terça-feira, 11 de novembro de 2014

O HOMEM QUE AMAVA OS CACHORROS

de Leonardo Padura

(Primeira edição, 2013)


por Cláudia Oliveira

“(...) porque a vingança da história costuma ser mais terrível do que a do mais poderoso imperador que alguma vez existiu.” p.403

“(...) ‘a vida é bela, os sentidos celebram sua festa... Que as gerações futuras limpem a vida de todo o mal, de toda a opressão e violência, e desfrutem dele com plenitude’, acrescentou ao que escrevera, inspirado pela eclosão vital daquele instante.”  p.460



No romance histórico O Homem que Amava os Cachorros (El Hombre que Amaba a los Perros), o escritor cubano Leonardo Padura - mais conhecido pelos brasileiros por seus romances policiais que têm como personagem principal o inspetor Mario Conde - proporciona aos leitores uma incrível reflexão sobre a história da esquerda no século XX e sobre as ideologias que convenceram homens de diversas origens e classes sociais a dedicarem suas vidas à lutar por causas, muitas vezes, inglórias e falsas.

No início da obra, o leitor é avisado de que se trata de uma ficção, mas, no decorrer da leitura, não é de se espantar que este se encontre totalmente absorvido pelos fatos e personagens e acabe involuntariamente acreditando que está lendo uma biografia conjunta, em que cada indivíduo está ali para defender e contar a sua parte na história da “utopia socialista do século XX e sobre como o stalinismo perverteu essa utopia”, como definiu o autor.

A condição do autor, que escreve o livro - e vive -  em Cuba, constitui-se, por si só, uma das curiosidades que cercam este romance, uma vez que as considerações do personagem Iván revelam críticas profundas ao sistema de governo adotado na ilha caribenha. Leonardo Padura, quando perguntado se é possível ser independente onde vive, respondeu:
 “É difícil, mas é possível. Eu lutei muito por minha independência.(...) Sou, então, um cidadão que vive nessa sociedade e acho que isso me dá o direito de falar dessa sociedade, mas certas estruturas culturais ou jornalísticas preferem não comentar muito os meus livros.” Entrevista concedida ao jornalista Marcelo Lins, programa Milênio, Globo News.
o que esclarece a condição do próprio autor também como indivíduo afetado pelas desventuras do socialismo nas últimas décadas.

O livro, de 2009, foi editado no Brasil em 2013. Recebeu elogiosas críticas literárias em vários países e nas mais prestigiosas mídias. Deu ao autor diversos prêmios e dissipou qualquer dúvida que pudesse pairar sobre o seu talento como escritor. É uma obra de fôlego, que em suas quase 600 páginas não entedia o leitor. Está baseada em consistente e trabalhosa pesquisa histórica que surpreende pela acuidade e pelos detalhes históricos que causam admiração e, às vezes, choque. A narração, dividida em 30 capítulos, é alternada pelo foco nos personagens principais e conta o papel que cada um teve na história do assassinato de Trotski por um enviado de Stalin, Ramón Mercader. A exceção fica por conta do personagem Iván que, apesar de não participar dos eventos históricos, vê-se envolvido na trama em função de uma coincidência do destino.

Leon Trotski (Liev Davidovitch Bronstein) é o protagonista do romance, ao qual todos os outros personagens se ligam e quem proporciona o clímax da obra quando se cumpre o seu assassinato. Herói  (ou anti-herói?) da Revolução Russa e personagem relevante na História do século passado – embora por décadas tenha sido varrido dos arquivos soviéticos -, sua condição de algoz (quando chefe do Exército Vermelho) e vítima (das perseguições políticas que sofreu por duas décadas) fazem dele um personagem fascinante, que tanto na ficção, quanto na vida real, desperta paixões e ódios. Os tempos de exílio, ao qual foi submetido pelo governo soviético, são contados em detalhes e as consequências que as dificuldades daqueles anos impuseram às condições psicológica e física do revolucionário despertam a empatia do leitor pelo personagem.

A qualificação de pária e traidor do comunismo que carregou pelo interior da União Soviética, Turquia, França, Suíça, Noruega, México, assim como o medo e os diversos atentados sofridos, obrigam o personagem Trotski a revisar sua história de vida reconhecendo suas falhas,
“Embora nunca o tivesse confessado em público, há vários anos que Liev Davidovitch lamentava os momentos em que, no poder, permitira que a posse da força o dominasse, independentemente dos fins perseguidos. (...) Ele, como parte do aparelho de poder, também tinha contribuído para assassinar a democracia que agora, como oposição, reclamava.” p.82
e a viver constantemente a tensão da morte que o espreitava.
“Liev Davidovitch viva rodeado pela sensação de que o cerco se apertava e de que punhais e revólveres estavam cada vez mais perto de sua cabeça grisalha.” p.399
As adversidades, no entanto, não o fizeram desistir, era um homem obstinado.
“Mas o verdadeiro revolucionário começa a sê-lo quando subordina sua ambição pessoal a um ideal. Os revolucionários podem ser cultos ou ignorantes, inteligentes ou limitados, mas não podem existir sem vontade, sem devoção, sem espirito de sacrifício.(...) L.D. Trotsky.” p.81

Ramón Mercader (Jacques Monard, Frank Jacson, Roman Pavlovitch, Soldado 13, Ramón Pavlovitch López, Jaime López), um pequeno burguês espanhol arrastado pela mãe para as fileiras do movimento comunista, para a luta na Guerra Civil Espanhola e, depois, para a clandestinidade, era um inimigo desconhecido para Trotski. Foi, na juventude, atormentado pelo sentido de servir e, na velhice, atormentado pela memória do serviço. Teve uma infância tumultuada pelas adversidades às quais, junto aos irmãos, fora lançado após o fim do casamento dos pais. Doou-se orgulhosamente às trincheiras da guerra espanhola e incondicionalmente aos treinamentos que o fariam cumprir a missão que o inscreveria nas páginas dos livros de História.
“Sim, diga-lhe que sim. (...)
Nos anos de prisão, dúvidas e marginalização a que o conduziriam aquelas cinco palavras, Ramón se dedicaria muitas vezes ao desafio de imaginar o que teria acontecido com sua vida se tivesse dito que não.” p.53
Resistiu silenciosamente às adversidades nas prisões mexicanas para, já na velhice, descobrir que não passou de uma marionete, servindo aos interesses escusos do stalinismo e sendo traído até pela própria mãe. Nos últimos anos de sua vida, é capaz de fazer um balanço consciente de suas desventuras.
“Ramón sentiu o choque da comoção. Ouvir, pela boca do homem que tinha forjado com Stalin aquela operação, a confissão de que não só tinha sido usado para efetuar uma vingança como fora considerado uma peça mais do que prescindível fez afundar a última tábua de salvação que resistira à passagem daqueles anos cheios de desenganos e descobertas dolorosas”. p. 543
Os anos de cadeia, receando diariamente pela própria pele, não tinham sido o pior: as suspeitas, primeiro, e as evidências, depois, de que fora uma marionete de um plano obscuro e mesquinho tinham lhe roubado o sono mais noites do que o receio de receber uma facada de outro preso.” p.544
“(...) o que sei é que, se antes de ir para o México tivesse lido aqueles livros, acho que não o mataria... Mas você tem razão, eu era um cínico no dia em que o matei. Foi nisso que você me converteu. Fui uma marionete, um infeliz que tinha fé e acreditou naquilo que tipos como você e Caridad lhe disseram.” p. 546

Iván Cárdenas Maturell é o personagem que relembra o leitor do caráter ficcional do livro. É um escritor em conflito pela dúvida a respeito do próprio talento e pela repressão em relação ao seu trabalho. Por toda a vida, luta contra a falta de oportunidade e a restrição financeira. Conforma-se com sua condição até o encontro com o homem que amava os cachorros (título de conto de Raymond Chandler, que compunha a obra O assassino na chuva, a qual lia na primeira vez que o viu na praia de Santa María del Mar), fato que mudará a sua vida e que o tornará o narrador-personagem do livro. Um homem do povo que se vê responsável por contar parte da história do século XX e, por isso, sente-se sufocado.  Resiste à ideia desse efêmero protagonismo para depois se lançar à escrita da obra que seria a mais importante de sua vida.
“Como é possível que tenha me deixado convencer por Ana e, sobretudo, por mim mesmo e tentado escrever este livro? (...) Como fora possível que um dia, numa vida remota, pretendesse e julgasse ser escritor? E a única resposta ao meu alcance era que aquela história me perseguira porque ela própria precisava que alguém a escrevesse. E a grande filha da puta escolhera a mim.” p.514
Iván morre sob os escombros da velha casa que desaba, o que poderia ser uma metáfora para os povos que pereceram sob o jugo de estados e governantes totalitários.
“Puxei uma das cadeiras de ferro e deixei-me cair nela. À minha frente estava o fim previsível de um caminho, um desastre de ressonâncias apocalípticas, a ruína de uma casa e de uma cidade inteira, mas, sobretudo, de sonhos e vidas. Aquele monte de escombros assassinos era o mausoléu que coubera na morte ao meu amigo Iván Cárdenas Maturell, um homem bom contra o qual o destino, a vida e a história tinham se unido para destruí-lo. Seu mundo rachado desfizera-se finalmente e o devorara daquela forma absurda e terrível. O pior era saber que, de alguma forma -  de muitas formas -, o desaparecimento de Iván era também o do meu mundo e o do mundo de tanta gente que partilhou nosso espaço e nosso tempo.” p.583

As personagens femininas, embora coadjuvantes, constituem umas das partes mais interessantes do livro. Não são pessoas que entraram para os livros de História, mas que efetuaram, inegavelmente, influência sobre os protagonistas. Por vezes, ofereceram suporte, outras vezes, desestabilizaram os homens com os quais se relacionavam.
Caridad del Río, Natália Sedova, África de las Heras, Frida Kahlo, Sylvia Ageloff, Ana, Raquelita e Roquelia Mendoza são a prova de que mesmo os homens mais decididos, astutos e obstinados não podem prescindir da companhia feminina e, tampouco, prever suas atitudes.
Caridad, mãe de Ramón, personifica o fanatismo político e a frieza emocional, embora inicialmente provoque no leitor o sentimento de piedade em função das dificuldades que enfrentou por causa do marido. Revela-se, ao longo da narrativa, uma mulher cegamente dedica às suas ideologias, e que não mediu esforços para cumprir os seus propósitos. Será capaz das mais altas traições, das quais não se arrependerá.
Natália, por outro lado, é o modelo da boa companheira, aguentou todas as dificuldades do exílio ao lado do marido Trotski, sempre cuidando-o e incentivando-o, por mais que isto lhe custasse momentos de grande dor.
África, a mulher pela qual Ramón passou boa parte de sua vida apaixonado, comprova a influência que a mãe teve sobre ele (complexo de Édipo?), uma vez que a personalidade da amada se assemelhava profundamente à de Caridad.
“Parecia que Ramón estava escutando África. (...) Caridad era África, África era Caridad, e a renúncia a tudo o que tinha sido era-lhe agora como um dever (...).” p.58
“Na prisão, acompanhado pelo grito e pela cicatriz, continuara treinando seu ódio por Caridad ao culpa-la pelo fracasso de seus planos de fuga. Mas lembrou-se de que, durante os infindáveis exames psicológicos a que o tinham submetido no México, os especialistas julgaram entrever, no meio daquele ódio, a presença de uma obsessão pela figura materna que alguns deles qualificaram de complexo de Édipo.” p.568

Um dos pontos que mais chama a atenção do leitor é o desenrolar das relações familiares. É inevitável não se compadecer com os infortúnios vividos por personagens como Lenina, Luis, Pablo, Montse, Jorge, Serioja, Liova, Zina, e Sieva. A luta ideológica dos país fizeram com que os filhos não pudessem escolher seus destinos. Foram, ao que parece, as maiores vítimas da atuação política dos seus genitores. Pereceram em guerras, sofreram atentados, foram privados do convívio familiar sem que, na maioria das vezes, houvesse algum remorso por parte dos que lhes impuseram tal destino. Mesmo que o protagonista Trotski tenha-se admitido culpado pela morte dos filhos e pelas privações sofridas pelos netos, isto não foi suficiente para que escolhesse abdicar de sua luta política em função de preservar-lhes a paz.
“Era o terceiro filho que perdia (...) Liev Davidovitch estava convencido de que os remorsos nunca o deixariam em paz. A morte do rapaz, fosse por que motivo fosse, parecia mais ligada ao destino do pai que ao seu, e era uma consequência direta da vida e das ações do progenitor. (...) Que a dor se transforme em raiva, que me dê forças para continuar! Escreveu e voltou a chorar.” p. 325
No embate entre os sacrifícios pessoais e o senso de dever para com as ideologias políticas, esta última sai vitoriosa,
“Liev Davidovitch sempre pensara que as vidas de um, de dez, de cem, de mil homens podem e até devem ser devoradas se o turbilhão social assim o exigir para atingir seus fins transformadores, pois o sacrifício individual é muitas vezes a lenha que se queima na pira da revolução. (...) No processo sobre-humano da revolução não tinha cabimento pensar em tragédias pessoais”. p.73
mas os personagens não se abstém de questionar as próprias convicções.
“(...) E aquela possibilidade colocava-o perante o cerne terrível da questão; seria o marxismo apenas mais uma “ideologia”, uma espécie de falsa consciência que levava as classes oprimidas e seus partido a acreditar que lutavam pelos seus próprios objetivos quando na realidade estava, apenas beneficiando os interesses de uma nova classe governante? ... O simples fato de pensar nisso provocava-lhe uma dor intensa.” p.407

O medo é outro elemento bastante presente na obra e o pano de fundo sobre o qual se desenrola a vida dos personagens. Este sentimento desempenha o papel de combustível para as ações e reações. Aparece em várias matizes, sob as cores do medo da morte, da opressão, da fome, do fracasso, da insegurança, da crítica, da verdade ... o medo de si próprio e o medo do outro. Um medo tão grande que leva às mais radicais atitudes, mas que também pode paralisar o mais destemido dos homens. Trotski teme ser vencido por Stalin; Ramón teme falhar em sua missão; Sylvia teme perder o amor de Jacques; Natália teme a morte de seus filhos; Liova teme não corresponder às expectativas do pai; Iván teme escrever; os ex-revolucionários soviéticos temem por suas famílias; as massas temem os regimes de exceção.
“(...) o que mais o incomodava era não conseguir discernir com clareza os sentimentos, porque estava convencido de que não seria um medo comum e banal aquele que poderia paralisá-lo ou lança-lo numa corrida delatora. Tratava-se de um receio novo e mais agudo que não deixava de crescer em seu íntimo: o pavor resultante da certeza de ter perdido tudo, não só o próprio nome e o poder sobre suas decisões, mas a solidez de sua fé, a única coisa a que se agarrar.” p.493

Não está completa a análise sem mencionar a relação dos personagens com seus animais de estimação. Todos eram amantes dos cachorros, que lhes traziam momentos de descontração. Talvez por isso, o plural caísse melhor ao título da obra: Os Homens que Amavam os Cachorros. Maya, Azteca, Truco, Churro, Ix, Dax e Tato despertavam o melhor que aqueles homens podiam sentir nas difíceis situações em que se encontravam, davam-lhes um senso de normalidade dos quais eram privados. A morte do cão Churro proporciona um dos momentos mais comoventes da narrativa:
“(...) enquanto Caridad, de arma em punho mirava Churro e, sem dar tempo para o filho reagir, acertava-o na testa. O animal rodopiou, empurrado pela força do chumbo, e seu cadáver começou a congelar na alvorada fria da serra de Guadarrama.”  p.59

É repisada a discussão historiográfica sobre o alcance da influência que os indivíduos têm sobre a História Mundial. Para muitos, a responsabilidade pelos grandes eventos que marcaram a história da humanidade somente poderia ser atribuída à evolução dos acontecimentos históricos e às forças profundas da sociedade. A leitura de O Homem que Amava os Cachorros, no entanto, nos faz repensar o tema, pois afigura-se provável que as características individuais de certos homens são capazes de mudar o rumo dos acontecimentos. Pode-se argumentar que se Ramón Mercader não tivesse assassinado Trotski, outro enviado stalinista o teria feito, mas a hipótese de que poderia haver outro homem para se opor à Stalin, tão obstinado em suas convicções e carismático quanto Trotski, é improvável.

Este livro nos dá a certeza do quanto a História é fascinante e de como a sua transposição para a ficção cria o melhor dos cenários. Afinal, o que poderia ser mais interessante do que a vida real?

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segunda-feira, 10 de novembro de 2014

O Homem que Amava os Cachorros

de Leonardo Padura

comentários por Carlos Guido Azevedo

Seguramente o romance o Homem que amava os cachorros não é uma obra de ficção da literatura cubana é antes de tudo uma análise profunda sobre a evolução das principais utopias que marcaram o século XX.
A tessitura de trançar as três vidas dos principais personagens para construir o romance não é original, mas a forma como o fez Padura é absolutamente ímpar.
É que os personagens e seus destinos são conhecidos desde sempre enquanto os ambientes que a eles envolvem e que são descritos em suas realidades subterrâneas é que ganham corpo com o desenvolvimento do romance.
Neles o leito se banha ao acompanhar a lavagem desses espaços de construções míticas que enlevaram uma geração inteira e que transformou o mundo na realidade em que vivemos.
A água dessa lavagem vai escorrendo com a sujeira de cada sistema de cada luta de grupo, por hegemonia de ideias, de controle do poder, de disputas reais e imaginárias que se formam no contexto da sociedade, de grupos, de famílias e de cada indivíduo em particular.
São realidades que obrigavam as pessoas a tomarem partidos, sem lhes deixar chance de escapar, ou adiar a opção, sendo que cada um dos SIM exigidos representava compromissos para a vida toda, com o certo e com o errado, em nome de um futuro idealizado ou de utopia dominada por poucos, mas que prometia o paraíso e um futuro melhor para muitos.
Assim, cada um dos personagens vai se enredando na trilha das suas opções, o próprio Leon Trotski cujo assassinato serve de fundo para o romance, não se sustenta como o centro para o qual esperei que convergissem todas as atenções e tensões do livro.
O Ramon Mercader sob o qual se desenvolve toda a formação de um assassino, sucumbe em configurar a figura do mal e do erro, para assumir o papel de mais uma vítima da cruel realidade retratada e lavada em seus porões pelo brilhantismo do autor.
A figura que disse o SIM errado, numa circunstância de guerra, onde a vida ou a morte era questão de ocasião, mas que lhe obrigou a renunciar à própria vida, seus valores, sua família, sua vida enfim, para viver diferentes personagens em busca de atingir um alvo, com a justificativa que estaria defendendo objetivos de aparente valor universal, mas que de fato, como descobriu depois, não passava de estratégia de Stalin para reduzir as possiblidades de concorrentes ao poder supremo que sempre aspirou e que deteve pelo tempo de sua vida.
O terceiro personagem, o narrador, é mais interessante do ponto de vista da construção da narrativa, e é construída pela relação de dois jovens escritores cubanos alter ego do  Daniel e David com suas dificuldades para escrever, que vivem em crise de identidade a sofrem as agruras e decepções típicas da juventude cubana e seu atávico sonho insular de escapar da ilha.
O Ivan é quem inicia a história descrevendo o encontro com um home estranho na praia que brincava com dois galgos, ao temo em que descreve o furacão David que assola a ilha.
Ao final, sua morte por soterramento sobre os escombros de sua casa se confunde com a decadência do regime cubano. é descrita pelo seu amigo David, e se confunde como a decadência do regime cubano que complementa a elaboração do livro e faz um Réquiem, outra solução genial do Padura.
Mas, também estes personagens falam mais das polêmicas do dilema da sociedade cubana isolada, não industrializada, boicotada por seus vizinhos do que de si mesmos.
Mais uma vez a maestria do autor revela as dificuldades dos processos de transformação social, valendo-se das vidas dos seus personagens como atalhos inteligentes para mostrar os dilemas sociais do presente e suas formações no passado, demonstrando com clareza quão diferentes são os pontos de chegadas dos caminhos percorridos.
A água suja com que Padura lava a história mostra em sua suspensão como os defeitos humanos corrompem os sonhos e os ideais das utopias perseguidas por qualquer grupamento humano e como esses limitantes levam a produzir resultados inesperados e muito aquém do discurso dos seus idealizadores como atestaram as realidades em que passam a viver cada um dos seus personagens.
Por fim, nada mais certo o título escolhido para o livro, porque eles de fato amavam os cachorros de diferentes maneiras. Difícil seria garantir que estes personagens, fizeram tudo o que o romance descreve e história registra, por puro amor à humanidade, como eles em vida afirmavam, porque cada um à sua maneira acreditava que a vida humana era irrelevante seja a sua própria ou dezenas, centenas e milhares, em razão da sua causa política.
    


quinta-feira, 16 de outubro de 2014

O Senhor das Moscas

de William Golding
por Priscila F. Costa

O Senhor das Moscas é o primeiro romance do poeta e escritor inglês William Golding. Escrito em 1953, foi rejeitado por uma série de editoras e depois de publicado, em 1954, não recebeu boa acolhida do público. Mas aos poucos foi ganhando espaço no universo literário e tornou-se leitura obrigatória entre jovens estudantes em vários países. Ganhou duas adaptações para o cinema: uma em 1963 e outra em 1990.
            O livro e considerado um thriller psicológico, ou ainda um romance de caráter subjetivo que tem como tema central o surgimento do mal no ser humano como algo inerente, independente da idade ou do meio social onde este vive. A história, contada por um narrador onisciente e onipresente, se passa durante da Segunda Guerra Mundial - que serve, também, como pano de fundo para o que virá acontecer - e trata da sobrevivência de um grupo de meninos na faixa de 6 a 13 anos, alunos de um colégio interno, que se veem presos em uma ilha deserta no meio do Oceano Pacífico após a queda do avião que os lavaria de volta pra casa. Passado o susto inicial, tudo parece correr bem e a alegria predomina entre o grupo: não há aulas, nem professores, nem pais, estão em plenas férias num paraíso tropical. A ilha oferece em abundância frutas e água, o que garante em parte a sobrevivência dos meninos, e alguns deles tentam se organizar para construir abrigos que os protejam das tempestades e lhes deem uma relativa segurança durante a noite.
 A história se desenvolve, principalmente, em torno de seis personagens: Ralph, Jack, Porquinho, Simon e os gêmeos Sam e Eric.  Ralph é eleito o líder do grupo e por sugestão de Porquinho convence aos demais da necessidade de se manter sempre acesa uma fogueira no alto da montanha para avisar os possíveis socorristas de suas presenças na ilha. Imbuído de um espírito democrático, Ralph preocupa-se com o bem estar do grupo e procura tomar decisões que sejam melhor para todos. Divide as tarefas e estabelece objetivos para os demais; Adota a concha como símbolo de igualdade e de ordem e tenta colocar em prática regras cotidianas, com comportamentos socialmente esperados e com padrões éticos e morais aceitáveis. Mas acaba se dando conta que nem todos os elementos do grupo possuem a mesma motivação. Porquinho, um menino gordinho, inseguro, míope e asmático, que desde o início é ridicularizado pelos colegas e rejeitado por Jack, é, de fato, o mais inteligente do grupo. Capaz de agir e pensar de maneira lógica, se torna a inteligência por trás das decisões de Ralph. Jack, um garoto belicoso e provocador, logo se mostra um oponente obstinado às decisões do líder Ralph. Não quer passar o tempo construindo abrigos, pois prefere caçar os porcos que habitam a ilha para que possam ter carne para se alimentar. Forma em torno de si o grupo dos caçadores. Simon é um tipo bom companheiro, prestativo, e que tem necessidade constante de verificar a veracidade dos fatos; quando se vê tomado por grande tensão psíquica, em função do medo e do alto grau de agressividade no grupo, desenvolve visões alucinatórias de caráter místico. Sam e Eric juntos fazem um só. Pensam e agem de maneira idêntica, seguem à risca as determinações do líder – seja ele Ralph ou Jack; não emitem opinião própria e tendem a seguir a maioria.
            Com o desenrolar da história a tensão cresce entre os garotos. O grupo se divide: a maioria segue Jack que então se opõe abertamente à liderança de Ralph e institui pra si o papel de líder cruel e controlador. Estabelece o rosto pintado como marca de pertencimento ao grupo; é esta marca que separa os selvagens dos civilizados. Jack aliena o grupo emocionalmente e diante do medo que os demais sentem, oferece-se como protetor. Ralph vai ficando cada vez mais isolado, pois apenas uma minoria fica ao seu lado, até que, finalmente, só pode contar com a companhia de Porquinho.
O medo toma conta de todos, alguns tem pesadelos à noite, e surge no grupo uma estranha sensação de estarem sendo observados por uma figura sinistra e maligna. O imaginado monstro, que nada mais é que um paraquedista que caiu nas proximidades da ilha, é visto primeiro saindo do mar e se arrastando pela praia em direção à mata densa. Tempos depois, está morto no alto da montanha com uma “capa esvoaçante” – o paraquedas inflado pelo vento - o que leva a limites quase insuportáveis a insegurança e a sensação de pânico dos meninos, sobretudo dos bem pequenos.  Jack, apesar do medo que também sente, já não acredita na possibilidade de resgate e aproveita-se dessa situação para exercer mais domínio sobre os companheiros. Tomados pelo sentimento de desamparo e “protegidos” pela pintura no rosto, só lhes resta seguir o novo líder e reagir com intensa agressividade contra os “inimigos”, isto é, contra todo aquele que não está de acordo com o grupo. Atrás das pinturas eles se sentem libertos da vergonha e das imposições sociais e dão livre expressão ao ódio e à selvageria.
            Instituem, então, a figura do Senhor das Moscas, colocando a cabeça de um porco em uma estaca de madeira que é enfiada no chão. A cabeça com os dentes arreganhados num sorriso malévolo e pingando sangue está coberta de moscas. Enquanto alegoria da figura do diabo, senhor das moscas é a tradução literal do nome hebraico Ba’al Zebub ou Belzebu. Ba’al Zebub era o deus dos filisteus e foi transformado em príncipe dos demônios por hebreus e cristãos.
 Esse ídolo macabro provoca no bando de Ralf um transe tal que eles passam a girar em torno da cabeça numa espécie de dança ritualística, repetindo de maneira ritmada: Mata o monstro! Corta a goela! Espalha o sangue! Um impulso assassino parece tomar conta dos garotos. O primeiro a ser morto pelo grupo de caçadores é Simon, que é confundido com o monstro que teria descido da montanha. Depois, Porquinho é morto e perseguem Ralph, também com o intuito de eliminá-lo. Tentam encurralá-lo e para tanto colocam fogo na mata, o que provoca uma grande queimada que chama a atenção de um navio que passava nas proximidades. Ralph consegue chegar à praia e cai aos pés de um oficial que veio ver o que estava provocando o incêndio. Porquinho tinha razão, o fogo e a fumaça eram a única forma de conseguir resgate. Ralph olha para o oficial sem dizer nada. “Por um instante teve a visão passageira do estranho encanto que sentiu naquelas praias num primeiro momento. Mas a ilha estava toda chamuscada como um pedaço de madeira morta – Simon tinha morrido – e Jack... As lágrimas começaram a correr, e Ralph foi sacudido por soluços. Entregou-se a eles pela primeira vez na ilha; espasmos violentos, trêmulos, de dor, que pareciam retorcer todo o seu corpo. Sua voz se elevava debaixo da fumaça negra diante da ruína calcinada da ilha; e, contagiados por aquela emoção, os outros meninos também começaram a soluçar sacudindo o corpo. E no meio deles, com o corpo imundo, o cabelo emaranhado e o nariz precisando ser assoado, Ralph chorava o fim da inocência, as trevas do coração humano, e a queda no abismo do amigo sincero e ajuizado chamado Porquinho.”
O livro de Golding foi escrito num momento em que o mundo ainda tentava exorcizar os horrores da Segunda Guerra Mundial. Ao relatar a selvageria que toma conta de um grupo de crianças bem nascidas e educadas segundo os finos padrões éticos e morais ingleses, o autor demonstra sua descrença na bondade humana e no senso de solidariedade com o semelhante, e desenha um retrato profundo do caráter humano e da relação entre o indivíduo e a sociedade, apontando para o aspecto maligno inerente aos homens. O mal não nasce no homem em função das condições impostos pela vida, mas faz parte de sua essência e se manifesta quando as circunstâncias assim o permitem. O mal no coração do homem faz parte de sua natureza, é-lhe natural, o que faz com que nas situações limite, sejamos todos bárbaros; o primitivismo aflora e as paixões predominam. Como diz Saramago, o homem é o único animal que mata o seu semelhante com requintes de crueldade.
Inúmeros comentários sobre o livro foram feitos com base nas teses de Thomas Hobbes, que considera que o que organiza as paixões humanas é o medo da morte. Segundo este autor, sem a presença do estado         que vem ocupar o lugar de autoridade organizadora, os homens não conseguiriam ordenar a vida social e viveriam na mais profunda barbárie – Homo homini lúpus, o homem é o lobo do homem. Daí a necessidade do Contrato Social, de um pacto que tem por objetivo proteger os mais fracos. Desta maneira surge, então, o
Estado.
Para Freud, o processo civilizatório do homem começa com um assassinato – o do pai primordial. Isto dá aos filhos a consciência de que possuem força para fazer qualquer coisa com o seu semelhante e consequentemente que cada um deles é um possível tirano. Surge, então, a necessidade de leis que permitam que a comunidade se organize e que evitem que os irmãos matem uns aos outros. As leis – simbólicas e outras – vêm regular toda a impulsividade humana – lembremo-nos dos dez mandamentos – e com isso interdita, também aquilo que é considerado o propósito da vida, a saber, a busca da felicidade, que, de certa forma, estaria relacionada com o livre realização dos desejos. Os impulsos primitivos, selvagens e maus da humanidade não desaparecem do indivíduo, mas persistem, embora em estado reprimido, no inconsciente e aguardam as oportunidades para se tornarem ativos mais uma vez. Além disso, Freud considera que nosso intelecto é algo débil e dependente de nossos instintos e afetos, e que todos nós somos compelidos a nos comportar inteligente ou estupidamente, de acordo com as ordens de nossas atitudes (emocionais) e resistências internas.
À medida que a lei falha ou deixa de existir, tais impulsos têm toda a chance de vir à tona. É isso que vemos acontecer na ilha. Ali não existem adultos, estão longe de normas, regulamentos e leis. A isto vem associar-se o medo do desconhecido e a falta de perspectiva de voltar à vida de antes. Então a violência toma corpo.
 Notemos que há um paralelismo com o que acontece nos períodos de guerra, quando a lei é, igualmente, posta de lado. As crueldades e as injustiças praticadas, bem como a manipulação dos povos são agora da alçada do Estado.  Na história da humanidade o poder é conquistado e mantido com a violência. A finalidade é subjugar o adversário, tirando-lhe a vida ou dominando-o pela escravidão. A disputa pelo poder é um dos estopins da desordem que se instala, tanto na ilha, quanto nos conflitos entre as nações. Só nos resta, então, encarar a dura verdade de que a violência é coisa humana; por mais hedionda e animalesca que seja, continua sendo humana.
O livro ilustra, ainda, todo o universo masculino. Só posso então repetir, então, o nome de um site que encontrei na internet: É LIVRO PRA MACHO. (Felipe Laredo).



terça-feira, 9 de setembro de 2014

O SORRISO DO LAGARTO

de João Ubaldo Ribeiro
Nova Fronteira, 1989

por Claudine Duarte

“Não tem nada de desilusão nem de trauma, Monteirinho. De fato, posso ter feito um pouco de literatura ainda agora, mas isso você já conhece, é apenas um jeito que eu encontrei de enfrentar a mim mesmo, é como se fosse um exercício de sobrevivência, não sei bem como, mas tenho certeza que é isso. Eu sou isso mesmo que lhe disse, sem tirar nem por. Aliás, sou pior, sou pior, eu sei que sou bem pior, tão pior que nem quero esmiuçar tudo. E ainda pior por causa da desesperança, hoje eu não tenho esperança em nada, acho que meu destino individual e nosso destino coletivo são os mais desalentadores possíveis, geralmente não aguento saber o que está acontecendo, sem ficar fora de mim e com vontade de berrar. Não é cristão não ter esperança, é como se fosse uma danação.”  (João Pedroso)



    
Em tempos de despejar votos em urnas eletrônicas e na esteira dos ecos dos movimentos que demonstraram a insatisfação popular com governantes e desgovernados, a leitura d´O Sorriso do Lagarto, do João Ubaldo, teve um tempero extra. Acompanhar os pensamentos desiludidos do João Pedroso envolvem – e revolvem – inquietações atávicas de nossos sentimentos como cidadãos brasileiros e, intrinsecamente, de seres humanos.


    No romance, Ubaldo nos presenteia com um excelente primeiro capítulo, contando com a maestria dos melhores escritores consegue apresentar alguns dos personagens que, ao longo das próximas 300 páginas, desfiarão seus temores e artimanhas pelas ruas e praias da ilha baiana de Itaparica.


    Aqui, descobrimos que João Pedroso tem um barco, uma peixaria, vários medos e angústias, muito estudo e gratidão ao destino que o levou a largar a vida de biólogo. Também somos apresentados ao “metrossexual” Ângelo Marcos Barreto, médico e político, que entre potes de cremes e colônias, empunha um incrível secador-escova importado, revive as dores de hemorroidas clandestinas e relembra seu caminho de escalada ao poder com a adesão ao partido de direita da época, a ARENA. Nessas páginas iniciais, conhecemos Ana Clara, atual e segunda esposa de Ângelo Marcos, descrita por ele como uma mulher bonita, dona de academia de ginástica para mulheres, “dondoquinha boa, das inofensivas, que conversam bem e não causam mal-estar em coquetéis” e, por ela, ao longo de uma longa conversa com sua fútil amiga Bebel, como uma mulher em processo de mudança e decidida a trair o marido, namorar outro ou, ainda, outros homens como projeto pessoal e filosofia de vida. Ainda no primeiro capítulo, por uma longa conversa de João Pedroso conhecemos Dr. Lúcio Nemésio, médico e administrador do hospital da ilha, que se mostra admirado com os nativos e sua capacidade de sobrevivência, ou seria convivência, a um sem número de vermes e parasitas.


    Nesse ponto uma pausa para contar que o autor nos brinda com erudições literárias, como por exemplo, no momento em que Ana Clara, ao decidir trair o marido, se compara a personagens marcantes como Lady Chatterley de D. H. Lawrence e a Molly, mulher do Bloom em Ulysses de James Joyce.

“Não, não, tipo Molly Bloom, escrachado mesmo, claro que sem um milionésimo da vivência de Molly, igual a ela só mesmo isso de estar aqui, espichada numa cama, pensando as coisas mais loucas a mil por hora, se bem que com pontuação e parágrafos mais decentes(...)"


    Enquanto seu marido, tem ataques megalomaníacos e igualmente eruditos:

“(...) o Secretário do Século. Não, não, não soa bem, a outra versão é bem melhor: o Administrador do Século. Melhor, muito melhor, por aí. Tinha de ter “século”, disto ele fazia questão, até porque não deixava de ser verdadeiro, sob muitos aspectos, inclusive o dinamismo. E depois, Goebbels, o grande Goebbels – ou senão Hitler, um dos dois – já recomendava esse tipo de grandiloquência, funcionava, era eficaz para empolgar as massas, é indispensável pensar grande e falar grande.”


    Ao longo dos próximos capítulos, com uma narrativa ágil e intrincada, João Ubaldo escreve na terceira pessoa tirando bastante proveito do olhar de um narrador onisciente que, em vários momentos e de forma gentil, cede seu lugar para que os personagens apresentem seus pensamentos e pontos de vista. Com seu estilo característico, o autor adota o humor, às vezes leve e muitas vezes corrosivo, em trama recheada de clichês e diálogos inteligentes, enquanto passeia com tranquilidade por temas que variam de reflexões teológicas e conflitos metafísicos a comportamentos sexuais, éticos e sociopolíticos.


    Talvez a adoção do humor seja um caldo em que fique menos intragável a leitura de um livro cujo tema central é o Mal. O Sorriso do Lagarto, pelo próprio autor “é um livro que lida com a má administração do tempo que a humanidade passa na Terra. Acho que escrevi, sim, um romance sobre o mal, que fica transparente na atitude de uma grande parte da classe dominante brasileira – ela detesta nosso país, ela detesta o que nós somos e acoberta todas as violências: a mortalidade infantil, a violência nas cidades, a miséria. Quis escrever um livro sobre o adversário que existe em cada um de nós, sobre a figura de Santanás.”


    A história se inicia na época da soalheira em Itaparica, terra natal de João Ubaldo, com o angustiante encontro de João Pedroso com um lagarto de duas caudas que sorri e o deixa arrepiado como que prenunciando algo ruim. A trama segue, cronologicamente, por quase um ano até finalizar com um límpido céu azul, típico de pós-chuva, com o lagarto ainda sorrindo amedrontadoramente. A ilha tem uma importância estrutural na obra, como espaço social e também como espaço psicológico, pois os principais personagens estão lá por situações que remetem a fugas existenciais, algo como exílios egoístas e quase distópicos. Dos moradores locais, também se depreende que o local não está livre das doenças e misérias que assolam a raça humana:

“Aqui na ilha, se morre de tudo, não tem essa conversa de que aqui não acontece certas mortes – disse Mero Doido, que desde as cinco horas estava fazendo um levantamento dos mortos ligados ao Mercado e das causas de suas mortes. – Você não diz uma doença, inclusive das mais modernas, que alguém aqui não tenha morrido. Até umas doenças que não são nem bem doenças aqui se morre, como Galo Cego, que teve uma espinha no nariz que foi virando câncer e comeu a cara dele toda e ele morreu fedendo e com a cara toda comida. Isso de uma espinha.”


    Um pequeno resumo da obra poderia conter a afirmação que a ilha abriga, temporariamente, o casal formado por Ângelo Marcos e Ana Clara. Ele, um político corrupto e bissexual, convalescendo de um câncer anal. Ela, uma entediada dondoca que resolve trair o marido com João Pedroso, de onde nasce um relacionamento recheado de cenas sensuais e os conduz a  uma forte paixão. Em paralelo, porém centralmente, uma alegoria da personificação do mal que persiste no interior dos seres humanos, presente no cínico vilão Lucio Nemésio, médico que colabora com pesquisadores estrangeiros produzindo criaturas híbridas. João Pedroso denuncia essa experiência genética e é desacreditado pelos poderosos do local não sem antes discutir sobre as fronteiras da ética e da ciência com o médico, que se revela um vilão digno de histórias maniqueístas. Lucio Nemésio representa aqueles seres que envergonham a raça humana, utilizando a evolução (evolução?) de seu conhecimento de forma amoral impingindo a semelhantes, mulheres negras, as degradantes condições de gerar filhos de macacos... as criaturas:

“Alma, novamente? O que é alma? De qualquer forma, sendo animal e não homem, a criatura, segundo os que acreditam na alma, não tem alma. E mesmo levando-se em conta esse argumento de Deus e da evolução, não há nada no projeto que contrarie, tecnicamente, Deus e a evolução, muito bem.”


“Esse negócio de consulta é outra balela supersticiosa. Ninguém devia ser consultado, ninguém entende o suficiente do assunto para orientar essas decisões. Nada é mais ridículo do que a chamada massa ignara opinar sobre o que não entende, sobrepondo-se à opinião de quem entende. É a mesma coisa que essa patifaria mediocrizante e demagógica, que é deixar estudantes e funcionários analfabetos elegerem reitores, chefes de departamento e professores. A democracia é uma farsa e você sabe muito bem disso. O que é que um presidente eleito entende dos assuntos sobre os quais decide - física nuclear, energia elétrica, transportes, agricultura, finanças públicas etc. etc. etc.?”


    Além dos personagens introduzidos no início do livro, também são destaques para a trama ficcional o Padre Monteirinho, o curandeiro Bará da Misericórdia e o pistoleiro Boaventura. 


    Bará é quem primeiro tem contato com as aberrações e as fotografa, partilhando suas preocupações éticas com o padre e depois com João Pedroso. Sua linguagem é, deslocadamente,  estruturada e muito culta como, por exemplo, quando se apresenta e fala sobre seu trabalho de curandeiro ao Padre Monteirinho:

“(...) Muito tempo decorreu antes que me desse conta da inutilidade de resistir a tais acontecimentos, mas fui obrigado a render-me à inexorabilidade do destino, ou como quer que se chame esse apelo, ao qual, se não fosse a pretensão inaudita contida em tal paráfrase, reagiria com a mesma frase do Mestre: Afasta de mim este cálice. (...) Creio em Deus, sim, porque creio no Bem. Mas creio também no Mal e que não me peçam resposta para a mais vexatória questão teológica, a meu aviso aquela que pergunta se, havendo Deus, o Bem, criado tudo, como também haverá criado o Mal?”


    Monteirinho, um depressivo padre, que dependia do isolamento e degredo que a ilha proporcionava para fugir de tentações carnais e mundanas, é transferido para outra paróquia após seu envolvimento com as denúncias de João. No final do livro, ao retornar para buscar “umas coisas”, tem um importante diálogo com Lúcio Nemésio:

“(...) O Senhor não acha terrível criar-se um híbrido do ser humano com um animal e, ainda por cima, chamar esse híbrido de ‘apenas um novo animal’?”

“- Eu vejo nesse híbrido e em outras coisas do mesmo tipo a rejeição do homem de sua semelhança com Deus. Eu vejo o poder, tantas vezes corrupto, como é no Brasil, perpetrando cada vez maiores monstruosidades e se perpetuando de forma hedionda.”


    Boaventura reforça os clichês do livro:  o matador, agora um rico fazendeiro em Goiás (precisava ser em Anápolis?), tem um romance há muitos anos com Ângelo Marcos, o marido traído, sendo os encontros entre os dois representados de forma tão quente e picantemente detalhada quanto as cenas de sexo entre João Pedroso e Ana Clara. Ao descobrir o romance, o marido traído contrata o pistoleiro, seu amante, para matar o amante da esposa... que estava grávida do amante e que, convenientemente e novelescamente, perde o bebê ao cair de uma escada durante uma briga com o marido traído. Ana Clara, ao acordar no hospital e, sabendo que abortou e constatando o “desaparecimento” de João Pedroso, enlouquece e adota a personalidade de Suzanna Fleishman, uma figura meio que alter-ego criada para, esquizofrenicamente, contar suas aventuras amorosas – seus diários como sementes de um futuro best-seller.  


    Na véspera de sua morte, João Pedroso desabafa parte de suas novas compreensões com Padre Monteirinho:

“Estive pensando que realmente esse negócio de nós acharmos que o homem é o filho dileto de Deus é de uma insolência monumental. Por essência, não somos filhos diletos de coisa nenhuma, somos o que nós nos fizermos, aquilo que fizermos de nós mesmos. (..) Acredite, Monteirinho, o lagarto vai sorrir. O homem é por definição um ser moral e, quando ele deixa de ser um ser moral, ele só pode alegar ser filho de Deus latu sensu. À imagem, mas não à semelhança. Acredite, rapaz. Ele está indiferente, o problema é nosso. Além disso, Ele é atemporal, logo todo tempo para Ele é presente, o tempo também é um problema nosso.”


    Depois da conversa com seu amigo e na espera do momento de reencontrar Ana Clara, João revela os principais pontos que abordaria no livro que pretendia escrever, a menos de duas páginas de ser baleado por Boaventura:

“(...) já traçara um plano de pesquisa bibliográfica e começara a anotar alguns temas e ideias, por enquanto desarrumadas. O poder político e econômico sobre a evolução das espécies, notadamente a humana. Se o homem controla a evolução, esta será ditada pelos que detêm o poder. O poder sabe o que é melhor para a espécie, ou sabe apenas o que é melhor para ele a curto prazo?(...) Predeterminação de aptidões. O plano do governo estabelece quotas, com base em projeções estatísticas, para preencher adequadamente as necessidades futuras de mão-de-obra. Nas economias de livre iniciativa, os pais vão estudar essas projeções e investir na feiura dos filhos com aptidões mais lucrativas. Varias maneiras de usar tudo isso para acabar de estropiar o Terceiro Mundo. Pools genéticos superiores monopolizados, como os das galinhas de granja, (...). Países ricos com gerações perfeitas e nós cheios de tudo quanto é problema de saúde geneticamente condicionado e comprando os remédios e geringonças deles para nos tratar.”


    O livro O Sorriso do Lagarto (1989) ecoa provocações de outras obras de ficção científica que tratam de manipulações genéticas, tais como A Ilha do Dr. Moreau (1896), de H.G. Wells, Admirável Mundo Novo (1932), de Aldous Huxley e Os Meninos do Brasil (1976), de Ira Levin: O que é um ser humano? Qual o seu valor? O que é moral? Até onde é eticamente viável o que é cientificamente possível? Há um limite para o desenvolvimento humano?


    Nas obras citadas acima, é possível encontrar a mesma mensagem de desesperança com a humanidade, com o que o homem faz com suas possibilidades em seu tempo presente e, consequentemente, com o seu futuro. Tal como Wells, Huxley e Levin, João Ubaldo escreveu uma história atemporal, onde constata a opção da degradação moral da humanidade pairando universalmente sobre, entre e dentro da própria humanidade. O sorriso do lagarto nos ameaça com um profundo sentimento de falta de saída ou nos alerta para adoção de outros caminhos?

   Identificação? Sim. Com os medos de João Pedroso e de Padre Monteirinho. Com a licença do Drummond: 
 
“Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
Não cantaremos o ódio porque este não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte.
Depois morreremos de medo e sobre nosso túmulos nascerão flores amarelas e medrosas.”
  
    Recomendo? Sim. Para ler sem restrições, paradoxalmente, com alguma dose de humor desesperançado e o medo disponível, à vontade.