segunda-feira, 27 de junho de 2016

Os Olhos de Lucia - Arthur Japin

Companhia das Letras, 2007
by Daniela

   Giacomo Casanova (1725-1798) viveu no século das Luzes, no espírito do Iluminismo. Suas memórias já renderam inúmeros filmes (contei 17 filmes entre 1918 e 2005) e livros, que exploram a mística do conquistador de almas femininas.  É dessas memórias que Arthur Japin extrai o argumento de “Os Olhos de Lucia”: o amante iluminista confessa que somente duas mulheres não se beneficiaram de seus dons amorosos, uma delas foi seu primeiro amor, aos 17 anos, por uma camponesa italiana de 14 anos. Ele se decepciona quando ela desaparece e fica chocado quando a reencontra, anos depois, prostituta em um bordel em Amsterdã, desfigurada e repulsiva. É a Lucia, a quem Japin se encarrega de construir uma história sórdida e delicada, um debate contínuo entre razão e emoção.

 "O iluminismo representa a saída dos seres humanos de uma tutelagem que estes mesmos se impuseram a si. Tutelados são aqueles que se encontram incapazes de fazer uso da própria razão independentemente da direção de outrem. É-se culpado da própria tutelagem quando esta resulta não de uma deficiência do entendimento mas da falta de resolução e coragem para se fazer uso do entendimento independentemente da direção de outrem. Sapere aude! Tem coragem para fazer uso da tua própria razão! - esse é o lema do iluminismo" (Imannuel Kant,1784)

   Para explicar como a menina Lucia criada em estado natural na propriedade dos Montereale,nas paisagens rurais da Italia, se transforma na misteriosa prostituta Galathée de Pompignac que encanta os homens de Amsterdã cobrindo seu rosto, a competente narrativa em primeira pessoa vai alternando as memórias, infortúnios, escolhas, encontros de cada época de sua vida, até entendermos o que ela quer dizer na abertura da história:
   
“Se há uma coisa que eu sei fazer é amar (...) Amo. Outros carregam suas tristezas no coração. Invisíveis, elas os corroem por dentro. Minha salvação foi trazer a tristeza do lado de fora, onde não passa despercebida a ninguém.”

   Quando Lucia, aos 14 anos de idade, encontra Giacomo em Pasiano ela experimenta um sentimento irreversível, consciência que provocou ‘de uma só vez, dor e prazer’: “Nunca mais poderia simplesmente brincar com todos, com qualquer um.” Giacomo conta ao irmão que ‘ela seria perfeita, não fosse por um detalhe. Ela é "jovem demais”. O encanto mútuo dos jovens, acatado pelos pais e pela condessa de Montereale, gera uma promessa de retorno do jovem aspirante a diplomata em 6 meses, para buscar Lucia. A condessa encarrega o preceptor de sua filha, Monsieur de Pompignac, de preparar a menina (um bloco de mármore intacto, segundo ele) para o futuro casamento. Como uma Eva comendo a maçã, Lucia aprendia tudo que lhe era oferecido com voracidade, mergulhou fundo e rápido no conhecimento, tanto que foi se distanciando do seus pais, de sua natureza. Monsieur de Pompignac, que lhe abriu os olhos para o mundo, também lhe passou varíola antes de morrer da doença.

   Tendo estudado e testemunhado a evolução de doença, Lucia pede as seus pais que a amarrem a uma cama, para que ela não possa ceder à se coçar até a morte. “Desisti do meu corpo, deixei-o para trás, abandonado. Era como se eu tivesse encontrado abrigo em minha alma. Recolhi-me, escondida, tremendo num cantinho.” Depois de 3 semanas de delírio, sem consciência do que acontecia, a febre passou em um Domingo de Ramos. A doença não arruinou o corpo de Lucia, mas seu rosto, no qual as pústulas da varíola tinham estourado enquanto ela se debatia em delírios, ficou desfigurado.  A vida doce de Lucia acabava ali. Nascia, na sobrevivente de quinze anos, a história de Galathée de Pompignac.

   Não suportando a ideia de ser rejeitada por seu amor Giacomo, Lucia foge de Pasiano, deixando Casanova desconsolado, pensando que ela tinha engravidado de um mensageiro e deixado Montereale sem olhar para trás. Nascia, na suposta traição do seu primeiro amor, o Casanova conquistador de corações, que nunca mais cederia o seu.

   Dezesseis anos depois, em Amsterdã, Galathée é uma prostituta com clientes cativos, que frequenta a ópera. Esconde o mundo com um véu, para que este fique com um aspecto mais gentil. Não é de imediato que reconhece no Chevalier de Seingalt seu antigo amor, mas já no primeiro encontro reconhece seu sofisticado poder de sedução: “Dava a impressão de que qualquer faceta do meu caráter o fascinava, técnica avançada que eu identificava perfeitamente. Entre as artes da sedução, era esta a mais delicada e, por isso mesmo, a mais efetiva.”

   Os diálogos entre os dois amantes são deliciosos embates entre razão e intuição. Para quem acompanha de trás do véu, sempre dolorosos. Vivendo o dilema de ser novamente confrontada com uma possível rejeição do homem que ama, escolhe mais uma vez fugir e poupá-lo da verdade. Afinal, não sucumbiu e conseguiu a liberdade de amar. “A América ainda tem poucas cicatrizes.”



   Japin, que com esse romance ganhou o Libris Literature Prize no ano de 2003, preenche as lacunas dessa história de Lucia e Giacomo, desenvolvendo muito bem as paisagens, ambientes e personagens, com uma voz feminina convincente e cenas fortes (vide a agonia e os delírios da adolescente durante o ciclo da varíola e a descrição da casa de fiar). O autor faz um belo trabalho de costura da cativante história de Lucia no tema central do livro, que é o conflito entre razão e emoção, o argumento iluminista. A inocência que caracterizou o encontro inicial dos dois amantes dá lugar a um novo encontro, em que o amor é entendido e praticado com um nível de racionalidade que só o sofrimento consegue forjar. 

segunda-feira, 2 de maio de 2016

OS ENAMORAMENTOS

de Javier Marías
Alfaguara, 2011
por Claudine Duarte



“La fuerza de la costumbre es inmensa y acaba por suplir casi todo, incluso por suplantarlo. Puede suplantar el amor, por ejemplo; pero no el enamoramiento, conviene distinguir entre los dos, aunque se confundam no son lo mismo... Lo que es muy raro es sentir debilidad, verdadera debilidad por alguien, y que nos la produzca, que nos haga débiles. Eso es lo determinante, que nos impida ser objetivos y nos desarme a perpetuidad y nos haga rendirnos en todos los pleitos.” p.308

O Autor
          Javier Marías Franco nasceu em Madrid em 1951, estudou Filologia e Letras e trabalhou como roteirista e tradutor antes de publicar seu primeiro romance em 1971, Los Dominios del Lobo. Atualmente, é membro da Real Academia Espanhola, e um reconhecido colunista na imprensa espanhola para que, segundo ele, permaneça desperto e possa contribuir com seu país com a sua visão da realidade. Sua obra – doze romances e vários livros de contos e de ensaios – foi traduzida em várias línguas e teve cerca de seis milhões de exemplares vendidos.
         
          A tradução para o espanhol de Hardy, Yeats, Nabokov, Faulkner, Salinger e Conrad, entre outros, deram a Javier Marías, bases para sua carreira de escritor: “o tradutor é um leitor privilegiado. Se você é capaz de reescrever em outro idioma algo que Conrad ou Sterne escreveram, aprende muito. Eu não me envolvi na indústria da escrita criativa, mas se eu fundasse um curso de escrita criativa só admitiria pessoas capazes de traduzir, e as faria traduzir sempre.

          O autor é elogiado por escritores consagrados, tais como Orhan Pamuk, Roberto Bolaño e J. M. Coetzee entre outros, sendo reconhecido como um dos escritores vivos mais importantes da língua castelhana.

A Obra      
          Los Enamoramientos, publicado em 2011, recebeu um prêmio nacional de literatura na Espanha que o autor, em meio a um rol de atitudes polêmicas, se recusou a receber. Em 2013, o livro foi finalista do National Book Critics Circle Award, nos  Estados Unidos e, no ano seguinte, ganhou o prêmio literário internacional Giuseppe Tomasi di Lampedusa, na Itália.

          Javier Marías construiu um romance em torno de poucos personagens, cujas vozes conhecemos apenas pelo olhar da narradora, Maria Dolz, numa tentativa de fornecer ao leitor uma perspectiva feminina do amor – ou do enamoramento – e suas consequências.

         O livro é dividido em 4 partes e tem pouquíssimas cenas – todas na cidade natal de Marías, Madrid. A narradora é pródiga em fazer suposições e digressões, como também dá voz às observações e reflexões dos outros personagens – o que não os diferencia e nem lhes confere profundidade. Como se vivessem apenas na cabeça de Maria e de sua mesa mirante. O autor apresenta a história utilizando o tempo cronológico, mas talvez ao ponto de vista adotado fica a incômoda sensação de que, como num sonho - ou pesadelo, as horas foram esticadas para dar tempo de pensar tanta coisa...

          Uma solitária mulher, Maria Dolz, trabalha numa editora de livros em Madrid. Diariamente, como uma leitora dos romances que avalia, observa um casal numa cafeteria. Inventa para eles uma história de amor, os presume casados e os apelida de O Casal Perfeito. Após alguns dias sem encontra-los,  consternada, lê a notícia que o homem – Miguel Deverne – foi violentamente assassinado por um flanelinha justo no dia em que faria 50 anos.

“No tiene el menor sentido, precisamente por parecer que lo tiene. Podría no haver sido así, era tan fácil que no hubiera ocorrido. Podría haber sido cualquier otro día, o no haber sido ninguno. Lo que tocaba es que no fuera. En absoluto. Que no fuera.” p.55

          Novamente na cafeteria, Maria vê a mulher sozinha e resolve conversar com ela. Descobre que seu nome é Luisa e conhece um amigo do casal, Díaz-Varela.  Por alguns capítulos, “escutamos” os pensamentos mais íntimos da narradora e, como no poema de Drummond, assistimos uma Quadrilha onde Maria amava Díaz-Varela que amava Luisa que amava Deverne que não podia amar mais ninguém...

          Durante um encontro de Maria e Díaz-Varela é revelada parte da cadeia de acontecimentos que o levaram a planejar e dirigir o assassinato de Deverne. Confessando seu amor por Luisa e o objetivo de passar com ela o resto de sua vida, Díaz-Varela – segundo o olhar de Maria – comete um crime passional ao encomendar o brutal assassinato de seu amigo, Miguel Deverne. Na terceira e mais extensa parte da obra, justifica sua atitude como o atendimento a um pedido expresso por Deverne. Um câncer o devastava, teria pouco tempo de vida e não queria enfrentar a degradação da doença e tampouco fazer sofrer sua família. Maria decide não pesquisar sobre a doença terminal de Deverne e, assim, o autor acena para a possibilidade de ser uma farsa de Díaz-Varela.

          Um salto no tempo. Após dois anos, a narradora encontra o novo casal, Luisa e Díaz-Varela com aliança nos dedos, trocam algumas frases e – pronto! – final do livro. Maria Dolz finaliza seu relato tedioso e onipresente com a incrível afirmação: “Ao fin y al cabo nadie me va a juzgar, ni hay testigos de mis pensamientos.” Seria uma ironia do autor? Não é este o risco que os escritores assumem: serem julgados pelos textos que ousam partilhar?

Comentários
          Tenho uma frágil lembrança que gostei do livro na primeira vez que o li no final de 2012 e até o indiquei para alguns amigos. Fiquei sensibilizada com as críticas positivas, como por exemplo a do Estadão que me levou à compra da edição da Companhia das Letras com o encarte do novela O Coronel Chabert, de Balzac, e insiro o link a seguir:  http://cultura.estadao.com.br/noticias/geral,espanhol-javier-marias-volta-ao-romance-com-o-festejado-os-enamoramentos,933922. Mas, como teria dito Heráclito: “Nenhum homem pode banhar-se duas vezes no mesmo rio...”, confesso que fiz a releitura com um misto de solidariedade e frustração.

          Com certeza, um dos maiores benefícios de ler Os Enamoramentos foi ter conhecido a primorosa novela de Balzac, pois a sua leitura é incentivada pelas inúmeras citações nos diálogos de Díaz-Varela e Maria. É uma trágica história de um antigo herói napoleônico que foi dado como morto durante uma batalha e volta para casa após alguns anos de muito sofrimento. Em seu retorno, encontra sua ‘viúva e herdeira’ casada – agora Condessa Ferraud - com dois filhos e trava uma luta inglória para recuperar sua identidade.

“Acredite, senhor, se não mostrei a gratidão que lhe devo por seus bons ofícios, mesmo assim ela está aqui – e ele pôs a mão sobre o coração. – sim, está aqui, plena e inteira. Mas o que podem os infelizes? Eles amam, nada mais.” Coronel Chabert ao advogado Derville, p. 76

          Enternecida, Maria compara seu amante ao infeliz militar: “(...) os dois tinham-se mantido à espera de um gesto, de uma espécie de milagre, de um alento e um convite, Chabert do quase impossível reenamoramento de sua mulher e Díaz-Varela do improvável enamoramento de Luisa, ou pelo menos do seu consolo junto dele. (...) Os dois eram como espectros fazendo trejeitos e sinais e inclusive alguma gesticulação inocente, esperando serem vistos e reconhecidos e quem sabe chamados, desejados de ouvir no fim estas palavras: ‘Sim, está bem, estou te reconhecendo, é você’, se bem que no caso de Chabert supusessem apenas lhe conceder a certidão de existência que está sendo negada e no de Díaz-Varela significaram bastante mais: ‘Quero estar ao seu lado, achegue-se e fique aqui, ocupe o lugar vazio, venha e me abrace’.”

          Além do livro de Balzac Javier Marías insere outras referencias literárias no enredo de Os Enamoramentos, como Macbeth, de Shakespeare e Os Três Mosqueteiros, de Alexandre Dumas. Sempre para reforçar as impressões dos ‘quase’, do que poderia ter sido, da inexorável passagem do tempo, da  presença incômoda da morte e do conformismo com ‘o que temos para o momento’. Talvez isso tenha estimulado minha releitura melancólica  e frustrante. Um círculo de palavras com gosto de tempo perdido e buscas inúteis deixam Maria na mesma página, mesma rua, mesmo trabalho e mesma solidão.

           Por ocasião do lançamento do livro, Javier Marías afirmou ao The Guardian que “amar e se apaixonar têm boa reputação. E isso tem justificativa em certos momentos; mas às vezes é o oposto. Já vi pessoas muito nobres e generosas se comportarem muito mal porque estão apaixonadas. Há também essa ideia de destino. As pessoas se lembram de como se conheceram e imaginam o que teria acontecido se não tivesse ido àquele bar ou àquele jantar. Mas na realidade estamos muito limitados em nossa escolha de parceiros, por localização, classe, história, e pela disposição da pessoa a aceitar a nossa sedução. Quantas vezes não somos a primeira escolha? Ou mesmo a segunda, a terceira?”  Assim, o autor defende – convence? – a triste e patética afirmação de Maria:

“A ninguno debe ofendernos que alguien se conforme con nosotros, a falta de quien fue mejor”. p.190

         Hoje, não consigo recomendar a leitura. Considero um livro para esquecer. No entanto, pretendo ler outros textos de Javier Marías. Atravessar outros rios... quem sabe?

“Lo que pasó es el de menos. Es una novela, y lo que ocorre en ellas da lo mismo y se olvida, una vez terminadas.” p.166

terça-feira, 8 de março de 2016

Uma Casa para Sr. Biswas

de V. S Naipaul 
 
 Resenha Ana Luiza Gomes Machado,  em 03/2016

O Autor

 
Naipaul, nasceu em Trinidad e Tobago, em 1932. Em 1950, vai para a Inglaterra estudar. Trabalhou como jornalista para a BBC. Doutor honoris causa pelas universidades de Cambridge, Londres, Oxford e Columbia, foi sagrado cavaleiro britânico pela rainha Elizabeth II em 1990 em 2001 é agraciado com o Prêmio Nobel de Literatura.



    A Ilha

       Trinidad, ilha de maior extensão territorial (4.800 quilômetros quadrados), abriga a maioria da população, que é constituída principalmente de descendentes de escravos africanos, além de imigrantes indianos e chineses. Tobago, por sua vez, possui cerca de 330 quilômetros quadrados, entretanto, nessa ilha são encontradas as mais belas praias do país. Durante o período colonial, o país se tornou grande produtor de cana-de-açúcar, utilizando mão de obra escrava. Na segunda metade do século XX, foram encontradas grandes reservas detz petróleo e gás natural, passando a ser os principais produtos de exportação e fonte de receitas de Trinidad e Tobago. 

    Estrutura do Livro

     O livro é organizado em primeira e segunda parte. Podemos observar que embora o livro não se atenha diretamente em detalhes históricos, há uma demarcação na divisão do livro entre o mundo rural e o mundo da cidade o que esta diretamente relacionado com a evolução histórica da própria ilha. A estrutura social predominantemente rural e de exploração da cana de açúcar na qual se ambienta a primeira parte da obra e o  universo urbano associado à exploração do petróleo, no qual se passa a segunda parte do livro.
   O narrador é onisciente e acompanha a saga do Sr. Biswas de maneira linear e cronológica (nascimento- vida e morte). A narrativa pode ser considerada circular uma vez que o prólogo do livro antecipa o epílogo, no entanto isso não compromete a linha mestra do livro.
   A narrativa é simples e clara e acompanha toda a trajetória do sr. Biswas na busca de seu maior desejo que é a propriedade. Embora o contexto da ilha sugira uma multiculturalidade o narrador foca apenas na comunidade indiana da qual o protagonista faz parte.
Os demais representantes dessa sociedade existem, mas em caráter marginal como, por exemplo, concubina chinesa de seu tio ou a empregada “pretinha” da matriarca Tulsi.
     A existência desses outros povos fica mais evidente na segunda parte do livro quando o Sr. Biswas observa os negros da cidade e ainda quando mudando para Shorthills observa os colonos francês. Não existem interações maiores e, portanto, ao leitor somente é permitido vislumbrar ecos distantes dessas outras comunidades que habitam espaços comuns mais não interagem.
   A obra se classifica como romance de formação no qual a temática predominante é o conflito gerado pelo deslocamento (ao meu ver, o fenômeno ocorre em dois momentos tanto na saída da Índia para virar mão de obra na Ilha, como na ida para Inglaterra na  busca pelo conhecimento). Outros elementos que caracterizam o romance de formação são a assimilação (observar que muitas vezes os indianos já se comunicam em inglês dentro das famílias, muitos já internalizam o cristianismo; a miscigenação (o casamento do filho da Sra. Tulsi com uma presbiteriana, a moradia. O sonho do anti-herói de ter sua própria casa (a busca pela individualidade).
5        O contexto histórico da obra é o caribe pós-colonial e pós-escravocrata, com o advento da abolição muitos imigrantes indianos são levados para o trabalho nas colônias do império britânico.
O livro foi escrito em período do boom da literatura caribenha que se situa nos anos de 1950 e 1965 quando muitos escritores das colônias vão para Londres. É uma obra de desconstrução do império britânico.

       A posse e a propriedade

       Um tema rico em discussões e debates na área do direito são os conceitos de posse e propriedade, embora a posse tenha a aparência aparência de propriedade, ou seja, é possível por meio dela externalizar prerrogativas de proprietário, aquele que tem a posse de um imóvel e não é seu proprietário ostenta a categoria de detentor.
       O senhor Biswas não pode ser considerado detentor dos espaços que ocupa na casa (ou nas casas) da família Tulsi.  No ambiente e no seio do Clã Tulsi, ele é uma espécie de pária que vaga pelos cômodos, que ocupa espaços a contragosto e que não pode demonstrar o menor impulso de individualidade. No organismo que é o clã da família, materializado pelo Casa Hanuman quaisquer manifestações de individualidade são veemente rechaçadas.
     O conceito de lar e identidade a ele associada somente irá ser brevemente abordado na segunda parte do livro. O narrador destaca em especial a construção da memória. O narrador revela que será ali, na fragilidade de uma casa precária que serão construídos os pilares e a memória dos descendentes de Biswas.

 O anti-herói em busca de uma casa



 O “remador” não pode ser considerado um herói. Reclamão, irônico, ferino e, por fim, agressor. Agredindo verbal e fisicamente a mulher, desejando veladamente a colega do trabalho no serviço público (atraído pela representação feminina que não conheceu). Não se trata, portanto, de um herói, com qualidades superiores as de seu meio, mas justamente o oposto, é primordialmente um homem de seu meio, e seu único movimento de resistência é remar contra a corrente comunitária e feudal da sociedade indiana e buscar, por meio do desejo de uma casa, sua individualidade.


8  
      Personagens marcantes

      Biswas, Mãe de Biswas, os tios, Casa Hanumam, Shama, a Sra. Tulsi, Seth, Anandi e Savi.

    A mãe do senhor Biswas é uma mulher nula. Não se pode dela esperar nada, ela esmagada pelo peso do destino, sobre ela recaem todo o peso da ancestralidade das castas e dos preconceitos da sociedade indiana.
    Os tios de Biswas representam uma sociedade feudal na qual os parentes são cooptados como vassalos e assumem os papeis que estes determinam. Eles não estão dispostos a dividir, a permitir que os membros de sua família tenho autonomia sobre seu destino ou desenvolvam alguma potencialidade. Na verdade, eles definem os papéis que cada um deve exercer. Embora revestida da aparência de família, a estrutura se assemelha a um feudo.
     A casa Hanumam é um personagem que exprime toda as vicissitudes da sociedade indiana: a submissão das mulheres, a agressão física à mulher como traço de respeito e admiração, o abandona a higiene, o papel da mulher como circunscrito a servir o homem e a educação como privilégio apenas do homem. A casa se revela também como um empreendimento mercantil, tendo em vista seus costumes, as tradições indianas e a falta de autonomia das mulheres, os maridos são cooptados como mão de obra barata.
    Anandi , representa o próprio autor.  Por meio de Savi, no final do livro, é possível observar uma redenção das mulheres um apontamento para o futuro. Observar que a Seth se refere a Savi com “remadorazinha”, o Sr. Biswas não a percebe muito, uma vez que por ser mulher sua figura vai sendo obscurecida pela figura de Anandi, no entanto essa pequena revelação de sua personalidade faz uma boa ligação com o término da história e o papel que é possível vislumbrar para essa personagem.

      Elementos relevantes (o sexo, a dor de estomago)

      Em nenhum momento do livro é mencionado o sexo. Somente se fala dos filhos, imagino que , uma vez que a relação sexual seja um ato de intimidade, o narrador não pode alcança-la, não se é permitido esse tipo de intimidade somente é possível vislumbrarmos a consequência desse ato, que por sua própria natureza é externo e, por que não, comunitário – a gravidez, o filho.
       A violência contra a mulher como um comportamento social e louvável, revela o papel da mulher na sociedade. Interessante mencionar que em algumas dos breves momentos nos quais são mencionadas as sociedades africanas, observa-se que nelas a mulher, aparentemente, tem mais poder.
     A derrota do liberalismo por meio da desistência do Senhor Biswas de ler os livros de Samuel Smiles, a ineficácia de tal leitura naquela sociedade, na qual não seria possível vencer por seus próprios méritos, pelo esforço individual a sociedade era hostil a livre iniciativa, uma sociedade limitadora.
     A comida como um laço de escravidão e subserviência. Imagino que a dor constante de senhor biswas sempre se manifestando na “barriga” seja uma metáfora, uma metáfora para o poder, para a fome, para a miséria e para o vínculo de poder manifestado por aqueles que detém a comida, aqueles que servem (ou permitam que se sirvam os outros).
Por meio da comida é possível também destacar potencialidades e futuros: quem come ameixas e leite, estuda. A comida é um elemento tão poderoso no livro que chegar a selar destinos.


     A avaliação pessoal do livro (indico ou não indico)  x repercussão do Nobel

           A escolha de Naipaul como Nobel foi polêmica. Para o dramaturgo italiano Dario Fo se tratou de uma escolha política em sentido amplo, para Marcel Reich Rani ki critico alemão foi uma oportunidade desperdiçada e considera Naipul “um escritor de viagens” e diz que a academia deveria ter premiado em seu lugar escritores como John Updike e Philip Roth.
      Quando eu li essas criticas fiquei a pensar como se a minha resposta (o meu indico ou não indico) fosse o prêmio Nobel.... pensei em como as histórias das sociedades norte-americanas, por exemplo, são contatas e recontadas e mesmo que boa parte da civilização se esforçasse com rigor em esquece-las  se trataria de uma missão quase impossível, pois suas ideias e relatos estão contidos nos mais diversos meios: cinema, música, teatro e reverberam incessantemente por todo o mundo.
     Por outro lado, quem conta a história da dissolução do império britânico,  em uma parte remota situada em uma ilha no mar do Caribe,  e ainda através do olhar de uma sociedade indiana? Dessa maneira, acho que premiar o livro de Naipaul, indica-lo como uma leitura possível é advogar pela pluralidade em um mundo cada vez mais uníssono. Indico o autor. Não começaria necessariamente por este livro, mas sem dúvida alguma recomendaria sua obra e seu olhar. Ressalto que a indicação do livro não se dá simplesmente por ele narrar um história por vezes pouco contada, mas para além disso, por narra -la com destreza e sem maiores julgamentos, como um atento observador.