terça-feira, 11 de outubro de 2016

DESONRA


de J. M. Coetzee

por Priscila Fernandes Costa

Desonra conta a história de David Lurie, um professor universitário de 52 anos, divorciado, pai de Lucy, filha única de seu primeiro casamento e que vive sozinho num apartamento na Cidade do Cabo, na Africa do Sul. 
Sua vida transcorre quase que exclusivamente ligada ao  trabalho. Professor-adjunto no departamento de Comunicação da Universidade da Cidade do Cabo, ele dedica diariamente muitas horas do dia a uma disciplina que considera ridícula. Como não tem nenhum respeito pela matéria que ensina, reconhece que também não causa qualquer impressão – positiva ou negativa – nos alunos. Passa-lhes a idéia de que “a sociedade humana criou a linguagem para poder comunicar seus pensamentos, sentimentos e intenções”,  mas sua opinião pessoal – que ele guarda somente para si – é de que a origem da fala está no canto, e as origens do canto na necessidade de preencher com som o imenso vazio da alma humana. Continua ensinando porque é assim que ganha a vida e também porque, segundo ele, aprende a ser humilde e faz com que perceba seu papel no mundo. “A ironia não lhe escapa: aquele que vai ensinar acaba aprendendo a melhor lição, enquanto os que vão aprender não aprendem nada.” Outrora foi professor de línguas modernas e ao longo de seus 25 anos de carreira publicou três livros, mas nenhum deles lhe trouxe nenhuma notoriedade. Nos últimos anos tem acalentado o desejo de um trabalho sobre Byron, uma ópera de câmara, e “enquanto enfrenta as aulas de comunicações, frases, melodias e fragmentos da obra ainda não escrita flutuam por sua cabeça”.
Se considera um lobo solitário por opção e diz ter resolvido o problema  do sexo, pois todas as quintas feiras encontra-se com Soraya, uma garota de programa alta e magra, por quem  diz começar a nutrir uma afeição que, acredita, pode não ser amor, mas que se aproxima muito deste afeto. Na área sexual, diz ter um  temperamento intenso, mas nunca passional. Passou a infância em uma família de mulheres: mãe, tias  e irmãs; mais tarde elas foram substituídas por amantes, esposas e uma filha. Tornou-se, portanto, um apreciador de mulheres, um mulherengo. Seu porte físico deu-lhe um certo magnetismo e teve bastante sucesso com o sexo feminino. Mas de repente, tudo isso acabou. Da noite para o dia perdeu seus poderes de sedução. Agora, quando quer uma mulher, tem que fazer um grande esforço para conquistá-la e muitas vezes precisa comprá-la. Passou a viver a sexualidade numa promiscuidade ansiosa e agitada, transando com as esposas de seus colegas, com turistas que encontrava em bares ou com prostitutas.
O relacionamento com Soraya termina depois que,  casualmente, ele a vê na rua acompanhada de dois meninos..., seus filhos. Um mal-estar crescente surge, então, entre os dois, ela passa a trata-lo com uma frieza cada vez maior, como apenas mais um cliente, até que finalmente pede que ele nunca mais lhe telefone.
Num fim de tarde, saindo da Universidade, encontra-se com uma de suas alunas, Melanie Isaacs. Aproxima-se dela, puxa conversa e a seguir convida-a para tomar alguma coisa em sua casa; ela aceita. Em casa abre uma garrafa de vinho, serve bolachas e queijo e ao som de um quinteto de Mozart desenvolve um diálogo cheio de insinuações e subentendidos. Dois dias depois procura nos arquivos do departamento os dados pessoais de Melanie. De posse de seu telefone, convida-a para almoçar de maneira tão incisiva que não lhe deixa nenhuma possibilidade de recusa. Depois do almoço, ele a leva novamente para sua casa e no chão da sala faz amor com ela. A partir deste encontro, Melanie se submete ao assédio de Devid com um misto de mal-estar e lisonja, mas sobretudo com passividade. Tenta fugir das investidas do professor, mas ao mesmo tempo cede ao seus pedidos para encontrá-la; falta às suas aulas, mas o recebe quando ele aparece em sua porta. Lurie está tomado de desejo por Melanie e por isto mesmo nada o detém. Reconhece tratar-se de um grande erro, mas vai em frente mesmo assim.
Passados alguns dia David é convocado para uma reunião com o vice-reitor quando, então, fica sabendo que Melanie havia registrado uma queixa de abuso sexual contra ele. Quando questionado a respeito, Lurie despreza os códigos politicamente corretos do ambiente universitário, assume toda a culpa, recusa qualquer possibilidade de se defender e aceita passivamente a demissão imposta pela direção da Universidade. Cai em desgraça – que  aliás é a tradução literal do título do livro: Disgrace – e decide, então, deixar a Cidade do Cabo indo para o interior, onde pretende passar uma temporada na fazenda de sua filha Lucy, no Cabo Leste.
A filha vive sozinha nesta propriedade, onde toca um hotel para cães, cultiva flores – narcisos -  e alguns legumes que vende no mercado local. Conta apenas com a ajuda de Petrus, um nativo e empregado seu, que se  entitula cuidador de cachorros e jardineiro.
David tenta aos poucos se acomodar à vida no campo: ajuda Lucy na fazenda, cuida dos cães e ainda trabalha como voluntário numa clínica veterinária de propriedade de uma amiga da filha. Pai e filha dão longas caminhadas com os cachorros pelos arredores da fazenda, e David aproveita estes momentos para expressar sua preocupação com a segurança de Lucy, que optou por viver sozinha em um lugar tão distante e perigoso. Pede que ela volte para a cidade, propõe comprar-lhe uma casa, mas Lucy não tem nenhuma intenção de deixar suas terras.
Certo dia. Durante a caminhada que fazem diariamente, cruzam com dois homens e um rapaz que passam apressados por eles. Ficam apreensivos com o aparecimento daquelas três figuras, mas, mesmo assim, seguem em frente. Quando voltam pra casa percebem que os cães estão agitados e que os três estão lá esperando por eles; dizem que precisam entrar na casa para telefonar, pois a irmã de um deles está em trabalho de parto. Lucy entra na casa com os homens e pede que o pai espere do lado de fora. Passados alguns minutos sem que saiba o que está acontecendo lá dentro, David entra na casa e imediatamente recebe um golpe na cabeça, desmaia e é arrastado até o lavabo, onde fica preso e impossibitado de ir em socorro da filha. Ao recobrar os sentidos, grita por Lucy várias vezes, mas não obtem nenhuma resposta. Ouve passos no corredor, e a porta do banheiro se abre. Um homem surge em sua frente, joga álcool combustível em seu corpo, acende um fósforo e o  tranca novamente. David consegue apagar o fogo com a água da privada, mas sofre queimaduras no couro cabeludo. Quando a porta é aberta novamente vê Lucy de costas para ele. O saldo desta tragédia é que Lucy, além de ter sido estuprada pelos homens, descobre, algum tempo depois, que está grávida. Ela mergulha, então,  na escuridão da depressão e da apatia e parece não se interessar por nada em sua volta; mais ainda,  recusa-se a falar no acontecido, e até mesmo ser examinada por um médico. De forma categórica  diz ao pai que vai ter a criança que está gestando.
De maneira trágica e dolorosa David entra em contato com a realidade da Africa do Sul pós-apartheid, onde é “um risco possuir coisas, um carro, um par de sapatos, um maço de cigarros. Coisas insuficientes em circulação, carros, sapatos, cigarros insuficientes. Gente demais, coisas de menos”. A promessa de que o fim do apartheid significaria uma vida melhor para todos está longe de acontecer. Ainda hoje a sociedade sul-africana convive com a miséria, a injustiça e a desigualdade.
Confrontado com o desejo de vingança de seus agressores, mas impotente para levar adiante seu intento, David sente que seu prazer de viver expirou e que ele começa a flutuar para o seu fim. Reconhecer essa nova realidade o deixa desesperado: “O sangue da vida está abandonando seu corpo e o desespero está tomando seu lugar, um desespero que é como um gás,  inodoro, insípido, impalpável.“ O mundo no qual estão vivendo é constituido de ódio e brutalidade, ressentimento e desejo de vingança, e  também de impotência, apatia e submissão. Sujeição e submissão por décadas de escravidão;  é a desforra daqueles que durante várias gerações foram despojados de suas terras e de suas condições de cidadãos.  Pela primeira vez, Lurie tem uma amostra de como será ser velho, cansado até os ossos, sem esperança, sem desejos, indiferente ao futuro.
Parece que somente depois de testemunhar o estupro de sua filha, e de sofrer um ataque físico, David consegue refletir sobre as consequências de seu caso desastroso com Melanie.  A violência, então, pode ser exercida de várias maneiras, pode até mesmo aparecer travestida de desejo amoroso. David reconhece, ainda, que o abuso e a violação do outro não estão restritos apenas à esfera sexual. Procura, então, o pai da ex-aluna  e depois de muitos rodeios se desculpa com ele. Mas as coisas não são tão simples assim. O senhor Isaacs lhe mostra que pedir desculpas quase nunca é suficiente para apagar os danos provocados pelos abusos infringidos, seja no nível coletivo, seja de maneira individual.
            Os fenômenos de violência são muito complexos e acontecem em vários esferas: psicológica, física, social e simbólica. O assédio sexual, até bem recentemente, não  era reconhecido como crime. Esta modalidade de violência caracteriza-se por abordagens grosseiras, ofensas e propostas inadequadas que constrangem, humilham, amedontram e tentam reduzir o outro, sobretudo as mulheres, a um objeto passivo. Por meio da força os homens abusadores/estupradores reafirmam seu papel de gênero tradicional dominante. Os estupradores justificam seus crimes dizendo que só se apropriam do corpo daquelas mulheres, por exemplo, que se mostram disponíveis. Com isto tentam passar a ideia de que nada mais fazem do que atender ao desejo de suas vítimas. Quando encontram a recusa por parte delas,  entendem isto como um artifício de sedução: a mulher que diz “não”, na verdade quer dizer “sim”.
Na maioria dos casos de estupro – mas talvez também nos casos de violência em geral – a motivação do estuprador/agressor parece ser a degradação e a dominação da vítima. O prazer obtido não provém do ato sexual em si mesmo, mas do fato de ter reduzido sua vítima em mero objeto de gozo, um resto, dejeto. 
Numa linguagem fluída, narrada em terceira pessoa Coetzee nos traça um retrato não apenas da Africa do Sul, mas também do Ocidente, com seus problemas intratáveis e insolucionavés. Uma história densa e real, recomendada para quem pode suportar a crueza da vida e das relações humanas.

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sexta-feira, 9 de setembro de 2016

As Intermitências da Morte

Santuário de Gabriel - Pirenópolis
(local onde foi elaborado este texto)
de José Saramago








Por Mônica Ferreira Dias

A inverossímil história que lemos este mês, As intermitências da morte, de Jose Saramago, que dispensa maiores apresentações, por oportuno conhecido dos meios literários e dos apreciadores de literatura, nos remete a uma série de confusões quando a morte resolve fazer greve em determinado país, que a França não é, como pudemos verificar no diálogo da morte, com “m” minúsculo como veementemente deseja ser reconhecida, que se apresentou no decorrer desta história e sua gadanha, instrumento inseparável de trabalho (pg. 181). O fato como o narrador diz, que a morte deixou de matar (pg.25), que houve a falta de colaboração da morte (pg. 26), e que a morte volta agora imerecidamente as costas (pg.27), atinge apenas os humanos, ditos racionais, deixando o curso correto da vida para as demais espécies que habitam o planeta, o que vale dizer, que todos animais continuavam no ritmo da vida, o que para o narrador significa que o normal ainda não se retirou de todo do mundo (pg. 71), mas as vítimas se recusavam a morrer (pg.12). A impressionante história relata que ao soar as doze badaladas que precedem o ano Novo, aquele evento cheio de promessas futuramente in-cumpridas, determinado pais teve o último suspiro de seus habitantes suspenso, termo adotado para significar a morte, aquela que já é nossa de nascença (pg.75), espanto e euforia registrados, com uma ponta de inveja pelos países vizinhos, inicia o relato de uma série de transtornos, porque com greve de tais proporções não poderiam as coisas permanecerem como sempre foram, os segmentos da sociedade de manifestam para seus direitos requerer, ao fato iniciado com a igreja, atacada de morte porque como o próprio cardeal, de próprio punho falou, sem morte não há ressurreição, e sem ressurreição não há igreja (pg. 18). Instada a querela com o governo reinante, que exigia retratação de comunicado nacional de investigação dos fatos com a criação de uma nutrida comissão interdisciplinar (pg. 29), que como era de esperar não chegou a lugar algum, e para o futuro empurraram a resolução, mas alertados foram quando um filósofo pessimista informou que, O pior é que o futuro já é hoje (pg. 37), chegando inclusive a questionar se deus tem autoridade sobre a morte (pg. 37). Importantes setores profissionais preocupados com a situação (pg. 25) iniciam uma romaria aos governantes, o primeiro-ministro que após o desastrado comunicado, que lhe valeu uma carraspana do cardeal, resolve mancomunar-se com a máfia instada, que sobre ela falaremos no decorrer deste texto, porque resenha não se trata uma vez que quem aqui escreve, desprovida de competência literária, apenas relata o que leu deste caso fatídico que consternou todo o pais que não se sabe onde fica.

Os setores profissionais, preocupados com seus ganhos, afetados com a desfaçatez com que a morte voltou as costas a um país inteiro, começam a apresentar suas reclamações, que pertinentes podemos confirmar quando primeiro se apresentam as empresas ligadas ao ramo funerário, brutalmente desprovidos de matéria-prima (pg. 25), exigem das autoridades além de recursos para revitalização do setor, atualização das capacidades para prestação dos serviços, que seja decretado pelo governo lei que obrigue o enterramento ou incineração de todos os animais domésticos... pela indústria funerária (pg. 26). Assim também administradores e diretores de hospitais começam a reclamar do congestionamento de internos, um engarrafamento como os dos automóveis (pg. 28), um curto-circuito na logística de enfermos entrantes e saintes, que mais não cabiam pelos corredores em número superior, isto é, mais do que era costume fazê-lo (pg. 28), prática disseminada que se pode observar em outros países que não se defrontam com a mesma greve do momento da passagem. Os hospitais propõem que seus enfermos que não atam nem desatam sejam encaminhados aos cuidados de suas respectivas famílias, que pela análise da junta médica informa aos familiares, que seus parentes venham recolher, pois indiferente é o lugar em que se encontre, quer no seio carinhoso de sua família ou da congestionada enfermaria de um hospital, uma vez que nem aqui nem ali conseguirá morrer (pg. 29). Para despachar da mesma forma os velhos deste país, os lares de terceira e quarta idades (pg. 29) em uma encruzilhada se encontraram de continuar ou não continuar a receber hóspedes (pg. 29), e aqui como na conversa entre o primeiro-ministro e o diretor-geral da televisão, Shakespeare também se apresentou para sua contribuição dar, avisar ou não avisar, eis a questão (pg. 93), que preocupação maior não foi de que não veriam mais sair dos lares para ir morrer a casa ou ao hospital como acontecia nos bons tempos (pg.30), mas que a má sorte estava ao lado pois não teriam ninguém que nos acolha quando chegar a hora em que tenhamos de baixar os braços (pg. 31), e não mais tendo a preocupação com a morte, que de fato resolveu se ausentar, necessário registrar, apenas para a classe dos habitantes do país, sem extensão às demais classes da criação como podemos observar no colóquio do espírito que habita a superfície do aquário e o aprendiz de filósofo que a lugar nenhum chegaram com as digressões sobre se a morte será a mesma para todos os seres vivos (pg. 72). Toda esta confusão também trouxe perigo para as companhias de seguro que, de súbito inundadas por cancelamentos das apólices uma vez que seus contratantes não mais teriam que passar desta para melhor e deixar suas famílias amparadas, mas como o raciocínio lógico daqueles que do dinheiro vivem é até mais rápido que o último suspiro, à carga voltaram com triunfante ideia de em fundo de investimento transformar, para que a cada oitenta anos o proprietário possa seus recursos resgatar e novamente outro contrato firmar, que para os devidos efeitos, se registraria o segundo óbito (pg. 33). E, no meio dos pedidos das classes profissionais, um fato ocorreu que ao país inteiro foi dado conhecimento, agraciado pela manifestação da inesgotável capacidade inventiva da espécie humana... uma família de camponeses pobres (pg. 38), resolve, a pedido do pai enfermo, que não atava nem desatava, uma excursão de última morada realizar para no país vizinho o pai enterrar, às escondidas se mandaram, embora observados pelo vizinho que depois veio tomar satisfações, não saberiam, nem no mais delirante sonho, que um frutífero comércio conseguiram implementar, mas claro fique que não foram os beneficiários de tal prática que à máfia coube, com o tráfico de furibundos, que com falsas ambulâncias (pg.47) às fronteiras se dirigiam para ali depositarem os padecentes em situação de morte suspensa (pg. 49) que as famílias não mais em suas rotinas diárias conseguia encaixar ou para seus entes queridos para louvavelmente os poupar a sofrimentos não só inúteis, como eternos (pg. 54). Conversações com o governo para os detalhes acertar, à parte a confusão que com as forças armadas se instalou, porque às fronteiras enviadas, olhos fechados deveriam manter, num faz de contas para o negócio prosperar, que ao governo também interessava pois conseguiria equilibrar a questão demográfica, e consequentemente a questão das pensões que muito claro ficou com o texto do economista que ao governo questionou de ondem sairiam os recursos para pagamento dos milhões de pensões que iriam continuar por todos os séculos dos séculos (pg. 78). E a ordem de retornar aos quartéis foi dada iniciando um movimento capilar (pg.60), com desconfiança do acordo da máfia com governo que ao fato a oposição resolveu se juntar para insinuações registrar nos jornais ao que os porta-vozes do governo negaram veementemente que tais miasmas estivessem a envenenar (pg. 61), sem contar com a aliança que os três países limítrofes fizeram para suas fronteiras guardar e não mais deixar passar aquele vai e vem de nauseabundos entrantes e defuntos ficantes. Caos instalado porque o acordo da máfia com o governo tal situação não resolveria, mas como já é sabido que a máfia ao polvo se parece com seus tentáculos intermináveis, confabulações com patrícios viventes nos países limítrofes, uma reengenharia do negócio tiveram que realizar, resultado de tão brilhantes inteligências como as que dirigem estas organizações criminosas (pg. 65), o conflito bélico resolvido com a questão de passar para o outro lado da fronteira o padecente e, uma vez falecido ele, voltar para trás e enterrá-lo no materno seio da sua terra de origem (pg. 67), assim a culpa familiar devidamente amainada pois não seria mais como um animal enterrado em terra distante, mas no seio da família com a certidão de óbito registrado como suicida, o que para a indústria dos enterros havia despontado finalmente uma nova vida (pg. 69) e a torneira tornou a abrir-se (pg. 70).

Um país inteiro aos trancos e barrancos vinha reorganizando seu funcionamento quando sem mais nem porque, segundo deplorável falta de sentido de oportunidade, os republicanos decidiram aproveitar a delicada situação para fazerem ouvir a sua voz (pg. 81), e ao meio artístico e literário conseguiram cooptar, onde de vez em quando faziam circular manifestos no geral bem redigidos, mas invariavelmente inócuos (pg. 82), o regime resolveram questionar, porque rei eterno não queriam manter, mais econômico um presidente da república com vencimento a prazo fixo (pg. 82), cabendo a ele próprio seu posterior sustento, que dê conferências, escreva livros participe de congressos, colóquios e simpósios, arengue em mesas redondas (pg. 82), o que esquecemos de mencionar sua alteza preocupado com ataque violento dos republicanos, que outras camadas sociais conseguiu sensibilizar, não tanto pelo intrínseco argumento do regime vigente, mas pelos altos custos que não podiam continuar a suportar mais o contínuo crescimento das despesas da casa real (pg. 83). Sua alteza fez chegar ao primeiro-ministro a convocação para um particular sem qualquer testemunha, que aos tantos assuntos argumentados chega ao entendimento que o tráfico de nauseabundos ficou encarregado de uma organização benemérita (pg. 85) e as demais questões principalmente do levante republicano foi pelo então primeiro-ministro desqualificado, ficando então o coração real tranquilizado, ao que sua alteza se põe a matutar Não percebo o que é que deu na cabeça dessa gente, disse, o país afundado na mais terrível crise da sua história e eles a falar de mudança do regime (pg. 84), e aqui devemos considerar que esta situação não é privilégio deste país por assim dizer possuidor do elixir da imortalidade (pg. 75).

É neste momento que a história entorna o caldo, quando um misterioso bilhete com toque inquietante da cor violeta do papel (pg. 95), que passou a ser a mais execrada de todas as cores (pg. 125), aparece na mesa do diretor-geral da televisão que imediatamente ao primeiro-ministro uma audiência solicita e, mancomunados, um comunicado oficial resolvem realizar em cadeia nacional três horas antes do fatídico acontecimento amplamente explicado no famoso bilhete, gérmen do tratamento indelicado com a secretária que aos prantos pensou enquanto procurava um lenço para enxugar as lágrimas (pg. 88), pois o diretor é uma pessoa no geral bem-educada, não é de seu costume fazer das secretárias gato-sapato (pg. 88). A morte resolveu se pronunciar, avisa em cadeia nacional, que ao trabalho retornará, à ultima badalada da meia-noite do dia em questão, ou seja em três horas, após verificar lamentáveis resultados da experiência (pg. 99) que ocorreu com a interrupção de sua atividade, dando uma pequena mostra do que seria viver na eternidade por meio de uma prova de resistência...do período de alguns meses (pg. 99), toma a decisão irrevogável... de devolver o supremo medo ao coração dos homens (pg. 100), mas reconhece que tirar a vida das pessoas sem aviso prévio trata-se de uma indecente brutalidade (pg. 100), muito embora deixe claro, que não foi de todo sem aviso, uma vez que na maior parte dos casos lhes mandava uma doença para abrir caminho (pg. 100) ao que os humanos não estava claro o que viria a seguir, pois verificou que os seres humanos sempre esperavam safar-se dela (pg. 100). Tal comunicado ao final boa notícia iria apresentar, a morte declara que a metodologia iria mudar, anunciando que a partir de agora toda a gente passará a ser prevenida por igual e terá um prazo de uma semana para pôr em ordem o que ainda lhe resta de vida (pg. 100), desnecessário dizer que tal comunicado chegaria pelo correio local, naquele papel de cor execrada anteriormente mencionado.

Novamente entra em cena o primeiro-ministro que aos membros do governo decide convocar para as necessidades que iriam se apresentar, fato também analisado por vários setores profissionais que novas mudanças teriam que providenciar, as empresas funerárias e as carpintarias foram as primeiras a se mobilizarem uma vez que levantamento feito, apresentou-se uma lista de espera de sessenta e dois mil moribundos (pg. 107), hospitais e as casas de terceira e quarta idade também às famílias convocaram para que os corpos fossem buscar e a máfia, o setor mais prejudicado ao seu negócio milenar retornou, o que significa vender proteção para a comunidade, e a mais satisfeita de todas foi a icar (igreja católica, apostólica e romana), que também ao seu negócio milenar retornou, acalentar o coração dos aflitos e garantir um lugar no paraíso celestial (pg. 133). O fato é que a rescisão do contrato temporário a que chamamos vida ou existência (pg. 126) agora por comunicado oficial restabelecido, causou comoção nacional, porque, por óbvio ninguém conseguia suas pendências finalizar, dos carteiros passaram a fugir e uma caçada à morte resolveram empreender.

Como em tal confusão ninguém fica de fora, até a morte seus perrengues teve que enfrentar quando aconteceu que uma carta de cor violeta foi devolvida à procedência (pg.135), não uma, mas três vezes, o que significa dizer que não foi um simples acidente de percurso (pg. 140), e para pura aflição da morte se defronta com tal situação que em tantos milhares de séculos de contínua atividade nunca havia tido uma falha operacional (pg. 142), resolve tirar satisfações daquele que já deveria estar morto há dois dias (pg.141), um violoncelista que, aos olhos da morte, nada de excepcional possui que justifique a devolução tripla, mas diga-se de passagem, da morte liquidou a licença para matar zero zero sete (pg. 156). Por isto, ela, a morte, resolve procedimentos excepcionais adotar, mesmo que se for necessário chegar a tanto, uma ação de legalidade duvidosa (pg. 160) executar. Altera registro, resolve em público e, no particular aparecer, para de perto averiguar, ao mesmo tempo que começa a confabular se toda esta história de greve e aviso prévio à hierarquia superior deveria consultar. Com seu plano ousado, em mulher se transformou, e à gadanha seus afazeres recomendou o envio diário das cartas para os escolhidos se prepararem e foi à cidade, toda vistosa, para o problema com o violoncelista resolver, e ficou trançando de táxi para baixo e para cima, de lugar nenhum para o hotel para o teatro, para o hotel, para casa do violoncelista, para o hotel, para o parque. Parece que esta maratona foi instilando determinado sentimento que viria a comprometer a tarefa milenar de tal senhora. Diálogos dúbios e meios-sorrisos também ao violoncelista trouxeram lembranças de tempos idos de haver dormido no regaço de uma mulher (pg. 200), e, do entrevero acontecido chegaram até ao fato em que não tiverem mais nada que dizer ou quando as palavras começarem a ir por um lado e os pensamentos por outro (pg. 201) e, como já dissemos, apenas uma única cousa poderia à morte dar uma rasteira, e foi nos braços daquele violoncelista sem graça que a dona morte veio o amor experimentar. Em um só instante a carta queimou, o amor encontrou, o sono dormiu e no dia seguinte ninguém morreu (pg. 207).

Saramago que executa uma escrita de vai e vem, de abrir novas digressões, de escolher um caminho alternativo e depois retornar ao inicial, nos remete ao funcionamento de nosso cérebro que fica macaqueando de um lado para outro. Como exímio conhecedor da palavra desenvolve um texto em que observa, fala com leitor, pergunta, responde, sem parágrafos, travessões... fazendo com que a leitura para mim, aconteça mais ou menos de fôlego em fôlego. Uma parada no meio do caminho é como perder o fio da meada, exatamente como a impressão que causa àqueles leitores que não estão acostumados com o estilo.


Recomendo e leitura deste que para mim é um grande escritor, ressalvando que outras obras de sua autoria me mobilizaram mais do que esta.

terça-feira, 16 de agosto de 2016

No Coração das Trevas

de Joseph Conrad


por Márcia H Carvalho


“Quando era bem pequeno, tinha paixão por mapas. Ficava horas olhando a América do Sul, ou a África, ou a Austrália, e me perdia nas glórias da exploração. Naquela época havia na Terra muitos espaços em branco, e, quando via algum que parecia especialmente convidativo no mapa (...), eu colocava o dedo ali e dizia, ‘Quando crescer irei lá’”(p. 29).

Este era o sonho do marinheiro Marlow, personagem central do romance “No Coração das Trevas” escrito por Joseph Conrad e publicado em 1902. Marlow, que ao ver a possibilidade de concretizar um sonho de infância, embarca em um navio rumo ao pesadelo. Ao invés de se perder nas glórias da exploração acaba se perdendo nos perigos de um mundo novo.

Um mundo novo não tão admirável!

O mundo que Marlow visita e descreve aos companheiros está longe de ser um espaço em branco. Pelo contrário, está situado em algum lugar no continente africano, onde a selva é imensa, os canibais estão famintos e os selvagens dispostos a atacar durante uma forte névoa. Mas o que mais assusta neste mundo é a invasão do homem branco.    

Marlow vai parar neste mundo porque, por meio de uma tia influente, consegue uma vaga para trabalhar numa companhia de exploração de marfim. Substituiria um capitão que havia morrido enquanto trabalhava. Marlow seria o capitão de um pequeno barco a vapor que navegaria um rio transportando mercadorias.

Ao chegar à África, Marlow encontra o barco afundado. Demora meses para consertá-lo e colocá-lo em movimento. 

Enquanto isso, convive com os demais empregados da companhia. Se surpreende com o comportamento de alguns, como o do contador, que se veste de forma impecável mesmo vivendo em meio às precariedades de um alojamento na selva.

Nos diálogos entre Marlow e o contador um tal Sr. Kurtz é mencionado diversas vezes. Kurtz seria uma lenda da exploração. Havia conseguido uma imensa quantidade de marfim que nem todos os outros exploradores juntos teriam conseguido. Além da eficiência, era considerado um homem virtuoso.

Marlow finalmente consegue consertar o barco. Parte rumo ao interior com uma tripulação composta por canibais que não se alimentavam a dias. A partir daí, inicia-se a parte mais sombria do pesadelo. O barco se quebra novamente e é atacado por selvagens durante uma forte névoa.    

Em meio a esse pesadelo, Marlow precisa resgatar Kurtz do local onde se encontra, visto que está enfermo e cercado por nativos hostis. No entanto, ao conhecer Kurtz, Marlow percebe que ele não é um homem tão virtuoso quanto disseram. Pelo contrário, vê um ser tão obcecado pela glória que em nome dela seria capaz das maiores crueldades. Kurtz é ganancioso a ponto de matar diversos nativos, cortar-lhes a cabeça e coloca-las em estacas em frente ao seu alojamento. Aprendeu a conviver com várias tribos e tornou-se uma espécie de tirano.  

Marlow, ao conhecer Kurtz, confirma a dura realidade na exploração de marfim. Antes de conhece-lo, dissera que jamais havia visto algo tão irreal. Compara os empregados da companhia a um grupo de peregrinos infiéis enfeitiçados pelo marfim, movidos por uma ganância imbecil que tinha cheiro de cadáver. É isso que Kurtz parece representar.     

Ao relatar as atrocidades cometidas por Kurtz, Marlow transparece um sentimento híbrido em relação à colonização. Ao mesmo tempo que parece criticar as atrocidades inerentes à exploração, descreve os nativos como seres quase desumanos, talvez levando seus “ouvintes” a pensarem que a colonização fosse mesmo necessária.

“A terra parecia extraterrena. Estamos habituados a comtemplar a forma acorrentada de um monstro subjugado, mas ali... ali era possível contemplar algo monstruoso e livre. Era extraterreno, e os homens eram... não, não eram inumanos. Bem os senhores sabem, isso era o pior... a suspeita de que não eram inumanos. Tal noção surgia aos poucos. Eles urravam e pulavam, e giravam e faziam caretas horrendas; mas o que nos impressionava era, precisamente, a ideia de que eram humanos... tanto quanto nós” (p.74).    

Passagens como esta, renderam ao romance “Coração das Trevas” e a Joseph Conrad críticas implacáveis. Intelectuais africanos, como o nigeriano Chinua Achebe, por exemplo, considerava o Canône da literatura inglesa um autor racista e defendia a proibição do romance. Logo, é difícil falar de “Coração das Trevas” sem falar de racismo, de preconceito, de ocidentalização. No entanto, a favor de Conrad pesa o fato de que no início do século XX ninguém era politicamente correto acerca de nada, principalmente no que tangia a culturas não ocidentais.     

Além disso, não existe uma leitura unidimensional de “Coração das Trevas”. Como toda obra literária, o romance de Conrad permite várias interpretações. Não é difícil perceber que o personagem Marlow, por exemplo, ao narrar sua estória, faz, na verdade, uma reflexão acerca de si mesmo:

“Nenhum amigo influente teria me servido melhor. Aquele barco me propiciara a chance de me expor... de descobrir o que era capaz de fazer. Não, não gosto de trabalhar. Prefiro vagabundear e pensar nas coisas boas que podem ser feitas. Não gosto de trabalhar... (...) mas gosto do que o trabalho encerra... a chance de encontrarmos a nós mesmo.  A nossa própria realidade... para nós mesmos, não para os outros... algo que ninguém pode saber.” (p. 64).

A viagem de Marlow a um mundo desconhecido pode, portanto, ser vista como uma busca pelo autoconhecimento.

Além da perspectiva psicanalítica, o curto romance de Conrad pode ser interpretado, ainda, como uma crítica ao colonialismo, ao imperialismo. De fato, o personagem Kurtz simboliza de forma óbvia o lado cruel da colonização.

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quarta-feira, 10 de agosto de 2016

O Coração das Trevas

de Joseph Conrad



comentários por Carlos Guido Azevedo
Impressionou-me o desenvolvimento da estória, através de um narrador falando initerruptamente, o marinheiro Marlowe, em um ambiente de conforto e segurança de um Iate ao mar, calmo e silencioso, sob a atenção permanente dos ouvintes.
Fazendo com que o leitor se coloque, automaticamente como um deles, acomodado, paciente e concentrado na longa estória, que sabe ser de aventura e perigo do narrador, que pede seu julgamento e avaliação, porque ele mesmo tem dúvida se agiu sempre da maneira correta, mas quer sua opinião sobre um certo senhor Kurtz que ele aprendeu a admirar e pode não ter sido uma pessoa muito correta.
A sua específica aventura inicia quando, como marinheiro desempregado, consegue por indicação de parentes, vir a ser o capitão de uma pequena e velha embarcação que deve subir o rio que adentra a floresta nativa do Congo, para resgatar o senhor Kurtz, um funcionário da companhia colonizadora que explora o marfim da região e, para a qual se tornou um problema, que pode vir a prejudicar o negócio, por suas práticas pouco ortodoxas.
Impressionou-me a forma como o senhor Kurtz vai sendo apresentado, aos poucos, por ouvir falar, pela admiração que impõe aos seus ouvintes, por sua retórica, pelos valores morais e éticos que defende, pelo sucesso no comércio de marfim e, pouco a pouco vão sendo presumidas suas práticas, sua insensibilidade e, até o se deixar tratar como um deus, por algumas tribos.
A viagem, vai sendo relatada em uma situação de permanente risco e insegurança até o resgate efetivo do Senhor Kurtz, doente e à beira da morte, mas defendido e adorado pelos nativos quando Marlowe tem acesso a documento escrito por ele, a pedido da companhia, sobre como civilizar a selva, que julga sua, e onde parece justificar suas ações de agir como um deus e, supostamente, cometer todas as espécies de insensatez e desvario para obter o marfim que julga seu, e não da companhia que o enviou, mas não nos apresenta o documento.
A figura do senhor Kurtz que vai se revelando, aos poucos, dentro da viagem para resgatá-lo do meio dos nativos, que resistem e o defendem. Vai sendo construída por frases e indicativos de ouvir dizer, sem jamais apontar qualquer dado significativo de sua real personalidade. Sempre descrito como um homem carismático de grande talento na administração de um dos postos da empresa, sagaz na obtenção do precioso marfim, que alguns acham que são, na maioria, fósseis, e muito eloquente em seus textos e em suas falas.
Um fato marcante foi seu histórico retorno ao coração da selva, em uma canoa remada por quatro nativos, uma das vezes que quase retorna à civilização, abandonando o barco que transportava sua preciosa carga de marfim.
Marlowe assiste a morte do senhor Kurtz que exala suas últimas palavras: ‘Um horror!  um horror!’, que parecem sintetizar o que se passava no coração da selva, para se conseguir o precioso marfim. Mas, Marlowe, o admira, o ajuda, apoia e parece querer construir uma imagem positiva para o símbolo da cruel colonização, da barbárie, da loucura do poder. Busca ocultar os seus escritos, apaga nota de rodapé que não acha conveniente, e finalmente compõe um cenário próprio para sua morte junto à pretendente de Kurtz, mantendo o amor e a admiração desta ao seu amado.
Minha maior surpresa foi perceber que Conrad tinha, na verdade, me ludibriado, feito um mágico que força a atenção da plateia para um ponto de fuga, enquanto realiza seu aparente milagre.
Percebi que enquanto o narrador trata das loucuras apontadas e escandalosamente presumidas para Kurtz, todas, seguramente todas as atitudes aéticas, escravocratas e brutas da colonização, vão sendo executadas com naturalidade e expressas com certa simpatia por Marlowe, como sendo a coisa certa a ser feita naquele momento, sem necessidade de justificativa ou explicação, raras vezes com uma leve desculpa de que o costume ali, era aquele.
Sob a naturalidade descrita na aventura de Marlowe o leitor vai sendo anestesiado sem perceber a crueldade intrínseca da aventura colonizadora, Um Horror! Um Horror! muito além dos limites da perversidade humana e da sua capacidade de produzir aberrações comportamentais, submeter seus semelhantes as mais degradantes situações, trabalho escravo, mutilações e até a morte.
A velha relação conquistador / conquistados, colonizadores / colonizados, dominador / dominados e consequente destruição da cultura e dos costumes locais para trazer evolução e civilidade aos selvagens, toda ela praticada por Marlowe e sua empresa, enquanto apontava para Kurtz, e, eu cego olhava para Kurtz, antecipava suas ações, torcia contra e a favor de Marlowe.
Percebi que enquanto o narrador falava, eu me mantinha anestesiado para o que se passava alí, imaginando as arbitrariedades e horrores que se passariam, lá, na tribo de Kurtz.
Em total insensibilidade com os valores humanos, presumindo como o Marlowe, que o colonizador tem direito natural sobre tudo, como um deus que merece ser obedecido e adorado, porque controla o Ser da Caldeira e domina o Espírito do Apito da embarcação que libera os espíritos maus, fazendo os nativos estremecerem e obedecerem e fugirem da brincadeira de terem suas flechas revidadas a bala como diversão, ou achando natural o asco do sapato sujo de sangue do nativo, jogado fora por Marlowe.
Assim, custei a descobrir que Marlowe e Kurtz são a mesma pessoa, ou têm a mesma cabeça, a minha, que estava capturado também para este mundo de Horror em que acabei comungando sem perceber o quanto ele me comprometeu ao partilhar suas ideias, práticas e valores.

Muitos outros aspectos me impressionaram positivamente no livro e, seguramente não foi o fato dele ter servido de base para o filme Apocalipse Now, tão comentado.

APRECIEI E INDICO SEM RESTRIÇÕES.