terça-feira, 12 de novembro de 2019

FLORES

de Afonso Cruz

Comentários de Carlos Guido Azevedo


Alguns autores se identificam conosco de maneira direta e sólida, outros demoram mais um pouco, precisamos conhecer melhor seus estilos e valores para que entrem no restrito campo dos amados, admirados e respeitados.
Mas, há aqueles que gozam do direito inquestionável de não agradar. São os que abrem novos estilos, os que avançam mostrando novos caminhos e não comungam com seus contemporâneos, nem buscam modelos já aprovados dos grandes sucessos. Parece-me ser o caso do Luiz Ruffato no Eles Eram Muito Cavalos e de Afonso Cruz agora no Flores.
Não encontrei o lugar comum em seu livro, não vi a construção de um herói, nem a linhagem do bem contra o mal. Seus personagens parecem de carne e osso, não são bons e às vezes são inquestionavelmente humanos.
Vejo o quebra cabeça com que ele conta a estória em primeira pessoa, se assumindo como um cidadão em pleno gozo de sua incapacidade de amar e se definir como uma pessoa feliz. Vejo sua insegurança doméstica, sua dificuldade de estar inteiro na ação, ausente mesmo quando está em casa, incapaz de observar os detalhes. Sua conversação é sacrificada e quase sempre involuntária. Fala pouco até ao seu espelho e menos se compreende.
No livro Flores, Afonso Cruz deixa um legado de lições, para homens e mulheres contemporâneos, escondido numa estória a princípio trivial de um casamento desfeito, uma filha incompreendida, um vizinho sem memória e uma instigante e inconsequente busca do personagem pela memória do outro, como se coscuvilhasse a própria vida.
Gosto de livros que deixam lições intrigantes. Que não se esvaem com o fim da leitura ou com o desenlace da trama urdida para manter a atenção do leitor.
Será que um chapéu em cima da cama quer dizer mais que simples desleixo? Já li esta ojeriza em outros autores. E comer o melhor da torrada ou quebrar a gema do ovo preferido é motivo para briga, contestação e separação?
Até que ponto o espelho fala a verdade?  Por que o desvendar das maldades e perversidades do senhor Ulme não o levou a se eximir ou expiar qualquer culpa?  Por que ele foi até admirado em suas ousadias e maldades, como a capacidade de vender ingresso para a sua lua de mel; de entregar sua amada para ser torturada pela DIP e de construir um GOLEM para denunciar a maldade no mundo? 
Porque, penso eu, ele representa o alerta para que tenhamos mais profundidade na espessura dos nossos pensamentos e mais elevação em nossas ações. Que estejamos atentos aos outros em detalhes e tenhamos, por fim, cuidados para não sermos transformados em GOLENS vivos consubstanciados pela maldade exalada pelos meios de comunicação que nos mergulham em notícias catastróficas, em detalhes de crimes hediondos, crimes ambientais, crimes de toda espécie que põem em risco nossa sobrevivência como espécie.
Afinal, um corpo de mulher nua é o supremo perdão!    Gostei - Recomendo

terça-feira, 15 de outubro de 2019

O Triste Fim de Policarpo Quaresma

de Lima Barreto




por Carlos Guido Azevedo

Quase todas as resenhas que li dos livros de Lima Barreto começam assim: Afonso Henriques de Lima Barreto nasceu em 13 de maio de 1881 na cidade do Rio de Janeiro. Sua família era negra e humilde e seus pais descendentes de escravos. Ele ficou órfão de mãe quando tinha apenas 6 anos de idade. Lima Barreto foi um dos principais escritores do pré-modernismo brasileiro. Além de escritor, ele foi jornalista e suas obras estão relacionadas com temáticas sociais e nacionalistas, esta não será diferente.
Uma síntese do livro em grandes pinceladas:
Triste fim de Policarpo Quaresma foi escrita em 1911 nos folhetins da época, eram as novelas de então. Narrado em terceira pessoa em três partes bem diferenciadas:
Primeira parte - A lição de Violão - Na qual Policarpo Quaresma é apresentado como um funcionário público preocupado em valorizar a nacionalidade, dando maior consistência à cultura verdadeiramente brasileira e vencendo as representações e valores coloniais. Sem muitos amigos, vive isolado com sua irmã, mantendo hábitos metódicos há trinta anos. Com vasta biblioteca de autores nacionais, acaba por acreditar que tudo no Brasil é superior aos outros lugares. Buscando uma cultura nata, ele propõe a substituição do português pelo tupi, a verdadeira língua do Brasil. Objeto de ridicularizarão e escárnio público é aposentado por invalidez, depois de passar alguns meses no hospício.
Segunda parte – No “Sossego” – Na qual Quaresma se recolhe a uma fazenda e procura realizar seus delírios de grandeza de produção agrícola na terra que julga mais fértil do mundo. A ponto de dispensar a adubação e ir buscar esse ideal de produção com esforço pessoal, muitos livros sobre agricultura e maquinarias específicas, mas logo seu projeto agrícola é derrotado por três inimigos implacáveis: A política local, a ausência de infraestrutura e a saúva. Desanimado, estende sua dor à pobre população rural, compreende sua anomia, antes criticada, e verifica a necessidade de uma nova administração, que resume em um “Projeto Agrícola” entregue ao Presidente Floriano, seu conhecido do Arsenal do Exército.
Terceira parte – Patriotas – Narra as aventuras militares de Quaresma em apoio ao Marechal Floriano que assumira a presidência por renúncia do Marechal Deodoro e estava sendo contestado por políticos monarquistas regionais com apoio da Marinha, que com alguns navios bombardeavam o Rio de Janeiro, pois não aceitavam a substituição dos governadores de províncias e a colocação de civis no poder, nem a preponderância do exército. 
Quaresma que conhecia Floriano alistou-se como voluntário e mais uma vez se dedica a estudar artilharia, balística e mecânica. Mas nada disso conta num ambiente de caserna sem recursos, sem valores e com pessoas que só pensavam em promoção e no soldo. 
Chamado por Floriano de “visionário” ele se desesperou e percebeu a inutilidade de seu sacrifício de vida, mas permaneceu na caserna até o dia em que vencida a sublevação, assistiu a vários prisioneiros serem levados durante a noite para execução sumária, sem julgamento ou causa formada.
Indignado escreve a Floriano contando o que viu e é tratado como traidor da república, condenado ao fuzilamento, abandonado pelos seus amigos e companheiros, teve a morte como seu triste fim. 
Comentários
Antes de mais nada quero registrar minha admiração, respeito e verdadeira surpresa com a qualidade, atualidade e a atemporalidade deste jovem escritor brasileiro, que nas circunstâncias e limitações pessoais em que viveu, tenha produzido um clássico de tamanha envergadura e tenha deixado um acervo literário tão significativo.
Visto como um clássico da literatura pré-modernista, posto que anterior à semana de arte moderna, ele foi usado como exemplo de escrita leve e coloquial que se contrapunha ao nacionalismo exacerbado, ao romantismo platônico e à escrita empolado dos gênios parnasianos e ufanistas de então. 
Um brasileiro que soube ler os mandos e os desmandos da sua época, com precisão de escultor e com capacidade de construção de tipos característicos, não apenas de época, mas da nacionalidade nascente: Os funcionários públicos e suas mediocridades; os militares e suas ânsias por promoção; as famílias de subúrbio e sua lógica casamenteira; os advogados e suas artimanhas; a classe política e sua degeneração moral; os agricultores e suas anomias; o deslumbramento com os títulos e a ignorância como marca geral.
Soube resistir ao modernismo da filosofia positivista que grassava na época, como a grande solução para o progresso da humanidade e iluminava a república de poucos, que surgia com as transformações institucionais decidida e executada pela elite, sem participação popular, que o fez afirmar uma realidade muito contemporânea:  “O Brasil não tem povo, tem plateia”.
Minha admiração não advém de sua cor, origem ou outras considerações de sua vida, que hoje se afirmam como observações fora da ética atual do Politicamente Correto. Minha admiração vem do produto, do realizado pelo autor em tais circunstâncias e em tão pouco tempo, posto que, trabalhou como jornalista  (Correio da Manhã e Jornal do Commercio), em revistas do Rio de Janeiro (Fon-Fon, Floreal, Careta, ABC, etc.) e, ainda foi funcionário da Secretaria do Ministério da Guerra até ser aposentado por invalidez em 1914 com depressão aguda, após alguns internamentos em hospícios por dependência química ao álcool, como seu pai. Faleceu em 1 de novembro de 1922 com 41 anos de idade, deixando obras a serem publicadas até 1956. 
Escreveu romances, contos, poesias e críticas, destacando-se: 
  • Recordações do escrivão Isaías Caminha (1909)
  • Triste fim de Policarpo Quaresma (1911)
  • Numa e Ninfa (1915)
  • Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá (1919)
  • Os Bruzundangas (1923)
  • Clara dos Anjos (1948)
  • Diário Íntimo (1953)
  • Cemitério dos Vivos (1956)
Lima Barreto é em si, um exemplo muito marcante do que a sociedade brasileira, em sua histórica concentração de riqueza, perde em capacidade produtiva da maioria do seu povo. Ele mostra como é real a plasticidade e possibilidades ascensionais no Braila, em contraposição ao determinismo social de outras comunidades mais avançadas, caso houvesse investimento na maioria dos cidadãos, o país seria uma potência criativa e produtiva. 
Sua sorte pessoal, (ou nossa sorte como leitores) o fez ser apoiado pelo Visconde de Ouro Preto, que lhe permitiu ter uma boa base educacional, com acesso ao Colégio Pedro II, uma educação ainda hoje militarizada e repressora, mas que tem sido um celeiro de lideranças proeminentes na política, na arte e na cultura brasileira. 
Mesmo com muitos problemas ao seu redor e tantas limitações, continuou sua formação e chegou a cursar engenharia, tendo abandonado o curso para trabalhar e ajudar nas despesas de casa, como tantos outros jovens brasileiros ainda o fazem na atualidade. 
Contemporâneo da proclamação da república, da guerra do Paraguai e da Revolta da Armada, soube registrar estes momentos importantes da república nascente, com pinceladas certas e objetivas que parecem os momentos atuais, como se vivêssemos numa janela de seriado, como Sísifo a repetir ad infinitum os mesmos sentimentos, os mesmos erros, as mesmas incompreensões e vaidades.

Sem exagero, comparo Lima Barreto a Miguel de Cervantes e identifico em suas vidas, semelhanças nas tribulações e sofrimentos e identidade entre seus melhores personagens, sendo Policarpo Quaresma o Don Quixote brasileiro sem Dulcineia, sem Roscinante e sem Sancho Pança, mas com os mesmos sonhos e fantasias de amor e honra à pátria, sonhos de identidade, fantasias de realizações e desejos de reconhecimento e progresso. 
Don Quixote influenciado pelo excesso de leituras das aventuras de cavalaria, Policarpo enganado em sua ingenuidade pelos romances ufanistas, pelo nacionalismo exacerbado idealizado por um positivismo científico nascente, sem respaldo na realidade e na cultura da comunidade.
Dom Quixote foi o romance inaugural da nova literatura ocidental e Triste Fim de Policarpo Quaresma o romance inaugural do modernismo brasileiro. Até na história se assemelham. 
Acho as aventuras de Quaresma menos universais, mas mais realistas, enquanto o famoso cavaleiro de La Mancha tem mais amor e mais humor, permitindo a todo humano vestir sua armadura e lutar por seus sonhos. Mas ambos os sonhadores espalham simpatia, bondade e dignidade.
Don Quixote fala dos sonhos pessoais de glória e de fama. Quaresma fala dos sonhos de identidade para um povo que deseja educação e progresso, reconhecimento e respeito no enquadre das nações.
O da Mancha pôde usufruir com seus amigos e colegas o reconhecimento da própria loucura e veio a ter morte natural em sua casa, acompanhado dos familiares. O do Rio de Janeiro sofreu o abandono, a incompreensão e morreu na mão daqueles a quem defendia. 
Um se tornou herói universal, o outro motivo de chacota e humilhação. Um tornou-se poderoso instrumento de transformação de fantasia em realidade, o outro não conseguiu converter seus concidadãos em heróis da própria história, preferiram viver a própria ignorância. 
Quaresma não era um sonhador na medida em que tinha base de concretude em todas as suas considerações e perspectivas de futuro que construía para a nação, para a agricultura, para a educação e para a política. Apenas exagerava no tom.
Lima, em todos os seus escritos procurava mostrar aos seus leitores que precisavam perceber a própria realidade em que viviam, buscando um ideal de nação, de povo de futuro, queria que eles construíssem uma concepção de futuro original, idealizado, apoiado nas potencialidades de sua terra, nos seus valores e na sua história. 
Formatou um patriota exaltado que enxergava o país como um lugar esplêndido, maravilhoso, cheio de fartura e facilidades caso realizasse as reformas necessárias (cultural, política e econômica), assim sendo, uma reforma na língua portuguesa (substituindo-a pela língua indígena tupi), na agricultura (o Brasil deveria ser um país agrícola, por possuir terras fartas) e política (tornando o Brasil um país forte, com um governo poderoso e enérgico), entre outros ideais, para despertar o gigante adormecido, desconstruindo na narrativa, de maneira crítica, o ideal romântico espelhado pela literatura da época, que exagerava nos elogios à pátria e se fixava no parnasianismo francês. 
A obra, tem um perfil irônico e mesmo sarcástico do funcionalismo público e dos quartéis e da política. Dos funcionários públicos realçava a incompetência e a concentração na promoção pessoal. Dos quartéis ridicularizava os generais sem batalhas e os almirantes sem esquadras, além da penúria, vaidade e carência geral de meios e de ânimo. Na política a velha senhora corrupção e o autoritarismo ditatorial.
Descreve as relações sociais e interpessoais com precisão e afeto entre as diferentes classes sem exprimir ódio ou ressentimento entre grupos sociais, e relata poucas distinções além da capacidade financeira, mas registra um relacionamento social sempre integrado e afável sendo essa, a maior fragilidade do personagem Quaresma, por sua absoluta ingenuidade. 
Aliás, a ofensa que mais doeu em Quaresma foi justamente o comentário do Presidente Floriano ao lhe chamar de “visionário”. Ele não admitia, que seu sonho não pudesse ser concretizado, se houvesse decisão política e trabalho honesto.
A concepção de que Lima era um escritor voltado para a temática social, preocupado em demonstrar as injustiças sociais, os preconceitos e o racismo, me parece sempre uma avaliação reducionista e depreciadora, tendo em vista a sua visão construtiva de uma sociedade mais bem organizada e orientada por valores mais adequados e mais raiz, do que os que eram levados em conta para buscar o progresso da nação, como a República e o positivismo. Foi, como toda a intelectualidade da sua época simpatizante do socialismo e do anarquismo, rompendo e mesmo ridicularizando o nacionalista ufanista.
Vivenciou alguns momentos importantes da história e soube registrar com profundidade a ausência de interesse do povo, por cada uma delas. Em particular a Revolta da Armada um movimento de rebelião ocorrido em 1893 e liderado por algumas unidades da Marinha Brasileira contra o governo do presidente Floriano Peixoto.

Como Deodoro da Fonseca renunciou à presidência antes de completar dois anos, a posse do vice foi contestada como inconstitucional. Mas, na verdade, era resistência política dos governadores destituídos por Floriano que eram contrários a eleições de governadores civis, juntos aos monarquistas que se sentiram derrotados com a proclamação da república, juntos com a marinha que se sentia diminuída frente ao exército e ainda juntados aos militares da linha dura que não queriam eleição de civis para ocuparem cargos de poder. Assim, naquele tempo, como hoje, todos os inconformados se unem para lutar contra a renovação política, o avanço social e obstaculizar o poder civil.

O filme de longa-metragem baseado no livro se chama “Policarpo Quaresma, Herói do Brasil” é uma comédia com roteiro adaptado por Alcione Araújo e teve como diretor Paulo Thiago, gostei muito e revi Carlos Gregório meu primo que faz o corrupto presidente da Câmara local.

Frases de Lima Barreto:
  • “O Brasil não tem povo, tem público.”
  • “Não é só a morte que iguala a gente. O crime, a doença e a loucura também acabam com as diferenças que a gente inventa.”
  • “É chegada no mundo, a hora de reformarmos a sociedade, a humanidade, não politicamente, que nada adianta; mas socialmente, que é tudo.”
  • “Por esse intrincado labirinto de ruas e bibocas é que vive uma grande parte da população da cidade, a cuja existência o governo fecha os olhos, embora lhe cobre atrozes impostos, empregados em obras inúteis e suntuárias noutros pontos do Rio de Janeiro.”
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domingo, 22 de setembro de 2019

MEMORIAL DE AIRES

de Machado de Assis, 1908



por Daniela Biaggioni Lopes

O Memorial de Aires é a última obra de Machado de Assis, lançada apenas meses antes da morte do autor, em 1908. Machado de Assis tinha então 69 anos, tendo exercitado a literatura em suas várias expressões durante a vida, enquanto burocrata do Ministério da Agricultura, Comércio e Obras Públicas. Sua formação literária se deu na transição do romantismo para o realismo e durante sua carreira expressou elementos de ambos movimentos literários da mesma forma como os transgrediu constantemente.

A obra coloca-se como um diário íntimo de um personagem ficcional mas também parece um romance em certos momentos; trai os elementos tradicionais dos dois formatos; não é uma conversa do conselheiro consigo mesmo, ele conversa com o ‘papel’ e não tem diálogo/compromisso com o leitor; insere apresentações de personagens e diálogos como em um romance.

Começo esta resenha com a minha experiência emocional inicial com a leitura da obra, já carregando o peso do Machado de Assis sobre os meus ombros antes da primeira página. Entendiei-me profundamente com os registros do Conselheiro Aires sobre a vida alheia, também entediante. Os personagens são todos também da elite burguesa do Rio do final do Império, com alguns escravos no fundo. Tive uma reação de estranhamento: que Machado maduro é esse? Minha principal referência afetiva do texto machadiano é do Alienista, mordaz, irônico:

“Aos quarenta anos casou com D. Evarista da Costa e Mascarenhas, senhora de vinte e cinco anos, viúva de um juiz de fora, e não bonita nem simpática. Um dos tios dele, caçador de pacas perante o Eterno, e não menos franco, admirou-se de semelhante escolha e disse-lho. Simão Bacamarte explicou-lhe que D. Evarista reunia condições fisiológicas e anatômicas de primeira ordem, digeria com facilidade, dormia regularmente, tinha bom pulso, e excelente vista; estava assim apta para dar-lhe filhos robustos, sãos e inteligentes. Se além dessas prendas,—únicas dignas da preocupação de um sábio, D. Evarista era mal composta de feições, longe de lastimá-lo, agradecia-o a Deus, porquanto não corria o risco de preterir os interesses da ciência na contemplação exclusiva, miúda e vulgar da consorte.” (O Alienista)
Passada esta primeira reação a que me permiti, fui atrás de ‘ler a bula’. Há dezenas de estudos e análises sobre toda a obra do Machado, li dois artigos interessante de Pedro Fragelli (A forma e os dias; Memorial de Aires e a Abolição da Escravatura), que fez mestrado em Literatura Brasileira na USP em 2005 sobre esta obra. Então, resgatei abaixo, nos artigos, os comentários e análises que dão sentido à minha experiência com o livro, expandindo-a bem além das reações iniciais, como o autor merece.

Recomendo o livro para aqueles já bem iniciados na vida e obra de Machado de Assis, como importante obra de sua maturidade literária e relato crítico da elite do final do segundo Reinado. Para aqueles que estão se iniciando em Machado, sugiro começarem por outros romances e contos, talvez seguindo a cronologia da obra.

A forma e os dias – Pedro Fragelli , 2010
  
‘O Memorial de Aires é um romance realista em que se representa, no plano das formas, o diário íntimo de um representante das classes dominantes brasileiras do final do Segundo Reinado.’
“Livro cinzento, livro morto, livro bocejado e não escrito. Aires? Fidélia? Tristão e o casal Aguiar? Só vejo uma personagem – o Tédio” (citando Augusto Meyer). “As razões disso prendem-se ao teor social do tédio representado na obra machadiana. Com efeito, o tédio vivenciado pelas personagens de Machado de Assis é uma experiência histórica e de classe: ele é um dos resultados da vida cheia de satisfações, mas vazia de sentido, que os proprietários desfrutam nos romances de Machado. Facultada às nossas elites do século XIX pela organização social brasileira, a existência regida pelo capricho, portanto desprovida de continuidade de propósitos, termina em nada. Ora, o Memorial concentra-se justamente no momento terminal da classe dominante do Segundo Reinado, da qual o conselheiro Aires, diplomata aposentado, é um representante sofisticado. Na medida em que o romance é o próprio diário íntimo do conselheiro, ou se - ja, na medida em que o ponto de vista “narrativo” do livro é o ponto de vista de Aires, tudo se apresenta no livro sob o signo do tédio, entre outras manifestações mais perversas do privilégio social.”
“Assim, os retratos morais das personagens esboçados pelo diarista ao longo do Memorial não são completos nem fidedignos. Solidário de sua classe, Aires oculta, sob um véu tecido com as palavras, os “atos inconfessáveis” de seus pares, em particular as constantes infrações a valores emprestados do repertório de ideais romântico-burgueses, tais como a fidelidade amorosa, a vocação profissional, o apego à terra natal, entre outros princípios que as personagens, pertencentes às nossas elites oitocentistas, assumem como seus de modo enfático ao longo do livro. O esforço para preservar a imagem da classe dominante, por meio do disfarce ou da justificação de comportamentos que podem comprometê-la, resulta em uma verdadeira operação de abafa, que se traduz em uma cumplicidade ativa por meio da qual o conselheiro encobre deliberadamente os traços essenciais do caráter das personagens, acumulando dúvidas sobre dúvidas, compondo afinal, mediante o emprego de uma linguagem eminentemente sofística, um enredo repleto de obscuridades e duplicidades, espécie de versão brasileira, muito antecipada, do jardim borgiano de veredas que se bifurcam, e que só poderá ser compreendido após a identificação da feição social de Aires e de suas observações.50 A escandalosa volubilidade ideológica de Tristão, por exemplo, típica dos políticos formados nos quadros das elites do Segundo Reinado, é comentada por Aires nos seguintes termos: Tristão assistiu à Comuna, em França, e parece ter temperamento conservador fora da Inglaterra; em Inglaterra é liberal; na Itália continua latino. Tudo se pega e se ajusta naquele espírito diverso. O que lhe notei bem é que em qualquer parte gosta da política. Vê-se que nasceu em terra dela e vive em terra dela. Pode-se afirmar desde já, portanto, que o diário íntimo do Memorial de Aires tem um caráter propriamente realista: trata-se do diário de um prócer das elites brasileiras do Segundo Reinado, ou seja, de um diário marcado pela posição social de seu redator, uma vez que ele transfere para sua escrita os seus sentimentos e condutas de classe.”

Memorial de Aires e a abolição – Pedro Fragelli, 2007
O narrador do Memorial de Aires é um narrador que está em situação. Conforme previne a “Advertência” ao leitor, o livro é um trecho de um diário íntimo encontrado após a morte de seu autor, um diplomata aposentado que tinha o hábito de registrar os acontecimentos que ocorriam à sua volta. Assim sendo, o narrador do Memorial não está fora ou acima do contexto narrativo — posição tradicional do narrador realista —, mas entre as personagens do romance, como uma delas. Sua perspectiva é limitada e parcial, o que naturalmente compromete a objetividade do discurso. No Memorial de Aires,os tipos sociais representados pelas personagens pertencem todos, assim como o próprio narrador, à elite fluminense do final do Segundo Reinado: o fazendeiro do Vale do Paraíba, a filha do fazendeiro, o filho do comissário de café, o sócio de banco, o desembargador. Ao fundo apenas, como sombras, os libertos de Santa-Pia. Nesse caso, o leitor perceberá que Aires, ao longo de todo o romance, procura abafar as infrações das personagens em relação a princípios que elas enfaticamente assumem como seus — geralmente emprestados do repertório de ideais romântico-burgueses —, como o amor eterno de Fidélia ou a vocação profissional e o apego à pátria de Tristão. Conforme se verá, uma das características essenciais do Memorial de Aires é o compromisso de classe do narrador, compromisso que todavia só se revela plenamente nos comentários do conselheiro sobre situações em que as personagens estão associadas, de uma forma ou de outra, aos acontecimentos ligados à Abolição — ou seja, quando a massa de ex-escravos, mesmo ausente, funciona como referência.
 “Mesmo quando o conselheiro demonstra simpatia pela Abolição, sua satisfação parece estar menos ligada à liberdade dos escravos do que à imagem do país — portanto da classe dirigente — diante das nações modernas: Dizem que, abertas as câmaras, aparecerá um projeto de lei. Venha, que é tempo. Ainda me lembra do que lia lá fora, a nosso respeito, por ocasião da famosa proclamação de Lincoln: “Eu, Abraão Lincoln, Presidente dos Estados Unidos da América...”. Mais de um jornal fez alusão nominal ao Brasil, dizendo que restava agora que um povo cristão e último imitasse aquele e acabasse também com os seus escravos. Espero que hoje nos louvem.”
“No Brasil, como é sabido, uma vez removida a mancha de atraso — a escravidão — que desmoralizava o país diante do mundo “civilizado”, os ex-escravos foram abandonados à própria sorte. Nas prósperas fazendas do Oeste Paulista, o trabalhador negro foi substituído pelo imigrante, com boa redução de custos e aumento considerável de eficiência produtiva. Desde a década de 1870,a alta dos preços de escravos e a modernização das técnicas de beneficiamento do café haviam tornado o trabalho compulsório cada vez mais caro e improdutivo com relação ao trabalho livre10. A Abolição vinha libertar a nova oligarquia cafeeira de uma mão-de-obra excessivamente onerosa e mal adaptada às novas condições de produção. Por sua vez, as plantações de café do Vale do Paraíba — como as do barão de Santa-Pia, no ‘Memorial de Aires’ —,em processo de esgotamento desde o início dos anos 1870, foram sendo progressivamente abandonadas pelos fazendeiros, que se dirigiram para os promissores campos de São Paulo ou para a Corte, em busca de cargos públicos. Em poucos meses, as terras, exaustas, tornaram-se pastos para gado, passando a exigir o mínimo de mão-de-obra. Com isso, os libertos que haviam permanecido nas fazendas se tornaram supérfluos e deixaram a região, sem ter para onde ir: “Os negros morriam de fome nos caminhos, não tinham onde morar, ninguém os queria, eram perseguidos”, registrou Coelho Netto, escritor célebre no início do século XX, que viveu em Vassouras nos anos seguintes à Abolição.”
“Machado de Assis percebeu cedo que o fim do escravismo não traria liberdade verdadeira aos ex-escravos e que as velhas estruturas econômico-sociais, com algum rearranjo, sobreviveriam à Abolição. Conforme demonstra o trabalho de Roberto Schwarz,uma decepção dessa ordem remonta aos anos 1878-1880, quando Machado abandona tanto a esperança de uma reforma interna do paternalismo — que animara seus primeiros romances —, como a perspectiva da possibilidade de superação das relações de dependência por meio do trabalho livre — insinuada no final de Iaiá Garcia —, passando a explorar, a partir das Memórias póstumas de Brás Cubas, sem mais qualquer tipo de freio ideológico, as virtualidades retrógradas do progresso no país.”




quinta-feira, 19 de setembro de 2019

Memorial de Aires

de Machado de Assis




Comentários de Carlos Guido Azevedo

Não tinha lido um livro de Machado de Assis, para não gostar muito. Memorial de Aires foi o primeiro. Fiquei preocupado. Será que li errado? O que não entendi? Por que será que não gostei? Já que sou fã incondicional do autor, para mim uma descoberta tardia que me apresentou um Brasil do início do século XX, final do XIX quando importantes eventos históricos construíram muito do que somos hoje.
Mas, será o Aires um protótipo de nós mesmos? Logo o Aires, tão interessante no Esaú e Jacó. Acabou se tornando chato e repetitivo em seu Memorial? Que terá acontecido?
Foi o ritmo e a pachorra do tempo na lentidão das carruagens, no vai e vem de uma sociedade parasita dela mesmo? Foi o disse me disse da conversa estreita, entreouvida da mesa para a sala, da casa de um para a casa de outro?  Foi o estreito dos personagens, a repetição aguada das conversas sem temática?
Foi a ausência de um alinhamento de posições entre Aires e sua irmã Rita que fazem uma aposta insípida sobre a vida da viúva apaixonada pelo marido, se casaria ou não casaria? Se seria bom par para o Aires, mas sem argumento de parte a parte.
Ou será que foi essa ausência de tragédia nas vidas dos personagens que me fez desagradar do livro? Nesse caso o problema é meu, do leitor, não do autor ou da estória.
Assim, fui até o final do livro, vendo uma época sendo descrita nas entrelinhas dos acontecimentos brasileiros.
O final da escravidão sendo contada sem paixão pelos libertos ou pelos senhores. Com incrível naturalidade e uma alegria contida de uns e outros em um evento pouco revolucionário e animado por uma missa e um corso, desfile de carros e carruagens onde, a elite libertária avaliava a conveniência de expressar mais ou menos seu entusiasmados e se colocar para fora do veículo como se fazia naturalmente nos carnavais. Aquilo que em outros povos demandou suor e sangue.
Os proprietários dos escravos preocupados em buscar compensações do governo pela perda dos bens patrimoniais, ao tempo em que percebiam a importância econômica do final da escravidão posto que os mercados ameaçavam boicote às suas exportações agrícolas. Tudo igual aos dias de hoje.
Até o inusitado deputado eleito sem presença em Portugal é repetido agora com o Deputado Federal Luiz Miranda do DEM que foi eleito a partir de Miami, de onde aplicava golpe em investidores incautos e sorteava iPhones para eleitores potenciais.
Sei que sempre seguimos uma estratégia diferente de outros povos, pois aqui desconstruímos ídolos e não aceitamos heróis. Herói que se preza vai lutar na Europa, África ou outros países, aqui, formamos esta nação sem heróis, sem respeito à sua história, sem sonho de futuro ou revolução, sem um passado a se orgulhar e sempre em revisão. Como afirmou Pedro Malan “no Brasil até o passado é incerto”.
Voltando ao tema:
Memorial de Aires é marcado pela nostalgia da velhice e pela consciência de que a morte ou o refúgio da memória escrita de um diário e na convivência com os amigos podem aliviar a dor de um final de vida.
O Conselheiro Aires, diplomata aposentado se mostra como um sujeito frustrado, impotente diante da sua viuvez e da velhice, além da ausência de filhos que lhe garantam a sobrevivência através da sua prole.
Como observador sutil do comportamento humano acompanhou em seu diário o sofrimento do casal Aguiar na construção da relação e da perda dos dois filhos postiços Tristão e Fidélia.
Como observador dos próprios sentimentos registrou de modo bem camuflado a sua própria perda da possibilidade ainda que longínqua de uma nova relação.
Assim, a desilusão amorosa transforma-se em conformismo e aceitação da velhice e da morte como fim único e inevitável do trio de velhos.
“Eu tenho a mulher embaixo do chão de Viena e nenhum dos meus filhos saiu do berço do nada. Estou só, totalmente só. Os rumores de fora, carros, bestas, gentes, campainhas e assobios, nada disto vive para mim. Quando muito o meu relógio de parede, batendo as horas, parece falar alguma cousa, - mas fala tardo, pouco e fúnebre. Eu mesmo, relendo estas últimas linhas, pareço-me um coveiro”.
A falta de entusiasmo de Aires e dos seus convivas por qualquer assunto que não seja as suas vidas privadas, em que pese a importância do momento que o Brasil estava vivendo nessa época, retrata o sentimento de indiferença da elite brasileira, com os destinos da nação. A nossa natureza dúbia e indiferente aos destinos grupais, além daqueles pessoais e familiares, sentimento que se estende até aos dias de hoje.
“Ao transpor a porta para a rua vi-lhes no rosto e na atitude uma expressão a que não acho nome certo ou claro; digo o que me pareceu. Queriam ser risonhos e mal se podiam consolar. Consolava-os a saudade de si mesmos”.
A saudade de mim mesmo, também me invade e volto atrás, para valorizar a obra e o gênio de Manchado de Assis.
Aprovo com Louvor.  Indico com Ênfase.   O defeito era meu mesmo.
***
imagem: Why War? de Charles Spencelayh (1938)