terça-feira, 9 de agosto de 2022

A senhoria - Fiódor Dostoievski

Por Lenita Turchi


Em 1857, Dostoievski escreve ao seu editor, após o sucesso “Gente pobre “, para solicitar mais tempo e recursos para terminar “A senhoria” usando a seguinte justificativa:

“Para manter minha palavra e entregar o texto no prazo, eu me violentava e escrevia coisas tão ruins como “A senhoria”, o que me levou a mergulhar na perplexidade e na auto difamação a ponto de que, por muito tempo, não escrever nada bom e adequado. Cada um dos meus fracassos desencadeava em mim uma doença.”[1]

De fato, Gente pobre, foi considerado o primeiro romance social russo que entusiasmou desde a primeira leitura Bielinski, um dos críticos mais severos da literatura russa da época. Nasceu um novo Gogol dizem os amigos que de madrugada levam a visão do crítico para Dostoievski. Afinal, quem é esse escritor que foi capaz de aos 25 anos, escrever uma novela com tamanha compreensão da vida e do sofrimento?

Dostoievski; origem e contexto histórico

Fiódor Dostoievski é de origem nobre russa, uma nobreza sem recursos, mas que teve acesso à educação.  Dostoievski era filho de médico, alcoólatra e de uma mãe culta que amava livros, gostava de poesia e cantava. Segundo o historiador Virgil Tanasse. analisando cartas de Dostoievski para seu irmão Andrei, os pais são descritos pelo autor como “a frente do seu tempo “essa ideia de querer estar sempre entre os melhores (no sentido literal o mais elevado do tempo) foi o princípio fundamental do nosso pai e nossa mãe apesar de todos os desvios”.

A noite os pais se revezam na leitura dos grandes autores da época: Derzhavin, Jukokvi, Púnchin e Karamzin / História da Rússia, autores que fazem apologia da mãe Rússia e da aristocracia imperial. É alfabetizado pela mãe usando a Bíblia e essa religiosidade perpassa toda sua obra literária. Ao mesmo tempo é fascinado pelos contos populares que as servas da casa contavam e que mais tarde usará para construção de personagens e ambientes em seus escritos.

Desde a infância o autor é exposto a diversidade social cultural da Rússia, convive com pais letrados e servos que contam estórias místicas e lendas das diferentes regiões da Rússia. Na juventude já escritor, na condição de preso exilado, Dostoievski conhece a miséria a que era submetida o povo russo, assim como a repressão czarista aos movimentos populares que buscavam mudanças econômico socais.

Aos 18 anos ainda cursando engenharia militar escreve para seu irmão “O homem é um mistério que precisa ser elucidado. Mesmo que passemos a vida inteira isso, não devemos dizer que perdemos tempo. Estou ocupado com esse mistério porque quero ser um homem.”[2]

Em 1843 termina os estudos, promovido a subtenente e nomeado para o Departamento de Plantas da Direção de Engenharia de São Petersburgo. Trabalha, lê escreve, esbanja, é generoso e em 1844 escreve seu primeiro romance/ novela. O sucesso o introduz no mundo literário e na roda viva de festas, dívidas e promessas aos editores. Frequenta reuniões literárias e políticas e participa de sociedades secretas para discutir sobre literatura e arte. Numa destas reuniões, declama o poema de Púchin, “O campo”, que termina com a pergunta retorica “Quando ó vou ver meus amigos, o povo libertado da opressão”

A abolição da monarquia na França e a contestação dos regimes autocráticos de outros países europeus são a fonte de inspiração dos movimentos de oposição na Rússia tzarista. Os movimentos libertários, da Rússia tzarista, no período da juventude de Dostoievski, são liderados por pessoas dos segmentos médios e pobres que tiveram oportunidade de estudar e seguir carreiras administrativas. Dado a necessidade de uma elite administrativa capaz de gerir o vasto império o tzar Nicolau I, permitiu e mesmo incentivou que jovens oriundos de camadas pobres e médias a estudarem e seguir carreiras que eram exclusivas da nobreza. Os movimentos revolucionários deste período são apoiados e mesmo, em alguns casos, liderados por esses jovens educados para defender uma classe a que não pertencem.

Em abril de 1849, Dostoievski é julgado e condenado a ser fuzilado. No último momento a pena é comutada e o autor passará 10 anos na Sibéria, sendo que destes, quatro anos esteve preso e isolado tendo com possiblidade de leitura apenas a Bíblia. Segundo Virgil Tanase [3] a vida e obra do Dostoievski se confundem a tal ponto que:

“Se tivesse escrito a própria biografia, a obra poderia passar, aos olhos de quem desconhece a história de sua vida como por de seus romances. A tal ponto o herói, paradoxal e de atitudes tão surpreendentes, encontra-se as voltas com histórias tão inverossímeis que parecem inventadas. Não são. Essas histórias vão submeter o escritor a provações terríveis: para sobreviver será obrigado a visitar recantos obscuros da alma, que escondem mecanismos do comportamento humano. Uma vez ali, Dostoievski aproveita para revelá-los, conduzindo os personagens, não causa espanto que as criaturas se pareçam com o criador, tão surpreendente profundas quando roçam os mistérios da existência, tão banais no dia a dia, em que são como ele, iguais a qualquer um”.[4]

A senhoria

O conto, A senhoria, se desenvolve em torno de 3 personagens centrais sendo 2 jovens, Vassili Ordínov, Katierina, e um velho, Muri, que não se sabe se é marido protetor ou carcereiro da bela Katierina.  O conto narra a estória do jovem Vassíli Ordínov, que após a morte da mãe, se isola num quarto alugado para se dedicar aos estudos e a busca de conhecimento. Quando a casa é vendida Vassíli, sai pela cidade a esmo buscado um novo lugar para morar e nestas andanças, já nos arredores da cidade, entra numa igreja e se depara com uma bela jovem rezando de forma mística e perturbadora. 

Vassili a segue em várias ocasiões, imaginado quem seria a jovem e o velho que a acompanha, e acaba alugando um quarto no pequeno cômodo do casal.  A trama se desenvolve neste local com foco na paixão do jovem Vassili por Katierina e a aura mística e fantasiosa que a jovem Katierina traz para a relação. O autor nos deixa em suspenso sobre quem é a senhoria e as relações dela com o marido, que as vezes é visto como protetor, outras como carcereiro e finalmente como uma vítima das alucinações de Katierina. Ou seria a senhoria uma síntese do misticismo, costumes e lendas do povo russo, que nos envolve em suas visões dantescas e mantem os leitores presos as suas teias?

Embora inicialmente o conto tenha sido recebido de forma pouco entusiasta pela crítica literária da época e mesmo Dostoievski o tenha considerado pouco relevante, o conto releva a capacidade do autor de captar a natureza humana na sua complexidade e contradições assim como explorar o rico universo das crenças e tradições russas.

Recomendo com entusiasmo a leitura do conto A senhoria.



[1] Tanase, Virgil (1945). Dostoievski Biografia, 1ª edição, Editora L& PM POCKET vol 1270

[2] Correspondência de Dostoievski para seu irmão Andrei In Tanase, Virgil (1945). Dostoievski Biografia, 1ª edição, Editora L& PM POCKET vol 1270, p26

[3] Tanase, Virgil (1945). Dostoievski Biografia, 1ª edição, Editora L& PM POCKET vol 1270.

[4] Idem. p106

 

A senhoria - Fiódor Dostoievski

Por Lenita Turchi



Em 1857, Dostoievski escreve ao seu editor, após o sucesso “Gente pobre “, para solicitar mais tempo e recursos para terminar “A senhoria” usando a seguinte justificativa:

“Para manter minha palavra e entregar o texto no prazo, eu me violentava e escrevia coisas tão ruins como “A senhoria”, o que me levou a mergulhar na perplexidade e na auto difamação a ponto de que, por muito tempo, não escrever nada bom e adequado. Cada um dos meus fracassos desencadeava em mim uma doença.”[1]

De fato, Gente pobre, foi considerado o primeiro romance social russo que entusiasmou desde a primeira leitura Bielinski, um dos críticos mais severos da literatura russa da época. Nasceu um novo Gogol dizem os amigos que de madrugada levam a visão do crítico para Dostoievski. Afinal, quem é esse escritor que foi capaz de aos 25 anos, escrever uma novela com tamanha compreensão da vida e do sofrimento?

Dostoievski; origem e contexto histórico

Fiódor Dostoievski é de origem nobre russa, uma nobreza sem recursos, mas que teve acesso à educação.  Dostoievski era filho de médico, alcoólatra e de uma mãe culta que amava livros, gostava de poesia e cantava. Segundo o historiador Virgil Tanasse. analisando cartas de Dostoievski para seu irmão Andrei, os pais são descritos pelo autor como “a frente do seu tempo “essa ideia de querer estar sempre entre os melhores (no sentido literal o mais elevado do tempo) foi o princípio fundamental do nosso pai e nossa mãe apesar de todos os desvios”.

A noite os pais se revezam na leitura dos grandes autores da época: Derzhavin, Jukokvi, Púnchin e Karamzin / História da Rússia, autores que fazem apologia da mãe Rússia e da aristocracia imperial. É alfabetizado pela mãe usando a Bíblia e essa religiosidade perpassa toda sua obra literária. Ao mesmo tempo é fascinado pelos contos populares que as servas da casa contavam e que mais tarde usará para construção de personagens e ambientes em seus escritos.

Desde a infância o autor é exposto a diversidade social cultural da Rússia, convive com pais letrados e servos que contam estórias místicas e lendas das diferentes regiões da Rússia. Na juventude já escritor, na condição de preso exilado, Dostoievski conhece a miséria a que era submetida o povo russo, assim como a repressão czarista aos movimentos populares que buscavam mudanças econômico socais.

Aos 18 anos ainda cursando engenharia militar escreve para seu irmão “O homem é um mistério que precisa ser elucidado. Mesmo que passemos a vida inteira isso, não devemos dizer que perdemos tempo. Estou ocupado com esse mistério porque quero ser um homem.”[2]

Em 1843 termina os estudos, promovido a subtenente e nomeado para o Departamento de Plantas da Direção de Engenharia de São Petersburgo. Trabalha, lê escreve, esbanja, é generoso e em 1844 escreve seu primeiro romance/ novela. O sucesso o introduz no mundo literário e na roda viva de festas, dívidas e promessas aos editores. Frequenta reuniões literárias e políticas e participa de sociedades secretas para discutir sobre literatura e arte. Numa destas reuniões, declama o poema de Púchin, “O campo”, que termina com a pergunta retorica “Quando ó vou ver meus amigos, o povo libertado da opressão”

A abolição da monarquia na França e a contestação dos regimes autocráticos de outros países europeus são a fonte de inspiração dos movimentos de oposição na Rússia tzarista. Os movimentos libertários, da Rússia tzarista, no período da juventude de Dostoievski, são liderados por pessoas dos segmentos médios e pobres que tiveram oportunidade de estudar e seguir carreiras administrativas. Dado a necessidade de uma elite administrativa capaz de gerir o vasto império o tzar Nicolau I, permitiu e mesmo incentivou que jovens oriundos de camadas pobres e médias a estudarem e seguir carreiras que eram exclusivas da nobreza. Os movimentos revolucionários deste período são apoiados e mesmo, em alguns casos, liderados por esses jovens educados para defender uma classe a que não pertencem.

Em abril de 1849, Dostoievski é julgado e condenado a ser fuzilado. No último momento a pena é comutada e o autor passará 10 anos na Sibéria, sendo que destes, quatro anos esteve preso e isolado tendo com possiblidade de leitura apenas a Bíblia. Segundo Virgil Tanase [3] a vida e obra do Dostoievski se confundem a tal ponto que:

“Se tivesse escrito a própria biografia, a obra poderia passar, aos olhos de quem desconhece a história de sua vida como por de seus romances. A tal ponto o herói, paradoxal e de atitudes tão surpreendentes, encontra-se as voltas com histórias tão inverossímeis que parecem inventadas. Não são. Essas histórias vão submeter o escritor a provações terríveis: para sobreviver será obrigado a visitar recantos obscuros da alma, que escondem mecanismos do comportamento humano. Uma vez ali, Dostoievski aproveita para revelá-los, conduzindo os personagens, não causa espanto que as criaturas se pareçam com o criador, tão surpreendente profundas quando roçam os mistérios da existência, tão banais no dia a dia, em que são como ele, iguais a qualquer um”[4].

A senhoria

O conto, A Senhoria, se desenvolve em torno de 3 personagens centrais sendo 2 jovens, Vassili Ordínov, Katierina, e um velho, Muri, que não se sabe se é marido protetor ou carcereiro da bela Katierina.  O conto narra a estória do jovem Vassíli Ordínov, que após a morte da mãe, se isola num quarto alugado para se dedicar aos estudos e a busca de conhecimento. Quando a casa é vendida Vassíli, sai pela cidade a esmo buscado um novo lugar para morar e nestas andanças, já nos arredores da cidade, entra numa igreja e se depara com uma bela jovem rezando de forma mística e perturbadora. 

Vassili a segue em várias ocasiões, imaginado quem seria a jovem e o velho que a acompanha, e acaba alugando um quarto no pequeno cômodo do casal.  A trama se desenvolve neste local com foco na paixão do jovem Vassili por Katierina e a aura mística e fantasiosa que a jovem Katierina traz para a relação. O autor nos deixa em suspenso sobre quem é a senhoria e as relações dela com o marido, que as vezes é visto como protetor, outras como carcereiro e finalmente como uma vítima das alucinações de Katierina. Ou seria a senhoria uma síntese do misticismo, costumes e lendas do povo russo, que nos envolve em suas visões dantescas e mantem os leitores presos as suas teias?

Embora inicialmente o conto tenha sido recebido de forma pouco entusiasta pela crítica literária da época e mesmo Dostoievski o tenha considerado pouco relevante, o conto releva a capacidade do autor de captar a natureza humana na sua complexidade e contradições assim como explorar o rico universo das crenças e tradições russas.

Recomendo com entusiasmo a leitura do conto A senhoria.



[1] Tanase, Virgil (1945). Dostoievski Biografia, 1ª edição, Editora L& PM POCKET vol 1270

 [2] Correspondência de Dostoievski para seu irmão Andrei In Tanase, Virgil (1945). Dostoievski Biografia, 1ª edição, Editora L& PM POCKET vol 1270, p26

[3] Tanase, Virgil (1945). Dostoievski Biografia, 1ª edição, Editora L& PM POCKET vol 1270.

[4] Idem. p106

 

terça-feira, 26 de julho de 2022

O Homem - Aluísio de Azevedo


por Carlos Guido Soares Azevedo

Aluísio Azevedo nasceu em São Luís em 14 de abril de 1857, filho de David Gonçalves de Azevedo (vice-cônsul português no Brasil) e Emília Amália Pinto de Magalhães, foi romancista, jornalista, cronista, desenhista e pintor do cotidiano maranhense e era o irmão mais novo do famoso dramaturgo Artur Azevedo e se tornou um dos mais representativos escritores brasileiros ao lado de Machado de Assis, embora tão diferentes em valores e atitudes.

Embora filho de Vice-cônsul seu primeiro trabalho foi como caixeiro-viajante. Adorava pintar e desenhar, e se mudou para o Rio de Janeiro com 19 anos (onde já morava seu irmão Artur), para estudar na Escola Nacional de Belas Artes. Depois de formado, desenhou caricaturas para jornais como O Fígaro, O Mequetrefe, Zig-Zag e A Semana Ilustrada.  

Acredito que seu olhar crítico e detalhado para as pessoas e cenas que representava com seus traços de caricaturista, lhe deu o potencial para descrevê-los em seus livros e se integrar ao movimento naturalista.

A morte do pai, em 1878, fez com que voltasse a São Luís, para cuidar da família e dos negócios. Como todas as mudanças trazem consequências e sendo o Maranhão um celeiro dinâmico de literatos jovens e renovadores, participou nessa época da fundação de um jornal anticlerical e abolicionista chamado O Pensador.

Foi essa interrupção na sua profissão de caricaturista que o fez decidir iniciar sua carreira de escritor, publicando em 1880 um típico romance romântico, Uma Lágrima de Mulher.

Seu desejo de fazer da literatura um meio de vida o fez publica, no ano seguinte o primeiro romance naturalista da história do Brasil. O Mulato, no qual descreve com detalhes nunca vistos, a vida e a dinâmica de uma comunidade de escravos, suas sujeições e emoções.

No começo, pretendia com a literatura, tão somente garantir seu sustento, mas foi dominado pelo poder da escrita e passou de observador do meio social a descritor dos seus usos e costumes, com profundidade e veracidade, nunca vistas. Foi o sucesso de vendas dos seus livros que o fez assinar contrato com a Livraria Garnier, uma das mais importantes do país e se tornar o primeiro escritor brasileiro a viver de literatura.

Voltou para o Rio de Janeiro já como escritor consagrado e daí em diante escreveu ininterruptamente por 13 anos, entre 82 e 95, quando se tornou diplomata como seu pai e serviu como cônsul na Espanha, no Japão, Inglaterra, Itália e Argentina onde morreu aos 55 anos.

Seus livros eram consideradas pelos livreiros da época obscenas e, não romances experimentais, como denominavam seus escritores. “O Homem” foi taxado, por exemplo, de “erótico” e “obsceno”, fato que atraia leitores carentes de representações de sexo. A obra enfatizava os institutos femininos da personagem Magdalena diagnosticada com histeria doença de mulher carente, para a época e cujo tratamento era o sexo – “Ela precisa é de homem”. 

Sexo, além é de um tema recorrente, também é uma das premissas naturalista. A menstruação — um tabu para a época — é descrita como nunca na literatura brasileira. Cenas de adultério e de homossexualidade (à época, tida como patologia) também são abundantes, bem como a presença da prostituição e da figura da jovem virginal que acaba transformando-se em prostituta. Suas personagens são animalizadas e hiper sexualizadas, desnudadas ao longo do romance, enfatizados seus desejos, vícios e fisiologia.

Inspirado por Émile Zola e Eça de Queiroz, Aluísio Azevedo desenhou, encenou e escreveu sobre o século XIX, marcado pelo preconceito racial, hipocrisia das elites sociais, vícios e promiscuidade da população de São Luís do Maranhão, (e das demais províncias).

Suas obras caracterizavam e criticavam o provincianismo e suas ideias retrógradas e buscavam apresentar base científica sob a influência do Darwinismo (expressão máxima da natureza); Émile Zola (determinismo e expressionismo); Hipólito Taine (ser humano como máquina sujeita às leis da física e da química); Hereditariedade física e social (personagens produtos do meio biológica e social); e Postura científica (com base na ciência da época, voz de especialista) e descrições visuais, olfativas, táteis e auditivas.

A obra de Aluísio Azevedo é composta por três livros de contos, oito peças de teatro e onze romances. Uma Lágrima de Mulher (1880); O Mulato (1881); Mistérios da Tijuca, ou Girândola de Amores (1882); Memórias de um Condenado, ou A Condessa Vésper (1882); Casa de Pensão (1884); Filomena Borges (1884); O Homem (1887); O Cortiço (1890); A Coruja (1890); A Mortalha de Alzira (1894); O Livro de uma Sogra (1895);

Peças de teatro: Os Doidos (1879); Flor-de-lis (1882); Casa de Orações (1882); O Caboclo (1886); Fritz Mack (1889 — em parceria com Artur Azevedo); A República (1890); O Adultério (1891); Em Flagrante (1891).  Crônicas: O Japão — 1894).  Contos: Demônios — 1895). Pégadas (1897); O touro negro [contos, cartas e crônicas em ed. póstuma] (1938)"

Situando o autor em sua época e contextualizando sua missão pessoal de construir um sentido de brasilidade, vencer um comportamento cínico em uma sociedade que se fazia católica, mas que não seguia suas regras, com costumes e práticas sociais ultrajantes, totalmente em desacordo com a imagem que queriam transmitir.

Costumes sociais totalmente desvinculado de valores morais sérios. Ainda não tínhamos recebido a invasão da escola conservadora protestante, de modo significativo e o mundo católico se dedicava à devoção formal e à vida de aparência pudica e castradora das famílias, aceitando a vida desregrada do masculino com suas concubinas e cabarés, na imitação da vida e da moda ditada em Paris. Dentre essas, o romance Madame Bovary de Flaubert que dá início ao realismo e fomenta a corrente realista e científica, da qual Machado e Aluísio são filiados, sendo o início do Realismo e do Naturalismo na literatura brasileira tido como a publicação do O Mulato.

Só para apoiar a construção de sua contemporaneidade, Aluísio participou da fase mais dura da formação da república brasileira, em sua época estourava revoluções federalistas em quase todas as províncias, favoráveis à monarquia e resistentes aos conceitos republicanos. Havia uma revolta clara contra o final da escravatura, contra a ocupação de cargos de governadores por pessoas que não os oligarcas das províncias, enquanto o povo brasileiro não sabia o que de fato acontecia, já que a Proclamação da República, foi mesmo um golpe militar com seu comandante, atônito e sem compreender o que fazia, pois gritava Viva D. Pedro II, de quem era amigo íntimo.

Em 1985 quando se tornou cônsul, o Brasil reatou relações com Portugal; O governo central da república derrotou a revolução federalista do Rio Grande do Sul; O Brasil assinou um tratado de amizade com o Japão; Foi iniciada a guerra de Canudos e; Fundada a Academia Brasileira de Letras, por Machado de Assis.  

Aluísio, diferentemente de Machado que era tido como o bruxo do Cosme Velho, pelo seu atavismo e resistência a viajar, foi um homem do mundo, adepto das correntes filosóficas, como o Evolucionismo de Charles Darwin, o Determinismo de Hipólito Taine e o Positivismo de Auguste Comte.

Foi exímio retratista de seu tempo e de seu espaço, um dos mais estudados para o vestibular, onde se resume as características dos seus escritos, como: Descrições minuciosas do ambiente e narrativa lenta do enredo; Linguagem simples e regional, focada na realidade cotidiana, com visão crítica e retratando a sociedade como ela era; Releva as patologias sociais e individuais, com personagens, degradados, animalescos e sensuais; No fundo, assumindo um tom crítico à decadência moral, e aos comportamentos preconceituosos, principalmente o racial.

Moral desconstruída

Aluísio de Azevedo, junto com Machado de Assis assumem como missão construir uma brasilidade, um novo comportamento social, mais moderno e menos provinciano, através de uma visão crítica dos costumes e valores da época.

Ele opta por uma desconstrução da moral, como instrumento pedagógico, algo parecido nos nossos dias com o escritor e Nelson Rodrigues que para propugnarem uma sociedade conservadora nos princípios e atenta a regras de civilidade, cortesia, com obediência a valores éticos e morais, resolvem mostrar a desconstrução da moral e externar de forma arrasadora o comportamento hipócrita e aético dessa sociedade, com fins educativos mostrando as consequências perversas e funestas para seus personagens.

No entanto, o que é percebido em nessas obras por essa sociedade, é a diversão e a luxúria, sem atentar para os castigos e as condenações e seus finais trágicos no contexto das histórias.

No caso de Nelson, cheguei a presenciar sua indignação à saída de uma de suas peças teatrais, com sua revolta, chamando aquela turba alegre e divertida na saída do teatro de “cínicos e pervertidos...”. 

O Homem – deu-me um pequeno relevo da minha ignorância profunda sobre a literatura brasileira.  Recomendo com distinção aos novos e velhos leitores.

quarta-feira, 15 de junho de 2022

A Ocasião – Juan Jose Saer (1988)

 


Comentado por Daniela

Sobre o autor e seu estilo:

Juan José Saer (28 de junho de 1937, Serodino, Argentina - 11 de junho de 2005, Paris, França) foi um escritor e ensaísta argentino. Nasceu e morou em cidades do interior da Argentina, a região do Pampa úmido, na província de Santa Fé, e na década de 60 iniciou um longo exílio na França onde morou no interior, em Rennes na Bretanha. No Brasil, Saer é conhecido mais pela sua ficção, principalmente por O enteado, e por alguns artigos escritos para o jornal Folha de S.Paulo.  Tem uma obra extensa (doze romances, quatro livros de ensaios, quatro livros de contos e um de poesia), que os estudiosos do autor e sua obra dizem precisar ser entendida como um só espaço narrativo.

Para muitos estudiosos, a sua trajetória é um movimento constante pelas margens: era filho de imigrantes árabes (sírio-libaneses) e escolheu viver grande parte da sua vida na Europa, em um autoexílio. Antes da mudança para França, com vinte e poucos anos, Saer publica vários livros, e aparece vinculado a um grupo amplo de escritores e intelectuais em Santa Fé, participando de forma ativa na cena cultural desta cidade interiorana à beira do rio Paraná. Mostrou sempre um caráter impetuoso e rebelde com respeito instituições culturais estabelecidas. Apesar de nunca ter voltado a morar novamente na Argentina, Saer, após a queda do regime militar, em 1983, começa a visitar todo ano o país num processo pessoal e literário de recuperação das origens, da memória e da história. A morte em 2005 o surpreendeu em pleno trabalho, estava escrevendo um romance sobre sua infância (La Grande) que ficou inconcluso.

A crítica destaca algumas características fundamentais da sua obra. Desde seu primeiro livro de contos (En la Zona) o escritor apresenta uma galeria de personagens, de lugares e de temáticas que vai retomar e retrabalhar ao longo de toda sua obra, o seu universo ficcional. As características deste espaço narrativo ou território literário chamado "la zona de Saer " (em alusão ao título de seu primeiro livro) estão a cidade de Santa Fe e seus arredores (lembrei do ótimo filme argentino “O Cidadão Ilustre”, com Oscar Martínez), que como a Buenos Aires de Borges e a Rio de Janeiro Imperial de Machado de Assis viram um referente do real.

María Teresa Gramuglio (1986) acrescenta que estas características se parecem com o refrão musical que se repete ao longo de uma partitura, ou a rima na poesia que se reitera e que conforma elementos de unidade. Alguns elementos da literatura de Jorge Luis Borges são reconhecíveis no projeto literário de Saer, como a oposição entre campo e cidade e a síntese que representa o subúrbio das cidades, um espaço marginal que resume também a condição da América Latina, entre a modernidade (civilização) e o irracional (barbárie). A partir do exílio na França Saer passa a trabalhar na sua literatura com muita força a ideia, do alienado no sentido do fora de lugar, que tem que recuperar seu espaço na forma da recuperação da sua história e da sua memória. Dentro do movimento de recuperação de um espaço e de uma zona ligada à experiência passada, os três romances históricos El entenado (O enteado), La ocasión (A Ocasião) e Las nubes (As nuvens), configuram uma espécie de trilogia sobre as origens históricas da "zona". Os elementos espaciais da obra de Saer podem encontrar sua referência na cidade real de Santa Fe, cidade essa que não aparece nunca nomeada no conjunto de sua ficção, ao passo que as demais localidades (Buenos Aires, Rosario, Paris, etc.) são, no entanto, mencionadas pelo nome ao longo dos textos.

Saer defende a ficção como um espaço de exploração do homem pelo homem.  Em suas palavras “mi primera preocupación de escritor es, en consecuencia, esa crítica de lo que se presenta como real, y a lo cual todo el resto debe estar subordinado”. Essa é a riqueza da experiência das personagens saerianas, imbricada na encenação da própria impossibilidade de se atingir a objetividade do mundo. A experiência − como uma abertura para a exploração das fissuras do mundo no esforço por perseguir o visível como coisa que sempre se esconde por detrás de outras − se apresenta como que continuamente incompleta e deformada. (Mota, 2019)

O plot:

A trama de “A Ocasião” se passa entre 1870 e 1871, nas terras ao sul do Rio Salado,  parte central da província de Santa Fe. O plano histórico de formação da nação argentina a partir da metade do século XIX, com a imigração massiva de europeus, a perspectiva de transformação dos campos do pampa argentino e a epidemia de febre amarela, é uma moldura para o autor apresentar seus temas de  estimação: a contraposição realidade x ficção, o real e a representação impossível do real pela linguagem.

Em uma síntese rápida e incompleta, seis anos antes do momento em que a narrativa se inicia, Bianco, o protagonista, um ocultista ruivo de 46 anos, sotaque indefinido, e que se diz nascido na Ilha de Malta, desembarcou na Argentina vindo da Europa. Anos antes, por volta de 1855,  havia tido notoriedade na Inglaterra, na França e na Prússia exibindo seus poderes de transmissão telepática, deslocamento de objetos à distância, deformação da matéria por contato, em teatros de segunda classe no início, mas depois também nos meios acadêmicos e salões da alta sociedade. Depois de ser ridicularizado e exposto pelos positivistas franceses, vê-se forçado a deixar a Europa para se recompor, aproveitando o interesse do governo argentino por imigrantes europeus. Vislumbrou na extensão plana e cinzenta dos pampas o cenário perfeito para organizar os seus pensamentos, aqueles ‘que iriam servir-lhe para libertar a espécie humana da servidão da matéria’, e ajudá-lo a recuperar seus poderes, que percebe enfraquecidos após a humilhação sofrida. Apesar de ter a expectativa de controle do novo espaço e relações por meio de suas faculdades mentais, a planície e as pessoas (Garay-Lopez, Gina, Waldo) vão se mostrando impenetráveis, o que o deixa ‘exasperado por depender dos outros para verificar seus palpites e suas intuições no exterior’. Seus supostos dons para leitura telepática não antecipam a epidemia (como Waldo) nem impedem que ele tenha pensamentos delirantes (a la Bentinho) que seu amigo Garay-Lopez trouxe a epidemia, “mas não por medo (...) ele trouxe a epidemia porque recebeu a carta e queria ver a cor do cabelo do que vai sair dentre as pernas de Gina”. A materialidade de sua astúcia prática em lidar com os ventos da modernidade que está chegando para os gauchos da planície  acaba se impondo, a medida que a epidemia varre as últimas resistências.

“A Ocasião” tem um narrador heterodiegético, aquele que não participa da história que está contando. Nesse caso, o narrador está fora da história, ocupando a posição de relatar ao leitor ou acontecimentos e emoções que nem sempre o personagem está ciente. Na abertura do romance, o narrador dialoga com o leitor sobre o protagonista (“Chamemo-lo simplesmente Bianco”), mas ao longo do texto, essa separação vai se tornando menos perceptível, colocando o leitor diretamente dentro das memórias, devaneios ou delírios de Bianco, cúmplice de como ele vê o exterior.

 “Bianco, apesar de não ser o narrador de sua história, detém o ponto de vista do texto, usurpando a voz na profusão incessante das analepses (técnica narrativa que consiste em relatar acontecimentos anteriores ao tempo presente da história ou mesmo anteriores ao início da ação). Bianco também se serve de um espaço para difundir, com liberdade, seu ponto de vista com respeito ao rearranjo da realidade. (...) Intervindo, primeiramente, no ponto de vista da história, posteriormente Bianco monopoliza a ação e o desenvolvimento da narrativa. Essa ilusão narrativa, já que se trata de um narrador heterodiegético, se constrói devido ao fato de o narrador gradativamente se eclipsar em benefício da ação do protagonista. Os recursos das analepses beneficiam a indefinição de qual voz se ouve no texto. Algumas analepses se manifestam como monólogo interior ou segundo o ponto de vista da personagem; quanto a elas, o conflito se manifesta quando não se distingue a “voz” da personagem da voz do narrador, devido à indefinição entre monólogo interior e discurso indireto livre. Bianco, por sua vez, ultrapassa os limites de mera personagem narrada e se coloca conjuntamente ao narrador, promulgando a estética saeriana do conflitante espaço entre realidade e ficção. (Mota 2011)

Os parágrafos longos, as descrições minuciosas e coloridas da paisagem, das roupas, dos corpos (de Gina grávida, de Garay-Lopez sendo tomado pela febre amarela), dos pensamentos e estados emocionais de Bianco, ou de determinadas cenas são bastante marcantes na obra. Destaque para as cenas da passagem do bando de cavalos selvagens (p 25-28) e da cena em que vê Gina observando o cavalo tentando cobrir a égua no curral de sua casa (p.95-98). O índio Waldo e seus versos proféticos, em dísticos octossílabos, é uma história dentro da história, que corre paralela e que anuncia o real: Hic Incipti Pestis (Aqui começa a peste). Há pouco espaço para o negacionismo.

Segundo Romano (tradução livre), ‘o elemento histórico se articula com a crítica à representação da realidade a partir da noção de causalidade. O título alude a esse conceito, já que ‘ocasión’ significa ‘causa ou motivo porque se faz ou acontece uma coisa (se trata da segunda acepção da palavra; ecos da primeira acepção ‘oportunidade de tempo ou lugar, que se oferece para executar ou conseguir uma coisa’ ressoam na interpretação dada sobre o espaço da planícia e o tempo da segunda metade do século XIX como propícios para que deles brote o relato). Contra a concepção lógica, histórica, linear e progressista da modernidade, ‘A Ocasião’, desde o título, postula outra relação, distinta da lei da causalidade, entre os acontecimentos. Trazendo essas ideias para um plano mais concreto, e de acordo com a afirmação de Saer de que o uso do passado na narrativa sempre tende a marcar a persistência de certos problemas no presente, ‘A Ocasião’ tem como cenário uma época em que havia crença cega na possibilidade de um progresso ininterrupto baseado na prosperidade material, o que não está muito distante da atitude triunfalista e confiante de nossas sociedades de consumo. Nessa linha, uma das mensagens costuradas no romance poderia ser resumida pelas palavras do escritor e crítico literário francês Blanchot: ...quanto mais se afirma o mundo como um futuro, um dia da verdade onde tudo terá valor, onde tudo terá sentido, onde tudo ser realizará sob o domínio do homem e para o seu uso, mais parece que a arte deva descer até o ponto em que nada tenha sentido, mais importante que mantenha o movimento, a insegurança e a desventura do que escapa de toda a percepção e de todo o fim. O artista e o poeta receberam a missão de nos recordar obstinadamente sobre o erro, de nos orientar por esse espaço onde tudo o que propomos, tudo o que adquirimos, tudo o que somos, tudo o que se abre sobre a terra e o céu, retorna a sua insignificância, aproxima-se do não ser e da não verdade, como se dali surgisse a fonte de toda a autenticidade’ ( …cuanto más se afirma el mundo como futuro y el pleno día de la verdad donde todo tendrá valor, donde todo tendrá sentido, donde todo se realizará bajo el dominio del hombre y para su uso, más parece que el arte deba descender hacia ese punto donde nada aún tiene sentido, más importante se hace que mantenga el movimiento, la inseguridad y la desventura de lo que escapa de toda percepción y de todo fin. El artista y el poeta han recibido la misión de recordarnos obstinadamente el error, de orientarnos hacia ese espacio donde todo lo que nos proponemos, todo lo que hemos adquirido, todo lo que somos, todo lo que se abre sobre la tierra y el cielo, retorna a lo insignificante, donde lo que se aproxima es lo no-serio y lo no-verdadero, como si a lo mejor surgiese de allí la fuente de toda autenticidad) (p. 236). (ROMANO,1999)

 Referências e dicas:

MOTA, Raquel Alves. A voz poética dos protagonistas: a (re)construção do real em La ocasión, de Juan José Saer, e em Dom Casmurro, de Machado de Assis. 2011; http://www.periodicos.letras.ufmg.br/index.php/emtese/article/view/3723)

MOTA, Raquel Alves. O ESPAÇO DE ‘LA GRANDE’ DE JUAN JOSÉ SAER POR MEIO DE PERSPECTIVAS DISTÓPICAS: OS CONFLITOS QUANTO À POSSIBILIDADE DA EXPERIÊNCIA NO MUNDO. Revista de Ciências Humanas, Vol. 19, n. 1 – Jan. – Jun./2019 (https://periodicos.ufv.br/RCH/article/view/9186)

MOTA, Raquel Alves. Perspectiva fenomenológica de Juan José Saer: a discussão do realismo no espaço da lhanura. Caligrama: Revista de Estudos Românicos, [S.l.], v. 23, n. 1, p. 79-98, maio 2018. ISSN 2238-3824. Disponível em: <http://www.periodicos.letras.ufmg.br/index.php/caligrama/article/view/11913>. Acesso em: 12 jun. 2022.

ROMANO, E. . LA OCASIÓN PARA NARRAR HISTORIA, REALIDAD Y ALEGORÍA EN UN TEXTO DE JUAN JOSÉ SAER, NRFH, XLVII (1999), núm. 1, 99-119 (https://nrfh.colmex.mx/index.php/nrfh/article/view/2085/2076)

Artifícios da criação: uma conversa com Juan José Saer https://doi.org/10.1590/S0101-33002005000300012. NOVOS ESTUDOS 73, NOVEMBRO 2005.

ANA CECÍLIA OLMOS. Contra a civilização e a barbárie. Folha de São Paulo, 03 de julho 2005. https://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs0307200519.htm

 


 

segunda-feira, 16 de maio de 2022

O Alegre Canto da Perdiz (Paulina Chiziane) - Resenha por Cris Rauen


O Alegre Canto da Perdiz é o 8º romance da escritora moçambicana Paulina Chiziane. Nascida em 1955, em Manjacaze, de acordo com o site Wikipedia, “Paulina cresceu nos subúrbios da cidade de Maputo, numa família protestante onde se falavam as línguas Chope e Ronga. Aprendeu a língua portuguesa na escola de uma missão católica. Começou os estudos de Linguística sem ter concluído o curso. Participou ativamente na cena política de Moçambique como membro da Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique), na qual militou durante a juventude. Deixou de se envolver na política para se dedicar à escrita e publicação das suas obras. Iniciou a sua atividade literária em 1984, com contos publicados na imprensa moçambicana. É a primeira mulher a publicar um romance em Moçambique. Paulina vive e trabalha na Zambézia. O seu romance “Niketche: Uma História de Poligamia” ganhou o Prémio José Craveirinha em 2003. Em 2021, tornou-se a primeira mulher africana a ser distinguida com o Prémio Camões, a mais prestigiosa honraria conferida a escritores lusófonos, patrocinada pelos governos de Brasil e Portugal.
Em 33 anos, é a terceira vez que o prémio é atribuído a um autor moçambicano, depois das distinções de José Craveirinha em 1991 e Mia Couto em 2013”.

 

***

O Alegre Canto da Perdiz conta a história de gerações de mulheres dominadas no período da colonização portuguesa em Moçambique. Além do conflito geracional, a obra aborda questões raciais, sociais, políticas, econômicas e, em particular, as estratégias de sobrevivência de mulheres negras na África colonizada.

As protagonistas são quatro mulheres: a avó Serafina, a mãe Delfina e as filhas, a negra Maria das Dores e a mulata Maria Jacinta. A escolha dos nomes dessas mulheres não é mera coincidência e reflete importante questão política para a mulher colonizada e sua perda de identidade, pois geralmente adotava um nome português iniciado por “Maria”. De acordo com a autora, “Toda a Maria tem outro nome, porque Maria não é nome, é sinónimo de mulher”.

Os capítulos iniciais mostram Maria das Dores perdida na região dos Montes Namuli, afrontando os moradores com sua nudez e seu silêncio. Seu desvario “[...] começou no dia em que o pai negro partiu para não mais voltar. Tudo começou quando o pai branco amou a sua mãe. Tudo começou quando a sua mãe vendeu a sua virgindade para melhorar o negócio de pão”. Maria das Dores estava ali à procura dos três filhos que havia perdido durante a fuga do marido que a dopava e maltratava, o feiticeiro Simba, também amante de sua mãe Delfina.

Delfina foi uma mulher poderosa. Uma bela negra que encantava os homens e causava inveja às mulheres. Teve todos os homens do mundo. Dois maridos, muitos amantes, quatro filhos, um prostíbulo e muito dinheiro. O primeiro marido foi o negro José dos Montes, por quem verdadeiramente se apaixonou e com quem veio a se casar na Igreja. O segundo marido, o branco Soares, foi sua instituição financeira. Além desses, Simba, o belo negro feiticeiro, foi sua instituição sexual.

Assim como fez com Maria das Dores, Delfina teve sua iniciação sexual vendida pela mãe em troca de comida e vinho. Chiziane mostra com a brutalidade desses acontecimentos a questão da inferioridade da raça, que é introjetada nas mentes e corações das meninas negras desde o seu nascimento, e como isso auxilia o processo de submissão e colonização das nações africanas. Chiziane menciona: “O estigma da raça deixou sementes cancerígenas, que se multiplicam como a raiz de um cancro, e matarão gerações, mesmo depois da partida dos marinheiros”.

O estigma da raça se reflete nas palavras de Maria das Dores, ao dizer que seu sofrimento era “culpa da minha mãe que me fez preta e me educou a aceitar a tirania como destino de pobres e a olhar com desprezo a minha própria raça”. Nas palavras de Delfina, “A culpa de tudo foi do meu pai que disse não à assimilação e não me quis libertar desta humilhação. A culpa é da minha mãe que me iniciou nos segredos do travesseiro quando eu ainda sonhava em conquistar o meu diploma de professora”.

Paralelamente à questão do estigma da raça, a obra de Chiziane mostra que a concepção da ascensão social em regiões colonizadas está relacionada ao “melhoramento da raça”. Assim, tudo começa no ventre da mãe, e a autora problematiza essa condição nas passagens que refletem o inconformismo de Serafina ao saber que a bela e promissora filha, Delfina, não se casaria com um branco, mas com um negro, pobre, e que teriam, então, filhos negros. “Melhora a tua raça, minha Delfina! Repete inconscientemente o que ouvia da boca de tantas mães negras. E dos brancos. Casar com um preto? [...] O que é o amor para a mulher negra, Delfina? Diz-me: o que é o amor na nossa terra onde as mulheres se casam por encomenda e na adolescência? Diz-me o que é o amor para a mulher violada a caminho da fonte por um soldado, um marinheiro ou um condenado? As histórias de paixão são para quem pode sonhar. A mulher negra não brinca com bonecas, mas com bebés de verdade, a partir dos doze anos. A conversa de amor e virgindade é para as mulheres brancas e não para as pretas. [...] É por isso que para nós, negras e pobres, o amor e a paixão deviam ser proibidos. [...] Felizes as mulheres que geram filhos de peles claras porque jamais serão deportados”.

Outra questão amplamente abordada e diretamente relacionada à colonização africana na obra é a da assimilação. Assimilar significa aceitar, perante juramento, os modos, costumes, hábitos, crenças e, acima de tudo, o domínio do colonizador. Tudo em troca de ascensão social, dinheiro e falsa sensação de liberdade. Nas palavras de Chiziane: “A assimilação era o único caminho para a sobrevivência. Quem não se ajoelha perante o poder do império não poderá ascender ao estatuto de cidadão”.

Foi assim que Delfina convenceu José dos Montes a se tornar um assimilado, e, no dia de seu juramento, acaba tornando-se também um sipaio: negros assimilados responsáveis por perseguir, torturar, escravizar e deportar sua própria gente. “O que José não sabia é que os seus actos se tornariam um marco, história, mito, lenda. Mudariam o mundo. Sem a cumplicidade dos assimilados e seus sipaios a terra jamais seria colonizada”.

A autora também retrata a predileção, em terras colonizadas, pelo gênero feminino no nascimento dos filhos. Tudo isso porque o destino dos meninos negros é cruel. Talhado à trabalho forçado e chibatada. Prematuramente apartados do seio de suas mães. Vendidos e deportados ao estrangeiro. Em dada passagem, José dos Montes conclama a sua mãe: “Querida mãe, eu te odeio, sim, por teres violado o meu direito de não existir. Odeio-te por me teres gerado homem e não mulher. Por me fazeres preto e não branco. Minha mãe amada, minha mãe culpada”. Dos Montes sofre à espera do nascimento de seu primeiro filho e clama: “Que seja uma menina, sim. Prostituta, borboleta do cais, carne dos marinheiros. Que seja sexo à venda, ao grama, ao quilo. Que durma com qualquer branco por causa do sal e do açúcar”. No mundo colonizado, quando se é negro, melhor a prostituição do que a escravidão.

Também melhor é a vida da mulher negra mãe de filhos mulatos. Após dois filhos negros com José dos Montes, Delfina se torna mãe de uma mulata, Maria Jacinta, filha do branco Soares, para a desilusão do marido, que foge para não mais voltar. A partir do feito, Delfina muda de vida: “O meu estatuto é maior a partir de agora! Mãe de mulata. Concubina de um branco. Não mais morrerei à míngua, com esta filha que é a minha segurança. Erguerei esta criatura como uma bandeira branca, a acenar aos marinheiros e a gritar: sou vossa! Juntei o meu sangue ao vosso na construção da nova raça”.

Após o nascimento de seus filhos mulatos, Delfina procura Simba para realizar a magia que tirará a esposa do lar de Soares e a levará definitivamente a se amasiar com um branco. Viveram, então, muitos anos juntos, fazendo mais filhos, cuidando dos filhos de José dos Montes, os filhos negros, com eterna diferença em relação aos mulatos, até que Soares decide voltar a Lisboa, deixando Delfina desamparada. “Sem emprego, nem marido, nem amante”.

À beira da loucura, Delfina pede novamente ajuda a Simba para que, por feitiço, consiga ser bem-sucedida num novo empreendimento. Sem dinheiro, oferece a própria primogênita como pagamento pelo feitiço.  “No seu entendimento vale mais a pena uma vítima em casa do que vitimar a família inteira. Não se arrepende. Ela também foi usada pela própria mãe, na infância distante. Entregue aos brancos das lojas a troco de comida”. E assim foi. Delfina levou a menina à casa do mago. Ficou à espreita, ouvindo tudo, calada. “Maria das Dores estava a ser violada. Extraviada. Roubada. Uma menina submetida à sádica obsessão daqueles que a deviam amar”.

A menina se torna, então, refém de Simba durante longos anos, três filhos, muita pobreza, pouca limpeza e dependência de álcool e drogas que Simba usava para aprisioná-la. Enquanto isso, por medida judicial baseada na emissão de um certificado de insanidade moral, Delfina perdia a guarda dos outros filhos, que tiveram mais sorte que das Dores. “Mãe, por que me deixaste aqui? Chove neste tecto, o chão é de barro, não tenho cama, durmo na esteira, na humidade, presa às grilhetas como os escravos antigos. O Simba sai de manhã e me amarra, vem ao anoitecer e me desata”.

Após cinco anos de cativeiro, das Dores foge com suas três crianças à procura do pai no sagrado solo dos montes. A partir de então a obra entra numa sequência de reencontros, coincidências, perdão e reconciliação que destoa do contexto denso e politicamente crítico dos capítulos anteriores.

O Alegre Canto da Perdiz é uma obra bruta, ao mesmo tempo em que é poética e profunda. Nos faz refletir sobre a condição e as mazelas do povo negro colonizado, a partir dos diferentes personagens, seus papéis, visões, vivências e interrelações. Nesta obra não há herói ou heroína. Todos são algozes e vítimas. Nas palavras certeiras de Chiziane: “Não há gente boa neste mundo. Nem má. A vida é um permanente risco em busca de oportunidade”. E de sobrevivência.

Recomendo.

 Cristiane Rauen

10/05/2022

Registros do (excelente!) encontro do grupo:




terça-feira, 12 de abril de 2022

A filha perdida - Elena Ferrante


por Christiane Girard

O meu resumo será simples porque penso que há resumos muito bem escritos à disposição dos futuros leitores, na capa do livro. Entretanto para os amigos (as) do nosso grupo que hoje ainda não os teriam lidos, a história é construída a partir de uma narradora que conta momentos de vida que pode se passar no presente, mas que a remete a lembranças recalcadas, conflituais e dolorosas. Leda, a narradora é o personagem central. Ela é mãe de duas filhas, jovens adultas que moram no Canada, país onde vive o pai delas.

Leda é professora universitária, passa as férias num balneário no sul da Itália onde está relendo um trabalho para publicação. Quando chegou foi recebida por um empregado afável, do tipo que se coloca à disposição por mais que seu trabalho o obrigue. É alguém que se torna protagonista na história. Alguns dias depois de sua instalação no hotel chega uma família napolitana (segundo o resumo da capa do livro, barulhenta, grosseira no estilo da família de origem da Leda e da qual ela fugiu).

Leda rapidamente adota costumes de turistas, rituais de ocupar tal lugar na praia e, também, percebe que tem afinidades com uns Clientes ou empregados e não com outros. O jovem que cuida das cadeiras de praia, por exemplo, passa a ser um companheiro das férias. Essas pequenas práticas não são verbalizadas, mas os olhares de aprovações ou desaprovações constituem a melodia silenciosa das práticas de férias.

O olhar de Leda sobre a família napolitana mostra um olhar de discriminação, ela condena o sul barulhento, mas rapidamente percebemos que ela rejeita uma classe social e seus valores culturais que eram também de sua própria família.

A família napolitana passa a ocupar o palco no hotel. Os homens trabalham numa outra cidade e voltam passar os fins de semana com a família. Eles são machistas e as mulheres pouco solidárias entre elas. A regra parece mais de defender quem é do clã. Mas na família, Nina, uma moça muito jovem mãe de Helena, pequena criancinha, chama muito a atenção de Leda. Há uma identificação entre elas. Nina parece presente e ausente ao mesmo tempo. Ela é casada com um dos irmãos poderosos. Saberemos que a bela e jovem moça tem um affaire com o jovem empregado do hotel que cuida das cadeiras na praia e é simpático aos olhos de Leda. A família observa Leda com certa suspeição, uma mulher sozinha que não aceitou mudar de lugar na praia quando solicitada para permitir que a família seja instalada junta. Eles a olham como estranha, fora dos valores deles.

Acontece que uns instantes de distração ou de desatenção da família fazem com que a pequena Nina suma da vista dos adultos na praia. Houve Instantes de pânico, depois de muito a procurar quem a encontra é Leda. A pequena tinha se perdido e perdeu sua boneca. O evento se torna central nessas férias, talvez por cada um e por razões diferentes. Por exemplo, eles vão confirmar o esquisitíssimo de Leda, sentindo pelo grupo da família sentimento negativo que vai explodir quando eles vão perceber que ela guardou a boneca da menina com ela, apesar do choro desesperado da Helena.    

Parece que há um mistério latente, uma suspeição, sobre a moral de Leda, que se tornará mais forte quando descobrirão que Leda devolveu Helena à mãe, mas ficou com a boneca. E não a devolveu apesar do desespero da menina. Até Nina que pareceu se identificar com Leda não pode mais se reconhecer nela. O que pareceu mais impactante foi a revelação de Leda para Nina e a cunhada dela:  em certo momento da pequena infância de suas filhas ela se escolheu e deixou as filhas com o pai. 

Quais são as lembranças que Leda tem que acabam a mobilizando sem permitir um distanciamento? Leda depois de ter deixado a família de origem para trás e fugir para FIRENSE para estudar, casa-se, tem duas filhas um marido diríamos padrão estudante classe média dos anos 60/70, da Itália do norte, mas sobretudo ela conta para elas do frio na alma percebendo que não dá conta do que é esperado dela. Ser mãe, esposa profissional. Ela, espera dela, se jogar na criação, publicar sobretudo depois do reconhecimento de um de seu artigo por um professor valorizado na área dela. (Ele se tornará seu companheiro por três anos)

Ela então se separa da sua família para viver o que lhe pareceu possível. Realizar o que ela acha que é. Só que o que ela é contém muito mais configurações, contradições, conciliações, interdições. E é a meu ver o essencial da história. Há diferentes personagens secundários que dão mais densidade à história, mas há uma questão central, ter filhos nos tornam mãe?

Ë possível escapar de sua cultura sem pagar um preço elevado demais? A separação das filhas é particularmente sofrida. Ela não vai aguentar mais de três anos. Voltará a viver com as filhas numa preciosa dedicação. Sentimos que é uma dedicação para ninguém colocar defeito, uma dedicação que se quer reparadora. A equação me parece ser: ela não mudou de ideias, nem de concepção de mundo, mas é quase impossível viver sem os filhos por decisão própria. Culpabilidade, amor, os dois sentimentos e muitos outros existem, para tornar essa escolha impossível. Clara que aos olhos da família napolitana ela parece uma bruxa, uma mãe desnaturada, mas mesmo na família há Ninas que parecem Ledas!

Eu não li nada dessa autora além desse livro, apenas tinha visto o filme financiado pela Netflix a partir do livro. O filme me deixou uma impressão muito envolvente. As coisas acontecem num universo esfumaçado, são impressões, sensações mais que conversas claras. Lembrei das imagens de Goddard, onde o personagem está num barco, em Veneza na aurora. A luz é cinza e azul, parece haver um véu delicado que toca o personagem e o torna menos visível, possibilitando projetar nos pensamentos, sem dúvida.

Escondemos nossos motivos nas diferentes luzes. No filme algo havia me fisgado.   Algo às vezes bem desconfortável, ao redor do qual pensamentos rondam. Algo de eterno:  sobre a filha que fomos, a mãe que fomos e as filhas que temos. E assim com essas cores e uma frase consigo a desenhar um vago esboço dessa emoção.

O que me fisgou é que é pouco dito na vida (na arte um pouco mais) sobre as diferentes construções possíveis de figura de mãe. (Santa ou P...) Há um monte de frases “mães só mudam de endereços”. A Leda deixa os filhos com o marido para viver, realizar o que a mobiliza intelectualmente, ter reconhecimento na área dela...As filhas não são razões para diferir ou renunciar às suas necessidades. Quando ela descreve o toque corporal parece que ela se sente devorada, ignorada no que ela é além de mãe.

Uma hipótese que faria sem pretensão de verdade é que há uma angústia muito grande de não corresponder ao que é enaltecido na função de mãe. Parece que somos mãe não estamos sendo. Quem precisa dessas representações o filho ou a filha em nós que sonha ser amada pela mãe e com a qual compete pelo amor do pai. Ou a eterna rivalidade entre os irmãos. Somos nós essa filha que quer uma mãe para amar e devorar? Será que é o pai que precisa dessa mãe porque o filho que foi não deixa de sonhar com essa mulher para quem é um rei?

Colocar em dúvida a concepção que haveria uma “natureza” do amor de mãe (diferença entre natura e cultura) ameaça as comunidades e quem tem dúvida cala-se..

Não posso dizer que o livro me fascinou, mas pensei nas jovens mães atualmente que sofrem de depressões pós-parto e me perguntei sobre essa geração que teme não estar a altura do cargo. Por isso achei o livro bem conduzido. Entretanto, e é muito raro achei que o filme é melhor que o texto. Uma arte pode ser reinterpretada, pela luz, pelos gestos dados nos relacionamentos. E por mais que seja um tema sempre difícil o fato de poder vir à tona é muito importante. Porque não se trata de mães vistas como problemáticas (Bergman...).

O desaparecimento da boneca e sua apropriação por Leda me parece ser uma menção à filha que Leda foi e a maneira como a filha dela tratou da boneca que Leda deu a ela. Simbolicamente a filha não pode conhecer a sua mãe como filha. É a solidão que cada uma carrega.  Pudicamente falamos em depressão pós-parto sem saber muito dos tormentos da mãe, fiquei pensando sobre o sistema paradoxal ser mãe é se confrontar com um paradoxo: é impossível a conciliar. Esses desejos e necessidades migram no inconsciente e às vezes reaparecem....criando desejos que às vezes reaparecem.


quarta-feira, 9 de março de 2022

Amsterdam - Ian McEwan

 por Ana Studart


A frase de Auden W.H Auden, que Ian McEwan coloca na abertura do livro, já é um prenúncio ao leitor do que estará por vir: “Os amigos que aqui se encontraram e se abraçaram já partiram, cada qual rumo ao seu próprio erro”.

O romance Amsterdan, que se passa no tempo atual, tem como personagens principais quatro homens vivos e uma mulher morta- um jornalista, um compositor de música erudita, um político influente e o viúvo da única mulher do livro, que já aparece sendo cremada no primeiro capítulo, e em torno da qual giram esses quatro homens. Lembranças de Molly, inspiradora de grandes paixões, permeiam o romance inteiro, sendo citada, inclusive, no último parágrafo da obra.

O Título: Como o romance se passa na Inglaterra, a pergunta que o leitor se faz desde o início é: por que Amsterdan? A explicação começa a ser evidenciada a partir da metade do livro, e só se revela inteira nos últimos capítulos. Esse artificio mantem o tempo todo a curiosidade no leitor.

PDV: O Ponto de Vista do romance é o narrador omnisciente..

A Estrutura

Tomo I- Dividido em dois capítulos que tratam do encontro social de pessoas em torno da cremação da prestigiada jornalista Molly e onde o autor apresenta os personagens principais. Especialmente o músico Clive Linley, dono de ouvido absoluto, que sofre de um bloqueio criativo e tem por compromisso compor a Sinfonia do Milênio.

Tomo II- Dividido em cinco capítulos. Neles McEwan apresenta com mais detalhes o abastado e ambicioso Julian Garmony, Ministro das Relações Internacionais do governo, uma caricatura do que há de pior nos políticos; descreve o jornalista Vernon Hallyday, editor do decadente jornal Judge que cai vertiginosamente em sua circulação. Vernon recebe do viúvo George fotos feitas por Molly que, se expostas, desmoralizariam a imagem do Ministro Garmony. Nesse capítulo, Clive, impressionado com algumas dormências no corpo, pede ao amigo Vernon que o ajude numa eutanásia caso sua saúde mental e física se degrade, como aconteceu com Molly. Ele concorda com esse pacto sinistro, desde que haja reciprocidade.

Tomo III- Tem três capítulos, onde nos aprofundamos nas dificuldades de Clive para concluir a Sinfonia do Milênio e sua rápida viagem a Lake District, local onde imaginava acabar com o seu bloqueio para criar o grand finale da sua música. Nesse passeio, Clive presencia ao longe uma mulher sendo agredida por um homem, mas não intervém, receoso de perder a sequência de notas musicais que o caminho lhe inspirara. McEwan apresenta também uma acalorada discussão sobre ética entre Clive e Vernon sobre a publicação das fotos do Ministro Garmony.

Tomo IV- Dividido em seis capítulos. Nele, Vernon, que já estava conseguindo elevar a circulação do Judge, convence o jornal a publicar as fotos de Garmony e, envaidecido, se prepara para iniciar a publicação no dia seguinte, ao passo que Rose Garmony, a esposa do Ministro, médica conceituada, se antecipa e defende, numa coletiva de imprensa o marido. A partir daqui se inicia o grand finale do romance, onde as expectativas de Vernon e Clide se frustram (sinfonia fracassa e Vernon é levado a pedir demissão). Me abstenho de dar maiores detalhes sobre o final surpreendente, para não dar spoiler àqueles que ainda não leram Amsterdan,

O Texto: O texto de Ian McEwan flui com facilidade durante toda a leitura, sendo as descrições, tanto dos personagens como dos ambientes, bastante detalhada, dando ao leitor a possibilidade de quase visualizar momentos do romance. É preciso destacar a primorosa tradução do Embaixador Jorio Dauster, que, inclusive, foi secretário na Embaixada Brasileira Londres. (Ele se especializou em traduzir obras da literatura inglesa - inclusive outras de McEwan- e conta com mais de 40 obras em seu currículo, incluindo o livro O Apanhador no Campo de Centeio).

Personagens- Em Amsterdan,, os quatro personagens masculinos -o convencido músico Clive Linley; o oportunista editor do Judge, Vernon Halliday;  a raposa política do ministro Julian Garmony; e o poderoso e obeso dono de editora e um dos sócios do jornal Judge, George Lane, com quem Molly se casou perto do fim da vida,  mostram  o pior de si. O narrador onisciente descortina um vaivém de ambições, mágoas, competições, invejas, narcisismo, mesquinhez, vaidades, ciúmes, traições, queixas, desprezo e contradições entre os quatro personagens de maneira impiedosa (como a de Vernon na juventude defender a revolução sexual e o homossexualismo e no jornal condenar um transformer(?). McEwan narra essas fraquezas masculinas usando de um sarcasmo velado e algum humor negro. Afinal, não é à toa que ele foi apelidado pela imprensa de Ian McAbro.

Apesar dessas faces negativas dos personagens, o romance é de leitura agradável. Contam para a leveza da leitura, as várias páginas em que o autor trata da música erudita e do processo de criação musical,( McEwan é conhecidamente um apaixonado por música clássica) e outras tantas páginas sobre o funcionamento do  jornal sensacionalista Judge, onde descreve, com uma mordacidade que chega a ser engraçada, seus jornalistas, suas reuniões de pauta, as discussões sobre  uso da  linguagem, e propostas de reportagens  assustadoras, como a  briga entre irmãos siameses, de preferência com fotos dando dentadas um no outro…. Segue-se a pergunta de um dos jornalistas presentes: será que “não correríamos o risco de parecermos sensacionalistas?" Pode haver ironia maior?

A falecida jornalista Molly Lane, por sua vez, é apresentada como uma mulher generosa, livre, de vanguarda para seu tempo, disponível para os amigos, alguém que "nunca lavou um prato na vida", e é profundamente admirada pelos quatro homens que com ela viveram em alguma fase das suas vidas.

O Objetivo: alguns críticos da obra de McEwan comentam que o romance seria um "estudo impiedoso dos aspectos mais sombrios da psicologia masculina.”. Mas McEwan também trata de temas atuais, como a igualdade de gênero, a liberdade para se escolher a morte, a ética jornalística, a ambição pelo poder.

Um dos momentos mais interessantes do livro é quando Clive critica a decisão de Vernon de publicar as fotos comprometedoras do Ministro falando em princípios morais e éticos, quando ele mesmo se recusou a socorrer uma mulher em perigo para não esquecer as preciosas notas do final do que seria sua majestosa Sinfonia do Milênio.

Em outro momento, Vernon e Clive, impressionados com a morte de Molly, começaram a sentir sintomas de doenças. Clive com uma dormência na mão esquerda, Vernon achando que o hemisfério direito do seu cérebro tinha morrido. Foram esses sintomas que os levaram a fazer um sinistro pacto de cavalheiros, que suscitou a questão sobre a eutanásia, outro tema controverso.

Outras questões que McEwan levanta:  Até onde deve ser respeitada pela imprensa a privacidade das pessoas?  Será que o fim justifica os meios?A sintaxe de uma matéria jornalística é mais relevante do que a notícia?Até que ponto é legítimo um  jornalista perseguir seu sucesso profissional? Evitar um crime é menos importante do que a inspiração musical de um artista?  McEwan coloca essas questões com clareza em Amsterdan, levando o leitor a avaliar cada uma dessas situações. Por isso tudo recomendo o livro, uma leitura agradável, que também contém uma boa dose de suspense e surpresa em seu final.

SOBRE O AUTOR:

Ian McEwan , nascido em junho de 1948, é um escritor britânico, sendo atualmente um dos mais conhecidos da sua geração. Ele se diz um ateu ativo.

Passou parte da sua infância no Extremo Oriente, na Alemanha e no Norte de África, acompanhando o pai, um oficial do Exército Britânico. Estudou na Universidade de Sussex e na Universidade de East Anglia. Seus livros foram traduzidos para cerca de 30 idiomas

No mês em que completa 70 anos, o escritor decidiu lançar dois contos inéditos reunidos no Meu Livro Violeta onde conta sobre um crime perfeito traçado meticulosamente por um escritor, tema da primeira história. O conto foi publicado em janeiro na revista New Yorker. Já a segunda história, “Por Você”, foi escrita para a ópera de Michael Berkeley. Nela, McEwan (ele é. um apaixonado por música clássica, lembram?) apresenta uma cativante história de amor e traição envolvendo quatro personagens, o compositor, sua mulher, uma admiradora e o médico da família.

Prémio Somerset Maugham (1976) pelo livro First Love, Last Rites, sua primeira coleção de histórias curtas

Prémio Femina estrangeiro (1993)
Prémio Man Booker (1998) pelo livro Amsterdan, causando grande controvérsia

National Book Critics Circle Award (2002)
James Tait Black Memorial Prize (2005)
Prémio Jerusalém (2011)