terça-feira, 15 de setembro de 2015

NÚMERO ZERO


de Umberto Eco

 por Priscila Fernandes Costa
            Número Zero, último romance de Humberto Eco se passa na Itália, na cidade de Milão, no ano de 1992. Tem como tema central o impacto do mau jornalismo na opinião pública. O título do livro refere-se a uma prática nada incomum no meio jornalístico. Trata-se de uma edição teste, de circulação limitada, de uma publicação – revista ou jornal - que ainda está por ser lançada, com o intuito de ver a aceitação do público em relação a tal veículo. 
            O livro trata, então, da redação imaginária de um jornal de nome “O Amanhã” que não se sabe se irá entrar em circulação de fato, mas que tem como objetivo desinformar, difamar, chantagear, manipular, elaborar dossiês e documentação secreta e prestar serviços duvidosos a certo Comendador (Vimercate é seu nome) que “quer entrar para o clube de elite das finanças, dos bancos e, quem sabe, dos grandes jornais”.
            O diretor do jornal é Simei, um jornalista sem escrúpulos, contratado diretamente pelo Comendador e encarregado de montar uma equipe de redatores que ficará responsável pela confecção das matérias. Além do periódico, Simei tem a intenção de “escrever” um livro sobre os bastidores do jornal que já nasce comprado e corrompido. O livro teria como título “Amanhã: ontem”. O primeiro a ser contratado é Colonna, que deverá atuar como assistente de Simei, e é quem narra história em primeira pessoa. Enquanto assistente de direção,  terá como tarefa revisar todos os artigos dos colegas, e, ao mesmo tempo, ficará incumbido de escrever o livro de memórias de Simei.  
Colonna, 50 anos, descreve a si mesmo como um grande perdedor. Nunca conseguiu terminar o curso de jornalismo e se viu, ao longo da vida, envolvido em atividades que, embora tenham lhe dado muito conhecimento e erudição, não foram suficientes para conceder-lhe a mínima notoriedade no meio jornalístico.  Escreveu somente em alguns periódicos locais, “coisas como crítica teatral para espetáculos de província e companhias itinerantes”. Trabalhou como “escritor-fantasma”, professor de alemão e durante muito tempo acalentou o sonho de escrever um livro que lhe trouxesse riqueza e glória. “Os perdedores, assim como os autodidatas, diz ele, sempre têm conhecimentos mais vastos que os vencedores, ..., o prazer da erudição é reservado aos perdedores”. Além de Simei, Colonna é o único que conhece as verdadeiras intensões do Comendador e que sabe da possibilidade do jornal nunca vir a ser publicado.  Os demais contratados são Maia Fresia, Braggadocio, Cambria, Lucidi, Palatino e Constanza.
            Maia Fresia, 28 anos, é a única mulher do grupo. Por razões familiares não pôde concluir o curso de letras. Trabalhou durante cinco anos numa revista de fofocas onde escrevia sobre a vida particular, de preferência secreta ou fantasiosa, de celebridades e sobre o mundo dos espetáculos. Aceitou se juntar ao grupo porque imaginava que seria uma oportunidade para falar de assuntos mais sérios. Descreve-se como uma pessoa curiosa com faro detetivesco. Mas seu lugar no grupo a deixa imensamente frustrada, pois continua tendo que escrever fofocas sentimentais e se responsabilizar pela sessão de horóscopos. Braggadocio a considera uma autista e entre os dois prontamente se estabelece uma antipatia mútua. Por ser mulher, é constantemente desacreditada pelos colegas da redação, à excessão de Colonna que se envolve emocionalmente com ela,  colocando-se como seu defensor e protetor.  
            Romano Braggadocio, o paranoico do grupo, trabalhou anteriormente numa revista juntamente com Simei, e se diz especializado em revelações escandalosas. A experiência de Cambria se restringiu em correr atrás de notícias de acidentes, mortes, prisões e passava as noites em delegacias e prontos-socorros. Lucidi dizia ter trabalhado em publicações de que ninguém tinha ouvido falar e por isso era olhado com desconfiança pelo grupo. Todos achavam que ele era um espião ali dentro.  Palatino tinha uma vasta experiência em semanários de jogos e passatempos. E finalmente Constanza, que trabalhou como chefe de composição em alguns jornais, mas sua especialidade caiu em desuso à medida que os jornais foram crescendo e passaram a ter muitas páginas.
            Enquanto o jornal vai sendo discutido e preparado,
Braggadocio começa a trabalhar paralelamente numa história que, espera,  poderia até se transformar em um livro. Inicia uma investigação sobre acontecimentos importantes na história política da Itália desde o final da Segunda Guerra Mundial, mais especificamente desde o assassinato de Benito Mussolini e sua amante Clara Petacci. Imaginando incríveis teorias da conspiração, defende a tese de que Mussolini teria um sósia que foi morto por partisans em abril de 1945, enquanto o Duce se mantinha escondido entre os muros do Vaticano para, em seguida, fugir para a Argentina, onde estaria aguardando o melhor momento de retornar a seu país a fim de instalar um novo poder. A pesquisa de Braggadocio reconstitui cinquenta anos de história que envolve organizações clandestinas tais como a Gladio, a Stay-behind, a loja maçônica P2, os partidos políticos intalianos, o assassinato do papa João Paulo I, a CIA, a OTAN, o Pacto de Varsóvia, os terroristas vermelhos manobrados pelos serviços secretos, a máfia, etc, com o intuito de impedir que uma revolução comunista se espalhe pela Europa e de coibir um possível ataque soviético. Tudo parece um grande delírio de uma mente paranoica até que, um dia, Braggadocio é encontrado morto, assassinado, numa estreita e perigosa rua de Milão. Colonna que tinha pleno conhecimento das pesquisas do colega, fica extremamente assustado e teme por sua vida. Dentre os fatos reunidos por Braggadocio quais poderiam deixar alguém preocupado?, se pergunta. Com certeza o colega havia tocado em pessoas poderosas e perigosas, e ele, de alguma forma, seria considerado figura indesejável por saber demais. Ao mesmo tempo, o comendador resolve cancelar o empreendimento Amanhã, considerando tratar-se de um negócio perigoso. Colonna esconde-se em seu apartamento, mas suspeita que alguém tenha entrado ali enquanto ele dormia, pois encontra, pela manhã, o registro de água fechado e ele nem sabia onde ficava o tal registro. Assustado, procura Maia, com quem vinha mantendo um relacionamento amoroso, e refugia-se em sua casa.  
            Alguns dias mais tarde Maia e ele ficam transtornados ao assistirem a um documentário da BBC sobre a Operação Gladio. Gladio foi o nome dado a uma organização clandestina constituída pelos serviços de informação italianos e pela OTAN durante a guerra fria, para contrapor-se a uma eventual invasão da Itália pela União Soviética. O documentário parecia um filme com o roteiro do Braggadocio. Muitas das revelações “fantasiadas” do colega estavam ali. Mas passado o impacto do programa de TV, Maia tranquiliza Colonna, mostrando como o documentário vem livrá-lo de qualquer possibilidade de ser considerado um perigo.
Ao final é Maia quem se mostra mais coerente e ligada na realidade da questão: “Nada mais pode nos perturbar neste país, diz ela. Desvio dos serviços de informação? Perto dos Borgia é coisa de fazer rir. Sempre fomos um povo de punhais e venenos. Estamos vacinados, seja qual for a história nova que nos contem, vamos dizer que já ouvimos coisa pior, e que talvez essa e as outras sejam falsas. O único problema sério para o bom cidadão é não pagar impostos ... afinal é sempre a mesma comilança. E amém.” (p.204)
            E ironiza: “Tesouro, vamos procurar um país onde não haja segredos e tudo ocorra à luz do dia. Entre a América Central e a do Sul existe um monte. Nada escondido, todos sabem quem pertence ao cartel das drogas, quem dirige as organizações revolucionárias, você se senta no restaurante, passa um grupo de amigos e eles apresentam um sujeito como o chefão do contrabando de armas, todo bonito, barbeado e cheiroso, com aquele tipo de camisa branca engomada que se usa por fora das calças... São países sem mistérios, tudo corre à luz do dia, a polícia afirma ser corrupta por regulamento, governo e delinquência coincidem por ditame institucional, os bancos vivem de lavagem de dinheiro...” (p.205/6) Tudo volta ao normal, Colonna recupera a paz, a auto confiança ou pelo menos a “calma desconfiança” no mundo que o rodeia. “A vida é suportável, basta contentar-se. Amanhã (...) é outro dia.”
            Humberto Eco nos brinda ainda, com um elenco de jargões jornalísticos, tais como, “Há uma queda de braço entre duas forças; O governo anuncia um pacote de sacrifícios; O tempo urge;  Estamos com água até o pescoço; Estamos no olho do furacão;  Fazer omelete sem quebrar os ovos; Centro de gravidade do poder”, entre outros..
Lança também algumas frases de efeito tipo: “A questão é que os jornais não são feitos para divulgar, mas para encobrir as notícias. Não são as notícias que fazem o jornal, e sim o jornal que faz as notícias. Saber pôr juntas quatro notícias diferentes significa propor ao leitor uma quinta notícia. Atenção: fazer notícia é uma boa expressão, notícia quem faz somos nós, e é preciso fazer a notícia brotar das entrelinhas. É sempre melhor limitar-se a insinuar. Insinuar não significa dizer algo preciso, serve só para lançar uma sombra de suspeita. Não devemos criar complexos de inferioridade no público. Se o assunto é irrelevante ou preocupante demais, derrubamos a matéria. As pessoas de bem vão continuar votando nos canalhas porque não acreditarão na BBC ou porque estarão grudados em algo mais trash”. 
Com certeza este não é dos melhores livros de Humberto Eco, mas permite uma leitura divertida. Em sua crítica cínica à imprensa sensacionalista e ao Estado corrupto e ineficiente, o autor faz um retrato da situação sócio-política da Itália na qual assistimos a um empobrecimento moral da sociedade que parece se mostrar passiva diante dos escândalos de corrupção.
            Em uma entrevista à revista L’Expresso o autor afirma que sua intenção não foi escrever um tratado  de jornalismo, “mas contar uma história sobre os limites da informação, e sobre como funciona uma máquina de difamação” apoiada num veículo de comunicação. Para ele,  1992 constitui um marco na história política italiana. Foi quando nasceu a operação “Mãos Limpas” que trouxe esperança aos italianos; parecia que tudo mudaria e haveria um combate geral à corrupção. Com a ascensão de Berlusconi ao poder as coisas ocorreram exatamente ao contrário.
            A meu ver, Número Zero coloca em evidência, sobretudo, a questão da corrupção no mundo contemporâneo. Para além da manipulação da opinião publica feita pelos meios de comunicação em geral, nos deparamos com a prática da corrupção no cotidiano dos cidadãos, seja na Itália, na Rússia, no Brasil ou em qualquer outro lugar deste vasto mundo.
            A corrupção sempre foi endêmica entre nós, mas nos últimos anos ela foi oficialmente institucionalizada. Corromper, diferentemente de subornar, significa quebrar em pedaços, desnaturar, tornar podre. O termo vem do latim corruptus, que significa quebrado em pedaços. Enquanto fenômeno social, a corrupção não diz respeito a uma somatória de manifestações individuais, mas tem sua lógica própria, inconsciente. Na prática, pode ser definida como a utilização do poder ou da autoridade para conseguir obter vantagens pessoais e fazer uso do dinheiro público para  interesses pessoais, de um integrante da família, ou amigo, etc. Uma vez institucionalizada, a corrupção torna natural um modo de vida no qual os valores ligados à democracia são desqualificados e se tornam marginais ao sistema. Para tanto, os detentores do poder lançam mão do que em psicanálise se denomina de discurso cínico.
            Cínico é um sujeito sem escrúpulos, sem vergonha, descarado, impudico, obsceno, hipócrita, oportunista atrevido no modo de ser e viver ou atrevido quando justifica “cinicamente” um ato imoral. O cinismo pode ser expresso em palavras e atos que indicam falta de vergonha, atos e falas que denotam desprezo por tudo o que é moral-ético ou que demonstra aversão pelas convenções sociais. O efeito do cinismo é sempre o constrangimento. O cínico é aquele que aposta sempre numa lógica do pior.
            Zizek (1992) nos fala de uma produção de uma “razão cínica” em nossas época. Para ele, o cinismo contemporâneo, em primeiro lugar, não é uma postura de imoralidade aberta e franca, mas é a justificativa pública de um ato imoral como se fosse moral. Em segundo lugar, o cinismo vive sempre em discordância com tudo e com todos, e toda sua “sabedoria” consiste em legitimar a distância entre o pensar e o agir. Em outras palavras, o cinismo erigido em forma de razão cínica usa a transgressão alçada como se fosse um princípio ético: “eles sabem perfeitamente o que fazem,  no entanto o fazem, justificando seu ato imoral como sendo moral”. Neste sentido, o livro de Humberto Eco é exemplar.
Recomendo a leitura.

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terça-feira, 14 de julho de 2015

Uma Rua de Roma

de Patrick Modiano
           
por Ana Luiza Machado

"Um escritor é marcado de forma indelével por sua data de nascimento e por seu tempo, ainda que não tenha participado diretamente da ação política, mesmo que dê a impressão de ser um solitário retirado em sua 'torre de marfim'”,  Fragmento do discurso de premiação do Nobel de Literatura

Patrick Modiano nasceu em 30 de julho de 1945, filho de um judeu de Alexandria e uma belga. Os pais se conheceram durante a ocupação alemã na França e ele foi criado pelos avós e educado em um colégio interno.

Por "Rue des boutiques obscures" ele recebe o Prêmio Goncourt. Em 2014, é agraciado com o Prêmio Nobel de Literatura, pelo conjunto de seu trabalho. O autor sempre foi reconhecido pela crítica, e possui uma produção literária sólida, lançando aproximadamente um livro por ano. No entanto, nunca foi um autor de grandes tiragens, nem  na Franca nem no mundo.
O título original da obra é “A rua das lojinhas obscuras”, a versão brasileira ( Editora Rocco) apresenta o livro como “Uma rua de Roma”, uma vez que La vie delle Bottegne Oscure  efetivamente existe e na década de 1930 integrava um gueto judaico romano.

O personagem principal da trama é um detive, Guy. Narrador e personagem são apenas um. A saga é a busca por seu passado. Essa busca se materializa no livro por meio de uma série de interrogatórios insólitos por meio dos quais o personagem vai tentando reconstruir seu passado e desvendar seu presente: quem de fato ele é?

Uma análise, superficial e baseada apenas nos elementos acima apontados poderia nos induzir a classificar a obra como um romance policial, mas o que ocorre de fato, é que nosso protagonista é um detive “tímido” e a cada vez que se aproxima de uma pista mais sólida, quando seria possível conseguir mais, ele se perde ou não obtém o máximo das informações possíveis.
Nosso detective, se parece muito mais com um paciente no divã,  passeando pelos meandros de sua mente. As rua de paris e seus personagens são fragmentos de memória, as  ligações entre os personagens são tortuosas. Muitas vezes é possível perceber quão suscetível Guy é a falsas pistas. Nesse momentos ele não constrói um quebra, mas apenas atribui ou constrói uma história sobre as frágeis informações que os personagens lhe transmitem.
As ligações entre uma pista e outra são insólitas e muitas vezes o leitor se perde no emaranhado da mente de Guy. A transição entre uma pista e outra, entre um personagem e outro são pouco explicadas, ou pouco lógicas, reforçando a ideia de que passam  em um plano mental.  O aparente anseio de Guy por uma identidade é tao grande que em alguns momentos ele associa  memórias construídas por meio dos relatos a experiências sinestésicas como “a cor verde” e o “cheiro apimentado”. Esses elementos a cor e o cheiro são fluídos e poderiam se encaixar em muitos contextos, aparentemente, são os únicas memórias genuinamente vividas pelo personagem. Essa recuperação da memória através dos sentidos é involuntária ( Proust). Guy, segue as ruas de paris, como em um labirinto, e termina numa idílica ilha no Oceano Pacífico, chega ao fim sem de fato se encontrar.

Para alguns o livro pode ser caracterizado como seco, esquálido, sem grandes atributos , uma vez que o autor conduz a trama sem nos permitir aprofundar em nenhum personagem. Os personagens são todos unidimensionais, sem profundidade, são como fotografias. Não sabemos sobre seus sentimentos ou pensamentos, são apenas imagens desbotadas. No entanto, é justamente nessa aparente deficiência que se pode encontrar a virtude da obra. Por ser tão contido na abordagem dos personagens, o livro nos faz projetar sentimentos e percepções. Essas interpretações nos colocam em posição semelhante a de Guy. Estamos construindo uma versão dos fatos sobre bases frágeis e personagens esmaecidos.
É possível ainda nos questionarmos sobre a questão da memória no mundo atual. A história de Modiano encontra terreno propício em uma Europa fragmentada  e bélica, mas e se a transportássemos para os tempos atuais, seria possível nos perdermos de nós mesmos? Nos tempos atuais, é possível esquecer? E mais, uma sociedade como a nossa, cada vez mais baseada nas imagens, não estaria aos pouco reduzindo nossa "profundidade", nos transformando aos poucos em personagens unidimensionais?



Recomendo o livro, trata-se de uma obra curta e que pode ser um convite para conhecer outras obras do autor. É de se ler numa tacada só.

terça-feira, 9 de junho de 2015

SAMARCANDA

de Amin Maalouf
Editora Brasiliense (1991)
por Mônica Ferreira Dias
Nascido no Líbano em 1949, Amin Maalouf seguiu carreira de jornalista que lhe valeu os conhecimentos sobre Oriente Médio e norte da África, além das formações em economia e sociologia. Foi diretor do jornal An-Nahar International e redator no Jeune Afrique e, desde 1976 vive em Paris. Destina a maior parte do seu tempo à preparação dos seus livros, que quase sempre requerem uma profunda investigação histórica. Já recebeu vários prêmios, como o Prix Maison de La Presse, com a obra “As cruzadas vistas pelos árabes” e o Prémio Goncourt de 1993, com “O rochedo de tanios”.

“Samarcanda é uma muito nobre e enorme cidade, onde se encontram belos jardins e todos os frutos que o homem possa desejar. As suas gentes são cristãs e sarracenas”.
Marco Polo – Descobertas do Mundo, o Livro das Maravilhas (Tomo I)

É uma das mais antigas cidades do mundo, tendo sido fundada, aproximadamente, em 700 a.C. Foi conquistada por Alexandre, o Grande em 329 a.C., quando era conhecida sob o nome de “Marakanda”.
Foi conquistada pelos árabes em 712 e brilhou sob o império dos Samânidas. Samarcanda foi provavelmente a capital da Sogdiana até a invasão chinesa da região então conhecida como Transoxiana. Revoltados com o domínio chinês, uma coligação dos povos árabes, iranianos e turcos derrotou os chineses na batalha de Talas em 751, e capturou artesãos de papel chineses, tornando Samarcanda no primeiro centro de fabricação de papel do mundo islâmico.
O matemático, astrônomo e poeta persa Omar Khayyam (1048-1131) residiu na cidade de 1072 a 1074, antes de se instalar em Ispahan, no Irã, por convite do sultão seljúcida Malik Shah I. Em Samarcanda escreveu um tratado de álgebra.
O exército de Gengis Khan sitiou e destruiu a cidade em 1220. Marco Polo não passou por Samarcanda, pois seu itinerário para a China seguia mais ao sul, pelo Afeganistão, mas o sei pai e tio foram até Bucara pela tradicional Rota da Seda cujo prolongamento natural atravessava Samarcanda antes de chegar às montanhas do Pamir.
A curiosidade por Samarcanda foi despertada em conversas esotéricas com uma amiga que me falou reiteradas vezes desta cidade, rota de caravanas que comercializavam produtos ocidente-oriente. Profundamente interessada pela região do Oriente Médio, as poucas viagens que fiz não saciaram o interesse e mantiveram vívida uma curiosidade deste mundo longínquo que desperta meu imaginário desde a infância. Quando comprei o livro “Por que ler os contemporâneos? ”, coletânea de verbetes de 101 escritores representativos das principais tendências literárias do século 21, deparei com Amin Maalouf e sua obra Sambarcada – escrita em 1988, romance que inicia no século 11 na Pérsia, sobre a saga de um manuscrito desde 1072 até o naufrágio do Titanic em 1912. A leitura tornou-se obrigatória, dentro ou fora de nosso Clube de Leitura. Agradeço a votação que nos trouxe a este encontro.
Benjamin Omar Lesage, é o narrador desta história dividida em duas partes, a primeira protagonizada por três persas que marcaram o início do milênio passado: Omar Khayyan, sábio, poeta, matemático e astrônomo que registrou observação do cotidiano resultando em diversos ensinamentos, Nizam-el-Molk, governante enredado em guerras territoriais e de poder e, Hassan Sabbah, personalidade deturpada que conduziu a criação de um modus operandi terrorista para tomada de poder e instauração de uma nova ordem – fundador da Seita dos Assassinos.
A história destes persas que acontece no século XI, se entrelaçam nas andanças pelas cidades da Pérsia, império russo e Afeganistão. Retrata as aventuras de Omar Khayyam, cujas ideias revolucionárias sobre pensamento livre, o amor, o vinho e a vida, e que foram registradas com esmero no Rubáiyát – único exemplar do famoso Manuscrito de Samarcanda. Quando o grão-vizir Nizam-el-Molk é assassinado e a cidade passa às mãos do sultão Barkyaruk, todos no palácio foram executados pelos soldados do sultão e, o guarda-costas de Nizam, Vartan, é que vai dar a notícia da morte da esposa de Khayyam e informar que foi dado ordem de executá-lo. Vartan se oferece para executá-lo, mas sua verdadeira intenção é fugir com Khayyam tornando-se, a partir deste momento seu discípulo. É Vartan o guardião do manuscrito nas andanças que empreendem pelas cidades da Pérsia ao mesmo tempo que inicia o registro no mesmo Manuscrito da história do mesmo e também de seu autor – a infância de Khayyam em Nichapur, juventude em Samarcanda, fama em Ispahan e seus encontros com personagens: Abu-Taher, Djahane – sua ambiciosa mulher que manipulava os acontecimentos do harém em proveito próprio, Hassan, Nizam e muitos outros.
Por razões diversas, Khayyam e Djahane decidem não deixar descendentes – “ela age por excesso de ambição e ele por excesso de desapego” (pg.99).
É em 1114 quando se encontra vivendo na cidade de Merv, sob os auspícios do soberano local que seu manuscrito é roubado por enviados de Hassan e permanecerá por 100 anos em Alamut – fortaleza sobre um rochedo, reduto inacessível, onde recruta e treina seus enviados que devem executar os escolhidos dentro dos preceitos estabelecidos – “não somos assassinos, mas executores, devemos agir em público, para dar exemplo. Matamos um homem, com isso aterrorizamos cem mil” (pg. 127).
Institui uma hierarquia rígida de papéis e conduta: no topo Hassan, o grande mestre; em seguida dos dai – missionários-propagandistas; na sequencia os rafik – confrades que recebem os ensinamentos e habilitados a comandar uma fortaleza ou dirigir a organização dentro de uma cidade ou província; seguem-se os mujib – os noviços que recebem os ensinamentos e, de acordo com suas habilidades poderão se tornar confrades ou fidai – são os que se sacrificam pela causa, cujo perfil é ter grande habilidade e resistência e pouca aptidão para os ensinamentos – estes tornar-se-iam os missionários da causa. Como resistência os assassiyun[1] uma outra ordem se instaurou – Nizamiya em lealdade ao vizir assassinado Nizam, para espalhar o terror como método mas insidiosos.
Não deixa de ser um registro histórico das cidades por onde passaram os personagens – a dicotomia da população que vivia e circulava por bairros pobres e poeirentos com os emires em seus palácios suntuosos, comida farta e noitadas, das caravanas de camelos que circulavam pela Rota da Seda e dos caravançarai – local de descanso destas caravanas nas cidades do percurso da rota. As intrigas, emboscadas, guerras que parecem perpetuar-se nesta região. Esta dicotomia que insiste em permanecer até os dias atuais.
Quando Alamut é saqueada pelo exército de Gengis Khan pensou-se que o manuscrito tinha sido queimado junto com a imensa biblioteca que Hassan mantinha no local. Gengis em suas ondas de invasão arrasa as grandes cidades como Merv, Balkh, Nichapur e Rayy – berço da medicina oriental, Samarcanda, que se reergue para se tornar a capital do império de Tamerlão, Pequin, Bucara, Bagdá, Damasco, Cracóvia, dentre outras.
Do nome do narrador da história, “Omar” é uma homenagem de seus pais à Omar Khayyam, de quem são admiradores quando nos anos 1870 a onda Khayyam se alastrou de Paris para Londres. A peregrinação de Lesage que mora em Maryland/EUA inicia em 1895 quando viaja ao velho continente para passar uns dias com seu avô Charles-Hubert de Luçay em Paris, que acaba apresentando-o ao primo Victor-Henri de Rochefort-Luçay, ex-deputado, ex-ministro, personagem ilustre na comunidade política. Ele será o elo que estimulará Lesage a sair pelo mundo tentando localizar o manuscrito perdido, mantendo contato com diversos personagens como Djamaleddin, Mirza Reza, Fazel. Neste percurso, quando está em Trebizonda para encontrar-se com Mirza Reza, única pista do manuscrito, acontece o assassinato do Xá com a incriminação de Reza e, consequentemente Lesage que havia sido visto conversando com Reza. Sua fuga da Pérsia é patrocinada por Chirine que é quem acaba recuperando o manuscrito que fica em sua mesinha de cabeceira no palácio que ocupa em Tabriz.
Nesta segunda parte do livro existem diversas passagens registrando o uso das riquezas da região pelas potências europeias e russa. Os acordos perniciosos à população que não permitem a empreitada de Morgan Shuster – tesoureiro-geral da Pérsia, americano escolhido para colocar as finanças da Pérsia em dia, primeiro passo para a recuperação da independência do país. Teve dificuldades com o status quo estabelecido, pois apesar de contar com plenos poderes confiado pelo Parlamento persa, ao não se curvar aos interesses ingleses, russos, belgas e austríacos começou a instigar a ira principalmente do Czar russo que empreitou diversas missões visando retomar as relações seculares que saquearam os cofres públicos.
No meio desta intriga, Lesage e Chirine – neta do Xá do Irã, resolvem empreender uma vida conjunta nos Estados Unidos levando consigo o manuscrito. O retorno dá-se em grande estilo para a América no Titanic. Conseguem salvar suas vidas do naufrágio, mas não seu tesouro.
Não pesquisei se Hassan e sua seita existiram de fato ou são apenas uma ficção histórica. Sua estrutura de terror faz crer numa visão futurista desta última década onde o terror esteve presente em diversos locais do planeta.
Existem muitos personagens, o que exige atenção do leitor, mas este estilo que mistura registros históricos com a trama muito me agrada. Recomendo.
Concordo com o que diz Victor Necchi escreve no livro – “há uma permanente adoração não apenas à poesia e à sabedoria de Khayyam, mas ao livro como emblema do conhecimento e da preservação da cultura”.


[1] Os assassiyun são os fiéis ao Assass – fundamento da fé.