terça-feira, 12 de junho de 2018

Travessuras da Menina Má

de Mario Vargas Llosa

Editora Objetiva (2006), 302 páginas

por Cristiane Vianna Rauen

“Travessuras da Menina Má” é um romance de 2006 do escritor peruano Mario Vargas Llosa sobre os encontros e desencontros amorosos do “bom menino”, Ricardo Somocurcio, e da menina má, a aventureira peruana que se utiliza de diversos disfarces e travessuras para conquistar suas ambições.
As travessuras da menina má se iniciam na cidade de Lima, no Peru, no verão de 1950, quando Ricardo conhece as irmãs “chilenitas”, Lily e Lucy, nas festas adolescentes do bairro de Miraflores. Rapidamente as meninas atraem a atenção dos garotos do bairro pelo modo de se vestir, de dançar e pelo seu sotaque, até o momento em que a farsa sobre sua origem é desvendada e as “peruanitas” são obrigadas a deixar de frequentar aquele círculo social. Tudo isso para infelicidade de Ricardo, que se apaixonara por Lily e não se esqueceria da “chilenita” e de suas travessuras naquele verão.
Muitos anos depois, quando Ricardo já tinha realizado seu sonho de morar em Paris e iniciava seu trabalho como tradutor pela UNESCO, quis o destino que ele e a menina má se encontrassem novamente. Não se chamava mais Lily, mas Arlete, e era guerrilheira pelo “Movimiento de Izquierda Revolucionaria” – MIR, cujo objetivo era transformar o Peru na Segunda República Socialista da América Latina.
A reaproximação de Ricardo com a menina má, naquele momento, mostrou que a ela a causa revolucionária importava muito pouco. Seu real interesse era sair do Peru. O reencontro durou pouco tempo, até que a guerrilheira fosse enviada a uma base de treinamento em Cuba. A saída dela não se deu antes de ter tentado convencer Ricardo a pedir a seus contatos no MIR que a livrassem de seu compromisso com a guerrilha, em troca de passar a viver com ele em Paris. A estratégia da menina má não foi bem-sucedida, pois Ricardo não quis se opor às determinações do movimento.
A chilenita-guerrilheira partiu, mas a saudade de Ricardo por ela apenas crescia, assim como seu arrependimento por tê-la deixado partir. Algum tempo depois, aconteceu um novo reencontro. Foi no escritório da UNESCO que a menina má se apresentou a Ricardo como a Sra. Robert Arnoux, adido comercial da embaixada francesa em Cuba, onde se conheceram. Com o reencontro em Paris ocorreu a breve reaproximação amorosa entre Ricardo e a menina má, até o dia em que monsieur Arnoux anunciou a Ricardo mais uma de suas travessuras: sua esposa o havia deixado, levando consigo todas as suas economias.
Ricardo não teria mais notícias da menina má por alguns longos anos, mas nunca deixou suas lembranças de lado. Era difícil para ele se relacionar com outras mulheres. Até teve alguns casos, mas nada que pudesse ser comparado à paixão que sentia por ela. Nesse período, Ricardo se dedicou a seus projetos de tradução na UNESCO, alguns trabalhos de tradução literária e ao aprendizado de russo, língua pela qual nutria grande interesse.
Em uma de suas muitas viagens a trabalho para Londres, reencontrou um amigo dos tempos de colégio, o artista plástico Juan Barreto. A amizade entre os dois crescia a cada novo trabalho que Ricardo realizava na Inglaterra e essa aproximação ocasionou acidentalmente o terceiro reencontro de nosso protagonista com a menina má. Tudo ocorreu num dos momentos em que estava no pied-à-terre de Juan e este apresentou uma foto de amigos em uma festa em Newmarket. Ricardo não podia acreditar no que seus olhos viam, mas a mulher apresentada por seu amigo como Mrs. Richardson era, na realidade, a mais nova versão de sua ex-chilenita, ex-guerrilheira e ex-M. Robert Arnoux.
Ricardo e Mrs. Richardson viveram, então, um novo período de intenso romance na Inglaterra, até que, como era de se esperar, a menina má desaparecesse novamente. Dessa vez, numa situação financeira muito pior do que a anterior, haja vista a descoberta, por Mr. Richardson, de sua situação de bigamia.
Ricardo passa anos sem notícias da menina má e, mais uma vez, por coincidências da vida, um amigo tradutor, Salomón Toledado, que se mudara para o Japão, os coloca em contato novamente. Agora ela era Kuriko, e trabalhava em operações escusas para um contrabandista internacionalmente conhecido, Fukuda. Era sua faz-tudo. Contrabandeava substâncias ilegais em países africanos e ao mesmo tempo realizava as fantasias eróticas mais escabrosas de seu cafetão “voyeur”.
A relação entre Kuriko e Fukuda era tóxica e de extrema dependência, conforme constatou Ricardo na sua reaproximação com a menina má no Japão. Ele fazia mal a ela, e, mesmo assim, ela parecia ser extremamente dependente dele. Estaria a menina má finalmente apaixonada por alguém? Essa situação provocava desconforto e ciúmes em Ricardo. Mas, acima de tudo, provocou uma das situações mais constrangedoras de toda a sua vida. Para satisfazer os desejos sexuais de seu patrão, Kuriko acaba levando Ricardo para uma sessão de voyeurismo sem seu consentimento. Ao descobrir que eram observados por Fukuda enquanto faziam sexo, Ricardo fica com ódio da menina má e volta transtornado a Paris jurando nunca mais voltar a se envolver com ela.
A situação dura alguns anos, e Ricardo se joga de corpo e alma no trabalho e nas viagens que ele lhe proporcionava. Além disso, aproxima-se dos novos vizinhos de apartamento, os Gravoski, e seu filho adotivo Yilal, supostamente mudo. A aproximação com os novos amigos faz bem a Ricardo. Ele consegue se abrir com sua conterrânea, Elena, conta-lhe todas as travessuras vividas com a menina má e confessa seu grande amor por ela (apesar da recente mágoa criada com sua última aproximação).
Elena o incentiva a lutar por esse amor e a oportunidade surge quando a menina má tenta reestabelecer contato com Ricardo em Paris. Ricardo a encontra magra e adoentada e decide, com o auxílio de seus amigos, custear seu tratamento. A menina má conta que havia sido abandonada por Fukuda quando este descobriu que ela havia sido presa e violentada em uma prisão em Lagos, na Nigéria. Porém, após o tratamento em uma clínica psiquiátrica, Ricardo descobre que as mazelas da menina má foram todas causadas pelo próprio Fukuda, que a submetia às mais brutais orgias sexuais.
Compadecido pela situação de seu grande amor, e ciente de sua real situação de fragilidade, Ricardo decide que seria o momento de finalmente consolidar o vínculo entre eles e propõe casamento. De maneira inesperada, a menina má aceita e esse parece ser o início da verdadeira história de amor entre eles e de um período de tréguas nas travessuras da menina má, que se torna uma dona de casa exemplar, companheira e amorosa. Nesse período, devido à regularização de sua situação documental na Europa, a menina má também consegue um emprego em uma empresa de eventos parisiense e se sente muito realizada com seu desempenho e com a possibilidade de ajudar Ricardo a custear as despesas de casa.
O momento parecia de calmaria, e Ricardo decide voltar ao Peru para visitar o tio Ataúlfo (seu pai de criação), que tinha acabado de passar por uma cirurgia e estava bastante debilitado. Dando continuidade à sequência de coincidências em que se baseia a trama, numa vista à região litorânea de Callao a convite de um sobrinho, Ricardo acaba por conhecer Arquimedes, o construtor de quebra-mares, que descobre ser seu sogro, o pai da menina má, cujo verdadeiro nome é desvendado: Otilia.  
Ao retornar a Paris, Ricardo é novamente surpreendido pelo abandono da menina má, que alega ser impossível para ela manter a situação pequeno-burguesa em que viviam. Sua ambição a levaria a abandonar Ricardo para viver um romance com o marido de sua chefe na empresa de eventos.
Muito baqueado, Ricardo parece não ter mais forças para lutar pelo amor da menina má e acaba por finalmente se envolver de forma definitiva com outra pessoa, Marcela, cenógrafa italiana, com quem se muda para Espanha e vive uma vida simples e tranquila, baseada em seus parcos projetos de tradução.
Porém, a história de Ricardo e sua chilenita, guerrilheira, Mme. Arnoux, Mrs. Richardson, Kuriko, e Otilia não estaria destinada a esse simples desfecho. A menina má reencontra Ricardo na Espanha. Está novamente adoentada, tendo sido recentemente tratada de um câncer pélvico. Deram-lhe poucos meses de vida e ela o reencontra decida a viver seus últimos momentos com ele. Como recompensa a todas as suas travessuras, oferece a Ricardo, de maneira irônica, a oportunidade de usar os quase quarenta anos de sua história de amor como material para seu primeiro romance, afinal, reconhece que o grande sonho e vocação do bom menino teria sido sempre a escrita literária.
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quinta-feira, 10 de maio de 2018

Do amor e outros demônios

                                                                      de Gabriel Garcia Márquez
                          
                       
Sierva María de Todos los Ángeles é o tema central do romance Do amor e outros demônios, de Gabriel Garcia Márquez.  Versa sobre o nascimento, a infância, o martírio e a morte de uma marquesinha, filha única de Dom Ygnacio de Alfaro y Dueñas e de Bernarda Cabrero.
O livro foi publicado em 1994, mas tem como inspiração cobertura jornalística realizada pelo autor, em 1949, sobre a remoção das criptas funerárias da capela do antigo Convento de Santa Clara. Nessa ocasião, Garcia Márquez se depara com uma cabeleira cor de cobre, de 22m e 11cm de comprimento, presa nos restos do crânio de uma jovem. 
Na lápide estava escrito o nome de Sierva María de Todos los Ángeles.  Essa visão lhe trouxe à memória as estórias contadas por sua avó sobre uma marquesinha que morrera aos 12 anos e que era venerada no Caribe. Tal menina, possuía uma cabeleira que se arrastava tal qual um vestido de noiva e que morreu por causa da mordida de um cão.
Assim, o livro começa a partir de evento idêntico, a mordida de um cão, no calcanhar da marquesinha, o que era comum acontecer, dada a quantidade de animais soltos e sem donos. Sierva María tinha ido ao mercado com Caridad del Cobre, uma empregada mulata, para comprar uma “fieira de guizos” que seria usada na festa dos seus 12 anos.
Dias depois, a empregada volta ao mesmo local e descobre que o cão havia morrido, em consequência da raiva.  Avisa à Bernarda Cabrero, mãe da menina, que não dá importância ao fato, até porque não se interessava pela filha. Na verdade, Sierva María era odiada pelos pais, principalmente pela mãe, desde seu nascimento.  “Muito do ódio que sentiam da menina se devia ao que havia nela de um e de outro” (p. 25).  
Abandonada pelos pais, a menina cresce junto aos escravos, sob os cuidados de Dominga de Adviento, “negra de lei”, que lhe ensina a fé nos orixás ao lado da fé cristã. Aprende três línguas africanas, além de muitos outros costumes dos escravos. Ali ela é livre, “em sua verdadeira casa e com sua verdadeira família (p. 19).
Posteriormente, o marquês toma conhecimento da mordida do cão, por meio de Sagunta, índia andarilha, que conhece os segredos da cura aos desenganados. A partir desse momento, o pai percebe o quanto gosta da filha e o quanto ela é importante para ele. Decide trazê-la para dentro de casa e fazê-la viver como as pessoas brancas, medida que se torna inócua, pois a filha sempre foge e se refugia no pavilhão dos escravos. 
O marquês procura o médico mais famoso da cidade, Abrenuncio de Sá Pereira Cão, para saber sobre as possíveis consequências de tal mordida. A resposta é que a única esperança é a doença não se manifestar. Caso contrário, só restam duas opções: amarrá-la e deixá-la se debater até a morte, sob as bênçãos de Santo Huberto, ou matá-la para abreviar o sofrimento, tanto dela como da família. Esses procedimentos eram comuns nessa época e Bernarda, mãe de Sierva Maria, teria preferido a última opção, para evitar essa vergonha na família.
Alguns dias depois, surgem possíveis sinais de manifestação da doença. Médicos, boticários, barbeiros sangradores, curandeiros e mestres em feitiçaria são chamados para atender Sierva María, sem nenhum resultado. Boatos começam a se espalhar pela cidade, fazendo com que o bispo Cáceres y Virtudes acredite se tratar de um caso de possessão demoníaca.
Recomenda ao pai que a menina seja colocada no Convento de Santa Clara, sob a responsabilidade da abadessa Josefa Miranda, para que, pelo menos, sua alma possa ser salva. Assim, Sierva María é colocada no pavilhão das “enterradas vivas”, que durante 78 anos serviu de cárcere para a Inquisição, 93 dias após a mordida do cachorro.
O jesuíta Cayetano Delaura é designado pelo bispo para tomar conta desse caso de possessão. Tem início o relacionamento entre um padre e uma menina, supostamente, endemoninhada.  Na primeira visita, Delaura já se sente tocado pela situação de Sierva María e começa a duvidar de que ela esteja sob a possessão do demônio, apesar de suas atitudes estranhas.
Diversos fatos, alguns verdadeiros outros imaginários, começam a acontecer no convento e nos arredores e são considerados como artes do demônio, em virtude da presença da menina no convento. Apenas a outra prisioneira, Martina Laborde, acusada de ter matado duas companheiras, consegue se relacionar com Sierva.
Aos poucos, o padre Delaura conquista a confiança de Sierva María e por ela se apaixona.  Cada vez mais duvidando que a menina esteja possessa, tenta convencer o pai e o bispo, mas somente o médico concorda com ele e sobre isso eles têm uma longa conversação. Na medida em que aumenta a atração pela menina, Delaura entra em um verdadeiro turbilhão de emoções.  O bispo percebe o que está acontecendo e o padre lhe faz a confissão. Recebe como penitência ser afastado de Sierva María e servir como enfermeiro no hospital Amor de Deus, onde ficam os leprosos.  
Sem conseguir ficar longe da menina, Delaura encontra um túnel que faz a comunicação do convento com o mundo exterior. Passa a usá-lo e assim consegue estar com ela durante várias noites, nas quais desfrutam de momentos felizes.  Mesmo diante do imenso desejo de se entregarem ao amor, Delaura decide manter o voto de castidade, até conseguir o almejado sacramento do matrimônio.
No dia 27 de abril, quase cinco meses após a mordida do cão, Sierra María é levada para o início dos procedimentos de exorcismo. Antes da cerimônia, ela é submetida a um ritual de absurda selvageria, é despojada dos seus colares e da longa cabeleira que é totalmente raspada.
O bispo assume a condução da cerimônia, na própria capela do convento de Santa Clara, acompanhado por religiosos de três ordens e representantes do Santo Ofício. Mas diante da reação brutal da menina, sente-se mal e não consegue terminar a cerimônia.
Outro padre é enviado para dar continuidade ao processo, Tomás de Aquino de Narváez, ex-fiscal do Santo Oficio. Em Sevilha, ele tinha levado à fogueira onze hereges e conseguira arrebatar do demônio diversas almas generosas.  Mas de volta à terra natal, prefere ficar em uma paróquia humilde, onde se apaixona pela religião e pelas línguas africanas.
Consegue conquistar Sierva María, na medida em que explica o sentido de cada um dos colares que ela usa, falando em línguas africanas. Para ela, nasce a esperança de que algo possa mudar. Mas no outro dia, o padre é encontrado morto, dentro de um poço, na sua paróquia. Esse fato reforça a ideia de que o demônio tenha se apoderado da menina.
Sem saber do destino do padre Aquino, mas compreendendo que a liberdade dela e de Delaura só depende deles próprios, Sierva María tenta convencê-lo a fugirem juntos. Ele não concorda, prefere esperar que o marquês recupere a filha, a partir da confirmação de que ela não está possuída.  Além disso, busca obter o perdão e a licença do bispo para que eles se casem. Essa recusa causa violento ataque de fúria em Sierva María, fazendo com que ela seja transferida para outra cela mais segura. 
Enquanto isso, Delaura desesperado procura falar com o marquês. Mas todas as tentativas são em vão. O marquês abandonara a casa, depois de uma tentativa frustada de refugiar-se junto a Dulce Olivia, reclusa do manicômio Divina Pastora, sua primeira paixão. Volta a procurar Bernarda, sua mulher, para que os dois voltem para casa e tenham ao menos com quem morrer. Mas diante da confissão dela de que teria se casado com ele para depois assassiná-lo e, também, à menina, o marquês vai embora e dois verões depois sua ossada é encontrada carcomida pelos urubus.  
Martina, a outra prisioneira, encontra o túnel por onde Delaura acessa o convento e o utiliza para fugir. Os acessos são descobertos pelos guardas e as portas são cerradas. Delaura não consegue mais entrar escondido e resolve acessar o convento em plena luz do dia, achando que o poder da oração o tornaria invisível. Descoberto, é posto à disposição do Santo Ofício e condenado a cumprir a condenação como enfermeiro no hospital Amor de Deus. Vive muitos anos nesse local, convivendo de forma promíscua com os doentes, com o desejo de contrair lepra, o que não acontece.
Sierva María sem saber o que tinha acontecido continua na espera por Delaura e cada vez mais explode em comportamentos de rebeldia que confirmam os indícios de possessão. O bispo reassume o exorcismo, transtornado pela queda de Delaura, a morte misteriosa do padre Aquino e a epercussão de todos os acontecimentos que fogem à sua sabedoria e ao seu poder. 
Durante três dias Sierva María é submetida a diversos tipos de rituais, ao mesmo tempo em que coisas estranhas vão acontecendo, tais como tremor de terra, rebanhos de gado berrando em fúria, que confirmam a presença do demônio na marquesinha. Diante de todo esse sofrimento, o corpo de Siervia María definha e antes da última sessão de exorcismo, que seria no dia 29 de maio, ela é encontrada morta. 
Personagens principais
Sierva María de Todos los Ángeles filha única do segundo marquês de Casalduero e Bernarda Cabrero. Desde o nascimento foi abandonada pelos pais, tendo sido criada junto dos escravos, sob os cuidados de Dominga de Adviento. Mordida por um cão raivoso, diante de alguns sinais de que a raiva possa estar se manifestando, é submetida aos mais estranhos e dolorosos tratamentos. 
Posteriormente, é aprisionada no Convento de Santa Clara onde seus sofrimentos aumentam cada vez mais, chegando ao auge na preparação e na execução das sessões de exorcismo.  Vive uma rápida e ardente paixão pelo padre Delaura, que havia sido designado para cuidar do seu caso.
Dom Ygnacio de Alfaro y Dueñas, pai de Servia María. Segundo marquês de Casalduero e senhor do Darién, filho do primeiro marquês, cavaleiro da Ordem de Santiago. Homem triste e mal-humorado, cresceu com sinais de atraso mental e sem afeição por qualquer pessoa.
Analfabeto até a idade adulta, aprende a ler para se comunicar com Dulce Olivia, interna do manicômio de mulheres da Divina Pastora, por quem ele se apaixona aos vinte anos. Por causa desse romance, o marquês é desterrado para as fazendas da família onde fica até decidir esquecer seu amor e cumprir o desejo do pai, casar-se com a herdeira de uma família espanhola, Dona Olalla de Mendoza.
Dom Ygnacio encarna a decadência de uma nobreza que pretende se instalar no Novo Mundo de acordo com os moldes da antiga ordem existente no Velho Continente. Aspirantes a uma aristocracia caricata não percebem que, diante de condições geográficas, históricas e econômicas diferentes, uma nova sociedade se impõe, principalmente, em face de uma ordem social e econômica perversa, baseada na escravidão e na exploração de recursos naturais, na miscigenação cultural e no sincretismo religioso.
Bernarda Cabrera, mãe de Sierva María, é filha de um antigo capataz do pai do marquês. Mestiça de índio com uma branca espanhola, pertencia à chamada aristocracia de balcão. Seduz o marquês, que ainda era virgem, e dele engravida. De comum acordo com seu pai, tem como objetivo conseguir os bens do marquês e depois assassiná-lo, mas não teve coragem de fazê-lo.
Bernarda conhece e se apaixona pelo negro liberto, Judas Iscariotes, por quem é capaz de realizar loucuras. Termina desmoronando, junto com ele, no uso das mais diversas drogas, e frequentando os piores ambientes. Com o assassinato de Judas, Bernarda abandona tudo e se isola do mundo, sem saber o que acontece com os negócios e, principalmente, com a filha.
Dom Turibio de Cáceres y Virtudes, bispo da cidade, representa o Santo Ofício, a parte mais obscura e terrível da Igreja Católica.  Como autoridade religiosa, pretende implantar em terras americanas o terror a que foram submetidos, em outros locais, aqueles que por não concordarem com as ideias reinantes eram considerados hereges.
Dominga de Adviento, uma “negra de lei”, governa a casa com pulso de ferro e serve de mediação entre o marquês e a esposa, foi responsável pela criação de Sierva María. Personifica o sincretismo religioso, torna-se católica sem renunciar a fé iorubá, o que lhe faltava em uma religião, ia buscar na outra.
Abadessa Josefa Miranda responsável pela administração do Convento de Santa Clara. Busca mais no demônio do que em Deus a explicação dos fenômenos para os quais não tem explicação. Carrega um rancor ancestral em relação bispo, resultado de antiga querela entre o episcopado e as clarissas.   
Abrenuncio de Sá Pereira Cão o médico mais notável e discutido da cidade. Judeu português fugido da península, possui uma imensa biblioteca, com inúmeros livros condenados pelo Santo Ofício. Representa uma nova visão de mundo, que foge dos cânones de uma sociedade subjugada por um pensamento único, sob a égide da Igreja Católica.    
Padre Cayetano Alcino del Espíritu Santo Delaura y Escudero, teólogo brilhante, aluno do bispo De Cáceres y Virtudes, em Salamanca. Sonhava ser bibliotecário e estava prestes a assumir o cargo em Toledo, mas preferiu viver nas terras de origem da sua mãe.  Em Delaura, o autor mostra a luta entre a razão e a emoção, entre as trevas da Inquisição e as luzes de uma nova mentalidade.  A paixão por Siervia María o leva a cair em desgraça junto ao bispo e ser condenado a cuidar de leprosos no hospital Amor de Deus.  
Sagunta índia que conhecia os segredos para fazer sarar os desenganados. Representa a cultura dos nativos que resiste e permanece presente por meio do uso das crenças dos seus ancestrais.
Temas importantes  
O principal tema da narrativa é a decadência, em relação aos bens materiais, às fazendas, ao trapiche, à casa, à cidade, como também, em relação às pessoas. A casa tinha sido o orgulho da cidade, mas agora estava arruinada e lúgubre, com um aspecto opressivo pela umidade e pela escuridão. O esplendor ficou no passado. Em relação à cidade, o mercado principal de escravos se mudara para Havana e os mineradores e donos de engenho preferiam comprar a mão de obra nas Antilhas Inglesa.    
O marquês que herdou uma imensa riqueza do pai tornou-se um pobre coitado, isolado do mundo. Talvez, Dulce Olívia tenha sido a única pessoa que ele amou, mas casou com Dona Olalla para cumprir a vontade do pai e com Bernarda sob ameaça do pai dela, por tê-la engravidado.  Bernarda que era uma mestiça sedutora, sagaz, farrista e ávida por sexo, em poucos anos se apaga do mundo devido ao abuso do mel fermentado e das barras de cacau.
Ouros temas importantes são tratados pelo autor, tais como os horrores da escravidão, com destaque para o transporte e o comércio dos escravos. Destaca-se, também, a Inquisição, que nas colônias espanholas, de forma tardia em relação a Europa, continua imperando e fazendo vítimas. Era uma época em que a Igreja Católica impunha suas crenças e tudo que não estava de acordo com seus princípios era considerado bruxaria ou adoração ao demônio.
Ambientação
A estória está ambientada em uma pequena cidade de América do Sul, de colonização espanhola, em algum lugar do Caribe. A partir das referências geográficas e históricas, pode se concluir que se passa em Cartagena das Índias, atual território da Colômbia, em meados do século XVIII.
A narrativa mostra um país colonizado, com mistura de crenças nativas e religiões africanas que resistem à força do catolicismo. Além da intolerância religiosa, fica evidente o obscurantismo em relação ao conhecimento científico, com destaque para a medicina e a compreensão de fenômenos naturais.
Apesar de tudo, ao final percebe-se que é um livro que trata do amor e da sua importância para o ser humano. Um livro de poucas páginas, mas de grande densidade. Muitas mensagens  podem passar despercebidas em uma leitura mais desatenta.
Sobre o autor
Gabriel García Márquez nasceu em 6 de março de 1927, na cidade de Aracataca, Colômbia. Dois anos após o seu nascimento do escritor, os pais se mudaram para Barranquilla. García Márquez permaneceu em Aracataca em companhia dos seus avós maternos.
Aos oito anos, com a morte do avô, o escritor se mudou para a casa dos pais, em Barranquilla, e iniciou os estudos no Liceu Nacional de Zipaquirá. Em Bogotá cursou direito e ciências políticas na Universidade nacional da Colômbia, mas abandonou a universidade antes da conclusão do curso.

 Gabriel Garcia Márquez recebeu o Nobel de Literatura em 1982. Morreu em 17 de abril de 2014, na Cidade do México, vítima de uma pneumonia, após completar 87 anos.

Por Maria Albeti Vieira Vitoriano


terça-feira, 8 de maio de 2018

Do Amor e Outros Demônios


de Gabriel García Márquez
Comentários de Priscila Fernandes Costa

Do Amor e Outros Demônios relata a história de um amor impossível e “pecaminoso” entre uma menina de 13 anos – Sierva Maria – e um jovem padre – Cayetano de Laura. A narrativa se passa no século XVIII, quando a Igreja e a Inquisição ainda dominam os países de língua espanhola, determinam a conduta e o comportamento de todos os membros da comunidade católica e castigam tudo o que é diferente, desconhecido, misterioso e demoníaco, incluindo aí a paixão amorosa.
Sierva Maria, certo dia, foi mordida por um cão raivoso e a partir daí passou a ser vista como irremediavelmente condenada à morte prematura. Acontece, contudo, que para  a Igreja o cólera, ou a raiva, nada mais era que uma das muitas astúcias do demônio, e que a mordida de um cão raivoso era uma forma do maligno injetar sua força demoníaca no corpo da vítima,  para então se apropriar de sua alma.
Sierva Maria, portanto, não mais deverá ser assistida por médicos, curandeiros ou feiticeiros, mas ficará sob os cuidados da Santa Madre Igreja, e mais especificamente das irmãs do convento de Santa Clara, que muito a contragosto se vêem obrigadas, por ordem do bispo, a receber a jovem endemoniada. O padre Cayetano Delaura fica, pois, encarregado de oficiar os rituais de exorcismo a fim de expulsar o demônio do corpo da menina. Como consequência desses encontros, surge, então, entre o padre e a moça, uma forte relação de amor apaixonado.  
Num relato que mistura realidade e fantasia, Garcia Marques faz da mordida do cão raivoso uma metáfora da chegada avassaladora da sexualidade e do amor-paixão na vida da jovem Sierva Maria. Ela, então, se vê tomada pela emergência da sexualidade, com todos os arrebatamentos do amor juvenil. Sabemos que até o final do século XVIII a adolescência, tal como a identificamos hoje, não era percebida como um estágio particular do desenvolvimento. O período da infância era logo substituído pela fase adulta e muitas vezes essa passagem era facilitada pelos chamados ritos de passagem, que consistiam em celebrações ritualísticas que marcavam a mudança de status de uma pessoa, no seio de sua comunidade.
Sierva Maria experiencia e acolhe a chegada desse amor como uma jovem mulher desejosa e apaixonada. A descoberta do amor-paixão parece ser, pois,  para nossa personagem, o rito de passagem que possibilitará a  saída da infância e a entrada na vida adulta, do lugar de menina à posição feminina.  
Diante das freiras e de todos os representantes da Igreja a jovem reage como uma endemoniada, com ataques histéricos furiosos, dando a ver exatamente aquilo que lhe é demandado e divertindo-se, ao mesmo tempo, com a farsa encenada diantes das autoridades eclesiásticas. Mas ao lado de Cayetano mostra-se mulher dócil e apaixonada, sempre a espera de seu amado, entregando-se por inteira aos caprichos do amor e sabedora do lugar que ocupa como aquela que causa seu (dele) desejo. As mulheres, por cultivarem o amor mais do que os homens, somos responsáveis pelos encontros possíveis entre os sexos. Para nós o amor é uma paixão; sem ele, perdemos a nós mesmas, pois é o amor que nos identifica como mulheres. “O amor te faz rebelde. O amor te faz diferente. O amor te faz crescer.”
Lacan diz que “amar é dar o que não se tem”, o que quer dizer que amar é reconhecer a própria falta e, então, doá-la ao outro. Para amar, pois, é necessário confessar nossa falta e reconhecer que se tem necessidade do outro, que o outro nos falta. Não é dar o que se possui – presentes, por exemplo – mas dar algo que não se possui, que vai além de si mesmo.  Isso é essencialmente feminino, e nesse sentido o amor feminiza. Talvez por isso alguns homens tenham tanta dificuldade de amar...
Num mundo onde impera o culto ao demoníaco, onde o tempo todo se fala no diabo, mesmo que seja de forma disfarçada e justificada pela da necessidade de combate-lo e derrota-lo – a palavra presentifica a coisa, nos lembra a psicanálise –, não existe lugar para o amor-desejo, pois até ele é considerado uma personificação do mal.
Com sua narrativa fantástica Garcia Marques nos transporta para uma dimensão estranha e ao mesmo tempo muito familiar, possibilitando que fenômenos até então percebidos como obscuros e irracionais sejam experienciados como vivências concretas e portadoras de uma verdade onde o cotidiano e o insólito se sobrepõem. O fantástico, nos adverte Freud, é uma forma de representação de um mal-estar típico da subjetividade. É uma expressão do inconsciente.
Excelente livro. Recomendo a leitura.
 * * *

terça-feira, 10 de abril de 2018

CARTA AO PAI

de Franz Kafka
por Claudine M D Duarte

"Tome Vossa Alteza, porém, minha ignorância por boa vontade, e tenha certeza de que
não porei aqui, seja para embelezar ou enfear, mais do que aquilo que vi e me pareceu."
Carta de Pero Vaz de Caminha a D. Manuel, Rei de Portugal



            Franz Kafka nasceu em Praga no ano de 1883, filho do comerciante Hermann Kafka e de Julie Löwy. Formou-se em Direito e trabalhou alguns anos como advogado. Nunca se casou, apesar de ter tido relações marcantes com várias mulheres. Antes de morrer de tuberculose, em 1924, passou algumas temporadas em sanatórios e viveu em Praga a maior parte de sua vida. Ao lado de James Joyce, Marcel Proust e William Faulkner, Kafka é considerado um dos escritores mais relevantes do século XX. A maioria de seus textos, escritos em alemão, foram publicadas postumamente e são obras-primas da prosa universal. Cabe destaque para: O Castelo, O Processo, A Metamorfose, A Colônia Penal, A Construção e Um Artista da Fome. Particularmente, gosto e recomendo muito o conto O Novo Advogado, integrante do livro O Médico Rural.

           Quanto ao livro CARTA AO PAI, alguns biógrafos de Kafka afirmam que o texto é resultado dos dramas vivenciados pelo autor, como a tuberculose e os três noivados desfeitos, sendo o último deles a circunstância que provoca a contundente escrita ao seu pai.

            Quem nunca? Que atire a primeira pedra.

           Cada um de nós, em algum ponto da vida, escreveu – mental ou literalmente – uma carta ao pai. E nesse escrito vieram críticas, lamúrias e acusações. Assim fez o escritor Franz Kafka, ao longo de dez dias do frio novembro de 1919 em Praga. Sua pena correu sobre o papel ‘cuspindo’ o que naquele tempo lhe pareceu justo afirmar.


         A primeira leitura me remeteu a uma sessão de terapia Constelação Familiar, onde o filho acusa o pai dominador e, violentamente, ausente de sua construção como ser humano e escritor. E, para completar a sessão terapêutica imaginada, esperava o final das palavras do filho para que eu pudesse ‘falar’ pelo pai... qual a minha surpresa ao descobrir que o próprio Kafka já havia se encarregado disso. Afirma que o pai, poderia responder a ele:

“Portanto, agora você já teria conseguido o bastante com sua insinceridade, pois provou três coisas: primeiro, que você é inocente; segundo, que sou culpado, e terceiro, que por pura grandiosidade você está disposto não só a me perdoar, mas – o que é mais ou menos o mesmo – a demonstrar e crer pessoalmente que eu, seja como for contra a verdade, também sou inocente.
(...)
No fundo, porém, aqui e em toda parte, não me provou nada a não ser que todas as minhas recriminações eram justificadas e que faltou entre elas uma especialmente legítima, ou seja: a recriminação da insinceridade, da bajulação, do parasitismo. Se não me equivoco muito, você ainda parasitando em mim com esta carta.”

           Um aspecto interessante é que, apesar de escrita, a carta nunca foi entregue ao seu destinatário. Medo? Culpa? Difícil afirmar.
        No livro de contos O Médico Rural, escrito e publicado por Franz Kafka também no ano de 1919, encontramos a seguinte dedicatória: “a meu pai”.  Como entendê-la? Franz compreendeu a distância de Hermann? Seria A Carta ao Pai, junto com essa árida dedicatória, a base para os personagens de obras posteriores, como O Processo (1925) e O Castelo (1926)? Segundo o crítico Walter Benjamin, é possível vermos irmanados, na obra de Kafka, pais e burocratas:
“O pai é a figura que pune. A culpa o atrai, como atrai os funcionários da justiça. Há muitos indícios de que o mundo dos funcionários e o mundo dos pais são idênticos em Kafka.”

           Assim sendo, a literatura mundial deve muito ao senhor Hermann Kafka e ao que seu filho fez com os sentimentos provocados pela relação de ambos. No dicionário Houaiss encontramos o verbete kafkiano como um adjetivo que ‘de forma semelhante à obra de Kafka, evoca uma atmosfera de pesadelo, de absurdo; especialmente em um contexto burocrático que escapa a qualquer lógica ou racionalidade’.

      O pai Samsa, personagem de A Metamorfose, aniquila perversamente a vida do filho Gregor, metaforicamente transformado em uma barata. Isso nos remete aos trechos da Carta ao Pai em que são citados os insetos daninhos e sua capacidade de ‘sugar simultaneamente o sangue para conservar a vida’. Noutros romances, encontramos situações e personagens vivenciando delírios persecutórios, sentimentos de culpa e, densamente, muito medo e impotência.

          Gostaria de ter uma dedicação maior para a escrita dessa resenha e pontuar as partes da carta em que encontrei deslumbres de elogio e gratidão ao pai... mas não terei tempo e, por isso, contento-me com uma pequena citação logo no início:

“Esse seu modo usual de ver as coisas eu só considero justo na medida em que também acredito que você não tem a menor culpa pelo nosso distanciamento. Mas eu também não tenho a menor culpa. Se pudesse levá-lo a reconhecer isso, então seria possível, não uma nova vida – para tanto nós dois estamos velhos demais – mas sem dúvida uma espécie de paz; não a cessação, mas certamente um abrandamento das suas intermináveis recriminações.”

       A leitura de Kafka nem sempre é fácil, talvez pelo incômodo persistente, pela presença do não-pertencimento – a falta de um lugar. O não acolhimento provocado pelo medo e pela insegurança do não-entendimento. A cada leitura, sinto uma dor diferente, em lugares distintos e, nem sempre, inexplorados. O livro nos deixa a tristeza provocada pelo absurdo de nossa condição e, principal e ‘kafkianamente’, pelos insensatos labirintos de nossas relações humanas.

    Recomento fortemente a leitura e, para os amantes de Kafka, está disponível o portal: https://franzkafka.com.br/. Nesse link é possível encontrar material compilado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, através de seu programa de pós-graduação em Literatura, relacionado à obra e à vida do escritor. Imperdível!