segunda-feira, 7 de junho de 2021

"O Professor", de Cristóvão Tezza

                     


Para a nossa Mônica, companheira de embriaguez literária. 

Sempre intensa e para sempre presente.

 

Cristóvão Tezza é um escritor maduro. Nascido em 1952, catarinense de Lages, Tezza tornou-se escritor e professor universitário em Curitiba. Seus primeiros livros, de contos e romances foram publicados entre 1979 e 1981 e, a partir de 2009, com o sucesso de “O Filho Eterno”, abandonou a carreira universitária para dedicar-se à literatura. Vários de seus romances foram premiados e traduzidos para outras línguas. Seu site (http://www.cristovaotezza.com.br) merece ser visitado, traz críticas e resenhas sobre todas as suas obras.

Recomendo o podcast Cruzamentos Literários, que tem um episódio com o autor, em que ele fala da evolução de seu processo criativo, como trata os elementos autobiográficos e o papel do romance como retrato do presente.

https://open.spotify.com/episode/2G6QqueXAblQZWQxtiSwkc?si=din4AVp6SmK4os-1Z7e0Gg

“O Professor” , lançado em 2014, é seu décimo quarto romance, finalista dos prêmios Jabuti e São Paulo de literatura de 2015, e com traduções publicadas na Itália (Fazi Editore), Finlândia (Aviador) e Noruega (Solum).

Uma síntese simplista e apressada do livro, como quem beberica, distraída, uma taça de vinho, poderia ser algo como ‘professor universitário aposentado passa a limpo sua vida ao se preparar para receber uma homenagem’. Seria o equivalente a descrever a Monalisa como ‘um quadro de uma moça que parece sorrir’. Não é o caso de visão apressada, a obra tem a complexidade de um bom vinho que repousou em carvalho (ou nas profundezas da alma) por longos anos, merece ser apreciado em todo o seu conjunto, aromas e sabores, forma e conteúdo, estratégias e recursos narrativos.

A sofisticação narrativa ao desenvolver um argumento aparentemente simples é prova de que se trata de um experiente tecelão de histórias, em total controle de seu texto. No percurso labiríntico da narrativa somos guiados por uma mão firme, um fio de Ariadne que nos permite ir catando as migalhas ambíguas da memória do personagem e montando o quebra-cabeça de seus 70 anos de existência. 

O prazer da minha experiência de leitura deu-se na interseção do que está sendo contado (os episódios da vida do personagem no tempo, suas relações, seus sentimentos, a caracterização dos demais personagens) com a forma como está sendo contado (o ponto de vista único, mas nem sempre em primeira pessoa - o narrador se vê de fora e de dentro, fala para dentro e para fora, incorpora a voz de outros personagens;  embaralha vários pontos no tempo da memória, o uso da ironia triste, por vezes auto-complacente, por vezes auto-depreciativa). Fiquei com uma sensação de testemunho autêntico de outra consciência. Talvez por ser tão fiel ao que acontece na nossa própria consciência. Também pelo fato de ter vivido/testemunhado os fatos da realidade que servem de pano de fundo da obra, me trouxe uma identificação afetiva-temporal interessante.

Em “O Professor”, acompanhamos o fluxo de consciência de Heliseu, professor aposentado de filologia românica na manhã de um dia de fevereiro de 2013 em que ele vai receber uma medalha de mérito acadêmico por sua carreira universitária, desde o momento em que  acorda de um pesadelo até o momento em que dá o nó da gravata para sair de casa rumo ao evento.

O ácido e irônico monólogo interno do Professor Heliseu se desenrola durante o café da manhã e enquanto toma banho, olhando o seu corpo envelhecido. Conhecemos aos poucos, tudo junto e misturado, cenas e personagens da vida desse homem: a mão protetora de sua mãe em seus cabelos; os conselhos duros e as omissões de um pai que pode ter empurrado sua mulher escada abaixo (será?); as investidas sexuais de um padre no seminário; uma esposa prática de memória precisa para informações irrelevantes e com uma amiga bastante íntima, que escorrega (será?) para morte ao aguar suas plantas na varanda do apartamento em 1997; ‘o indecifrável busto índio-negro-mulato-branco’ da sua empregada, que testemunha sua vida há 27 anos; os colegas de departamento que fofocam às suas costas enquanto bebem café frio em copinhos de plástico; um filho distante e ressentido que vai adotar uma filha com seu marido americano; uma aluna-amante que durou o tempo de uma dissertação sobre o não-dito na língua portuguesa, mas que passados mais de 20 anos ainda desperta tremores; o objetivo inspetor Maigret; os anseolíticos; os lábios envelhecidos do inimigo que o abraça no pesadelo, talvez o seu próprio fantasma de vergonhas e culpas.

Heliseu vai treinando mentalmente seu discurso para o evento da homenagem, procurando um fio condutor coerente, dirigindo-se à platéia imaginária como a pedir validação. Um homem tentando conectar os pontos do passado para ver se eles revelam o sentido da vida.

“Voltemos ao início de tudo, por favor. Era como se ele não conseguisse sair da cama sem antes fechar, em definitivo, o – o sentido de sua vida, ele decidiu com um sorriso, quase sem ironia, o indicador e o polegar traçando uma linha horizontal imaginária no ar, o sentido da vida.”(p.19)

“Sim: estou atrás do sentido da vida – cada pista, ou cada evidência, como diria o Inspetor Maigret, é importante e pode deslindar o nó em que nos amarramos.” (p.55)

“Mas é preciso organizar a memória ou jamais descobrirei o sentido da minha vida. O segredo está em algum momento que ficou para trás – eu posso até baixar a voz neste momento, como quem propõe um jogo divertido à platéia.” (p.89)

“Não. É retórica barata demais. O sentido da vida estará em outra parte. Por exemplo: naquele transtorno obsessivo-compulsivo que sofri esperando a quinta-feira só para rever Therèze e tirar a limpo a ansiedade.” (p.102)

O dia-chave de seu destino, conclui, foi o dia, em 1984, em que a esposa invade seu território, na universidade para lhe falar que resolveu fazer aulas de inglês e ele sente um ciúme brutal. Logo em seguida, “como que numa organização ad hoc do destino, o encontro com Therèze que, ela sim, me enloqueceu.” Começa aí a queda? A queda é uma constante no texto: o sonho de criança, caindo de um desfiladeiro, a queda fatal da mãe na escada, a queda da consoante intervocálica no século XI que nos separou dos castelhanos, a queda de Mônica da varanda do apartamento.

A caracterização das personagens é feita aos poucos, lembranças de aspectos específicos entremeadas com sentimentos e eventos, bem compatível com o que fazemos mesmo dentro de nossas cabeças quando pensamos em alguém.

p.31: “Uma precisão inacreditável, que deixava tudo nítido, um filme em alta definição. Blu-ray, como se diz hoje. Conversando com Mônica, senhores, você se sentia seguro: a palavra é “nitidez”. Uma perpétua correlação da imagem, tempo e linguagem, que emendava analogicamente o azulejo lascado do banheiro, flagrado ao escovar os dentes, com o dia em que morreu Ayrton Senna, quando, é claro, serviu-se macarrão com molho de carne (e não tinha mais parmesão, como disse a Dona Diva, assomando à porta da sala). Ah, e naquele domingo você saiu para dar uma caminhada. Lembra? Mônica era assim. E eu brincava com ela, uma piada que só a alguém como eu ocorreria, como ela mesma disse: Mônica Mnemônica! E o que ela extraía dessa espetacular capacidade recapitulativa da vida e do mundo? Nada.”

... “a última vez em que ela pronunciou o “Heli”, antes de aguar suas plantas, o tom era rasgadamente irônico e as mãos estavam na cintura, aquele seu gesto vulgar e estúpido que me dava uma irritação quase que demoníaca, e que ela repetia cada vez com mais frequência, a bunda torta apoiada na perna esquerda, como o esboço de um cartum mal desenhado.”

Pontos no tempo e pontos de vista alternam-se durante todo o texto, sem transições ou pontuações, muitas vezes (e muitas vozes) no mesmo parágrafo (ex. p191). Notícias de jornal e a conjuntura política (Diretas Já, o cavalo do Newton Cruz, os fiscais do Sarney, Fora FHC, Dilma presidenta, a renúncia do papa Bento XVI) são panos de fundo do fluxo de consciência, assim como os azulejos do banheiro. “Não vou me meter nessa conversa. Eu nunca tive opinião formada. Senhores, numa palavra: eu não sei e nunca soube.” 

Heliseu não tem nada de herói, não desperta simpatia. É só falho e limitado por suas escolhas e não-escolhas, suas culpas e suas dúvidas, como todos os outros personagens, como todos nós. Não somos capazes de vivenciar as experiências emocionais e afetivas dos outros, portanto, julgue com moderação. Confesso, que após essa experiência tão íntima de compartilhar a consciência do Heliseu, deixei o livro com certa compaixão pelo personagem. Eis o poder empático da literatura. 

domingo, 11 de abril de 2021

Lincoln no Limbo - por Cris Rauen

 


O romance “Lincoln no Limbo”, de George Saunders, conta a história dos últimos dias de Willie Lincoln, do luto de seu pai, uns dos presidentes norte-americanos mais reconhecidos da história, e da interação de várias almas presas no limbo.

A estrutura do livro é muito inovadora. Capítulos relatando a história daquele acontecimento por meio de biografias do presidente e textos jornalísticos, são entrecortados por capítulos narrados do além por 166[1] personagens, em um marcante estilo teatral.

Foi um livro muito aclamado à época de seu lançamento, tendo recebido diversos elogios da mídia e uma série de prêmios, como o Man Booker Prize, de 2017, que é considerado o maior prêmio literário da língua inglesa.

Às voltas com os desdobramentos do início da guerra civil americana, o presidente Lincoln perde seu filho, William, de 10 anos, em decorrência de uma febre tifoide. Lincoln era muito apegado ao menino, que era tido como uma cópia perfeita do pai.

A obra, então, retrata os momentos vividos por Lincoln e por seu filho logo após sua passagem, ambos resistindo ao processo da dolorosa partida. De um lado Lincoln pai, que faz recorrentes visitas ao túmulo da criança, chegando até mesmo a abrir o caixão e segurar o pequenino corpo inconsolável. De outro, Lincoln filho, o espírito, que não consegue partir dali e fica perdido no limbo.

Boa parte da narrativa e dos diálogos acontece numa espécie de primeiro estágio após a morte. Fica clara a necessidade de que as almas que ali chegam devem partir dali e nessa tentativa de sair desse lugar ocorrem episódios em que espécies de anjos tentam guiar as almas penadas para o seu destino final. Willie resiste ao assédio dos tais anjos de sair do limbo, e justifica essa resistência em permanecer pela promessa feita pelo pai de que voltaria a encontrá-lo.

Enquanto esperava pelo encontro com o pai, muitas almas perdidas passaram a importunar Willie. Almas que se divertiam com o desespero da criança e com seu processo de definhamento e angústia. Apesar disso, Willie era defendido pelos três personagens protagonistas do enredo que se passa nesse espaço entre céu e terra: Hans Vollman, Roger Bevins e o reverendo.

Os três personagens são também almas presas no limbo, que assumem o papel de guias aos recém desencarnados, mas também às pessoas que permanecem na terra, entrando em seus corpos, conversando com elas, manipulando suas ações e tomando contato com as informações do que está acontecendo no mundo.

Num dos trechos da obra, é possível identificar o período em que viveu um dos três personagens centrais do limbo. Numa das tentativas de ajudar o menino a partir, os três guias entram no corpo de Lincoln pai para tentar promover o encontro tão esperado por Willie, e descobrem que se trata do presidente americano. Um dos guias comenta, então, a sua confusão ao imaginar que o presidente americano ainda seria Taylor. Trata-se, portanto, de Zachary Taylor, que foi o 12º presidente americano, no período de 1849 a 1850. Abraham Lincoln foi o 16º presidente dos Estados Unidos, governando o país cerca de dez anos depois, entre 1861 e 1865.

As almas presas no limbo, de fato, não tinham consciência de que estavam mortas. Muitas delas, assim como Willie, acreditavam que seus parentes ainda estavam à sua procura. Inclusive não se referem a seus caixões como tal, chamam de “caixas de doente”, provavelmente por entenderem que tenham sido colocados ali para tratarem das situações que os acometiam no período prévio às respectivas mortes.

O reverendo era a única alma do limbo que sabia a verdade. Ele tinha passado por uma experiência pós morte diferente da que tinham passado os demais. Ele sabia que estavam todos mortos e também sabia o que esperava por eles após esse estágio intermediário da chegada.

O reverendo nunca tinha dito a verdade a ninguém, mas, sensibilizado pela situação, contou a verdade ao menino. Contou que estava preso no limbo por opção, pois já tinha passado pelo processo de julgamento que definiria o local para onde iria após a passagem intermediária, mas fugiu ao ver os horrores passados por um recém-morto à sua frente.

Se não fosse para uma tenda maravilhosa, iluminada, cheia de luz, ao lado do senhor Jesus Cristo, ele sabia que iria ser literalmente comido por almas em outro estágio de evolução. Teve medo e fugiu, ficando preso no limbo.

Ter acompanhado a saga de Willie fez com que o reverendo tomasse coragem e decidisse partir, enfrentando o seu destino após o limbo. O menino, alertado pelo reverendo de que já não fazia mais parte do mundo dos vivos, também decide deixar o limbo. Ambos, passaram, então, pelo processo que o livro chama de “conversão matéria-luz”, deixando finalmente aquele lugar onde restaram as outras almas penadas, absortas num misto de resignação, tormento e medo.

O capítulo que retrata os pensamentos do menino logo após a conversão matéria-luz é belo e tocante. Willie sente que tudo lhe é permitido a partir de então: sair da cama, festejar, tomar champanhe, pendurar-se no pedestal, sair voando pela janela… Ele se sente livre! Livre como um menino deve ser.

Por sua vez, a partida de Willie acaba finalmente libertando o próprio Lincoln pai de seu sofrimento e a narrativa nos leva a entender que esse acontecimento foi também fundamental para dar a Lincoln a força necessária para perseverar em sua luta pelos direitos dos negros nos Estados Unidos. No capítulo final, o autor nos leva a supor que a luta de Lincoln possa também ter sido influenciada pelo escravo Thomaz Havens, numa cena de incorporação da alma penada no presidente durante um de seus passeios a cavalo.

Lincoln no limbo é uma obra experimental, com ritmo um pouco difícil e que pode não prender o interesse do leitor em seus primeiros capítulos. No entanto, à medida que vamos compreendendo sua construção e dinâmica de leitura, pode tornar-se muito interessante. Algo que me chamou a atenção são os extratos de biografias e textos de jornal sobre Lincoln e a morte de William à época.

A visão retratada naquele momento sobre sua vida, figura, personalidade, fatos domésticos da Casa Branca, entre outros é, de fato, muito interessante, e traz ao leitor não só a percepção, com elevado grau de sordidez, da sociedade daquela época, mas de como o presidente e a sua esposa enfrentaram a doença e a perda do filho.

Um dos extratos mais cruéis das notícias da época é a de um cartum publicado em Washington que retrata o Sr. e a Sra. Lincoln tomando champanhe enquanto o filho aparece em frente a uma cova perguntando: “Pai, posso tomar uma taça antes de ir embora? ”. Esse e outros trechos de livros biográficos e jornais nos fazem pensar se o desespero e a obstinação de Lincoln em relação a Willie seriam de fato motivados pela tristeza da perda do filho ou remorso mediante todas as acusações levantadas sobre ele: a negligência dos pais, a complacência do próprio Lincoln com a balbúrdia que as crianças faziam dentro de casa, as brincadeiras etc.

Também impressiona muito a forma como são retratados o limbo e as circunstâncias em que as almas permanecem ali. No caso do protagonista os relatos são ainda mais perturbadores. Por que uma criança perdida e desesperada para encontrar seu pai precisou passar por situações tão terríveis e de tamanho desalento? É isso, então, o que nos espera após a morte?

Finalmente, é possível destacar que apesar do título e do texto tratarem das situações que envolveram o enterro de Lincoln filho e o luto de Lincoln pai, a maior parte da narrativa baseia-se nas histórias dos fantasmas no limbo, que são interessantes por si só e poderiam, com facilidade, sustentar todo o texto a despeito da história principal.

        Como impressões gerais, apesar de retratar a história de um momento de profunda tristeza do presidente americano, o desespero de um filho perdido no limbo e histórias traumáticas da vida de suas almas penadas, Lincoln no Limbo é, em muitos momentos, um livro sarcástico, bem-humorado e emocionante.



[1] Levantamento realizado por Folha de São Paulo (2018). Cf. https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2018/03/com-166-narradores-george-saunders-lanca-lincoln-no-limbo-no-brasil.shtml?origin=folha.

domingo, 21 de março de 2021

AMORES

                                                        

Leonor de Recondo

Comentários de Christiane Girard

Escrevi brevemente sobre o livro, algo sobre a forma, o conteúdo, e a leitura que me provoca o romance. E acrescentei algumas  poucas palavras do que eu sei sobre a recepção do livro.

O livro tornou possível a Leonor de Recondo ganhar o prêmio das livrarias em 2016. Leonor  é uma jovem escritora mas já escreveu 4 romances. Algo interessante na sua trajetória é que é violonista e até recentemente era principalmente atividade profissional dela. Musicista, ela lidera um grupo de música barroca que é bastante reconhecido.  

Antes de prosseguir há algo que tenho vontade de escrever logo, que me marcou profundamente. É que se algum me dissesse que é um livro do Flaubert, acreditaria pelo estilo da escrita!

A autora escreve como os clássicos do século 19. Domina com maestria o que chamamos de “romance de moeurs (costumes)”. Essa forma de literatura coloca luzes sobre formas de se comportar, valores, etos na época considerada.  É um romance realista, uma ficção mas que conta exatamente o modo de vida, de diferentes grupos sociais, sobre a burguesia de província, e seu  conjunto de valores morais. Bem como sobre o mundo do trabalho. Lembra a literatura do século 19 do Zola (germinal) do Balzac. É um estilo clássico frequentemente com conteúdo critico que se observa na música e pintura da época como podemos o observar na pintura (Courbet) (a origem do mundo) ou Toulouse Lautrec, com as cocotes do French cancan na vida noturna em Paris.

  Quem são os personagens do livro?  Anselme esposo da jovem Vitoria, Huguette e seu marido Pierre, caseiro e doméstica e Celeste domestica mais jovem, filha de família numerosa e pobre. Ainda há o amigo de infância de Anselme, Alfonse casado com uma cocote Odette. São esses, dois personagens secundários, mas que esclarece alguns aspectos do quadro. Entre Anselme e vitória é Casamento de conveniência e. É a mãe da vitória que respondeu a uma anuncia do “cassador francês”para casar a filha.

 Estamos em 1909, sabemos que Anselme nasceu em 1870Na época serviçais não são ainda vistos como trabalhadores,a burguesia da cidade  ou em transição podem ser acompanhadas de mulheres que se recebem em eventos noturno (Alfonse)mas seria inaceitável para uma burguesia de tradição(Anselme). Alfonse o pode porque é sim novo rico.

Anselme o marido de Victoire é o burguês de província, da região de :Loire et Cher. É seu segundo casamento. Era viúvo. e não teve filhos. tem uns 40 anos (nessa época é considerado envelhecido) e ela uma jovem de 20 ou vinte poucos anos.   Casa mento de convenção (interesses) no sentido de sustentar posição social, ele é dono de cartório e ela tem além de ser jovem e graciosa uma família que tem posses. Nada é conversado na socialização das moças sobre os diferentes papeis a cumprir. Fala se baixinho e furtivamente da intimidade as vezes pelas mães das noivas. Victoire rapidamente se esquiva das obrigações conjugais.  Anselme sempre teve alivio de seus desejos e necessidades corporais perdão pela palavra, alivio, abusando das serviçais ( ele teve seus primeiros contatos sexuais com Huguette mais velha do que ele mas incentivado pela  mãe de Anselme que o  sentia mais protegida das doenças sexuais  das mulheres dos cabaré  Não são nem “relações” sexuais e essas práticas lhe permite viver a vida sem que o casamento seja perturbado. Até o dia em que Celeste engravida. Celeste jovem doméstica 17 anos amordaçada nessa situação. Para salvar a honra de todos e evitar comentários Vitoria decide adotar a criança que vai nascer. Podemos pensar:  é porque na aldeia se falaria sobre Anselme, poderia se dizer que ele não é capaz de fazer um filho à esposa, mas sim à empregada, ou poderia se dizer da Victoire, que não consegue a ter filho do marido, da Celeste comentariam que não é uma moça correta, mas pode ser também para querer sentir essa plenitude, tão evocada na cultura da maternidade. Enfim ela pensava que casando ia ter acesso a algo misterioso e belo, só viveu até agora o desgosto da obrigação da intimidade conjugal.  Tudo que é contado às jovens mulheres sobre casar poderia se realizar na maternidade.

Devo dizer, vejo muito o romance como uma peça de música.

Primeira parte 

Nesse momento entramos no corpo do texto, na sua carne, o que começou como o abuso da celeste e que nos remete a impunidade dos patrões tão frequente na época, continua de nos provocar náuseas . Celeste, sofre e acha que faz parte de sua condição ser abusada.   No livro é a partir dessa decisão de adoção que conhecemos cada personagem. Tudo existe no silencio e se torne crime quando alguém descobre.

Anselme está feliz, ele se achava estéril, quando da notícia da gravidez ele não tem nem, um, pensamento por Céleste. Quando ele pensa a sua culpabilidade em relação a esposa, ele pensa mas “nem a trai com uma outra mulher mas com uma serviçal! “. Ele é herdeiro de um nome que lhe dá segurança na vida. Mas lhe faltava socialmente e afetivamente ter acesso à paternidade sobretudo para ele que “perdeu o pai” na guerra quando era recémnascido. (veremos a pluralidade das emoções se reportando à paternidade para Anselme)

Segunda parte musical

Vitoria ao descobrir a gravidez a descobre vendo o corpo nu de Celeste que entrou no quarto da vitória para subtrair um corselete da patroa. Para Vitoria o seu próprio corpo lhe era estranho, criada na injunção de não se olhar. Ela se achava sem graça e num olhar ela vê que o corpo da celeste é forte, belo, comovente. É o início de algo que vá se intensificando, que não pode mais se apagar é o contato com o outro que lhe permite se apropriar de si. O contato com o outro que lhe revela a si própria.

Terceiro momento da peça musical.

Quando Adrien nasce Vitoria percebe que não se sente mãe. Que todos aqueles discursos sobre a plenitude da maternidade e a felicidade do casamento não tem eco para ela. O bebê poderia morrer da ausência de ternura, de calor humano. Celeste percebe a situação e vai pegar silenciosamente Adrien e o aperta a noite inteira colado a seu corpo. Até que esse calor lhe transmita a vida de novo. Numa noite ao pegar o Adrien que dorme no quarto da Vitoire está acordada.

Quarto momento da peça musical.

O que começa com uma infinita delicadeza torna-se um incêndio. Dia após dia no segredo da noite vivem se um amor proibido. É o momento também que elas descobrem, que elas tem um corpo e uma alma que pode em fim vibrar juntas, elas se reconhecem a si própria no amor de cada uma para outra.  O peso da igreja é tão importante quanto uma lei laica. O confessor de Victoire, o padre Gabriel vai ao ser informado da intimidade da duas por Vitoria jogar uma maldição sobre Celeste o dia da preparação do batismo do Adrien. Banida da igreja não há onde sua alma morar. De novo um rompimento entre o corpo e a alma. Celeste vai decidir morrer para não perder o vínculo que a liga a virgem Marie que sempre foi sua única interlocutora.

Ela morre vestindo o vestido onde pela primeira vez, ela se viu como mulher. O vestido que era da Victoire, foi aquele que vesti para ir chez Maxim à Paris, única noitada vivida longe, sozinhas onde beijou longamente a amada na frente de outros clientes que nem prestaram atenção.  

Algo somente que acrescentaria sobre Anselme e sua relação com a paternidade. Descobrimos que Anselme não era filho do pai oficial, mas de seu tio. Dessa forma vemos os arranjos e as repetições. Há segredo pronto para aparecer sempre e que mostram que todos os desejos se expressam de uma forma ou outra, permitidos ou não.

Mas o que aparece como o centro do livro é um momento forte, que não dá para ignorar, é a questão: o que é uma mulher? Quem a define? Há algo de derrubar montanhas internas quando se apodera de si própria. Se tornar sujeito. Deve ser a mesma coisa para os homens alias. Mas o poder sobre as mulheres pesa ainda majoritariamente.

O livro me tocou pela história, (que se passa numa região que é de meu pai). Acho uma problemática até banal, nada de novo. Mas amei sobretudo o estilo. Discreto e incandescente. Quando escrevi que poderia ser do Flaubert é no estilo. Observações que nos conduzem a estar seguindo a história numa presença intensa. Emma Bovary foi mal vista como obra pela sociedade burguês da época. A mãe da Vitória não a deixou ler o livro.

Não é por acaso penso eu que há este lembrete. Leonor não sai à defesa de discriminação, ela não diz o que certo ou errada, ela diz o que é uma versão de mulher sem pedir licença, Celeste e Vitoria representam algo que ainda hoje se reivindique como direito, que ainda não é fácil viver no cotidiano, mesmo  no sec 21. É por isso que acho interessante que o livro dela foi adotado pelas escolas públicas para permitir debates sobre os direitos as escolhas sexuais de cada um e uma. O fato dela não ser uma ativista foi importante. É um livro reconhecido por suas qualidades literárias o que permite dialogar de uma outra forma com sua época. Parece que possibilita melhor o debate. Assim mesmo não dá para esquecer, ainda hoje as Celestes se matam. (suicídio dos jovens, pesquisa).

terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

Uma prosa poética em “O filho de mil homens", de Valter Hugo Mãe


Ilustração de Anna Cunha

Valter Hugo Mãe é o nome artístico do escritor português Valter Hugo Lemos (Vila Henrique de Carvalho, Angola, 25 de setembro de 1971). Além de escritor é editor, artista plástico, apresentador de televisão e cantor. Fonte Wikipedia.

No vídeo "Herdeiros de Saramago é possível conhecer um pouco mais sobre o autor, para além de seu talento literário.


https://www.rtp.pt/play/p7972/e505738/herdeiros-de-saramago



    O filho de mil homens se caracteriza por uma prosa poética, na qual o autor narra acontecimentos em uma pequena cidade por meio de personagens que tem suas histórias entrelaçadas.  Há uma atmosfera mágica em acontecimentos comezinhos, não que se proponha ao fantástico, mas sim pelo fato de tecer os fatos cotidianos com auxílio de imagens sinestésicas ou metafóricas, de modo que o romance passa a ter uma aura que ora distancia, ora aproxima do real. Esse efeito estético, consequência da prosa poética, acompanha todo o livro. 


    O “amor dos infelizes”, expressão cunhada pelo autor,  ou a busca pela aceitação é o tema central do livro. Essa é a propulsão de todos os personagens, sejam principais ou secundários. A manifestação primeira dessa proposta do autor se inicia pela busca do personagem Crisóstomo por um filho, motivado pela constatação de desproposito da existência sem o amor parental, o personagem sai em busca dessa possibilidade. Outros personagens também passam pela mesma jornada em busca de um amor possível, tais quais o avô de Camilo, Isaura e Antonino.


“Ser o que se pode é a felicidade. Não adianta sonhar com o que é feito apenas de fantasia e querer aspirar ao impossível. A felicidade é a aceitação do que se é e se pode ser.” (Hugo Mãe)


    A construção temporal da narrativa é pouco precisa, mas há pistas. Não é possível através dos elementos da narrativa precisar o tempo exato em se passam as histórias. A pequena cidade costeira, na qual os fatos se desenrolam, está situada na contemporaneidade, em um passado menos ou mais distante? Sabemos que a narrativa acompanha um lapso de tempo que abriga, no mínimo, 15 anos (idade de Camilo, filho biológica da anã e posteriormente filho de Crisóstomo ), no entanto, não se sabe ao certo se o comportamento dos cidadãos revelam características de uma cidade provinciana e tacanha, que a despeito de estar inserida no século XXI, poderia manifestar algum conservadorismos ou se reflete o passado. Partindo do pressuposto de que concepções mais arrojadas nos modos de viver, não ocorrem de forma homogênea e que as cidades pequenas são mais conservadoras em temas como casamento, emancipação feminina, homossexualidade, paternidade, doenças mentais, religiosidade, podemos inferir que se trata de uma cidade contemporânea, dos recônditos de Portugal. Uma evidência dessa suspeita se encontra, por exemplo, na possibilidade de teste de paternidade aventada por uma das personagens para a averiguação do progenitor de Camilo: 

“A anã esticou-se a crescer um centímetro e respondeu: o tamanho do juízo tenho-o eu todo, e sei bem o que lhe estou a dizer, um desses quinze homens há de ser o pai da minha criança, é preciso obrigá-los a fazer um teste ou coisa assim” (teste de paternidade foi criado em 1985).” Fazendo as contas, uma cidade provinciana e religiosa no interior de Portugal em 1985, podemos estipular valores morais e sociais de qual momento histórico? Anos 30? Anos 40? Anos 50?


    A obra possui um narrador onisciente e onipresente com permissões ao discurso direto livre dos personagens e é divida em vinte capítulos todos eles, de alguma forma,  calcados nas aventuras e desventuras do amor parental. Além desse tema, há espaço para discussões subjacentes sobre a velhice, por meio do acerto de contas com a vida feita por Crisóstomo; sobre a homossexualidade, através do sofrimento interior e pela violência da comunidade em relação à homossexualidade de Antonino e   sobre a limitações sociais impostas às mulheres explorada, sobretudo, na vida de Isaura, mas também presente em todas as demais personagens femininas e ainda, uma personagem com deficiência física, que serve como mote para explorar muitas das deficiências morais daquela comunidade.  A narrativa tem um ritmo com idas e vindas nas histórias presentes e pregressas , revelando a cada capítulo um pouco mais das razões de cada um daqueles amores infelizes.  Os personagens acabam por ser construídos em torno de suas rejeições, mas  isso não significa que se limitem a elas.  O desfecho da obra se propõe a emancipar todos através do encontro com o amor, que me parece no final, um amor feliz. O mais contundente aceno para a escolha pelo amor é a paternidade escolhida, quase todos os jovens do livro, são ou foram adotados, Camilo, por exemplo foi adotado, mais de uma vez. A escolha da narrativa pela paternidade não biológica pode ser a manifestação mais contundente da necessidade de amar e cuidar do outro, de procurar no outro a responsabilidade e os laços do cuidado. Parece-me que, se ter filhos é a busca pela eternidade , Crisóstomo e  sua família escolhida (no sentido de que não biológica) são a escolha pela doação ao outro. Hugo Mãe remete nesse momento a máxima cristã de “Ame o seu próximo como a si mesmo". 

"Todos nascemos filhos de mil pais e de mil mães, e a solidão é a incapacidade de ver qualquer pessoa como nos pertencendo, para que nos pertença de verdade e se gere um cuidado mútuo. Como se os nossos mil pais e a nossas mil mães coincidissem em parte, como se fossemos por aí irmãos, irmãos uns dos outros. ( Hugo Mãe).   


    No que se refere a uma personagem marcante, vale um excerto da obra para melhor caracterizá-la : “Num pequeno povo do interior, vivia uma anã a quem todos se apiedavam”. Particularmente a personagem e o capítulo com o qual tive maior conexão pessoal foi a personagem Anã, no capítulo “O filho de quinze homens”. Com picardia, o autor faz troça da religiosidade tacanha da província, da bondade de aparência, e da falsa comiseração cristã. Todos os demais personagens sucumbem à violência silenciosa e opressiva da cidade, ela por outro lado, embora considerada por todos fisicamente frágil, é  mais certa de seus desígnios, morre mais de alguma forma é a mais viva de todos. Através dela são revelados adultérios de muitos e também somos confrontados no nosso imaginário erótico. Na narrativa, a comunidade se considera no direito ditar os limites do sexo e o erotismo aprisionando a personagem no que idealizam sobre a infância, em virtude de sua estatura  como se, pela força daquele julgamento, ela fosse, portanto, sumariamente afastada do direito de fantasiar e vivenciar o sexo, como a adulta que era.


    Acredito que, embora seja uma caraterística estética, a prosa poética pode, por vezes, mesmo que sem intencionalidade, edulcorar a realidade. Pessoalmente, tenho preferência pela literatura mais como confronto do que como conforto. O otimismo e a confiança de que o encontro do amor pode reparar outros núcleos e injustiças é pessoalmente inverossímil, mas pode ter bons resultados na ficção, êxito que o livro conseguiu na maior das vezes, embora minha inclinação seja mais para o que pontua Walter Siti:  


“Oscilando entre engano e crueldade, entre doença e remédio, o romance encontra um compromisso duradouro nas construções razoáveis do verossímil.” “embora forneça à burguesia o mais convincente dos espelhos, a vocação do romance não é a de tranquilizar: é, de preferência, a de verter o impossível no real, ou de descobrir no real o absoluto, sem nunca encontrar paz”.  (Walter Siti)


No prefácio do livro intitulado “ O filho universal” são mencionadas obras  como Pinóquio e a Odisseia , eu somaria a estas o livro “O filho desejado” de John Steinbeck, que narra a história de um protagonista estéril que tem enorme desejo de ser pai e sua mulher, por amor, decide ter um filho com outro homem para realizar este sonho. Parece que há sempre um traço comum de universalidade,  por mais tortuosas que sejam  as manifestações desse sentimento. 


“De qualquer modo, já não precisavam de falar. Pertenciam-se e comunicavam entre si pela intensidade dos sentimentos. Tinham inventado uma família” (Hugo Mãe).

- Nota para o livro de 6,5

domingo, 31 de janeiro de 2021

Résonnance

 de Hartmud Rosa

por Christiane Girard

Tenho que explicar rapidamente o motivo pelo qual escolhi esse livro. Havia três outros livros de literatura que amei ler esse semestre. Mas esse, que é da socio-filosofia, me causou uma impressão forte, daquela que sentimos quando “entramos” num livro de um jeito e saímos dele diferente.

O que me tocou particularmente na obra de Hartmut Rosa é o fato de se tratar de um autor teórico, e são raras atualmente as teorias sociais que indicam luzes possíveis no mundo, já que estamos sempre sendo informados de inúmeras dinâmicas sociais bastante perversas e práticas marcadas pelo utilitarismo. 

Ele desenvolve um pensamento rigoroso como o é exigido a partir do campo dele, mas percebi que ele capaz de acordar no leitor  a presença constante do  encanto pela vida. Como? 

Pela maneira de dar forma ao raciocínio, o seu estilo, lança mão de poema, de compartilhar sensações,  emoções,  música... E de raiva e tristeza também. A forma e o raciocínio que ele utiliza são condizentes com o que ele quer demostrar. Como um artista que precisa usar cores especificas para que possamos ver o céu do entardecer em Londres do Monet, ele pinta as emoções e assim as vemos, as tocamos.  Mas não é por ser belo que há necessariamente encanto, e pode ter encontro e não acontecer nem uma faísca. Não há uma disponibilidade ao encontro por principio, como regra. Há uma faísca...Ou não. Há de se ter um encontro que permita dar vida a emoção. O encontro pode ser com a arte, a espiritualidade, o sentimento para com os outros, com a natureza. É o que ele chama de “Résonnance” e é o titulo do livro, o objeto de sua reflexão. Uma sociologia das relações com o mundo que pode ser compreendida pelo poema de Heine*, que é um exemplo de relações com a natureza.

Pensei no que nos dizia nossa querida professora Eva Leones: Qual é o estatuto do livro? Ele se enquadra em qual tipo de debate contemporâneo?

Hartmut Rosa é filosofo e sociólogo alemão, da Universidade de Jena. Escreveu esse livro em 2018. O primeiro livro que publicou e o tornou conhecido é sobre “Aceleração, uma crônica do tempo”. A sua tese neste livro era sobre a aceleração do tempo e o impacto disso na modernidade tardia.

Nesse ultimo livro que escolhi compartilhar com vocês, cujo o titulo é “Ressonância”, a sua tese é que os homens em todas as dimensões da existência física e espiritual, cognitiva e emocional, desejosos e avaliadores são sempre ligados ao mundo. Sua existência é o vínculo. E esse vínculo se transforma e se desenvolve dentro e a partir da relação com o mundo. Por isso, este livro é um esforço de pensar as relações que estabelecemos atualmente com o mundo. Qual é o tipo de vínculo que estabelecemos? Para responder a essa pergunta, Hartmut investiga a ressonância que é construída pelo vínculo. Seja nas relações que temos com o corpo, seja nas relações que estabelecemos com o meio ambiente, a arte, as religiões, os objetos, etc.

As nossas sociedades atuais devem sempre crescer e inovar. Somos presos a uma escalada, você é constrangido a crescer. É um crescer que não tem metas, nem fim e isso induz uma relação, diz ele, patológica com o mundo. Poderíamos dizer, o mundo é mudo porque somos surdos. Essas relações de indiferenças desencadeiam crises ecológicas, crises democráticas, crises psicológicas (burnout). O que significa uma crise com o ambiente? Isto é, com o não humano isto é com a natureza  que tem seus direitos, suas lógicas, ou com as crises das relações com o mundo social (democracias). Por exemplo, quando sabemos dos naufrágios envolvendo imigrantes e ignoramos a situação, é a democracia que está à deriva. Há, igualmente, uma patologia na relação subjetiva consigo próprio no mundo do trabalho, o que antes nos conferiam identidades. Isto é, nossos vínculos nas relações com o mundo se desconectam.

Como não é um livro de auto-ajuda, a chave não é se encantar com o que temos de disponível cada um, mas de refletir sobre as situações sociais e pensar sobre o fato, por exemplo, que o exercício de uma atividade nos alimenta em alegria quando ela porta, em si, o fim que a determina. Por exemplo: porque desenho? Para entrar no mundo das cores, por nada! Poderíamos dizer que nossa vida é boa quando temos um vinculo libidinal que nos liga a ela? Ela, a vida, é o conjunto das pessoas, dos espaços, das tarefas, das ideias, das coisas e dos instrumentos que cruzam nosso caminho. 

Para situar o pensamento do autor, poderíamos o colocar no campo da teoria crítica da escola de Frankfurt, na linha de Adorno, Marcuse, Honneth e outros, onde os esforços são de trabalhar sobre a emancipação e questionar formas de alienação.

Lendo o texto, pensei que o termo “ressonância” poderia ser, dar um Sentido às ações, mas decididamente não é isso. O termo representa mais se aproximar de uma faísca que para permitir o fogo precisa de condições e, mesmo assim, mesmo dispondo de todas as condições, pode ser que nada aconteça! Ressonância também não é eco, porque para acontecer o encontro precisa que outra voz se manifeste, não disponível a priori, mas que saibamos escutar. O problema é que nos tornamos uma espécie de “piloto automático” como ter encontro quando o mundo é mudo.

O sentimento de si é sempre o resultado de encontros e de contatos – ou de ressonância ao mesmo tempo físicos e psíquicos e todo desejo humano é um desejo de ressonância, é o que nos lembra o autor mas até a ressonância tem risco de ser instrumentalizada, entretanto ela nos constitui como sujeito. Seria uma nova forma de alienação?

. . .

*O poema de Heine, “O Livro dos Cantos”. (tradução livre)


....“perto do mar, o mar noturno e deserto

Um jovem está em pé

O coração cheio de lágrimas, o espírito cheio de dúvidas

Sombrio e triste, ele interroga as ondas

As ondas cochicham sua eterna canção 

As estrelas brilham, indiferentes e frias

E um insano espera uma resposta “....


* * *


imagem: foto do artista Sabato Visconti



terça-feira, 22 de dezembro de 2020

O Aleph

de Jorge Luís Borges




por Ana Lucia Rocha Studart


SOBRE A OBRA - O Aleph é um conto de Jorge Luís Borges que  se insere no conceito do realismo mágico. O enredo é interessante, e acontece entre dois personagens que disputam tanto o amor da mesma mulher quanto o sucesso como escritores. O conto foge à realidade a partir do momento em que a existência do Aleph é revelada. 


No seu conto, Borges define a palavra Aleph como “a primeira letra do alfabeto da língua Sagrada. Para a Cabala, essa letra significa o En Soph, a ilimitada e pura divindade” O milagroso Aleph do conto, Borges descreve como “o lugar onde estão, sem se confundirem, todos os lugares do orbe, visto de todos os ângulos”.


No caminho de preparar a resenha, percebi que o Aleph é mais popular do que eu imaginava, porque para um outro escritor, Paulo Coelho, vinculado a textos mágicos e autor de O Alquimista e de outro livro chamado Aleph,  o Aleph pode até levar a uma outra dimensão: " É o ponto onde tudo está no mesmo lugar ao mesmo tempo, diante do qual abrem-se portas, por fração de segundo, e logo tornam-se a fechar, mas permitem desvelar o que está escondido atrás delas - tesouros, armadilhas, caminhos não percorridos etc".


O Aleph, no conto de Borges, localiza-se no porão escuro e minúsculo de uma casa antiga, onde, deitado no chão, com a cabeça sobre uma bolsa dobrada em local preciso, e olhando para certo degrau de uma escada, pode-se ver, simultaneamente, todos os pontos do universo. Esse ponto estaria “numa pequena esfera furta-cor, de quase intolerável, fulgor…com diâmetro de 2 ou 3 centímetros, mas o espaço cósmico estaria aí, sem diminuição de tamanho…Cada coisa (o cristal do espelho, digamos) era infinita coisas, porque eu via claramente todos os pontos do universo”.


O interessante é que o autor, como grande escritor que é, relata a dificuldade de expressar, em palavras sequenciais, algo que tanto o maravilhou no Aleph: 

“O que viram meus olhos foi simultâneo. O que transcreverei, sucessivo… Como transmitir aos outros o infinito Aleph, que minha temerosa memória mal e mal abarca?”.


A ESTRUTURA - Na publicação “Jorge Luis Borges, Obras Completas I”, o conto está impresso em 13 páginas, e foi publicado pela primeira vez em 1949, sendo considerado um dos melhores contos de Jorge Luis Borges. Tem descrições primorosas e densas de locais e personagens. A escrita é elegante, ritmada, leve, de fácil leitura, com toques de humor e ironia.


O PDV -  É o do autor, que se coloca como um dos personagem no conto.                                                                                    

A AMBIENTAÇÃO do conto é na  Argentina, Buenos Aires, rua Garay, casarão dos Viterbo, onde viveu Beatriz e onde vive Daneri. Se passa nos anos 30/40.                        


OS PERSONAGENS são apenas três:

- O próprio Borges, que embora não se refira diretamente ao seu personagem, deixa transparecer sentimentos de paixão, ciúme e inveja.                             
                                                                                                                                                       
- A falecida Beatriz Elena Viterbo, que já se encontra morta ao se iniciar o conto, mas sempre presente em fotos e na paixão de Borges. Além disso ela impulsiona o enredo, com as visitas anuais que Borges faz ao primo dela, na data de seu aniversário. Ele a descreve primeiro como “alta, frágil, ligeiramente inclinada” com um andar de graciosa lentidão, um princípio de êxtase”. Adiante, é mais critico: “…mas havia nela negligências, distrações, desdéns, verdadeiras crueldades que talvez reclamassem explicação patológica.”             
                                                                                                                                                        
- E Carlos Argentino Daneri, bibliotecário, primo de Beatriz e proprietário do Aleph, por morar na casa onde ele se situa. Daneri é assim descrito por Borges:  um ser “rosado, robusto, encanecido, que exerce um cargo subalterno numa biblioteca de suburbia…É autoritário e também ineficiente…Sua atividade mental é continua, apaixonada, versátil, e completamente insignificante”. Daneri, trabalha há anos numa extensa obra, o Canto Augural de um poema  chamado A Terra, que trata da descrição do planeta.  Mais tarde o leitor conclui que sua inspiração para o longo poema vem das incursões dele ao  Aleph. Ao ouvir trechos da obra, Borges considera as idéias de Daneri pomposas, e as estrofes de seus poemas sem nada de memorável.  Critica sua ostentação verbal: “A palavra leitoso não era bastante feia para ele….preferia lactário, lactinos, lactescente, leital..”  Sua aversão a Daneri produz esse comentário, no momento em que desce pela única vez ao sótão mágico:”Subitamente compreendi meu perigo. Deixara-me soterrar por um louco, depois de tomar um veneno”. (O veneno seria o licor que bebera pouco antes e que ele mesmo havia presenteado a Daneri). Em determinado ponto confessa: “No fundo, sempre nos detestamos.                                                                                                                                                        
O ENREDO- O conto se inicia com o falecimento de Beatriz e Borges avaliando a morte, com a pesarosa constatação de que o mundo continuará se modificando e se distanciando da realidade de Beatriz em vida. Painéis de rua modificados no dia da sua morte   teriam mostrado a Borges que “o incessante e vasto universo já se afastava dela, e que essa mudança era a primeira de uma série infinita. Mudará o universo, mas eu não”, E assim ele estabelece magistralmente a presença de Beatriz durante quase todo o conto.                                                                                                                                                    
Borges decide que todos os anos, no dia de aniversário de Beatriz, ele, como  homenagem, deveria visitar “a casa da rua Garay”, onde Beatriz morou com seu pai e seu primo-irmão, Carlos Daneri, ocasião em que mataria saudades de Beatriz apreciando suas  elegantes fotografias, que descreve em pormenores no conto. Com o passar dos anos, esses encontros ese prolongam e ele se torna intimo de Daneri, apesar do desprezo com que o descreve. A impaciência de Borges ao ouvir os poemas de Daneri se revela: a dicção é extravagante, com lentidão métrica. E o desprezo é reciproco- Borges se imagina convidado a escrever o prefácio do poema de Daneri, mas acabou convidado a solicitar que outro escritor, um “homem de letras”, o prefaciasse.                                                                                                                                                                        
O Aleph torna-se central na história no momento em que a casa da rua Garay, alugada, vai ser demolida pelo proprietário. Daneri confidencia a Borges que, para terminar seu poema, precisava do Aleph e, em consequência, da casa. Daneri descobrira o Aleph na infância, e nunca o revelara a ninguém. Agora, perto de perdê-lo, permitiu acesso a Borges. E promete: “E em breve poderás estabelecer um diálogo com todas as fotos da Beatriz.”   
                                                                             
A descrição da experiência de Borges é detalhada. Ao descer ao porão caiu da escada. Com a cabeça sobre a bolsa, e  Daneri indicando que Borges deveria contar os 19 degraus da escada, porque ali veria o Aleph, ele sai e deixa Borges em meio à escuridão. O relato da experiência de Borges toma conta de mais de duas páginas do conto, e é uma avalanche de visões, mas tudo redigido com um toque de poesia, transmitindo emoção ao leitor. E ele conclui:”vi meu rosto e minhas vísceras, vi teu rosto e senti vertigem, e chorei, porque meus olhos haviam visto esse objeto secreto e conjectural, cujo nome usurpam os homens, mas que nenhum homem olhou: o inconcebível universo.” Depois dessa visão, Borges receia que não restasse  uma única coisa capaz de surpreende-lo, e “felizmente, depois de algumas noites de insônia, agiu outra vez sobre mim o esquecimento.”

DESFECHO: O pós-escrito, redigido 6 meses depois da demolição da casa da rua Garay, vem con interrogações: teria Daneri escolhido o nome Aleph devido a revelações  do próprio Aleph durante as visões que teve? Seria o Aleph da rua Garay um falso Aleph? E para corroborar sua suspeita, enumera uma série de possibilidades, como um espelho do oriente onde em seu cristal refletia-se o universo inteiro, e a  mesquita no Cairo, que teria o universo em uma de suas colunas de pedra. No ultimo parágrafo fala do esquecimento: teria ele visto essa coluna de pedra na sua viagem pelo Aleph, e a teria esquecido? ”Nossa mente é porosa; eu mesmo estou falseando e perdendo, sob a trágica erosão dos anos, os traços de Beatriz.”                           
Borges coloca no conto duas  notas de rodapé, uma onde transcreve uma quadra do poema de Daneri e a critica, e outra, já no pós-escrito, relatando uma carta onde Daneri, premiado por publicar trechos de seu longo poema, tripudia de Borges: “Bufas, meu lamentável amigo, de inveja”. A obra de Borges, Los Naipes del Tahur, não conseguiu um único voto. Ao que Borges desabafa: “Uma vez mais, triunfaram a incompreensão e a inveja”.    
   

OBSERVAÇÕES: O realismo mágico apresentado em conto de um autor erudito como Jorge Luis Borges, suscita uma série de associações e interpretações aos seus leitores e críticos. Assim, há quem veja uma série de metáforas nele. Beatriz Elena  seria a Beatriz que conduziu Dante do purgatório ao paraíso.  E o Elena remeteria à cultura clássica, grega, e seria uma crítica aos escritores contemporâneos. O Aleph seria uma metáfora para a literatura, que leva o leitor a incontáveis lugares. E a suspeita que Borges  levanta  dizendo que o Aleph reside em uma coluna, seria um tributo à erudição formal…O próprio  Borges, no epílogo de suas obras completas, observa que o Aleph teve alguma influência do conto “The Crystal Egg”, de Wells. O conto trata de um ovo verde de cristal, propriedade do dono de uma loja de antiguidades, onde alguns poucos viam imagens da vida em Marte.                                                                                   

Sabe-se, com certeza, que Borges aprecia a ideia da unidade na multiplicidade, e que isso se repete em sua obra. Em outro  conto,  “A Biblioteca de Babel”, onde, num espaço reduzido, estariam contidos todos os livros. Borges associa o universo a uma biblioteca e descreve o homem como “um imperfeito  bibliotecário… mas o universo, com o seu elegante provimento de prateleiras, de tomos enigmáticos, de infatigáveis escadas para o viajante, e de latrinas para o bibliotecário sentado, somente pode ser obra de Deus.”                                                               

Esse menosprezo pelo bibliotecário se repete também  no Aleph, e seria uma crítica ao próprio autor e à profissão, porque Borges, como o desprezível Daneri do conto,  fora por um período da vida bibliotecário e depois diretor de biblioteca.                

Outros temas frequentes em suas obras seriam o infinito, os cristais e os espelhos  No conto A Biblioteca de Babel, ele descreve: “O universo ( que chamam a Biblioteca) compõe-se de um número indefinido e talvez  infinito de galerias hexagonais e de qualquer hexágono vêem-se andares superiores e inferiores: interminavelmente… no vestíbulo há um espelho, que fielmente duplica as aparências”.  

                                                                             

SOBRE O AUTOR - Jorge Francisco Isidoro Luís Borges nasceu em Buenos Aires, Argentina, no dia 24 de agosto de 1899. Por ter avó inglesa, tornou-se bilingue desde cedo. Aos 4 anos já sabia ler e escrever, e cercado pela erudição da família, aos 9 anos redigiu seu primeiro conto, “La Visera Fatal” inspirado  na obra de Dom Quixote. Aos 10 anos de idade já uma traduzira um conto de Oscar Wilde, publicado em um jornal local.     

                              

Em 1914 mudou-se com a família para a Suíça, para que seu pai pudesse tratar da sua cegueira progressiva. Em 1919, mudaram para Madrid, onde Borges concluiu seus estudos e colaborou com poemas e crítica literária em  várias revistas. O fato de ter morado tão jovem com a família na Europa, lhe proporcionou  uma visão de mundo que poucos jovens teriam naquela época.                                                           

Aos  22 anos volta à Argentina, e a partir daí inicia sua fase de  inspiração surrealista.  Funda, com outros escritores, a revista Proa, e produz várias publicações, mas o reconhecimento de seu talento só se inicia  em 1935, com seu primeiro livro de contos, “História Universal da Infâmia”.


Para sobreviver, Borges trabalhou como bibliotecário em Buenos Aires, até que, em  1946, Perón subiu à presidência da Argentina. Por se opor ao peronismo, deixou o  emprego e, ajudado por amigos,  passou a trabalhar como professor de literatura inglesa e como palestrante e conferencista itinerante. Com a queda do regime peronista em 1955, Jorge Luis Borges foi designado diretor da Biblioteca Nacional.      

              

Borges padeceu do mesmo problemas nos olhos que teve seu pai, e foi aos poucos perdendo a visão. No conto A Biblioteca de Babel, ele lamenta: “agora que meus olhos quase não podem decifrar o que escrevo, preparo-me para morrer, a poucas léguas do hexágono em que nasci.” Quando ficou totalmente cego contou com a ajuda da sua mãe para escrever seus livros, e mais tarde  ditou  palavras para a aluna, assistente particular, e amiga Maria Kodama, com quem se casou aos  86 anos. Passou seus últimos dias viajando pelo mundo ao lado da esposa, e faleceu no dia 14 de junho de 1986, em Genebra, sem ter deixado filhos.                  


O reconhecimento mundial de sua obra teve início em 1961, ao receber o Prêmio Formentor, conferido pelo Congresso Internacional de Editores (prêmio dividido com o escritor irlandês Samuel Beckett). Em 1980, Borges recebeu o Prêmio Cervantes, o mais importante prêmio literário da Espanha, e recebeu prêmios do governo da Itália, da França e da Inglaterra. O Aleph(1949) está entre e seus livros mais conhecidos, junto com  Ficções (1944), e O livro dos seres imaginários (1968).             


CONCLUSÃO - Jorge Luís Borges é considerado um dos escritores mais influentes do século XX e um dos pioneiros do gênero realismo mágico. Em seu conto A Biblioteca de Babel, revela sua insatisfação com a vida, associada a uma biblioteca: “Como todos os homens da Biblioteca, viajei na minha juventude, peregrinei em busca de um livro, talvez o catálogo dos catálogos.” O fato é que suas obras iluminaram e promoveram a literatura latino-americana no mundo. O conto O Aleph foi considerado pelo crítico literário e professor  novaiorquino, Harold Bloom, como uma das maiores obras literárias do ocidente,  e certamente,  este é um conto excepcional. Quem, num texto de apenas 13 páginas (e Borges é afamado pelos seus textos suscintos) levantaria tanta polêmica, tantos comentários, tantos elogios, e tantas metáforas?


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segunda-feira, 23 de novembro de 2020

A Dama do Cachorrinho

de Anton Tchekhov 

(Editora 34, 6a. edição, 2014, Tradução Boris Schnaiderman)

por Alexandre Morais do Amaral

 

“E somente agora, quando sua cabeça já estava ficando grisalha, ele começou a amar de verdade, como deveria e pela primeira vez em sua vida”.


Conto clássico da literatura universal, esta obra é assim considerada pelo estilo singular, conciso e elegante que Anton Tchekhov emprega para descrever situações do dia-a-dia. Em seus contos, não parece haver julgamento moral de nenhum personagem. Os deslizes éticos não são avaliados ou apresentados com viés. Todos os personagens são perfeitamente humanos em suas imperfeições. Na marcante concisão, Tchekhov consegue, já no (curto) primeiro parágrafo, por exemplo, mostrar quem são, onde e como estão os protagonistas e, com isso, o potencial desenvolvimento da história.

Uma característica muito interessante deste conto é a sensação de que as “pontas” foram cortadas: ele se inicia com a impressão de já ter começado antes do escrito e termina sem um fim “definitivo” – o “(in)felizes para sempre” parece um lugar muito distante. Enfim, parece muito uma tentativa de mostrar que a trama já existia antes de entrarmos nela e terminará além daquela história – ou seja, o princípio de que a vida continua – e muitas vezes além do olhar do leitor…

Quanto ao conto em si, o fio condutor da história é a relação que se desenvolve amorosa  (a ordem dos fatores é essa mesma: começa relação, termina amor) entre (Dmítri) Gurov e Ana (Sierguéievna), mas no contexto de adultério para ambos, com as dificuldades inerentes. O casal clandestino se conhece durante visita a uma cidade litorânea, de veraneio, na Crimeia. Assemelham-se nas vidas frustradas, vazias, monótonas e sem perspectivas. Ele, vivendo um casamento oco, sem brilho, e vários “affairs” também ocos ao longo do tempo. Ela, numa vida sem energia, mal sabe o que faz o marido e pouco se interessa em saber – pista suficiente para a superficialidade da relação.  

Interessante perceberem-se as transformações que ocorrem no curto espaço de tempo deste conto: a mudança de Gurov, humanizando-se, a esperança de Ana, renovando-se. A distância geográfica que aparece para ambos, após o veraneio, não é suficiente para distanciá-los: mesmo vivendo em cidades distantes, buscam um meio de preservar a vida do inevitável relacionamento. Como não há o bem e o mal na construção da(s) história(s) (de Tchekhov), fica ao leitor o papel de preencher as lacunas e imaginar o final.

“Eles perdoaram um ao outro tudo aquilo de que se envergonhavam no seu passado, perdoaram tudo do presente e sentiam que seu amor havia transformado a ambos”.

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"A Dama do Cachorrinho" foi publicada originalmente em 1899.  ANTON Pavlovitch TCHEKHOV nasceu em 1860 (Tangarog, Rússia) e faleceu em 1904.