorreu campos, galopando em liberdade, se escondendo durante o dia até deparar-se com um circo. Vira atração principal e ao se envolver com a domadora causa uma confusão. Acaba fugindo novamente indo parar numa estância onde conhece uma “centaura, Tita, com quem acaba se casando.
Vivem na estância até surgir a noticia da existência de um médico no Marrocos que faz cirurgias para eliminar excrescências”(pg. 87). Viajam até o Marrocos, realizam a cirurgia, com sucesso para ambos. Voltam ao Brasil, vão morar em São Paulo e casam-se, segundo rito judaico em Porto Alegre, voltam a São Paulo, tem filhos gêmeos, normais. O casal se distancia, Guedali trai, Tita tem encontros com um centauro que aparece na casa deles e que acaba sendo morto pelos guardas do condomínio em que moravam. Guedali some de casa e vai para Marrocos reencontrar o médico, agora decadente e, lhe pede para reverter a cirurgia para voltar a ser centauro (pg. 160).
...galopar pelos campos... é um apelo ancestral (pg. 163)
Nesta estada no Marrocos acaba descobrindo que o médico possui encarcerada uma esfinge – Lolah (metade mulher e metade leoa), com quem acaba tendo um affair. A esfinge fica enlouquecida com a ausência de Guedali, foge da jaula e adentra a sala de cirurgia destruindo o cavalo que seria implantado em Guedali, fazendo com que seu “protetor” tenha que abatê-la a tiros. O médico descobre o affair culpando Guedali pela desgraça e este resolve voltar ao Brasil.
Retorna para a fazenda em que nasceu e reencontra um bugre que havia encontrado na infância, solicitando ao mesmo que fizesse um ritual para que retornasse a ser centauro (pg. 190) e, neste momento a reza faz chover acabando com a estiagem e salvando a plantação de soja da região. Neste momento vem à cavalo Tita para resgatar Guedali daquele local e retornam à São Paulo.

terça-feira, 13 de maio de 2014

AMOR, DE NOVO


de Doris Lessing


por Mônica Dias

É uma historia dentro da historia que traz uma protagonista, Sarah, vivida em uma Inglaterra contemporânea. É um relato de uma vida normal de seres humanos, casamento, filhos, viuvez, trabalhar, sustentar e, neste sentido desenvolve sua carreira como escritora/roteirista/diretora de teatro, cuja base não é a empresa, Green Bird, mas sim a relação de amizade entre ela e seus 3 outros sócios-fundadores. Várias passagens descrevem a relação de um amor fraterno porque envolve a compreensão de uns pelos outros de seus percalços particulares. Não é um amor de entrega total e, por isto não ameaça. Esse, o amor de entrega total, a protagonista racionalmente decidiu retirá-lo da lista das experiências a serem vividas; pelo menos desde 20 anos atrás.

Tem como pano paralelo sua cruz familiar, a relação com seu irmão, buscando psicanaliticamente possíveis rastros de uma carência de atenção materna na infância aliada a uma preferência por seu irmão caçula (revivida na cena da menina do parque – pg. 424) que vem desaguar na fundamentação da carência primordial, que no seu olhar já tranquilizado pela passagem da “calamidade” justifica a busca de paliativos para estancar a angústia. “Apaixonar-se é lembrar que somos exilados, e por isso é que o sofredor não quer ser curado...”.

Nada pior para uma decisão racional do que fortes emoções e, neste sentido, Sarah não acredita que deixou escapar uma brecha para entrada do Amor, de novo. Descreve diálogos primorosos com citações de personagens de várias obras literárias em que cada uma das pessoas que formam a sociedade “Julie Vairon” se deixa arrebatar pela permissividade com que esta personagem, Julie, aceitava amar, fazer suas escolhas com “convicção”, assumindo suas consequências.

“Podemos com toda a facilidade entender Julie a partir daquilo que ela recusava” (pg. 55), resume, para mim, o cerne que arrebatou a todos os envolvidos na montagem da peça. Cada um de uma forma e, Sarah arrebatadoramente quando descobre-se desnuda de sua fortaleza racional, permitindo que uma pequena rachadura na estrutura abra a porta para o insidioso sentimento de apaixonar-se novamente, aos 65 anos. Vive esta onda, porque inicia-se em Bill, depois vai para Henry e, me parece que só não vai para Andrew porque não tem mais forças para esta sequencia de altos e baixos, muito mais pela dor do que pelo amor. É tão profundamente arrasada pelo sentimento e pelas sensações, ... sinais inadequados de sexualidade (pg.173), travessia de desertos, momentos de ausência mas, acredita que não se iguala ao sofrimento de seu amigo Stephen que, por fim, acaba suicidando-se.
Este grande amigo é o esteio de lucidez em que ela se permite abrir para uma troca profunda daquilo que vai em sua alma, plenamente correspondida por Stephen. Assim, apesar dar dor insuportável (pg.381) mantém-se realizando as tarefas para a estreia da peça primeiramente na França.

De Julie que escolhe amores pertencentes a classes abastadas a Sarah que vive a possibilidade da entrega para parceiros mais novos vejo que Doris coloca como pano de fundo as estruturas socais que contaminam, restringem as possibilidades que as mulheres poderiam viver, mas que são socialmente inadequadas, cada uma a seu tempo.

A autora traz também o tema da velhice, descrito na citação da pg. 18 e, como envelhecer dói profundamente na alma feminina.

Para mim, foi uma leitura quase dinâmica porque havia apenas iniciado quando fui capturada pelo enredo e, assim, passei a noite em claro finalizando no dia seguinte. O que mais me marcou foi como Sarah identifica apaixonar-se, amar novamente, com uma dor tão pungente que beira as raias da loucura e das manifestações físicas que me deixaram “apavorada” em viver um novo amor. Claro está que todo o quadro desenvolvido por Sarah está no viés do amor conhecido mas não vivido. Suas restrições, padrões sociais, não importa, o lado mostrado em seus sentimentos foi da não-experiência, não-realização daquilo que inadvertidamente deixou brotar.