terça-feira, 9 de outubro de 2018

Memórias de Porco-Espinho

de Alain Mabanckou


Comentários de Carlos Guido Azevedo


Muito interessante e qualificado o livro de Alain Mabanckou com amplas inovações de estilo, grafia e sonoridade. O livro foi escrito em francês respeitando a sonoridade de língua falada no Congo. Não faz uso do ponto e nem inicia capítulo ou parágrafo com maiúscula.
Quebrando assim, algumas regras da linguagem escrita e inovando no estilo, a fábula se  desenvolve, cheia de pensamentos filosóficos e questionamentos humanos através da voz de um porco espinho, que segundo a tradição do Congo é um duplo animal, propriedade firmada pela tradição do Congo como característica que cada pessoa carrega que pode ser pacífico ou nocivo e que atende ao “outro ele mesmo” de cada um, numa visão muito psicanalítica do alter-ego, como as especialistas do grupo poderão explicar.
A alegoria desenvolvida por Nabanckou nas memórias do Porco-Espinho é uma prosopopeia na qual os animais pensam e falam como humanos e carregam o pior da humanidade, compreendendo suas dores e incertezas.
A confissão do Porco Espinho ao grande Baobá após a morte de Kibandí do qual o porco falante era o duplo nocivo é de uma humanidade sem precedente, com claras alusões ao remorso pela sequência de assassinatos do qual ele julga ter participado, obrigado pela sua condição de duplo nocivo, porque, ao fim e ao cabo, era obrigado a suprir a fome de sangue do outro ele mesmo de Kibandí.
Relata sua formação no bando de porcos-espinhos e a marcação constante que o porco mestre lhe aplicava, talvez já soubesse que estaria talhado para ser duplo nocivo e lhe transmitia lições que viriam a ser úteis para sua vida isolada. Dizia o mestre para que ele viesse a aceitar seu destino: "de tanto esperar uma condição melhor, o sapo ficou sem rabo para toda a eternidade”. 
“A modéstia é as vezes um obstáculo que nos impede de existir, temos de valorizar nossas próprias qualidades”. 
“Eu sou como um surdo que corre até perder o fôlego. Se virem um surdo correr, não façam perguntas, sigam-no, pois ele não escutou o perigo, ele o viu”.
Participou efetivamente, conta ele ao Baobá, de 99 assassinatos e todos realizados com perícia de mestre com o lançamento de seus espinhos mais mortíferos, e em nenhum dos casos deixou qualquer tipo de prova ou rastro que incriminasse seu original humano.
Através de sua dualidade como duplo nocivo ele descobriu a leitura e o interesse pelas grandes questões da humanidade que lhe eram passados diretamente pela mente do original humano.
Todo o desenrolar da vida de Kibandí é repassada para o Baobá na digressão do porco-espinho seu duplo animal. Nela se revela um ser rejeitado e sofredor que saiu da sua aldeia Mossaká com sua mãe, após a morte do pai e foram viver na aldeia Sêkêpembê, onde viveram como estrangeiros, sem poder participar das reuniões e festas da aldeia.
Especializado em fazer telhados, Kibandí foi um bom profissional, mas, feio como um percevejo, magro como um prego de moldura de foto, foi rejeitado por Kimanú sua pretendente e por estas e outras acabou alcoólico viciado em vinho da palma.
Seu sofrimento acabou desenvolvendo sua capacidade de desejar o mal aos outros por qualquer que fosse o motivo, desencadeando a ação do duplo nocivo para alimentar seu “outro ele mesmo” que desejava a morte de seus oponentes.
Nestas condições o porco espinho falante desenvolvia a sua missão de assassinar através do lançamento de seus espinhos mortais os inimigos de Kibandí, o que na tradição do Congo correspondia a comer o inimigo, ou seja, desejar e provocar a sua morte.
A centésima morte seria a de dois gêmeos, o que feria a tradição e a capacidade de ação do duplo nocivo e trazendo a morte do original humano do porco-espinho e por consequência a do seu duplo animal.
No entanto, está ele ali ao pé do Baobá contando a estória e se descobrindo vivo e crendo que o Ser lá de cima o quer para outras missões. Pois só por Ele é que pode acontecer isso dele estar vivo e com todo este sentimento de remorso e autocomiseração. Afinal Deus existe.

Gostei e recomendo com louvor.


quarta-feira, 19 de setembro de 2018


TERRA E CINZAS
Autor: Atiq Rahimi

Editora Estação Liberdade Ltda. - S.Paulo – 2002 (78 páginas)
Resenha em  Setembro de 2018
Ma. Virginia de Vasconcellos

 
O autor Atiq Rahimi, sem dúvida, entende de guerras. Vivenciou seus horrores cedo em sua vida. Tinha apenas 17 anos quando a União Soviética invadiu seu país (1979), o Afeganistão. E durante a guerra, nos anos 80, fugiu rumo ao Paquistão, numa jornada que durou 8 dias, a pé. No Paquistão permaneceu durante um tempo e, em seguida, refugiou-se na França onde vive até os dias de hoje.

A Wikipedia nos conta que ele é nascido em Cabul, no ano de 1962. Estudou em uma escola franco-afegã e fala fluentemente o francês, embora seu primeiro romance, publicado em 1999 – que é este TERRA E CINZAS - tenha sido escrito em Dari, língua falada no norte e noroeste do Afeganistão.

Não só é formado em Letras, mas também em Cinema. E se destacou  na produção e direção de documentários e filmes longos. Entre eles, foi diretor de um filme baseado neste conto, estreado no Brasil, em 2004. [1]

 Atiq Rahimi, a meu ver, consegue uma proeza.
Contestando o nosso Paulinho da Viola, o autor “explica a vida num samba curto”...[2]  Como explicar um grande amor num samba curto? Diz nosso poeta Paulinho.
O grande amor aqui é substituído pela grande dor, e o samba curto pelo conto TERRAS E CINZAS.

O enredo é curto sim – mínimo, um fiapo mesmo. Porém denso, e recheado de pura melancolia e sensibilidade. Rahimi relata o impacto da violência da guerra na alma e no espírito do ser humano.

Qual é esse enredo? Após a destruição de um vilarejo e de seus habitantes, um ancião sobrevivente  escapa com seu neto em direção à mina onde trabalha seu filho, pai dessa criança. Dastaguir, o avô, quer contar ao seu filho Murad sobre as perdas e compartilhar sua dor.

O narrador apresenta o personagem sofrendo suas angústias da primeira linha até o final da narrativa. Noite e dia, na vigília ou no sono, sono este carregado de pesadelos. Apenas pequenas tréguas são permitidas quando Dastaguir masca naswar, o tabaco com narcótico. Pra piorar, o neto ficou surdo, numa simbologia que parece dizer que a guerra silencia o mundo dos infantes.

Além de padecer com os fatos trágicos ocorridos, Dastaguir teme pela dor que vai causar ao filho ao lhe contar sobre a desgraça na família.

Na caminhada rumo à mina, ele vai encontrando os outros personagens.
Com exceção da mulher de Murad, que é uma imagem fugaz, é um cenário onde só aparecem homens. Alguns com atitude solidária como Mirza Kadir, mas sempre num tom de mágoa contida. No texto não  cabe o senso de humor, nem o feminino. É um ambiente onde “os mortos são mais felizes que os vivos” (pag. 38); pois, “a guerra não tem coração” (pag40).

Por fim, surge o contramestre da mina, que com seus dizeres, faz Dastaguir explodir em dor pungente e avassaladora.[3]

O final do conto fica em aberto. Será que Murad vai ao encontro de Dastaguir?
Ele chora e diz pra si: “Se ele vier te procurar você reconhece seu filho Murad. Se não, é porque você não tem mais Murad algum” (pag. 77). E deixa o ancião em perene agonia.

O estilo é fluido, poético e de fácil leitura. Sem cair no sentimentalismo. Os detalhes de roupas, objetos e paisagem não importam muito. O que conta é o sofrimento que não desaparece – até o final da narrativa – narrativa esta que o autor parece fazer questão de deixar sem fecho. Pra frisar que é uma dor que não passa - nunca.

Concordo com os que dizem que esse conto é um PANFLETO ANTI-GUERRA.
A mensagem parece evidente e clara, mostrando que a destruição de fora pode ser monstruosa, mas a de dentro, a devastação no coração e na alma dos atingidos, pode ser incessante e eterna.[4]

Embora essa mensagem seja valorosa e fundamental, é difícil recomendar esse livro.
Porque este conto é como SOL DE INVERNO: “ilumina, mas não aquece”. [5] Como explica o dito popular...
Não deixa esperança nem leveza. O horror da  guerra rouba qualquer possibilidade de diversão.

E inserindo no contexto no qual vivemos, na chamada “sociedade do espetáculo”, de super- valorização do entretenimento, um texto como esse não me deixa cantar o samba do Paulinho da Viola até o fim. Um samba que termina assim:

“Ontem uma rocha fria,  hoje assim exposto, deixando sem medo entrar a vida......
“Rumo ao futuro, certo de meu coração mais puro.....

Esse conto não permite a vida sem medo e nem meu coração mais puro - rumo ao futuro.
 


[1] Em entrevista à Folha de S.Paulo, em 2004,  o autor afirma que  “O livro é íntimo demais, interiorizado. Minha ideia foi ir além dele”. 
[2] NUM SAMBA CURTO – Paulinho da Viola “Quem quiser que pense um pouco, eu não posso explicar meus encontros. Ninguém pode explicar a vida num samba curto”
[3] “A dor se transforma em bomba dentro do peito, uma bomba que explode num belo dia e te faz explodir também” (pag 30.); “Agora tua tristeza tomou forma, ela se transformou em bomba, ela vai explodir, ela vai te fazer explodir” (pag 73).
[4] Associar com o personagem que se torna terrorista no livro “Cicatriz de David” de Susan ABULHAWA lido pelo grupo em 2015, e também com o livro do Conrad – “O senhor das trevas” – que trata do “opressor de plantão” – no caso, o colonizador, também lido pelo grupo.
[5] Dito popular: “Conselho de velho é igual a Sol de inverno, ilumina, mas não aquece”

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

Terra e Cinzas


de Atiq Rahimi

Comentários de Carlos Guido Azevedo
Enredo:
Os aviões russos destruíram mais uma aldeia afegã, dessas tantas que ouvimos no noticiário sem prestar atenção ao seu nome complicado e ao número de vítimas civis.
Mas nesta aldeia mora a família de Dastaguir que assiste estupefato a destruição de tudo ao redor, vê sua mulher, sua nora e os demais da família consumidos pelo fogo e pelas bombas, salvos apenas o próprio e o neto Yassin. Não há mais nada a fazer além de ir ao encontro do filho Mourad que trabalha na mina para dar a triste notícia e mostrar seu filho sobrevivente, embora surdo pelo troar das bombas.
Dastaguir tem um problema de como contar a Mourad essa triste realidade, tem medo da brusca reação dele pelo seu gênio violento. Já chegou a passar seis meses preso por ter aberto a cabeça do vizinho Yagoub Shab que tentara seduzir sua mulher.
Agora Dastaguir vai para a mina e se concentra em busca da frase perfeita para falar ao filho. É um duelo entre a lógica e a emoção. Evidentemente, nenhuma frase é bastante boa para explicar o inexplicável.
Dastaguir chega à mina e tenso, pede ao capataz que o leve ao filho, mas ele está na hora de trabalho. É informado que o filho já soube do ocorrido.
Esta informação cai como um raio sobre Dastaguir que esperava um comportamento radical do filho em defesa da família, esperava que ele fosse à aldeia enterrar seus entes queridos e nada disso aconteceu. Grande decepção de vida. Grande perda emocional. O filho não é quem ele pensava que era. Não é seu filho. Não merece mais sua atenção.  Por mais que seja informado dos atos de revolta e de autodestruição do filho. Por mais que lhe sejam contados os atos de loucura e o esforço do capataz para fazer o filho voltar à razão e retornar ao trabalho, nada disso faz mais sentido para Dastaguir, que resolve ir embora sem esperar seu filho. Ele já não é mais seu filho.
Comentários:
Um texto espetacular, desenvolvido de modo seco e direto com um PV onisciente, com visão de palco como se fora uma peça de teatro onde o dramaturgo descreve a cena, sempre crua, seca e simples, os diálogos que são poucos e densos e os próprios pensamentos dos personagens.
Tem como tema central a tragédia do Afeganistão durante uma das tantas guerras que esse povo vem sofrendo, dando relevância à inquebrantável coesão familiar e a dureza do coração do povo afegão em relação à ausência de flexibilidade quanto aos seus valores e comportamentos sociais e familiares.
O espaço tempo em que se desenvolve a trama é de uma simplicidade franciscana e abre o vazio a ser preenchido com o conflito psicológico e o tratamento da dor e do ódio naturais nesse ambiente conflagrado.
A formação do enredo é lenta e feita através dos pensamentos de Dastaguir que rememora aos poucos o circo de horror dos bombardeios a destruição da vila e a morte dos seus familiares.
A relação avô e neto é uma sub trama que dá emoção ao texto, no geral, muito seco e triste.
Os poucos diálogos do enredo são quase monólogos porque o outro está quase sempre ausente em seus próprios pensamentos. O comerciante Mirza Qadir é um oásis de bom senso neste ambiente de loucura e acaba sendo um apoio para abrigar, por algumas horas Yassin,  para evitar que ele, surdo pelos bombardeios e, em sua inocência, acreditando que os russos roubaram a voz das pessoas, esteja presente no momento do traumático encontro com o pai.
Nele o comerciante descreve o processo de formação da dor no interior de cada um:
“Sabes uma coisa paizinho, a dor acaba por fundir e sair pelos olhos, ou torna-se afiada como uma lâmina e sai pela boca, ou então, transforma-se numa bomba dentro de nós, uma bomba que explodirá em belo dia e te fará explodir a ti...”.
No geral, o andamento do enredo obedece fielmente à descrição da jornada de Dastaguir até o clímax de sua perplexidade com o fato de seu filho já ter sido informado do ocorrido e não ter tomado as ações que sua expectativa consolidara em seu interior.
Daí a negativa suprema: “não é o meu filho, não é mais o meu filho, assim não agiria Mourad de Dastaguir. Mourad já não existe. Mourad desapareceu...”.
Para nós brasileiros o mesmo anti clímax de Juca Pirama de Gonçalves Dias:  "Tu choraste em presença da morte? Na presença de estranhos choraste? Não descende o cobarde do forte; Pois choraste, meu filho não és! Possas tu, descendente maldito, De uma tribo de nobres guerreiros, Implorando cruéis forasteiros, Seres presa de vis Aimorés.”
Relevante quando o velho trôpego e fora de sí, sai da mina e, tendo deixado sua caixa de naswar para o filho como prova de vida, apanha uma pitada de terra cinzenta e a deposita na língua, como última cena do enredo.

Gostei muito. Bom conhecer bons escritores.
Recomendo, sem restrições.