terça-feira, 11 de julho de 2023

A pediatra - Andrea del Fuego


Autora

ANDRÉA DEL FUEGO, pseudônimo da escritora Andréa Fátima dos Santos, nasceu em São Paulo, em 1975. Escritora e mestre em Filosofia pela USP, publicou os volumes de contos minto enquanto posso (O Nome da Rosa, 2004), nego tudo (Fina Flor, 2005), engano seu (O Nome da Rosa, 2007) e as miniaturas (Companhia das Letras, 2013), além de diversos livros juvenis e infantis.

Seu primeiro romance, Os Malaquias (Língua Geral, 2010), ganhou o Prêmio Saramago de literatura.

Curiosidades sobre a autora

Na ocasião do Prêmio Saramago de literatura, Andrea estava gravida de seu primeiro filho. Na ocasião, conheceu Pilar Del Rio, viúva de Saramago. No momento da premiação Pilar perguntou-lhe qual seria o nome da criança e ela lhe disse que seria Francisco. Pilar lhe disse “ainda tem tempo de colocar José”. Andrea tocada pela fala de Pilar batizou seu pequeno com o nome Francisco José. Outra curiosidade está relacionada ao destino da premiação. O prêmio de 25 mil euros recebido por Andrea foi utilizado para custear profissionais de parto humanizado. A criadora da pediatra que não gostava de crianças, revela-se, portanto, uma mãe prana!

Em relação ao seu pseudônimo Andrea conta em entrevistas que quando jovem escreveu contos “sem” eróticos, apresentando o trabalho para um amigo que gostou da escrita e a convidou para ser colunista de uma revista respondendo duvidas sexuais dos leitores. O editor, no entanto, informou que “Andrea de Fatima” não seria adequado. Foi quando sua sogra sugeriu Andrea Del Fuego inspirado em luz Del Fuego, por sua vez pseudônimo de Dora Vivacqua, mais conhecida pelo nome artístico Luz Del Fuego, e que foi uma dançarina, naturista, atriz, escritora e feminista brasileira. Destacou-se como pioneira na implementação do naturismo no Brasil entre os anos 1940 e 1950, tendo sido a fundadora do primeiro reduto naturista da América Latina e a primeira nudista brasileira. É também reconhecida por sua contribuição na luta pela emancipação das mulheres. A autora conta que na época não sabia da história de luz Del Fuego, mas depois que a conheceu gostou muitíssimo e adotou o nome artístico.


A obra

A capa, conforme conta a autora, foi escolhida por ela em um banco de imagens. A foto pertence a uma atriz alemã da década de vinte, que originalmente estava com uma suástica na vestimenta e encantou a autora pelo olhar vazio e absorto. A escritora ainda se amparou no efeito contraditório que a imagem inspira: uma mulher, medica que tem como profissão cuidar de criança, fumando.

Resumo da obra e seus personagens 

A obra é narrada em primeira pessoa, sem pontos e travessões em fluxo continuo de pensamento. A narradora é a única testemunha dos acontecimentos. Temos acesso apenas ao que passa em seus pensamentos. São 55 pequenos capítulos todos encapsulados na mente de Cecilia e sua relação pouco empática com o mundo e com aqueles que a rodeiam. Nesses capítulos, a medica confabula sobre aqueles que passam por sua vida e com os quais ela convive, mas não quer de fato compartilhar.

A narradora é Cecilia, filha única de pai médico e mãe enfermeira, medica neonatogista que diz não gostar de crianças e que assim define sua incursão na medicina “meu caso é comum, estudei medicina desapaixonada, com o pai no leme”.

Através da narrativa nos sãos apresentados personagens em variado grau de opacidade. Temos o marido do qual se divorcia. Homem que segundo a narradora é privilegiado do ponto de vista financeiro tal como ela, mas sofre de depressão. Cecilia demonstra forte desinteresse pelo marido e acaba por se separar dele nos primeiros capítulos do livro.

Posteriormente nos é apresentado seu amante, Celso. Personagem masculino de pouca expressividade, casado e que leva a esposa para ser paciente da amante, confiando-lhe não somente os cuidados no recém-nascido como também a saúde de sua esposa no momento do parto.

A esposa de Celso tem descrições bem contidas. Sabemos que é advogada, que sofreu na primeira gestação e que na segunda gestação apresentou quadros de depressão e ansiedade e por fim uma gravidez de risco. As aparições narrativas da esposa são sempre concessões clínicas da narradora que permite que o amante a faca de ouvinte de suas agruras domesticas única e exclusivamente para ganhar terreno para suas pretensões no relacionamento extraconjugal.

Outra personagem muito interessante é Deise. Figura tipicamente nacional, a da empregada que dorme em casa e fica a disposição do patrão, Deise vai ganhando terreno no monologo mental de Cecilia a medida que suas complexidades tipicamente humanas vão sendo colocadas na mesa: o fato de estar gravida, de o pai da criança ser o marido da Irma, a dependência alcoólica, todas esses acontecimentos vão ocupando a mente de Cecilia mais pela proximidade física do que por uma solidariedade emocional para com a situação de vulnerabilidade e desamparo da jovem, trata-se portando de uma clara relação de poder. A configuração da complexidade inerente da relação de intimidade e hierarquia típica do trabalho doméstico aqui é escalonada a máxima potência na medida em entra em cena o amante de Deise, Robson. Outra figura masculina representada tab. de forma muito opaca, Robson, o vigia da pizzaria pinheiros, aparenta certa insolência na medida em que transita da paisagem mental de Cecilia para a sala de estar de sua casa. Alterando uma fugaz atração que Cecilia teve sobre ele depois de saber de sua relação com Deise. De tensão erótica para desconfiança e hostilidade.

Na sua paisagem profissional temos também personagens que despertam desasseio em Cecilia. Temos o médico que pratica a medicina humanizada, área medica que gera desprezo para Cecilia. E outros elementos que orbitam este universo do parto humanizado Douglas, professoras de yoga.

Dentre eles, Jaime é o que mais a incomoda justamente por ser o antípoda de suas pratica profissional. Medico alternativo, querido pelos colegas, estudioso e considerado “o melhor”, a despeito dessas credenciais ele é uma afronta para a ciência e para a medicina,

Na esfera familiar Cecilia nos apresenta sua mãe e seu pai. Em relação a mãe sua mãe parece não esboçar grande cuidado ou atenção. Muito provavelmente se sente superior a mãe que é enfermeira enquanto ela é medica. mas a seu pai devota verdadeira apego. É em relação a ele que parece de fato ter alguma empatia e admiração. Seu pai é o médico diligente e idealizado ao qual todo paciente gostaria de confiar sua vida e saúde. Sua narrativa acena para uma relação quase edípica, somente abalada pela doença do pai, a fragilidade real, os cuidados, as doenças não conseguem amparo no coração dessa pediatra, até mesmo quando vindos daquele que aparentemente é o que ela mais ama

Por fim temos Bruninho, filho do amante, criança da qual participou do parto e para o qual Cecilia ira devotar um amor maternal nunca antes visto. Bruninho é uma criança que, pelo que indica a narradora é negligenciada e solitária. De modo que esse personagem parece de alguma maneira refletir a própria história da narradora. Filha de um médico workaholic e de uma enfermeira consumida por plantões, solitária e carente, Cecilia parece projetar em Bruninho a sua necessidade de resgate amoroso. A Bruninho Cecilia quer dar o colo ao qual recorre mesmo adulta na figura de seu pai.

Além desses personagens também podemos destacar a figura dos pais das crianças, das mães cuidadora de crianças com doenças crônicas, a figura da baba, das escolas infantis e da própria medicina. Nenhuma dessas pessoas ou instituições é poupada do olhar mordaz da pediatra. Os pais são insuportáveis, as babas aqui são desatentas e sem afeto. As escolas infantis são pretensiosas e enganadoras a medicina por aqui é tirada do pedestal e reduzida a uma sucessão de protocolos que pode garantir sucesso profissional não apenas para os vocacionados, mas inclusive para aqueles que detestam a profissão.

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Avaliação da obra 

O monologo estabelecido por Cecilia é mordaz e verborrágico. Cecilia tece a vida por meio de protocolos e acoes nas quais todos aqueles que cruzam seu caminho são descartáveis. Os sexos tampem é visto de forma livre e sem limites, mas também parece um envolvimento protocolar sem verdadeira entrega. Não há conflito morais. O deserto particular da pediatra a engendra em devaneios que somente ela própria vive. Embora amoral e canalha nenhuma de suas guerras particulares cruza o limiar da maldade. Elas ficam apenas no plano mental. Embora não goste de crianças, nunca as matou. Embora deteste o médico alternativo, nunca denunciou Jaime ao conselho de medicina pela pratica de parto domiciliar, mesmo sabendo do endereço da esposa de sua amente, espreita, mas não chega as vias de desmascarar celso, e muito provavelmente embora tencione raptar o pequeno Bruninho, possivelmente não o levara para o litoral.

Cecilia é uma canalha de cativa justamente por não cruzar a fronteira do pacto social. O grande mérito da obra ao meu ver é o elogia a liberdade de pensamento. Em nossa intimidade todas podemos ser Cecilia. Ou melhores todos somos Cecilia em alguma medida. A mente não é pautada pela regra da moral social.

Por fim, é importante destacar a relevância das escritoras femininas contemporâneas. Cecilia desorganiza o clichê e a posição preá estabelecida da mulher de devota ao cuidado a mulher livre e desempecida para fazer aquilo que quiser.

Recomendo o livro pela facilidade da leitura e pela audácia bem-humorada da autora.

Ademais me fascina a capacidade da autora de escrever uma personagem que, ela própria adepta do parto humanizado, é o extremo oposto daquilo que ela pratica. Dessa forma fica a salvo de demagogias e militâncias que são importantes para a sociedade, mas podem se um desserviço para a literatura.

Cecilia é uma verdadeira iconoclasta que vilipendia de forma bem caustica os pedestais do exercício da medicina, do parto, da maternidade e muitos clichês como o da mulher vocacionada ao cuidado. Fascinante é o poder da arte que derruba estatuas sem precisar destrui-las.


terça-feira, 23 de maio de 2023

O som do rugido da onça - Micheliny Verunschk

Por: Carlos Guido S Azevedo

A Autora

Micheliny Verunschk (Recife - PE, 1972) é uma escritora e historiadora brasileira. Em 2004 foi indicada ao Prêmio Portugal Telecom de Literatura, com o livro de poesia Geografia íntima do deserto, sendo a única mulher estreante e, também, a mais jovem a ficar entre os dez finalistas. Com o romance Nossa Teresa - vida e morte de uma santa suicida venceu o Prêmio São Paulo de Literatura, de 2015, na categoria de melhor romance escrito por autor estreante no gênero acima de 40 anos. É autora também de O observador e O nada (2003, poemas), A cartografia da noite (2010, poemas), B de Bruxa: Bonnus bonnificarum (2014, poemas), Aqui no coração do inferno (2016, romance), O peso do coração de um homem (2017, romance), Maravilhas banais (2017, poemas). Tem trabalhos publicados na França, Portugal, Espanha, Canadá e Estados Unidos. (Internet apresentação).

Seu livro mais recente é esse romance: O som do rugido da onça, lançado em 2021 e vencedor do Prêmio Jabuti e do Prêmio Oceanos no ano seguinte.

No meu entender Micheliny além de ser mulher pernambucana, toma as lições das mulheres de Tejucupaco - PE que ajudaram os brasileiros a expulsar os holandeses com uma guerra inusitada de abóboras quentes e água fervente com pimenta, nas estreitas ruas do distrito de e Tejucupapo, atual Goiania. Onde hoje opera a fábrica de automóveis Jeep.

A batalha de Tejucupapo, ou batalha do Monte das Trincheiras, em 24 de abril de 1646 se deu no contexto da segunda das Invasões holandesas do Brasil, graças ao empenho das mulheres da povoação cerca de 600 holandeses foram derrotados e bateram em retirada. Nesta que é considerada a primeira batalha em território brasileiro.

Essa é apenas um a introdução para ilustrar o sentimento de coragem para a luta de Micheliny.

 O Livro

Conta história de uma menina indígena da tribo miranha que é levada para a Baviera por dois cientistas alemães que vieram explorar e conhecer a flora e a fauna brasileira. Eram o Zoológo Johann Baptist Spix   e o botânico Carl Friedrich Phillipp Martius que vieram inspirados pelas viagens, no início do século, de Humboldt pela América do Sul, que gozava de amplo prestígio no meio intelectual da época.

Martius, ficou mais conhecido porque descreveu suas aventuras num livro Relato de Viagens ao Brasil – Expedição do botânico alemão Martius 1817 - 1820, fazendo um inventário da natureza do Brasil. Eles dividiram o território do Brasil em cinco biomas que usamos até hoje (cerrado, caatinga, Mata Atlântica, Floresta Amazônica e Pampa).

O sequestro dos índios realmente aconteceu e era comum que barcos europeus levassem muitos índios para aculturação, comércio humano ou exibições públicas, desde Cabral, pouco contada na história oficial, sempre que aportava uma nau em margens brasileiras, logo apareciam tribos para oferecerem seus inimigos e até seus parentes, em troca de bens de interesses.

A segunda parte do livro incorpora o álter ego da escritora na personagem Josefa que a partir do conhecimento das fotos dos dois índios levados para a Baviera e retratados por artistas, esculpidos em bronze e enterrados em cemitério real, com a presença da rainha, foi disseminado no mundo e estava disponível na exposição que surpreende Josefa.

Trazendo para a amarga realidade atual, a violência contra os índios e nossos problemas sociais. Eles são introduzidos por um discurso de defesa das terras indígenas na época da construção da barragem Belo Monte, do cacique Raoní Metuktire, muito conhecido no mundo por sua luta em defesa dos povos originários e que atraiu a ira de bruto governante do passado que chegou a mencioná-lo em discurso na ONU que: “A era do Raoní, teria ficado para trás”.

A terceira parte do livro é de muito bom gosto e descreve a vivência da autora no meio dos povos originários, tentando compreender seus mundos e costumes, chegando a participar de celebrações e experiências transcendentais que muito a influenciou na descrição dos sentimentos e pensamentos da Iñe-e.

A quarta parte do livro tem como fonte suas pesquisas na Alemanha sobre a vida da época dos acontecimentos, o próprio livro do cientista Marcus e os registros cartoriais da época.

Parte considerável do romance é a narrativa da história do ponto de vista de Iñe-e, a índia que que foi levada pelos cientistas, juntamente com uma dezena de outras crianças e adultos e documentados no livro de Martius. A autora, meio que ignora os demais transpostos, para buscar na voz de Iñe-e uma forma de desacreditar os cientistas, ou pelo menos tirar-lhes a pecha de heróis.

Frustrando minhas expectativas, Iñe-e acabou sendo descrita como uma menina muito xucra, sem interação com a realidade e com as pessoas, sem empatia, triste e apática, ao contrário do seu companheiro e antigo inimigo o menino Juri, que conseguiu até se divertir e interagir com os brancos, evidentemente dentro dos seus conceitos, muito embora todos estivessem condenados à morte rápida pela ausência de defesa e inabilidade corpórea para a convivência em ambiente tão contaminado como o das cidades.

A construção do personagem onça e sua formação no imaginário das tribos e na representação na vingadora, capaz de proteger a quem consegue incorporá-la e obedecer a seus chamados, foi muito criativa e, sem dúvida, é a parte do livro, mais bem fundamentada em pesquisas literárias e de campo, sob exploração do imaginário do povo miranha e de outros povos originários, além de ter sido escrito em uma prosa Roseana de muito bom gosto.

O texto deixa pouco claro que os miranha eram uma tribo de guerreiros que consideravam inimigos todos aqueles que não falassem a língua Bora. Se eles não entendessem ou não fossem entendidos era sinal de inimigo a ser capturado para ser vendido como escravo ou se fosse um guerreiro famoso de outra tribo seria morto e devorado em um ritual antropofágico, de muito significado para eles, que assim conseguiriam assimilar qualidades desse herói e conviveriam com seu espírito daí em diante. 

De livros didáticos na Internet: “Os miranha eram considerados brutos, antropófagos e seus chefes costumavam vender seus prisioneiros e seus inimigos como escravos e até mesmo os seus parentes”. “Os miranha em 2014 eram 21.459 no Amazonas e 445 na Colômbia, na época do ocorrido, não se tem estatística de quantidade, mas deveriam ser muitos e fortes na região. Tiveram suas terras demarcadas no século XX em 1929 TI Méria (Médio Solimões); em 1991 a Ti Miratu no município de Urini; 1998 Ti Cuiú-Cuiú no município de Maraã, homologada em 2003.”

Noutra frente, o livro é um libelo muito interessante de reforço dos valores morais, sociais e religiosos atuais com incorporação de todas as lutas baseadas no conceito atual do “politicamente correto”, forma de pensar que abandona toda e qualquer contextualização das eras passadas e de seus conhecimentos, costumes e valores, para fazer uma análise de qualquer ação do passado sob os valores atuais e assim, exercer um julgamento do passado segundo os padrões atuais, condenando e execrando todas as justificativas, não científicas ou não igualitárias contemporâneas.

A arquitetura

A estrutura arquitetônica do livro de Micheliny é explicada por ela como semelhante à construção de uma oca indígena: Primeiro se fincam as troncas ou estroncas que segurarão o teto, depois as varas que seguram as paredes e só então se trabalha galhos e folhas que irão ser entrelaçadas para construírem paredes e teto.

Seu primeiro lance é a apresentação da cosmovisão dos índios  miranha. Na verdade, o alicerce da Oca imaginária, porque sem esse contexto muitas partes da história não fariam sentido.

 “Quando Niimúe criou o mundo....o mundo é esse gigante que mal distinguimos se estamos distraídos...” na verdade é um mundo em constante peleja e se auto devorando. Mas, principalmente devorando aqueles que não lhe ouvem e o destroem etc.

A segunda estaca é a apresentação de Iñe-e no navio com todas as novidades do mar e da própria embarcação atulhada de espécies de animais, vegetais e gente... já com o ponto de vista de Iñe-e e começando a dar vida a sua personagem com uma versão descolonizadora, apresentando o sentimento e a visão do mundo dos espíritos, na crença indígena, que os cientistas tiravam seus espíritos quando os pintavam e fotografavam, tanto das pessoas como dos animais e plantas e avança na percepção de que os animais mumificados continuavam vivos só que congelados e para sempre em alerta permanente.

A surpresa desse lance é a entrega de que essa é a estória da morte de Iñe-e e de como ela perdeu seu nome, sua casa e sua voz. A voz é colocada como a identidade de todo ser, animado ou inanimado, “quando se perde a voz, se perde a vida”, fazendo jus à cosmovisão maranha.

Em seguida, a autora, se coloca no texto como a personagem Josefa que emprestará a Iñe-e a sua voz e sua língua e mesmo as letras arrumadas como “colar de formigas no chão”.

Descreve muito poeticamente o nascimento de Iñe-e e seu irmão gêmeo, seu crescimento no meio da comunidade, seu desaparecimento temporário quando criança e seu encontro com uma onça que não lhe feriu, fato que gerou desconfiança do seu pai de que ela seria uma inimiga por ter convivido pacificamente com o animal mais perigoso e inimigo de todos.

O Trançado

Deste ponto em diante começa a fazer o trançado já falado dos galhos e das árvores para a construção da oca, ou seja, do texto.

Conta a chegada dos cientistas na tribo, já acompanhado de índios de outras tribos trazendo missangas, chitas e metais que agradavam aos chefes e foram recebidos com muita alegria e reconhecimento e são alimentados e tratados em suas feridas pelas mulheres, fazendo um dia de festa, danças e interessados em fazerem negócios lucrativos.

O pai de Iñe-e se embrenha na mata para buscar escravos para o homem e na volta trouxe alguns poucos homens, muitas mulheres e várias crianças.

Antes era costume que seu povo trocasse com os brancos apenas os inimigos e os órfãos dos inimigos por mercadorias variadas e ferramentas de trabalho.  Mas o pai de Iñe-e já estava se aculturando usando roupa comprida o tempo todo e até dizia palavras da língua dos brancos e exigia ser chamado de João Manoel, porque fora batizado em uma de suas viagens.

São muitos os momentos poéticos de sua descrição: (22) “Uma manhã em que o sol se levanta do mesmo jeito que sempre se levanta, e em que a mata fala sua língua de mesmo modo com que sempre falava nada denunciava o que estava para acontecer”.   Este fez parte da introdução do momento chave do livro, aquele em que o pai de Iñe-e a dá de presente ao estrangeiro Martius como agradecimento pelo acordo sobre a venda das sete crianças inimigas.

Aí a história toma outro rumo. Josefa o álter ego da escritora que já havia se identificado com um desenho da índia Iñe-e numa exposição, vê Raoni com um sêr quase mítico, o que desperta nela uma estranheza em relação à sua pessoa, ao mundo em que vive como se tivesse uma ligação umbilical como aquela gente ou um sentimento de busca pessoal por esse mundo da inocência perdida que precisaria ser resgatada para voltar à sua inteireza no mundo.

Vai em busca do resgate da história de Iñe-e  e assume a missão de reescrever a história retirando daqueles cientistas a imagem de bons e competentes, porque na avaliação contemporânea de Josefa, Homens bons não sequestram crianças.

Josefa busca no Google retratos da menina e começa a se identificar com ela, “se sua tia pudesse em algum momento representar a menina que ela fora, seria algo muito diferente daquele retrato xambouqueiro da menina do povo miranha?... Ela olha a menina e é seu próprio rosto que vê”.

Foi a Munique em busca de elementos para sua história e recebe a informação do assassinato de Mariele Franco, mais uma vez a história adquire novo colorido, mais atual e integrado à luta social no Brasil e no mundo, que parece só continuar a luta antiga por um reconhecimento mútuo da diversidade entre os homens. 

Seguem-se as aventuras de Iñe-e junto com os cientistas, a entrega dos outros índios a pessoas de confiança de Marcus, a entrega de Iñe-e à rainha e a surpresa e tentativa de diálogo e seus usos como brinquedos das filhas da rainha.

A morte do menino Juri é detalhada e sua consternação é geral. Ele respondera com valentia tudo o que passou, conseguindo alguma interação com as crianças e os adultos, até se divertindo com os costumes estranhos dos brancos, mas poucos meses depois não resiste à doença do inverno europeu e falece com problemas pulmonares.

É assistido com a medicina da época, mas não tem sucesso, seu enterro é, de certa forma, solene com a presença da Rainha. Que manda fazer um busto para lhe identificar o túmulo.

Esquecendo, acho propositalmente, a visão ou cosmovisão da época do colonizador, mesmo a sua necessidade de compreensão do mundo e de pesquisa científica. Afirma, sem rodeios, que tudo começou com Iñe-e. Ou seja, é esse ponto de vista que você vai ler aqui, não se aflija, sou Iñe-e e o resto não vai me interessar. (gostei da franqueza, embora subtendida).

A estratégia clara, típica do movimento “politicamente correto” e, garantia de sucesso dos romances atuais, é aplicado sem dúvida pela autora, trata-se de recolocar no contexto atual aquela visão opressora do modelo colonial e fazer um julgamento com os valores atualmente em voga de modo a gerar um sentimento de repulsa e indignação para os cientistas, a ciência e a ação exploradora e espoliadora dos colonizadores, mesmo que sejam cientistas ou estudiosos bem intencionados, não importa, são os pecados de gerações como a escravidão e a exploração do ser humano em qualquer circunstância. O fato de serem cientistas, só serve como agravante por terem sequestrado crianças e considerando os índios como espécies de estudos como as plantas e animais tirados da terra.

Acredito, que a autora tinha material para realizar um livro épico e magistral, contando uma história interessante, abordada do ponto de vista do silvícola, o que é raro na história moderna, desde a fase da literatura de José de Alencar, Gonçalves Dias, Gonçalves Magalhães com seu I-Juca Pirama.

Mas, foram frustradas minha expectativa, porque seria de grande interesse uma análise do choque de concepção do mundo dos nativos dom a dos cientistas. Contrapondo duas visões de mundo de modo mais equilibrado e consentâneo com o conhecimento de hoje sobre as duas civilizações.

Minha surpresa foi por esperar um livro épico que contava a história de um sequestro de indígenas pelos colonizadores, muito comum na época da colonização ou até da pré-colonização, para uso como estudo científico e demonstração de sucesso das suas viagens ao Brasil.

Encontrei um libelo libertário, feminista e datado, feito dentro da medida e do diapasão da literatura engajada da atualidade com lapsos de temporalidade e sentido, com pouco amálgama de integração entre as duas personagens centrais da trama, Iñe-e e Josefa o álter ego da escritora.

Sem dúvida, duas mulheres tão potentes poderiam ter sido mais exploradas no sentido próprio da exploração dos sentimentos e do crescimento do autoconhecimento.

Da Iñe-e procurei conhecer seus pensamentos próprios, suas surpresas, resignações ou mesmo um tipo qualquer de integração, mas Iñe-e é quase morta. Calada e assustada o tempo todo. O seu companheiro o menino Jari ainda consegue acusar a estranheza diante dos comportamentos do homem branco, mas Iñe-e é muito opaca.

A saída foi típica de Guimarães Rosa, a realidade fantástica, transformá-la em onça e conversar com o rio.  A onça é a dona da história, foi um achado muito bom a de lhe colocar como uma onça, só que não conseguiu lhe dar as suas propriedades.

Mulher onça pega bem e é admirada em sua fortaleza, mesmo que seja derrotada pelas doenças e fragilidades, mas exala algumas características da onça. São onças de Guimarães Rosa, as onças de Ariano, as jaguatiricas, uruajura, tapiraí-auára, tem maria-maria, estão todas lá, no baile das onças.

Experiência transcendental com Ayuasca e muitas histórias da tradição de diferentes tribos, com muita pesquisa e informações, ajudaram a fazer a obra significativa.

Afinal o Som do Rugido da Onça é ouvido por ela na parte final do livro quando se ouve o respirar cansado de Martius com dor na consciência por ter degredado Iñe-e de sua linda terra natal e ter prestado serviços tão relevantes para a ciência e para o Brasil, a ponto de ter como inscrição em sua lápide “Entre as palmeiras me sinto sempre jovem. No meio delas ressuscito”, mas para isso ele teria que ser onça ...findo estava, caça que era”.

Apreciei imensamente, com as devidas observações.

Indico e aconselho, sem restrições. 

terça-feira, 18 de abril de 2023

O leopardo - Giuseppe Tomasi di Lampedusa


Resenha de Lenita Turchi

O leopardo, considerado um dos romances mais importantes da Itália, publicado em 1958, após ter sido rejeitado duas vezes, é ainda fonte de debates e controvérsias. As recusas vieram do autor Elio Vitorino, conhecido como profeta do neorrealismo italiano, que o apontavam como “antiquado e desequilibrado” ou antiquado e reacionário.  E foi graças a uma análise da mulher do conde Lampedusa, a psicanalista Licy, que uma cópia do manuscrito chega às mãos da agente literária Elena Croce que o romance é publicado. Segundo Jorge Bacena, escritor que aprovou a publicação: “Desde a primeira página me dei conta que estava frente a obra de um grande escritor e ao avançar estava convencido que o verdadeiro escritor era também poeta”.

O autor

Guiseppi Tomasi de Lampedusa, duque de Parma e príncipe de Lampeduza, nascido em 1896, passou sua infância e adolescência nos palácios dos pais e avós na Sicília. É convocado para lutar na Primeira Guerra e ao término desta vai viver em Londres com um tio nobre e diplomata. Casou se com a aristocrata russa Alessandra Wolff-Stormersee, psicanalista, que introduziu Lampeduza nos estudos freudianos e juntos estudavam literatura russa.  Na vida londrina dedicou-se à literatura e história e dava aulas de literatura francesa e inglesa para círculos literários. Leitor compulsivo lia tanto a literatura clássica como a contemporânea, tendo como referência autores como Tolstoi, Sthendal, Shakespeare, Dicknes, Jaime Joyce e Elliot. Segundo seu biógrafo, (David Gilmor) o desejo do escritor era escrever sobre a vida do Principe de Salina, mas desistiu por achar que não tinha capacidade de escrever como Jayme Joyce.

Depois resolveu ser mais “modesto” e o projeto inicial era de escrever um romance histórico, ambientado na Sicília no tempo do desembarque de Garibaldi em Marsala, inspirado na vida de seu bisavô, o astrônomo príncipe de Lampedusa.  Este projeto planejado por 25 anos foi iniciado em 1954 e concluído 30 meses depois, de fato transcendeu em muito o propósito de escrever o memorial da família Lampedusa. O Gatopardo é uma análise primorosa da história política e social da Sicília, no período das guerras de unificação e da transição do regime monárquico e do surgimento da burguesia italiana.  É também uma refinada descrição da cultura siciliana com seus valores, normas, rituais, padrões de comportamento e a percepção do tempo pelos habitantes da ilha.  É sobretudo uma discussão existencial sobre os prazeres da vida e sua finitude.

O gatopardo: personagens

O romance tem como personagem central Don Fabricio, príncipe de Salinas, que assim como o bisavô do autor, era astrônomo e um homem refinado e ciente da sua condição de classe.  Em torno dele, gravitam sua família constituída pela mulher Stella, 3 filhas e 4 filhos, o sobrinho Trancredi e o cão Bendico.  Aqui a descrição do autor sobre o príncipe

“Primeiro (e último) de uma linhagem que, durante séculos, fora incapaz de fazer sequer as somas das próprias despesas e a subtração das próprias dívidas, possuía reais e fortes inclinações para astronomia, delas obtendo suficiente reconhecimento público e gratas alegrias privadas. Basta dizer que o orgulho e a análise matemática associavam-se nele a ponto de lhe dar a ilusão de que os astros obedeciam a seus cálculos ....” (p. 48).

Tancredi Falconieri, protegido e preferido do príncipe Salinas, é visto e tratado como o filho que gostaria de ter. Jovem, encantador, de vida social intensa e fortuna dilapidada pelo pai, Tancredi se alia aos grupos combatentes da monarquia com o seguinte argumento.

“Se nós não estivermos presentes, eles aprontam a república. Se queremos que tudo continue como está é preciso que tudo mude” (p. 69). 

Após a vitória de Garibaldi, Tancredi vai visitar o tio com amigos e este se surpreende ao ver o sobrinho e os amigos trajando uniformes de oficiais ao invés das camisas vermelhas que antes vestiam. O diálogo que se segue ilustra bem a personalidade do sobrinho e dos jovens de sua classe.

“Mas que garibaldinos coisa nenhuma, tiozão! Já fomos; agora chega. Cavriaghi e eu somos oficiais do exército regular de Sua Majestade o rei da Sardenha, ainda por uns meses, e da Itália em breve.  Quando o exército de Garibaldi se dissolveu podíamos escolher: ir para casa ou ficar no exército do Rei. Ele e eu, como todos os homens de bem, entramos para o exército “verdadeiro”. Com aqueles outros não dava pra fica. Meu Deus, que gentalha”. 

O padre Pirrone, que aparece quase como membro da família, representa o pensamento conservador da Igreja e, mais especificamente, dos jesuítas. Este personagem é apresentado como um conselheiro, protetor das virtudes da família e um colega de trabalho do príncipe em seus estudos de astronomia. Um equilibrista entre as vontades humanas do príncipe e os princípios da igreja. Um sabedor de sua posição, enquanto aquele que não deve manifestar sua opinião sem antes sondar as intenções daqueles que a solicitam.

D. Calojeno Sedara, comerciante e proprietário rural, e sua filha Angelica, representam a burguesia ascendente, que enriquecia com as mudanças econômicas e políticas gestadas durante as guerras para a união dos reinos da Sicília, sob o reinado do Rei da Sardenha e da futura Itália. D. Calogeno é descrito como inteligente, astuto que soube tirar proveito comercial do seu apoio ao exército libertador, mas sem p refinamento necessário para ascender socialmente. Na sua perspicácia, envia a bela filha para estudar em Florença e esconde a mulher, uma camponesa de rara beleza, porém rude e de pouca inteligência. Angelica bela e sedutora aprende com facilidade os rituais e convenções da nobreza.  

Cenário ou outro personagem?

A Sicília é a maior das ilhas do mar Mediterrâneo e, devido a sua posição geográfica, ocupou lugar de destaque nos eventos históricos e políticos dos povos da região mediterrânea. Cultura diversificada, fruto de ocupações, que remontam aos IIIº e IIº milênio a.C,, dos povos sicanos e fenícios. Nos séculos seguintes, a ilha foi disputada e ocupada por gregos, romanos, ostrogodos, árabes, aragoneses, judeus e normandos que constituíram um tecido social denso de camadas culturais que se sobrepõem. Essa é a beleza, a riqueza e, ao mesmo tempo, a sina “mudar para continuar como está”, conforme a definição do príncipe de Salinas. “Na Sicília não importa fazer certo ou errado, o pecado que nós sicilianos não perdoamos nunca é simplesmente o “fazer”. Somos velhos, Chevalley, velhíssimos. Há vinte e cinco séculos pelo menos nós carregamos nos ombros o peso de magnificas civilizações heterogêneas ... os sicilianos não querem melhorar pela simples razão que se consideram perfeitos; sua vaidade é mais forte que sua miséria. (p. 223)

A novela / trama   

O romance se desenvolve em oito partes, como se fosse um diário. Segue uma periodização que tem início em maio de 1860, que marca o desembarque de Garibaldi em Marsala e a tomada de Palermo.  E concluído em maio de 1910 com a decadência da fortuna e prestígio da família, representados pelas moderadas inovações do Papa Pio X.

Na primeira parte, a família do príncipe Salina, após a oração diária, é surpreendida com a notícia de um soldado encontrado morto nos jardins do palácio em Palermo. Essa é a forma que o autor utiliza para falar da guerra para depor a monarquia dos Bourbons e unir os dois reinos da Sicília.  Daí em diante os temas morte, conflitos e razões para existência perpassam toda estória.

Tancredi vai visitar a tio em Donnafugatta, castelo de verão dos Salinas, e lá conhece Angelica num jantar, que por tradição o nobre deve oferecer às personalidades do local, o principal deles D. Calogeno.  O encontro da bela Angelica com a família do príncipe Salinas é narrado pelo autor como um sucesso, ou seja, todos representaram bem os devidos papeis “impecável direção cênica”.

O romance entre Tancredi e Angelica prossegue sob olhares benevolentes do príncipe e de D. Calogeno. O príncipe que vê em Angelica e em seu patrimônio a possibilidade de alavancar a carreira do astucioso Trancredi e o pai de Angelica a oportunidade de fazer parte da nobreza ainda que falida. Angelica e Trancredi representam aqui a união dos novos ricos com a nobreza falida. Um jogo que todos ganham se agirem de acordo as regras do teatro da época. Ou seja, o príncipe, ignora a atração que sua filha Concetta sente pelo primo e pensa o que seria melhor para a sobrevivência da família. O pai de Angelica na sua astucia sabe das vantagens da união de sua fortuna com a nobreza ainda no poder.    

O baile de apresentação de Angelica à sociedade é um dos pontos fortes do livro. Neste capítulo, o autor narra com ironia e riqueza de detalhes o comportamento da nobreza assim como o caráter fugaz da beleza e da vida. Os mínimos detalhes, como chegar na hora marcada, considerado prova de refinamento, passando pela barba, o corte e tecido da vestimenta de D Calogeno, assim como as falas dos mesmos são cuidadosamente programados e supervisionados por Trancredi e seu tio para que a noiva seja aceita e não envergonhe a família. Na festa, já cansado e sem poder se retirar, era de bom tom ficar até as 6 da manhã, o príncipe lança seu olhar crítico a todas as futilidades e superficialidade da sua classe e da própria existência.  Trancredi e Angelica o encontram na biblioteca comtemplando uma cópia do quadro a “Morte do Justo,” de Creuze. Para desviar sua atenção deste tema, Angelica pede que o príncipe a acompanhe para dançar uma valsa. No início uma recusa, mas difícil negar o pedido “súplicas” da sedutora Angelica. Reanimado pela deferência e pela admiração que os dançarinos causavam no salão, o príncipe se rejuvenesce e “por um instante naquela noite, a morte foi aos seus olhos coisa dos outros”.

Neste livro, a obra da uma vida, Lampedusa mostra sua genialidade não só na narrativa, refinada e irônica, mas também na construção dos personagens.  O romance tem a influência dos autores russos e franceses em que que o autor é especialista, mas é ao mesmo tempo original. As descrições dos cenários, lembram Stenhal e Tostoi, nos detalhes e nuances. A descrição do jardim do palácio onde é encontrado o soldado morto, no início do conflito, é poderosa e traz consigo a visão da Sicília.

“Era um jardim para cegos:  olhar era constantemente ofendido, mas o olfato podia extrair dele um prazer forte embora nada delicado. As rosas, Paul Neyron, cujas mudas ele próprio havia trazido de Paris, haviam degenerado:  excitadas a princípio e logo enlanguescidas pelos sucos vigorosos e indolentes da terra siciliana queimados pelos verões apocalípticos, haviam se transformado numa espécie de repolhos cor de carne, obscenos e que destilavam um aroma denso quase torpe que nenhum criador francês teria ousado esperar. O príncipe colocou uma delas debaixo do nariz e pareceu lhe cheirar a coxa de uma bailarina da ópera. Benicó,  a quem, também a ofereceu, retraiu-se nauseado e apressou se buscar sensações mais salutares entre adubo”

Outros dos muitos aspectos que fazem do romance uma obra prima são os diálogos do príncipe com padre Pirrone e com o organista companheiro de caça. Quando padre Pirrone ao saber das inclinações políticas do príncipe de apoiar a união da Sicília afirma indignado “Em poucas palavras então os senhores vão se mancomunar com os liberais! ... até mesmo com os maçons à custa da igreja. .... O senhor sarava os cegos do corpo; mas onde vão parar os cegos de espírito?”

“Não somos cegos, caro padre, somos somente homens. Vivemos uma realidade móvel a qual tentamos nos adaptar assim como as algas se dobram ao impulso do mar. À Santa madre Igreja foi explicitamente prometida a imortalidade; a nós como classe social não. Para nós um paliativo que promete durar cem anos equivale a eternidade” (p. 80).

Belo e triste, o romance exige dedicação na leitura pois cada situação tem vários significados e, por isso mesmo, fonte de debates. A beleza da narrativa se expressa nos sutis jogos de palavras e ironia das situações. Não nos admira que o romance ainda seja fruto de interpretações e polêmicas. O príncipe é mordaz e irônico com todos, inclusive consigo mesmo. Assim desagradou a nobreza, a igreja, os novos ricos, os “revolucionários”, e os sicilianos.

Visão muito cética da humanidade “tudo deve mudar para ficar como está”.

O Leopardo foi filmado por Luchino Visconti e considerado um dos melhores filmes do diretor. Príncipe de Salinas, interpretado por Burt Lancaster, Angelica por Claudia Cardinale e Trancredi  por Alan Delon.


domingo, 12 de março de 2023

Soldados de Salamina - Javier Cercas (2001)

 por Daniela Lopes

Guernica, Pablo Picasso (1937)

Javier Cercas Mena é um escritor e tradutor espanhol nascido em 1962, na cidade de Ibahernando, província de Cáceres. Doutor em Filologia Hispânica pela Universidade Autônoma de Barcelona, é colaborador do jornal El País desde 1999, e atuou como professor nas universidades de Illinois nos Estados Unidos e de Girona na Cataluña. Soldados de Salamina foi publicado em 2001, seu quarto romance, e foi o que o tornou conhecido, premiado e traduzido em mais de 30 países. Entre 2001 e 2005 o livro vendeu mais de 1 milhão de cópias, tendo recebido elogios de escritores como Mario Vargas Llosa (https://elpais.com/diario/2001/09/03/opinion/999468046_850215.html#?prm=copy_link), J. M. Coetzee e Susan Sontag. Desde então, Cercas se dedica exclusivamente à escrita literária e à produção de artigos para a imprensa sobre os debates culturais e políticos na Espanha.

Em 2003, Soldados de Salamina foi adaptado, com o mesmo título, para o cinema pelo cineasta espanhol David Trueba, o que rendeu também um outro livro-ensaio, “Diálogos de Salamina”, em que Cercas e Trueba passeiam pelos cruzamentos de linguagens do cinema e literatura na experiência de transpor o livro para a tela.

Nesses ‘Diálogos’, Cercas-autor pontua que a narrativa não é sobre a Guerra Civil Espanhola:

La novela, básicamente, habla de los héroes, de la posibilidad del heroísmo; habla de los muertos, y del hecho de que los muertos no están muertos del todo mientras haya alguien que los recuerde; habla de la búsqueda del padre, de Telémaco buscando a Ulises; habla de la inutilidad de la virtud y de la literatura como única forma de salvación personal...

Javier Cercas, Diálogos de Salamina (2003)

Mas é inegável que a Guerra Civil (1936-1939) e os 37 anos do reinado franquista são mais do que pano de fundo na obra de Javier Cercas, que é filho de pai e mãe simpatizantes do falangismo. Vários de seus outros romances (como Anatomia de um Instante e Rei das Sombras) desfiam e desafiam a narrativa oficial (institucional e familiar) da história espanhola no século XX e as cicatrizes do fascismo que marcam aquela sociedade até hoje, propondo a ficção literária como única mentira que nos leva à verdade. (https://www.youtube.com/watch?v=8_PnzSMl2bA&t=276s)

Javier Cercas é autor e narrador-personagem de Soldados de Salamina, nesse livro classificado por uns como faction (fact + fiction) ou narrativa híbrida e também visto como uma metaficção historiográfica. Cercas-personagem persegue uma narrativa real, um relato real com base em atividade investigativa, que no entanto só se completa, quando o Cercas-autor preenche as lacunas com a ficção e heróis desconhecidos e esquecidos.

A obra é dividida em três partes. A primeira parte, ‘Amigos do Bosque’, versa sobre como o Cercas-narrador, um escritor frustrado que não se acha mais escritor, se aproxima e fica curioso sobre a trajetória de vida de Rafael Sanchez Mazas, ideólogo falangista e ‘também em relação à Guerra Civil, da qual até aquele momento não sabia mais do que sabia sobre a batalha de Salamina ou sobre o uso exato da plaina...”. O título do livro deriva dessa batalha no estreito de Salamina, batalha naval crítica em que os gregos venceram os persas. Sanchez Maza tinha um interesse particular nessa batalha e pretendia escrever um livro sobre ela. Mas aparentemente a escolha de Cercas pelo título é uma forma sutil de abordar um assunto, o da Guerra Civil, que ficou por muito tempo abafado na sociedade espanhola e só começou a ser revisitado após a morte de Franco.

Cercas-narrador se pergunta como um escritor, homem culto e bem-educado se dedica a construir uma estética e moral fascista; depois fica intrigado com o relato do filho de Sanchez Mazas sobre como o pai escapou do fuzilamento no Collel. Como um detetive, através de conversas com estudiosos, parentes e outros personagens ainda vivos, o narrador vai, de uma forma quase obsessiva, montando os pedaços do episódio do fuzilamento no Collel, quando os republicanos, já quase no final da guerra, reúnem em uma clareira expoentes importantes dos falangistas nacionalistas e os fuzilam. Sanchez Mazas escapa para dentro do bosque e é achado por um jovem soldado republicano, que o vê mas não o mata ou denuncia. O escritor então vaga pelo bosque e recebe ajuda de uma família da comunidade local e de soldados republicanos desertores, ‘os amigos do bosque’.

Na segunda parte, que tem o mesmo título do livro, é desenvolvida a narrativa sobre Sanchez Mazas, com os detalhes de sua vida, carreira literária e política antes e depois do episódio do Collel, os relatos dos amigos do bosque, seu apoio ao Generalíssimo Franco e seu ofuscamento depois, nos seus últimos 20 anos de vida. É o livro dentro do livro, como uma crônica que deixa transparecer o espírito do tempo, como forma de trazer à superfície as circunstâncias e barbaridade da guerra por meio de um episódio obscuro da vida de um dos personagens do falangismo.

Na terceira parte, ‘Encontro marcado em Stockton’, encontramos Cercas-personagem já tendo desistido do livro sobre Sanchez Mazas, entrevistando o escritor chileno Roberto Bolaño, que lhe conta sobre um homem extraordinário que conheceu quando jovem em um camping em que trabalhava de vigia no interior da França. Miralles tinha sido soldado na Guerra Civil, lutado ao lado general republicano Lister, e depois em batalhas da Segunda Guerra pelas tropas francesas na África e na França. Detalhes contados por Bolaño nessa ocasião levam o narrador a acreditar que Miralles poderia ser o soldado que poupou a vida de Sanchez-Maza. Movido pela questão do que pensou esse soldado naquela hora em que poderia ter eliminado um dos mais importantes arquitetos do fascismo espanhol, Cercas vai encontrar Miralles em uma casa de repouso em Dijon para lhe fazer essa pergunta e entender-se de novo como escritor.

Nomes, lugares, pessoas e acontecimentos reais fazem parte da narrativa oficial da história, em tempos de guerra ou em tempos de paz. Mas não é toda a história. Em geral deixa para trás, sem reconhecimento e invisíveis, as inúmeras memórias individuais ou familiares, versões, e feitos heróicos dos que não foram os vencedores e dos que nem estavam interessados na guerra. “Desde que a guerra terminou não se passou um só dia sem que eu pensasse neles. Eram tão jovens... Morreram todos. Todos mortos. Mortos. Mortos. Nenhum provou as coisas boas da vida: nenhum teve uma mulher só para ele. Nenhum conheceu a maravilha de ter um filho nem viveu a maravilha de ter esse filho, com três ou quatro anos, se enfiando em sua cama, entre sua mulher e ele, num domingo de manhã, num quarto com muito sol.” O Miralles ficcional de Cercas não se via como herói, era ‘um homem acabado que teve a coragem e o instinto da verdade e por isso não errou nunca ou não errou no único momento em que de fato importava não errar’.

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Há bons recursos para quem se sentir curioso sobre a obra de Javier Cercas:

Victor Lemus. Un secreto esencial: Literatura y memoria histórica en Soldados de Salamina, de Javier Cercas. UFRJ Ipotesi – Revista de Estudos Literários, vol 11 (2), 2007.

https://periodicos.ufjf.br/index.php/ipotesi/article/view/19349

 Aurelio Ramos Caballero. THE SPANISH CIVIL WAR IN CONTEMPORARY SPANISH FICTION: SOLDADOS DE SALAMINA, LA MULA AND LOS GIRASOLES CIEGOS. University of Birmingham. M.Phil. 2010. https://etheses.bham.ac.uk/id/eprint/417/

 Vinicius Gonçalves Mazzini. O EX-CÊNTRICO COMO HERÓI: UMA COMPARAÇÃO ENTRE JOÃO TORDO E JAVIER CERCAS. UFGD, 2021.

https://repositorio.ufgd.edu.br/jspui/bitstream/prefix/5278/1/ViniciusGon%C3%A7alvesMazzini.pdf

 

 

terça-feira, 14 de fevereiro de 2023

Salvatierra - Pedro Mairal


 

 Comentários: Ana Studart


Salvatierra, de Pedro Mairal, é um livro muito festejado no meio literário. 

Segundo Mairal, a ideia de escrever esse livro surgiu ao assistir na televisão um documentário sobre o pintor Jackson Pollock, que um dia não conseguiu mais pintar, ficou paralisado, por excesso de exposição. Então lhe veio a ideia de Salvatierra, um artista plástico autodidata desbloqueado, que pinta todo dia. Um pintor que não almeja sucesso e vai pintando um quadro infinito, sem interrupções, num galpão. E pinta para ele, sem desejar tornar sua obra pública.E logo lhe surgiu o personagem central, que seria mudo, e assim usaria sua arte como meio de expressão. [http://pedromairal.blogspot.com].


Sobre o enredo: Escolhi comentar Salvatierra pelo tema inusitado. Uma criança que, por acidente, fica muda, e vai crescendo como uma pessoa à margem da família, quase um bobo - nas palavras de Mairal, visto quase como um “ freak” Apesar disso, Salvatierra se casa e tem três filhos- Miguel, Luís e Estela, que faleceu prematuramente,

A história acontece num pequeno povoado argentino, Barrancales, na proximidade de um rio que faz fronteira com o Uruguai- o Rio da Prata. O enredo se desenvolve de maneira  despretensiosa - o simples contar de uma historia que se desenrola como o curso de um rio, o mesmo rio que povoa  as pinturas de Salvatierra. 

As pinturas de Salvatierra parecem  formar uma biografia, um diário interessante produzido  por uma pessoa muda, que só se revela ao mundo após a sua morte, quando os  filhos Miguel e Luis encontram num galpão os rolos de tela intermináveis. Eles mostram,  em desenhos, ano a ano, os sessenta anos da vida desse homem, uma vida que acaba se revelando  surpreendente. 

Querendo divulgar a obra do pai, os filhos, depois de várias tentativas, recebem uma oferta do livro de recordes, (seria o quadro mais longo do mundo, com  quase 4 kms de extensão),mas optam por vender a obra  a um museu em Amsterdã, que a digitaliza e envia para a Holanda, pouco antes de um incêndio em Barrancales transformá-la em cinzas…

O povoado de Barrancales  que ambienta o livro,  foi criado pelo autor, e  apresenta a vida numa cidade interiorana da Argentina, onde a lei nem sempre é respeitada, e a burocracia é um obstáculo difícil de ser superado. É interessante a comparação que Miguel faz de Barrancales cheia de cores nas pinturas do pai, com as vidas cinzentas que ele e  Luis vivem em Buenos Aires:

 “Como havia sido a vida do meu pai? Por que ele precisou assumir esse trabalho tão imenso? O que tinha acontecido comigo e com Luís para acabarmos assim, vivendo essas vidas tão cinzentas e tão portenhas, como se Salvatierra tivesse monopolizado todas as cores disponíveis? Parecíamos mais vivos na luz da pintura, em alguns retratos que ele fizera de nós aos dez anos, comendo peras verdes, do que agora, na nossa vida de cartórios e contratos. Era como se a pintura tivesse engolido nós dois, Estela e mamãe.” 

O livro se concentra no relacionamento entre pais e os filhos, que crescem e vão para longe, para estudar e trabalhar, e se desconectam da vida que tinham anteriormente. Se afastam dos pais, que reencontram apenas em datas festivas. A pergunta de Miguel, “Como havia sido a vida do meu pai? Por que ele precisou assumir esse trabalho tão imenso?” mostra uma realidade, que ele lamenta. E vai conhecendo o pai através das telas, que retratam a fase em que conheceu a esposa, Helena Ramirez, o casamento, o grande incêndio, estudos com plantas e insetos, o rio, a filha Estela morta afogada, descrita assim, em outra primorosa passagem:

“Salvatierra queria pintar a força do rio na sua tela e o rio lhe pedira em troca sua filha de doze anos. O rio a levava devagar, porém implacavelmente, sem que ele pudesse dete-lo E foi assim que a pintou: Estela afogada no remanso dos salgueiros”. Mais adiante, Miguel comenta o efeito dessa morte na mãe; “Com os anos, foi ficando cada vez mais seca e severa. A morte da minha irmã a endureceu para sempre. Nunca mais a vimos sorrir”.

As telas continuam surpreendendo Miguel, e seleciono esse trecho para transcrever- “…nunca tive vontade de pintar. Sempre senti que não havia nada que não estivesse pintado por ele.Lembro-me de ter-lhe mostrado um rabisco que fiz aos dez anos, de submarinos e foguetes. Eu estava orgulhoso de como eles tinham ficado. Uma semana depois entrei no galpão e os encontrei pintados na sua tela, o submarino e o foguete, gigantescos e mais coloridos, e minha sensação não foi de que ele havia me copiado, mas de que eu os copiara dele, sem saber.”

O capitulo 28 é o que mais revela esse descompasso familiar: o desejo de Miguel de se afastar de Barrancales e dos pais, e o amor que Salvatierra sentia pelos filhos.

“ Primeiro Luís tinha ido embora para Buenos Aires, e pouco depois, eu. Supostamente ia para estudar mas eu queria era fugir de Barrancales, da casa, e sobretudo, do quadro, do vórtice do quadro que eu sentia que ia me engolir para sempre… Salvatierra tinha pintado minha fuga como se quisesse me proteger…porque as janelas do trem  se transformavam depois nas janelas do prédio da faculdade, e ali estava eu de novo, seu filho caçula… Fiquei impressionado por Salvatierra pensar tanto em mim. Fiquei impressionado por me ver através dos olhos dele, pois dava para notar o quanto sofrera com minha partida. Senti que ele me falava com seu quadro e vencia o silêncio enorme que existira entre nós dois. Agora ele me falava com amor de sua pintura, e me dizia coisas que nunca havia conseguido dizer."


Sobre o autor: Pedro Mairal nasceu em 27 de setembro de 1970, e é escritor, poeta e músico.  Publicou mais de uma dúzia de livros, entre eles La Uruguaya, vencedor do premio Juan Tigre em 2017 e já traduzido para vários idiomas. O romance Salvatierra foi escrito em meados de 2000 e lançado na Argentina em 2008. Chegou ao Brasil em 2021. Tanto no romance A Uruguaia quanto no romance Salvatierra, os personagens de Mairal cruzam o Rio da Prata, e,curiosamente, depois deles, cruza o rio  o próprio Mairal, que há poucos anos se mudou para o Uruguai com a família. Ele explica assim: “Nos meus livros, cruzar o rio até o Uruguai é quase uma travessia metafísica, como Alice atravessando o espelho.”

Mairal quis ser médico, mas foi derrotado pelas ciências, em suas próprias palavras. Gostava também de escrever, de fazer poesias. Quando a família descobriu que ele matava as aulas da faculdade, Pedro pediu para cursar letras, mais a seu gosto. Pediu aos pais que assistissem ao filme “Sociedade dos Poetas Mortos”, onde um jovem se mata porque os pais o proíbem de seguir a carreira teatral….Depois de ver o filme os pais, impressionados, concluíram que seria importante o filho estudar o que quisesse. Mas segundo Mairal, ele nunca pensou em se suicidar, "foi apenas uma manipulação que deu certo"…

Nas palavras de Pedro Mairal:  “Meu desejo de escrever sempre me levou a superar obstáculos. Sou capaz de mover montanhas para escrever. É minha vocação, meu chamado”.


Sobre o romance: Salvatierra contém 112 páginas e foi publicado Brasil em 2021 pela Editora Todavia. São ao todo  39 capítulos,

O PDV é de Miguel, filho de Juan Salvatierra, e narrador da obra. A capa do livro, de Julia Masagão mostra rolos e rolos de tela para pintura, em vermelho, sobre fundo preto, já apresentando o tema do livro. E o capítulo I, curiosamente, começa contando o seu final:

“O quadro (sua reprodução) está no Museu Roell….descendo as escadas você pensa que chegou a um aquário…por toda a parede …de quase trinta metros, o quadro vai passando como um rio…há um banco em que as pessoas sentam para descansar e olham o quadro passar lentamente…quase 4 quilômetros de imagens.”

Seu texto tem ritmo, suas descrições e reflexões, são, muitas vezes, deliciosas, como essa:”…no quadro não há um único autorretrato. Ele não aparece em sua própria pintura. Nessa espécie de diário pessoal em imagens, ele mesmo não figura. É como escrever uma autobiografia em que você  não esteja.”

Seria longo demais pinçar todos os parágrafos líricos,  que tornam a leitura tão  leve e interessante, então me limito a recomendar a leitura desse livro, que deixa a gente com o desejo de quero mais.

Devo ainda dizer que Salvatierra não é um livro que “pega a gente”, daqueles que não se consegue parar a leitura. Apesar de não ser volumoso,  é para ser lido devagar, apreciando seu desenrolar. Mesmo quando os filhos de Salvatierra Miguel e Luís, descobrem que misteriosamente, falta uma parte da obra, um ano de vida do pintor, o de 1961, e começam a investigar o porquê, o suspense é calmo e vai se resolvendo em doses homeopáticas. Posso dizer que os filhos descobrem, depois de inúmeros  percalços,  o rolo de pintura referente ao ano de 1961  que faltava, mas prefiro não revelar ao leitor o seu conteúdo…porque melhor mesmo é ler o livro.















terça-feira, 13 de dezembro de 2022

O Homem que sabia javanês - Lima Barreto


Por Cristiane Vianna Rauen

A escolha desse conto não poderia ser mais oportuna, pois, este ano marca o centenário da morte de Afonso Henriques de Lima Barreto, jornalista e escritor brasileiro, com vasta produção literária no início do século XX.

Nascido em 1881, em Laranjeiras, no Rio de Janeiro, Lima Barreto era neto de escravos de ambos os lados e presenciou, aos 7 anos, a abolição da escravatura com seu pai, no Paço Imperial.

Por ser afilhado de visconde, obteve boas oportunidades de estudo, como o Colégio Pedro II e a Escola Politécnica do Rio de Janeiro, onde cursou engenharia. Em 1904, assumiu um posto de trabalho no Ministério da Guerra, onde permaneceu até sua aposentadoria. Em paralelo ao cargo burocrático, exerceu a função de jornalista, e foi nesse meio que deu início a sua produção literária.

Sua obra de estreia, em 1909, foi “Recordações do Escrivão Isaías Caminha”, que, em tom autobiográfico, retrata a vida de um jovem mulato que sofre preconceitos raciais. Em 1915, publicou sua obra mais conhecida “O Triste Fim de Policarpo Quaresma”, que descreve a vida política brasileira após a Proclamação da República, por meio da visão de um funcionário público ultranacionalista.

Barreto sempre se apresentou como escritor negro e sempre escreveu para as massas. Em vários momentos recebeu críticas por eventual descuido com o português culto em sua linguagem escrita, no entanto, essa foi uma reconhecida estratégia do autor para chegar ao público mais amplo. 

Sua obra ganhou maior reconhecimento após sua morte, quando o jornalista Chico Barbosa iniciou, em 1946, um projeto de edição das obras completas de Lima Barreto. A coleção foi lançada pela Editora Brasiliense, sob o comando do historiador Caio Prado Júnior, com prefácios que contaram com nomes influentes à época, como Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda.

Nesse período, Lima Barreto foi reconhecido como precursor de grandes obras populares e críticas duras à política e à burguesia brasileira. Muitos analistas o identificavam com um escritor ressentido de sua origem e raça.  

E foi assim que a obra de Lima Barreto passou a ser reconhecida, a partir da edição de suas obras, na década de 1950: “frequentemente associada a uma percepção da realidade social brasileira vista de baixo para cima, ‘julgando os poderosos pela indignação dos injustiçados’, como sugeriu o historiador Nicolau Sevcenko” (Piauí, Ed. 194, nov. 2022).

A tentativa de editar as obras de Barreto não foi tarefa fácil já que muitas editoras do pós-guerra as viam um “mau negócio”, principalmente devido a seu tom anti-americano, muito focado em questões raciais e, por vezes, pró revolução bolchevique.

Lima Barreto foi retratado, durante muitos anos após a reedição de suas obras, como um “mulato ressentido”. No entanto, uma geração de novos escritores buscou, a partir dos anos 1980, reinterpretar as obras de Barreto sob um diferente prisma: não o do mulato ressentido, mas o do “típico brasileiro submetido a fortíssimas pressões raciais” (Piauí, Ed. 194, nov. 2022).

A mais recente biografia dedicada a Lima Barreto, da historiadora Lilia Schwarcz (“Lima Barreto: Triste Visionário”, de 2017) também surge como contraponto à visão dos historiadores de Barreto no pós-guerra. Ao invés de um triste e ressentido escritor, Lima Barreto retratado como um visionário, em particular por seu pioneirismo em inserir a pauta antirracista em textos do começo do século XX e de seu reconhecido diálogo e preferência pelas questões relacionadas ao público não erudito.

Não à toa, Lima Barreto foi o autor homenageado na Flip de 2017 e, neste ano, tivemos como homenageada a primeira autora negra a publicar uma obra no Brasil, Maria Firmina dos Reis, com sua “Úrsula”, de 1859. 

Sobre o conto

Publicado pela primeira vez no jornal “Gazeta da Tarde” do Rio de Janeiro, em 28 de abril de 1911, e posteriormente incluído na coletânea “O homem que sabia javanês e outros contos”, o conto traz a história narrada por Castelo ao amigo Castro do golpe que ele aplicou num barão que queria aprender javanês. O golpe acabou rendendo a Castelo um cargo público diplomático e Castelo narra o feito com grande orgulho.

O Barão em questão era o Barão de Jacuecanga, que herdara do avô um livro em javanês, que, dizia-se, trazia fortuna e prosperidade a quem o lesse. O livro foi sendo passado de pai para filho, até que chegara o momento da velhice do Barão e do seu interesse em lê-lo para não interromper o ciclo de prosperidade da família. O Barão, então, coloca um anúncio no jornal em busca de um professor de javanês que pudesse auxiliá-lo na empreitada.

Eis que Castelo lê o anúncio e, apesar de não saber javanês e diante da suposição de que não haveria grandes concorrentes ao posto, identifica a oportunidade de ganhar algo com isso, já que estava em completa miséria naquele momento.

A história é narrada de maneira divertida, irônica e debochada. Mostra como Castelo consegue, com destreza e um pouco de sorte, convencer todos ao redor do Barão de que sabia javanês de fato, incluindo o seu genro, desembargador muito bem relacionado, que, admirado pelo javanês de Castelo, o recomenda ao Visconde de Caruru para um posto na Secretaria dos Estrangeiros.

A partir daí, o reconhecimento e a fama de Castelo só cresceram, a ponto de escrever colunas em jornais sobre a literatura javanesa antiga e moderna, e ser indicado a representar o Brasil num congresso internacional de linguística. No retorno do congresso, foi recebido no cais do porto com festa pelas massas e convidado a almoçar com o presidente da república.

No diálogo final de Castelo e Castro, Castelo se mostra bastante satisfeito com a posição de Consul em Havana, onde morou por mais de 6 anos, mas indaga ironicamente ao amigo que, caso não estivesse feliz com tudo o que havia conquistado, poderia tentar a carreira de “bacteriologista eminente”. 

Esse divertido conto de Lima Barreto traz uma crítica importante a uma sociedade brasileira supersticiosa e preconceituosa, formada por intelectuais oportunistas, por uma burocracia medíocre e por anti-heróis, que não têm vergonha de se vangloriar da desonestidade. 

Acima de tudo, “O homem que sabia javanês” é uma crítica à elite brasileira e, a partir desse conto, Lima Barreto expressa toda a sua indignação aos inúmeros “professores de javanês” que o Brasil já indicou a representações internacionais. Postos esses aos quais Barreto jamais fora indicado, tendo, fatidicamente, terminado seus dias num manicômio.  

“De tanto ver triunfar as nulidades; de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça. De tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto”, Rui Barbosa, 1914.


terça-feira, 8 de novembro de 2022

A vergonha - Annie Ernaux

Por Christiane Girard



    A escrita como forma do vivido, vida, obra e singularidade.   

Para compreender melhor a obra de Ernaux é necessário pensá-la junto com a história de vida da autora. É a partir desse cenário que a obra se constrói. A obra é um produto dessa realidade e permite uma interpretação sem fim do que foi vivido. Numa entrevista, a autora expressa essa ideia de maneira precisa: “Eu escrevo a vida e vivo a escrita”.

Annie Ernaux nasceu em 1940, em Yvetot, cidade localizada na região da Normandie (França), durante a segunda guerra, filha única de um casal de origem camponesa, que quando jovens foram operários e depois comerciantes. O que é valorizado por eles nessa última atividade é o fato de não terem chefe. Faz parte de um desejo de ascensão social.

Eles têm um comércio no bairro, ou seja, seus clientes são seus vizinhos. Acoplado ao café eles têm uma mercearia. O café é frequentado entre outros clientes pelos trabalhadores da construção civil, pelos moradores mais solitários e pelos alcoólatras do bairro. Vivem num apartamento sem conforto que é colado ao café. Não há banheiro, não há chuveiro. Assim, mesmo, é o mundo da Annie, seu mundo não questionado até que encontra o mundo da escola.

Sendo filha única, foi possível para os pais que ela frequentasse a escola privada religiosa da cidade. Há uma possibilidade de obter bolsas no quadro das obras sociais educativas, oportunidade que ela pôde aproveitar já que era excelente aluna e sua mãe era uma católica fervorosa. Na grande maioria lá vão os filhos da burguesia da província.

Oficialmente, a escola pública não oferece ensino religioso, de fato, com sua forma de escrever (escrita realista) ela revela ambiguidade da realidade da democracia francesa daquela época: os ricos e as pessoas de renome se socializam no mesmo espaço. A convivência interclasse não é favorecida. É difícil depois de ter lido “a distinção" de Bourdieu deduzir outra leitura. O que Annie vai mostrar é o caminho para reencontrar a emoção, a sensação, a experiência do que foi vivido (por exemplo, a vergonha) produto de um contexto e de uma história singular. Essa forma de escrever é perturbadora porque não permite contestar os fatos descritos já que representam experiências, representam a própria vida.

Na escola, rapidamente, ela vai perceber seu lugar no meio das outras alunas: o lugar das mal-educadas, no sentido próprio da expressão. Aquelas alunas que não dispõem de capital cultural. Não conhecem as regras e os costumes de classe. Os padres organizam as confissões semanais e lhe parece que apenas ela é suja e cometeu pecados graves, apenas ela parece ser agitada pelas emoções sexuais da puberdade (ver neurose de classe). Nas camadas populares as crianças amadurecem mais cedo. Na burguesia parecem protegidas mais tempo do contato com a realidade.

Annie é a melhor aluna da sala durante toda a escolaridade. Ler, escrever sempre fará parte de sua vida, o que lhe permitirá cursar letras na universidade. Até agora é interessante notar que a vida dela que estou resumindo é aquela descrita nas obras. Os livros são historicidade de seu percurso. Ela decide ser professora e passa brilhantemente nos concursos necessários. Assim, mesmo no coração permanece a certeza de não estar no lugar previsto por alguém como ela. A noção de trânsfuga de classe se enrijece.

Viver da escrita é para ela durante muito tempo impensável. Ela não pertence ao mundo de quem escreve. Por essa razão, seu trabalho de professora lhe permite escrever sem a tensão de ter uma atividade reservada aos letrados. Ela começa a escrever aos 19 anos e se casa com um jovem de família da burguesia da província com quem teve dois filhos. Durante esses anos de vida familiar ela interrompe a escrita, mas diz saber que quando voltar a escrever com seu estilo de escrita que poderíamos comparar ao “cinema realité”(documentário ao vivo), ela provocará uma separação. Efetivamente, ela faz o livro e se separa do marido, mas nunca mais deixará de escrever.

 A problemática da obra

Sua problemática é a consciência de estar morando em dois mundos! Mas, sobretudo, o preço que se paga por isso. Os lugares de origem e a socialização neles não podem ser arrancados. É uma raiz que faz parte da árvore que somos. Deve-se acrescentar a esse fato que existe um sentimento ambivalente de traição à família de origem nos casos de trânsfugas de classe. Uma ambivalência que se expressa por não poder fugir do peso de ter vergonha de seus pais quando se ascende a uma classe superior. Eles não conhecem os códigos, aparecem como vulneráveis e, consequentemente, não protegem seus filhos, pelo contrário, os desnudam. É uma violência.

Entre outros aspectos a vergonha de ter vergonha de quem amamos. Uma violência de classe lida além do marxismo. Vivida, observada, a escrita de Annie Ernaux é a matéria dessa violência. Sua escrita é concreta, sem florear, sem bálsamo para acalmar. Toda a sua obra expressa essa tensão. Não se trata de uma obra intimista. É uma análise preciosa das dinâmicas sociais coletivas. É uma obra onde o social é responsabilizado, não culpabilizado. A autora não conta sua história pessoal, ela compartilha o mundo que viveu de 1940 até os dias atuais a partir do seu lugar. A esse respeito sugere-se a leitura do livro “Os anos”.

Ela compartilha por meio da sua obra a leitura dos valores, a cultura letrada e popular, os acontecimentos do momento e é impossível não interpelar o leitor, sobretudo quando as gerações são próximas. Por exemplo, ela explica que quando está escrevendo um dos seus livros está acontecendo a guerra em Sarajevo. Mesmo não sendo tema da obra, a autora não é indiferente a esse fato, que considera importante para compreender a época onde se escreve o texto.

Nos estudos de sociologia clínica percebe-se que muitas perturbações psíquicas têm origem social tal como a neurose de classe que se vivencia de diversas formas. Uma das manifestações é que os filhos são incentivados a galgar posições valorizadas, mas quando conseguem acabam afastando-se da família de origem, a mesma se distanciando igualmente por não possuir as regras do novo meio dos filhós. E os filhos passam a viver a dor de não pertencer por inteiro a nenhum dos grupos.

A obra de Annie Ernaux foi visitada pela sociologia clínica e o estudo foi muito precioso. Nesse campo dizemos que o indivíduo é produto de uma história da qual ele tenta ser Sujeito, produzindo por sua vez história. Isto significa que ser consciente de sua história é entender o que nos submete. Annie usa várias vezes a frase bíblica: a verdade te libertará. E ela busca sua verdade por meio da escrita.

A verdade da emoção em primeiro lugar e depois a palavra. É o que sentimos, a verdade da experiência do sentir. Por exemplo, quando a mãe de Annie diz “seu pai morreu”, o que nos faz captar a cena e vivenciá-la é o trecho em que a autora descreve a mãe apertando em suas mãos o pano de prato! Uma figura do desamparo. Algo familiar para suportar o estranho. Não é uma clínica do sujeito, é uma clínica do social. No caso citado, o pano de prato se reporta à convivência com o marido na cozinha, trata-se do marido, o companheiro com quem se compartilhava as refeições onde se vivia na cozinha, a convivência subtraída de repetente e o desamparo, o pano é apertado na mão.

A obra é grande: la place, la femme gelée, l’evenement, les armoires vides, passion simple, les années.... Como classificar uma obra tão singular? Considera-se que uma escrita realista tem sido uma opção. A autora não escreve romances, não há ficção, nem autobiografia. Mas, então, é literatura? Ela mesma diz: é sociologia, é história, é literatura. Felizmente ela não se importa mais, diz ela, com o purismo do campo. Ela sabe que é literatura viva e não poderia viver sem escrever.

Ela tem muitos detratores masculinos, as críticas são que ela escreve como os homens escrevem (?!) ou, outra crítica, consiste em acusá-la de colocar em cena uma personagem de “midinette” (adolescente atrasada) no livro “la passion simple”. O que ela responde, além do que já foi dito, é que sua maior alegria é quando um leitor diz que ela escreveu a história dele. Revela, também, o machismo atual. No entanto, agora que lhe foi atribuído o Prêmio Nobel de Literatura, o quanto é uma é literatura inovadora.

Gostaria de acrescentar duas linhas sobre a obra. A sua originalidade no estilo de escrita é uma crítica social na concepção de uma sociologia crítica e sociologia compreensiva (levar em conta o sentido que as pessoas dão a suas ações). Na sociologia clínica, já que a autora diz que suas obras são também obras sociológicas, tentamos evitar o perigo do vivido sem conceito e do conceito sem vida. Essa metodologia tende a dialetizar a relação entre a análise e a experiência evitando cometer um erro: estar no plano do vivido, como se ele tivesse seu sentido em si. 

O saber do homem não vem de seu interior, mas é uma ilusão empirista que assimila o real a percepção subjetiva do mesmo. Mergulhar no vivido permite produzir representações, ou seja, são expressões da relação imaginária que cada indivíduo tem com suas condições de existência. A análise dessas condições é indispensável para compreender o vivido. E é para guiar essa análise que a teoria é necessária. Os conceitos que nos parecem importantes na obra: o vivido, as experiências, o concreto, a historicidade.

O livro “A vergonha”

O estudo da vergonha foi e é um tema fecundo a estudar tanto na literatura como no campo das ciências sociais pelos múltiplos níveis de reflexão que permite. O livro começa com um quase crime presenciado pela narradora quando tinha doze anos. Seus pais são apresentados por ela do ponto de vista ideológico e social. Ela os situa economicamente, culturalmente e mostra a trajetória social deles. São percursos fiéis da história. Na relação de casal, a mãe parece ter autoridade e o pai seria mais submisso.

Entretanto, em um domingo de junho de 1952, o pai fora de si tenta matar a esposa. A filha (Annie Ernaux) descobre a cena e aterrorizada pede para parar. Nunca mais a cena será esquecida. Há um antes e um depois do ocorrido. O que foi descortinado é a realidade de seu mundo, no qual ela é testemunha e atriz. Ela vive a experiência e a compartilha. O “JE” (“eu” em português) da narrativa permite uma interação. Para o leitor é fundamental. Não está no exterior, mas sim na relação com a escritora. Parece que antes daquele domingo de junho de 1952 ela era criança, depois já está num outro momento de vida, mas a marca deixada é como uma cortina que foi aberta e que não pode ser fechada.

Talvez seja isso que nos toca: o impacto do medo e da violência na experiência real de uma vida e a literatura restituindo exatamente o que queima ainda.