domingo, 16 de março de 2014

NEVE, de Orhan Pamuk

Por Claudine Duarte



Para começar, uma deliciosa confusão com a semelhança dos nomes dos protagonistas:
o poeta , a  neve  e a cidade. KA, Kar, Kars...
(Em turco, neve é kar)

Este é um livro sobre preconceito e divisão. Divisão de ideias, de caminhos, de futuros.
A história se desenvolve durante a visita que o poeta turco, KA, exilado na Alemanha, faz à fronteiriça (e distante) cidade de Kars, bem ao oriente e isolada do resto do mundo por uma nevasca.

Durante os poucos dias que o poeta transita por Kars, além de conviver com seus medos, carências e sonhos, é levado a participar ativamente de um microssistema que reproduz os conflitos étnicos, políticos, raciais e religiosos da Turquia. Conspirações dentro de conspirações arrastam KA por núcleos de personagens ressentidos, paranóicos e, por vezes, ingênuos.

A neve, metáfora forte ao longo do livro para solidão e desolamento, em vários momentos emoldurou momentos de luz, beleza e acolhimento. Como também inspirou, com o desenho de seu fractal (p. 301), a organização dos poemas de KA, em 3 eixos: 
                    RAZÃO,      MEMÓRIA    e       IMAGINAÇÃO. 
Talvez, como a ponta de um fio que possa conduzir à saída desse atormentador labirinto de intolerância criado por fundamentalistas islâmicos e pelos secularistas na Turquia, ainda nos dias de hoje. Talvez. Talvez Pamuk acredite que o conhecimento científico de Francis Bacon tenha o potencial de restabelecer o “império do homem” sobre as coisas:
  • Poesia, como a ciência da imaginação;
  • História, como a ciência da memória;
  •  Filosofia, como a ciência da razão;


e assim, quem sabe, poderemos – humanos, crentes ou não – nos libertarmos e expurgarmos “ídolos” e preconceitos.

KA é seguido pelo onisciente narrador Ohran, escritor que descreve os próprios passos em Kars e Frankfurt à guisa de reconstruir os caminhos do poeta. Com isso, guarda semelhança com o Gregorius de Trem Noturno para Lisboa em busca de refazer os passos de Amadeu: uma vida que se justifica pela – e na – interpretação de outra.

Essa voz do narrador e, que, nos últimos capítulos, é também personagem do livro, contribui com a trama ao anunciar e/ou denunciar futuros próximos:

“Houve um silêncio carregado de tensão, durante o qual Necip levantou seus belos olhos, um dos quais, dentro de duas horas e três minutos, iria ser estourado por uma bala; ele olhou para a rua escura para ver a neve cair devagar, como um poema.“(p. 131)

“Ele quis ter certeza de que iria se voltar e lançar um último e demorado olhar a Ïpek na janela, por isso ao chegar à rua adiantou vários passos em relação aos seus guarda-costas. Quando ele se voltou, lá estava ela, qual uma estátua, à janela do quarto 203 do Hotel Palácio de Neve, ainda com o vestido de veludo negro de noite, os doces ombros arrepiados por causa do frio. Banhada na luz cor de laranja da mesinha de cabeceira, ela era a imagem de felicidade, uma imagem que KA manteria junto a si nos quatro últimos anos que lhe restaram de vida.
Ele nunca mais a viu.”(p. 420)

Orhan Pamuk escreveu o livro entre abril de 1999 e dezembro de 2001, ou seja, antes de ter sido a 1a pessoa da Turquia a receber um Prêmio Nobel (em 2006). Vale ressaltar que, em 2005, foi processado pelo governo por ter se referido, em entrevistas, ao genocídio contra o povo armênio durante a 1a guerra mundial e teve que se defender de acusação por ter insultado a identidade turca.
A viagem de KA a Kars não é acidental. Com seu casaco alemão, metáfora para uma pequena concessão à visão ocidental do mundo, percorre as ruas brancas de Kars enquanto se (re)constrói no amor à bela Ïpek e nas suas questões existenciais da crença (ou não) em Deus.

Alguns personagens merecem notas:

1.     SENDAR bei, o dono do jornal da cidade, e também redator que descreve os fatos antes que aconteçam para garantir a tiragem e leitura da edição do próximo dia e que, às vezes, nem mesmo ele acredita no que escreve...

2.     TURGUT bei, o recluso pai de Ïpek e Kadife e que tem orgulho de ser democrata mas não abandona a razão: “Não basta ser oprimido, é preciso estar com a razão. A maioria dos oprimidos está ridicularmente errada. Em que devo acreditar?”(p. 279) E é utilizado pelo autor narrador para lhe dar um presente nas páginas finais: um exemplar do livro Primeiro Amor, do russo Ivan Turgueniev – pasmem! Traduzido pelo próprio Turgut... E isso depois de citar várias vezes sua admiração pelos escritores russos e seus personagens melancólicos “tão cheios de virtudes, que não conseguem nada da vida.”(p. 13)

3.     NECIP, um dos estudantes secundaristas do colégio religioso que esperava ser escritor de ficção científica e que inspira KA a escrever e recitar seu poema O LUGAR ONDE DEUS NÃO EXISTE, com dúvidas e certezas que nos remetem ao nosso Riobaldo, do Grande Sertão – Veredas:

“Um homem pode ficar todas as noites na casa de chá e jogando com os amigos, pode se divertir tanto com os colegas que não haja um só instante em que não estejam às gargalhadas, pode passar todas as horas do dia batendo papo com seus amigos íntimos – mas se esse  homem abandonou Deus, ainda assim vai ser o homem mais solitário do mundo.”, diz Necip  p. 169

“(...) Com Deus existindo, tudo dá esperança: sempre um milagre é possível, o mundo se resolve. Mas se não tem Deus, há-de a gente perdidos no vaivém, e a vida é burra. É o aberto perigo das grandes e pequenas hora, não se podendo facilitar – é todos contra os acasos. Tendo Deus, é menos grave se descuidar um pouquinho, pois no fim dá certo”, diz Riobaldo p. 76

Voltando a KA, o motivo inicial de sua viagem até a cidade de Kars – o suicídio de várias mulheres jovens – vai se dissolvendo ao longo da trama, sendo inconclusiva sua investigação. Talvez ele tenha ficado mais intrigado com as descobertas, pois achou “estranhamente deprimente que as jovens suicidas tivessem de lutar para conseguir um momento de privacidade para se matarem. (...) Em suas fantasias, o suicídio era uma cerimônia solene (...) levada a cabo sozinho; na verdade, toda vez que se imaginava acabando com a própria vida, o que o assustara fora a indispensável solidão do ritual.”(p. 25-26). E as jovens de Kars se matavam por infelicidades que iam desde uma casamento forçado até por proibições do uso do manto sobre suas cabeças. E prosseguiam desdenhando dos esforços burocráticos do governo e seus cartazes surreais:
“OS SERES HUMANOS SÃO OBRAS PRIMAS DE DEUS,
E O SUICÍDIO É UMA BLASFÊMIA.”

E por falar em manto, “ele”, a falta d”ele” e a proibição d”ele” perpassam todo o livro como algo que paira sobre a cidade ameaçando crenças, descrenças e descréditos em Deus.

NEVE não foi um livro fácil de ler. Para mim, foi como encontrar vários livros dentro do livro e ao “engatar” numa trama, tive que sair seguindo outro personagem e, às vezes, fiquei sem saber algo – ficando com um sabor desagradável de coisa incompleta.

Senti falta de profundidade no Azul, terrorista apaixonado mais por si e por sua imagem de terrorista que pela causa que abraçava. Considerei uma “amostra grátis” a história de amor e sexo entre Azul e cada uma das duas irmãs – Ïpek e Kadife. Algo tão importante e significativo na vida do poeta KA para ter sido tratado de forma tão marginal...

E, para quê e por quê, a morte (assassinato) de KA? Recurso para permitir que Orhan entrasse em sua casa e remexesse em suas coisas e também fosse passar uns dias em Kars?
Confesso que fiquei à espreita de que uma Melinda ou qualquer outra prostituta apareceria com o Caderno Verde e o entregaria para Orhan. Quem sabe, nua, sob o casaco alemão de KA... E aí sim, ouviríamos uma voz grave lendo a frase de Browning que abre o livro:
“Nosso interesse vai para a perigosa fímbria das coisas.”

Imaginei o trapalhão Sunay, mentor e ator do golpe no teatro e de sua própria morte, protagonista de um livro nos moldes – não menos irônico – do “Galvez, Imperador do Acre”, do brasileiro Marcio Souza.

Para a prisão de Muhtar bei, desejei um conto inteiramente dedicado a temas dolorosos como tomada de consciência e vergonha.
“Ele viu mais alguma coisa no olhar que seu amigo lhe deu, e que o acompanharia por muitos anos: Muhtar achava que merecia a surra que estava prestes a levar. (...) Por favor, quando me olhar nos olhos, não reflita a minha vergonha, devolvendo-a a mim.”(p. 82)

E por fim, quão pouco explorada a musa de KA que depois de separar uma terna bagagem, se conforma e desiste de um futuro inexistente na Alemanha, arquétipo feminino de infinitas toalhas jogadas precoce e repetidamente:
“Eu fiz o possível para amar Muhtar, mas não adiantou. Eu amei Azul de todo o meu coração, mas de nada adiantou. Eu achei que poderia aprender a amar KA, mas isso não deu em nada. Eu sonhava com um bebê que nunca veio (...)”(p. 476)

Para fechar, posso acrescentar que NEVE também poderia, mesmo com o pano de fundo da divisão e da intolerância, ser interpretado como um livro sobre o Amor. O Amor de KA por Ïpek, de Muhtar por Ïpek, de Ïpek por Azul, de Kadife por Azul, de Azul por Azul, de Necip por Kadife, de Fazil por Kadife, de Sunay por Sunay, do Sheik por Deus, de Deus por todos, com dúvidas, incertezas, trapalhadas, paranoias, descaminhos, ilusões, esperanças, cisões, acertos e descompassos.

Destaco a forma que o autor apresentou os capítulos com títulos e subtítulos que lembraram páginas da minha infância com os livros de histórias árabes do Malba Tahan e de alguns contos sufi.

Orhan Pamuk introduziu questões e algumas descrições que  abriram  interesse pelos armênios e suas cidades esquecidas e abandonadas à força. O satélite do Google Earth me levou por sobre as ruas de Kars e pela “cidade fantasma” Ani: espectral e envergonhante. 


Recomendo? Com restrições. NEVE é longo, lento, sem herói, sem saga, sem final.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

VIDA QUERIDA

de Alice Munro


por Ana Studart

Alice Munro é canadense, nasceu em Wingham, Ontario, em 1931. Casou-se aos 20 anos e teve três filhas. Durante muitos anos, foi apenas mãe e dona de casa. Já lançou 14 coletâneas de contos. Recebeu o Nobel de Literatura em  2013, e foi a primeira vez que um  contista mereceu esse premio.  Viveu no período da 2a Grande Guerra, e um de seus contos, Trem,  trata do tema, um soldado que volta do combate ao encontro da noiva.
A escritora norte- americana Cynthia Ozick considera Alice Munro a “Tchekhov da América”.
Certa vez Munro disse que seus contos seriam “tentativas”, ensaios preparatórios para escrever um romance, mas agora percebe que o conto é sua forma de expressão.  Me pergunto se essa constatação tem alguma relação com  a frase do conto Trem,  onde o personagem Jackson pensa no livro do pai de Belle, intrigado, e se pergunta “por que alguém ia sentar e fazer outro livro, no presente. Hoje”.

Em Vida  Querida, seu último livro, Alice Munro apresenta 14 contos – alguns deles, mini-romances. Os quatro últimos são relatos autobiográficos, classificados como Finale – porque, palavras dela,  são “as primeiras e as últimas – e as mais íntimas – coisas que eu tenho a dizer sobre a minha vida”.

Seus personagens: Munro cria nesses contos mulheres que vivem situações típicas do universo feminino, como Greta, casada,  que se sente atraída por Greg e Harris em detrimento da filha que a acompanha em viagem; Vivien que trabalha  como professora numa instituição para tuberculosos, e vai se deixando dominar e envolver pelo chefe, que foge no dia do casamento; Belle, que é abandonada pelo parceiro no momento em que enfrenta um câncer; Corrie, uma deficiente física que se envolve com um homem casado e são chantageados por uma ex-empregada de Corrie.
Mas Alice Munro não se considera feminista e não aceita o rótulo. “Nunca penso se sou ou não” , E justifica dizendo que as mulheres que descreve não são vítimas - a despeito de personagens como Vivien e Belle.

Seu  estilo é simples e singular.  Simples porque Alice Munro fala de coisas do cotidiano, da vida comum, e singular porque  não desvenda seus enredos com nitidez: eles vão evoluindo e vamos tentando adivinhar onde aquela história vai desembocar.  São pedaços, momentos da vida, onde os  desfechos, quando existem, quase sempre ficam subentendidos. 

Sua narrativa não é sempre linear:  Munro brincou certa vez, dizendo que um conto não é uma estrada pela qual se segue, mas um casa desconhecida onde se entra e se descobre quartos e corredores, quase um labirinto em que o narrador busca o sentido do núcleo familiar. 

O PDV é por vezes do narrador, onisciente, por vezes de algum dos personagens.

O acaso ( ou seria o destino?) parece guiar seus contos e seus personagens – e esse, para mim, é o traço maior do livro. Seria ele a determinar o rumo de nossas vidas?

No primeiro conto, “Que Chegue ao Japão”, (PDV onisciente), há um trem que não se sabe o destino, com  Peter carregando uma mala para a viagem de duas passageiras, Katy e Greta - e de início nem fica claro qual é a filha e qual é a esposa dele. Vai se percebendo com o desenrolar da história, que segue envolvendo desejos e conflitos, e idas e vindas: numa festa de escritores, Greta bebe demais e volta para o hotel de carona com Harris. No trem para Toronto casualmente se envolve com Greg,  e na  chegada à estação Harris, a quem avisara da chegada por  correspondência, a recebe com um beijo.

O melhor exemplo do acaso que conduz os contos de Munro é o  “Trem”, ( PDV do narrador) onde se tem um personagem que salta de um vagão em movimento antes do seu destino final e é acolhido por uma noite em troca de serviço por uma desconhecida. Os consertos na casa se sucedem e o tempo passa até que Belle enfrenta um câncer, ele ouve no hospital a longa história sobre o pai  de Belle que pedia repetidos perdões não se entende porque e depois morre se deixando atropelar por um trem. Alice Munro sugere dois motivos para os pedidos de perdão e o suicídio: com a esposa doente, ele freqüentava prostitutas; e encarou Belle nua no banheiro, o que teria mudado a relação entre pai e filha. O impacto desse relato de Belle destrói o laço que  a une Jackson e ele a abandona no hospital com um “A gente se vê amanhã”. 
Jackson vaga ao acaso pelas ruas, ajuda o proprietário de um prédio que lhe pede que cuide por instantes da portaria, e mais uma vez vai ficando. E então a história nos surpreende com uma volta ao começo,  quando Ileane, a noiva que ele ia encontrar se não tivesse pulado do trem,  por acaso chega  ao prédio onde Jackson trabalha. Ele a reconhece só pela voz e aí vem o feedback: eles tentaram fazer sexo antes dele seguir para a guerra, mas Jackson não se sai bem. Em posterior relação, o desastre se repete. Fica subentendido que sexualidade seria uma explicação para a vida errante de Jackson. Ele pensa no final em procurar a antiga noiva, mas acaba  pegando  um trem para  procurar trabalho numa cidade madeireira.

No conto “Corrie”,  (PDV onisciente) a personagem teve pólio e se relaciona com um homem casado. Chantageada, Corrie paga mensalmente para não ter o romance desvendado. Quando a chantageadora morre, a narrativa fica reticente: “Ela (Corrie) sabe de alguma coisa. Descobriu enquanto dormia. Não existe notícia alguma para dar a ele. Não existe, porque nunca existiu”.  O que ela descobriu?  Que quem recebia o dinheiro era o amante? Ou seria o amante que teria matado a chantageadora? O que Munro quis dizer com a mensagem de Corrie: ”Lílian morreu. Enterrada ontem”. E a resposta: “Tudo bem agora, fique feliz. Breve.” Fique feliz porque o problema acabou ou porque não se verão mais? E esse breve,  significa que eles se encontrarão em breve?

Em “Com Vista para o Lago” ( PDV onisciente) Nancy, que está perdendo a memória, tenta pegar uma receita, mas a médica estava de folga e lhe indicaram esse especialista numa cidade próxima.... Ela esquece o nome do médico e depois de vagar ao acaso  pelas ruas da cidade, acaba trancada dentro  de uma Casa de Repouso, onde vira paciente.

No conto Dolly, ( PDV de Dolly) é o cotidiano que prevalece - junto com o acaso.  Uma história banal, clássica, de ciúmes. Um casal idoso e bem ajustado planeja a morte, quando é sacudido pela chegada de uma vendedora de  cosméticos que se revela  antiga namorada de Franklin.  Ironicamente ela é introduzida na vida do casal pelas mãos de Dolly que, enciumada, sai de casa,  escreve e destrói varias cartas, envia uma, depois se arrepende e volta para o marido. O final é quase feliz, não fosse o medo de Dolly de que Franklin recebesse a carta que ela  finalmente havia postado.

No Finale, Munro fala de suas desventuras. São narrativas autobiográficas, onde ela confessa seus pecados, como o desejo infantil de matar a irmã em Noite:
“A idéia estava ali e balançava na minha cabeça. A idéia de que eu podia estrangular a minha irmã mais nova, que dormia na cama embaixo da minha e que eu amava mais do que qualquer pessoa no mundo.”  Com sono intranqüilo, encontra o pai também insone, e conta seu medo. O pai a tranqüiliza-  a gente as vezes tem esses pensamentos. “Naquela manhã que nascia ele me deu exatamente o que eu precisava ouvir e o que eu logo esqueceria”.

Em O Olho, com 5anos, relata o trauma de ser obrigada pela mãe a ir ao funeral de uma empregada da casa, a quem era muito ligada. A mãe a força a se aproximar do ataúde, e ela acredita que a morta piscou para ela.

Em Vozes, Munro retrata a mãe como uma mulher ambiciosa e rigorosa que “não era estimada” e para quem a vida que vivia “não era o bastante, não tinha lhe dado a posição de que gostaria.”. Nesse conto Munro também confessa sua carência afetiva aos dez anos e o desejo de ser amada como a Peggy da festa seria pelos rapazes que a consolavam. Em suas fantasias, “As mãos deles abençoavam minhas próprias coxas magrelas e as vozes deles me garantiam que eu também era digna de amor”.

Em Vida Querida,  que dá nome ao livro, Munro jovem descreve a vida dura de casada com dois filhos no momento em que a mãe ficou doente e morreu. Ela não foi ao sepultamento e não dramatizou o episódio, embora admita que se sentiu culpada. Mas se perdoa, e conclui:  "Perdoamos o tempo todo".

Sua forma vaga de escrever, deixando conclusões subentendidas, torna intrigantes os contos de Munro. Seu texto produz frases de efeito, como a mãe de Belle, que não estava “exatamente muda, porque conseguia formar palavras, mas tinha perdido boa parte delas. Ou elas que a tinham perdido” (pág 185).
Ou quando ela descreve os pés descalços de Neal em Cascalho: “aqueles pezões com cara de indefesos”. ( pág 106)

E depois a mensagem, também em Cascalho ( pág 110): “o negócio é ser feliz, ele disse. Apesar de tudo. Só tente. Você consegue”. Que se completa com a frase final do livro, em Vida Querida: ”Nós dizemos certas coisas que elas não podem ser perdoadas, ou que nunca vamos nos perdoar. Mas perdoamos- perdoamos o tempo todo.” Se perdoar para ser feliz?

Munro declara que esse é seu ultimo livro, mas já disse isso em outras oportunidades e voltou atrás. Ela explicou para a revista New Yorker porque mudava de ideia: apesar do “estranho desejo de ser ‘mais normal’” e “de fazer as coisas com mais calma, logo vem a inspiração”. Mas acrescenta: “No entanto, desta vez creio que é de verdade. Tenho 81 anos (agora 82) e me esqueço de alguns nomes ou palavras comuns…”

Fiz a leitura dos contos de Alice Munro quase sempre com prazer, e admirei a maneira singular como conduz personagens e enredos, mas o livro não me conquistou a ponto de desejar ler outras coletâneas da autora. Recomendo com restrições - apenas a quem gosta de contos.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

A vida Querida de Alice Munro


O livro Vida Querida é o mais recente livro de contos da ganhadora do Nobel de Literatura em 2013, Alice Munro. Ele contém 10 contos que são caraterizados por serem ambientados na região Canadense do condado de Huron – Ontário, a pequena cidade de Wingham, onde a autora nasceu e ainda mora até os dias atuais. Neles, ela utiliza o narrador onisciente para dar sentido ao mundo por ela retratado. Seus personagens masculinos tendem a capturar a essência do homem comum, enquanto suas personagens femininos são mais complexas.
Por exemplo, a primeira história começa assim: "Uma vez que Peter tinha trazido a mala a bordo do trem, ele parecia ansioso para obter-se fora do caminho ". Peter é o marido de Greta --- e esta é a última que o veremos. Esta é uma história de uma jovem poeta , viajando com sua filha. Alguma coisa acontece no trem,  é sexy e assustador e não qualquer coisa que você espera --- e então, no final , algo mais acontece , algo que pensei que não era nada provável. Tudo isso acontece rápido, e é forte.
Às vezes me aparecia uma duvida  - São romances ou contos ?  Dada a profundidade emocional de alguns contos. Ela consegue em poucas páginas pintar o quadro profundo de suas personagens e toda a trama na quais estão inseridas. são romances compactados, vidas inteiras contadas em 20 a 30 páginas.
Outra marca comum aos contos é que seus personagens experimentam uma revelação que lança luz sobre suas vidas e lhes dá sentido. Ela chega a ser irônica e séria ao mesmo tempo. Ela retrata com maestria as ambiguidades a vida. O mau gosto ou por vezes a crueldades frente à alegria. A inutilidade versus o “especial”. Creio que ela pode ser definida com gótica (ou literatura gótica, um subgênero romântico), pela forma crua como apresenta seus personagens e a resignação com que estes vivem essa “Vida Querida”.
Talvez a melancólica vida de seus personagens tenha origem na própria autora, que pra escapar da vida na fazenda da família, casou muito jovem e teve filhos cedo.  Tudo isso aconteceu há muito tempo atrás, quando a vida da cidade pequena era um mundo e as mulheres que quebraram as regras eram notórios nesse mundo. Na grande maioria, seus personagens têm um sonho muito desejado, que não têm roteiro ou mentores e têm que descobrir a si mesmos
Vários exemplos demonstram isso, uma jovem vai para ensinar em uma escola remota --- tão remota que ela descreve o céu como um "imenso encantamento". Sua tristexa transpasse ao perceber que mudou de um mundo pequeno para outro menor e distante. Há também a história de mulher com câncer que se resina com a morte inevitável – pelo menos é assim que ela se apresenta.  Mesmo depois do surgimento de um soldado em sua vida, que a ajuda a procurar tratamento. Ela mantem-se resignada com o destino
São vidas de pessoas comuns, a maioria das pessoas, como qualquer um de nós. Encontramo-los na rua, no restaurante, no trabalho e, se estamos curiosos, nós queremos saber sobre suas vidas. Alice Munro faz a lição de casa para nós - ela habita essas vidas. As escolhas de seus personagens podem parecer fáceis, mas na verdade são até difíceis. São escolhas humanas no decorrer de vidas queridas.

Curiosidade: Alice Munro é conhecida por republicar seus livros com versões diferentes das originais. Ela já fez isso em pelo menos outros dois livros.

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

A MARCA HUMANA (The Human Stain)

de Philip  Roth

por Ana Luiza Machado

Philip Roth é um celebrado escritor norte americano de ascendência judia, nascido em 19 de março de 1933, em Nova Jérsei. Conquistou diversos prêmios literários em sua carreira, dentre eles o Pulitizer Prize por Pastoral Americana”(1997 ) , teve sua obra Complô contra a América eleita como “o melhor romance histórico americano publicado em 2003-2004”. Figura como um dos três escritores vivos a terem obras publicas na Library Of America.

A marca humana, publicado em 2000, é um das obras que compõe A Trilogia da América,  da qual fazem parte Pastoral Americana e Casei com um comunista. A  estrutura narrativa das obras é comum, em especial, pela existência de um narrador personagem, que embora ocupe um papel secundário na trama dos livros que compõe a trilogia, é de fundamental importância. Oportuno destacar que Nathan Zuckerman, o narrador – personagem, é um alter ego do autor.

Partindo do personagem principal, Coleman Silk , (sumariamente revelado como morto), percorremos as páginas reconstruindo –o , por meio dos acontecimentos e impressões dos personagens secundários e ainda pela imaginação do escritor personagem Natan Zuckerman. No que tange aos personagens secundários, é de se destacar que a denominação e meramente formal, uma vez que na estrutura da obra muitos deles tem vigor suficiente para o protagonismo, tais quais a professora francesa Delfine Houx; e  Faunia Lester, amante do professor Coleman.

 Na trama, Coleman Silk e um professor universitário que se ve envolvido em um escândalo de racismo na Universidade na qual leciona. Acusado de ter ofendido alunos ausentes em sua classe, ele e absorvido por uma onda de acusações. Em meio a tais acontecimentos, ele se depara com inúmeras perdas, as quais o conduzem a uma indignação entorpecente e este sentimento, que o impede de escrever por si mesmo os eventos , o leva ao encontro de Natan Zuckerman para que o escritor escreva  sobre a historia, relacionando tais eventos a perda de um ente querido. Esta é a espinha dorsal da obra,  a qual serve de estrutura para a abordagem dos mais diversos temas, como as consequências da guerra no individuo , a vaidade nos meios acadêmicos, o feminismo, o sexo na velhice, a decrepitude, entre outros.


O elemento do narrador personagem é um traço fundamental da obra , proporcionando ao leitor uma identificação imediata, uma vez que há um jogo contínuo entre “proximidade” e “distância” dos conflitos vivenciados pelos personagens. Tal qual Natan, nós leitores, observamos as agruras e os prazeres dos personagens de maneira às vezes próxima, às vezes distante. O que não impede que o autor nos brinde com ótimas mudanças de ponto vista, trafegando pela mente conturbada dos personagens, revelando seus pensamentos, mudando totalmente o ritmo da narrativa, revelando a personalidade dos personagens por meio de seus pensamentos.

Os sustentáculos de “A Marca Humana” são : o moralismo na era Clinton em decorrência do envolvimento sexual do então presidente norte americano e sua estagiária; o racismo histórico norte americano; o conflito pungente entre a individualidade humana e a identidade compartilhada de grupos de raça.


Considerei o livro excelente. O elemento que o faz memorável para mim é a dimensão universal dos sentimentos humanos nele transcritos,  marca indelével de nossa humanidade. Recomendo com louvor !! Excelente porta de entrada para o universo de Philip Roth.

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

A Lebre com Olhos de Âmbar

de Edmund De Waal

 por Maria Albeti Vitorino

Edmund De Waal nasceu na Inglaterra, além de escritor é um ceramista famoso mundialmente, trabalhou como curador, conferencista, crítico e historiador de arte, é professor de cerâmica da Universidade de Westminster, coleciona vários prêmios e homenagens por seu trabalho. Estudou cerâmica e tornou-se pesquisador do artesanato popular japonês. Seu trabalho, como ceramista, manteve-se praticamente dentro da tradição anglo-oriental.

No livro,  o autor resgata a história de sua família, ao longo de cinco gerações,  tendo como fio condutor uma coleção de 264 miniaturas japonesas (netsuquês) herdadas do seu tio-avó Ignácio (Iggy). 

Ao lado da história de sua família, o autor menciona alguns dos principais momentos da história dos séculos XIX e XX, tais como a Terceira República Francesa, o assassinato do arquiduque Franz Ferdinand, herdeiro do império Habsburgo, a eclosão da 1ª. Guerra Mundial, a derrocada do Império Austro-Húngaro e a segunda Guerra Mundial.

Tudo começa no poder ascendente, em Odessa, da família Ephrussi (antes Efrussi), passa pela capital francesa do final do século XIX,  Viena na época do império Austro-Húngaro e depois sob o jugo do Nazismo.

Narra a separação da família, na fuga da perseguição nazista, como de resto ocorreu com muitas famílias judias, que vão preferencialmente para Suiça, Inglaterra e Estados Unidos. Finalmente, fala do reencontro de alguns membros da família Ephrussi, depois da guerra, alguns na Espanha, outros no Japão e na Inglaterra, com diferentes nacionalidades.

Na primeira parte do livro, o personagem principal é Charles, filho do patriarca Joachim Ephrussi, que mantém um império financista em Odessa, na Rússia Imperial,  e pretende se expandir para o restante da Europa, instalando seus herdeiros nas cidades de Paris e Viena.

Sendo o terceiro filho, Charles Ephrussi pode usufruir da vida mundana em Paris, enquanto os irmãos mais velhos se dedicam aos negócios. Historiador de artes, crítico e colecionador, vive intensamente a era Impressionista e, a partir de 1870, começa a montar sua coleção de miniaturas japonesas. Em 1899, a coleção é enviada para Viena, como presente de casamento ao seu primo Viktor (pai de Ignacio, bisavô de Edmund).

A partir desse momento o livro tem como cenário o Palácio Ephrussi, em Viena, onde agora estão os netsuquês. Nessa cidade, como em Paris, existe um forte sentimento anti-semita, que se manifesta de forma velada.

Com a queda do Império Austro-Húngaro, fica claro o antisemitismo e começa a perseguição aos judeus, que se intensifica com a ocupação nazista, de 1938 a 1945. A família Ephrussi se separa parte vai para Inglaterra, outra parte para os Estados Unidos,  perdem todos seus bens, inclusive os netsuquês, que ficam no palácio de Viena.

No entanto, essas pequenas peças são resgatadas pela governanta Anna,  que não é judia e,  sob o pretexto de auxiliar no acondicionamento dos móveis e obras de arte, consegue dia após dia, sair com todos eles escondidos na sua roupa.

Finda a Segunda Guerra, Anna devolve os netsuquês para Elizabeth (filha de Viktor e avó de Edmund) que entrega ao seu irmão Ignacio. Daí a coleção é levada para o Japão, onde passa a ser exposta novamente e tem seu valor reconhecido. Ignacio, além de contar a história da família para Edmund, deixa pra ele as miniaturas que são levadas para a Inglaterra, onde devem estar  atualmente.

Enfim, o livro narra a história de uma família que teve poder e riqueza, mas que nunca conseguiu uma total aceitação da sociedade, como todos os demais judeus.  Eram sempre vistos como arrivistas, sem pátria e, portanto, apontados como os principais  responsáveis em épocas de crises econômicas. Em virtude das dificuldades financeiras após derrota da Áustria, na 1ª. Guerra, os judeus passaram a ser mais odiados.

Segundo o autor, os judeus aprendiam várias línguas (russo, francês, latim, grego, alemão e inglês), para que pudessem se  sentir em casa em qualquer lugar do mundo, só não podem ser pegos falando iídiche.

Eles tentavam esconder sua religião, sua língua e ao mesmo tempo procuravam se integrar na alta sociedade por meio do auxílio às artes, da associação à grupos influentes, enfim com uma participação na vida do país em que estavam vivendo. No Palácio em Viena, havia uma única cena bíblica, uma pintura do Livro de Ester, numa área frequentada somente pelos judeus.

***


FELICIDADE DEMAIS

de Alice Munro 

Editora: Companhia das Letras- 2010

Too much happiness: stories
Tradução de Alexandre Barbosa de Souza

COMENTÁRIOS por Maria Virginia de Vasconcellos


Embora este livro não pertença à minha categoria predileta, ou seja, não se trata de romance histórico, nem mesmo romance, são dez contos completos que, de fato, valem por dez romances.
Porque completos? Simplesmente eles são lógicos, têm início, meio e um fim normal, geralmente plausível num contexto de país desenvolvido. Cada um deles daria suficiente motivação para conversas em grupo.

Fortes estórias, ou memórias ou o que quer que seja, são de excelente prazer na leitura.
A garra da narrativa de Alice Munro nos coloca em suspense, à espera dos acontecimentos, alegrias e infortúnios, que a vida e a morte podem trazer.

Carrega muita informação sobre a vida contemporânea, sem, entretanto, utilizar mecanismos de tecnologia. Por meio de enredos e estórias complexas sobre o ser humano, descortinam-se os personagens, muitos deles femininos. 
A autora tem a grande habilidade de desenhar, com rapidez e concisão, os traços precisos das personalidades que cria, sem perder a profundidade e o vigor. (“Faz com que mereça a frequente comparação com o russo Anton Tchekov”[1])

Sempre dá vontade de re-iniciar a leitura do conto (com exceção do “Madeira”, onde há uma descrição detalhadas e demorada de árvores, lenhas e matas).

No primeiro relato, Dimensões, Doree volta à prisão para visitar o marido que cometera o mais hediondo dos crimes. É surpreendente não no fato em si, mas no que diz respeito a sentimentos femininos. Impressiona e fascina.

Em Ficção, vemos a delicadeza da transformação de um casamento, o correr da vida, novos enlaces, o fortuito encontro da Joyce, a professora de música, com a ex-aluna e um conto dentro do conto. 
“o que ela tem a ver com isso?” disse Joyce.
E o marido responde: “É que ela se sente ameaçada pela bebida. Ela ainda está muito frágil. É uma coisa que não dá pra a gente entender”.
 Ameaçada. Bebida. Frágil. Que palavras eram essas que meu marido estava usando? Eu devia ter percebido. Ele estava ficando apaixonado..... (pag. 49).
Bastam dois parágrafos para explicar “o golpe fatal que aleija um homem, a brincadeira maldita que transforma olhos claros em pedras cegas”.

Na estória Wenlock Edge uma universitária conta a experiência do relacionamento com a Nina que aparece para morar com ela no quarto alugado. Vai além do esperado a descrição da aventura perversa e das personalidades sórdidas que povoam a existência comum e se utilizam da fragilidade humana. “Pessoas - Em busca de proezas que elas não sabiam trazer dentro de si”. (pag. 108)

Buracos-profundos deixa o leitor perplexo com consequências/impactos que acidentes podem provocar; ou não foi o acidente do Buraco-profundo que trouxe a alteração na vida de um filho? Novamente um casal, agora com filhos, novamente a normalidade transformada drasticamente. Acidentes da vida. Impressionante caracterização dos personagens.

No quinto conto deste volume, Radicais Livres, há relato de depressão, morte, mas o roteiro se transforma numa tensão quase policialesca com a invasão de um inesperado personagem.

Aqui vale um parêntesis para o comentário da Revista Veja – Jerônimo Teixeira – que diz que a autora “exagera no recurso a encontros casuais como motor da ação”, apesar dele reconhecer que ela sabe conduzir a narrativa até momentos tensos.
O fato é que, embora este recurso a encontros casuais seja realmente utilizado de várias formas, discordo inteiramente da conclusão da resenha do Teixeira quando afirma que o mais recente livro da Alice Munro, Vida querida, que parece ter o mesmo estilo deste, “é ficção para ser adotada em cursos de “Estudos Femininos” nas universidades americanas”. Discordo do Teixeira, repito.  A temática não é apenas feminina, mas sim universal.Vale a pena conferir mais este livro.

O sexto conto, Rosto, é um relato marcante sobre relação pais x filho, filho este que tem um defeito físico, uma estranha mancha no rosto que “Parece um pedaço de fígado”. Chega-se ao lirismo ao final, com poesias e sentimentos ternos.

Algumas mulheres, apresenta uma competição sutil e fortíssima entre mulheres, e a consequente solidariedade de uma terceira, digamos, partidária. Tudo na visão de uma menina de 13 anos...

E o Brincadeira de criança? Esta estória, achei até previsível de certa forma, mas  de extrema crueldade. Que crueza na explicitação do mal que pode existir em cada um. Vale uma reflexão, mas não exige julgamentos dos personagens. Será que eles se auto-punem? Qual o grau de consciência de uma criança? É uma confissão? Duas amigas se re-encontram, estando uma no leito de morte.

Mas, o ponto culminante é a estória que dá nome ao livro, ou seja, Felicidade demais.
Aqui sim, há períodos históricos bem delineados: uma russa, brilhante matemática e literata, um ou dois russos exilados, pela Europa, na última década do século XIX.
É a recriação de parte da vida de Sophia Kovalevsky, uma das primeiras mulheres a se tornar professora universitária de matemática, na Suécia. “Ela se consagrou na Alemanha, atuou como jornalista em Petersburgo... e travou contato com grandes personalidades da época”. (contracapa)
Vale a pena mergulhar nesta época com suas contradições e mudanças comportamentais fortes, e quando “feminismo não era nem uma palavra que as pessoas usavam”).

De fato, “tudo podia ter acontecido antes da expulsão de Adão e Eva dos jardins do paraíso”. (pag. 289). E não se deve “provocar o destino a enviar outro golpe”. (pag. 319)

Afinal:
“Quando um homem sai de um quarto, ele deixa tudo pra trás”
E “quando uma mulher vai embora, ela leva consigo tudo o que aconteceu naquele quarto”.

 Recomendo o livro sem restrições e com enorme entusiasmo.



[1] REVISTA Veja – 11 de dezembro, ALÍVIOS PROGRESSISTAS, Jerônimo Teixeira

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

IL BARONE RAMPANTE (O Barão nas Árvores).

de Italo Calvino


por Irene Nogueira de Rezende

Italo Calvino nasceu a 15 de outubro de 1923, em Santiago de las Vegas no subúrbio de Havana, Cuba. Seu pai era um cientista especializado em agronomia e botânica e trabalhou para o governo mexicano e cubano. A mãe era também botânica e professora universitária. O ambiente estimulante de pais professores e cientistas foi fundamental na sua formação intelectual. De volta à Itália com apenas dois anos, foi criado na propriedade da família, perto de San Remo, onde o pai fazia experiências botânicas e cultivava frutas. Essa vivência entre flores e árvores frutíferas foi aproveitada por Calvino para escrever O barão nas árvores. Seus pais lhe proporcionaram uma formação intelectual primorosa e se recusaram a dar orientação religiosa para os filhos.

Com o advento do fascismo a família Calvino se posicionou veementemente contra. Quando foi convocado pelo governo, Ítalo se recusou a lutar ao lado dos fascistas e, com o incentivo da mãe, entra para a Resistência Italiana. Depois da guerra se filia ao Partido Comunista Italiano, abandona o curso de agronomia e entra no curso de Artes. Depois defende sua tese de Mestrado sobre Joseph Conrad. Começa a publicar contos e trabalha como jornalista.

Em 1952 inicia a publicação da trilogia dos antepassados com  O visconde partido ao meio, 1957 vem O barão nas árvores e, em 1959, O cavaleiro inexistente.

Em 1956, depois da invasão da Hungria pelos soviéticos e pouco antes de publicar O barão nas árvores, Calvino se desliga do Partido Comunista publicando uma carta no jornal L’Unitá se justificando e que ficaria famosa como um libelo à liberdade de expressão e de criação. No ano de 1972 publica As cidades invisíveis, um de seus mais belos romances, ambientado em parte do século XIII, onde recria diálogos entre o viajante veneziano Marco Polo e o imperador dos tártaros Kublai Khan, em Cambaluc, atual Pequim.  Sobre esse livro um crítico escreveu que: “Em nenhuma outra obra Ítalo Calvino levou tão longe os valores que considerava fundamentais à sobrevivência da ‘espécie literária’: leveza, rapidez exatidão, visibilidade, multiplicidade e consistência. O leitor verá que é impossível não se perder nessas cidades, como é impossível não se enredar nessas teias de palavras”.

Alguns livros publicados: O castelo dos destinos cruzados, Amores difíceis, Se um viajante numa noite de inverno e seu último trabalho Seis propostas para o próximo milênio, de 1985, uma série de conferências que faria para a Universidade de Harvard e que não pode finalizar porque um derrame o pegou antes, vindo a falecer no dia 19 de setembro de 1985.

O barão nas árvores

Começo pela tradução que, a meu ver, deixa a desejar incluindo expressões que não combinam com a narrativa, como “saco cheio, estou me lixando” e outras mais. A tradução dos nomes próprios também não é adequada – aliás, sou da opinião que não se deve traduzir nomes dos personagens -, porque Cosimo de Rondeau soa muito melhor que Cosme de Rondó. Ombreuse não é muito mais bonito que Penúmbria? O tradutor nos tira a possibilidade de conhecer os personagens pelo seu nome original, pela sua sonoridade nativa, privando ao leitor de usufruir de um nome com um significado próprio da língua de origem, ou mesmo uma associação com algo que seja familiar a cada leitor. Por que não traduziu então o nome do abade Fauchelafleur (algo como decepa flores)? Ou conde d’Estomac por conde Estômago?

Calvino constrói com muita habilidade e originalidade seus personagens, lançando mão do humor como recurso para emoldurá-los, basta notar a irmã Batista e suas inventividades gastronômicas, a mãe com sua dilatada veia militarista, o pai, o senhor Barão, o abade Fauchelafleur, Viola e o próprio Cosme, com suas muitas facetas e criatividade demonstradas durante sua vida nas árvores. Todos os artifícios usados para Cosme se adequar a uma vida nas árvores são tão bem elaborados e ficam tão verossímeis, que o leitor acaba por crer que seria mesmo possível alguém passar a vida pulando de galho em galho sem jamais tocar os pés no chão. Até o cão de Cosme tem uma personalidade peculiar e bem elaborada pelo autor.

Calvino também desconstrói a imagem dos religiosos eruditos, invertendo os papéis tradicionais, colocando Cosme como mestre do abade Fauchelafleur lhe ministrando lições de obras condenadas pela Igreja como a Enciclopédia de Diderot e D’Alembert. Fato que acaba por colocar o religioso em desgraça junto ao Tribunal da Inquisição. Preso e isolado, morre em meio a dúvidas existenciais suscitadas após as leituras e os debates com Cosme.

Interessante também é a tentativa de Cosme criar um Estado Arbóreo chegando a escrever um projeto – Projeto de constituição de um Estado ideal fundado em cima das árvores –  que enviou a Diderot, que o respondeu com um bilhete (adorei essa ironia da resposta por um bilhete, ou seja, Diderot não estava nem aí para os arroubos constitucionais de um nefelibata que morava nas árvores).

O narrador, Biágio, tem aquela natureza mais contemplativa, menos impulsiva e um tanto crítica, levando a crer que, talvez, fosse a voz (e a consciência do próprio Calvino), um autor, logo se vê, preocupado com o hábito de ler, fazendo muitas vezes Cosme de seu paladino em prol da disseminação da rotina da leitura. E para esse objetivo usa do personagem de João do Mato, que larga a vida de rapinagem pelo prazer obsessivo da leitura, chegando ao ponto de, literalmente, com a corda no pescoço, pedir a Cosme para saber como termina um romance que estava lendo por ocasião de seu enforcamento.

As inserções de personagens históricos como Voltaire: “era somente a Natureza que criava fenômenos vivos, agora é a Razão”, Diderot, Rousseau (que não respondeu o livro que Cosme o enviou) e Napoleão Este dando mostras de sua megalomania confunde um capítulo que Alexandre da Macedônia encontra o sábio Diógenes que o pede para se afastar porque sua sombra lhe tapa o sol (Senhor, apenas não tire de mim aquilo que não podes me dar), como se tivesse acontecido com ele próprio.

O texto traz ainda passagens de grande lirismo como o momento da morte da generala com as bolhas de sabão assopradas por Cosme para lhe alegrar os últimos momentos de sua vida. E a morte do próprio Cosme, levado por um balão até o mar que poderia ser interpretada como  uma alegoria celestial indicando sua subida ao céu por uma vida tão pura e inocente.

É bom destacar a preocupação ecológica de Calvino que perpassa o romance, escrito numa época em que não era comum discutir questões ambientais. Preocupação esta explicável pela influência familiar e sua estreita convivência com as plantas desde a mais tenra idade.

Como disse o autor da resenha enviada por Claudine, a estratégia ou o recurso literário de pensar um personagem que vive nas árvores proporciona ao autor maiores alternativas na narrativa: uma no chão e outra em cima das árvores, possibilitando uma série de soluções literárias (e poéticas também) que só enriquecem o romance, além da contextualização histórica abordando uma época de grandes transformações culturais e políticas. Iluminismo, Revolução Francesa, o racionalismo científico, enfim aquele fervilhar de ideias que caracterizou os séculos XVIII e XIX. E isto Calvino soube aproveitar muito bem como moldura para seu romance de fortes pinceladas de realismo fantástico. Recomendo entusiasticamente.

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