quinta-feira, 19 de novembro de 2015

O Mestre e a Margarida

de Mikhail Bulgakov

por Marcia Helena Carvalho


Covardia: o pior dos pecados

Publicado em 1966 pela primeira vez, o romance russo “O Mestre e a Margarida” de Mikhail Bulgakov tem início com um diálogo entre dois poetas ateus russos, Ivan e Berlioz, sobre a não existência de Jesus Cristo. A conversa acontece em uma Moscou em pleno totalitarismo. De repente, os dois poetas são interrompidos por um homem que se diz professor e que tenta convence-los da existência de Cristo. A ironia que permeia o romance de Bulgakov já começa por aí. O tal professor, cujo nome é Woland, vem a ser o próprio Diabo!
Logo depois desse encontro, várias coisas estranhas e inexplicáveis começam a ocorrer na cidade. Primeiro, Berlioz acaba sendo atropelado e morto, concretizando, pois, uma previsão que havia sido feita por Woland. Ivan, transtornado pelos acontecimentos, tenta capturar e prender o professor diabólico. Porém, é mal sucedido na sua empreitada. Além disso, a história contada por Ivan sobre o encontro com o tal professor misterioso é tão absurda que ele acaba sendo internado em uma clínica psiquiátrica.

Na clínica, Ivan conhece o Mestre, um escritor que após ter seu romance censurado pela ditadura vigente, acabou caindo em uma forte depressão. Para os críticos, o romance era uma apologia a Cristo, visto que a história tinha como personagem principal Pôncio Pilatos. Quando o personagem Mestre aparece na trama, já na metade da primeira parte do romance, o leitor começa a conectar alguns pontos.

Na primeira parte, o autor apresenta vários personagens que interagem com Woland e sua comitiva. Muitos desses personagens são de caráter duvidoso e, ao cruzarem o caminho de Woland acabam se dando mal. É o que acontece, por exemplo, com o tio herdeiro de Berlioz. Além disso, diversos acontecimentos misteriosos vão ocorrendo, atrapalhando, pois, a ordem em Moscou. É durante tais acontecimentos que Woland critica de forma jocosa aquela sociedade.

Durante um espetáculo de magia negra promovido por Woland, por exemplo, os espectadores pedem a cabeça do mestre de cerimônia quando este tenta interromper o show. Para o Diabo, que estava distribuindo dinheiro para a plateia, as pessoas reagiram de forma tão violenta porque adoram dinheiro! Bulgakov, na primeira parte do romance, demora para “desenrolar” sua narrativa. O autor acrescenta vários personagens e o leitor, que ainda não sabe a verdadeira natureza ou a intenção de Woland, pode se cansar um pouco da narrativa. Porém, o leitor, além de se divertir com as histórias do gato, começa a se interessar pelo comportamento bastante peculiar de Woland. Com efeito, Woland vai se revelando um personagem surpreendentemente interessante, embora ainda não seja possível saber o motivo da sua visita a Moscou.

Já na segunda parte, a trama se volta basicamente para o drama envolvendo o amor entre Margarida e o Mestre e a censura do romance escrito por este último. A partir desse ponto, as interconexões entre as diversas tramas do romance começam a fazer mais sentido para o leitor. A razão da visita de Woland à capital russa é a realização de um tradicional baile em que ele costuma receber os maiores malfeitores da história. Em Moscou, Woland precisa encontrar uma acompanhante para o tal baile. Ela deve se chamar Margarida e deve ter sangue de rainha.

Margarida, uma mulher apaixonada pelo Mestre e pelo romance escrito por ele, topa negociar com o Diabo para ter a chance de ver o amante novamente. A barganha entre Woland e Margarida consiste no seguinte: Ela será a acompanhante de Woland no grande baile e como recompensa o Diabo trará o Mestre de volta para ela. A partir daí, o personagem Woland é mais desenvolvido e, inevitavelmente, cai nas graças do leitor.

Como não se simpatizar com um Diabo que prefere os remédios caseiros da avó àqueles produzidos pela moderna indústria farmacêutica? Bulgakov dá ao Diabo uma dimensão humana ao mostra-lo com fortes dores no joelho por conta de um suposto reumatismo. O Diabo de roupas sujas e amarrotadas, tem uma natureza complexa e deixa seu posto de coadjuvante na história do cristianismo para ser o protagonista na história de “O Mestre e a Margarida”. Assim, o Diabo de Bulgakov acaba provocando reflexões sobre os valores morais, políticos e religiosos da Cristandade. Em seu diálogo com Mateus Levi, por exemplo, o Diabo provoca o discípulo de Cristo ao chama-lo de “escravo”. Por que “escravo”? Estaria Woland ou o próprio Bulgakov sugerindo que a “dissidência” do anjo Lúcifer teria ocorrido por conta das regras unilaterais do Criador? Talvez esta tenha sido uma inspiração vinda de Willian Blake, uns dos primeiros a dar essa interpretação para o ocorrido entre Deus e o anjo Lúcifer.

Ainda no mesmo diálogo com Mateus Levi, o Diabo critica o discípulo ao dizer que ele fala como se não reconhecesse as sombras, e muito menos a maldade. E mais, provoca Mateus ao dizer que não seria muito trabalho pensar no que seria da bondade dele se não existisse a maldade, se todas as sombras causadas pelas coisas vivas sumissem. Mais adiante, o Diabo chama a atenção para a tolice de Mateus: “Será que você deseja devastar todo o globo terrestre retirando dele todas as árvores e tudo o que é vivo por causa da sua fantasia de se deleitar com o mundo desnudo? Tolo.”

O diálogo entre Mateus e Woland pode ser uma alusão aos sentimentos de Bulgakov acerca do momento político vivido em seu país. Ante o contexto histórico no qual o autor estava inserido quando escreveu o romance, seria natural concluir que ao criar este diálogo entre Mateus e Woland, Bulgakov cria um paralelo entre a tolice de Mateus e a tolice stalinista. Afinal, Stalin também tinha a pretensão de criar um mundo “desnudo”. Ou seja, um mundo onde a liberdade para expor ideias distintas daquelas impostas pelo Estado não pudesse existir.

Na União Soviética stalinista, a liberdade estava para Stalin assim como as sombras estavam para Mateus: uma ameaça. Woland (quem diria?) parece ver na natureza humana uma complexidade que não pode ser suprimida, tampouco controlada. Embora tal complexidade não fosse ignorada por Mateus ou por Stalin, ambos tinham a pretensão de controla-la, o que é uma tolice. Poder-se-ia dizer, portanto, que “O Mestre e a Margarida”, além de ser uma história de amor é, sobretudo, uma história sobre a infelicidade de se viver em um regime totalitarista.

De fato, se inserirmos o romance de Bulgakov no contexto histórico em que foi escrito, identificaremos diversas referências autobiográficas. Não é difícil reconhecer Bulgakov nos personagens o Mestre e Woland. Tal como o Mestre, o autor russo também foi vítima da covardia que permeia um regime ditatorial. E tal como Woland, Bulgakov, embora tivesse sido jogado na “escuridão”, mantinha um admirável senso de humor ao escrever o romance em questão. Para o Mestre, a covardia é o pior dos pecados e essa é uma frase recorrente no romance. Não é difícil imaginar tal frase saindo da boca do próprio Bulgakov, visto que foi vítima da covardia de Stalin. Covardia porque Stalin lia e apreciava a arte de Bulgakov, no entanto, não queria que a massa russa tivesse acesso a uma obra literária cheia de metáforas que podiam ser interpretadas contra o regime.

Bulgakov, embora não tenha ido parar numa clínica psiquiátrica, tal como o Mestre, foi “condenado” a viver no “subsolo” da literatura russa. E, foi com o coração partido que morreu, em 1940, sem ver sua obra publicada. Felizmente, Bulgakov teve sua “Margarida” para lutar pela publicação de suas obras. Fato este que confirmou a famosa frase dita por Woland: manuscritos não ardem! Ou seja, manuscritos resistem ao fogo da censura. Aliás, tal como o personagem o Mestre, Bulgakov também destruiu uma versão de “O Mestre e a Margarida”, a qual ele reconstruiu mais tarde. Infelizmente, a história de vida de Bulgakov não teve, para ele, um final feliz, visto que morreu sem ver seu romance publicado. No entanto, a história de Bulgakov não morreu com ele. A liberdade, no final, triunfou sobre a covardia e a tolice stalinistas.

terça-feira, 13 de outubro de 2015

A CICATRIZ DE DAVID de Susan Abulhawa


Editora: Record, 2009           
Tradução de Maria Alice Máximo
Resenha por Maria Virginia de Vasconcellos em setembro/out de 2015


Se lhe perguntam sobre o tema do livro A CICATRIZ DE DAVID, algumas frases-síntese podem ser mencionadas.

Por exemplo, trata-se da formação do Estado de Israel desde o ponto de vista dos palestinos; ou, trata-se da saga de uma família de refugiados palestinos; ou ainda, trata-se da história de dois irmãos palestinos, criados em culturas diferentes (judaica e árabe) que voltam a se encontrar em condições conflitivas. Por fim, pode-se dizer que o tema do livro é uma incursão no universo árabe/palestino em momentos históricos de guerra.

De fato, estas afirmações apontam o contexto no qual a narrativa se desenvolve. 

Estamos situados na Palestina, no período entre 1941 a 2002, ou seja, dos tempos da 2ª. Guerra até o século atual, passando pela época da proclamação do Estado de Israel em 1948 e pelas guerras ocorridas na região. É um romance sustentado em fatos históricos - mistura ficção com a realidade.

Desta forma, esta novela contribui para a compreensão do conflito árabe-judeu. E esta é, certamente, a intenção da autora, Susan Abulhawa. Ela quer desenterrar o sofrimento do povo palestino e explicar o surgimento do crescente ódio ao povo judeu. Usando suas próprias palavras temos a seguinte descrição desse tempo:

      “Era uma história de guerra, de um fogo que congelava, queimava e voltava a congelar        novamente. A história de amores desvairados e de um homem desvairado que se                transformou em homem-bomba.” [1]·.

1)       Quanto à Estrutura e ritmo da narrativa

Há vários saltos temporais, idas e voltas, de 1967 a 2002, além de mudanças de geografia, já que os personagens não somente vão para América, mas também exploram a região do Líbano, Cisjordânia e Jerusalém. Para todos os tempos e para todos os lados percorridos, eles carregam o passado como referência.

O início do romance se passa em 2002 e os últimos capítulos também neste mesmo ano, no campo de Refugiados, em Jenin.  Segundo a autora: “O tempo volta atrás e brinca com as coisas do passado.” [2].

Nesta brincadeira, entretanto, a narrativa não perde o fio da meada e se mantém na trama. A história guarda uma lógica, uma integridade - sem ficar solta ou despedaçada. 

Esta estrutura não linear da narrativa é, pelo menos, ousada para uma escritora que está debutando no ofício, com esta obra.

Nota-se que Susan Abulhawa aproveita um momento no livro para alfinetar algum possível editor, quanto a técnicas de montagem de romance. Eis que ela menciona pela voz do personagem Sara:

“Por que alguém inventou que um romance precisa ter simetria? E ele (editor) disse também que não posso ter mais de uma voz. Como se pode ter criatividade com 
tantas regras?”.

E ela declara - idiotas - todas essas regras.
Apenas segue sua criatividade e constrói um romance não simétrico, que tem múltiplas vozes, múltiplos pontos de vista. Na primeira parte, é a autora que relata. Depois passa a palavra ora a Amal, ora a Yousef, sem perder também o seu próprio ponto de vista.

2)       Quanto ao Tempo, espaço e contexto

Nas primeiras noventa páginas, são apresentados os costumes, a cultura, os personagens-membros e a vida da família Abulheja, palestinos que viviam na aldeia de Ein Hod por quarenta gerações, nessa mesma propriedade de plantio de azeitonas, figos e uvas.

Aqui ficam caracterizados o patriarca Yehya (avô) e sua mulher Basima, o casal Hasan e Dalia, e seus dois filhos: Yousef, Ismael e, posteriormente a filha Amal, além de vários outros personagens. [3] São árabes apegados a Deus, a terra e à própria família, e “era isso – a essência de seu ser - que eles defendiam e tentavam manter” [4]. Porém, não conseguiram defender nem manter o que pretendiam.

A partir de maio de 1948, os antigos colonizadores ingleses deixam a Palestina. Aumenta o fluxo de chegada de judeus refugiados, vindos de todas as partes do mundo, para ocupar a região. Proclamam o Estado judaico e mudam o nome da terra para Israel, ”a terra prometida”.  

Os palestinos são expelidos de suas propriedades, de seus campos de oliva e de suas vilas. A autora descreve a terrível violência perpetuada pelos judeus que vieram se estabelecer em Israel. Organizadas, armadas, legitimadas pela ONU, as forças Israelenses atacam e brutalmente desmantelam aldeias da Palestina, matando e ferindo muitos, saqueando bens, roubando propriedades e pertences.

No romance, houve até roubo de seres humanos: o comovente episódio do rapto do bebê Ismael, das mãos da bela beduína Dalia, pelo soldado judeu Moshe. Ele leva o bebê de presente para a esposa Jolanta que, estéril, devido a maus tratos recebidos no campo de concentração, sofria por não poder ter filhos.  A partir daí, Ismael se transforma em David e é criado à maneira do povo judeu. No entanto, permanece indelével no seu rosto, a cicatriz provocada por um acidente – marca da irmandade entre Yousef e David.

Neste ponto, fica montado o cenário para a história/estória da CICATRIZ DE DAVID.

3)       O desenrolar da narrativa

No caminhar do relato, os palestinos sobreviventes acabam por se estabelecer num campo de refugiados, em Jenin, onde morre aos poucos a esperança de recuperar seus lares ancestrais. É em Jenin que nasce AMAL, personagem central do romance, a terceira filha de Hasan e Dalia.  A partir daí, a narrativa passa para a voz de Amal, intercalando com Yousef, seu irmão e, nalguns capítulos, com a autora.

O romance contém alguns textos fortes, trágicos e terríveis, intercalados com outro ternos, comoventes e extremamente líricos.

Deste segundo tipo fazem parte os capítulos sobre o nascimento de Amal, sobre sua infância e sua relação com o pai, e os relatos sobre os diversos romances e amores que se perpetuam de geração em geração. As famílias palestinas convivem com lutas, perdas irreparáveis, mas também com profunda experiência amorosa.

Em 1967, novamente chegam os soldados de Israel bombardeando, queimando, roubando e saqueando[5]. Amal e sua família sofrem novamente terríveis momentos: ela, menina, presa num buraco na cozinha enquanto ocorria a invasão em Jenin. Neste ataque, Hasan, o pai, desaparece na obscuridade da morte na resistência.

Em seguida, a novela dá um salto para os anos de 2001-2002, quando aparece Sara, a filha de Amal, e o encontro com o irmão David, de 53 anos, já conhecedor da verdade sobre sua origem árabe. 

A narrativa retorna a 1967 para contar a infância de David e o trágico encontro dos irmãos. É quando Yousef é abatido pelo soldado judeu, marcado com a cicatriz, seu próprio irmão Ismael, que desconhece sua origem.  Pela cicatriz e pela aparência, Yousef ferido, torturado e machucado, em tratamento numa enfermaria, reconhece na figura daquele soldado David, o seu irmão que fora raptado ainda bebê.

Aqui há um capítulo completo, quase um poema, com a voz de Yousef como narrador. É Yousef, o homem (cap. 14). É Yousef empunhando armas, preso, e pensando em seu amor por Fátima. A tentação é de citar literalmente o texto do romance pelo lirismo e pela ternura que revela.

E a saga continua. Apesar das desgraças acontecidas, a família vai tocando a vida.

Vale uma pausa para comentar sobre o choque cultural da chegada de Amal aos Estados Unidos, em 1973. Em especial, impressiona e encanta a comparação entre o agradecimento da cultura árabe e agradecimento do idioma inglês.[6] Para um árabe, um agradecimento profundo e autêntico merece muitas frases bonitas de pedidos de bênçãos: “Que Alá abençoe suas mãos tão generosas”; “A beleza está é nos seus olhos que me acham bela”; “Que Alá jamais rejeite as suas preces”; “Que Alá te cubra com seu véu de bênçãos”; e por aí vai. Como aceitar um mero e insuficiente “Thanks”? Para Amal, este foi um primeiro choque de uma série de sensações de deslocamento na nova cultura.

Somente após sete anos, em 1980, seu irmão Yousef, morando agora na Líbia e casado com seu amor Fátima, localiza Amal e lhe telefona convidando para visitá-los.   Após algum tempo, ela parte para Beirute para conhecer a sobrinha, filha de Yousef, que está por nascer. E aí se desenrolam capítulos doces da sua vida: encontra Majid, o amor e paixão da sua existência, e logo se casam.

Mas eis que a destruição se repete. Em 1982, a devastação da guerra. (Amal grávida, volta aos Estados Unidos para salvar-se deixando, tristemente, seu amor e sua família, com a promessa de que viriam encontrá-la).

Como nos conta a história, o acordo de Arafat com os Estados Unidos, parece não ter sido respeitado: a saída da OLP do Líbano teria como contrapartida a retirada dos judeus de Beirute, deixando sobreviver mulheres e crianças palestinas.  De fato, irrompem ataques a Beirute, contra a OLP e bairros da cidade (quando Majid é morto num bombardeio); ataques na Palestina, com massacre de mulheres e crianças em Shatila (quando Fátima - mulher de Yousef, grávida de Falasteen, é cortada e rasgada numa cena macabra, cuja foto corre o mundo).

Na estória, depois disso, Amal e Yousef amargaram as perdas. “Majid, minha história de amor eterno que se tornou nunca mais” [7]·.  Yousef berra e chora e, “seu coração passou a bater movido pelo ódio” [8].

E ainda há muito a relatar. [9]
Novamente temos um capítulo muito lindo: O no. 37 - Yousef, o vingador [10], onde o personagem quer justificar sua ação de desespero. A traição, as perdas, o ódio e a desmantelamento de sua vida o conduziram à vingança, mais nada além da vingança...

Anos depois da Intifada – reação dos palestinos ante a ocupação - Amal regressa a Jenin com a filha, para lhe contar a sua própria história. E, lamentavelmente, aí revive e sofre mais um massacre dos israelenses e sucumbe ao seu destino.

A epopeia se encerra em 2002, mas deixa no ar a forte mensagem a favor dos refugiados e dos palestinos.

A autora denuncia claramente a mentira espalhada pelo mundo “Não houve massacre em Jenin”. O relatório oficial das Nações Unidas, escrito por homens que não puseram os pés em Jenin e não falaram com as vítimas nem com os algozes, concluiu que não tinha havido massacre em Jenin. [11].

4)       Susan Abulhawa [12] e a sua mensagem

Esta é uma novela individual e coletiva, com sustentação em fatos verdadeiros e forte inserção na história real. A ficção tem como entorno a realidade. Também se pode afirmar que é um romance inspirado na vida de alguém. Amal parece personificar a autora em vários episódios. 

E de fato, se olhamos a biografia de Susan Abulhawa, chegamos a admitir que seja um romance memorialista. O conteúdo é repleto de referências pessoais e inserção de elementos autobiográficos na existência dos protagonistas.
Para afirmar isso, basta conhecer um pouquinho da biografia da autora:

Seus pais foram refugiados da Guerra de Seis Dias (1967) e depois se mudaram para o Kwait onde Susan nasceu, em 1970.

Sua família foi desmantelada e, em seguida, ela foi enviada para viver com um tio nos Estados Unidos, onde permaneceu até a idade de cinco anos. Depois passou por lares de familiares no Kuwait e na Jordânia. Em seguida, foi enviada para Jerusalém, onde viveu em orfanato por três anos antes de ir aos EUA já com 13 anos de idade. Teve uma Infância instável e sem raízes.

Foi adotada em Carolina do Norte e permanece nos Estados Unidos desde então. Graduou-se em Biologia e frequentou a Escola de Medicina no Departamento de Ciência Biomédica, onde completou o mestrado em Neurociência.

Mais tarde, virou-se para o jornalismo e ficção. Seu primeiro livro foi Mornings in Jenin, publicado originalmente em 2006 com o título Cicatriz de David. Tornou-se um Best seller internacional traduzido para 26 idiomas. Em 2013, Abulhawa publicou uma coleção de poesias intitulada My voice sought the Wind - e foi anunciado seu segundo romance, The Blue between Sky and water (Bloombury,2015). Diversos comentários políticos de sua autoria foram publicados em jornais americanos.

Em 2002,  esteve visitando o campo de refugiados em Jenin, como observadora internacional, em seguida ao ataque de Israel,  e testemunhou atrocidades que relatou da seguinte forma: “What I saw in Jenin was shocking at so many levels”… ..So when I left there, I really wanted to tell their story because I knew nobody was going to talk about it”.. O resultado foi a publicação de Cicatriz de Davi, com o nome de  Mornings in Jenin, em 2010. Foi descrita como uma lírica estória da família Abulhewa, um relato do sofrimento e das perdas e mais perdas, e sucessivos horrores infligidos durante a guerra de 1967, seguida dos ataques a Líbano, Jenin, Sabra e Shatila, e a agonia e devastação impostas aos palestinos.

Tornou-se uma ativista e palestrante frequente, em prol da causa da Palestina. Foi fundadora da ONG Playgrounds for Palestine.

Quando acusada pelo filósofo francês, Bernar-Henri Levy de concentrar clichês anti-Israel e anti-judeus mascarando uma ficção – ela responde que está apenas abrindo a cortina, de forma leve, para mostrar a escura verdade que querem manter escondida.

Alguns depoimentos da autora em Entrevista ou posts não deixam dúvida quanto à mensagem que ela pretende transmitir com o romance. Ela afirma:

·               “A narrativa de Israel dominou a literatura. É natural que o primeiro relato venha dos             conquistadores... mas...

Contaram a história que o Ocidente queria ouvir. Era mais fácil escutar uma estória de uma terra sem seu povo. Era um happy end romântico.  O relato palestino não tinha apelo e, inicialmente, não foi recebido pelo Ocidente.”
·       
                “Que a história dos judeus – de perseguição e sofrimento – tenha sido divulgada em             novelas, poesias, filmes e teatros – ela compreende. Mas, porque nossa história                   não foi contada?”

Em conclusão: Recomendamos com veemência este livro, principalmente pelo valor informativo e histórico. [13]

Afinal, para não deixar de levantar uma lacuna, pode-se comentar que os personagens palestinos não apresentam sinais de crueldade humana (mesmo o vingador atua com desespero, como resposta, e não com maldade pura). Falta um “bad guy” – um maldoso – uma personalidade ambígua e complexa na família palestina, para dar mais realismo à condição humana dos personagens. 

Contudo, esta constatação não tira o brilho da ficção que tem a qualidade de prender o leitor. O maior valor está no depoimento, cujo significado, profundidade e emoção não estão nem de longe expressos aqui nesta resenha.






[1]Pag. 390
[2] Pag. 410
[3] O personagem Ari Perlstein, para dar um exemplo, representa o judeu pacifista.
[4] Pag. 54
[5] Pag. 113
[6] Pag. 266
[7] Pag. 339
[8] Pag. 345
[9] Nasce Sara, a filha de Amal, nos Estados Unidos.  Yousef deixa a OLP, e entra num caminho sem volta atuando na clandestinidade e na resistência. Segundo ele: “já era tempo de eles provarem um pouco daquilo que tem feito de nossas vidas (pag. 359)”. E torna-se um terrorista.
[10] Pag. 364
[11] Pag. 341
[12] Dados coletados na Wikipédia, em setembro de 2015

[13] Bibliografia complementar: A indústria do Holocausto – Reflexões sobre a exploração do sofrimento dos judeus de Norman Finkelstein // Ver video no Youtube sobre a história na região

terça-feira, 15 de setembro de 2015

NÚMERO ZERO


de Umberto Eco

 por Priscila Fernandes Costa
            Número Zero, último romance de Humberto Eco se passa na Itália, na cidade de Milão, no ano de 1992. Tem como tema central o impacto do mau jornalismo na opinião pública. O título do livro refere-se a uma prática nada incomum no meio jornalístico. Trata-se de uma edição teste, de circulação limitada, de uma publicação – revista ou jornal - que ainda está por ser lançada, com o intuito de ver a aceitação do público em relação a tal veículo. 
            O livro trata, então, da redação imaginária de um jornal de nome “O Amanhã” que não se sabe se irá entrar em circulação de fato, mas que tem como objetivo desinformar, difamar, chantagear, manipular, elaborar dossiês e documentação secreta e prestar serviços duvidosos a certo Comendador (Vimercate é seu nome) que “quer entrar para o clube de elite das finanças, dos bancos e, quem sabe, dos grandes jornais”.
            O diretor do jornal é Simei, um jornalista sem escrúpulos, contratado diretamente pelo Comendador e encarregado de montar uma equipe de redatores que ficará responsável pela confecção das matérias. Além do periódico, Simei tem a intenção de “escrever” um livro sobre os bastidores do jornal que já nasce comprado e corrompido. O livro teria como título “Amanhã: ontem”. O primeiro a ser contratado é Colonna, que deverá atuar como assistente de Simei, e é quem narra história em primeira pessoa. Enquanto assistente de direção,  terá como tarefa revisar todos os artigos dos colegas, e, ao mesmo tempo, ficará incumbido de escrever o livro de memórias de Simei.  
Colonna, 50 anos, descreve a si mesmo como um grande perdedor. Nunca conseguiu terminar o curso de jornalismo e se viu, ao longo da vida, envolvido em atividades que, embora tenham lhe dado muito conhecimento e erudição, não foram suficientes para conceder-lhe a mínima notoriedade no meio jornalístico.  Escreveu somente em alguns periódicos locais, “coisas como crítica teatral para espetáculos de província e companhias itinerantes”. Trabalhou como “escritor-fantasma”, professor de alemão e durante muito tempo acalentou o sonho de escrever um livro que lhe trouxesse riqueza e glória. “Os perdedores, assim como os autodidatas, diz ele, sempre têm conhecimentos mais vastos que os vencedores, ..., o prazer da erudição é reservado aos perdedores”. Além de Simei, Colonna é o único que conhece as verdadeiras intensões do Comendador e que sabe da possibilidade do jornal nunca vir a ser publicado.  Os demais contratados são Maia Fresia, Braggadocio, Cambria, Lucidi, Palatino e Constanza.
            Maia Fresia, 28 anos, é a única mulher do grupo. Por razões familiares não pôde concluir o curso de letras. Trabalhou durante cinco anos numa revista de fofocas onde escrevia sobre a vida particular, de preferência secreta ou fantasiosa, de celebridades e sobre o mundo dos espetáculos. Aceitou se juntar ao grupo porque imaginava que seria uma oportunidade para falar de assuntos mais sérios. Descreve-se como uma pessoa curiosa com faro detetivesco. Mas seu lugar no grupo a deixa imensamente frustrada, pois continua tendo que escrever fofocas sentimentais e se responsabilizar pela sessão de horóscopos. Braggadocio a considera uma autista e entre os dois prontamente se estabelece uma antipatia mútua. Por ser mulher, é constantemente desacreditada pelos colegas da redação, à excessão de Colonna que se envolve emocionalmente com ela,  colocando-se como seu defensor e protetor.  
            Romano Braggadocio, o paranoico do grupo, trabalhou anteriormente numa revista juntamente com Simei, e se diz especializado em revelações escandalosas. A experiência de Cambria se restringiu em correr atrás de notícias de acidentes, mortes, prisões e passava as noites em delegacias e prontos-socorros. Lucidi dizia ter trabalhado em publicações de que ninguém tinha ouvido falar e por isso era olhado com desconfiança pelo grupo. Todos achavam que ele era um espião ali dentro.  Palatino tinha uma vasta experiência em semanários de jogos e passatempos. E finalmente Constanza, que trabalhou como chefe de composição em alguns jornais, mas sua especialidade caiu em desuso à medida que os jornais foram crescendo e passaram a ter muitas páginas.
            Enquanto o jornal vai sendo discutido e preparado,
Braggadocio começa a trabalhar paralelamente numa história que, espera,  poderia até se transformar em um livro. Inicia uma investigação sobre acontecimentos importantes na história política da Itália desde o final da Segunda Guerra Mundial, mais especificamente desde o assassinato de Benito Mussolini e sua amante Clara Petacci. Imaginando incríveis teorias da conspiração, defende a tese de que Mussolini teria um sósia que foi morto por partisans em abril de 1945, enquanto o Duce se mantinha escondido entre os muros do Vaticano para, em seguida, fugir para a Argentina, onde estaria aguardando o melhor momento de retornar a seu país a fim de instalar um novo poder. A pesquisa de Braggadocio reconstitui cinquenta anos de história que envolve organizações clandestinas tais como a Gladio, a Stay-behind, a loja maçônica P2, os partidos políticos intalianos, o assassinato do papa João Paulo I, a CIA, a OTAN, o Pacto de Varsóvia, os terroristas vermelhos manobrados pelos serviços secretos, a máfia, etc, com o intuito de impedir que uma revolução comunista se espalhe pela Europa e de coibir um possível ataque soviético. Tudo parece um grande delírio de uma mente paranoica até que, um dia, Braggadocio é encontrado morto, assassinado, numa estreita e perigosa rua de Milão. Colonna que tinha pleno conhecimento das pesquisas do colega, fica extremamente assustado e teme por sua vida. Dentre os fatos reunidos por Braggadocio quais poderiam deixar alguém preocupado?, se pergunta. Com certeza o colega havia tocado em pessoas poderosas e perigosas, e ele, de alguma forma, seria considerado figura indesejável por saber demais. Ao mesmo tempo, o comendador resolve cancelar o empreendimento Amanhã, considerando tratar-se de um negócio perigoso. Colonna esconde-se em seu apartamento, mas suspeita que alguém tenha entrado ali enquanto ele dormia, pois encontra, pela manhã, o registro de água fechado e ele nem sabia onde ficava o tal registro. Assustado, procura Maia, com quem vinha mantendo um relacionamento amoroso, e refugia-se em sua casa.  
            Alguns dias mais tarde Maia e ele ficam transtornados ao assistirem a um documentário da BBC sobre a Operação Gladio. Gladio foi o nome dado a uma organização clandestina constituída pelos serviços de informação italianos e pela OTAN durante a guerra fria, para contrapor-se a uma eventual invasão da Itália pela União Soviética. O documentário parecia um filme com o roteiro do Braggadocio. Muitas das revelações “fantasiadas” do colega estavam ali. Mas passado o impacto do programa de TV, Maia tranquiliza Colonna, mostrando como o documentário vem livrá-lo de qualquer possibilidade de ser considerado um perigo.
Ao final é Maia quem se mostra mais coerente e ligada na realidade da questão: “Nada mais pode nos perturbar neste país, diz ela. Desvio dos serviços de informação? Perto dos Borgia é coisa de fazer rir. Sempre fomos um povo de punhais e venenos. Estamos vacinados, seja qual for a história nova que nos contem, vamos dizer que já ouvimos coisa pior, e que talvez essa e as outras sejam falsas. O único problema sério para o bom cidadão é não pagar impostos ... afinal é sempre a mesma comilança. E amém.” (p.204)
            E ironiza: “Tesouro, vamos procurar um país onde não haja segredos e tudo ocorra à luz do dia. Entre a América Central e a do Sul existe um monte. Nada escondido, todos sabem quem pertence ao cartel das drogas, quem dirige as organizações revolucionárias, você se senta no restaurante, passa um grupo de amigos e eles apresentam um sujeito como o chefão do contrabando de armas, todo bonito, barbeado e cheiroso, com aquele tipo de camisa branca engomada que se usa por fora das calças... São países sem mistérios, tudo corre à luz do dia, a polícia afirma ser corrupta por regulamento, governo e delinquência coincidem por ditame institucional, os bancos vivem de lavagem de dinheiro...” (p.205/6) Tudo volta ao normal, Colonna recupera a paz, a auto confiança ou pelo menos a “calma desconfiança” no mundo que o rodeia. “A vida é suportável, basta contentar-se. Amanhã (...) é outro dia.”
            Humberto Eco nos brinda ainda, com um elenco de jargões jornalísticos, tais como, “Há uma queda de braço entre duas forças; O governo anuncia um pacote de sacrifícios; O tempo urge;  Estamos com água até o pescoço; Estamos no olho do furacão;  Fazer omelete sem quebrar os ovos; Centro de gravidade do poder”, entre outros..
Lança também algumas frases de efeito tipo: “A questão é que os jornais não são feitos para divulgar, mas para encobrir as notícias. Não são as notícias que fazem o jornal, e sim o jornal que faz as notícias. Saber pôr juntas quatro notícias diferentes significa propor ao leitor uma quinta notícia. Atenção: fazer notícia é uma boa expressão, notícia quem faz somos nós, e é preciso fazer a notícia brotar das entrelinhas. É sempre melhor limitar-se a insinuar. Insinuar não significa dizer algo preciso, serve só para lançar uma sombra de suspeita. Não devemos criar complexos de inferioridade no público. Se o assunto é irrelevante ou preocupante demais, derrubamos a matéria. As pessoas de bem vão continuar votando nos canalhas porque não acreditarão na BBC ou porque estarão grudados em algo mais trash”. 
Com certeza este não é dos melhores livros de Humberto Eco, mas permite uma leitura divertida. Em sua crítica cínica à imprensa sensacionalista e ao Estado corrupto e ineficiente, o autor faz um retrato da situação sócio-política da Itália na qual assistimos a um empobrecimento moral da sociedade que parece se mostrar passiva diante dos escândalos de corrupção.
            Em uma entrevista à revista L’Expresso o autor afirma que sua intenção não foi escrever um tratado  de jornalismo, “mas contar uma história sobre os limites da informação, e sobre como funciona uma máquina de difamação” apoiada num veículo de comunicação. Para ele,  1992 constitui um marco na história política italiana. Foi quando nasceu a operação “Mãos Limpas” que trouxe esperança aos italianos; parecia que tudo mudaria e haveria um combate geral à corrupção. Com a ascensão de Berlusconi ao poder as coisas ocorreram exatamente ao contrário.
            A meu ver, Número Zero coloca em evidência, sobretudo, a questão da corrupção no mundo contemporâneo. Para além da manipulação da opinião publica feita pelos meios de comunicação em geral, nos deparamos com a prática da corrupção no cotidiano dos cidadãos, seja na Itália, na Rússia, no Brasil ou em qualquer outro lugar deste vasto mundo.
            A corrupção sempre foi endêmica entre nós, mas nos últimos anos ela foi oficialmente institucionalizada. Corromper, diferentemente de subornar, significa quebrar em pedaços, desnaturar, tornar podre. O termo vem do latim corruptus, que significa quebrado em pedaços. Enquanto fenômeno social, a corrupção não diz respeito a uma somatória de manifestações individuais, mas tem sua lógica própria, inconsciente. Na prática, pode ser definida como a utilização do poder ou da autoridade para conseguir obter vantagens pessoais e fazer uso do dinheiro público para  interesses pessoais, de um integrante da família, ou amigo, etc. Uma vez institucionalizada, a corrupção torna natural um modo de vida no qual os valores ligados à democracia são desqualificados e se tornam marginais ao sistema. Para tanto, os detentores do poder lançam mão do que em psicanálise se denomina de discurso cínico.
            Cínico é um sujeito sem escrúpulos, sem vergonha, descarado, impudico, obsceno, hipócrita, oportunista atrevido no modo de ser e viver ou atrevido quando justifica “cinicamente” um ato imoral. O cinismo pode ser expresso em palavras e atos que indicam falta de vergonha, atos e falas que denotam desprezo por tudo o que é moral-ético ou que demonstra aversão pelas convenções sociais. O efeito do cinismo é sempre o constrangimento. O cínico é aquele que aposta sempre numa lógica do pior.
            Zizek (1992) nos fala de uma produção de uma “razão cínica” em nossas época. Para ele, o cinismo contemporâneo, em primeiro lugar, não é uma postura de imoralidade aberta e franca, mas é a justificativa pública de um ato imoral como se fosse moral. Em segundo lugar, o cinismo vive sempre em discordância com tudo e com todos, e toda sua “sabedoria” consiste em legitimar a distância entre o pensar e o agir. Em outras palavras, o cinismo erigido em forma de razão cínica usa a transgressão alçada como se fosse um princípio ético: “eles sabem perfeitamente o que fazem,  no entanto o fazem, justificando seu ato imoral como sendo moral”. Neste sentido, o livro de Humberto Eco é exemplar.
Recomendo a leitura.

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