terça-feira, 11 de abril de 2017

CONTAR TUDO

de Jeremias Gamboa


por Cristiane Vianna Rauen


Contar tudo é um livro sobre o penoso processo criativo de um jovem escritor da periferia de Lima. Nas 531 páginas de sua redação muito bem escrita, Gabriel Lisboa nos conta toda a trajetória que percorreu durante dez anos de sua vida para finalmente escrever o seu primeiro romance.
A narrativa se inicia no verão de 1995 quando o tio de Gabriel, Emilio, também seu pai adotivo, consegue uma entrevista de emprego num periódico oposicionista de nome Proceso. Impressionado pelo fato de Gabriel estudar numa das universidades mais prestigiadas de Lima e ter uma bolsa integral por desempenho acadêmico, Francisco De Rivera concede ao rapaz o emprego. De Rivera é apresentado, então, ao leitor como a primeira influência ao jovem escritor, assim como seu colega de trabalho e mentor, Saúl Vegas.
Em sua primeira experiência de trabalho, na Proceso, Gabriel se especializa e passa a alcançar cada vez mais destaque como jovem jornalista. O ofício lhe permite aprimorar sua capacidade de redação, lhe traz prestígio e ascensão. No entanto, Gabriel sente que ainda precisa escrever.
É nesse momento, na universidade, que conhece sua maior influência no processo criativo, Santiago Monteiro, o seu amigo poeta. Monteiro o convida a participar das aulas no curso de Oficina de Poesia. A partir de então um novo mundo abre-se diante de Gabriel e muitas novas influências surgem em sua vida, como Jorge Ramírez Zavala, também poeta, e Bruno Lorente, o Spanton.
Nas férias de verão seguintes, já cansado do ritmo e da falta de pagamento de salários da Proceso, Gabriel consegue emprego no periódico La Industria, para onde também tinha sido transferido De Rivera. Gabriel passa por algumas seções do La Industria até alcançar o cargo de redator da revista de seu maior interesse, a Semana, cujo editor era o próprio De Rivera. Na Semana, Gabriel atinge destaque e projeção com suas matérias até o momento em que é convidado a assumir o posto de editor do periódico.
Esse poderia ser o início de uma promissora carreira jornalística para nosso protagonista, no entanto, é nesse momento que o romance tem sua reviravolta. Gabriel torna-se um excelente editor da Semana, administra uma grande equipe, executa fechamentos irretocáveis, porém sente-se completamente frustrado e perdido.
Inicia-se o período negro da vida de Gabriel, que envolve-se cada vez mais com bebidas, drogas, noites mal dormidas e uma insatisfação e ausência de sentido em seu trabalho.  Quando o caminho parecia não ter mais volta, Gabriel se atém ao seu maior desejo, escrever, e decide demitir-se na edição da Semana para se dedicar integralmente à redação de seu livro.
Sem emprego, vivendo apenas das economias que seus trabalhos anteriores haviam lhe proporcionado, Gabriel enfrenta novamente o bloqueio criativo que o angustia durante toda a narrativa. A necessidade o obriga a dar aulas no curso de Expressão Escrita na faculdade, convite feito pelo editor dos livros de seus amigos Monteiro e Zavala, Jaime Estrada.
É nesse curso que Gabriel conhece Fernanda, a primeira pessoa que Gabriel sente amar realmente e que o influencia das mais diversas formas, transformando definitivamente sua vida.
 A história de Gabriel mostra que o processo de produção da escrita é difícil, inconstante, insólito - apesar de ancorado em influências diversas, e muito particular. Enquanto seus amigos já produziam materiais publicáveis, o jovem permanecia paralisado, inerte, preso a traumas perturbadores detalhadamente descritos na obra. Até que, finalmente, sem razão certa, ou motivo aparece, consegue desabafar de uma só vez e nos contar tudo.
Um livro extenso, de fácil compreensão e leitura, que prende a atenção do leitor e nos faz imaginar, em diferentes momentos, que o excesso de “verdade” e de detalhes nos relatos do narrador pode se dever, em certa medida, a uma autobiografia disfarçada.
Minha opinião: recomendo.


segunda-feira, 10 de abril de 2017

Contar Tudo


de Jeremias Gamboa
por Carlos Guido Azevedo

Jeremias Gamboa ou Gabriel Lisboa, como se denomina no livre, quase autobiográfico é um jovem escritor peruano que tinha muita dificuldade de escrever. Sofreu dez anos de bloqueio psicológico para conseguir realizar seu sonho de se tronar escritor e “escrever algo” para sua vida, como um livro que o tornasse famoso.
Embora desenvolvendo todas as competências intelectuais para atingir seu intento, tornando-se um competente jornalista, chegando a dominar todas as fases de elaboração de algumas revistas e, mesmo construindo uma sólida formação intelectual dentro da boa Universidade de Lima, tendo frequentado diversos cursos e chegado mesmo a ensinar em diversas cadeiras as técnicas de redação, Gabriel Lisboa não conseguia assumir a responsabilidade de “escrever algo”.
Tendo, afinal, aprimorado sua capacidade incomum de perceber e descrever ambientes e pessoas em diferentes matizes dos subúrbios de Lima e identificado situações e costumes inusitados através de crônicas centrais das revistas, que lhe renderam sucesso no meio jornalístico, mas, mesmo assim, Gabriel sentiu que o jornalismo não o realizaria e abandonou radicalmente a profissão.
Integrado a um grupo de neófitos pensadores e potenciais escritores e poetas, um pouco de loucos, um pouco de artistas e muito de imaturos e inconsequentes com a vida e suas responsabilidades, Gabriel encontrou o ambiente adequado para esconder suas restrições psicológicas, sua insensatez com a vida e principalmente fortalecer sua afetividade numa relação de dependência e sujeição afetiva que o faria sempre caudal e dependente dos “monstros” como se chamavam os adeptos da confraria em seus “Conciliábulos”.
A absoluta imaturidade dos monstros está longamente definida nas dificuldades de todos no relacionamento com o sexo feminino e na dificuldade da entrega afetiva de cada um, quando por sua vez, vão encontrando suas parceiras e deixando o nosso herói cada vez mais só, a cada finalização de romances que lhe ocorriam e quando ia em busca de apoio e explicações para cada uma das suas frustrações com Cecília, Cláudia, Fernanda, etc.
Pois bem, depois de quase dez anos de bloqueio, mesmo detendo todas as competências específicas para a realização do seu intento, Gabriel só se sente capaz de buscar seu objetivo de tornar-se um escritor, quando afinal, abandonado pelos amigos, curtindo a traição de Fernanda, viu sua turma evadir-se, seu dinheiro sumir e a idade dos trinta chegar.
Afinal, encontra seu tema perfeito, ele mesmo e sua trajetória até aquele momento de superação, senta e começa a escrever, sua própria viagem de dez anos à Jack Kerouac em On The Road, e o faz com tanto empenho, com tal verve, tal dedicação que conta tudo em seus mínimos detalhes, esgotando a paciência de qualquer leitor com suas 530 folhas de eventos absolutamente insignificantes, numa reedição medíocre de Marcel Proust em Busca do Tempo Perdido.
Ficando o leitor extenuado e insatisfeito sem encontrar nele, as inovações descritivas do Kerouac ou a qualidade da escrita e do deslumbramento de Proust.

Recomendo, exclusivamente, para colegas que querem ser escritores e passam por dificuldades de criação.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

História de um Novo Sobrenome

Saga Napolitana
Volume 2 Tetralogia
de Elena Ferrante
A obra

 Livros que compõe a saga:
·       A amiga genial - no original L'amica geniale, 2011
·       História do novo nome - no original Storia del nuovo cognome, 2012
·       História de quem vai e de quem fica - no original Storia di chi fugge e di chi resta, 2013
·       História da Menina Perdida - no original Storia della bambina perduta, 2014

A obra é estruturada em volumes. O volume 2 “a história de um novo sobrenome” se propõe a contar em 125 capítulos a juventude de duas amigas Lenu e Lila, em meio aos costumes de uma Italia pós guerra.
O livro inicia com a uma lista de personagens. Os personagens se originam das famílias. Cada personagem é descrito dentro desse “sobrenome”. É possível a partir disso destacar o peso da origem, a preponderância do núcleo familiar sobre o indivíduo.

A autora

Elena Ferrante é o pseudônimo de uma escritora italiana.
O escritor Domenico Starnone, já foi apontado como o autor das obras assinadas por Ferrante, mas nega as especulações. 

Sobre sua escolha pelo anonimato, fala : 
"O caminho das minhas obras é o meu caminho." E acrescentou: "Os leitores contentam-se com ele, aliás, alguns até me escrevem pedindo que não revele nunca outros caminhos mais privados e, por isso, menos interessantes. Os meios de comunicação é que, por dever de ofício, não se contentam com as obras, querem caras, personagens, protagonistas excêntricos. Mas pode-se passar tranquilamente sem o que os meios de comunicação pretendem."


Curiosidade

 Um jornalista italiano publicou no New York Rewiew a identidade da escritora, identificando-a como  Anita Raja, tradutora e mulher do escritos Domenico Starnone. Anita Raja vive em Roma. Sua mãe, nascida na Alemanha, fugiu do Holocausto e mais tarde se casou com um magistrado napolitano.

      Diante dessa "caçada"pela identidade da autora, proponho algumas indagações:

       1)    Por que não respeitar/ aceitar o anonimato da escritora? Na sociedade das imagens, uma existência       sem rosto é impensável?
      2)  Curioso observar que a literatura pode prescindir da experiência. Quase sempre, ficamos na      expectativa de que romance seja um reflexo da historia pessoal do autor. Mas a biografia de Anita    parece afirmar o contrário : a capacidade criativa pode superar a trajetória particular do escritor.

Grandes eixos 

CONFLITOS DE MULHERES INTELIGENTES


AS QUE SE APRISIONAM OU SÃO APRISIONADAS NA MEDIOCRIDADE E ÀQUELAS QUE SE REBELAM CONTRA ELA. UM REBELDIA RUIDOSA OU SILENCIOSA.


A AMBIÇÃO-  A VIOLÊNCIA - E A POBREZA


AS COMPLEXIDADES DE UMA AMIZADE FEMININA – a natureza subjetiva das disputas
EMBATE/ RESISTÊNCIA  CONTRA OS LIMITES FINANCEIROS, CULTURAIS E MORAIS



Narrador

A obra é narrada por Lenu. Há espaço para as reflexões e percepções de Lila por meio dos fragmentos dos cadernos dela que são lidos/ revelados em alguns momentos por Lenu.

Ambiente
Nápoles da do pos guerra. Italia.

Lila

Lila- é uma personagem forte. Ruidosa. A ambição que a impele à mudança , ‘fugir da miséria’, é ruidosa e violenta. Ela deixa a pobreza de forma abrupta para se casar com Stefano. O casamento é um celeiro de desrespeito e violência. A violência física é um recurso aceitado socialmente, corroborado por toda a sociedade ( homens e mulheres),  e também configura um indicativo de virilidade.
Stefano violenta sexualmente a esposa sob o manto do matrimonio partindo do pressuposto que de o instituto é  por si  só carta branca para qualquer tipo de invasão ao corpo de Lia. A invasão aqui pode ser interpretada não apenas para o sexo, mas também pela gravidez e pela mudança do nome.

Lia utiliza as armas que lhe são possíveis e que mais coincidem com seu temperamento tempestuoso. A agressividade seja verbal, quando ofende sistematicamente o marido; seja comportamental, quando utiliza o corpo de forma insinuante pra ofendê-lo por meio do desejo dos outros ( em especial de Michelle). A vulgaridade assola a menina brilhante, em roupas de luxo e dentro do apartamento novo.


A inflexão na vida ( a segunda inflexão ) de Lila ocorre quando ela se apaixona por Nino. Nino era colega de escola de ambas e, partindo apenas da historia narrada no volume II, sempre foi o amor de Lenu.
Ocorre que a relação das duas parece ter como forca motriz a competição. Lila se apropria do homem que a amiga deseja , o seduz e com ele vive uma grande paixão. Com ele se entrega ao sexo de forma verdadeira e inteira. É possível pressupor que no matrimônio o sexo sempre foi uma violação, ao passo que na relação extraconjugal ela de fato encontrou o sexo prazeroso e consensual.

Enlevados pelo amor,   o jovem casal abandona suas perspectivas : Lila deixa desmoronar o casamento com Stefano e Nino enfraquece suas convicções no conhecimento.
Lila foge e passam a viver juntos. A pobreza aos poucos fulmina a paixão e com o tempo aniquila a convivência dos dois que dura apenas 20 e poucos dias.

Lila retorna ao matrimônio grávida e ainda mais infeliz. É o  inicio do desfiladeiro de seu casamento. Após esse episódio, sucessivas brigas familiares ferem de morte o casamento moribundo de Lila; Stefano arruma uma amante e Lila foge com um amigo de infância que sempre a amou , mas pelo qual ela não nutre nenhum sentimento maior do que a gratidão por lhe oferecer uma saída.

Lenu

Lenu , a narradora, é uma personagem frágil e insegura.  Vive um vida de pobreza e adversidade. Acredita que por meio do estudo pode mudar sua trajetória, mas muitas vezes titubeia sobre suas verdadeiras capacidades.
Nutre por Lia um espécie de amor, uma admiração sofrida, a qual é amplamente percebida pela amiga que a submete, ao mesmo tempo que é capaz de grandes generosidades.
Lenu, obtém as coisas que ambiciona por meio de um esforço doloroso e as conquista de forma lenta e gradual, muitas vezes sem muita convicção de as merecesse.
Por meio de Lenu, é possível perceber as agruras de uma jovem em meio as vicissitudes da pobreza e das mil e uma obrigações que a condição social faz invadir sua juventude : cuidar dos irmão, se preocupar com as finanças da família  e ao mesmo tempo sobreviver a um ensino adestrador e rigoroso.
É perceptível toda a aridez desse momento da vida de Lenu, uma vez que a jovem precisa lidar não somente com as tempestades emocionais típicas da idade, mas também com o contexto desfavorável de sua condição social e as limitações de seu tempo.

Lenu, tem ainda uma clara noção de seu papel de “primeira”. Ela inaugura, de forma dolorosa e árdua, no seio de sua família a possibilidade do estudo , das letras , do conhecimento. Rompe com uma barreira imposta ao longo de gerações, a qual impede qualquer mobilidade social. Ao mesmo tempo que caminha na direção do que admira, ela sofre com o retorno ao provincianismo e a pequenezas  de Nápoles toda vez que regressa de Pisa.
São sentimentos ambíguos. Ao mesmo tempo que Nápoles lhe inspira conforto e comodidade frente às humilhações que sofre em Pisa, também lhe causa incomodo uma vez que o conhecimento e as experiências que educação lhe propiciaram transformaram sua percepção de mundo de forma irreversível.

O sucesso de Lenu, no final do livro, a sua graduação, o noivado com Airola, a publicação de seu primeiro livro são sucessos ainda não completamente digeridos pela jovem. Sua insegurança ainda  não permite que os aceite, que os deleite.



A Amizade feminina

A amizade vivida por Lenu e Lila é uma relação baseada na competição, na disputa. A ausência de um seio familiar que as proteja que as forje, a existência de uma educação rigorosa e dura, faz com que as duas tenham como única referência uma a outra.
O que pode se esperar quando duas crianças em formação tem como único e maior referencial elas mesmas?
O que pode se esperar de duas jovens na transição entre a infância e a adolescência já assoladas por problemas que para muitos são reservados para a vida adulta e que tenham entre si uma a outra como modelo?

Lila se utiliza do dinheiro para exercer sobre a amiga poder e humilhação, mas também exerce a generosidade, quando lhe compra livros ou quando lhe desafia a excelência nos estudos.
Lenu, que ama devotamente a amiga se ofusca diante da beleza e impetuosidade dela e com isso não consegue enxergar a si mesma. Por outro lado, se utiliza , da oportunidade que teve de continuar os estudos para, quando pode, evidenciar a pouca instrução da amiga.

No final do volume II observa-se que ligação das duas é tão forte que a penúria da amiga – trabalhando miseravelmente invade o êxito de Lenu. De modo que a felicidade e a tristeza de ambas se entrelaça em um único sentimento.
É um grande emaranhado emocional para duas moças que mal, mal saíram da casa dos 20 anos.

A educação

Fica evidente o poder que a educação ( que não deixa de ser também uma abordagem da diferença social) é devotado no livro. Observe que esse poder não é aqui interpretado como "bom"ou "mal". Poder, em seu sentido denotativo, como a força que " da a possibilidade de". 
Lia, é privada da educação por escolha dos pais e sua vida sofre um guinada brutal.
Lenu, segue nos estudos e sua trajetória ascende na mesma proporção que a de Lilia, aparentemente retroage.
Nino, aluno brilhante larga os estudos, cego pela paixão e desse modo fica perambulando “sujo e largado”. Passa a beber. ( no final do livro se revela que abrir mão da paixão por Lila, parece, o permitiu um retorno a intelectualidade).

Enzo, amigo de Lia e Leno, que vive  agora com Lila experimenta uma mudança relativa quando passa a estudar. Em virtude de seu esforço e nas palavras entusiasmadas de Lila a contar sobre código binário e programação, é possível entrever o futuro.

As professoras – Ferraro,  Oliveiro,  Adele, Galiani- todas , em algum momento, são decisivas para transformar a vida das protagonistas.
Ë evidente que não se trata de um forca revolucionária, salvadora, messiânica. Mas que surge em meio ao esforço e à adversidade como um caminho possível,  que alguns podem agarrar ou perder.

Recomendo o livro, com a sugestão de que se leia a teratologia na ordem. Não é indispensável, mas permitiria uma maior profundidade do panorama emocional dos personagens, bem como uma maior clareza sobre alguns momentos decisivos da narrativa iniciados no primeiro volume e que se desenvolvem no volume seguinte.

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Teoria Geral do Esquecimento

de José Eduardo Agualusa


por Ana Studart

A Teoria Geral do Esquecimento, de José Eduardo Agualusa, se passa em Luanda, Angola, e tem como pano de fundo a luta pela independência do povo angolano e suas repercussões na vida dos personagens.

Os Fatos: À independência de Angola, alcançada em 1975, segue-se uma guerra civil que se prolonga por 27 anos, onde predominam duas facções, a UNITA- União Nacional pela Independência Total de Angolam e  o MPLA- Movimento Popular de Libertação de Angola, ligado a Cuba. O romance, já no seu segundo capítulo, trata dos primeiros tiros da guerra pela independência.

O Enredo: Agualusa conta a história, supostamente com  base verídica, de uma portuguesa denominada Ludovica, mulher de personalidade tímida e arredia, residente em Angola. Quando a irmã e o cunhado fogem do país e a abandonam, nas vésperas da independência da colônia, Ludo, ao se ver sozinha,  constrói uma parede bloqueando a entrada de seu apartamento, localizado no prédio mais luxuoso de Luanda, o chamado Prédio dos Invejados.
Lá sobrevive por quase 30 anos, se alimentando do que consegue plantar na cobertura  do prédio e dos pombos que ela atrai em armadilhas. A água, se falta na torneira, recolhe da chuva. Para se aquecer e para cozinhar, vai queimando livros e toda a madeira disponível no apartamento. Escreve um diário que, ao acabarem as páginas do caderno, continua sendo escrito pelas paredes, uma escrita que se degrada à medida em que Ludo vai perdendo a visão. Possui para sobreviver apenas uma pistola, cem dólares, e o punhado de diamantes roubados que descobre sob o colchão onde dormia o cunhado, dentro de uma bolsinha de couro.
Ao longo do romance, são apresentados eventos históricos - o terrorismo, os  mercenários, a longa guerra civil que se seguiu à independência. Agualusa escreve: “A república socialista foi desmantelada pelas mesmas pessoas que a haviam erguido, e o capitalismo ressurgiu das cinzas, mais feroz do que nunca”.

A Narrativa: O romance começa em ritmo lento, depois  flui com facilidade. Os capítulos são curtos, e os títulos, longos e curiosos. O texto é denso em informações, mas ágil. O autor destaca as falas de Ludo e trechos do seu diário usando o recurso da fonte itálica.
No texto, alguns termos angolanos- a mágica Kianda, que serve para o bem e o mal; o Kumbu, dinheiro; Sapeur, nome angolano para o fanáticos pela moda: Quimbos, vilarejos; e a Kuribeka, maçonaria  angolana
O título do romance é justificado num inspirado texto de Ludo: “Se ainda tivesse espaço, carvão e paredes disponíveis, poderia escrever uma teoria geral do esquecimento. Dou-me conta de que transformei o apartamento inteiro num imenso livro. Depois de queimar a biblioteca, depois de eu morrer, ficará só a minha voz. Nesta casa todas as paredes tem a minha boca”.
O livro apresenta muitas passagens tocantes. Ressalto duas delas, relativas a Deus e à morte:
"Deus pesa as almas numa balança. Num dos pratos fica a alma, no outro as lágrimas dos que a choraram. Se ninguém a chorou, a alma desce para o inferno. Se as lágrimas foram suficientes, e suficientemente sentidas, ascende para o céu. Ludo acreditava nisto. Ou gostaria de acreditar. Foi o que disse a Sabalu: vão para o Paraíso as pessoas de quem os outros sentem a falta. O Paraíso é o espaço que ocupamos no coração dos outros.”
E no diário de Ludo: “Compreendi ao longo dos últimos anos que  para acreditar em Deus é forçoso acreditar na humanidade. Não existe Deus sem humanidade. Continuo a não acreditar nem em Deus nem na humanidade.”

PDV:O ponto de vista do romance é misto. Por vezes Ludo fala em primeira pessoa, por vezes o autor é um narrador onipresente.

Os Personagens: São muitos e  muito bem construídos ao longo do romance. O autor os apresenta em doses homeopáticas- os personagens só são visualizados por inteiro praticamente ao fim da leitura.
Dois  personagens centrais são inicialmente apresentados pelo apelido - Ludo e  Monte. Eles também só terão seus nomes completos revelados a partir da metade do livro- Ludo pela carta enviada pela filha, e Monte ao se tornar detetive.
Alguns dos personagens mais relevantes, e  suas características:    
-Ludovica Fernandes Mano, a Ludo- É uma mulher de bom coração. Atira em Minguito, ladrão que tenta invadir o seu apartamento, mas o recolhe e o ajuda, por estar ferido. Ao invés de chamar um médico,  o ladrão pede que ela cante para ele até morrer, e Ludo o enterra no terraço. Isso tudo acontece, com detalhes e humor, em pouco menos de 50 linhas.
-Magno Moreira Monte- Na Revolução dos Cravos estudava em Lisboa, voltou a Luanda para lutar pela independência. “Marxista contumaz”, carrasco, cruel, funcionário do serviço de informação no regime socialista, passa a  detetive com a chegada do capitalismo. Morre caindo do telhado, tentando fixar uma antena - uma alegoria? A livre comunicação triunfando sobre o obscurantismo?
-Orlando- O cunhado de Ludo que, patriota, não aceitava abandonar Angola, como queria a esposa. Mas após roubar os diamantes, foge sem eles para Portugal, deixando Ludo e as pedras para trás. Esses diamantes, que Ludo encontra sob o colchão, são chamados de “milho”- nome apropriado porque, mais tarde, serão engolidos pelos pombos nas arapucas montadas por Ludo.
-Jeremias Carrasco- Mercenário português que, ao longo do livro, tenta sem sucesso retirar os diamantes de Ludo. Para o marxista Monte, Jeremias é um prostituto do imperialismo americano, diferente dos cubanos que lutam por “convicção e não por dinheiro. Ao que Jeremias retruca que também  luta  por convicção – só que “contra o imperialismo soviético”.
-Daniel Benchimol é jornalista, especializado em desaparecimentos. Pesquisa o sumiço do conferencista Simon Pierre Mulamba, que teria sido visto sendo engolido pela terra, só sobrando o seu chapéu no chão. E quando uma cidade inteira – um quimbo- chamada Nova Esperança desaparece da terra, ele, que anteriormente a visitara, qualifica o evento como  “um acidente geográfico”. E se segue o comentário: “O quimbo desapareceu? Neste país tudo desaparece. Talvez o país inteiro esteja em vias de desaparecimento, uma aldeia aqui, outra acolá, quando dermos por isso, não existe nada.” Seria uma alegoria quanto à destruição do país pela guerra?
-Madalena- Uma boa alma, enfermeira, ex-freira. Abre a ONG Sopa de Pedra, para alimentar os “musseques” luandeses.  A ela “só interessam as revoluções que começam por sentar o povo à mesa”, porque “discursos não alimentam”.
-Sabalu- Jovem que teve a mãe assassinada por combater o comércio de cadáveres humanos. Começa por roubar Ludo galgando os andaimes da construção ao lado, para entrar no apartamento. Acaba se afeiçoando a ela. Ele ensina Ludo a abraçar- com o isolamento, ela esquecera como... ”Perdera um pouco a prática. Sabalu teve de lhe erguer os braços. Foi ele mesmo fazendo ninho no colo da velha senhora”.
Ludo, por sua vez, o ensina a ler, para que ele possa ler em voz alta os livros que a sua vista  não permite mais.
-Fantasma- O cão pastor alemão albino, que Ludo ganha do cunhado, será seu único companheiro pela maior parte do romance. Ludo, quando varada de fome, pensa em matá-lo, mas resiste. Fantasma  morre mais tarde retratando a solidão trágica de Ludo, nesse texto: “Alguma coisa- uma substância escura- escapava de dentro dela, como água de um recipiente estalado, e deslizava depois pelo cimento frio. Perdera o único ser no mundo que a amava, o único que ela amava, e não tinha lágrimas para chorar.”

-Conclusão: É impressionante como o autor consegue colocar tantos personagens, tantas ações e emoções em tão poucas páginas – 171 - o que mostra a sua maestria e sua capacidade de síntese, sem perda nas descrições de personagens e situações. Tem trechos de muito humor - algumas vezes negro - e de muita poesia.  O romance, construído magistralmente,  é um verdadeiro quebra-cabeças que só se visualiza por completo  ao final da leitura. Para compreender o romance foi preciso ir recuperando os passos de cada personagem. Eles se entrelaçam numa sucessão de coincidências que, apesar da quantidade, são críveis. No desfecho, tudo se encaixa sem que o autor deixe pontas soltas. O romance  é arte em construção e poesia. Vale a leitura.
Recomendo sem restrições.

Sobre o autor:
José Eduardo Agualusa (Alves da Cunha) é jornalista e escritor angolano, com livros traduzidos em 25 idiomas. Nasceu em 13 de dezembro de 1960, em Huambo, Angola. Estudou agronomia e silvicultura em Portugal, no Instituto Superior de Agronomia de Lisboa e atualmente divide seu tempo entre Portugal, Angola e Brasil, trabalhando como jornalista e escritor.
O avô de Agualusa era carioca, e ele costuma vir ao Brasil regularmente, há mais de 20 anos. No romance fica evidente a ligação do autor com o Brasil- Ludo, ao queimar livros de Jorge Amado, deixa de poder “revisitar Ilhéus e São Salvador”. E um morto é enterrado  ao som de “Morte e Vida Severina”.
Duas poesias do romance foram escritas por uma poetisa brasileira, Christiana Nóvoa- Haikai e Exorcismo. Curtas e muito bonitas.
Sobre a influência brasileira, ele falou à revista Época, em 2004: “Sempre ouvi música e li escritores do Brasil. Caetano, Chico Buarque e Rubem Fonseca me fizeram entender o país com maior profundidade. Conheço mais o Brasil do que muitos brasileiros. O povo é alegre e isso se deve muito à influência africana.”  Nessa mesma entrevista, Agualusa criticou o racismo brasileiro e a incapacidade das elites em entender o país. Seu escritor preferido é  Eça de Queiroz
Agualusa escreve para o portal angolano Rede Angola,  mensalmente, para a revista portuguesa LER e assina todas as segundas-feiras uma coluna no Segundo Caderno do carioca O Globo.
Em 2006, ele lançou, com Conceição Lopes e Fatima Otero, a publicação brasileira  Língua Geral, dedicada exclusivamente a autores da língua portuguesa.
Agualusa foi premiado já em seu primeiro romance- “A Conjura”. Por ele recebeu o Prémio de Revelação Sonangol.
Em 2007 recebeu o prestigiado "Prêmio Independente de Ficção Estrangeira", promovido pelo diário britânico The Independent em colaboração com o Conselho das Artes do Reino Unido, pelo livro O Vendedor de Passados. Foi o primeiro escritor africano a receber essa premiação
Em entrevista à revista “Quem”, Agualusa se refere ao seu processo de escrita:  “Não sei como as idéias se tornam contos e romances. Isso pertence ao domínio do mistério. Também não sei como as imagens chegam a um televisor. A gente liga um televisor e as imagens aparecem. Ninguém se pergunta como chegaram ali. Acontece o mesmo com a escrita. Um dia acordo, sento-me ao computador e começo a escrever. Há aquela estória que quer tomar forma. As personagens que saem da sombra e começam a falar. Eu apenas me esforço por ouvir o que elas têm a dizer. Há um momento verdadeiramente mágico em que todos os fios se começam a ligar.”
Para ele,  a escrita transforma o mundo. “Ninguém acredita nisto e, no entanto, é verdade “