terça-feira, 16 de agosto de 2016

No Coração das Trevas

de Joseph Conrad


por Márcia H Carvalho


“Quando era bem pequeno, tinha paixão por mapas. Ficava horas olhando a América do Sul, ou a África, ou a Austrália, e me perdia nas glórias da exploração. Naquela época havia na Terra muitos espaços em branco, e, quando via algum que parecia especialmente convidativo no mapa (...), eu colocava o dedo ali e dizia, ‘Quando crescer irei lá’”(p. 29).

Este era o sonho do marinheiro Marlow, personagem central do romance “No Coração das Trevas” escrito por Joseph Conrad e publicado em 1902. Marlow, que ao ver a possibilidade de concretizar um sonho de infância, embarca em um navio rumo ao pesadelo. Ao invés de se perder nas glórias da exploração acaba se perdendo nos perigos de um mundo novo.

Um mundo novo não tão admirável!

O mundo que Marlow visita e descreve aos companheiros está longe de ser um espaço em branco. Pelo contrário, está situado em algum lugar no continente africano, onde a selva é imensa, os canibais estão famintos e os selvagens dispostos a atacar durante uma forte névoa. Mas o que mais assusta neste mundo é a invasão do homem branco.    

Marlow vai parar neste mundo porque, por meio de uma tia influente, consegue uma vaga para trabalhar numa companhia de exploração de marfim. Substituiria um capitão que havia morrido enquanto trabalhava. Marlow seria o capitão de um pequeno barco a vapor que navegaria um rio transportando mercadorias.

Ao chegar à África, Marlow encontra o barco afundado. Demora meses para consertá-lo e colocá-lo em movimento. 

Enquanto isso, convive com os demais empregados da companhia. Se surpreende com o comportamento de alguns, como o do contador, que se veste de forma impecável mesmo vivendo em meio às precariedades de um alojamento na selva.

Nos diálogos entre Marlow e o contador um tal Sr. Kurtz é mencionado diversas vezes. Kurtz seria uma lenda da exploração. Havia conseguido uma imensa quantidade de marfim que nem todos os outros exploradores juntos teriam conseguido. Além da eficiência, era considerado um homem virtuoso.

Marlow finalmente consegue consertar o barco. Parte rumo ao interior com uma tripulação composta por canibais que não se alimentavam a dias. A partir daí, inicia-se a parte mais sombria do pesadelo. O barco se quebra novamente e é atacado por selvagens durante uma forte névoa.    

Em meio a esse pesadelo, Marlow precisa resgatar Kurtz do local onde se encontra, visto que está enfermo e cercado por nativos hostis. No entanto, ao conhecer Kurtz, Marlow percebe que ele não é um homem tão virtuoso quanto disseram. Pelo contrário, vê um ser tão obcecado pela glória que em nome dela seria capaz das maiores crueldades. Kurtz é ganancioso a ponto de matar diversos nativos, cortar-lhes a cabeça e coloca-las em estacas em frente ao seu alojamento. Aprendeu a conviver com várias tribos e tornou-se uma espécie de tirano.  

Marlow, ao conhecer Kurtz, confirma a dura realidade na exploração de marfim. Antes de conhece-lo, dissera que jamais havia visto algo tão irreal. Compara os empregados da companhia a um grupo de peregrinos infiéis enfeitiçados pelo marfim, movidos por uma ganância imbecil que tinha cheiro de cadáver. É isso que Kurtz parece representar.     

Ao relatar as atrocidades cometidas por Kurtz, Marlow transparece um sentimento híbrido em relação à colonização. Ao mesmo tempo que parece criticar as atrocidades inerentes à exploração, descreve os nativos como seres quase desumanos, talvez levando seus “ouvintes” a pensarem que a colonização fosse mesmo necessária.

“A terra parecia extraterrena. Estamos habituados a comtemplar a forma acorrentada de um monstro subjugado, mas ali... ali era possível contemplar algo monstruoso e livre. Era extraterreno, e os homens eram... não, não eram inumanos. Bem os senhores sabem, isso era o pior... a suspeita de que não eram inumanos. Tal noção surgia aos poucos. Eles urravam e pulavam, e giravam e faziam caretas horrendas; mas o que nos impressionava era, precisamente, a ideia de que eram humanos... tanto quanto nós” (p.74).    

Passagens como esta, renderam ao romance “Coração das Trevas” e a Joseph Conrad críticas implacáveis. Intelectuais africanos, como o nigeriano Chinua Achebe, por exemplo, considerava o Canône da literatura inglesa um autor racista e defendia a proibição do romance. Logo, é difícil falar de “Coração das Trevas” sem falar de racismo, de preconceito, de ocidentalização. No entanto, a favor de Conrad pesa o fato de que no início do século XX ninguém era politicamente correto acerca de nada, principalmente no que tangia a culturas não ocidentais.     

Além disso, não existe uma leitura unidimensional de “Coração das Trevas”. Como toda obra literária, o romance de Conrad permite várias interpretações. Não é difícil perceber que o personagem Marlow, por exemplo, ao narrar sua estória, faz, na verdade, uma reflexão acerca de si mesmo:

“Nenhum amigo influente teria me servido melhor. Aquele barco me propiciara a chance de me expor... de descobrir o que era capaz de fazer. Não, não gosto de trabalhar. Prefiro vagabundear e pensar nas coisas boas que podem ser feitas. Não gosto de trabalhar... (...) mas gosto do que o trabalho encerra... a chance de encontrarmos a nós mesmo.  A nossa própria realidade... para nós mesmos, não para os outros... algo que ninguém pode saber.” (p. 64).

A viagem de Marlow a um mundo desconhecido pode, portanto, ser vista como uma busca pelo autoconhecimento.

Além da perspectiva psicanalítica, o curto romance de Conrad pode ser interpretado, ainda, como uma crítica ao colonialismo, ao imperialismo. De fato, o personagem Kurtz simboliza de forma óbvia o lado cruel da colonização.

***

 
  


quarta-feira, 10 de agosto de 2016

O Coração das Trevas

de Joseph Conrad



comentários por Carlos Guido Azevedo
Impressionou-me o desenvolvimento da estória, através de um narrador falando initerruptamente, o marinheiro Marlowe, em um ambiente de conforto e segurança de um Iate ao mar, calmo e silencioso, sob a atenção permanente dos ouvintes.
Fazendo com que o leitor se coloque, automaticamente como um deles, acomodado, paciente e concentrado na longa estória, que sabe ser de aventura e perigo do narrador, que pede seu julgamento e avaliação, porque ele mesmo tem dúvida se agiu sempre da maneira correta, mas quer sua opinião sobre um certo senhor Kurtz que ele aprendeu a admirar e pode não ter sido uma pessoa muito correta.
A sua específica aventura inicia quando, como marinheiro desempregado, consegue por indicação de parentes, vir a ser o capitão de uma pequena e velha embarcação que deve subir o rio que adentra a floresta nativa do Congo, para resgatar o senhor Kurtz, um funcionário da companhia colonizadora que explora o marfim da região e, para a qual se tornou um problema, que pode vir a prejudicar o negócio, por suas práticas pouco ortodoxas.
Impressionou-me a forma como o senhor Kurtz vai sendo apresentado, aos poucos, por ouvir falar, pela admiração que impõe aos seus ouvintes, por sua retórica, pelos valores morais e éticos que defende, pelo sucesso no comércio de marfim e, pouco a pouco vão sendo presumidas suas práticas, sua insensibilidade e, até o se deixar tratar como um deus, por algumas tribos.
A viagem, vai sendo relatada em uma situação de permanente risco e insegurança até o resgate efetivo do Senhor Kurtz, doente e à beira da morte, mas defendido e adorado pelos nativos quando Marlowe tem acesso a documento escrito por ele, a pedido da companhia, sobre como civilizar a selva, que julga sua, e onde parece justificar suas ações de agir como um deus e, supostamente, cometer todas as espécies de insensatez e desvario para obter o marfim que julga seu, e não da companhia que o enviou, mas não nos apresenta o documento.
A figura do senhor Kurtz que vai se revelando, aos poucos, dentro da viagem para resgatá-lo do meio dos nativos, que resistem e o defendem. Vai sendo construída por frases e indicativos de ouvir dizer, sem jamais apontar qualquer dado significativo de sua real personalidade. Sempre descrito como um homem carismático de grande talento na administração de um dos postos da empresa, sagaz na obtenção do precioso marfim, que alguns acham que são, na maioria, fósseis, e muito eloquente em seus textos e em suas falas.
Um fato marcante foi seu histórico retorno ao coração da selva, em uma canoa remada por quatro nativos, uma das vezes que quase retorna à civilização, abandonando o barco que transportava sua preciosa carga de marfim.
Marlowe assiste a morte do senhor Kurtz que exala suas últimas palavras: ‘Um horror!  um horror!’, que parecem sintetizar o que se passava no coração da selva, para se conseguir o precioso marfim. Mas, Marlowe, o admira, o ajuda, apoia e parece querer construir uma imagem positiva para o símbolo da cruel colonização, da barbárie, da loucura do poder. Busca ocultar os seus escritos, apaga nota de rodapé que não acha conveniente, e finalmente compõe um cenário próprio para sua morte junto à pretendente de Kurtz, mantendo o amor e a admiração desta ao seu amado.
Minha maior surpresa foi perceber que Conrad tinha, na verdade, me ludibriado, feito um mágico que força a atenção da plateia para um ponto de fuga, enquanto realiza seu aparente milagre.
Percebi que enquanto o narrador trata das loucuras apontadas e escandalosamente presumidas para Kurtz, todas, seguramente todas as atitudes aéticas, escravocratas e brutas da colonização, vão sendo executadas com naturalidade e expressas com certa simpatia por Marlowe, como sendo a coisa certa a ser feita naquele momento, sem necessidade de justificativa ou explicação, raras vezes com uma leve desculpa de que o costume ali, era aquele.
Sob a naturalidade descrita na aventura de Marlowe o leitor vai sendo anestesiado sem perceber a crueldade intrínseca da aventura colonizadora, Um Horror! Um Horror! muito além dos limites da perversidade humana e da sua capacidade de produzir aberrações comportamentais, submeter seus semelhantes as mais degradantes situações, trabalho escravo, mutilações e até a morte.
A velha relação conquistador / conquistados, colonizadores / colonizados, dominador / dominados e consequente destruição da cultura e dos costumes locais para trazer evolução e civilidade aos selvagens, toda ela praticada por Marlowe e sua empresa, enquanto apontava para Kurtz, e, eu cego olhava para Kurtz, antecipava suas ações, torcia contra e a favor de Marlowe.
Percebi que enquanto o narrador falava, eu me mantinha anestesiado para o que se passava alí, imaginando as arbitrariedades e horrores que se passariam, lá, na tribo de Kurtz.
Em total insensibilidade com os valores humanos, presumindo como o Marlowe, que o colonizador tem direito natural sobre tudo, como um deus que merece ser obedecido e adorado, porque controla o Ser da Caldeira e domina o Espírito do Apito da embarcação que libera os espíritos maus, fazendo os nativos estremecerem e obedecerem e fugirem da brincadeira de terem suas flechas revidadas a bala como diversão, ou achando natural o asco do sapato sujo de sangue do nativo, jogado fora por Marlowe.
Assim, custei a descobrir que Marlowe e Kurtz são a mesma pessoa, ou têm a mesma cabeça, a minha, que estava capturado também para este mundo de Horror em que acabei comungando sem perceber o quanto ele me comprometeu ao partilhar suas ideias, práticas e valores.

Muitos outros aspectos me impressionaram positivamente no livro e, seguramente não foi o fato dele ter servido de base para o filme Apocalipse Now, tão comentado.

APRECIEI E INDICO SEM RESTRIÇÕES.

segunda-feira, 27 de junho de 2016

Os Olhos de Lucia - Arthur Japin

Companhia das Letras, 2007
by Daniela

   Giacomo Casanova (1725-1798) viveu no século das Luzes, no espírito do Iluminismo. Suas memórias já renderam inúmeros filmes (contei 17 filmes entre 1918 e 2005) e livros, que exploram a mística do conquistador de almas femininas.  É dessas memórias que Arthur Japin extrai o argumento de “Os Olhos de Lucia”: o amante iluminista confessa que somente duas mulheres não se beneficiaram de seus dons amorosos, uma delas foi seu primeiro amor, aos 17 anos, por uma camponesa italiana de 14 anos. Ele se decepciona quando ela desaparece e fica chocado quando a reencontra, anos depois, prostituta em um bordel em Amsterdã, desfigurada e repulsiva. É a Lucia, a quem Japin se encarrega de construir uma história sórdida e delicada, um debate contínuo entre razão e emoção.

 "O iluminismo representa a saída dos seres humanos de uma tutelagem que estes mesmos se impuseram a si. Tutelados são aqueles que se encontram incapazes de fazer uso da própria razão independentemente da direção de outrem. É-se culpado da própria tutelagem quando esta resulta não de uma deficiência do entendimento mas da falta de resolução e coragem para se fazer uso do entendimento independentemente da direção de outrem. Sapere aude! Tem coragem para fazer uso da tua própria razão! - esse é o lema do iluminismo" (Imannuel Kant,1784)

   Para explicar como a menina Lucia criada em estado natural na propriedade dos Montereale,nas paisagens rurais da Italia, se transforma na misteriosa prostituta Galathée de Pompignac que encanta os homens de Amsterdã cobrindo seu rosto, a competente narrativa em primeira pessoa vai alternando as memórias, infortúnios, escolhas, encontros de cada época de sua vida, até entendermos o que ela quer dizer na abertura da história:
   
“Se há uma coisa que eu sei fazer é amar (...) Amo. Outros carregam suas tristezas no coração. Invisíveis, elas os corroem por dentro. Minha salvação foi trazer a tristeza do lado de fora, onde não passa despercebida a ninguém.”

   Quando Lucia, aos 14 anos de idade, encontra Giacomo em Pasiano ela experimenta um sentimento irreversível, consciência que provocou ‘de uma só vez, dor e prazer’: “Nunca mais poderia simplesmente brincar com todos, com qualquer um.” Giacomo conta ao irmão que ‘ela seria perfeita, não fosse por um detalhe. Ela é "jovem demais”. O encanto mútuo dos jovens, acatado pelos pais e pela condessa de Montereale, gera uma promessa de retorno do jovem aspirante a diplomata em 6 meses, para buscar Lucia. A condessa encarrega o preceptor de sua filha, Monsieur de Pompignac, de preparar a menina (um bloco de mármore intacto, segundo ele) para o futuro casamento. Como uma Eva comendo a maçã, Lucia aprendia tudo que lhe era oferecido com voracidade, mergulhou fundo e rápido no conhecimento, tanto que foi se distanciando do seus pais, de sua natureza. Monsieur de Pompignac, que lhe abriu os olhos para o mundo, também lhe passou varíola antes de morrer da doença.

   Tendo estudado e testemunhado a evolução de doença, Lucia pede as seus pais que a amarrem a uma cama, para que ela não possa ceder à se coçar até a morte. “Desisti do meu corpo, deixei-o para trás, abandonado. Era como se eu tivesse encontrado abrigo em minha alma. Recolhi-me, escondida, tremendo num cantinho.” Depois de 3 semanas de delírio, sem consciência do que acontecia, a febre passou em um Domingo de Ramos. A doença não arruinou o corpo de Lucia, mas seu rosto, no qual as pústulas da varíola tinham estourado enquanto ela se debatia em delírios, ficou desfigurado.  A vida doce de Lucia acabava ali. Nascia, na sobrevivente de quinze anos, a história de Galathée de Pompignac.

   Não suportando a ideia de ser rejeitada por seu amor Giacomo, Lucia foge de Pasiano, deixando Casanova desconsolado, pensando que ela tinha engravidado de um mensageiro e deixado Montereale sem olhar para trás. Nascia, na suposta traição do seu primeiro amor, o Casanova conquistador de corações, que nunca mais cederia o seu.

   Dezesseis anos depois, em Amsterdã, Galathée é uma prostituta com clientes cativos, que frequenta a ópera. Esconde o mundo com um véu, para que este fique com um aspecto mais gentil. Não é de imediato que reconhece no Chevalier de Seingalt seu antigo amor, mas já no primeiro encontro reconhece seu sofisticado poder de sedução: “Dava a impressão de que qualquer faceta do meu caráter o fascinava, técnica avançada que eu identificava perfeitamente. Entre as artes da sedução, era esta a mais delicada e, por isso mesmo, a mais efetiva.”

   Os diálogos entre os dois amantes são deliciosos embates entre razão e intuição. Para quem acompanha de trás do véu, sempre dolorosos. Vivendo o dilema de ser novamente confrontada com uma possível rejeição do homem que ama, escolhe mais uma vez fugir e poupá-lo da verdade. Afinal, não sucumbiu e conseguiu a liberdade de amar. “A América ainda tem poucas cicatrizes.”



   Japin, que com esse romance ganhou o Libris Literature Prize no ano de 2003, preenche as lacunas dessa história de Lucia e Giacomo, desenvolvendo muito bem as paisagens, ambientes e personagens, com uma voz feminina convincente e cenas fortes (vide a agonia e os delírios da adolescente durante o ciclo da varíola e a descrição da casa de fiar). O autor faz um belo trabalho de costura da cativante história de Lucia no tema central do livro, que é o conflito entre razão e emoção, o argumento iluminista. A inocência que caracterizou o encontro inicial dos dois amantes dá lugar a um novo encontro, em que o amor é entendido e praticado com um nível de racionalidade que só o sofrimento consegue forjar. 

segunda-feira, 2 de maio de 2016

OS ENAMORAMENTOS

de Javier Marías
Alfaguara, 2011
por Claudine Duarte



“La fuerza de la costumbre es inmensa y acaba por suplir casi todo, incluso por suplantarlo. Puede suplantar el amor, por ejemplo; pero no el enamoramiento, conviene distinguir entre los dos, aunque se confundam no son lo mismo... Lo que es muy raro es sentir debilidad, verdadera debilidad por alguien, y que nos la produzca, que nos haga débiles. Eso es lo determinante, que nos impida ser objetivos y nos desarme a perpetuidad y nos haga rendirnos en todos los pleitos.” p.308

O Autor
          Javier Marías Franco nasceu em Madrid em 1951, estudou Filologia e Letras e trabalhou como roteirista e tradutor antes de publicar seu primeiro romance em 1971, Los Dominios del Lobo. Atualmente, é membro da Real Academia Espanhola, e um reconhecido colunista na imprensa espanhola para que, segundo ele, permaneça desperto e possa contribuir com seu país com a sua visão da realidade. Sua obra – doze romances e vários livros de contos e de ensaios – foi traduzida em várias línguas e teve cerca de seis milhões de exemplares vendidos.
         
          A tradução para o espanhol de Hardy, Yeats, Nabokov, Faulkner, Salinger e Conrad, entre outros, deram a Javier Marías, bases para sua carreira de escritor: “o tradutor é um leitor privilegiado. Se você é capaz de reescrever em outro idioma algo que Conrad ou Sterne escreveram, aprende muito. Eu não me envolvi na indústria da escrita criativa, mas se eu fundasse um curso de escrita criativa só admitiria pessoas capazes de traduzir, e as faria traduzir sempre.

          O autor é elogiado por escritores consagrados, tais como Orhan Pamuk, Roberto Bolaño e J. M. Coetzee entre outros, sendo reconhecido como um dos escritores vivos mais importantes da língua castelhana.

A Obra      
          Los Enamoramientos, publicado em 2011, recebeu um prêmio nacional de literatura na Espanha que o autor, em meio a um rol de atitudes polêmicas, se recusou a receber. Em 2013, o livro foi finalista do National Book Critics Circle Award, nos  Estados Unidos e, no ano seguinte, ganhou o prêmio literário internacional Giuseppe Tomasi di Lampedusa, na Itália.

          Javier Marías construiu um romance em torno de poucos personagens, cujas vozes conhecemos apenas pelo olhar da narradora, Maria Dolz, numa tentativa de fornecer ao leitor uma perspectiva feminina do amor – ou do enamoramento – e suas consequências.

         O livro é dividido em 4 partes e tem pouquíssimas cenas – todas na cidade natal de Marías, Madrid. A narradora é pródiga em fazer suposições e digressões, como também dá voz às observações e reflexões dos outros personagens – o que não os diferencia e nem lhes confere profundidade. Como se vivessem apenas na cabeça de Maria e de sua mesa mirante. O autor apresenta a história utilizando o tempo cronológico, mas talvez ao ponto de vista adotado fica a incômoda sensação de que, como num sonho - ou pesadelo, as horas foram esticadas para dar tempo de pensar tanta coisa...

          Uma solitária mulher, Maria Dolz, trabalha numa editora de livros em Madrid. Diariamente, como uma leitora dos romances que avalia, observa um casal numa cafeteria. Inventa para eles uma história de amor, os presume casados e os apelida de O Casal Perfeito. Após alguns dias sem encontra-los,  consternada, lê a notícia que o homem – Miguel Deverne – foi violentamente assassinado por um flanelinha justo no dia em que faria 50 anos.

“No tiene el menor sentido, precisamente por parecer que lo tiene. Podría no haver sido así, era tan fácil que no hubiera ocorrido. Podría haber sido cualquier otro día, o no haber sido ninguno. Lo que tocaba es que no fuera. En absoluto. Que no fuera.” p.55

          Novamente na cafeteria, Maria vê a mulher sozinha e resolve conversar com ela. Descobre que seu nome é Luisa e conhece um amigo do casal, Díaz-Varela.  Por alguns capítulos, “escutamos” os pensamentos mais íntimos da narradora e, como no poema de Drummond, assistimos uma Quadrilha onde Maria amava Díaz-Varela que amava Luisa que amava Deverne que não podia amar mais ninguém...

          Durante um encontro de Maria e Díaz-Varela é revelada parte da cadeia de acontecimentos que o levaram a planejar e dirigir o assassinato de Deverne. Confessando seu amor por Luisa e o objetivo de passar com ela o resto de sua vida, Díaz-Varela – segundo o olhar de Maria – comete um crime passional ao encomendar o brutal assassinato de seu amigo, Miguel Deverne. Na terceira e mais extensa parte da obra, justifica sua atitude como o atendimento a um pedido expresso por Deverne. Um câncer o devastava, teria pouco tempo de vida e não queria enfrentar a degradação da doença e tampouco fazer sofrer sua família. Maria decide não pesquisar sobre a doença terminal de Deverne e, assim, o autor acena para a possibilidade de ser uma farsa de Díaz-Varela.

          Um salto no tempo. Após dois anos, a narradora encontra o novo casal, Luisa e Díaz-Varela com aliança nos dedos, trocam algumas frases e – pronto! – final do livro. Maria Dolz finaliza seu relato tedioso e onipresente com a incrível afirmação: “Ao fin y al cabo nadie me va a juzgar, ni hay testigos de mis pensamientos.” Seria uma ironia do autor? Não é este o risco que os escritores assumem: serem julgados pelos textos que ousam partilhar?

Comentários
          Tenho uma frágil lembrança que gostei do livro na primeira vez que o li no final de 2012 e até o indiquei para alguns amigos. Fiquei sensibilizada com as críticas positivas, como por exemplo a do Estadão que me levou à compra da edição da Companhia das Letras com o encarte do novela O Coronel Chabert, de Balzac, e insiro o link a seguir:  http://cultura.estadao.com.br/noticias/geral,espanhol-javier-marias-volta-ao-romance-com-o-festejado-os-enamoramentos,933922. Mas, como teria dito Heráclito: “Nenhum homem pode banhar-se duas vezes no mesmo rio...”, confesso que fiz a releitura com um misto de solidariedade e frustração.

          Com certeza, um dos maiores benefícios de ler Os Enamoramentos foi ter conhecido a primorosa novela de Balzac, pois a sua leitura é incentivada pelas inúmeras citações nos diálogos de Díaz-Varela e Maria. É uma trágica história de um antigo herói napoleônico que foi dado como morto durante uma batalha e volta para casa após alguns anos de muito sofrimento. Em seu retorno, encontra sua ‘viúva e herdeira’ casada – agora Condessa Ferraud - com dois filhos e trava uma luta inglória para recuperar sua identidade.

“Acredite, senhor, se não mostrei a gratidão que lhe devo por seus bons ofícios, mesmo assim ela está aqui – e ele pôs a mão sobre o coração. – sim, está aqui, plena e inteira. Mas o que podem os infelizes? Eles amam, nada mais.” Coronel Chabert ao advogado Derville, p. 76

          Enternecida, Maria compara seu amante ao infeliz militar: “(...) os dois tinham-se mantido à espera de um gesto, de uma espécie de milagre, de um alento e um convite, Chabert do quase impossível reenamoramento de sua mulher e Díaz-Varela do improvável enamoramento de Luisa, ou pelo menos do seu consolo junto dele. (...) Os dois eram como espectros fazendo trejeitos e sinais e inclusive alguma gesticulação inocente, esperando serem vistos e reconhecidos e quem sabe chamados, desejados de ouvir no fim estas palavras: ‘Sim, está bem, estou te reconhecendo, é você’, se bem que no caso de Chabert supusessem apenas lhe conceder a certidão de existência que está sendo negada e no de Díaz-Varela significaram bastante mais: ‘Quero estar ao seu lado, achegue-se e fique aqui, ocupe o lugar vazio, venha e me abrace’.”

          Além do livro de Balzac Javier Marías insere outras referencias literárias no enredo de Os Enamoramentos, como Macbeth, de Shakespeare e Os Três Mosqueteiros, de Alexandre Dumas. Sempre para reforçar as impressões dos ‘quase’, do que poderia ter sido, da inexorável passagem do tempo, da  presença incômoda da morte e do conformismo com ‘o que temos para o momento’. Talvez isso tenha estimulado minha releitura melancólica  e frustrante. Um círculo de palavras com gosto de tempo perdido e buscas inúteis deixam Maria na mesma página, mesma rua, mesmo trabalho e mesma solidão.

           Por ocasião do lançamento do livro, Javier Marías afirmou ao The Guardian que “amar e se apaixonar têm boa reputação. E isso tem justificativa em certos momentos; mas às vezes é o oposto. Já vi pessoas muito nobres e generosas se comportarem muito mal porque estão apaixonadas. Há também essa ideia de destino. As pessoas se lembram de como se conheceram e imaginam o que teria acontecido se não tivesse ido àquele bar ou àquele jantar. Mas na realidade estamos muito limitados em nossa escolha de parceiros, por localização, classe, história, e pela disposição da pessoa a aceitar a nossa sedução. Quantas vezes não somos a primeira escolha? Ou mesmo a segunda, a terceira?”  Assim, o autor defende – convence? – a triste e patética afirmação de Maria:

“A ninguno debe ofendernos que alguien se conforme con nosotros, a falta de quien fue mejor”. p.190

         Hoje, não consigo recomendar a leitura. Considero um livro para esquecer. No entanto, pretendo ler outros textos de Javier Marías. Atravessar outros rios... quem sabe?

“Lo que pasó es el de menos. Es una novela, y lo que ocorre en ellas da lo mismo y se olvida, una vez terminadas.” p.166