terça-feira, 16 de maio de 2017

A PESTE

de Albert Camus

por Claudine Duarte

 “E sabia, também, que viria talvez o dia em que, para desgraça e ensinamento dos homens, a peste acordaria os seus ratos e os mandaria morrer numa cidade feliz.”

A OBRA
Em primeiro lugar, recomendo o livro. Sem restrições.
Albert Camus publicou o livro A Peste, em 1947, reforçando sua luta de jornalista para que as lições da guerra não fossem esquecidas. Lutava contra a indiferença nas páginas do jornal francês Combat.
Escreveu uma alegoria: uma epidemia assola uma cidade da mesma forma que a ocupação nazista assolara a França. E como no final da guerra, a epidemia cessa, a ocupação termina e as pessoas retomam suas vidas apáticas.
Camus foi contemplado com o Prêmio Nobel de Literatura em 1957 e, no seu discurso à Academia Sueca, cabe destacar um trecho:
"Cada geração se sente, sem dúvida, condenada a reformar o mundo. No entanto, a minha sabe que não o reformará. Mas a sua tarefa é talvez ainda maior. Ela consiste em impedir que o mundo se desfaça. Herdeira de uma história corrupta onde se mesclam revoluções decaídas, tecnologias enlouquecidas, deuses mortos e ideologias esgotadas, onde poderes medíocres podem hoje a tudo destruir, mas não sabem mais convencer, onde a inteligência se rebaixou para servir ao ódio e à opressão, esta geração tem o débito, com ela mesma e com as gerações próximas, de restabelecer, a partir de suas próprias negações, um pouco daquilo que faz a dignidade de viver e de morrer. Ante um mundo ameaçado pela desintegração, onde nossos grandes inquisidores tentam estabelecer definitivamente o reinado da morte, ela sabe que devem numa espécie de corrida maluca contra o relógio, restaurar entre as nações uma paz (que não é aquela da servidão), conciliar novamente o trabalho e a cultura, e recriar entre todos os homens uma Arca da Aliança. Não há garantias de que ela possa cumprir essa tarefa imensa, mas é certo de que, em qualquer lugar do mundo, ela já tem o desafio duplo da verdade e da liberdade, e, ocasionalmente, sabe morrer por ele sem ódio."
Essa aliança citada em seu discurso pode ser representada no decorrer da história d'A Peste, onde a cidade de Oran, na Argélia, e seus habitantes sofrem com uma epidemia que não entendem de onde veio e nem mesmo como irá embora. Junto ao médico, Dr. Rieux, uma confraria de outros homens, é criada com intuito de lutar, resistir e debelar o inimigo comum: a peste. A aliança de Oran é formada por Tarroux, escritor; Cottard, contrabandista; Paneloux, padre jesuíta; Grand, funcionário público; Rambert, jornalista; Castel, cientista; e Othon, juiz. Todos eles, ligados de alguma forma ao Dr. Rieux, médico e narrador da história, tornam-se solidários e participam com suas limitações e conhecimentos dos episódios em que a cidade vive e morre durante a epidemia.
A cidade de Oran, construida de costas para o mar, tem uma vida tranquila e cheia de hábitos. Diz o autor, no primeiro capítulo: 'a vida não é muito emocionante, ao menos desconhece-se a desordem.' As pessoas vivem para o trabalho, acumulando riquezas e, com rotina meticulosa, mal tem tempo para as coisas do coração: 'Em Oran, como no resto do mundo, por falta de tempo ou de reflexão, somos obrigados a amar sem saber.' E é nessa cidade que a palavra Peste é pronunciada, com muito espanto, após algumas mortes de cidadãos e de ratos agonizantes. 
"Os flagelos, na verdade, são uma coisa comum, mas é difícil acreditar neles quando se abatem sobre nós. Houve no mundo igual número de pestes e de guerras. E contundo as pestes, como as guerras, encontram sempre as pessoas igualmente desprevenidas. (...) Simplesmente, quando se é médico, faz-se uma ideia da dor e tem-se um pouco mais de imaginação. (...) Números flutuavam na sua memória e ele dizia a si mesmo que umas três dezenas de pestes que a história conheceu tinham feito perto de cem milhões de mortos. Mas que são cem milhões de mortos? Quando se fez a guerra, já é muito saber o que é um morto. E visto que um homem morto só tem significado se o vemos morrer, cem milhões de cadáveres semeados ao longo da história esfumaçam-se na imaginação."
Com a identidade do inimigo reconhecida - a peste bubônica - foi aberto o caminho para que sentimentos anestesiados pela rotina fossem resgatados. Os homens que integram a aliança em torno do Dr. Rieux descobrem, dentro de cada um, a capacidade para redefinir valores e crenças, reestabelecendo relações humanas, com solidariedade e compaixão. O jornalista Rampert, mesmo com chance de fugir ao cerco imposto pela doença, decide ficar e ajudar os demais.
Assim sendo, o livro permite interpretações tanto pela ótica política como por um olhar filosófico-existencial. São produzidas reflexões sobre nossa finitude, nosso amor à vida e, principalmente, sobre nossa capacidade de transformação. São 300 páginas extremamente bem escritas que nos apresentam pensamentos profundos sobre nossa dor, medo e solidão gerados por uma doença ou por algo que nos ameaça e que não podemos controlar.
Com o advento da epidemia, os habitantes de Oran redescobrem a vida, transformam a forma com que se relacionam, laços entre casais são fortalecidos e vários amadurecem ao experimentar a dor da separação de seus entes queridos, seja pela morte ou pelo isolamento. Destaco a cena de amizade entre Rieux e Tarroux:
"É ainda por isso que essa epidemia não me ensina nada senão que é preciso combatê-la a seu lado. Sei, de ciência certa (sim, Rieux, sei tudo da vida como vê), que cada um traz em si a peste, porque ninguém, não, ninguém no mundo está isento dela. (...) E como é preciso ter vontade e atenção para nunca se ficar distraído! (...) É por isso que todos parecem cansados (...) Foi assim que decidi por-me do lado das vítimas, em todas as ocasiões, para limitar os prejuízos. No meio delas, posso ao menos procurar saber como se chega à paz.
 (...)Depois de um silêncio, o médico soergueu-se um pouco e perguntou-lhe se tinha alguma ideia sobre o caminho que era preciso seguir para se chegar à paz.
- Tenho. A simpatia. (...) Sabe o que devíamos fazer em prol da amizade? (...) Tomar um banho de mar.
(...) Durante alguns minutos, avançaram com a mesma cadência e o mesmo vigor, solitários, longe do mundo, libertos enfim da cidade e da peste. (...) Sem nada dizerem, ambos aceleraram os movimentos, fustigados por essa surpresa do mar. (...) Quando viram de longe a sentinela da peste, Rieux sabia que Tarroux dizia para si próprio, como ele, que a doença acabava por esquecê-los, que isso era bom, e que agora era preciso recomeçar. Sim, era preciso recomeçar e a peste não esquecia ninguém por muito tempo."
No último capítulo, o narrador explica o motivo pelo qual decidiu redigir a crônica sobre Oran e sua peste, reafirmando a crença humanista de Camus:
"O velho tinha razão, os homens eram sempre os mesmos. Mas essa era sua força e a sua inocência, e era aqui que Rieux, acima de toda a dor, sentia que se juntava a eles. (...) Decidiu, então, redigir esta narrativa, que termina aqui, para não ser daqueles que se calam, para depor a favor das vítimas da peste, para deixar ao menos uma lembrança da injustiça e da violência que lhes tinham sido feitas e para dizer simplesmente o que se aprende no meio dos flagelos: que há nos homens mais coisas a admirar que coisas a desprezar."

O HOMEM
Segundo Otto Lara Rezende: Aqui está um homem. Um grande homem. Um grande escritor. Um escritor torturado pelos problemas e pelas indagações que o acompanham por toda parte. (...) Jornalista combativo e combatente, Camus tomou parte da Resistência. Nascido em Argel, transferiu-se em 1940 para a França e seu nome de lá se irradiou por toda parte. Ex-militante político, tendo sido membro do Partido Comunista, Camus viveu inflamado pela paixão da Justiça. Espírito polêmico e independente, de certo modo foi um solitário.
Ficcionista, publicou, entre outras obras: O Estrangeiro, A Peste e A Queda. Ensaísta, é autor de O Mito de Sísifo. Dramaturgo, cabe ressaltar peças de sua autoria: Calígula, O Mal-entendido e Estado de Sítio, quase como uma adaptação de A Peste para o teatro. Também produziu uma adaptação do livro Os Possessos, de Dostoiévski, em peça homônima desenvolvida em 3 atos.
Morreu em janeiro de 1960, num acidente de carro, ironicamente com o bilhete do trem no bolso... num trecho de A Peste, Rieux anota "Apostavam no acaso, e o acaso não pertence a ninguém".

segunda-feira, 15 de maio de 2017

A PESTE


de Albert Camus
por Carlos Guido Azevedo

Resistente a leitura de qualquer dos livros de Camus e de outros existencialistas, fui induzido por Claudine a superar minha relutância, que tem base na consciência da incapacidade de resistir aos encantos desses escritores que tendem a menosprezar o valor da vida, da fé e do destino do homem. Assim, tenho evitado lê-los, como evito o cigarro e a outras substâncias.
A Peste foi uma grande surpresa, um clássico onde a vida fez sentido e a morte foi tratada com respeito e dignidade. Naturalmente, por instinto, assumo algum personagem durante a leitura, desta vez foi o jornalista Rambert, acho por similaridade, com minha síndrome de “não sou daqui, nem vim pra ficar”, que me invade em cada lugar diferente que tenho morado, nessa minha vida meio nômade.
Conhece Oran? Vai se familiarizar com ela fácil, é a cidade atacada pela epidemia. Qualquer um pode ver, sentir os cheiros, a poeira e os barulhos de Oran descritos por Camus, através de poucos e certeiros traços escritos com sensibilidade. Afinal, para travar conhecimento com uma cidade, “basta saber como se trabalha, como se ama e como se morre nela”. Oran foi fechada, atacada pela peste negra, ninguém podia sair ou entrar na cidade, seus habitantes tiveram que viver a circunstância de “apartados do mundo”.
O sentimento de isolamento é que faz Oran universal ao transformar todos os moradores em “separados”. É aí que o leitor se descobre em Oran, lá, “como no resto do mundo, por falta de tempo e de reflexão, somos obrigados a amar sem saber”.
O cronista, Dr. Bernand Rieux, no olho do furacão não se faz herói ou observador onisciente, economiza personagens, toma emprestado anotações de outros, mas observa os habitantes em grupos com maestria, eles é que demoram a se perceberem no coletivo. Diante do perigo, tentam negá-lo, fugir, transferir a responsabilidade para outros, tentam toda espécie de fuga, até encararem a tragédia de frente e viverem o melhor possível, diante das circunstâncias.
Jean Tarrou, cujas anotações apoiam Rieux, observa os comentários da população e anota em seu caderno, pensamentos tipo: “Pergunta: Como fazer para não se perder tempo? Resposta: Senti-lo em toda a sua extensão. Meios: Passar os dias na sala de espera de um dentista, numa cadeira desconfortável”; e dá outras formas de se prestar atenção ao tempo. Aliás, o tempo é um dos assuntos mais marcantes do livro, como se arrasta, se acelera, passa desapercebido ou toma velocidade de vendaval em função das circunstâncias ditadas pela epidemia, pela natureza e pelo estado de espírito do observador. Tarrou, ajuda Rieux em todas as tarefas e faz uma amizade tão sólida que acaba morando na sua casa e lá falecendo como uma das últimas vítimas da epidemia.
Raymond Rabert o jornalista tomado de surpresa pelo fechamento das portas da cidade enquanto fazia uma reportagem, representa bem os pensamentos do separado, impedido de ir ao encontro marcado com a amada, não se sente minimamente pertencente a cidade e busca fugir de todos os modos legais ou não. A grande questão da peste na cidade, parece ser esmaecida pela problemática humana da apartação, da separação do ser amado, das dúvidas sobre se, se continua sendo amado, dada a distância, a própria vida da amada, as circunstâncias que ela vive longe, se ela ou ele ainda é a mesma ou se transformou em outa pessoa, são questões que vão envolver todos os separados. Sem qualquer julgamento Rieux vai aconselhando Rabert em cada etapa de suas tentativas de fuga, e este acaba se sentindo útil, fazendo amizades e colaborando corajosamente na luta contra a epidemia.
A todo instante vemos demonstrações de amizade entre as pessoas que emocionam e revelam a verdadeira humanidade do texto, as caminhadas em grupo para visitação de doentes, o desprendimento de pessoas simples que se dedicam a apoiar, organizar dispensários, isolamentos e até o própria funcionamento da cidade, lutando para buscar a normalidade, fazer funcionar as repartições, o comércio e a vida afinal, diante de tantas restrições, limitações e agruras. As famílias parecem se unirem mais, os bairros ganham características distintas se harmonizam, dialogam, estão todos dentro do mesmo caldeirão.
Joseph Grand o empregado da Câmara um funcionário dedicado à burocracia, parece o mais comum e sem méritos dos seres, frágil e insignificante, até que aos poucos vai se dando a conhecer e se revela “um dos raros homens que tem a coragem de assumir seus sentimentos”. Um apaixonado pela escrita e pelo dever, centrado em esculpir um único parágrafo do seu futuro livro, para o qual os críticos iriam tirar o chapéu.
Cottard o empresário, suicida frustrado, procurado pela justiça que torce pela doença, a Peste é sua salvação. Com tudo fora de ordem não haverá pressa em lhe mandar prender e acompanha com desenvoltura o crescendo da doença, colaborando em tudo, mas parece torcer para que nunca se acabe, enlouquecendo quando sente que o seu final vai chegando.
Mas, de todos os personagens o mais marcante para mim, por questão de religião, foi o padre Paneloux, tribuno carismático que expressa a busca de compreender a epidemia, primeiramente, interpreta a peste como a ira de Deus contra os pecados da cidade, querendo que todos se penitenciem, peçam perdão, porém, acompanhamos sua transformação depois de assistir ao sofrimento e morte de uma criança, o filho do juiz. Paneloux faz um novo sermão e recoloca os seus pensamentos de incompreensão e dúvidas, quando o fatalismo e o existencialismo se apresentam e levam Paneloux a se entregar a doença não como um mal, mas como um benefício enviado por Deus, já que em seu raciocínio se devia “aceitar tudo ou negar tudo” e ele não queria negar tudo e acaba se contaminando e morrendo com a doença.
Há muito o que se falar e sobretudo o que se pensar a respeito desse instigante livro, desde a sua originalidade, a erudição do autor, os inusitados pontos de vista que clareiam ângulos diferentes de uma mesma estória, o ressalto à amizade entre os homens, como sentimento mais forte de superação de dificuldades, elo de enfrentamento e crescimento da emoção, respeito e coragem para enfrentar a fraqueza coletiva.
Conclui o livro com a síntese: “Sabiam agora que, se há qualquer coisa que se pode desejar sempre e obter algumas vezes, essa qualquer coisa é a ternura humana...” e avança em seu niilismo “e aos outros que buscaram por cima do homem..., não houvera resposta...é justo que, vez por outra a alegria viesse a recompensar os que se contentam com o homem e seu pobre terrível amor”.

Gostei muito e recomendo com louvor.
Mas preciso ter cuidado.

terça-feira, 11 de abril de 2017

CONTAR TUDO

de Jeremias Gamboa


por Cristiane Vianna Rauen


Contar tudo é um livro sobre o penoso processo criativo de um jovem escritor da periferia de Lima. Nas 531 páginas de sua redação muito bem escrita, Gabriel Lisboa nos conta toda a trajetória que percorreu durante dez anos de sua vida para finalmente escrever o seu primeiro romance.
A narrativa se inicia no verão de 1995 quando o tio de Gabriel, Emilio, também seu pai adotivo, consegue uma entrevista de emprego num periódico oposicionista de nome Proceso. Impressionado pelo fato de Gabriel estudar numa das universidades mais prestigiadas de Lima e ter uma bolsa integral por desempenho acadêmico, Francisco De Rivera concede ao rapaz o emprego. De Rivera é apresentado, então, ao leitor como a primeira influência ao jovem escritor, assim como seu colega de trabalho e mentor, Saúl Vegas.
Em sua primeira experiência de trabalho, na Proceso, Gabriel se especializa e passa a alcançar cada vez mais destaque como jovem jornalista. O ofício lhe permite aprimorar sua capacidade de redação, lhe traz prestígio e ascensão. No entanto, Gabriel sente que ainda precisa escrever.
É nesse momento, na universidade, que conhece sua maior influência no processo criativo, Santiago Monteiro, o seu amigo poeta. Monteiro o convida a participar das aulas no curso de Oficina de Poesia. A partir de então um novo mundo abre-se diante de Gabriel e muitas novas influências surgem em sua vida, como Jorge Ramírez Zavala, também poeta, e Bruno Lorente, o Spanton.
Nas férias de verão seguintes, já cansado do ritmo e da falta de pagamento de salários da Proceso, Gabriel consegue emprego no periódico La Industria, para onde também tinha sido transferido De Rivera. Gabriel passa por algumas seções do La Industria até alcançar o cargo de redator da revista de seu maior interesse, a Semana, cujo editor era o próprio De Rivera. Na Semana, Gabriel atinge destaque e projeção com suas matérias até o momento em que é convidado a assumir o posto de editor do periódico.
Esse poderia ser o início de uma promissora carreira jornalística para nosso protagonista, no entanto, é nesse momento que o romance tem sua reviravolta. Gabriel torna-se um excelente editor da Semana, administra uma grande equipe, executa fechamentos irretocáveis, porém sente-se completamente frustrado e perdido.
Inicia-se o período negro da vida de Gabriel, que envolve-se cada vez mais com bebidas, drogas, noites mal dormidas e uma insatisfação e ausência de sentido em seu trabalho.  Quando o caminho parecia não ter mais volta, Gabriel se atém ao seu maior desejo, escrever, e decide demitir-se na edição da Semana para se dedicar integralmente à redação de seu livro.
Sem emprego, vivendo apenas das economias que seus trabalhos anteriores haviam lhe proporcionado, Gabriel enfrenta novamente o bloqueio criativo que o angustia durante toda a narrativa. A necessidade o obriga a dar aulas no curso de Expressão Escrita na faculdade, convite feito pelo editor dos livros de seus amigos Monteiro e Zavala, Jaime Estrada.
É nesse curso que Gabriel conhece Fernanda, a primeira pessoa que Gabriel sente amar realmente e que o influencia das mais diversas formas, transformando definitivamente sua vida.
 A história de Gabriel mostra que o processo de produção da escrita é difícil, inconstante, insólito - apesar de ancorado em influências diversas, e muito particular. Enquanto seus amigos já produziam materiais publicáveis, o jovem permanecia paralisado, inerte, preso a traumas perturbadores detalhadamente descritos na obra. Até que, finalmente, sem razão certa, ou motivo aparece, consegue desabafar de uma só vez e nos contar tudo.
Um livro extenso, de fácil compreensão e leitura, que prende a atenção do leitor e nos faz imaginar, em diferentes momentos, que o excesso de “verdade” e de detalhes nos relatos do narrador pode se dever, em certa medida, a uma autobiografia disfarçada.
Minha opinião: recomendo.


segunda-feira, 10 de abril de 2017

Contar Tudo


de Jeremias Gamboa
por Carlos Guido Azevedo

Jeremias Gamboa ou Gabriel Lisboa, como se denomina no livre, quase autobiográfico é um jovem escritor peruano que tinha muita dificuldade de escrever. Sofreu dez anos de bloqueio psicológico para conseguir realizar seu sonho de se tronar escritor e “escrever algo” para sua vida, como um livro que o tornasse famoso.
Embora desenvolvendo todas as competências intelectuais para atingir seu intento, tornando-se um competente jornalista, chegando a dominar todas as fases de elaboração de algumas revistas e, mesmo construindo uma sólida formação intelectual dentro da boa Universidade de Lima, tendo frequentado diversos cursos e chegado mesmo a ensinar em diversas cadeiras as técnicas de redação, Gabriel Lisboa não conseguia assumir a responsabilidade de “escrever algo”.
Tendo, afinal, aprimorado sua capacidade incomum de perceber e descrever ambientes e pessoas em diferentes matizes dos subúrbios de Lima e identificado situações e costumes inusitados através de crônicas centrais das revistas, que lhe renderam sucesso no meio jornalístico, mas, mesmo assim, Gabriel sentiu que o jornalismo não o realizaria e abandonou radicalmente a profissão.
Integrado a um grupo de neófitos pensadores e potenciais escritores e poetas, um pouco de loucos, um pouco de artistas e muito de imaturos e inconsequentes com a vida e suas responsabilidades, Gabriel encontrou o ambiente adequado para esconder suas restrições psicológicas, sua insensatez com a vida e principalmente fortalecer sua afetividade numa relação de dependência e sujeição afetiva que o faria sempre caudal e dependente dos “monstros” como se chamavam os adeptos da confraria em seus “Conciliábulos”.
A absoluta imaturidade dos monstros está longamente definida nas dificuldades de todos no relacionamento com o sexo feminino e na dificuldade da entrega afetiva de cada um, quando por sua vez, vão encontrando suas parceiras e deixando o nosso herói cada vez mais só, a cada finalização de romances que lhe ocorriam e quando ia em busca de apoio e explicações para cada uma das suas frustrações com Cecília, Cláudia, Fernanda, etc.
Pois bem, depois de quase dez anos de bloqueio, mesmo detendo todas as competências específicas para a realização do seu intento, Gabriel só se sente capaz de buscar seu objetivo de tornar-se um escritor, quando afinal, abandonado pelos amigos, curtindo a traição de Fernanda, viu sua turma evadir-se, seu dinheiro sumir e a idade dos trinta chegar.
Afinal, encontra seu tema perfeito, ele mesmo e sua trajetória até aquele momento de superação, senta e começa a escrever, sua própria viagem de dez anos à Jack Kerouac em On The Road, e o faz com tanto empenho, com tal verve, tal dedicação que conta tudo em seus mínimos detalhes, esgotando a paciência de qualquer leitor com suas 530 folhas de eventos absolutamente insignificantes, numa reedição medíocre de Marcel Proust em Busca do Tempo Perdido.
Ficando o leitor extenuado e insatisfeito sem encontrar nele, as inovações descritivas do Kerouac ou a qualidade da escrita e do deslumbramento de Proust.

Recomendo, exclusivamente, para colegas que querem ser escritores e passam por dificuldades de criação.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

História de um Novo Sobrenome

Saga Napolitana
Volume 2 Tetralogia
de Elena Ferrante
A obra

 Livros que compõe a saga:
·       A amiga genial - no original L'amica geniale, 2011
·       História do novo nome - no original Storia del nuovo cognome, 2012
·       História de quem vai e de quem fica - no original Storia di chi fugge e di chi resta, 2013
·       História da Menina Perdida - no original Storia della bambina perduta, 2014

A obra é estruturada em volumes. O volume 2 “a história de um novo sobrenome” se propõe a contar em 125 capítulos a juventude de duas amigas Lenu e Lila, em meio aos costumes de uma Italia pós guerra.
O livro inicia com a uma lista de personagens. Os personagens se originam das famílias. Cada personagem é descrito dentro desse “sobrenome”. É possível a partir disso destacar o peso da origem, a preponderância do núcleo familiar sobre o indivíduo.

A autora

Elena Ferrante é o pseudônimo de uma escritora italiana.
O escritor Domenico Starnone, já foi apontado como o autor das obras assinadas por Ferrante, mas nega as especulações. 

Sobre sua escolha pelo anonimato, fala : 
"O caminho das minhas obras é o meu caminho." E acrescentou: "Os leitores contentam-se com ele, aliás, alguns até me escrevem pedindo que não revele nunca outros caminhos mais privados e, por isso, menos interessantes. Os meios de comunicação é que, por dever de ofício, não se contentam com as obras, querem caras, personagens, protagonistas excêntricos. Mas pode-se passar tranquilamente sem o que os meios de comunicação pretendem."


Curiosidade

 Um jornalista italiano publicou no New York Rewiew a identidade da escritora, identificando-a como  Anita Raja, tradutora e mulher do escritos Domenico Starnone. Anita Raja vive em Roma. Sua mãe, nascida na Alemanha, fugiu do Holocausto e mais tarde se casou com um magistrado napolitano.

      Diante dessa "caçada"pela identidade da autora, proponho algumas indagações:

       1)    Por que não respeitar/ aceitar o anonimato da escritora? Na sociedade das imagens, uma existência       sem rosto é impensável?
      2)  Curioso observar que a literatura pode prescindir da experiência. Quase sempre, ficamos na      expectativa de que romance seja um reflexo da historia pessoal do autor. Mas a biografia de Anita    parece afirmar o contrário : a capacidade criativa pode superar a trajetória particular do escritor.

Grandes eixos 

CONFLITOS DE MULHERES INTELIGENTES


AS QUE SE APRISIONAM OU SÃO APRISIONADAS NA MEDIOCRIDADE E ÀQUELAS QUE SE REBELAM CONTRA ELA. UM REBELDIA RUIDOSA OU SILENCIOSA.


A AMBIÇÃO-  A VIOLÊNCIA - E A POBREZA


AS COMPLEXIDADES DE UMA AMIZADE FEMININA – a natureza subjetiva das disputas
EMBATE/ RESISTÊNCIA  CONTRA OS LIMITES FINANCEIROS, CULTURAIS E MORAIS



Narrador

A obra é narrada por Lenu. Há espaço para as reflexões e percepções de Lila por meio dos fragmentos dos cadernos dela que são lidos/ revelados em alguns momentos por Lenu.

Ambiente
Nápoles da do pos guerra. Italia.

Lila

Lila- é uma personagem forte. Ruidosa. A ambição que a impele à mudança , ‘fugir da miséria’, é ruidosa e violenta. Ela deixa a pobreza de forma abrupta para se casar com Stefano. O casamento é um celeiro de desrespeito e violência. A violência física é um recurso aceitado socialmente, corroborado por toda a sociedade ( homens e mulheres),  e também configura um indicativo de virilidade.
Stefano violenta sexualmente a esposa sob o manto do matrimonio partindo do pressuposto que de o instituto é  por si  só carta branca para qualquer tipo de invasão ao corpo de Lia. A invasão aqui pode ser interpretada não apenas para o sexo, mas também pela gravidez e pela mudança do nome.

Lia utiliza as armas que lhe são possíveis e que mais coincidem com seu temperamento tempestuoso. A agressividade seja verbal, quando ofende sistematicamente o marido; seja comportamental, quando utiliza o corpo de forma insinuante pra ofendê-lo por meio do desejo dos outros ( em especial de Michelle). A vulgaridade assola a menina brilhante, em roupas de luxo e dentro do apartamento novo.


A inflexão na vida ( a segunda inflexão ) de Lila ocorre quando ela se apaixona por Nino. Nino era colega de escola de ambas e, partindo apenas da historia narrada no volume II, sempre foi o amor de Lenu.
Ocorre que a relação das duas parece ter como forca motriz a competição. Lila se apropria do homem que a amiga deseja , o seduz e com ele vive uma grande paixão. Com ele se entrega ao sexo de forma verdadeira e inteira. É possível pressupor que no matrimônio o sexo sempre foi uma violação, ao passo que na relação extraconjugal ela de fato encontrou o sexo prazeroso e consensual.

Enlevados pelo amor,   o jovem casal abandona suas perspectivas : Lila deixa desmoronar o casamento com Stefano e Nino enfraquece suas convicções no conhecimento.
Lila foge e passam a viver juntos. A pobreza aos poucos fulmina a paixão e com o tempo aniquila a convivência dos dois que dura apenas 20 e poucos dias.

Lila retorna ao matrimônio grávida e ainda mais infeliz. É o  inicio do desfiladeiro de seu casamento. Após esse episódio, sucessivas brigas familiares ferem de morte o casamento moribundo de Lila; Stefano arruma uma amante e Lila foge com um amigo de infância que sempre a amou , mas pelo qual ela não nutre nenhum sentimento maior do que a gratidão por lhe oferecer uma saída.

Lenu

Lenu , a narradora, é uma personagem frágil e insegura.  Vive um vida de pobreza e adversidade. Acredita que por meio do estudo pode mudar sua trajetória, mas muitas vezes titubeia sobre suas verdadeiras capacidades.
Nutre por Lia um espécie de amor, uma admiração sofrida, a qual é amplamente percebida pela amiga que a submete, ao mesmo tempo que é capaz de grandes generosidades.
Lenu, obtém as coisas que ambiciona por meio de um esforço doloroso e as conquista de forma lenta e gradual, muitas vezes sem muita convicção de as merecesse.
Por meio de Lenu, é possível perceber as agruras de uma jovem em meio as vicissitudes da pobreza e das mil e uma obrigações que a condição social faz invadir sua juventude : cuidar dos irmão, se preocupar com as finanças da família  e ao mesmo tempo sobreviver a um ensino adestrador e rigoroso.
É perceptível toda a aridez desse momento da vida de Lenu, uma vez que a jovem precisa lidar não somente com as tempestades emocionais típicas da idade, mas também com o contexto desfavorável de sua condição social e as limitações de seu tempo.

Lenu, tem ainda uma clara noção de seu papel de “primeira”. Ela inaugura, de forma dolorosa e árdua, no seio de sua família a possibilidade do estudo , das letras , do conhecimento. Rompe com uma barreira imposta ao longo de gerações, a qual impede qualquer mobilidade social. Ao mesmo tempo que caminha na direção do que admira, ela sofre com o retorno ao provincianismo e a pequenezas  de Nápoles toda vez que regressa de Pisa.
São sentimentos ambíguos. Ao mesmo tempo que Nápoles lhe inspira conforto e comodidade frente às humilhações que sofre em Pisa, também lhe causa incomodo uma vez que o conhecimento e as experiências que educação lhe propiciaram transformaram sua percepção de mundo de forma irreversível.

O sucesso de Lenu, no final do livro, a sua graduação, o noivado com Airola, a publicação de seu primeiro livro são sucessos ainda não completamente digeridos pela jovem. Sua insegurança ainda  não permite que os aceite, que os deleite.



A Amizade feminina

A amizade vivida por Lenu e Lila é uma relação baseada na competição, na disputa. A ausência de um seio familiar que as proteja que as forje, a existência de uma educação rigorosa e dura, faz com que as duas tenham como única referência uma a outra.
O que pode se esperar quando duas crianças em formação tem como único e maior referencial elas mesmas?
O que pode se esperar de duas jovens na transição entre a infância e a adolescência já assoladas por problemas que para muitos são reservados para a vida adulta e que tenham entre si uma a outra como modelo?

Lila se utiliza do dinheiro para exercer sobre a amiga poder e humilhação, mas também exerce a generosidade, quando lhe compra livros ou quando lhe desafia a excelência nos estudos.
Lenu, que ama devotamente a amiga se ofusca diante da beleza e impetuosidade dela e com isso não consegue enxergar a si mesma. Por outro lado, se utiliza , da oportunidade que teve de continuar os estudos para, quando pode, evidenciar a pouca instrução da amiga.

No final do volume II observa-se que ligação das duas é tão forte que a penúria da amiga – trabalhando miseravelmente invade o êxito de Lenu. De modo que a felicidade e a tristeza de ambas se entrelaça em um único sentimento.
É um grande emaranhado emocional para duas moças que mal, mal saíram da casa dos 20 anos.

A educação

Fica evidente o poder que a educação ( que não deixa de ser também uma abordagem da diferença social) é devotado no livro. Observe que esse poder não é aqui interpretado como "bom"ou "mal". Poder, em seu sentido denotativo, como a força que " da a possibilidade de". 
Lia, é privada da educação por escolha dos pais e sua vida sofre um guinada brutal.
Lenu, segue nos estudos e sua trajetória ascende na mesma proporção que a de Lilia, aparentemente retroage.
Nino, aluno brilhante larga os estudos, cego pela paixão e desse modo fica perambulando “sujo e largado”. Passa a beber. ( no final do livro se revela que abrir mão da paixão por Lila, parece, o permitiu um retorno a intelectualidade).

Enzo, amigo de Lia e Leno, que vive  agora com Lila experimenta uma mudança relativa quando passa a estudar. Em virtude de seu esforço e nas palavras entusiasmadas de Lila a contar sobre código binário e programação, é possível entrever o futuro.

As professoras – Ferraro,  Oliveiro,  Adele, Galiani- todas , em algum momento, são decisivas para transformar a vida das protagonistas.
Ë evidente que não se trata de um forca revolucionária, salvadora, messiânica. Mas que surge em meio ao esforço e à adversidade como um caminho possível,  que alguns podem agarrar ou perder.

Recomendo o livro, com a sugestão de que se leia a teratologia na ordem. Não é indispensável, mas permitiria uma maior profundidade do panorama emocional dos personagens, bem como uma maior clareza sobre alguns momentos decisivos da narrativa iniciados no primeiro volume e que se desenvolvem no volume seguinte.