terça-feira, 10 de junho de 2014

O CENTAURO NO JARDIM


 

Moacyr Scliar

Companhia das Letras

por Mônica Dias

Classificação do texto: policial, romance, suspense, espionagem, ficção científica, biografia, realismo mágico
-Tema central do livro: aceitação da individualidade / padrões de normalidade (física, comportamental, emocional)
-Tempo em que o enredo acontece:  século XX entre 1935 e 1974
-Espaço onde acontece: Brasil – Rio Grande do Sul (Quatro Irmãos, Porto Alegre), Marrocos e São Paulo
-Classificação do narrador - onisciente/onipresente ou narrador/personagem em 1a pessoa?
Guadali – o centauro, filho caçula de Leão e Rosa. Tem um irmão mais velho (Bernardo), e 2 irmãs (Débora e Mina). Família judia. Acaba casando com Tita – uma “centaura”.
-Estrutura da narrativa: o livro começa pelo final num encontro de família. Vem depois desde o nascimento do narrador, descrevendo as fases de desenvolvimento do ser humano, seus desejos, formas de consegui-lo. Vai descrevendo as etapas da vida e, na condição de centauro, como vai lidando para viver os fatos da vida, ou seja, o enamoramento, casamento, constituição de uma família, o pertencimento a grupos de amigos, o trabalho.
-Identificação pessoal com personagens: o Centauro me remete à condição de excepcionalidade, ou seja, como é ser ou estar fora dos padrões estabelecidos vigentes em determinado grupo social, ou sociedade.

-Pergunta central do livro: eu me aceito ou busco mudar a minha natureza para me adequar ao padrão vigente?
-Mensagem subjacente: a busca por aquilo que não se tem
-Highlights pessoais:
quando nada poderia acontecer aparece uma esfinge sexy
até os centauros traem!
-Nota para o livro de 1 a 10: 6

Nasce um centauro, ser vivente do mundo mítico, em uma família simples, de origem judaica, cujos ritos tem forte influência no dia-a-dia dos personagens. A mãe que à princípio permanece muda, em choque, frente ao nascimento de um “monstro”, aos poucos vai estabelecendo o vínculo materno com Guedali. Os pais fazem o pacto de manter o cerceamento da liberdade como forma de manter sob controle a situação do crescimento do centauro, evitando contato com qualquer outro ser humano que não os membros da família.
Após um amor platônico frustrado Guedali decide deixar a clausura do espaço familiar (citação pág, 58).
Percorreu campos, galopando em liberdade, se escondendo durante o dia até deparar-se com um circo. Vira atração principal e ao se envolver com a domadora causa uma confusão. Acaba fugindo novamente indo parar numa estância onde conhece uma “centaura, Tita, com quem acaba se casando.
Vivem na estância até surgir a noticia da existência de um médico no Marrocos que faz cirurgias para eliminar excrescências”(pg. 87). Viajam até o Marrocos, realizam a cirurgia, com sucesso para ambos. Voltam ao Brasil, vão morar em São Paulo e casam-se, segundo rito judaico em Porto Alegre, voltam a São Paulo, tem filhos gêmeos, normais. O casal se distancia, Guedali trai, Tita tem encontros com um centauro que aparece na casa deles e que acaba sendo morto pelos guardas do condomínio em que moravam. Guedali some de casa e vai para Marrocos reencontrar o médico, agora decadente e, lhe pede para reverter a cirurgia para voltar a ser centauro (pg. 160).
...galopar pelos campos... é um apelo ancestral (pg. 163)
Nesta estada no Marrocos acaba descobrindo que o médico possui encarcerada uma esfinge – Lolah (metade mulher e metade leoa), com quem acaba tendo um affair. A esfinge fica enlouquecida com a ausência de Guedali, foge da jaula e adentra a sala de cirurgia destruindo o cavalo que seria implantado em Guedali, fazendo com que seu “protetor” tenha que abatê-la a tiros. O médico descobre o affair culpando Guedali pela desgraça e este resolve voltar ao Brasil.
Retorna para a fazenda em que nasceu e reencontra um bugre que havia encontrado na infância, solicitando ao mesmo que fizesse um ritual para que retornasse a ser centauro (pg. 190) e, neste momento a reza faz chover acabando com a estiagem e salvando a plantação de soja da região. Neste momento vem à cavalo Tita para resgatar Guedali daquele local e retornam à São Paulo.

terça-feira, 13 de maio de 2014

AMOR, DE NOVO


de Doris Lessing


por Mônica Dias

É uma historia dentro da historia que traz uma protagonista, Sarah, vivida em uma Inglaterra contemporânea. É um relato de uma vida normal de seres humanos, casamento, filhos, viuvez, trabalhar, sustentar e, neste sentido desenvolve sua carreira como escritora/roteirista/diretora de teatro, cuja base não é a empresa, Green Bird, mas sim a relação de amizade entre ela e seus 3 outros sócios-fundadores. Várias passagens descrevem a relação de um amor fraterno porque envolve a compreensão de uns pelos outros de seus percalços particulares. Não é um amor de entrega total e, por isto não ameaça. Esse, o amor de entrega total, a protagonista racionalmente decidiu retirá-lo da lista das experiências a serem vividas; pelo menos desde 20 anos atrás.

Tem como pano paralelo sua cruz familiar, a relação com seu irmão, buscando psicanaliticamente possíveis rastros de uma carência de atenção materna na infância aliada a uma preferência por seu irmão caçula (revivida na cena da menina do parque – pg. 424) que vem desaguar na fundamentação da carência primordial, que no seu olhar já tranquilizado pela passagem da “calamidade” justifica a busca de paliativos para estancar a angústia. “Apaixonar-se é lembrar que somos exilados, e por isso é que o sofredor não quer ser curado...”.

Nada pior para uma decisão racional do que fortes emoções e, neste sentido, Sarah não acredita que deixou escapar uma brecha para entrada do Amor, de novo. Descreve diálogos primorosos com citações de personagens de várias obras literárias em que cada uma das pessoas que formam a sociedade “Julie Vairon” se deixa arrebatar pela permissividade com que esta personagem, Julie, aceitava amar, fazer suas escolhas com “convicção”, assumindo suas consequências.

“Podemos com toda a facilidade entender Julie a partir daquilo que ela recusava” (pg. 55), resume, para mim, o cerne que arrebatou a todos os envolvidos na montagem da peça. Cada um de uma forma e, Sarah arrebatadoramente quando descobre-se desnuda de sua fortaleza racional, permitindo que uma pequena rachadura na estrutura abra a porta para o insidioso sentimento de apaixonar-se novamente, aos 65 anos. Vive esta onda, porque inicia-se em Bill, depois vai para Henry e, me parece que só não vai para Andrew porque não tem mais forças para esta sequencia de altos e baixos, muito mais pela dor do que pelo amor. É tão profundamente arrasada pelo sentimento e pelas sensações, ... sinais inadequados de sexualidade (pg.173), travessia de desertos, momentos de ausência mas, acredita que não se iguala ao sofrimento de seu amigo Stephen que, por fim, acaba suicidando-se.
Este grande amigo é o esteio de lucidez em que ela se permite abrir para uma troca profunda daquilo que vai em sua alma, plenamente correspondida por Stephen. Assim, apesar dar dor insuportável (pg.381) mantém-se realizando as tarefas para a estreia da peça primeiramente na França.

De Julie que escolhe amores pertencentes a classes abastadas a Sarah que vive a possibilidade da entrega para parceiros mais novos vejo que Doris coloca como pano de fundo as estruturas socais que contaminam, restringem as possibilidades que as mulheres poderiam viver, mas que são socialmente inadequadas, cada uma a seu tempo.

A autora traz também o tema da velhice, descrito na citação da pg. 18 e, como envelhecer dói profundamente na alma feminina.

Para mim, foi uma leitura quase dinâmica porque havia apenas iniciado quando fui capturada pelo enredo e, assim, passei a noite em claro finalizando no dia seguinte. O que mais me marcou foi como Sarah identifica apaixonar-se, amar novamente, com uma dor tão pungente que beira as raias da loucura e das manifestações físicas que me deixaram “apavorada” em viver um novo amor. Claro está que todo o quadro desenvolvido por Sarah está no viés do amor conhecido mas não vivido. Suas restrições, padrões sociais, não importa, o lado mostrado em seus sentimentos foi da não-experiência, não-realização daquilo que inadvertidamente deixou brotar.

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Mar de Papoulas



de Amitav Ghosh

Editora Alfaguara, 2011

 Em 1838, as margens do Rio Ganges estão tomadas por plantações de papoulas, que abastecem as fábricas de ópio comandadas pelos ingleses e deixam a população rural da região com pouco o que comer. O destino do ópio é a China e estamos às vésperas da Primeira Guerra do Ópio, declarada pelo Império britânico para forçar o governo chinês a abrir seus portos para os produtos europeus. Este é o cenário geo-político do sexto livro do antropólogo e historiador Amitav Ghosh, primeiro da trilogia da embarcação Ibis, lançado em 2008. Construído para ser um navio de transporte de escravos e degredados, o Ibis veio de Baltimore a Calcutá, passando pela Ilhas Maurício e durante o livro vai empreender uma parte da viagem de volta às ilhas para descarregar mão-de-obra migrante e condenados. O segundo livro da trilogia, Rio de Fumaça, já foi lançado, em 2011.

  
   O Ibis é o palco em que o autor desfila sua rica e diversa fauna de personagens e uma infinidade torturante de termos náuticos e palavras híbridas do inglês com os dialetos hindus (bhojpuri, bengali, laskari, hindustani).  Nas três partes em que o livro está estruturado (I – Terra, II – Rio e III – Oceano), assistimos os personagens (suas histórias, suas premonições, seus destinos) sendo arrastados em direção ao Ibis, atracado em Calcutá, para nele se encontrarem para uma viagem incerta e graficamente dolorosa, e que não acaba neste livro (para nosso desespero e deleite). O autor dá vida e voz a personagens sem lugar na história oficial, sempre feita pelos poderosos.


   Xinguei o tradutor várias vezes durante a jornada, já decidi que o Rio de Fumaça vou ler em inglês. A notinha do tradutor na página 23, após várias passagens de termos incompreensíveis, me pareceu completamente insuficiente para preparar o leitor para a viagem: “Pedimos ao leitor que não se deixe intimidar pela estranheza do pidgin lascar, que beira o incompreensível também no original em inglês. No transcorrer do livro, ele se torna menos frequente, assim como a leitura ocasionará maior familiaridade. Algumas expressões podem ser elucidadas na Crestomatia, ao final do livro, que no entanto não deve ser tomada por um mero glossário.” O livro merecia uma nota mais caprichada do tradutor ou um prefácio que nos introduzisse com mais suavidade na estratégia do autor.


   Somente ao final do livro, quando fui dar maior atenção a este léxico de termos, a Crestomatia do Ibis, foi que compreendi a profunda pesquisa que o autor empreendeu e que as passagens incompreensíveis (e não passíveis de tradução) foram o recurso que ele empregou para imergir o leitor nesta babel, o que me levou a  Riobaldo e suas palavras inventadas. Na Crestomatia, ficamos sabendo que esse registro de certas palavras migrantes (‘...que zarparam de águas orientais rumo às geladas costas da língua inglesa’) era a obsessão do avô da avó do autor (Neel Halder, o ex-raja de Raskhali), que se entregou a prática, por anos a fio, de vaticinar sobre os destino destas palavras e pretendeu colaborar com a construção do que ele denominava ‘Oráculo’ (Oxford English Dictionary), que estava sendo elaborado no final do século XIX.  Mais que o negócio do ópio, a palavras utilizadas na interface de culturas tão diferentes e essa obsessão de Neel por seus usos e destinos, são a inspiração maior do livro, sendo Amitav  Ghosh  agora o guardador da tradição familiar.


   A narrativa é, na maior parte do tempo, linear, vai avançando no tempo e no espaço, com alguns resgates de passado e alguns vislumbres de futuro, tudo muito bem costurado pelo ponto de vista de um narrador onisciente. Os personagens principais (Deeti, Kalua, Zachary, Paulette e Neel) são bem construídos, com brilho próprio, e os personagens secundários (Jodu, Babboo Nob Kissin, Ah Fatt), terciários e o próprio coletivo do Ibis  são também essenciais e dão vida ao tecido que vai sendo composto pelas fibras da história de cada um.


   É uma escrita muito gráfica, com passagens muito intensas em sensações: tive náuseas nas cenas em que Deeti caminha pelo fábrica de ópio a procura de seu marido moribundo (p.96-97); senti os fedores indescritíveis dos ambientes sufocantes do Ibis, nas várias vezes que o autor os descreve com maestria (ver página 180, quando Jodu se deita em um dos jhulis, no dormitório dos lascares); nojo e compaixão no banho que Neel dá em Ah Fatt na prisão (p. 310-311).


   O autor semeia, aqui e ali, pistas dos próximos capítulos (referências ao santuário de Deeti, ou aos descendentes de Kalua ou Maddow Colver, p.272 – “Mais tarde, dentro da dinastia que reinvidicou sua ascendência, muitas histórias seriam inventadas sobre o sobrenome do ancestral fundador e os motivos pelos quais ‘Maddow’ ocorria com tanta frequência entre seus descendentes. Embora muitos decidissem remodelar suas origens, inventando linhagens importantes e fantasiosas para si mesmos, sempre haveria uns poucos que se agarrariam com unhas e dentes à verdade: qual seja, a de que aqueles nomes sagrados eram resultado da língua atrapalhada de um gomusta aflito e da audição imperfeita de um piloto inglês que estava um pouquinho mais do que ressacado”). Dá a entender que a trilogia está toda mapeada, como uma carta náutica, e nos deixa, pasmos e parados naquele convés do Ibis vendo alguns dos personagens principais se afastarem no longboat, com seus destinos em suspenso.

domingo, 16 de março de 2014

NEVE, de Orhan Pamuk

Por Claudine Duarte



Para começar, uma deliciosa confusão com a semelhança dos nomes dos protagonistas:
o poeta , a  neve  e a cidade. KA, Kar, Kars...
(Em turco, neve é kar)

Este é um livro sobre preconceito e divisão. Divisão de ideias, de caminhos, de futuros.
A história se desenvolve durante a visita que o poeta turco, KA, exilado na Alemanha, faz à fronteiriça (e distante) cidade de Kars, bem ao oriente e isolada do resto do mundo por uma nevasca.

Durante os poucos dias que o poeta transita por Kars, além de conviver com seus medos, carências e sonhos, é levado a participar ativamente de um microssistema que reproduz os conflitos étnicos, políticos, raciais e religiosos da Turquia. Conspirações dentro de conspirações arrastam KA por núcleos de personagens ressentidos, paranóicos e, por vezes, ingênuos.

A neve, metáfora forte ao longo do livro para solidão e desolamento, em vários momentos emoldurou momentos de luz, beleza e acolhimento. Como também inspirou, com o desenho de seu fractal (p. 301), a organização dos poemas de KA, em 3 eixos: 
                    RAZÃO,      MEMÓRIA    e       IMAGINAÇÃO. 
Talvez, como a ponta de um fio que possa conduzir à saída desse atormentador labirinto de intolerância criado por fundamentalistas islâmicos e pelos secularistas na Turquia, ainda nos dias de hoje. Talvez. Talvez Pamuk acredite que o conhecimento científico de Francis Bacon tenha o potencial de restabelecer o “império do homem” sobre as coisas:
  • Poesia, como a ciência da imaginação;
  • História, como a ciência da memória;
  •  Filosofia, como a ciência da razão;


e assim, quem sabe, poderemos – humanos, crentes ou não – nos libertarmos e expurgarmos “ídolos” e preconceitos.

KA é seguido pelo onisciente narrador Ohran, escritor que descreve os próprios passos em Kars e Frankfurt à guisa de reconstruir os caminhos do poeta. Com isso, guarda semelhança com o Gregorius de Trem Noturno para Lisboa em busca de refazer os passos de Amadeu: uma vida que se justifica pela – e na – interpretação de outra.

Essa voz do narrador e, que, nos últimos capítulos, é também personagem do livro, contribui com a trama ao anunciar e/ou denunciar futuros próximos:

“Houve um silêncio carregado de tensão, durante o qual Necip levantou seus belos olhos, um dos quais, dentro de duas horas e três minutos, iria ser estourado por uma bala; ele olhou para a rua escura para ver a neve cair devagar, como um poema.“(p. 131)

“Ele quis ter certeza de que iria se voltar e lançar um último e demorado olhar a Ïpek na janela, por isso ao chegar à rua adiantou vários passos em relação aos seus guarda-costas. Quando ele se voltou, lá estava ela, qual uma estátua, à janela do quarto 203 do Hotel Palácio de Neve, ainda com o vestido de veludo negro de noite, os doces ombros arrepiados por causa do frio. Banhada na luz cor de laranja da mesinha de cabeceira, ela era a imagem de felicidade, uma imagem que KA manteria junto a si nos quatro últimos anos que lhe restaram de vida.
Ele nunca mais a viu.”(p. 420)

Orhan Pamuk escreveu o livro entre abril de 1999 e dezembro de 2001, ou seja, antes de ter sido a 1a pessoa da Turquia a receber um Prêmio Nobel (em 2006). Vale ressaltar que, em 2005, foi processado pelo governo por ter se referido, em entrevistas, ao genocídio contra o povo armênio durante a 1a guerra mundial e teve que se defender de acusação por ter insultado a identidade turca.
A viagem de KA a Kars não é acidental. Com seu casaco alemão, metáfora para uma pequena concessão à visão ocidental do mundo, percorre as ruas brancas de Kars enquanto se (re)constrói no amor à bela Ïpek e nas suas questões existenciais da crença (ou não) em Deus.

Alguns personagens merecem notas:

1.     SENDAR bei, o dono do jornal da cidade, e também redator que descreve os fatos antes que aconteçam para garantir a tiragem e leitura da edição do próximo dia e que, às vezes, nem mesmo ele acredita no que escreve...

2.     TURGUT bei, o recluso pai de Ïpek e Kadife e que tem orgulho de ser democrata mas não abandona a razão: “Não basta ser oprimido, é preciso estar com a razão. A maioria dos oprimidos está ridicularmente errada. Em que devo acreditar?”(p. 279) E é utilizado pelo autor narrador para lhe dar um presente nas páginas finais: um exemplar do livro Primeiro Amor, do russo Ivan Turgueniev – pasmem! Traduzido pelo próprio Turgut... E isso depois de citar várias vezes sua admiração pelos escritores russos e seus personagens melancólicos “tão cheios de virtudes, que não conseguem nada da vida.”(p. 13)

3.     NECIP, um dos estudantes secundaristas do colégio religioso que esperava ser escritor de ficção científica e que inspira KA a escrever e recitar seu poema O LUGAR ONDE DEUS NÃO EXISTE, com dúvidas e certezas que nos remetem ao nosso Riobaldo, do Grande Sertão – Veredas:

“Um homem pode ficar todas as noites na casa de chá e jogando com os amigos, pode se divertir tanto com os colegas que não haja um só instante em que não estejam às gargalhadas, pode passar todas as horas do dia batendo papo com seus amigos íntimos – mas se esse  homem abandonou Deus, ainda assim vai ser o homem mais solitário do mundo.”, diz Necip  p. 169

“(...) Com Deus existindo, tudo dá esperança: sempre um milagre é possível, o mundo se resolve. Mas se não tem Deus, há-de a gente perdidos no vaivém, e a vida é burra. É o aberto perigo das grandes e pequenas hora, não se podendo facilitar – é todos contra os acasos. Tendo Deus, é menos grave se descuidar um pouquinho, pois no fim dá certo”, diz Riobaldo p. 76

Voltando a KA, o motivo inicial de sua viagem até a cidade de Kars – o suicídio de várias mulheres jovens – vai se dissolvendo ao longo da trama, sendo inconclusiva sua investigação. Talvez ele tenha ficado mais intrigado com as descobertas, pois achou “estranhamente deprimente que as jovens suicidas tivessem de lutar para conseguir um momento de privacidade para se matarem. (...) Em suas fantasias, o suicídio era uma cerimônia solene (...) levada a cabo sozinho; na verdade, toda vez que se imaginava acabando com a própria vida, o que o assustara fora a indispensável solidão do ritual.”(p. 25-26). E as jovens de Kars se matavam por infelicidades que iam desde uma casamento forçado até por proibições do uso do manto sobre suas cabeças. E prosseguiam desdenhando dos esforços burocráticos do governo e seus cartazes surreais:
“OS SERES HUMANOS SÃO OBRAS PRIMAS DE DEUS,
E O SUICÍDIO É UMA BLASFÊMIA.”

E por falar em manto, “ele”, a falta d”ele” e a proibição d”ele” perpassam todo o livro como algo que paira sobre a cidade ameaçando crenças, descrenças e descréditos em Deus.

NEVE não foi um livro fácil de ler. Para mim, foi como encontrar vários livros dentro do livro e ao “engatar” numa trama, tive que sair seguindo outro personagem e, às vezes, fiquei sem saber algo – ficando com um sabor desagradável de coisa incompleta.

Senti falta de profundidade no Azul, terrorista apaixonado mais por si e por sua imagem de terrorista que pela causa que abraçava. Considerei uma “amostra grátis” a história de amor e sexo entre Azul e cada uma das duas irmãs – Ïpek e Kadife. Algo tão importante e significativo na vida do poeta KA para ter sido tratado de forma tão marginal...

E, para quê e por quê, a morte (assassinato) de KA? Recurso para permitir que Orhan entrasse em sua casa e remexesse em suas coisas e também fosse passar uns dias em Kars?
Confesso que fiquei à espreita de que uma Melinda ou qualquer outra prostituta apareceria com o Caderno Verde e o entregaria para Orhan. Quem sabe, nua, sob o casaco alemão de KA... E aí sim, ouviríamos uma voz grave lendo a frase de Browning que abre o livro:
“Nosso interesse vai para a perigosa fímbria das coisas.”

Imaginei o trapalhão Sunay, mentor e ator do golpe no teatro e de sua própria morte, protagonista de um livro nos moldes – não menos irônico – do “Galvez, Imperador do Acre”, do brasileiro Marcio Souza.

Para a prisão de Muhtar bei, desejei um conto inteiramente dedicado a temas dolorosos como tomada de consciência e vergonha.
“Ele viu mais alguma coisa no olhar que seu amigo lhe deu, e que o acompanharia por muitos anos: Muhtar achava que merecia a surra que estava prestes a levar. (...) Por favor, quando me olhar nos olhos, não reflita a minha vergonha, devolvendo-a a mim.”(p. 82)

E por fim, quão pouco explorada a musa de KA que depois de separar uma terna bagagem, se conforma e desiste de um futuro inexistente na Alemanha, arquétipo feminino de infinitas toalhas jogadas precoce e repetidamente:
“Eu fiz o possível para amar Muhtar, mas não adiantou. Eu amei Azul de todo o meu coração, mas de nada adiantou. Eu achei que poderia aprender a amar KA, mas isso não deu em nada. Eu sonhava com um bebê que nunca veio (...)”(p. 476)

Para fechar, posso acrescentar que NEVE também poderia, mesmo com o pano de fundo da divisão e da intolerância, ser interpretado como um livro sobre o Amor. O Amor de KA por Ïpek, de Muhtar por Ïpek, de Ïpek por Azul, de Kadife por Azul, de Azul por Azul, de Necip por Kadife, de Fazil por Kadife, de Sunay por Sunay, do Sheik por Deus, de Deus por todos, com dúvidas, incertezas, trapalhadas, paranoias, descaminhos, ilusões, esperanças, cisões, acertos e descompassos.

Destaco a forma que o autor apresentou os capítulos com títulos e subtítulos que lembraram páginas da minha infância com os livros de histórias árabes do Malba Tahan e de alguns contos sufi.

Orhan Pamuk introduziu questões e algumas descrições que  abriram  interesse pelos armênios e suas cidades esquecidas e abandonadas à força. O satélite do Google Earth me levou por sobre as ruas de Kars e pela “cidade fantasma” Ani: espectral e envergonhante. 


Recomendo? Com restrições. NEVE é longo, lento, sem herói, sem saga, sem final.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

VIDA QUERIDA

de Alice Munro


por Ana Studart

Alice Munro é canadense, nasceu em Wingham, Ontario, em 1931. Casou-se aos 20 anos e teve três filhas. Durante muitos anos, foi apenas mãe e dona de casa. Já lançou 14 coletâneas de contos. Recebeu o Nobel de Literatura em  2013, e foi a primeira vez que um  contista mereceu esse premio.  Viveu no período da 2a Grande Guerra, e um de seus contos, Trem,  trata do tema, um soldado que volta do combate ao encontro da noiva.
A escritora norte- americana Cynthia Ozick considera Alice Munro a “Tchekhov da América”.
Certa vez Munro disse que seus contos seriam “tentativas”, ensaios preparatórios para escrever um romance, mas agora percebe que o conto é sua forma de expressão.  Me pergunto se essa constatação tem alguma relação com  a frase do conto Trem,  onde o personagem Jackson pensa no livro do pai de Belle, intrigado, e se pergunta “por que alguém ia sentar e fazer outro livro, no presente. Hoje”.

Em Vida  Querida, seu último livro, Alice Munro apresenta 14 contos – alguns deles, mini-romances. Os quatro últimos são relatos autobiográficos, classificados como Finale – porque, palavras dela,  são “as primeiras e as últimas – e as mais íntimas – coisas que eu tenho a dizer sobre a minha vida”.

Seus personagens: Munro cria nesses contos mulheres que vivem situações típicas do universo feminino, como Greta, casada,  que se sente atraída por Greg e Harris em detrimento da filha que a acompanha em viagem; Vivien que trabalha  como professora numa instituição para tuberculosos, e vai se deixando dominar e envolver pelo chefe, que foge no dia do casamento; Belle, que é abandonada pelo parceiro no momento em que enfrenta um câncer; Corrie, uma deficiente física que se envolve com um homem casado e são chantageados por uma ex-empregada de Corrie.
Mas Alice Munro não se considera feminista e não aceita o rótulo. “Nunca penso se sou ou não” , E justifica dizendo que as mulheres que descreve não são vítimas - a despeito de personagens como Vivien e Belle.

Seu  estilo é simples e singular.  Simples porque Alice Munro fala de coisas do cotidiano, da vida comum, e singular porque  não desvenda seus enredos com nitidez: eles vão evoluindo e vamos tentando adivinhar onde aquela história vai desembocar.  São pedaços, momentos da vida, onde os  desfechos, quando existem, quase sempre ficam subentendidos. 

Sua narrativa não é sempre linear:  Munro brincou certa vez, dizendo que um conto não é uma estrada pela qual se segue, mas um casa desconhecida onde se entra e se descobre quartos e corredores, quase um labirinto em que o narrador busca o sentido do núcleo familiar. 

O PDV é por vezes do narrador, onisciente, por vezes de algum dos personagens.

O acaso ( ou seria o destino?) parece guiar seus contos e seus personagens – e esse, para mim, é o traço maior do livro. Seria ele a determinar o rumo de nossas vidas?

No primeiro conto, “Que Chegue ao Japão”, (PDV onisciente), há um trem que não se sabe o destino, com  Peter carregando uma mala para a viagem de duas passageiras, Katy e Greta - e de início nem fica claro qual é a filha e qual é a esposa dele. Vai se percebendo com o desenrolar da história, que segue envolvendo desejos e conflitos, e idas e vindas: numa festa de escritores, Greta bebe demais e volta para o hotel de carona com Harris. No trem para Toronto casualmente se envolve com Greg,  e na  chegada à estação Harris, a quem avisara da chegada por  correspondência, a recebe com um beijo.

O melhor exemplo do acaso que conduz os contos de Munro é o  “Trem”, ( PDV do narrador) onde se tem um personagem que salta de um vagão em movimento antes do seu destino final e é acolhido por uma noite em troca de serviço por uma desconhecida. Os consertos na casa se sucedem e o tempo passa até que Belle enfrenta um câncer, ele ouve no hospital a longa história sobre o pai  de Belle que pedia repetidos perdões não se entende porque e depois morre se deixando atropelar por um trem. Alice Munro sugere dois motivos para os pedidos de perdão e o suicídio: com a esposa doente, ele freqüentava prostitutas; e encarou Belle nua no banheiro, o que teria mudado a relação entre pai e filha. O impacto desse relato de Belle destrói o laço que  a une Jackson e ele a abandona no hospital com um “A gente se vê amanhã”. 
Jackson vaga ao acaso pelas ruas, ajuda o proprietário de um prédio que lhe pede que cuide por instantes da portaria, e mais uma vez vai ficando. E então a história nos surpreende com uma volta ao começo,  quando Ileane, a noiva que ele ia encontrar se não tivesse pulado do trem,  por acaso chega  ao prédio onde Jackson trabalha. Ele a reconhece só pela voz e aí vem o feedback: eles tentaram fazer sexo antes dele seguir para a guerra, mas Jackson não se sai bem. Em posterior relação, o desastre se repete. Fica subentendido que sexualidade seria uma explicação para a vida errante de Jackson. Ele pensa no final em procurar a antiga noiva, mas acaba  pegando  um trem para  procurar trabalho numa cidade madeireira.

No conto “Corrie”,  (PDV onisciente) a personagem teve pólio e se relaciona com um homem casado. Chantageada, Corrie paga mensalmente para não ter o romance desvendado. Quando a chantageadora morre, a narrativa fica reticente: “Ela (Corrie) sabe de alguma coisa. Descobriu enquanto dormia. Não existe notícia alguma para dar a ele. Não existe, porque nunca existiu”.  O que ela descobriu?  Que quem recebia o dinheiro era o amante? Ou seria o amante que teria matado a chantageadora? O que Munro quis dizer com a mensagem de Corrie: ”Lílian morreu. Enterrada ontem”. E a resposta: “Tudo bem agora, fique feliz. Breve.” Fique feliz porque o problema acabou ou porque não se verão mais? E esse breve,  significa que eles se encontrarão em breve?

Em “Com Vista para o Lago” ( PDV onisciente) Nancy, que está perdendo a memória, tenta pegar uma receita, mas a médica estava de folga e lhe indicaram esse especialista numa cidade próxima.... Ela esquece o nome do médico e depois de vagar ao acaso  pelas ruas da cidade, acaba trancada dentro  de uma Casa de Repouso, onde vira paciente.

No conto Dolly, ( PDV de Dolly) é o cotidiano que prevalece - junto com o acaso.  Uma história banal, clássica, de ciúmes. Um casal idoso e bem ajustado planeja a morte, quando é sacudido pela chegada de uma vendedora de  cosméticos que se revela  antiga namorada de Franklin.  Ironicamente ela é introduzida na vida do casal pelas mãos de Dolly que, enciumada, sai de casa,  escreve e destrói varias cartas, envia uma, depois se arrepende e volta para o marido. O final é quase feliz, não fosse o medo de Dolly de que Franklin recebesse a carta que ela  finalmente havia postado.

No Finale, Munro fala de suas desventuras. São narrativas autobiográficas, onde ela confessa seus pecados, como o desejo infantil de matar a irmã em Noite:
“A idéia estava ali e balançava na minha cabeça. A idéia de que eu podia estrangular a minha irmã mais nova, que dormia na cama embaixo da minha e que eu amava mais do que qualquer pessoa no mundo.”  Com sono intranqüilo, encontra o pai também insone, e conta seu medo. O pai a tranqüiliza-  a gente as vezes tem esses pensamentos. “Naquela manhã que nascia ele me deu exatamente o que eu precisava ouvir e o que eu logo esqueceria”.

Em O Olho, com 5anos, relata o trauma de ser obrigada pela mãe a ir ao funeral de uma empregada da casa, a quem era muito ligada. A mãe a força a se aproximar do ataúde, e ela acredita que a morta piscou para ela.

Em Vozes, Munro retrata a mãe como uma mulher ambiciosa e rigorosa que “não era estimada” e para quem a vida que vivia “não era o bastante, não tinha lhe dado a posição de que gostaria.”. Nesse conto Munro também confessa sua carência afetiva aos dez anos e o desejo de ser amada como a Peggy da festa seria pelos rapazes que a consolavam. Em suas fantasias, “As mãos deles abençoavam minhas próprias coxas magrelas e as vozes deles me garantiam que eu também era digna de amor”.

Em Vida Querida,  que dá nome ao livro, Munro jovem descreve a vida dura de casada com dois filhos no momento em que a mãe ficou doente e morreu. Ela não foi ao sepultamento e não dramatizou o episódio, embora admita que se sentiu culpada. Mas se perdoa, e conclui:  "Perdoamos o tempo todo".

Sua forma vaga de escrever, deixando conclusões subentendidas, torna intrigantes os contos de Munro. Seu texto produz frases de efeito, como a mãe de Belle, que não estava “exatamente muda, porque conseguia formar palavras, mas tinha perdido boa parte delas. Ou elas que a tinham perdido” (pág 185).
Ou quando ela descreve os pés descalços de Neal em Cascalho: “aqueles pezões com cara de indefesos”. ( pág 106)

E depois a mensagem, também em Cascalho ( pág 110): “o negócio é ser feliz, ele disse. Apesar de tudo. Só tente. Você consegue”. Que se completa com a frase final do livro, em Vida Querida: ”Nós dizemos certas coisas que elas não podem ser perdoadas, ou que nunca vamos nos perdoar. Mas perdoamos- perdoamos o tempo todo.” Se perdoar para ser feliz?

Munro declara que esse é seu ultimo livro, mas já disse isso em outras oportunidades e voltou atrás. Ela explicou para a revista New Yorker porque mudava de ideia: apesar do “estranho desejo de ser ‘mais normal’” e “de fazer as coisas com mais calma, logo vem a inspiração”. Mas acrescenta: “No entanto, desta vez creio que é de verdade. Tenho 81 anos (agora 82) e me esqueço de alguns nomes ou palavras comuns…”

Fiz a leitura dos contos de Alice Munro quase sempre com prazer, e admirei a maneira singular como conduz personagens e enredos, mas o livro não me conquistou a ponto de desejar ler outras coletâneas da autora. Recomendo com restrições - apenas a quem gosta de contos.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

A vida Querida de Alice Munro


O livro Vida Querida é o mais recente livro de contos da ganhadora do Nobel de Literatura em 2013, Alice Munro. Ele contém 10 contos que são caraterizados por serem ambientados na região Canadense do condado de Huron – Ontário, a pequena cidade de Wingham, onde a autora nasceu e ainda mora até os dias atuais. Neles, ela utiliza o narrador onisciente para dar sentido ao mundo por ela retratado. Seus personagens masculinos tendem a capturar a essência do homem comum, enquanto suas personagens femininos são mais complexas.
Por exemplo, a primeira história começa assim: "Uma vez que Peter tinha trazido a mala a bordo do trem, ele parecia ansioso para obter-se fora do caminho ". Peter é o marido de Greta --- e esta é a última que o veremos. Esta é uma história de uma jovem poeta , viajando com sua filha. Alguma coisa acontece no trem,  é sexy e assustador e não qualquer coisa que você espera --- e então, no final , algo mais acontece , algo que pensei que não era nada provável. Tudo isso acontece rápido, e é forte.
Às vezes me aparecia uma duvida  - São romances ou contos ?  Dada a profundidade emocional de alguns contos. Ela consegue em poucas páginas pintar o quadro profundo de suas personagens e toda a trama na quais estão inseridas. são romances compactados, vidas inteiras contadas em 20 a 30 páginas.
Outra marca comum aos contos é que seus personagens experimentam uma revelação que lança luz sobre suas vidas e lhes dá sentido. Ela chega a ser irônica e séria ao mesmo tempo. Ela retrata com maestria as ambiguidades a vida. O mau gosto ou por vezes a crueldades frente à alegria. A inutilidade versus o “especial”. Creio que ela pode ser definida com gótica (ou literatura gótica, um subgênero romântico), pela forma crua como apresenta seus personagens e a resignação com que estes vivem essa “Vida Querida”.
Talvez a melancólica vida de seus personagens tenha origem na própria autora, que pra escapar da vida na fazenda da família, casou muito jovem e teve filhos cedo.  Tudo isso aconteceu há muito tempo atrás, quando a vida da cidade pequena era um mundo e as mulheres que quebraram as regras eram notórios nesse mundo. Na grande maioria, seus personagens têm um sonho muito desejado, que não têm roteiro ou mentores e têm que descobrir a si mesmos
Vários exemplos demonstram isso, uma jovem vai para ensinar em uma escola remota --- tão remota que ela descreve o céu como um "imenso encantamento". Sua tristexa transpasse ao perceber que mudou de um mundo pequeno para outro menor e distante. Há também a história de mulher com câncer que se resina com a morte inevitável – pelo menos é assim que ela se apresenta.  Mesmo depois do surgimento de um soldado em sua vida, que a ajuda a procurar tratamento. Ela mantem-se resignada com o destino
São vidas de pessoas comuns, a maioria das pessoas, como qualquer um de nós. Encontramo-los na rua, no restaurante, no trabalho e, se estamos curiosos, nós queremos saber sobre suas vidas. Alice Munro faz a lição de casa para nós - ela habita essas vidas. As escolhas de seus personagens podem parecer fáceis, mas na verdade são até difíceis. São escolhas humanas no decorrer de vidas queridas.

Curiosidade: Alice Munro é conhecida por republicar seus livros com versões diferentes das originais. Ela já fez isso em pelo menos outros dois livros.