terça-feira, 26 de janeiro de 2016

A TRÉGUA




de Mario Benedetti.

Resenha por Ana Studart

A Trégua é um ROMANCE ambientado em Montevidéu, Uruguai, publicado na década  de 60, quando Benedetti contava 40 anos de idade. Considerado como o seu melhor livro, foi tema de filme, indicado inclusive para Oscar de  melhor filme estrangeiro em 1974.
O  AUTOR era filho de prósperos imigrantes italianos. Nasceu em Paso de Los Toros, no Uruguai, mas  mudou com a família aos 4 anos para Montevidéu. Por problemas financeiros posteriores, não pode terminar os estudos e trabalhou desde os 14 anos numa empresa argentina. De volta a Montevidéu,  trabalha no semanário A Marcha, jornal de esquerda que recebeu como herói Che Guevara em sua breve visita ao Uruguai e apoiou a luta dos Tupamaros. Em 1953 publica “Quien de Nosotros” e no ano seguinte é nomeado diretor literário do semanário. A partir de então trabalha em vários jornais. Participa do movimento contra o Acordo Militar com os Estados Unidos e, após o Golpe de Estado de 1973, se exila em Buenos Aires, e depois no Peru e em Cuba. Volta ao Uruguai em 1983, período de muitas obras, chamado de “desexílio”. Recebeu a partir dos 50 anos inúmeros prêmios. Seus livros foram traduzidos para mais de 20 idiomas e é considerado um expoente da literatura latino-americana contemporânea. Sua última obra, “Testigo de Uno Mismo”, de 2008,  foi publicada um ano antes de sua morte, em maio de 2009.
O  TÍTULO, A Trégua, só é compreendido a partir da metade do livro, quando Martin Santomé, personagem principal, um viúvo preso a uma rotina desalentadora e prestes a se aposentar, se apaixona por uma nova funcionária que tem a metade da sua idade. Trégua que se encerra ao perder a jovem Avellaneda: ”É evidente que Deus me concedeu um destino escuro. Nem sequer cruel, simplesmente escuro. É evidente que me concedeu uma trégua. Não era felicidade. Apenas uma trégua.”
O TEMA CENTRAL aborda as dúvidas de um homem maduro e íntegro que conquista uma jovem, se sente em situação ridícula e receia pelo futuro a partir  da relação- será abandonado ao envelhecer, trocado no futuro por alguém mais jovem? Será  traído? Teria ele o direito de comprometer o futuro da jovem que  ama e quer ver feliz, vinculando-a a um homem velho?
O OBJETIVO do romance é discutir esse e outros temas, como o homossexualismo, a política, a existência de Deus, as crises da vida familiar.
O PDV é na primeira pessoa, em se tratando de um diário.
O TEXTO  é leve, simples, e muito bem elaborado. O romance é redigido em forma de diário, que  se inicia em 11 de fevereiro de um ano qualquer e se encerra  em 28 de fevereiro do ano seguinte. Magistralmente  o autor ressalta no texto algumas palavras, de forma a reforçar sua importância, iniciando-as com letra maiúscula. Por exemplo: a aposentadoria como o “Ócio Final”; Deus como a “Totalidade”; a detestável “Sogra Universal”; o momento de bem estar que é a “Ventura”; o romance com Laura Avellaneda, que é o “Nosso Assunto”; os “Outros” (em contraposição ao “Nosso Assunto”) - todos os homens que podem afastá-lo de Avellaneda.
Meu exemplar, ao final, ficou bastante sublinhado, de tanto que apreciei a construção das frases, os comentários bem humorados sobre fatos que relata, a ironia fina que desenvolve ao longo do livro. Há ainda uma delicadeza na abordagem das emoções e dos fatos que não é possível ignorar durante a leitura.
Curti o artifício do autor em responder perguntas no diário do dia seguinte, com frase curta: “Qual a cor dos olhos dela?” No dia seguinte: “São verdes, às vezes cinza azulados”.
Ou então:  “Esta noite vou sair com ela. Não pretendo lhe dizer nada”. No dia seguinte:  “Mas disse.”
O suspense crescente que começa com a compra de um xarope contra gripe para Avellaneda  e termina com  sua morte súbita,  sete dias depois, é um primor de texto: 
17 de setembro:“Avellaneda não foi ao escritório”.
18 de setembro: "Avellaneda não veio também hoje."
19 de setembro: “Hoje, sim,  comecei a ter saudade de Avellaneda”,
22 de setembro:  “Ela não poderia mandar um telegrama?”
E afinal o pungente texto do dia 23 de setembro, apenas repetindo  sete vezes:
“Meu Deus”.....
A ESTRUTURA - A Trégua relata a vida de Santomé em vários planos, ao mesmo tempo em que passeia por temas como o homossexualismo, a corrupção, a família, o Divino.
-O Trabalho- um desalento, um vazio. O narrador conta os dias- 6 meses e 28 dias- para se aposentar. Para produzir bem no escritório ele precisa lembrar da aposentadoria. “Do contrário,  meus dedos se crispam e a letra redonda me sai quebrada e deselegante.”  Mas para ele pior do que a rotina é  “o problema novo, o pedido repentino que  toma toda a sua atenção…” e então  “a fadiga se instala nas (…) costas e nuca como um emplastro poroso”. Com senso de humor comenta a demissão de Suarez depois do fim do romance com Valverde, filha do diretor da empresa. “Pode parecer insólito, mas o clima dessa empresa comercial depende, em grande parte, de um orgasmo privado”. No escritório, escreve Santomé “não existem amigos; existem sujeitos que a gente vê todos os dias.” Homem pouco ambicioso, rejeita promoção tentadora que lhe oferecem perto da aposentadoria.
-A Família –Martin Santomé enviuvou jovem e criou os filhos sozinho. Ele se descreve como  um homem maduro, bom, sem grande brilho, às vezes fraco, mas inteligente. Os filhos, mesmo adultos, continuam morando com o pai. Não se parecem com ele, têm mais energia e são mais decididos. O relacionamento entre eles é conflituoso, os filhos são ríspidos e não o respeitam. Esteban, é arredio, “um ressentido“. O mais novo, Jaime, rapaz sensível e inteligente, é o preferido, mas  “uma barreira invisível” os separa. Ele se revela no fim homossexual.  E Blanca que, como o pai, é “uma triste com vocação de alegre,”  termina sendo a confidente que o apoia na nova relação amorosa.
-O amor- É uma delicia acompanhar a evolução de Santomé com relação a Avellaneda. As estratégias criadas para abordá-la no início são hilárias: deve usar a franqueza ou o fingimento?- ele se pergunta.  Tenta encontrá-la casualmente indo aos lugares que ela frequenta, como um adolescente. Ensaia o que dizer. No primeiro encontro tropeça, engancha o paletó, derruba coisas. Mais tarde a dúvida: casar ou não casar? Se não casar, será para protegê-la ou para se proteger de uma traição? Essa insegurança, um traço forte do personagem, é bem definida nas anotações do dia 18 de maio, que enchem uma página e meia com dúvidas e pontos de interrogação, e terminam com uma frase bem humorada ao final: “”Se quer saber quais são as respostas a estas perguntas cruciais, leia nosso próximo número”.
A insegurança vai desaparecendo na medida em que o amor desponta. Primeiro ele  aprecia a nova assessora apenas "porque ela entende" o que ele diz. Constata que é tímida, não é  bonita, mas tem algo que o atrai. O que é? Ao final do romance, ele descobre que é tudo- a voz, a boca, o riso, os passos, e cada atrativo se apoiando no outro, formando um todo , “como uma soma insubstituível de atrativos”. Ela o retira do cansaço dos encontros às escuras nos motéis. Ressalto a frase, dita por uma mulher a Santomé: ’”Você faz amor com cara de empregado”, expressando o vazio  do sexo sem sentimento.
O Divino - A abordagem sobre a existência de Deus é dos melhores parágrafos do livro. Ao se perguntar como seria a sua vida se tivesse escolhido o sacerdócio ( e então não teria filhos, nem escritório, nem horários), acaba reconhecendo suas dúvidas a respeito do divino. Inclusive porque o raciocínio, intuição e sensibilidade que  Deus  deu ao homem não são suficientes nem para garantir sua existência nem sua não existência. E conclui com frase primorosa: ”Graças a um impulso do coração  posso acreditar em Deus e acertar, ou não acreditar em Deus e também acertar. E então? Talvez Deus tenha uma face de crupiê e eu seja apenas um pobre diabo  que joga no vermelho quando dá preto, e vice-versa.”    Mais adiante questiona :  Se Deus é a Totalidade, a Grande Coerência, se Deus é só energia que mantém vivo o universo,  se é algo tão incomensuravelmente infinito, “o que lhe posso importar eu, um átomo precariamente encarapitado num insignificante piolho de seu Reino?”
O País-   Benedetti fala do Uruguai através de seus monumentos, em tom de zombaria misturado a amor. “O Palácio Salvo é quase uma representação do caráter nacional: rude, deselegante, espalhafatoso, simpático. É tão feio, mas tão feio, que deixa a gente de bom humor”.  Critica os jornais, que “hoje dizem o contrário de ontem (…….) Como são diferentes e como são iguais” .
A Política-  Ao tratar dos temas corrupção e suborno,  o autor o faz com sarcasmo: sempre existiram. A diferença está na atitude da população: os rebeldes passaram a ser semi-rebeldes, os semi-rebeldes a resignados, e então perde-se escrúpulos e vem a conivência. Define dois partidos no Uruguai: o dos resignados e o dos maricas.
O Homossexualismo- a frase anterior sobre o "partido dos maricas" revela o preconceito do personagem com relação ao homossexualismo. As atitudes afeminadas de Santini, seu funcionário do escritório, lhe despertam aversão. As mãos de Santini se parecem com as de Avellaneda, só que as dela são femininas, e as dele, “afeminadas”. E reage  mal ao descobrir que Jaime, o filho predileto, é gay. “Penso que quando um sujeito já vem podre, não há educação que o cure. Não há atenção que o endireite”. “ Meu filho é um maricas. Um maricas. Igual ao repugnante do Santini. Eu preferiria que ele fosse ladrão, morfinônamo, imbecil. Quisera lastimá-lo, mas não consigo.”
A dor do  Envelhecimento- aparece quando descreve  Escayola, amigo que era alto, nervoso, piadista, e virou “um monstro pançudo, com um impressionante cangote, uns lábios carnudos e moles, uma careca com manchas que parecem de café respingado e umas bolsas horrorosas que lhe pendem abaixo dos olhos e  sacodem quando ele ri.” E também quando se compara a Avellaneda: “O tempo corre e a deixa a cada dia mais apetecível, mais Madura, mais fresca, mais mulher, e a mim, em contraposição, me ameaça a cada dia com me tornar mais  achacadiço, mais gasto, menos Valente, menos vital.”  E  depois: “Não quero que o futuro  me condene a ser um velho desprezado por uma mulher na plenitude de seus sentidos. Tenho a sensação de que em vez de nariz tenho um tomate maduro, com aquela madureza dos tomates dez segundos antes de começarem a apodrecer.” A descrição irônica que faz de si merece menção especial:  “...a calvície desequilibrada ( o lado esquerdo é mais deserto) o nariz mais largo, a verruga no pescoço, até o peito com ilhas ruivas, o ventre retumbante, os tornozelos varicosos, os pés com incuráveis e deprimentes micoses”.
Os PERSONAGENS são habilmente construídos, bem descritos, e definem sua forma ao longo do romance."
-Martin Santomé, o autor do diário, um solitário, de poucos amigos. Vamos conhecendo sua personalidade  através de comentários bem humorados, das dúvidas,  das reflexões  que faz no diário. É um homem inseguro, que conhece seus limites, e também inteligente e sensível.  Tem insônia nos fins de semana, o que o leva a avaliar que “Se um dia (ele)  se suicidar, será num domingo, o dia sem graça.” Essa personalidade depressiva se altera gradativamente com a chegada de Avellaneda ao escritório e com o crescente interesse que ela desperta nele.
- Isabel, a esposa da juventude, dos hormônios em dia, da paixão, que faleceu ao nascer Jaime, o terceiro filho. Para amar Isabel,  “bastava sentir-se atraído pelo seu corpo”. Ele lembra dos seus olhos verdes, mas já não se vê diante desse olhar. Sua lembrança esvanece mais ainda depois da segunda grande perda, a de Avellaneda. A uma antiga carta  que descobre de Isabel ele dedica 5 páginas do diário, para ao final concluir  que entre escolher Isabel e Avellaneda, ele diria – “Que lástima”, e iria procurar Avellaneda.
-Avellaneda,   descrita como uma boa moça, com traços de gente leal. "Tem atitude". Ela  parece iniciar o relacionamento com Santomé meio a contragosto, como que se rendendo à falta de esperança de alternativa melhor. Gosta de Santomé por se tratar de um homem bom, mas transborda melancolia nisso. A chegada dela ao novo apartamento que dividirá com Santomé é notável: Avellaneda chora. Ele pergunta por que. “Estou chorando porque é tudo uma lástima”, diz.  E ele pensa que é verdade: ”Tudo é uma lástima: que não houvesse apagão, que eu tenha 50 anos,   que ela seja boa moça, que meus três filhos,  que seu antigo namorado, que  o apartamento…”  Diferentemente da primeira esposa,  Isabel, Santomé considera que para amar Avellaneda, não basta apenas o físico:   “é necessário amar o nu mais a atitude- é que esta é pelo menos a metade de seu atrativo.”
-Esteban-  Ele não sabe como falar com esse filho, que é ríspido,  não o respeita, e às vezes é “suscetível como uma solteirona “. Mas a relação muda quando,  doente, Esteban se abre com o pai.  Ao sair do quarto o filho sorri e ele comenta, com humor: “E ele me dedicou um sorriso. Deus meu, parecia a cara de um estranho. Será possível? Por outro lado, um estranho cheio de simpatia. E é meu filho. Que bom”.
-Jaime é o filho preferido, que Santomé gostaria de encontrar mais vezes,  mas é o menos transparente. Embora tenha senso de humor, está sempre nervoso e insatisfeito. Santomé intui que ele tem um problema, mas não sabe qual é. Quando Jaime “sai do armário” sai também de casa, para não enfrentar a reação do pai ao homossexualismo.
-Blanca,  inicialmente arredia, ao iniciar um namoro passa a ser amável, tagarela, feliz. Apoia o romance do pai e se torna amiga de Avellaneda.
-O amigo Anibal, único a quem Santomé faz confidências. Católico, mulherengo, criativo, decidido, é a antítese de Santomé.  Mas é também aquele que soube dizer as palavras certas no enterro da mãe do amigo. A ele Santomé confessa seu relacionamento e suas dúvidas, e a resposta é franca:  “Todo o problema me parece muito claro. O que acontece é que você tem medo  de que, daqui a dez anos, ela lhe ponha chifres”. Santomé rejeita a ideia. Três dias depois Santomé escreve apenas uma pergunta no diário: “Com que então eu tenho medo de que, daqui a dez anos, ela me ponha chifres?” Dias depois volta ao assunto: “Afinal pode ser que Aníbal tenha razão, que eu esteja me esquivando do casamento mais por medo do ridículo do que para defender o futuro de Avellaneda.”
-O  reencontro com o amigo de infância Vignale é uma das passagens primorosas do livro. Reconhecido pelo amigo, Santomé se constrange por não saber de quem se trata. Acaba indo a casa dele para ver fotografias antigas e nelas reconhece o Bronco, um “imbecil que grudava no grupo e ria de todas as piadas, mesmo as mais sem graça.” Ao rir vendo a figura na foto percebe a gafe: Bronco é Vignale, que continuava “estúpido, chato e abobalhado, agora com uma família numerosa, barulhenta e cansativa, e ainda tem um caso com a concunhada" . Santomé ironiza:  nunca teria esse problema- primeiro jamais se casaria com a mulher dele e também “nunca se sentiria atraído pela carne mole da outra veterana.” Frase politicamente incorreta do livro..…
O DESFECHO  toma o leitor de surpresa. É o fim da trégua concedida à vida apagada de Santomé. Com verdadeiro pesar eu li a morte da jovem Avellaneda. Santomé repudia a palavra falecer, porque morrer é a palavra certa, “ morrer  é o desmoronamento da vida.” E não a vê morta- seria "injusto" que ele a visse e ela não pudesse vê-lo. Porque o autor  a mata no final? Para ironizar o destino? Para condenar um relacionamento com grande diferença de idades? Para questionar a existência de Deus? Ou apenas para dar um desfecho surpreendente?
A surpresa prossegue no encontro de Santomé com a mãe de Avellaneda, para descobrir que  ela havia perdido também um grande amor e, por isso, podia compreendê-lo.  Descobre que Avellaneda era filha de um romance proibido, rompido para manter o casamento. Ela diz: ”Laura (Avellaneda) era a última coisa que me restava dele. Por isso sinto outra vez que o coração é algo enorme que começa no estômago e acaba na garganta”.
O diário se encerra  no dia em que Santomé se aposenta, porque, para ele, o mundo perdeu o interesse.

CONCLUSÃO  - A Trégua é um livro arrebatante. Tudo é sincero nesse diário. A melancolia, a alegria, a raiva, a dúvida, a decepção, a ironia,  são sentimentos colocados com precisão e espontaneidade, numa narrativa simples e muitas vezes cômica, que conquista o leitor desde o início. O livro traz um elenco de personagens interessantes e complicados, e a interação  entre entre eles  traduz  a complexidade do relacionamento humano em todos os níveis -amoroso, profissional, familiar. Eu o recomendo com entusiasmo.


quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

O REINO DESTE MUNDO


de Alejo Carpentier
Tradução de Marcelo Tápia
Editora Martins Fontes, 2009
por Maria Albeti Vitorino

Alejo Carpentier (1904-1980) nasceu em Havana, Cuba, e faleceu em Paris. Filho de um arquiteto francês e uma pianista russa, desde cedo se envolve com questões e ideologias políticas. Preso, aos 24 anos, se refugia em Paris, onde teve a oportunidade de se aproximar da intelectualidade francesa. Regressa à Cuba em 1939, saindo posteriormente, em 1945, para morar na Venezuela. Retorna ao seu país em 1959, após a vitória da Revolução Cubana. Falecue na França, onde exercia função diplomática desde 1966.
Carpentier inaugura o estilo real maravilhoso influenciado pela visita ao Haiti, em 1943, onde segundo ele foi possível ter “contato cotidiano com algo que poderíamos chamar de real maravilhoso” (p. 10), um patrimônio não somente do Haiti, mas de toda a América. Outras obras do autor: Os Passos Perdidos (1953), Guerra do tempo (1958) e os O Século das Luzes (1962). O Reino deste Mundo foi lançado em 1948, no México.
No Prólogo do livro O Reino deste Mundo, o autor nos apresenta o real maravilhoso que ele conhece a partir do “nada irreal sortilégio das terras do Haiti” (p.7), palco de fatos extraordinários que aconteceram na ilha de São Domingos. Em seguida, coloca um trecho da comédia “O Novo Mundo descoberto por Cristóvão Colombo”, de Lope de Vega, onde o Diabo interpela Deus sobre a ida de Colombo para a América “Não sabes que há muitos anos dali sou o dono?”, o que sinaliza a dimensão dos acontecimentos que serão narrados dali em diante.
Carpentier recria os principais acontecimentos políticos do final do século XVIII, anteriores à independência da colônia de São Domingos, até o período republicano, começo do século XIX. Nesse intervalo ocorre a transição da colônia francesa governada por brancos para uma nação governada por negros e mulatos.
A narrativa está vinculada à estória do personagem principal, o escravo Ti Noel, que da juventude à velhice vive as desventuras do povo haitiano.  Os acontecimentos narrados são reais, mas se limitam àquilo que o escravo é capaz de perceber e compreender, numa visão de oprimidos e não de opressores ou vencedores. Para melhor contextualização desses acontecimentos, procurou-se fazer um paralelo com a história oficial, colocando-se alguns comentários adicionais.
O livro trata de três revoltas, a primeira delas, ocorre em 1754, sob a liderança do escravo Mackandal, que pertence ao mesmo senhor de Ti Noel, Lenormand de Mezy. Este escravo procura manter vivas as tradições de sua terra e do seu povo, bem como a disposição da luta pela liberdade, utilizando-se de narrativas sobre os reinos da África. Mackandal aprende sobre magia e ervas venenosas com uma velha escrava, que vive isolada na montanha, foge e organiza uma rebelião, usando a tática de envenenamento da água, que mata plantações, animais e senhores brancos.
Após quatro anos, a rebelião é sufocada e Mackandal morto, mas para os escravos ele continua vivo, servindo de inspiração ao seu povo na busca da liberdade. Este fato ocorre antes da Revolução Francesa, mas a referência aparece de forma muito sutil, por meio do rosto do Rei da França, em um jornal na Cidade do Cabo.
Vinte anos depois, explode uma segunda rebelião liderada pelo negro jamaicano Bouckman, que tem como estopim a negativa dos senhores brancos de obedecerem à decisão de libertar os escravos, que veio da metrópole. Os escravos abandonam as plantações e fazem um verdadeiro massacre, matam os senhores, violentam as mulheres e saqueiam os engenhos.
Essa rebelião ocorreu em 1791 e a ordem de libertar os escravos das colônias veio dos líderes da Revolução Francesa, com base na Declaração dos Direitos do Homem. Como as autoridades e senhores branco de São Domingos não obedeceram, Toussaint L’Ouverture (conhecido como Napoleão Negro) liderou essa rebelião. Esse personagem é citado na página 39 do livro, como o marceneiro Toussaint.
A rebelião é debelada, Bouckman é morto, os escravos são massacrados. Monsieur Lenormand consegue salvar os seus escravos, com os quais decide embarcar para Santiago de Cuba, como quase toda elite branca. Em Santiago, Ti Noel toma conhecimento das novidades que estão ocorrendo na Ilha de São Domingos, que o autor mostra dando destaque à chegada de Paulina Bonaparte, irmã de Napoleão e mulher do General Leclerc.
  Esses acontecimentos ocorrem em 1801, quando Napoleão Bonaparte envia a São Domingos uma expedição com 25 mil soldados, sob o comando de Leclerc, para intervir no levante dos escravos e tentar restabelecer a escravidão.  Leclerc perdeu o combate e acabou falecendo, atacado pela febre amarela, em 1802.
Depois disso, São Domingos entra num verdadeiro clima de desordem, as antigas regras são desobedecidas, os brancos continuam descontentes e os negros revoltosos. Dessalines, um ex-escravo, analfabeto, mulato, assume o poder, expulsa as tropas francesas e proclama a independência da colônia, que recebe o nome indígena de Haiti, palavra que significa montanha. Dois anos depois, Dessalines é deposto e morto, o país tem o controle dividido e Henri Christophe funda um reino ao norte. Este rei, o primeiro da América, é o cozinheiro citado na página 50, que depois se tornou artilheiro colonial.
Ti Noel retorna ao Haiti, após ser vendido para outro senhor e conseguido a liberdade, e tem a sensação de que anda “sobre uma terra em que a escravidão havia sido abolida para sempre” (p. 84), entretanto ao retornar à fazenda do seu antigo dono, que se encontra em ruínas, descobre um novo Haiti, liderado por negros e mulatos, porém com uniformes napoleônicos e costumes de influência europeia. Como toda a população, é forçado a trabalhar para o novo soberano, como escravo, na construção de uma fortaleza.
Ti Noel desabafa quanto a essa outra escravidão: 
 Pior ainda [que a dos franceses], pois havia uma infinita miséria em ver-se espancado por um negro, tão negro como os demais, tão beiçudo e acarapinhado, tão nariz largo como os demais; tão igual, tão malnascido, tão marcado a ferro, possivelmente, como os demais  (p. 93).   
Após um tempo Ti Noel é liberado e volta à fazenda do seu amo, que passa a habitar como se fosse o dono.  Enquanto isso, o rei empareda um bispo católico, tem um colapso nervoso, é deposto e comete suicídio. Sua mulher e duas filhas vão para Roma, acompanhadas por Solimán, o antigo criado de Paulina Bonaparte, que consegue ter acesso ao Palácio Borghese, onde encontra uma estátua de Paulina (a Vênus de Canova), cujas lembranças o levam de volta às suas origens, ao encontro dos seus deuses.
Ti Noel participa do saque ao Palácio do Rei – Sans Souci – e sente-se cada vez mais  um soberano nos seus domínios, até chegarem os republicanos para tomarem posse das terras e implantarem um novo período de trabalho forçado.
Temendo uma nova escravidão, o ex-escravo decide se metamorfosear, tal como o mandinga Mackandal, em insetos e animais. Entretanto, quanto mais fugia da escravidão, e a cada animal que se transformava caía debaixo de novo jugo, como no caso das formigas, ou era marginalizado, ao se transformar em ganso.
De volta à condição humana, Ti Noel, sentiu-se  "velho, de séculos incontáveis” e percebe que no Reino dos Céus, “não há grandeza a se conquistar” e conclui que “homem só pode encontrar sua grandeza, sua máxima medida no Reino deste Mundo” (p. 131).
Por fim, num belo cenário preparado pela natureza, alça seu vôo em direção a Bois Caïman, lugar onde se realizavam as cerimônias vodu de enfrentamento ao domínio francês.
O livro trata de homens, da raça negra, subtraídos da sua terra, das suas raízes, dos seus nomes e que vivem como escravos, num clima tropical, de natureza exuberante. O ambiente é repleto de sincretismo entre as religiões africanas e a religião católica, que foi fundamental para sustentar o desejo de liberdade dos escravos.
O autor usa uma linguagem muito rebuscada, o que às vezes dificulta a leitura, sendo necessário usar o dicionário com bastante frequência.  O livro tem poucas páginas, mas contem muitas referências históricas, literárias e mitológicas que se consultadas, expandem o universo da narrativa. Existem muitas citações em francês e na língua dos escravos, que se fossem traduzidas para o português, poderiam facilitar o entendimento.
Gostei muito da narrativa, recomendo, mas é um livro que precisa ser lido e relido, mais de uma vez. A linguagem é muito simbólica e algumas sutilezas podem passar despercebidas numa primeira leitura.

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

O Reino Deste Mundo


de Alejo Carpentier

comentários por Carlos Guido Azevedo


"O reino deste mundo" conta uma história do sofrimento terrível do povo Haitiano em sua trajetória para a miséria perpétua, suportada por uma fé própria, o Vodu, que recria a realidade na visão do oprimido, dando a ele poderes mágicos para suportar o reino deste mundo sem glorificar a vida no outro mundo como fazem as outras religiões, mas, sim, construindo uma outra narrativa sobre a realidade cruel e transmutando o sofrimento em poder, para os seus heróis martirizados.
Carpentier publicou este livro em 1949 e acho que ele é atual em todos os sentidos para descrever a miséria em que vive o país que primeiro aboliu a escravidão e conseguiu que os antigos escravos tratassem ainda pior os seus semelhantes.
A base narrativa é montada sobre um personagem que permeia todos os ciclos da história do Haiti, o Tim Noel. Ele mesmo padecendo todas as desventuras do seu povo e milagrosamente sobrevivendo a todas as revoluções e martírios.
Dividido em quatro partes. A primeira apresenta Ti Noel jovem escarvo bem tratado por seu patrão Monsieur Lenormand de Mezy, que, no entanto, marca a fogo seus escravos e costuma cortar algum membro de escravos fujões, como é o caso de Mackandal que perde um braço e se esconde em uma gruta e começa a trabalhar com Vodu e, com ervas passa a envenenar os animais mais bonitos e os próprios senhores brancos, criando o mito que se transmuta em animais e está sempre presente nas seções de Vodu, como cobra ou outro ser qualquer, sempre comunicando-se através dos tambores tocados em diferentes lugares e do sopro dos caramujos? que apavora os senhores brancos e os fazem convocar o exército para prender o Mackandal e seus seguidores.
Com todas as rebeliões esta, também é sufocada e Mackandal morto, mas sua morte não é assumida por seus seguidores que atestam sua fuga como um pássaro e criam assim, uma tradição de recriar a realidade através de uma percepção mágica e distorcida da realidade.   
A segunda parte descreve uma nova rebelião, organizada por Boukman, da mesma forma de sempre, de repente as trombetas de caracóis começavam a tocar e outras e outras respondem de toda a parte, como se todos os caracóis que jaziam solitários e petrificados ganhassem vida e determinasse que todas as portas se abrissem, de dentro pra fora, e autorizassem a que todos os patrões fossem arrastados e mortos e suas mulheres e filhas estupradas e mortas. A rebelião é reprimida com violência e seu líder morto, mas parte da população branca sobrevivente emigra para Cuba, incluindo Monsenhor de Mezy e seu escravo Ti Noel, salvo da decapitação pelo seu dono, na última hora.
Na terceira seção do livro Ti Noel, liberto por seu novo dono, ainda na ilha de Cuba, emigra de volta ao Haiti. Mas, não encontra mais o país que deixara, agora um rei negro, que adota a religião católica e todos os seus ritos, em contraposição à religião dos seus, e oprime ainda mais barbaramente os outros negros e os força ao trabalho forçado para construir uma enorme fortaleza. Empareda um bispo católico que o havia desobedecido e em um colapso nervoso o vê entrando na catedral com toda a pompa e em crise fica paralítico e acaba deposto e se suicida, sendo levado par a fortaleza com sua mulher e filhas, que conseguem ser deportadas para a Itália ou França?.
A última parte do livro, a realidade mágica ou “irrealidade” assume um papel mais destacado porque o Ti Noel, volta as ruínas de sua primeira senzala, monta um reinado para sí e passa a conversar com as pedras, pássaros e com quem mais aparecer para contar as muitas coisas que tem vivido e a distribuir comendas a quem encontra em seu reinado e, tenta resistir sem muita consequência aos novos dominadores mulatos que se fazem senhores da terra e do país com índole ainda mais violentas que as gerações anteriores.
Ti Noel, velho, louco e miserável, memória viva das desgraças de seu povo, desaparece nas grutas onde se encontrara com Mackandal e aprendera as técnicas do Vodu para enfrentamento dos primeiros dominadores, os franceses.
Pobre Haiti cuja ausência de lideranças comprometidas com seu povo, escreve ainda hoje uma história de miséria e dor, dando uma aula viva a todas as nações do que acontece quando seus líderes se distanciam do povo para servir aos interesses pessoais.  
Recomendo a leitura do livro, com restrições, porque como abertura de um novo estilo de realidade mágica, o livro tem valor histórico, mas depois de estarmos plenos de realidade mágica acho que ficou ultrapassado em seu desenrolar confuso e sobreposto, com detalhamentos de ambiência exagerados e as vezes fora de contexto, perdendo-se em descrições supérfluas sem significados para o enredo e a estória.

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

O Mestre e a Margarida

de Mikhail Bulgakov

por Marcia Helena Carvalho


Covardia: o pior dos pecados

Publicado em 1966 pela primeira vez, o romance russo “O Mestre e a Margarida” de Mikhail Bulgakov tem início com um diálogo entre dois poetas ateus russos, Ivan e Berlioz, sobre a não existência de Jesus Cristo. A conversa acontece em uma Moscou em pleno totalitarismo. De repente, os dois poetas são interrompidos por um homem que se diz professor e que tenta convence-los da existência de Cristo. A ironia que permeia o romance de Bulgakov já começa por aí. O tal professor, cujo nome é Woland, vem a ser o próprio Diabo!
Logo depois desse encontro, várias coisas estranhas e inexplicáveis começam a ocorrer na cidade. Primeiro, Berlioz acaba sendo atropelado e morto, concretizando, pois, uma previsão que havia sido feita por Woland. Ivan, transtornado pelos acontecimentos, tenta capturar e prender o professor diabólico. Porém, é mal sucedido na sua empreitada. Além disso, a história contada por Ivan sobre o encontro com o tal professor misterioso é tão absurda que ele acaba sendo internado em uma clínica psiquiátrica.

Na clínica, Ivan conhece o Mestre, um escritor que após ter seu romance censurado pela ditadura vigente, acabou caindo em uma forte depressão. Para os críticos, o romance era uma apologia a Cristo, visto que a história tinha como personagem principal Pôncio Pilatos. Quando o personagem Mestre aparece na trama, já na metade da primeira parte do romance, o leitor começa a conectar alguns pontos.

Na primeira parte, o autor apresenta vários personagens que interagem com Woland e sua comitiva. Muitos desses personagens são de caráter duvidoso e, ao cruzarem o caminho de Woland acabam se dando mal. É o que acontece, por exemplo, com o tio herdeiro de Berlioz. Além disso, diversos acontecimentos misteriosos vão ocorrendo, atrapalhando, pois, a ordem em Moscou. É durante tais acontecimentos que Woland critica de forma jocosa aquela sociedade.

Durante um espetáculo de magia negra promovido por Woland, por exemplo, os espectadores pedem a cabeça do mestre de cerimônia quando este tenta interromper o show. Para o Diabo, que estava distribuindo dinheiro para a plateia, as pessoas reagiram de forma tão violenta porque adoram dinheiro! Bulgakov, na primeira parte do romance, demora para “desenrolar” sua narrativa. O autor acrescenta vários personagens e o leitor, que ainda não sabe a verdadeira natureza ou a intenção de Woland, pode se cansar um pouco da narrativa. Porém, o leitor, além de se divertir com as histórias do gato, começa a se interessar pelo comportamento bastante peculiar de Woland. Com efeito, Woland vai se revelando um personagem surpreendentemente interessante, embora ainda não seja possível saber o motivo da sua visita a Moscou.

Já na segunda parte, a trama se volta basicamente para o drama envolvendo o amor entre Margarida e o Mestre e a censura do romance escrito por este último. A partir desse ponto, as interconexões entre as diversas tramas do romance começam a fazer mais sentido para o leitor. A razão da visita de Woland à capital russa é a realização de um tradicional baile em que ele costuma receber os maiores malfeitores da história. Em Moscou, Woland precisa encontrar uma acompanhante para o tal baile. Ela deve se chamar Margarida e deve ter sangue de rainha.

Margarida, uma mulher apaixonada pelo Mestre e pelo romance escrito por ele, topa negociar com o Diabo para ter a chance de ver o amante novamente. A barganha entre Woland e Margarida consiste no seguinte: Ela será a acompanhante de Woland no grande baile e como recompensa o Diabo trará o Mestre de volta para ela. A partir daí, o personagem Woland é mais desenvolvido e, inevitavelmente, cai nas graças do leitor.

Como não se simpatizar com um Diabo que prefere os remédios caseiros da avó àqueles produzidos pela moderna indústria farmacêutica? Bulgakov dá ao Diabo uma dimensão humana ao mostra-lo com fortes dores no joelho por conta de um suposto reumatismo. O Diabo de roupas sujas e amarrotadas, tem uma natureza complexa e deixa seu posto de coadjuvante na história do cristianismo para ser o protagonista na história de “O Mestre e a Margarida”. Assim, o Diabo de Bulgakov acaba provocando reflexões sobre os valores morais, políticos e religiosos da Cristandade. Em seu diálogo com Mateus Levi, por exemplo, o Diabo provoca o discípulo de Cristo ao chama-lo de “escravo”. Por que “escravo”? Estaria Woland ou o próprio Bulgakov sugerindo que a “dissidência” do anjo Lúcifer teria ocorrido por conta das regras unilaterais do Criador? Talvez esta tenha sido uma inspiração vinda de Willian Blake, uns dos primeiros a dar essa interpretação para o ocorrido entre Deus e o anjo Lúcifer.

Ainda no mesmo diálogo com Mateus Levi, o Diabo critica o discípulo ao dizer que ele fala como se não reconhecesse as sombras, e muito menos a maldade. E mais, provoca Mateus ao dizer que não seria muito trabalho pensar no que seria da bondade dele se não existisse a maldade, se todas as sombras causadas pelas coisas vivas sumissem. Mais adiante, o Diabo chama a atenção para a tolice de Mateus: “Será que você deseja devastar todo o globo terrestre retirando dele todas as árvores e tudo o que é vivo por causa da sua fantasia de se deleitar com o mundo desnudo? Tolo.”

O diálogo entre Mateus e Woland pode ser uma alusão aos sentimentos de Bulgakov acerca do momento político vivido em seu país. Ante o contexto histórico no qual o autor estava inserido quando escreveu o romance, seria natural concluir que ao criar este diálogo entre Mateus e Woland, Bulgakov cria um paralelo entre a tolice de Mateus e a tolice stalinista. Afinal, Stalin também tinha a pretensão de criar um mundo “desnudo”. Ou seja, um mundo onde a liberdade para expor ideias distintas daquelas impostas pelo Estado não pudesse existir.

Na União Soviética stalinista, a liberdade estava para Stalin assim como as sombras estavam para Mateus: uma ameaça. Woland (quem diria?) parece ver na natureza humana uma complexidade que não pode ser suprimida, tampouco controlada. Embora tal complexidade não fosse ignorada por Mateus ou por Stalin, ambos tinham a pretensão de controla-la, o que é uma tolice. Poder-se-ia dizer, portanto, que “O Mestre e a Margarida”, além de ser uma história de amor é, sobretudo, uma história sobre a infelicidade de se viver em um regime totalitarista.

De fato, se inserirmos o romance de Bulgakov no contexto histórico em que foi escrito, identificaremos diversas referências autobiográficas. Não é difícil reconhecer Bulgakov nos personagens o Mestre e Woland. Tal como o Mestre, o autor russo também foi vítima da covardia que permeia um regime ditatorial. E tal como Woland, Bulgakov, embora tivesse sido jogado na “escuridão”, mantinha um admirável senso de humor ao escrever o romance em questão. Para o Mestre, a covardia é o pior dos pecados e essa é uma frase recorrente no romance. Não é difícil imaginar tal frase saindo da boca do próprio Bulgakov, visto que foi vítima da covardia de Stalin. Covardia porque Stalin lia e apreciava a arte de Bulgakov, no entanto, não queria que a massa russa tivesse acesso a uma obra literária cheia de metáforas que podiam ser interpretadas contra o regime.

Bulgakov, embora não tenha ido parar numa clínica psiquiátrica, tal como o Mestre, foi “condenado” a viver no “subsolo” da literatura russa. E, foi com o coração partido que morreu, em 1940, sem ver sua obra publicada. Felizmente, Bulgakov teve sua “Margarida” para lutar pela publicação de suas obras. Fato este que confirmou a famosa frase dita por Woland: manuscritos não ardem! Ou seja, manuscritos resistem ao fogo da censura. Aliás, tal como o personagem o Mestre, Bulgakov também destruiu uma versão de “O Mestre e a Margarida”, a qual ele reconstruiu mais tarde. Infelizmente, a história de vida de Bulgakov não teve, para ele, um final feliz, visto que morreu sem ver seu romance publicado. No entanto, a história de Bulgakov não morreu com ele. A liberdade, no final, triunfou sobre a covardia e a tolice stalinistas.