terça-feira, 12 de maio de 2020

O SENTIDO DE UM FIM

Autor: Julian Barnes
Editora: Rocco, 2012
Tradução: Léa Viveiros de Castro
Resenha por Maria Virginia de Vasconcellos - Em Março/Abril de 2020
Para o Grupo Contemporâneo de Leitura

Antes que nada, reafirmo como em outras ocasiões, o que nos diz Cristopher Lehman-Haupt: “Há uma diferença enorme entre ser um crítico ou um resenhista. O resenhista reage à experiência do livro”. Aqui me aventuro como resenhista, buscando explorar pontos tais como: autor; contexto; personagens; narrativa; estilo; mensagem.

Sobre o autor [1]

Julian Patrick Barnes é um escritor inglês, nascido em Leicester, em 19 de janeiro de 1946, e um dos mais elogiados autores em atividade. Dando breves pinceladas na sua biografia, vê-se que foi envolvido com as letras durante toda a vida. Em seguida ao seu nascimento, mudou-se para subúrbios de Londres. Aí viveu até 1956, quando seus pais, professores de francês, mudaram-se para Northwood, Middlesex, a “Metrolan”' do seu primeiro romance. Foi então frequentar a Magdalen College, Oxford, onde estudou Línguas Modernas.

Depois de se formar, trabalhou como lexicógrafo[2] para o suplemento do Oxford English Dictionary durante três anos.  Era o responsável pela produção de dicionários, vocabulários e glossários.  Seguidamente, trabalhou, também, como reviewer e editor literário para o New Statesman e o New Review.  De 1979 a 1986, trabalhou como crítico televisivo, primeiramente para o New Statesman e, mais tarde, para o The Observer.

Foi casado com Pat Kavanagh desde 1979 até a morte desta, em 2008, com um tumor cerebral. Curioso observar (por ser um tema referido na obra a ser resenhada) que no seu mais recente livro, Os Níveis da Vida, Julian Barnes fala da dor imensa que é viver sem sua companheira de 30 anos e revela que pensou em suicidar-se.

O Sentido de um fim (The Sense of an Ending), de 2011, é seu 11º livro, e lhe rendeu o Prêmio Man Booker.  E, anteriormente, três dos seus livros iniciais ficaram entre os finalistas deste mesmo Prêmio: Flaubert's Parrot (1984), England, England (1998), e Arthur & George (2005). Em 2004, tornou-se comendador (Commandeur) da Ordem das Artes e das Letras. Também, escreveu ficção criminal sob o pseudônimo de Dan Kavanagh. E, adicionalmente aos romances, Barnes publicou coletâneas de ensaios e contos. As suas homenagens incluem ainda o Prêmio Somerset Maugham e o Prêmio de Memória Geoffrey Faber.

Sobre o livro[3]

Já pensou em vasculhar a sua própria vida? Olhar para trás? Voltar à sua adolescência e percorrer sua existência sob a perspectiva de agora?

Isso é o que pretende Barnes neste livro instigante. Ele nos leva para uma Inglaterra da década de sessenta (Londres, Bristol), e apresenta um contexto onde as comunicações eram feitas por cartas e cartões-postais, as relações amorosas e familiares ainda carregavam os hábitos da década de cinquenta, e os praticantes do denominado “infrassexo” se sentiam adaptados ao ambiente.  (ver p. 23)

Com estilo fluido e elegante, recheado de humor e ironia, o narrador, que é o personagem principal Tony Webster, vai contando a sua história, da adolescência até a maturidade. Rememora seus amigos, amores, professores e familiares. E relata mortes e suicídios. Conversa também com o leitor, todo tempo, colocando suas dúvidas, permitindo curtas digressões.

Com diálogos bem construídos, traz discussões entre os personagens sobre a questão da memória, de suas armadilhas, de suas revelações e esconderijos, protegendo ou expondo conforme a conveniência ou as necessidades psíquicas de cada um.

Todos os personagens existem em torno do Tony, e em função dele. São construídos e descritos desde seu ponto de vista – única visão que o leitor compartilha. O Barnes mostra um Tony extremamente humano, despido de qualquer idealização e, portanto, falho, carregado de autocríticas e culpas, e com um conjunto de ficções a seu respeito. Um ser comum que escolheu uma existência convencional - agradável e decente. E torna-se um personagem simpático ao leitor.

 E você? Poderá você, ser um observador neutro/objetivo em relação à sua existência? Barnes discute:

 “A nossa vida não é nossa vida, mas sim a história que contamos dela;
 “Contamos para os outros, mas principalmente para nós mesmos.” (p. 103)

E o autor exemplifica seu ponto de vista acrescentando no decorrer da narrativa novas versões ao ocorrido e ao anteriormente contado pelo protagonista. Como disse o poeta Waly Dias Salomão..”A memória é uma ilha de edição”. Mesma assertiva do nosso Guimarães Rosa: “O tempo tem o dom de fazer um balancê nas coisas” [4]
A memória pode ser considerada tanto do ponto de vista da vida privada como da história dos povos – a memória da civilização. Barnes vai refletindo sobre as possibilidades da Pós-Verdade e interpretações:

“História é a mentira dos vitoriosos ou a memória dos sobreviventes?”
Os sobreviventes podem ser vencedores ou vencidos?
“A história é também uma forma de o derrotado se auto iludir” (p. 23)
...”o fato é que nós precisamos conhecer a história do historiador a fim de entender
a versão que é colocada diante de nós” (p.18)
“História é aquela certeza fabricada no instante em que as imperfeições
da memória se encontram com as falhas de documentação.” (p.23)

Até chegar à Parte 2 do livro, quando aparecem fatos novos e documentos para preencher os vazios da sua memória.   Embora o cenário de fundo seja o mesmo painel da Inglaterra e os mesmos personagens, o tempo é outro. A comunicação já se faz por meio de e-mails, o que dá agilidade no desenrolar dos acontecimentos.

O Tony, nosso protagonista, torna-se um senhor aposentado, e as reflexões sobre a senilidade e a morte são marcantes e memoráveis - daquelas que atraem um colecionador de citações:

“Quando somos jovens, inventamos diferentes futuros para nós mesmos; quando somos velhos, inventamos diferentes passados para os outros.” (págs. 88,89)
“O tempo não funciona como um fixador, e sim como um solvente”.

Um exemplo da importância da declaração escrita é o aparecimento da carta enviada pelo Tony ao amigo Adrian. A leitura desse documento muda o rumo da história. Novas revelações se apresentam, a “certeza fabricada” cai por terra, e o autor com sua destreza vai preparando o final inesperado. O difícil é prever o remate surpreendente – que nos leva a repensar: o que o protagonista poderia ter se lembrado se tivesse a par do ocorrido? Qual a proporção de realidade que escolheria esconder dos outros e de si mesmo?

Vale destacar comentários da Ana Lima (ver site na nota 1) sobre a história de Tony:

Saberemos catar nos rincões da memória o que é verdade? Separá-la, mesmo não conhecendo todos os fatos? ....... somos um conglomerado de ficções e alguns fatos aos quais damos a nossa identidade.......
A vida é igual à literatura. Somos protagonistas da história que desenvolvemos, editamos, burilamos. Eliminamos fatos indesejados, colorimos a gosto. E em algum lugar, em algum ponto, essa fantasia toma uma vida própria, ambulante e acreditamos nela.

Esse livro de Barnes deixa, sem dúvida, uma reflexão sobre o processo da memória, sobre o escape, a fuga do verdadeiro, e a importância de documentos escritos para provar o que, de fato, sucedeu. Essa parece ser uma das mensagens pretendida pelo autor: o engano que nossa consciência/memória pode produzir sobre nossa própria vida, assim como a possibilidade de uma pós-verdade na interpretação de acontecimentos históricos. Há um ruído no tempo que cobre de neblina o fato real.

Outra possível mensagem estaria embutida no título intrigante –- O Sentido do Fim. Seria a busca de sentido para o suicídio de dois jovens? ou dar sentido à visão do personagem central sobre esses suicídios? Ou sobre qualquer suicídio?

Cabe observar que a narrativa de Tony deixa certos vazios a serem preenchidos pela imaginação do leitor, o que parece ser uma metáfora do sistema de nossas recordações da vida, de nosso autoengano e criações fantasiosas e convenientes. A nossa história é sempre alterada pela nossa imaginação e acaba por plantar algumas dúvidas e “passagens em branco” no campo das nossas reminiscências. A psicanálise trata o tema com profundidade.

Por que recomendo esse livro? Além do mencionado acima, sobre os predicados do estilo, da estrutura dos diálogos, da construção dos personagens e de enlevados pensamentos, o que distingue essa obra são as mensagens – temas subjacentes - e as indagações do personagem pela busca da sua realidade. Pode-se até, com o passar do tempo, perder-se na lembrança o roteiro, os personagens e a história desse livro. Tudo isso poderá sumir. Porém, dificilmente as reflexões sobre a memória, sobre o sentido da vida e do suicídio, sobre a senilidade e sobre as interpretações históricas irão se apagar.

Observações adicionais:
      a)   O livro trouxe à tona outras referências literárias e cinematográficas acerca de visões e interpretações dos fatos - como exemplos: (1) o clássico filme do século passado: "Doze homens e uma sentença": (2) livro do Eduardo Giannetti: "Autoengano";
      b)    Merece destaque a primorosa tradução de Léa Viveiros de Castro.




[1] Ver site de Julian Barnes.com e notas de Ana Lima no site https://livroseraquetes.wordpress.com,
[2]  ´Léxico é o conjunto de palavras existente em um determinado idioma, que as pessoas têm à disposição para expressar-se, oralmente ou por escrito em seu contexto. ´
[3] Ver o texto da Ana Lima no site referenciado na nota 1
[4] Em Grande Sertão – Veredas

Imagem: "Retrato de Roger" (1938), OST de Anthony Morris

terça-feira, 10 de março de 2020

Todos os abismos convidam para um mergulho

de Cinthia Kriemler


por Priscila Fernandes Costa


Cinthia Kriemler nasceu no Rio de Janeiro, mas mora em Brasília desde 1969. É formada em Comunicação Social/Relações Públicas pela Universidade de Brasília. Começou a se aventurar na escrita ficcional aos 50 anos de idade e nunca mais parou de escrever. Autora de livros de contos e poesia, estreou no romance com o livro Todos os abismos convidam para um mergulho, com o qual chegou a finalista dos prêmios Jabuti e São Paulo de Literatura, em 2018.

Nesta obra impactante de Cinthia vamos conhecer o cotidiano de Beatriz, uma assistente social do DF convivendo com as dores e as agruras de sua clientela composta por crianças abusadas, mulheres violentadas e maltratadas, maridos abusadores, estupradores e violentos, exploradores de mulheres, drogados, alcoólatras, traficantes, assassinos em série, pais negligentes, pedófilos, etc. Não bastasse os sofrimentos com o quais convive no dia a dia do trabalho, Beatriz traz consigo a dor de ter perdido sua única filha, que aos 14 anos de idade comete suicídio, depois de um prolongado período de depressão. Laura, a filha, aos cinco anos transformou-se numa criança que não sorria, não queria brincar e se refugiava por longos períodos em seu quarto. Apresentava, ainda, alguns sintomas incomuns tais como insônia, irritabilidade sem motivo aparente e choro convulsivo cada vez que se via separada dos pais. Beatriz sempre achou que esses comportamentos eram devidos à morte da cachorrinha da família. Pipoca, a cachorrinha, despendeu-se da mão de Laura para correr atrás de outro cachorro e acabou sendo atropelada diante da menina, que tudo assistiu sem esboçar nenhuma reação. Laura sequer chorou, mas a partir daí apresentou os primeiros sintomas. Passou, também, a se preocupar com a questão da morte, perguntando várias vezes se os pais iriam morrer e a ter medos noturnos a ponto de ter que dormir com o abajur aceso. Depois vieram os frequentes acidentes domésticos: esbarrões nas portas e nos móveis e quedas com cortes, luxações e torções. Um ano mais tarde Beatriz encontra Laura sentada sob o chuveiro, puxando os cabelos até arrancar tufos. Quando a mãe tenta impedi-la, passa a bater a cabeça na parede até sangrar. As automutilações ocorriam com bastante frequência. Somente quando estava com 12 anos veio o diagnóstico correto: Laura sofria de Depressão Severa. O sol negro da depressão  venceu, tempos depois. Laura tomou muitos comprimidos com uma lata de cerveja, apagou a luz, se cobriu e virou para o lado, como quem vai dormir. Deixou para trás a vida atormentada.  Na manhã seguinte o pai a encontrou morta.

O diagnóstico de depressão desaba contundente sobre Beatriz, trazendo consigo sentimentos de remorso e culpa. Chora abraçada aos joelhos por um bom tempo, depois se levanta e vai  consolar o marido desolado.  Em seguida, Beatriz sai de casa em busca de punição e de sexo. Pega o primeiro homem que a encara e transa com ele, um desconhecido que lhe diz coisas sujas e a trata como vadia. Encontrou enfim sua penitência e nunca mais parou de usar o sexo com estranhos como uma válvula de escape de suas dores.

Bernardo, seu marido, indignado e ferido com as traições de Beatriz, grita, xinga, se desespera e finalmente a manda embora, e ela vai, sem discutir ou argumentar. Por vingança, ele ainda tira-lhe a guarda da filha.  Segundo a descrição de Beatriz, Bernardo é um homem profundo, inteligente e direto. Depois da morte da filha, eles mantém uma proximidade cordial, um pacto de tolerância mútua, que será rompido quando ele conhece Sofia, uma mulher cheia de vida, bonita, jovem, segura e moderna. Bernardo informa-lhe, então, que vai se casar e que será pai novamente. Daí  nasce Mariana, outra filha.  Meses depois, ele tem um AVC que o levará à morte. Ninguém estava a seu lado quando morreu, estava sozinho. Uma pessoa sozinha deveria pensar na própria morte. Que pode não ter tempo para pedir socorro, pensa Beatriz.

Beatriz, ela também, vem de um lar desestruturado e bastante abusivo. Sua família é composta por um irmão gêmeo, Gustavo, que mora no exterior e sua mãe, Maria Estela, que vive no Rio de Janeiro. Do pai, já morto, só restam as marcas dos maus tratos que ele lhe infligiu. Era um homem perigoso, um homem violento para quem a disciplina e as regras importavam mais do que qualquer afeto.  Ela e o irmão acatavam as ordens paternas por puro medo dos castigos, que doíam muito. Além de apanhar, eram privados de comida e diversão e não podiam conversar um com o outro. Qualquer coisa podia ser motivo para os castigos, uma nota 7 ou 7,5 em qualquer disciplina, uma corrida dentro de casa, um banheiro molhado, um prato sujo na pia, uma cadeira fora do lugar, um tênis fora do armário, etc… e a TV não podia ser ligada. Isso fez com que Beatriz aprendesse a mentir cada vez mais. Na rua fazia tudo o que era proibido. Pensa que por isso tornou-se uma mulher incapaz de cuidar e proteger a própria filha, tal como sua  mãe. Quando Laura morreu sentiu muita vergonha de si mesma.

A mãe também sofria os maus-tratos do marido e também tinha muito medo dele. Havia muita briga e tapas que deixavam marcas apenas nos lugares em que as roupas cobriam. Apanhava em silêncio para que os filhos não ouvissem. Era ameaçada de que se se separasse ficaria sem nada, de que perderia a guarda dos filhos ou de que a mataria se ela se envolvesse com outro homem. As ameaças eram trocadas por sexo e obediência. Ela fingia nada ver do que acontecia com os filhos.

Maria Estela tinha uma preferência explícita por Gustavo e uma relação hostil com Beatriz. Foi uma mulher  infeliz a vida inteira e  usou a própria miséria para atormentar a vida da filha. Nunca existiu nenhuma empatia, nenhum afeto entre as duas, apenas mágoa e ressentimento. Nunca houve uma frase, um gesto de aproximação ou qualquer indício que demonstrasse que ela se preocupava com a filha. No enterro da neta chegou ao ponto de dizer à Beatriz que a menina havia morrido por causa dela. Quando Maria Estela chega de surpresa à Brasilia, Beatriz é tomada de muita raiva. Diante da intromissão materna em sua vida, coloca pra fora anos de ressentimentos acumulados e finalmente a manda embora. Passado  algum tempo, Gustavo retorna ao Brasil com o propósito de confrontar a irmã e diz-lhe que a mãe está com Alzheimer. Gustavo se mostra cortante, cobrando dela mais consideração e cuidado para com a mãe. Aos pouco Beatriz vai se dando conta de que a cumplicidade que ela acreditava existir entre ela e o irmão era unilateral.

Desenganos e decepções vão compondo a história de Beatriz, violência, abandono, desamor e abusos costuram seus vinte anos de Serviço Social. Jean Charles, um garoto de oito anos, é um dos casos que ela acompanha.Vítima de abusos sexuais e agressões diversas, é transferido, juntamente com sua mãe, para uma casa abrigo para escapar do pai pedófilo. Os abusos que ele infligia ao filho eram sempre acompanhados de palavras obscenas e ameaças. Nos olhos da criança vê-se medo, desconfiança e um pedido de socorro. Filho e mãe estão indo para o interior de Minas Gerais para a casa da avó, onde ele pode brincar, comer bolo de milho, dormir na rede e tomar banho de rio.  O pai, enraivecido pela fuga dos dois, vai atrás, mas eles já não estão mais lá. Tentando tirar da avó o paradeiro da mulher e do filho, bate com a cabeça dela no chão várias vezes. Como resultado ela foi internada em coma no hospital e ele foi preso; o advogado alega privação de sentidos. Depois de solto o pai de Jean Charles invade a casa abrigo e  faz o filho de refém. Ele está armado e ameaça atirar na cabeça do menino. Beatriz é chamada, no meio da noite, a pedido da mãe. Na tensão do momento ela diz bem alto: “Você não manda nada, sabia? Nem aqui nem em lugar nenhum. Você é só um covarde que bate em velha, mulher e criança”. O tumulto que suas palavras provocam no agressor possibilita que Jean Charles corra e se proteja. Os policiais  matam o homem quando ele aponta a arma para Beatriz.

A imprudência de Beatriz traz consequências: ela é afastada de suas atividades e terá que se submeter a uma avaliação psicológica. Essa determinação a coloca no consultório de Clarice, uma psiquiatra designada para avaliar e atestar se e quando Beatriz estará apta para retornar ao trabalho. Clarice recomenda seu retorno com a condição de que ela concorde em fazer terapia durante um ano, duas ou três vezes por semana, sem faltas, sem tentativas de controlar ou manipular e sem mentiras. Acordo firmado.

Ao longo dessa trajetória percorrida por Beatriz encontramos outras tragédias acompanhadas por ela. O caso de Antonio e Cícero, dois irmãos de 15 e 13 anos respectivamente, levados pelo Conselho Tutelar por estarem sendo explorados sexualmente, desde muito pequenos, pelo pai e com a anuência da mãe.

Ou ainda o caso de Maria Fernanda, 39 anos, casada, sem filhos, presa durante um ano dentro da própria casa, sofrendo ameaças, apanhando e sendo estuprada quase todos os dias pelo marido. Comia o que ele determinava, era privada de música, TV, livros, computador. Se reclamasse, apanhava. Maria Fernanda matou o marido por medo, em legítima defesa.

Isabel, a menina que não queria falar. Ao ser examinada constatou-se agressões físicas, mas sem indícios de abuso sexual. O principal suspeito foi o pai, que foi preso e mantido sob supervisão médica e psiquiátrica. Mas a verdade é bem outra. Isabel provocou os ferimentos no próprio corpo. Mais um caso de uma criança sofrendo de depressão, esta doença que come por dentro, que vai minando as pessoas, as relações. Só sofrimento, impaciência, cansaço e descrença.

Fazer a resenha do livro de Cinthia Kriemler não é uma tarefa fácil. Embora ela tenha uma escrita fluida e clara, o livro é escrito num estilo que contempla realidades cotidianas passadas e presentes, com uma narrativa que lembra, algumas vezes,  um diário, e em outros momentos  parece um exercício de livre associação, como se tudo o que é relatado se passasse em seu pensamento, numa espécie de diálogo consigo mesma. Sem meias palavras Cinthia escancara os abismos que nos habitam e revela o que há de pior em cada ser humano, de maneira crua e brutal. A violência nossa de cada dia.

A Dor me parece ser o personagem central do romance: dor por uma mente magoada pelos abusos que desqualificam e enfraquecem,  dor de um psiquismo  minado por transtornos que levam à depressão, dor devido ao amor mal sucedido ou não correspondido, dor por se ver no mundo absolutamente desamparado, dor presente na miséria, na fome, na velhice, na opressão, na solidão. E sobretudo a dor devastação causada pelo suicídio de alguém amado e desejado. “Doer, dói sempre. Só não dói depois de morto. Porque a vida toda é um doer.”  Estes versos de Raquel de Queiroz estão na epígrafe do livro.

Em um vídeo recentemente divulgado pela internet ficamos sabendo que nos últimos 15 anos o número de suicídios de crianças na faixa de 10 a 14 anos sofreu um aumento de 200%. Cifra alarmante que nos convoca para olhar com mais cuidado para nossas crianças. Mas o que podemos dizer dos pais cujos filhos tiraram a própria vida? Como lidar com a culpa, com o sentimento de impotência, com a constatação da cegueira defensiva que recusa a ver os sinais da desorganização psíquica, com a raiva pela morte almejada e autoinfligida, com a impossibilidade de um luto realizado?

A psicanalista francesa de origem iuguslava Radimila Zygouris, num artigo intitulado Uma palavra que falta, chama a atenção para um fato de tão grande obviedade, mas que ao mesmo tempo passa absolutamente despercebido por nós: falta uma palavra para designar a mãe ou o pai que perdeu um filho, que está de luto por seu filho. Essa ausência existe, senão em todas as línguas, pelo menos em um número considerável delas. Como entender este vazio da língua? Para Radimila, a explicação para este vazio nas línguas está inscrita na história da humanidade, e a resposta se situa no intervalo que separa a fantasia da realidade, a fantasia vindo se situar justamente no lugar no qual a linguagem falha em nomear.

Em psicanálise fantasia e realidade são dois termos que se opõem, mas que mantém uma fronteira passível de transposição. Uma passagem possível entre realidade e fantasia seria a assombração. A assombração vem de algo que efetivamente aconteceu na realidade, mas que assumiu autonomia psíquica, tornando-se modalidade de espera de uma realidade futura. É a representação de um medo,  e vem dar forma à angústia. Para os pais, a morte de uma criança é da ordem da assombração: não é raro encontrarmos pais que vivem assombrados pelo medo de que seus filhos venham a morrer. Ponte entre o passado ancestral e a espera de uma catástrofe futura. Retorno do passado no aqui e agora.  Nesse sentido, a palavra que falta é representada pela fantasia que diz respeito à criança que sofreu um dano.

Historicamente, a tristeza causada pela perda de uma criança, ainda que essa morte seja frequente e faça parte do destino comum, diz respeito a um registro privado e não nomeia os pais em luto por ela – assim como também não existe uma palavra para designar os enlutados da fratria –, enquanto  a morte de um adulto era inscrita socialmente e apontava uma posição passiva para os sujeitos enlutados, tais como órfã(o) ou viúvo(a). Do ponto de vista da coletividade a criança não tinha representação social.

Pode-se constatar a persistência, até o final do século XVII, do infanticídio tolerado. Não se tratava de uma prática admitida e era, de fato, severamente castigada. No entanto, era praticado em segredo, talvez com bastante frequência, disfarçado sob a forma de acidentes. Tais acontecimentos faziam parte das coisas moralmente neutras, isto é, algo que, embora não confessado, não era considerado vergonhoso. Então pode-se pensar que a assombração sempre pronta a surgir na vida destes pais que perdem seus filhos diz respeito aos acontecimentos  inscritos na história da humanidade onde muitas vezes o assassinato de crianças era praticado sem que isso fosse visto como um dano às família ou à sociedade. Nesse sentido, no nível do inconsciente, toda morte de criança é assassinato de criança.

Intrincação do singular e do coletivo nossos atos fazem história, história da qual a língua se torna memória, por meio das palavras, das metáforas, dos ditos e dos não-ditos. Ela veicula a memória de todos os possíveis, de  todas as monstruosidades das quais os humanos são capazes. E se a  língua ainda não gravou essa palavra que falta para designar a mãe e o pai que perdeu um filho, não permite, igualmente a este pai ou esta mãe ocupar uma posição passiva de vivo perante a morte de seu filho. Talvez isso se dê justamente por que não se pode falar de posição passiva do adulto ante tal acontecimento. A morte real da criança vem redobrar o fantasma da criança morta, da criança assassinada. Recobrimento do silêncio de si pelo silêncio do outro. O infans morto é, desse modo, o buraco negro da representação da palavra.


***

*Priscila Fernandes Costa é psicóloga, psicanalista e fundadora do Percurso Psicanalítico de Brasília.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

O ROUXINOL

de Kristin Hannah



Leiothrix lutea, vulgarmente conhecida por Rouxinol do Japão, é uma ave de cerca de 15cm, identificada em 1786.


por Mônica Ferreira Dias


Kristin Hannah, americana, ex-advogada que largou advocacia para se dedicar à escrita. Autora de mais de 20 livros, dentre eles O Rouxinol, adaptado para o cinema com as irmãs Dakota e Ellen Fanning estrelando as personagens principais.
Indicações do livro:
- melhor livro do ano de 2015
- melhor novela histórica de 2015
- ganhadora da ficção favorita pela escolha popular
- melhor livro do ano pela Amazon, Buzzfeed, iTunes, Library Journal, Paste, The week e Wall Street Journal

França de 1939, início da 2ª. guerra, na aldeia de Carriveau, cenário para história de duas irmãs, Vianne e Isabelle Rossignol, de temperamentos e atitudes divergentes e que procuram sobreviver aos horrores da guerra. Contado pela irmã mais velha, Vianne, francesa que migra para Estados Unidos para refazer a vida pós-guerra com marido Antoine e a filha Sophie,
Após a morte da mãe, o pai deixa as duas filhas para serem criadas por uma mulher na aldeia de Carriveau. Vianne, retraída e sentindo-se abandonada consegue recuperar o vazio da família quando engravida de Sophie e resolve seguir a vida com Antoine. A irmã Isabelle, rebelde desde sempre, passa por vários internatos e acaba indo morar com o pai em Paris, mas quando a guerra começa o pai a manda para o interior morar com a irmã. Após Antoine seguir para o front, convocado, as três precisam conviver com um oficial alemão que se aquartela na casa de Vianne durante a ocupação alemã. Enquanto Vianne busca a todo custo manter a harmonia da casa, Isabelle acaba se juntando à resistência tornando-se peça fundamental na rota de fuga de pilotos aliados abatidos. Este personagem teve inspiração em uma berlinense que ajudou grupos de imigrantes e perseguidos por uma rota a pé pelos Pirineus.[1]
Vianne não fica atrás quando a partir do momento que esconde Ariel, filho de sua amiga judia, Rachel, acaba também se envolvendo com a criação de uma rota de fuga de crianças judias enquanto possui um alto funcionário alemão convivendo dentro de sua própria casa. Isabelle é presa pela Gestapo, depois vai para campo de concentração e consegue voltar para Carriveau para morrer de câncer em casa. O mesmo fim tem a filha de Vianne, Sophie que morre de câncer, Antoine retorna fugido de um campo de prisioneiros e, Ariel, filho de Rachel mas criado como irmão de Sophie, ao final da guerra é encaminhado para família americana pelos rabinos que passam resgatando crianças judias, órfãs de guerra.
O romance, narrado em terceira pessoa por uma das irmãs que só ao final se revela, relata uma guerra sob a perspectiva feminina: estratégias de sobrevivência pessoal, dos filhos e dos amigos próximos, filas pela busca de alimentos racionados, a aparente normalidade da rotina da escola das crianças, o medo permanente dos soldados pelo vilarejo e de seus modos violentos e autoritários e, por fim a excruciante rotina de violência física do novo aquartelado alemão Von Richter.
Alguns capítulos são narrados em primeira pessoa no momento presente (1995), por Vianne que ao aceitar convite do evento de comemoração dos 50 anos de término da guerra com homenagem especial pela atuação clandestina do “Rouxinol”, codinome de sua irmã Isabelle para libertação de pilotos abatidos, revela em seu discurso um passado inexistente para Julien, seu filho fruto da relação com o alemão.
O romance procura destacar um lado esquecido da história em que as batalhas diárias travadas pelos que ficaram na terra ocupada e que não foram menos horrendas das vividas por aqueles que estiveram no front.
Romance de leitura fluida, sem grandes construções linguísticas e descritivo de cenários – como o Emblema vermelho da coragem de Stephen Crane, mas que proporciona horas de leitura agradável.
Algumas lágrimas podem teimar em deixar os olhos.
Demais livros podem ser pesquisados no site da autora - https://kristinhannah.com/
Recomendo.


[1] Trata-se de Lisa Fittko que guiou sucessivos grupos de judeus, políticos e intelectuais alemães entre 1040/41 através dessa rota, que mais tarde ganharia seu nome – “Rota F”, sendo um deles, o filósofo alemão Walter Benjamin. Seu diário originou o livro “Minha Rota Através dos Pirineus. Memórias 1940/41”, a ser lançado no Brasil pela Editora Relume Dumará.

terça-feira, 10 de dezembro de 2019

ATRÁS DA CATEDRAL DE RUÃO


Conto de Mário de Andrade

por Cristiane Rauen

Sobre o livro

"Contos Novos", publicados postumamente em 1947, foram escritos por Mário de Andrade. A obra reúne nove narrativas da maturidade artística do autor, de estrutura moderna, que acolhem as principais correntes ficcionistas que marcaram a Literatura Brasileira das décadas de 30 e 40.

Análise do conto

Mademoiselle, uma francesa solteirona de 43 anos, é a preceptora das filhas de Dona Lúcia, mulher rica e separada da São Paulo do início do século XX. 
Alba e Lúcia são as adolescentes de 15 e 16 anos atendidas por Mademoiselle, inicialmente em aulas de francês, e, com o passar do tempo, como dama de companhia. 
As meninas são bastante viajadas, conhecem outras línguas e culturas e acabam elas mesmas sendo a companhia que falta a Mademoiselle, mantida como acompanhante mais por piedade do que por necessidade. 
Conversam sobre tudo, e o assunto preferido é a presença masculina nas diversas experiências que as meninas viveram (ou fingem viver) e que acabam por perturbar a preceptora frustrada. 
Mademoiselle vive adoentada, resfriada e com uma coriza constante. É tomada por obsessivos anseios sexuais - "um vendaval de mal de sexo", e dissimula seus impulsos em conversas com suas pupilas, que são cheias de trocadilhos infames, numa língua que o autor denomina “franco-brasileira”.
Os diálogos entre elas são sempre em francês e contém muitas expressões de duplo sentido que podem acabar por tornar a leitura um pouco cansativa, principalmente para aqueles que sentirão necessidade de traduzi-los. 
Apesar de a não tradução não prejudicar a compreensão da obra, os trocadilhos são em essência um recurso utilizado pelo autor para explicitar os conflitos internos vividos pela personagem principal, com suas constantes repreensões às falas das meninas e risinhos histéricos.
A narrativa da obra é onisciente em terceira pessoa. Essa opção permite ao narrador explorar as angústias e aflições da personagem influenciado, aparentemente, pela psicanálise e pelas ideias freudianas, bastante popularizadas em todo o mundo naquele período. Lembrou-me, nesse sentido, o tipo de narrativa e de história do conto lido no ano passado: "Capote". Uma interessante coincidência.
É também intrigante a forma como o autor, apesar da narrativa onisciente, opta por distanciar-se da personagem principal, sem denominá-la, apenas referindo-se a ela de forma irônica ou pejorativa - Mademoiselle, velhota etc.
O ponto auge da obra se inicia quando as meninas contam a Mademoiselle o episódio em que haviam presenciado atrás da catedral francesa de Ruão um homem barbudo em atitude suspeita. 
Dividida entre a curiosidade, o temor e o desejo, Mademoiselle passa a desviar seu caminho para a pensão onde mora e a dirigir-se aos fundos das catedrais da cidade para quem sabe passar por experiência semelhante.
Em dada ocasião, durante um evento em que acompanhava a família de Dona Lúcia, bastante resfriada, a preceptora acaba por tomar mais rum do que devia. No caminho de volta para casa tem alucinações com os passageiros do bonde. Em suas fantasias, vários deles a perseguem, tentando sequestrá-la.
Assustada, Mademoiselle desce num ponto anterior ao seu e percebe-se próxima à catedral de Santa Cecília (ou seria a Catedral de Ruão?). 
Ainda aturdida, porém sem hesitar, contorna a catedral e percebe-se seguida por dois homens (de barba?). 
Mademoiselle chega a delirar que eles a alcançariam e a violentariam sem piedade, tal como acontecera em sua imaginação no episódio atrás da Catedral de Ruão. 
Chegava a visualizar o crime hediondo, as roupas ensanguentadas e rasgadas, as pessoas que encontrariam o seu corpo no dia seguinte, e o terror das meninas ao receberem a notícia. Pobres meninas!
No entanto, na real experiência vivida por Mademoiselle, os homens da Catedral de Santa Cecília sequer se aproximaram. Apenas, por coincidência, fizeram o mesmo trajeto e encontram-na na porta da pensão. 
O desfecho da obra é irônico e imprevisível. Mademoiselle, já acolhida na entrada de sua pensão, ao ver os homens se aproximando, obstrui sua passagem e oferece a eles dois níqueis como forma de agradecimento pela companhia.
Esse desfecho enfatiza a constante oposição presente na obra entre o moralismo e os instintos naturais femininos, que devem (claro!) ser reprimidos, disfarçados tanto na forma da linguagem quanto no acometimento da saúde física e mental da protagonista. 
O possível acometimento psíquico de Mademoiselle demonstra, ainda que implicitamente, uma forma de histeria. Vivenciar a experiência no percurso atrás da Catedral corresponderia a uma espécie de tratamento, de alívio à sua condição, motivo pelo qual os dois sujeitos que abalaram o seu imaginário mereceram o devido ressarcimento financeiro.
Trata-se de obra bem desenhada, repleta de duplos sentidos, de dualidades, do implícito que revela o verdadeiro, o real. A apresentação de uma senhora aturdida em busca de seu feminino, de sua essência, tal qual uma sociedade à procura de sua identidade, do novo, de novos caminhos, novos contos, de Contos Novos. Recomendo com entusiasmo!  

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ilustração: foto de OSM de Zuleno Pessoa (1977)

Atrás da Catedral de Ruão

de Mário de Andrade



Comentários de Priscila Fernandes Costa

Depois de ler o conto de Mário de Andrade me pareceu poder considerar que estamos, aí, diante de uma fantasia tipicamente masculina. Esta afirmação pode parecer paradoxal e, então, convoca a um esclarecimento. A história se desenvolve em torno de uma professora de francês, conhecida apenas como Mademoiselle, 43 anos, e de suas duas pupilas, as irmãs Lucia, 16 anos e Alba 15 anos. Mademoiselle é uma “donzela” descrita como “envelhecida”, uma “velhota”, dizem, “mais destratadinha agora, coitada”, e totalmente tomada por um “vendaval de mal de sexo”. Estabelece com as adolescentes um relacionamento dúbio, com diálogos cheio de insinuações eróticas, falas  de duplo sentido, onomatopéias maliciosas, reticências e curiosidades malignas e relatos fantasiosos misturados de sensualidade e violência que devastam a professora. Quando se vê pega na “armadilha” das meninas, ela reage com arroubos de pudor e nojo fingidos, como que escandalizada frente às bobagens “muito freudianas” que elas dizem. “Mademoiselle caíra naquele mundo mágico de anseios” que era o das duas jovens. Por isso, quando houve de Alba o que acontece atrás da catedral de Ruão... “nós vimos um homem de barba, a senhora entende... A história atiça os anseios de Mademoiselle de tal forma que todas as vezes que precisa sair à rua para ir à farmácia, se vê impelida, intimada mesmo a passar atrás da catedral da cidade, embora essas incursões redundem em desilusão: nada lhe acontece.  Numa noite, ao voltar para casa percebe estar sendo seguida por dois homens e a partir de então cai num devaneio no qual se vê na iminência de ser violada sem piedade. Apressa o passo, corre ofegante, dobra a esquina de sua rua e chega finalmente na porta da pensão em que mora. Os homens se aproximam “em sua conversa distraída”; tudo, então, não passou de fantasia, quimera... Mademoiselle sobe as escadas correndo e vai chorar.
Neste conto Mario de Andrade parece apostar que o grande anseio amoroso das mulheres, sejam elas jovens ou maduras, é o de ser seduzida e violada pelo homem de seus sonhos, bem ao estilo de uma leitura apressada dos primeiros desenvolvimentos de Freud a propósito das fantasias de suas pacientes histéricas. Freud constatou que a fantasia de sedução é primordial no desenvolvimento deste tipo de neurose  (embora não seja uma exclusividade das histéricas), e que muitas de suas pacientes viviam essas ficções como acontecimentos reais. Mas percebeu que entre fantasiar e passar ao ato propriamente dito existe uma enorme distância . O ato de fantasiar é próprio da subjetividade humana e constitue a nossa realidade psíquica.
Para o olhar masculino, incluindo aí o próprio Freud, a feminilidade foi sempre um enigma, um continente negro misterioso a ser explorado. Ele confessou, por exemplo, que não sabia o que fazer com a sexulidade feminina, esse desconhecido que se torna fonte de angústia e de fantasias projetivas, sobretudo nos homens. Nos últimos anos de sua vida ele escreve “Se vocês quiserem saber mais sobre a feminilidade, interroguem suas próprias experiências de vida ou enderencem-se aos poetas”. Ao longo da história, essa irrepresentabilidade do feminino tem servido de palco para um verdadeiro circo de horrores, onde todos os medos, todas as angústias, todas as maldades são encenadas; nele se representam o diabo e a santidade, as possessões demoníacas, os martírios e as loucuras da humanidade. A resposta mais comum dada pelos homens a este traço inefável da feminilidade foi o de tornar as mulheres sedentas de falo em função da famigerada inveja do pênis – outra noção freudiana mal compreendida e deturpada pelo imaginário popular –, ao se descobrirem desprovidas do órgão fálico tão valorizado pelo personagem viril.
O complexo de Édipo é para Freud um fundamental divisor de águas tanto no que diz respeito à entrada da criança no mundo da linguagem e da cultura, quanto um elemento primordial na diferenciação entre o masculino e o feminino. Com o surgimento  do Édipo, cujo evento desencadeador é denominado complexo de castração, a identidade sexual de meninos e meninas tomam caminhos bem distintos. Enquanto o menino renuncia ao gozo infantil do desejo pela mãe para preservar sua potência fálica a ser vivida ao longo da vida (assim ele sai do complexo de Édipo), a menina volta seu amor para o pai, ingressando, então,  no complexo de Édipo. Devido ao medo da perda do amor dos pais ela irá renunciar gradativamente a esse desejo, transferindo-o, mais tarde, para outros homens. Desejo (sexual) e amor são as duas saídas desse tempo do desenvolvimento psíquico, indicando destinos próprios do lado masculino e do feminino, respectivamente. Não estou com isto querendo dizer que o sexo não é importante para nós mulheres; as mulheres também gostam de sexo. Apenas que o sexo não tem a mesma representação que para os homens. Não precisamos comprovar o tempo todo nenhuma potência fálica, nos basta, muitas vezes, o olhar desejante do outro que nos coloca como causa de seu desejo.
O conto, então,  pode ser lido como uma representação das fantasias masculinas diante do desejo pela mulher. Serve também para apresentar as fantasias das mulheres que toman posse do inconsciente do homem, como a dizer que cada sujeito deseja o desejo do outro.
Já que estamos falando  em fantasia, aproveito para interrogar sobre o que poderia ser a fantasia que move Mario de Andrade neste conto? Poderia ser a personagem de Mademoiselle uma representação da figura materna do autor, uma espécie de alter ego da mãe, mas colocada como portadora do lado “sujo”, denegrido que a sexualidade dos pais representa no imaginário dos filhos? Ou ainda uma representação denegada de seu amor infantil por ela? – na medida que Mademoiselle é descrita como desprovida de encantos e, portanto, indesejável. Ou quem sabe, trata-se aí  de um jogo de espelhos: o desejo de Mademoiselle é mediado pelo desejo do autor?
Enquanto pensava nessas questões me lembrei do filme da diretora Ana Carolina de nome “Das Tripas Coração” (1982),  que enfoca muito bem a fantasia masculina sobre o que se passa vida sexual das mulheres. Recomendo também outro filme em cartaz de título “A vida invisível”, do diretor Karin Ainouz, de uma beleza dilacerante. Poder-se-á constatar, então, o abismo existente entre a subjetividade masculina e a feminina.
Para finalizar, vale dizer que a dramaticidade da situação descrita no conto é demolida pela ironia fina, pelas insinuações jocosas e picantes e pelo humor cáustico.   Ressalto também que em sua escrita Mario de Andrade brinca o tempo todo com as palavras, fazendo uso de inúmeros neologismos, tais como: afrosa, buscular, knadapantes, zunite, gluante, ecruladas. O neologismo semântico é de grande valor para a psicanálise. Eles são uma marca da prevalência do inconsciente no discurso concreto. Partindo da tese de que a linguagem é a condição do inconsciente, os neologismos apontam para um outro discurso, cuja significação precisa ser estebelecida. Eis aí, pois, o discurso do inconsciente, que ao mesmo tempo que propõe enigmas a serem decifrados, descortina a verdade do sujeito.


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ilustração: reprodução de Claude Monet da série Catedral de Notre-Dame de Rouen. 
As 31 pinturas da série (1890) pretendiam capturar a fachada da catedral em horas diferentes do dia e do ano.