terça-feira, 9 de junho de 2015

SAMARCANDA

de Amin Maalouf
Editora Brasiliense (1991)
por Mônica Ferreira Dias
Nascido no Líbano em 1949, Amin Maalouf seguiu carreira de jornalista que lhe valeu os conhecimentos sobre Oriente Médio e norte da África, além das formações em economia e sociologia. Foi diretor do jornal An-Nahar International e redator no Jeune Afrique e, desde 1976 vive em Paris. Destina a maior parte do seu tempo à preparação dos seus livros, que quase sempre requerem uma profunda investigação histórica. Já recebeu vários prêmios, como o Prix Maison de La Presse, com a obra “As cruzadas vistas pelos árabes” e o Prémio Goncourt de 1993, com “O rochedo de tanios”.

“Samarcanda é uma muito nobre e enorme cidade, onde se encontram belos jardins e todos os frutos que o homem possa desejar. As suas gentes são cristãs e sarracenas”.
Marco Polo – Descobertas do Mundo, o Livro das Maravilhas (Tomo I)

É uma das mais antigas cidades do mundo, tendo sido fundada, aproximadamente, em 700 a.C. Foi conquistada por Alexandre, o Grande em 329 a.C., quando era conhecida sob o nome de “Marakanda”.
Foi conquistada pelos árabes em 712 e brilhou sob o império dos Samânidas. Samarcanda foi provavelmente a capital da Sogdiana até a invasão chinesa da região então conhecida como Transoxiana. Revoltados com o domínio chinês, uma coligação dos povos árabes, iranianos e turcos derrotou os chineses na batalha de Talas em 751, e capturou artesãos de papel chineses, tornando Samarcanda no primeiro centro de fabricação de papel do mundo islâmico.
O matemático, astrônomo e poeta persa Omar Khayyam (1048-1131) residiu na cidade de 1072 a 1074, antes de se instalar em Ispahan, no Irã, por convite do sultão seljúcida Malik Shah I. Em Samarcanda escreveu um tratado de álgebra.
O exército de Gengis Khan sitiou e destruiu a cidade em 1220. Marco Polo não passou por Samarcanda, pois seu itinerário para a China seguia mais ao sul, pelo Afeganistão, mas o sei pai e tio foram até Bucara pela tradicional Rota da Seda cujo prolongamento natural atravessava Samarcanda antes de chegar às montanhas do Pamir.
A curiosidade por Samarcanda foi despertada em conversas esotéricas com uma amiga que me falou reiteradas vezes desta cidade, rota de caravanas que comercializavam produtos ocidente-oriente. Profundamente interessada pela região do Oriente Médio, as poucas viagens que fiz não saciaram o interesse e mantiveram vívida uma curiosidade deste mundo longínquo que desperta meu imaginário desde a infância. Quando comprei o livro “Por que ler os contemporâneos? ”, coletânea de verbetes de 101 escritores representativos das principais tendências literárias do século 21, deparei com Amin Maalouf e sua obra Sambarcada – escrita em 1988, romance que inicia no século 11 na Pérsia, sobre a saga de um manuscrito desde 1072 até o naufrágio do Titanic em 1912. A leitura tornou-se obrigatória, dentro ou fora de nosso Clube de Leitura. Agradeço a votação que nos trouxe a este encontro.
Benjamin Omar Lesage, é o narrador desta história dividida em duas partes, a primeira protagonizada por três persas que marcaram o início do milênio passado: Omar Khayyan, sábio, poeta, matemático e astrônomo que registrou observação do cotidiano resultando em diversos ensinamentos, Nizam-el-Molk, governante enredado em guerras territoriais e de poder e, Hassan Sabbah, personalidade deturpada que conduziu a criação de um modus operandi terrorista para tomada de poder e instauração de uma nova ordem – fundador da Seita dos Assassinos.
A história destes persas que acontece no século XI, se entrelaçam nas andanças pelas cidades da Pérsia, império russo e Afeganistão. Retrata as aventuras de Omar Khayyam, cujas ideias revolucionárias sobre pensamento livre, o amor, o vinho e a vida, e que foram registradas com esmero no Rubáiyát – único exemplar do famoso Manuscrito de Samarcanda. Quando o grão-vizir Nizam-el-Molk é assassinado e a cidade passa às mãos do sultão Barkyaruk, todos no palácio foram executados pelos soldados do sultão e, o guarda-costas de Nizam, Vartan, é que vai dar a notícia da morte da esposa de Khayyam e informar que foi dado ordem de executá-lo. Vartan se oferece para executá-lo, mas sua verdadeira intenção é fugir com Khayyam tornando-se, a partir deste momento seu discípulo. É Vartan o guardião do manuscrito nas andanças que empreendem pelas cidades da Pérsia ao mesmo tempo que inicia o registro no mesmo Manuscrito da história do mesmo e também de seu autor – a infância de Khayyam em Nichapur, juventude em Samarcanda, fama em Ispahan e seus encontros com personagens: Abu-Taher, Djahane – sua ambiciosa mulher que manipulava os acontecimentos do harém em proveito próprio, Hassan, Nizam e muitos outros.
Por razões diversas, Khayyam e Djahane decidem não deixar descendentes – “ela age por excesso de ambição e ele por excesso de desapego” (pg.99).
É em 1114 quando se encontra vivendo na cidade de Merv, sob os auspícios do soberano local que seu manuscrito é roubado por enviados de Hassan e permanecerá por 100 anos em Alamut – fortaleza sobre um rochedo, reduto inacessível, onde recruta e treina seus enviados que devem executar os escolhidos dentro dos preceitos estabelecidos – “não somos assassinos, mas executores, devemos agir em público, para dar exemplo. Matamos um homem, com isso aterrorizamos cem mil” (pg. 127).
Institui uma hierarquia rígida de papéis e conduta: no topo Hassan, o grande mestre; em seguida dos dai – missionários-propagandistas; na sequencia os rafik – confrades que recebem os ensinamentos e habilitados a comandar uma fortaleza ou dirigir a organização dentro de uma cidade ou província; seguem-se os mujib – os noviços que recebem os ensinamentos e, de acordo com suas habilidades poderão se tornar confrades ou fidai – são os que se sacrificam pela causa, cujo perfil é ter grande habilidade e resistência e pouca aptidão para os ensinamentos – estes tornar-se-iam os missionários da causa. Como resistência os assassiyun[1] uma outra ordem se instaurou – Nizamiya em lealdade ao vizir assassinado Nizam, para espalhar o terror como método mas insidiosos.
Não deixa de ser um registro histórico das cidades por onde passaram os personagens – a dicotomia da população que vivia e circulava por bairros pobres e poeirentos com os emires em seus palácios suntuosos, comida farta e noitadas, das caravanas de camelos que circulavam pela Rota da Seda e dos caravançarai – local de descanso destas caravanas nas cidades do percurso da rota. As intrigas, emboscadas, guerras que parecem perpetuar-se nesta região. Esta dicotomia que insiste em permanecer até os dias atuais.
Quando Alamut é saqueada pelo exército de Gengis Khan pensou-se que o manuscrito tinha sido queimado junto com a imensa biblioteca que Hassan mantinha no local. Gengis em suas ondas de invasão arrasa as grandes cidades como Merv, Balkh, Nichapur e Rayy – berço da medicina oriental, Samarcanda, que se reergue para se tornar a capital do império de Tamerlão, Pequin, Bucara, Bagdá, Damasco, Cracóvia, dentre outras.
Do nome do narrador da história, “Omar” é uma homenagem de seus pais à Omar Khayyam, de quem são admiradores quando nos anos 1870 a onda Khayyam se alastrou de Paris para Londres. A peregrinação de Lesage que mora em Maryland/EUA inicia em 1895 quando viaja ao velho continente para passar uns dias com seu avô Charles-Hubert de Luçay em Paris, que acaba apresentando-o ao primo Victor-Henri de Rochefort-Luçay, ex-deputado, ex-ministro, personagem ilustre na comunidade política. Ele será o elo que estimulará Lesage a sair pelo mundo tentando localizar o manuscrito perdido, mantendo contato com diversos personagens como Djamaleddin, Mirza Reza, Fazel. Neste percurso, quando está em Trebizonda para encontrar-se com Mirza Reza, única pista do manuscrito, acontece o assassinato do Xá com a incriminação de Reza e, consequentemente Lesage que havia sido visto conversando com Reza. Sua fuga da Pérsia é patrocinada por Chirine que é quem acaba recuperando o manuscrito que fica em sua mesinha de cabeceira no palácio que ocupa em Tabriz.
Nesta segunda parte do livro existem diversas passagens registrando o uso das riquezas da região pelas potências europeias e russa. Os acordos perniciosos à população que não permitem a empreitada de Morgan Shuster – tesoureiro-geral da Pérsia, americano escolhido para colocar as finanças da Pérsia em dia, primeiro passo para a recuperação da independência do país. Teve dificuldades com o status quo estabelecido, pois apesar de contar com plenos poderes confiado pelo Parlamento persa, ao não se curvar aos interesses ingleses, russos, belgas e austríacos começou a instigar a ira principalmente do Czar russo que empreitou diversas missões visando retomar as relações seculares que saquearam os cofres públicos.
No meio desta intriga, Lesage e Chirine – neta do Xá do Irã, resolvem empreender uma vida conjunta nos Estados Unidos levando consigo o manuscrito. O retorno dá-se em grande estilo para a América no Titanic. Conseguem salvar suas vidas do naufrágio, mas não seu tesouro.
Não pesquisei se Hassan e sua seita existiram de fato ou são apenas uma ficção histórica. Sua estrutura de terror faz crer numa visão futurista desta última década onde o terror esteve presente em diversos locais do planeta.
Existem muitos personagens, o que exige atenção do leitor, mas este estilo que mistura registros históricos com a trama muito me agrada. Recomendo.
Concordo com o que diz Victor Necchi escreve no livro – “há uma permanente adoração não apenas à poesia e à sabedoria de Khayyam, mas ao livro como emblema do conhecimento e da preservação da cultura”.


[1] Os assassiyun são os fiéis ao Assass – fundamento da fé.

sábado, 16 de maio de 2015

Caçando Carneiros - Haruki Murakami


 by Daniela


“- A chave do mistério está na fraqueza – disse o Rato. É aí que tudo começa. Você com certeza não entenderia esta fraqueza.
- O ser humano é fraco.
- Você está generalizando – disse o Rato, fazendo as articulações dos dedos estalar. – Você não chega a lugar nenhum generalizando. Neste momento, estou lhe falando de coisas muito pessoais.
Calei-me.
-A fraqueza costuma apodrecer a gente por dentro. Feito gangrena. Eu vinha sentindo isso desde a metade da faixa dos vinte anos. Era por isso que eu vivia irritado. Você é capaz de imaginar o que é sentir-se apodrecendo gradativamente, de sentir-se assim o tempo todo?”
‘Caçando Carneiros’ foi o terceiro livro publicado do escritor japonês Haruki Murakami e o que deu início a sua carreira internacional, em 1982. O autor, nascido em 1949, hoje é publicado em mais de 50 países e vem sendo cotado para o Nobel de literatura.
‘Caçando Carneiros’ (‘A Wild Sheep Chase’, na tradução inglesa) é também o terceiro livro de uma trilogia entitulada por alguns como trilogia ‘boku’ ou trilogia do Rato, que sucede ‘Hear the Wind Sing’ (1979) e Pinball, 1973 (1980). A trilogia, sempre narrada em primeira pessoa, trata da história de dois amigos (o narrador sem nome e o Rato) da mesma cidade de Kobe, entre 1970 e 1978, em busca de significado para suas vidas desiludidas. Em japonês, a primeira pessoa pode ser utilizada formalmente (‘watashi) ou informalmente (‘boku’); e o autor utiliza o pronome informal, o que cria um efeito que não pode ser traduzido.
As 50 primeiras páginas do livro desvendam partes da memória passada e acontecimentos na rotina do narrador, que está prestes a fazer 30 anos no ano de 1978, tem um trabalho pouco desafiante com um sócio bêbado e, recém-divorciado, namora uma modelo de orelhas poderosas. A moça e suas orelhas começam a introduzir na história os elementos surreais e oníricos que vão, aos poucos, predominando na atmosfera do livro. Uma foto de carneiros em paisagem campestre enviada pelo amigo Rato, que lhe pede que seja publicada, acaba por colocar a vidinha medíocre do narrador em um outro patamar, misterioso e mitológico. Começa a busca por um carneiro incomum, com marca de estrela, nas profundezas rurais do Japão, que culmina num encontro com seu amigo Rato, recém migrado para o outro lado levando o que restou do carneiro e seu poder. O narrador fica com um cheque, sem a moça das orelhas, chorando na praia, prestes talvez a retomar sua vida monótona.
Embarcar no fim de uma trilogia é como chegar ao cinema com o filme já no meio, em muitas cenas a gente fica com cara de paisagem, sem entender as referências. O que a ‘garota que dormia com qualquer um’, que lia e fumava vorazmente, tem a ver com o resto da história? O que o Rato significa para o narrador, que tipo de amigos eles foram, o que eles viveram juntos antes? Por que o narrador tem e busca uma vida monótona?
A mitologia em volta do carneiro com uma estrela é a parte mais interessante. Qual é o significado do carneiro? O Doutor Carneiro nos conta que não era incomum nas tribos do norte da china e Mongolia a experiência de ser possuído, um carneiro entrando um corpo é uma benção dos deuses, o que supostamente teria acontecido com Genghis Khan. Murakami não parece ter a pretensão de um realismo mágico a la Garcia Marquez, a estranheza dos acontecimentos é colocada de forma crua, abrupta. Não é para acreditar, não se coloca um cenário envolvente de magia, tudo só acontece e a gente fica achando esquisito.
O carneiro parece representar uma força maligna, talvez conectada ao imperialismo japonês durante a guerra e ao ressurgimento da direita extremista no Japão contemporâneo. O Rato se recusa a servir a esse poder do carneiro e a ser imortal, talvez recusando ser parte do sistema que tirou o idealismo de sua geração, deixando-a em busca de sentido e identidade.
Apesar de alguns bons diálogos (por exemplo, ele no restaurante com a modelo de orelhas, no primeiro encontro) e um bom manejo da trama misteriosa, que prende principalmente no terço final do livro, não considero que este livro seja uma boa introdução à obra do autor.  Tomado isoladamente passa a ideia de futilidade, superficialidade; há várias cenas sem utilidade na narrativa, descrições excessivamente detalhadas de ambientes e rotinas, desdobramentos inverossímeis e pontas soltas. Como num daqueles sonhos sem sentido. A moça das orelhas e seu poder, aparentemente tão essenciais para a trama (ela antecipou o telefonema sobre o carneiro; ela escolheu o Hotel Golfinho do Doutor Carneiro; o poder dela tinha alguma coisa a ver com o tipo do poder do carneiro?),  de repente evapora da história, como atriz de novela que fica doente.
No entanto, pesquisando um pouco sobre o autor, sua obra e sobre a trilogia, aprendi que há uma legião de admiradores (e outros tantos críticos) do autor, dentro e fora do Japão. Os seguidores reconhecem elementos recorrentes em suas obras, como gatos, cerveja, ondas de nostalgia, bar de jazz, um narrador fumante meio entediado, insights filosóficos sobre o mundano; orelhas, spaghetti cozinhando, música e literatura ocidental, metáforas interessantes, boas descrições do cenário natural, reflexões sobre o desejo humano e os sentimentos; consciência da perda e questões sobre o sentido da existência.
Os comentários mais interessantes e esclarecedores sobre Haruki Murakami que encontrei estão em um blog entitulado ‘The Faint Light’, que já foi um blog voltado para literatura, até 2011, mas cujo autor hoje se declara com mais interesse no marxismo. Ele tem três longos posts sobre a política em Haruki Murakami, que são muito interessantes e valem a pena. O que segue são alguns dos comentários e explicações extraídos dos posts sobre esta trilogia.




Ainda que pareça que quase todas as obras de Murakami estejam permeadas de uma ironia pesada e uma atitude superior em relação à política, principalmente quanto  a iniciativas concretas de mudanças na sociedade, o autor do blog defende que suas primeiras obras, a trilogia em questão, deixam transparecer a consciência política do autor, forjada pela sua participação no movimento estudantil japonês em 1968, que estão como pano de fundo destes primeiros trabalhos. Tanto seus personagens quanto Murakami são profundamente marcados pelo impasse, derrota e desilusão com o movimento, pela luta em lidar com este passado e achar uma saída, o que é o ponto de partida de exploração da psique individual, característica de todo o seu trabalho. Esta trilogia, portanto, é caracterizada por um desespero pequeno-burguês e desilusão com a participação política.
No primeiro livro (Hear the Wind Sing), o narrador (estudante de biologia)  e o Rato se encontram na Universidade de Tokyo, onde ambos estudam. A narrativa acontece entre 8 e 26 de agosto de 1970, antes do semestre escolar recomeçar. Os dois frequentam o bar do ‘J’, bebem cerveja, leem, ouvem radio, saem com garotas, e não discutem em profundidade sua amizade. O Rato decide deixar a universidade e se torna um escritor, enviando uma cópia de seu mais recente romance para o amigo todo Natal. Ambos participaram do movimento estudantil e foram feridos em confrontos com a polícia, detalhes pouco explicitados na narrativa, mas que podem ser inferidos de algumas passagens. Um leitor japonês da idade de Murakami vai saber do que ele pincela em algumas passagens: o movimento estudantil se desintegrou na primavera de 1970 e durante as férias de verão os radicais tiveram que encarar a volta às aulas na ausência do movimento estudantil. O narrador e o Rato claramente perderam o idealismo e estão vivendo a realidade da desilusão.
No Segundo livro da trilogia, Pinball, 1973, o narrador está três anos adiante do primeiro livro, formado e trabalhando como tradutor em um pequena firma, com um sócio. Tornou-se um assalariado, que três anos ele abominava como ideal de vida. Torna-se obcecado por máquinas de pinball e mora com duas amigas gêmeas. O Rato voltou a sua cidade natal e progride em sua carreira de escritor. Aparentemente, o narrador e o Rato poderiam ser dois lados da mesma pessoa, ou ainda, o Rato parece viver no inconsciente do narrador, como uma memória. A vida do narrador é entediante e sem significado maior. Grande parte das memórias do narrador neste livro tratam de uma namorada (com nome, Naoko), estudante de francês que se enforca por motivos misteriosos e que vai aparecer em outro livro do autor.
Caçando Carneiros marca uma mudança de estilo e substância na obra de  Murakami, que a partir deste livro começou a se dedicar totalmente à escrita. Uma vez mais a história conecta o fim do movimento estudantil, com os problemas atuais do narrador, sua distância emocional da vida. Juntos, estes três livros representam um busca por identidade: O que sobra para indivíduo na ausência de um movimento par tornar um mundo um lugar melhor, na ausência de uma causa coletiva? A exploração que Murakami faz desta questão nestes e em seus livros posteriores leva a uma porta sem saída. De um ponto de vista político, poderíamos dizer que o individualismo de Murakami não oferece alternativa a um sistema que reduz tudo, incluindo o impulso criativo e a intimidade sexual a uma massa amorfa. Pode-se argumentar que é papel da política e não da literatura oferecer alternativas.  



domingo, 12 de abril de 2015

O Deus das Pequenas Coisas

de Arundhati Roy
Companhia das Letras, 1998
por Claudine Duarte

“Naqueles primeiros anos amorfos, em que a memória tinha apenas começado, em que a vida era cheia de Começos e sem Fins, e Tudo era Para Sempre, Esthappen e Rahel pensavam em si mesmos juntos como Eu, e separadamente, individualmente, como Nós. Como se fossem uma rara espécie de gêmeos siameses, fisicamente separados, mas com identidades conjuntas.

(...) E isso são só as pequenas coisas.”



Tristeza. Mais do que a angústia citada na contracapa. Tristeza é o sentimento que escorre pelas trezentas e poucas páginas do livro O Deus das Pequenas Coisas, primeiro romance da escritora indiana Suzanna Arundhati Roy. Publicada em 1997 coincidentemente com o aniversário de 50 anos da independência da Índia, a obra integrou a lista de best-sellers do NY Times e, bem recebida pela crítica, conferiu à autora o The Man Booker Prize.

Ayemenem, cidade da região central de Kerala, Índia, é o cenário que abriga a família dos gêmeos Esthappen e Rahel, personagens que acompanhamos de forma desprovida de ordem cronológica entre 1969, quando tem 7 anos, até o ano de 1933, quando a narrativa é interrompida. Arundhati Roy escolhe narrar a história de forma onisciente, penetrando nas casas e mentes das pessoas, marcando presença até mesmo quando descreve os gestos da mariposa que mora no coração de Rahel.

Penso no romance como um palácio de memórias, pelo qual passeamos para cima e para baixo, para frente e para trás. Guiados pela narradora em seus saltos temporais, adentramos salas, quartos e jardins povoados pelas vozes de cada personagem.

Imagino entrar numa grande sala e encontrar Baby Kochama, a solteira e amarga tia-avó de Esta e Rahel. Ali, nos contaria de seu amor por um padre irlandês e sua frustrada tentativa de ser uma freira... Talvez, com seu grande corpo espremido numa poltrona violeta, nos falasse de seu arrependimento por ter espiado e estraçalhado a vida dos que a rodeiam. Talvez. Mas talvez, simplesmente nos fitasse com a amargura dos que depositam nos outros toda a frustração de uma vida.

Ao sair da sala, nos encontramos na cozinha com Mammachi, irmã de Baby Kochama, avó dos gêmeos e proprietária da fábrica Paraíso, Picles & Polpas. Ela contaria de sua família: “Todos desrespeitavam as regras. Todos ultrapassavam territórios proibidos. Todos desafiavam as leis que determinavam quem podia ser amado e como. E quanto.” Isso nos abriria caminho para observar o injusto sistema de castas da Índia e o modo que a autora escolheu para criticar a colonização ocidental, as consequências da globalização e das conversões religiosas.

Mais alguns passos e nos encontramos com Pappachi – impecavelmente vestido com um terno de 3 peças e relógio de ouro - que, entre mariposas e borboletas desintegradas, segura um dos livros de sua coleção Tesouro dos Insetos da Índia e prenuncia sua ausência precoce, seu desconforto com mulheres que trabalham, seu humor que o leva a maltratá-las e uma profunda decepção: Como os ingleses que admirava tanto puderam lhe ser tão desleais? Sua descoberta – “A” mariposa – não levou seu nome e sim do diretor que o sucedeu no Departamento de Entomologia... E agora é um fantasma de pernas peludas no meio de sua família, descendente de cristãos sírios.

Ainda nos corredores desse palácio de memórias, conhecemos Chacko, um dos filhos de Mammachi e Pappachi, que nos fala sobre seus estudos em Oxford, onde conheceu Margareth e tiveram uma garotinha, a Sophie Mol. Segura 2 rosas e nos diz que vai busca-las no aeroporto. Está feliz e orgulhoso. Sua ex-mulher é branca e usa um vestido estampado de flores.

Ao descermos a escada nos deparamos com o corpo da pequena Sophie estirado numa das cadeiras da sala antes de seguir para seu funeral na igreja. É outro Chacko que conhecemos após o afogamento da filha. “Já então Esthappen e Rahel tinham aprendido que o mundo tem outras formas de quebrar homens”. Encontramos Mammachi. "A dor dela própria a entristecia. A dele a devastava.”

Através de uma porta trancada, escutamos Ammu contar parte de suas desventuras. Filha de Mammachi e, como ela, espancada por Pappachi e sem pretendentes, aceitou se casar com o também violento e alcoolatra Baba. Dessa união, vieram os gêmeos, Estha e Rahel. Quebrando um tabu, se divorcia e retorna para Ayemenem com os 2 filhos para novamente romper uma regra e se tornar amante de Velutha, um ‘paravan’. Sua família descobre o caso e, como punição, a exila na própria casa antes de expulsá-la, condenando que sua breve e triste vida termine longe dos próprios filhos.

Para encontrarmos Velutha, temos que sair da casa e caminharmos até a fábrica de Picles e Geléia, que Chacko, pretenso marxista, julgava sua. Talvez, na estrada passemos pela barraca em que uma geladeira vermelha nos relembre “em letras tristes TUDO VAI MELHOR COM COCA-COLA”.
Velutha, um paravan (intocável), cuida da manutenção da fábrica, numa atitude condescendente de Mammachi. É um membro do Partido Comunista Indiano e nos diz que aderiu por ser o único partido político que propõe o completo desmantelamento do sistema de castas. No entanto, pressente que seus companheiros não defenderão seu relacionamento com Ammu, demonstrando a hipocrisia dos políticos da época que fazem vista grossa ao seu brutal assassinato pelos policiais corruptos.
Da história de amor que vive com Ammu, em apenas treze noites, Velutha nos conta de pequenos atos, pequenas vidas e como as pequenas coisas podem representar momentos felizes e de esperança. “Amanhã” era a palavra que usavam para se despedir. Uma promessa de Deus das Pequenas Coisas.

Voltando à casa, novamente encontramos Baby Kochama, velha e alheia aos fatos que desencadeou com sua atitude vingativa, preenche cupons de Listerine. Poderia ganhar 2 mil rúpias... mais de 20 anos se passaram. Os gêmeos se reencontram.

No quarto ao lado – o mesmo que abrigou o exilio de Ammu, assistimos ao reencontro de seus filhos Estha e Rahel, agora com 31 anos – a primeira vez que estão juntos desde que eram crianças. Rahel estudou nos Estados Unidos, se casou e se divorciou, carregando com ela um olhar vazio em que “vários tipos de desespero disputam a primazia”. Estha, vitima de abusos na infância não nos fala nada, com palavras. Havia deixado sua voz na estação de trem ao ser Devolvido ao pai, depois de ter traído Velutha. Recusou-se a ir para a faculdade, fez trabalhos domésticos para seu pai e sua madrasta, tudo dentro de uma invisível bolha de silêncio:

“Quando a quietude chegou, foi para ficar e expandir-se dentro de Estha. Brotou de sua cabeça e o envolveu com braços pantanosos. Embalando-o ao ritmo de uma pulsação antiga, fetal. Projetou seus tentáculos com ventosas furtivas deslizando pelo interior do crânio, aspirando os picos e depressões de sua memória, deslocando velhas frases, que surrupiava da ponta da língua. Despiu seus pensamentos das palavras que os descreviam deixando-os esfolados, nus. Indizíveis. Entorpecidos. E para um observador, portanto, quase ausentes. Lentamente, ao longo dos anos, Estha foi se retirando do mundo. Acostumou-se ao inquieto polvo que vivia dentro dele e esguichava uma tinta tranquilizante sobre seu passado. Gradualmente, a razão de seu silêncio foi se escondendo, sepultada no fundo das dobras serenas do fato em si.” P. 23

“A palavra que o polvo de Estha não conseguia atingir: SIM. Não adiantava passar o aspirador de pó. Ela estava alojada ali, no fundo de alguma dobra ou sulco, como um fiapo de manga entre molares. Que não se consegue tirar.” P.42

Estha e Rahel se tocam e permanecem abraçados, “mais uma vez eles quebraram as Leis do Amor.” Vemos lágrimas. Partilham sofrimento. “Eles se conheciam antes da Vida começar.”


"Em termos puramente práticos, provavelmente seria correto afirmar que tudo começou quando Sophie Mol chegou a Ayemenem. Que apenas doze horas podem alterar a trajetória de uma vida inteira. E que, quando isso acontece, essas poucas horas, como os destroços saqueados de uma casa incendiada, o relógio calcinado, a fotografia rasgada de um momento feliz, a mobília enegrecida, podem ser ressuscitados das ruínas e examinados. Preservados. Explicados.Talvez seja verdade que as coisas podem mudar em um dia. Pequenos acontecimentos, coisas triviais, esmigalhados, reconstituídos. Revestidos de novos significados – de repente elas se tornam os descarnados de uma história... Mesmo assim, dizer que tudo começou quando Sophie Mol chegou a Ayemenem é apenas uma das maneiras possíveis de ver as coisas...
Também seria viável afirmar que tudo começou há milhares de anos. Muito antes de virem os marxistas. Antes de os britânicos tomarem Malabar, antes da Ascendência Holandesa, antes da chegada de Vasco da Gama, antes da conquista de Calicut pelos zamorin. Antes de os três bispos sírios vestidos de púrpura serem assassinados pelos portugueses e encontrados boiando no mar, com serpentes marítimas enroladas em seus peitos e ostras enredadas em suas barbas emaranhadas. Pode-se argumentar que tudo começou antes de que o cristianismo chegasse num navio e se difundisse em Kerala como o chá de um saquinho no bule.” P. 43


Gostei muito do livro, porém recomendo com restrições. Indico a leitura para quem não se incomoda com narrativas circulares. Recomendo aos que se encantam com os romances que apresentam temas complexos em múltiplas camadas, tais como incesto, loucura, abusos e transgressões sociais. Recomendo aos que gostarão de ver um encontro de História e Literatura. Recomendo com alerta para aqueles que conseguem adentrar, sem sequelas, no Coração das Trevas dos homens dito civilizados.

“O que Esthappen e Rahel testemunharam aquela manhã, embora não soubessem então, era uma demonstração clínica em condições controladas (não era guerra, afinal, nem genocídio) da busca de ascendência da natureza humana. De estrutura. De ordem. De monopólio completo. Era a História humana, mascarada em Propósito Divino, revelando-se para uma platéia de menoridade.
Não havia nada de acidental no que ocorreu aquela manhã. Nada incidental. Não era um assalto circunstancial, nem um acerto de contas pessoal. Era uma era imprimindo a si mesma naqueles que viviam nela.
A História ao vivo.
Se machucaram Velutha mais do que tencionavam, foi só porque qualquer parentesco, qualquer ligação entre eles e ele, qualquer implicação de que, pelo menos biologicamente, ele era um semelhante, tinha se rompido havia muito. Eles não estavam prendendo um homem, estavam exorcizando o medo.
(...)
Afinal, não estavam combatendo uma epidemia. Estavam apenas vacinando uma comunidade contra um levante.” P. 318