terça-feira, 13 de agosto de 2019

Eles eram muitos cavalos


de Luiz Ruffato
Comentários de Carlos Guido Azevedo
O que surpreende o leitor em primeira mão neste texto é o trabalho de marchetaria do autor, que compõe em pequenos segmentos da vida cotidiana, a cidade de São Paulo sob a ótica predominante das pessoas mais sofrido da cidade.
Digo isso, pela profunda tristeza que o livro produziu em mim. Saber-se parte de um todo e não conseguir se perceber como tal. Sentir como parte da população percebe sua própria ausência, enquanto é quase a maioria presente na cidade. Amargar o sentimento da invisibilidade, não se sentir conectado com a cidade, nem com seus contemporâneos. Não poder compartilhar suas angústias ou suas alegrias com aqueles com quem interage é se ver só no mundo. Para mim foi o angustiante recado do livro.
Os pequenos textos parecem gritos de socorro de segmentos invisíveis da sociedade. Mas qual sociedade? Não há, nesses textos de Luiz Ruffato, qualquer expressão coletiva, integradora, cultural ou de simples ação agregadora. Nada que leve ao outro, há um único labirinto, sempre.
São personalidades isoladas lutando para encontrar uma conexão qualquer, um ouvinte, um parceiro, uma migalha de atenção. Mesmo quando a estória é coerente com alguma vida comum, como a (41) Táxi. Ela é contada a um ouvinte desconectado, quem sabe diversos, onde só quem dá coerência é o vocalizador que continua sua locução, sem qualquer conexão. “Os velhos morreram todos. A única coisa que resta é a memória da gente, mas o que é a memória da gente?” Todas as suas estórias demonstram esta ausência do eu no outro. Como se todos vivessem se debatendo contra um muro de isolamento, um apartheid de interesses.
Lembro sempre a máxima de Tolstoi em que a felicidade parece ser igual em toda parte e não gera qualquer interesse do leitor, por isso os romances são feitos de casais e pessoas infelizes, elas buscam, cada uma à sua maneira, viver a aventura da infelicidade. Nos pequenos contos e colagens de Ruffato é a infelicidade que busca conexões, falhando em achar interlocutores.
Seus textos estão montados como retalhos de um trabalho de patchwork que não resulta em um produto acabado, teimam em continuar retalhos de prosa, poesia, relatórios, publicidade de todos os gêneros, todos os tipos de discurso e vozes os compõem como se fossem a própria cidade num grande redemoinho e no meio dele o DEMO, lembrado por Guimarães Rosa.
Imagens em flashes, cruzamento de cenas, buscas por um outro, um qualquer que seja um contraponto. Não se encontra nada completo nestes retalhos de realidades que parecem ter sido juntadas por uma inteligência artificial. Elas não permitem personificar nenhum indivíduo como ente diferenciado do quadro irrelevante da cidade, só detalhes de um mural deselegante.
O livro é importante porque nos leva a pensar naqueles que não conseguem ser parte de um todo, de qualquer todo. Os que são invisíveis aos processos que não sejam os de sofrimento e dor. Que têm vidas verdadeiras num espaço de ficção social, amargando o desemprego, a miséria e uma esperança alimentada por sonhos em perspectivas muito pessoais e nunca coletivos.
Gostei das inovações, criatividade e desembaraço do autor que cria, cola e copia sem pudor.
Recomendo como amostra da literatura que virá daqui para a frente, a qual não saberemos ao certo, se foi escrita por humano ou por AI – Inteligência Artificial.
* * *

segunda-feira, 22 de julho de 2019

Madrugada Suja

     Miguel Sousa Tavares
                        

             Considerado um dos expoentes da literatura contemporânea portuguesa, Miguel de Sousa Tavares se apoia nos seus conhecimentos e experiências de jornalista e advogado para desenvolver suas tramas e construir de seus personagens. Esta vivência está presente nas diversas publicações do autor, como Equador, O Segredo do Rio, Rio das Flores, No teu Deserto, Ismael e Chopin, A História não acaba assim- estritos políticos 2005-2012, Madrugada Suja, Não se encontra o que se procura, Cebola Crua Com Sal e Broa.

A leitura de Madrugada Suja inicialmente me fez pensar numa trilogia iniciada com Equador onde autor analisa as mudanças na monarquia e sociedade portuguesa através de sua atuação colonial em São Tomé e Príncipe no início do século XX. Em Rio das Flores, (que lemos no grupo) as mudanças da sociedade portuguesa entre as 2 guerras e os anos da ditadura salazarista são retratados através da saga de uma família da pequena burguesia rural do Alentejo. Em Madrugada Suja o autor continua a analisar a sociedade portuguesa em suas dimensões econômicas e políticas através da estória (história) de uma família na transição da ditatura e das guerras coloniais, passando pela Revolução dos Cravos até o final do século XX.

O que me fez pensar ser uma trilogia foi a estratégia adotada pelo autor nos 3 romances que li. Em todos eles o autor se utiliza das trajetórias familiares para fazer uma análise existencial dos personagens e análise política da sociedade portuguesa do período.  É um modelo ou estratégia que o autor utiliza com maestria mas que ao cabo do 3 livro esta estratégia vai perdendo a força que vimos em Rio das Flores por ex.  Não sei se os outros livros do autor seguem a mesma estratégia e fiquei curiosa em conhecer os livros infantis do autor. 
Voltando à Madrugada Suja. O romance tem como personagem central Filipe nascido em Mendronhais da Serra que representa o interior rural e isolado de Portugal. A partir da trajetória familiar deste personagem o autor nos apresenta as mudanças da sociedade portuguesa pós Revolução dos Cravos até os tempos recentes. Este é o quadro para que o autor trate dos temas éticos e existenciais como a culpa, corromper e ser corrompido, pequenos e grandes poderes, concentração de renda e poder, papel dos políticos e dos magistrados. Temas tão atuais que chegam a doer quando lemos.
O capítulo inicial é forte e nos toma de surpresa e nos impulsiona para seguir adiante. Em seguida os caps 2, 3, 4, 5,6 7 que constituem a primeira parte o leitor é transportado para outro mundo (outro Portugal) a vila que morre como uma analogia de Portugal trás dos montes.  Bem monótono e se esta foi a intenção do autor devo dizer que ele foi bemsucedido.  O Portugal da Revolução dos Cravos com as Unidades de Produção Coletivas (Alentejo como uma nova Cuba), apresentado a partir da experiência de Francisco, pai Felipe, até o capitulo 8, que abandona a vila e seu filho, prepara leitor para entender Portugal moderno ou sem o romantismo da revolução dos Cravos. 
Na segunda parte o romance se torna mais interessante pois as trajetórias vão se entrelaçando e voltando ao capítulo inicial onde o acaso gerou tragédia que como diz Filipe no início, “Não há forma de escapar o que está feito. Todavia, não há dúvida que o ser humano é extraordinário na sua capacidade de adaptação a tudo, até mesmo à própria canalhice. Pois, ele sobrevivera e seguira em frente, por vezes atormentado pelos remorsos e pela culpa, mas a maior parte das vezes fazendo por esquecer- e conseguindo –o”
 Na narrativa de todas as trajetórias de vida o autor apresenta pelos menos dois argumentos constantes: Nada é aquilo que parecer ser. E, a vida é feita de acasos.
Vejamos por exemplo, Filipe, se visto só levando em conta o evento ou tragédia que ocorreu na saída de uma festa, é uma pessoa sem ética ou escrúpulos. Entretanto, no contexto de sua estória de vida suas atitudes são de uma pessoa integra e afetiva.  Seu avó (Tomas da Burra) sempre calado e conversando com sua burra ou com a natureza pode parecer no início uma pessoa simplória mas de fato é uma pessoa profunda e que vive com sabedoria.
Já Luis, seu pai biológico, médico e empresário, bem sucedido, com aparência de honestidade e seriedade nos negócios é de fato um homem que usou da sua vida pública e de político no interior para enriquecer aceitando subornos e mais tarde como grande empreiteiro corrupto mas com aparência de homem ilibado.
Já o romance, assim com o autor considera a vida, é fruto de acasos. Por acaso Filipe estava na escadaria da universidade saindo bêbado de uma festa e encontra Eva. Por acaso aparece o “amigo” que os convida para continuar a festa.  Na sucessão de acasos chega –se a uma tragédia que marcar a vida de todos.
O acaso leva Filipe a ser arquiteto paisagista na prefeitura de uma cidade litorânea e ser chamado a dar parecer em um projeto que causará danos ao meio ambiente. Por acaso os interessados na aprovação do projeto, no processo de convencer o arquiteto a não dar parecer negativo ou eximir de dar parecer sobre o projeto, contam como outros projetos foram aprovados. Neste processo, Filipe toma conhecimento das atividades do pai biológico, quando presidente da câmara de vereadores em outra cidade litorânea. E acaso em acaso a trama da estória e da vida se desenvolve.
Outro elemento que perpassa o romance é o tema da corrupção e as diversas formas que é exercida, apesar e mesmo com aquiescência da justiça e dos legisladores. A naturalização da corrupção, entendida e justificada pela visão de necessidade de modernizar o país. O autor, deixa aqui transparecer sua formação de jornalista engajado e mostra com muita propriedade o processo de concentração de poder e de formas de corrupção onde o público é apropriado pelo privado. A esperança aparece na capacidade de resistir a este sistema da parte de Filipe e da promotora que por acaso é a jovem atropelada em Cromeleque dos Almendres.
O autor conclui o romance com a figura poética da primavera que chega em Mendronhais da Serra “Para onde quer que olhasse, os sinais da primavera – verdes, amarelos, roxos e vermelhos – estavam espalhados por todo lado e gritavam-lhe a evidência da vida contra a evidência da sua aldeia morta”.
E com esta visão de primavera Filipe, pensa na construção de algo diverso do que estavam vivendo, ou seja, migração para centros urbanos sem qualidade de vida para a possiblidade de reconstruir a aldeia motivando a vinda pessoas com outros valores em relação ao meio ambiente as relações humanas. Romântico, mas por que não?  Gostei do livro e recomendo.

Lenita Turchi

terça-feira, 11 de junho de 2019

A BALADA DE ADAM HENRY

de Ian McEwan

Comentários de Ana Studart

A Balada de Adam Henry ( The Children Act), de Ian McEwan, é um romance típico. Apresenta uma boa história com temas relevantes,  muito bem redigida, apresentada em dois planos paralelos- um plano romântico e um plano jurídico, que se entrelaçam. Não é um romance que nos “pegue”, daqueles que a gente não consegue parar a leitura - é daqueles livros que vamos lendo aos poucos e sempre achando interessante.  Outro tema, igualmente importante, que se desenvolve paralelamente, é que Fiona, a austera juíza da Vara de Família que vai julgar o caso de Adam, está se separando do marido, apaixonado por uma mulher mais nova, e se percebe atraída, aos sessenta anos,  por um intenso e inteligente jovem de  dezessete anos que deve julgar.

O romance, lançado em 2014, toca, portanto, em dois temas polêmicos e bem atuais.
Os personagens  são bem desenvolvidos, com suas personalidades magistralmente delineadas.
Fiona é uma magistrada sessentona, bonita e elegante, contida e rigorosa, que se decide por estudar leis por gostar "das coisas direitas".  Para suavizar essa imagem de austeridade, toca piano e se apresenta em recitais do meio jurídico. Tornou-se famosa ao julgar um caso complexo, o  da separação de irmãos siameses, separação que provocaria a morte da criança mais fraca- mas, por outro lado, a falta da cirurgia significaria a morte das duas.  Segundo o o autor, Fiona é dona de "prosa incisiva, quase irônica, quase entusiasmada", sendo admirada por suas sentenças concisas.
Adam Henry é um jovem “adorável”, nas palavras de Fiona, um rapaz frágil mas muito bonito, inteligente e romântico, que escreve poemas, aprende violino e está disposto a se sacrificar sua vida pela religião, pelos pais e pela seita.
Jack, o marido de Fiona, é professor universitário, um homem amável, leal e bondoso, nas palavras do autor. Um pessoa elegante, vaidosa e romântica, que vive duas  crises- a da idade e a do casamento.
Vale ressaltar aqui as descrições minuciosas mas nada cansativas que o autor faz dos personagens e dos ambientes, nos colocando “visualmente”, dentro do romance. E vale ressaltar ainda a perícia do autor ao tratar das indecisões e dos sentimentos femininos de Fiona.
O tradutor dá a impressão de respeitar a forma inglesa como o romance foi redigido, embora tenha estranhado algumas frases que, a meu ver, destoaram do conjunto.
O romance tem um narrador onipresente, na terceira pessoa. O autor baseia o tema central num fato verídico, acontecido no Tribunal Superior inglês na década de 1990, se desdobrando em recursos jurídicos na década de 2000.
A narrativa começa de forma interessante, com Jack propondo à esposa, que ele viva, sem prejuízo do sólido casamento, uma grande paixão, ou seja, ele deseja manter uma amante, mas "sem falsidades”, às claras. Ele explica com calma, que ama Fiona, mas  como uma irmã, já que não mantêm relações sexuais há tempos.
Essa discussão é interrompida por um telefonema urgente-o hospital Edith Cavell precisa fazer uma transfusão de sangue de emergência num paciente menor de idade com câncer, e os pais não consentem, por serem  Testemunhas de Jeová. Se a transfusão não se realizar em curto espaço de tempo, o paciente não sobreviverá à doença. Fiona deverá proferir sentença determinando ao hospital o procedimento a ser adotado.
Fiona ( até para encerrar a difícil conversa com o marido) decide ir imediatamente ao hospital conversar com o jovem e ver se a ele se aplica o preceito chamado "competência de Gillick" já que Adam tem 17 anos e nove meses, e está muito perto da maioridade,  quando poderia decidir sozinho  qual o tratamento a ser aplicado pelo hospital, independente do desejo dos pais.
A partir de então o romance dedica páginas à entrevistas de Fiona com os médicos sobre os procedimentos adequados  para a cura do câncer do rapaz, e a conversas muito interessantes com os pais de Adam e com o próprio Adam, sobre suas convicções religiosas. Adam lhe mostra um poema, que Fiona elogia sem convicção, e toca seu violino, ao som da voz de Fiona, sugerindo um vínculo afetivo que se inicia entre os dois.
Os argumentos a favor da cura colocados por  Fiona impressionam Adam, que rompe com sua fé, aceitando a sentença da magistrada, que deu ao hospital o direito  de tratá-lo com as transfusões de sangue necessárias. Em carta enviada a Fiona, Adam relata que sua  sentença  provocou lágrimas em seus pais, mas não de tristeza, por contrariar a fé das Testemunhas de Jeová, mas sim, de alegria,  por ver a possibilidade do filho amado se salvar.  ”Que alivio! Ainda temos nosso filho, embora tivéssemos dito que ele devia morrer” Essa mudança de atitude é vista por Adam como uma fraude, uma contradição, e ele por carta, pode Fiona uma conversa, e diz sonhar com uma viagem dando uma volta ao mundo," juntos num navio, com camarotes vizinhos,” os dois conversando pelo convés.
Como não recebeu nenhuma resposta de Fiona às suas cartas- ela chegou a rascunhar alguma coisa, mas decidiu não enviar- Adam  passa a seguir Fiona pela cidade, o que resulta em alguns encontros a dois. Num deles, ao se despedirem, os lábios se encontram, o que desencadeia emoções de lado a lado. 
A partir desse momento melhor  não comentar mais o enredo, para não revelar o final do livro. Quero registrar, no entanto,  que esperava uma conclusão mais ousada,
O romance transcorre no clima frio e úmido da Inglaterra, com chuvas permanentes que encharcam guarda-chuvas e roupas. Ian McEwan não se limita a tratar do caso Dre Adam, e se extende descrevendo meio jurídico inglês, tanto tecnicamente, descrevendo casos solucionados na Justiça, quanto socialmente- reuniões e encontros de final der ano, quando Fiona se apresenta tocando clássicos ao piano. Enfim, é um romance interessante, de leitura fácil, que recomendo sem restrições.

Não resisto a comentar o fato de  uma juíza de Tribunal Superior preferir caminhar à pé, sob a chuva, sempre que a distancia permite, para seus compromissos, embora disponha de carro com motorista- coisa que seria impensável no Brasil…
Quanto ao autor-
Ian Russel McEwan nasceu em 1948 em Aldershot, Hampshire, no Reino Unido. Estudou nas universidades de Sussex e East Anglia e é considerado um dos ficcionistas britânicos mais importantes de sua geração. Filho de um oficial do Exército, morou no Oriente, na Alemanha e na África.
Recebeu viários prêmios- Premio Man Booker,.o Premio Jerusalem pela Liberdade do Indivíduo na Sociedade, o Premio Shakespeare, o National Book Critics Circle Award para ficção, o Premio Somersest  Maughan, e o James Tais Black Memorial Prize.
Inicialmente apelidado de Ian Macabro por causa dos temas de suas primeiras obras, Ian é um ateu convicto, sendo considerado um dos 50 ateístas top do mundo pela The Best Schools. Está em 34o lugar, sendo seguido por Woody Allan.  Escreveu  livros que tratam do assunto, como Black Dogs, Saturday,  e Solar. e considera que ”os Ateistas tem tanta consciência, talvez mais, do que pessoas com profundas convicções religiosas."
Públicou 24 obras, sendo a primeira  "Primeiro Amor, Últimos Ritos", de 1975, que recebeu o Premio Somerset Maughan.  Uma das suas obras mais conhecidas é  "Amsterdã" , de 1998, que recebeu o prêmio Man Booker.
Dois de seus livros foram adaptados para o cinema- Atonement, em 2007 e O Jardim de Cimento, em 1993.
Recentemente lançou uma novela audaciosa, intitulada "Machines Like Me", um romance que se passa no ano de  1980, em Londres, numa realidade alternativa, quando um casal apaixonado compra Adam, um humano sintético, e define sua personalidade.  O resultado é um ser humano quase perfeito, bonito, forte e inteligente,Forma-se então um triângulo amoroso levantando questões morais e colocando a pergunta: o que nos torna humanos?
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A Balada de Adam Henry


de Ian McEwan

Comentários de Priscila Fernandes Costa

Neste romance do escritor inglês Ian McEwan nos deparamos com a história de Fiona Maye, magistrada do Tribunal Superior Inglês, dedicada a arbitrar em causas de família. A juíza parece resolver com bastante tranquilidade e isenção os casos que lhe são destinados, até o momento em que tem que decidir sobre o destino de um adolescente de 17 anos, pertencente à religião Testemunhas de Jeová, que está internado em um hospital por causa de uma doença grave. Adam, o jovem hospitalizado, precisa de uma transfusão de sangue para que sua vida seja salva, mas seus pais se recusam a autorizar o procedimento por causa da  religião que condena tal tratamento. Ao mesmo tempo, o jovem Adam está disposto a morrer para não pecar perante de Jeová. O caso, então, é encaminhado à justiça pelos médicos do hospital. Depois de muito ponderar e após uma conversa tête-à-tête com Adam, que se mostrou bastante “maduro” e psiquicamente saudável para escolher seu destino, Fiona considera que seu dever é acima de tudo o de preservar a vida, e delibera em favor dos médicos, autorizando, assim,  a transfusão que garantirá a sobrevivência de Adam.
Embora o romance aborde questões sobre ética jurídica confrontada com a ética religiosa, e o direito de escolha do sujeito a propósito de seu próprio destino, o texto de McEwan me levou a refletir sobre alguns problemas da típicos da adolescência, esta fase da vida tão cheia de conflitos, angústias, indecisões e inseguranças.
A adolescência é um período do desenvolvimento humano que marca a passagem da infância para a vida adulta. Trata-se, portanto, de  um processo de amadurecimento biopsicossocial. Do ponto de vista do crescimento físico, a adolescência refere-se ao período que vai da puberdade – com o surgimento dos caracteres sexuais – até a parada do crescimento corporal. Este conjunto de transformações orgânicas ligadas ao processo de maturação sexual provocam, também, transformações psíquicas importantes que caracterizam a chamada crise da adolescência, que nada mais é do que o trabalho psíquico do sujeito no sentido de elaborar alguns “lutos” diante de perdas fundamentais e fundantes, a saber,  o luto pelos pais da infância, o luto do corpo infantil, e o luto pela identidade de criança.
Para se livrar da identidade infantil e tentar construir uma identidade adulta, o adolescente lança mão de comportamentos de rebeldia e oposição – sobretudo em relação aos aos pais. Demonstra também comportamentos típicos do chamado fracasso de personificação, pois, ao mesmo tempo parece se recusar a crescer, agindo de maneira infantil. A dificuldade de adaptação fora do grupo de pares é evidente, as condutas de risco estão quase sempre presentes e a expressão de pensamentos onipotentes, tais como ideias de reformas políticas, sociais e econômicas são comuns.
Com relação às mudanças corporais,  a única conduta possível para o sujeito é a absoluta  passividade. Não dá pra parar, nem mesmo controlar este corpo que se modifica dia-a-dia, enquanto o ele não sabe o que fazer com as novas aquisições. O sentimento de impotência faz com que ele oscile entre momentos de realidade e outros de fantasia. O corpo silencioso da fase de latência agora grita de desejo, dor e prazer.
O luto pelos pais da infância é também fundante para o adolescente, uma vez que para acessar o mundo adulto e à desejada e necessária independência, é preciso sair da relação de dependência dos pais. Para tanto, começa-se por desidealizá-los: eles já não são mais o pais perfeitos da infância. O adolescente começa a olhar para as “falhas e defeitos” dos pais e tende a critica-los severamente, ao mesmo tempo que exige muito dos mesmos. Tais comportamentos, embora exasperem os pais, são bastante saudáveis neste tempo do desenvolvimento psíquico.
Voltando agora ao nosso adolescente, o livro de McEwan,  não nos fornece muitos  detalhes sobre a história de vida de Adam, mas mesmo assim podemos fazer algumas considerações.
Adam parece demonstrar uma maturidade “mimética”, espelhada, certamente, nos valores e ideais de seus pais  e nos preceitos religiosos que lhe foram incutidos desde a infância. Ao se ver livre, por determinação de uma instância legal superior, das exigências e expectativas da religião na qual foi criado, deixa vir a tona a “crise de adolescência” que parece não ter tido a oportunidade de vivenciar até então:  rebela-se contra os pais e contra a religião e sai de casa. É como se todas as vivências típicas deste período de vida – sobretudo os lutos que o caracterizam – eclodissem de uma só vez para ele. A “liberdade” de escolha, a revolta, a sensualidade, o amor-paixão,  o distanciamento dos pais, o triunfo diante da morte.
Aturdido frente a este turbilhão de possibilidades, Adam se lança para a vida numa espécie de  excitação desvairada  e procura a juíza como uma tábua de salvação. Pede a Fiona que o adote, que o acolha em sua casa e que o leve para morar com ela. Um mundo novo, desconhecido, se abriu pra ele e somente a juíza pode ensiná-lo  a viver nele. Parece, de fato, que o que ele faz é um pedido de socorro: me ajude a conter este turbilhão de emoções , sensações e ideias que a sua sentença fez aparecer em mim. Mas Fiona não acolhe tal pedido.
A recusa da juíza o deixa em um estado de total desamparo. Já não pode voltar ao que era antes da sentença, mas ainda não adquiriu os meios necessários para seguir adiante. Escolhe, então, morrer.
Não podemos esquecer que a adolescência é uma fase de profunda fragilidade psíquica e emocional do sujeito. Mostrar-se seguro de si, decidido e maduro – muitas vezes arrogante – quase  nunca corresponde aos verdadeiros dramas que o adolescente guarda dentro de si. É preciso, então, olha-lo com muito cuidado, pois ninguém se torna adulto da noite para o dia. O processo de amadurecimento pressupõe um caminhar passo a passo, com conquistas e fracassos, impulsividade e renúncias, medo e bravura.
Recomendo a leitura.
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terça-feira, 14 de maio de 2019

Quarto de Despejo: diário de uma favelada

de Carolina Maria de Jesus


                                               por Maria Albeti Vitoriano

Sobre a autora:
Carolina Maria de Jesus, mulher negra, mãe solteira, com pouca escolaridade, morava na favela do Canindé, às margens o Rio Tietê, em São Paulo. Mineira de   Sacramento (MG), nasceu por volta de 1915. Cursou, somente, até o segundo ano primário; desenvolveu o gosto pela leitura, por influência de uma professora. Lendo, foi possível conhecer um mundo além daquele que habitava, conforme declarou em uma entrevista: “É por intermédio dos livros que adquirimos boas maneiras e formamos nosso caráter” (p. 170).
Foi empregada doméstica e, depois, catadora de papel e de qualquer outro material que pudesse vender para conseguir algum dinheiro. No lixo, também, catava restos de comida, principalmente, para matar a fome dos seus três filhos. Descoberta pelo repórter Audálio Dantas, foi tema de uma reportagem no jornal Folha da Noite, em 1958, depois na revista O Cruzeiro, em 1959 e seu primeiro livro (Quarto de Despejo) foi publicado em 1960.  Após a publicação desse livro, conseguiu sair da favela que era seu maior desejo e conheceu a fama. O livro foi traduzido para treze idiomas e comentado por grandes nomes da literatura brasileira como Manuel Bandeira, Raquel de Queiroz e Sérgio Milliet. No Brasil, foram vendidos mais de 100 mil exemplares de Quarto de Despejo, em apenas um ano.
Carolina morreu pobre e no ostracismo, em 1977, num pequeno sítio na periferia de SP. Mostrou decepção com o mundo que ela passou a conhecer: “Pensei que houvesse mais idealismo, menos inveja” (p.173).
Outras obras da autora: Casa de alvenaria, Provérbios, Pedaços da fome e Diário de Bitita. Peças de Teatro: Carolina Maria de Jesus, Diário de Bitita; Salve ela! Carolina Maria de Jesus em cena; Eu e Ela: Visita à Carolina de Jesus; e Eu amarelo – Carolina de Jesus.

Sobre o livro:
Quarto de Despejo nasceu a partir de um diário escrito por Carolina de Jesus sobre a vida na favela, entre 15 julho de 1955 e 01 de janeiro de 1960. Há um intervalo de mais ou menos dois anos, pois não existem registros sobre 1956 e 1957. A autora narra sua vida na favela do Canindé e, ao mesmo tempo, o cotidiano dos outros moradores. A fome aparece como tema central, bem como as desavenças constantes entre os moradores. Mostra, também, os problemas de saneamento básico, falta de serviços públicos e as demais dificuldades da vida em uma favela. 
É um livro de leitura difícil, pelo formato e pelo conteúdo forte que revela as condições subumanas em que vivem aquelas pessoas. No livro estão os trechos mais significativos. Narrado na primeira pessoa, as entradas no diário são marcadas com dia, mês e, algumas vezes, também com o registro do ano.
Carolina precisa trabalhar todos os dias, fazendo coleta no lixo e nas sobras deixadas pelas fábricas e pelos moradores dos arredores, inclusive comida. Usa esses restos para conseguir algum dinheiro e, assim, atender as mínimas necessidades da família. Tem três filhos: José Carlos, João José e Vera Eunice, dos quais apenas a mais nova recebe pensão do pai, mas de forma intermitente.  Não existe referência em relação ao pai ou pais dos outros dois filhos.
No que se refere aos costumes, chama a atenção a quantidade de mulheres espancadas, por seus companheiros ou por qualquer outro homem. A bebida é, sempre, um gatilho para tais desavenças, “O único perfume que exala na favela é a lama podre, os excrementos e a pinga” (p.42).
Carolina é mãe solteira. Em muitas passagens fica clara a dificuldade que ela enfrenta para enfrentar a vida sozinha e cuidar dos três filhos.  Além disso, sofre preconceito, principalmente, das demais mulheres, e assédio dos homens, dos quais ela consegue se defender muito bem. No entanto, ela acredita que vive melhor assim do que outras mulheres que sustentam os companheiros e, muitas vezes, são espancadas por eles.
A miséria existente torna a favela um terreno fértil para quem quisesse captar eleitores ou adeptos para seitas e/ou religiões. A autora mostra que não aceita a situação como destino, espera que um dia possa sair daquele lugar que ela chama de quarto de despejo. Algumas horas entra em desespero: “Tem hora que revolto com a vida...(p.22).
Tem esperança que seus diários sejam aceitos para publicação e que possam lhe render algum dinheiro. Esse desejo constante de sair daquele lugar é alimentado tanto pela miséria, como pelo ambiente de degradação de costumes, pelas intrigas e brigas constantes. Em alguns momentos, ela fraqueja “Estou começando a perder o interesse pela existência. Começo a revoltar. E a minha revolta é justa” (p.30).
A autora reconhece a situação precária de sua raça, mesmo após a promulgação da Lei Áurea, “[...] assim no dia 13 de maio de 1958 eu lutava contra a escravidão atual – a fome” (p. 27).  Ela se revolto com os restos de gêneros alimentícios despejados na favela, em péssimas condições, alguns apodrecidos, outros com alguma substância tóxica, sem condições de serem consumidos,
Como havia brigas entre homens e mulheres, entre homens e entre mulheres. As mulheres estavam sempre apanhando dos maridos, companheiros, amantes. As crianças presenciam tudo, as cenas de espancamento, de sexo, mulheres nuas ou seminuas, muitas delas fugindo dos homens que querem açoitá-las. A vida de todos é o assunto preferido, principalmente, entre as mulheres. A solidariedade é muito pequena, salvo em alguns casos e entre algumas pessoas.  Carolina anota que “A única coisa que não existe na favela é solidariedade” (p.13)
No livro pode-se ter uma percepção sobre diversos problemas, tais como a alta taxa de mortalidade infantil, muita ingestão de álcool, pessoas sem trabalho, vadiando, principalmente, os mais jovens, meninas que cedo se envolvem com a prostituição, meninos que começam a praticar roubos.  “Eu classifico São Paulo assim: o Palácio é a sala de visita. A Prefeitura é a sala de jantar e a cidade é o jardim. E a favela é o quintal onde jogam os lixos” (p. 28), ‘Sou rebotalho. Estou no quarto de despejo, e o que está no quarto de despejo ou queima-se ou joga-se no lixo” (p.33)
Retrata o momento político, as disputas que envolvem Carlos Lacerda, Adhemar de Barros e Jânio Quadros. Faz diversos comentários negativos sobre o governo de Juscelino Kubstchek. A autora considera que os favelados são “projetos de gente humana” (p. 20) que são vistos pelos políticos somente na época das eleições. Mas ela alerta, ”[...] o povo não tolera a fome” (p. 26) E complementa que “É preciso conhecer a fome para saber descrevê-la”. “O Brasil precisa ser dirigido por uma pessoa que já passou fome. A fome também é professora” (p. 26). Acrescenta, ainda, “Quem governa o nosso país é quem tem dinheiro, quem não sabe o que é fome, a dor, e a aflição do pobre” (p. 35)
Ela demonstra visão política quando afirma “A democracia está perdendo os seus adeptos. No nosso paiz (sic) tudo está enfraquecendo [...} E tudo que está fraco, morre um dia” (p. 35). Reforça dizendo  “Mas o povo não deve cançar (sic). Não deve chorar. Deve lutar pra melhorar o Brasil para os nossos filhos não sofrer o que estamos sofrendo” (p. 48).
Mesmo sendo negra, parece reconhecer a superioridade dos brancos “Conversei com uma senhora que cria uma menina de cor. É tão boa para a menina. Lhe compra vestidos de alto preço” (p. 22).  Ainda nessa mesma linha de pensamento “Fiquei conhecendo uma pretinha, muito limpinha que falava muito bem” (p. 23), Quando se refere aos que dirigem o país  “Que Deus ilumine os brancos para que os pretos sejam feliz” (p.27).  
A autora verbaliza o preconceito existentes em relação aos nordestinos, quando diz “Depois que a favela superlotou-se de nortistas tem mais intriga. Mais polêmica e mais distrações” (p. 67). Ao se referir às brigas constantes afirma “Se no Norte eles for (sic) assim, o Norte deve ser horroroso” (p. 68). Em consequência, acredita que  “[...] com tantos baianos na favela os favelados veteranos estão mudando-se. Eles querem ser superior pela força” (p. 70)
A autora demonstra uma visão ampla dos problemas sociais, políticos e econômicos do momento em que está vivendo. A linguagem tem erros, mas às vezes usa termos rebuscados. Ela descreve São Paulo como a “[...] a cidade mais afamada da América do Sul está enferma. Com as suas úlceras. As favelas” (p. 76)  
O livro é um retrato fiel de uma realidade cruel, degradante, que ainda continua existindo, principalmente, em alguns lugares do país, mesmo passados mais de 60 anos.  Pode-se perceber, entretanto, que houve nesse período algum avanço nas políticas de proteção às mulheres, às crianças e combate ao preconceito, mas ainda é muito pouco. No entanto, a principal evolução tem acontecido em relação à tomada de consciência das minorias, que passaram a reivindicar seus direitos e desenvolverem trabalhos de autoafirmação.
Considero que a autoavaliação que a autora faz é muito positiva em relação ao demais habitantes da favela, todos tem muitos defeitos, ela nem tantos; não entra em brigas; não cria problemas com as crianças, não faz fofoca, está sempre disponível para auxiliar aos demais. Talvez essa visão estivesse relacionada com o fato de que ela escreve um diário com a intenção de que fosse publicado.  Assim, seu retrato deveria ser melhor desenhado, o que não diminui o valor da obra, um testemunho da miséria humana e, também, da capacidade de resiliência. 
É um livro muito interessante, necessário, mas não é uma leitura agradável. Recomendo, para quem tem interesse em problemas de ordem social e antropológica.  
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Quarto de Despejo: diário de uma favelada
Carolina Maria de Jesus - Ed. Ática, 2001, 8ª edição