domingo, 12 de março de 2023

Soldados de Salamina - Javier Cercas (2001)

 por Daniela Lopes

Guernica, Pablo Picasso (1937)

Javier Cercas Mena é um escritor e tradutor espanhol nascido em 1962, na cidade de Ibahernando, província de Cáceres. Doutor em Filologia Hispânica pela Universidade Autônoma de Barcelona, é colaborador do jornal El País desde 1999, e atuou como professor nas universidades de Illinois nos Estados Unidos e de Girona na Cataluña. Soldados de Salamina foi publicado em 2001, seu quarto romance, e foi o que o tornou conhecido, premiado e traduzido em mais de 30 países. Entre 2001 e 2005 o livro vendeu mais de 1 milhão de cópias, tendo recebido elogios de escritores como Mario Vargas Llosa (https://elpais.com/diario/2001/09/03/opinion/999468046_850215.html#?prm=copy_link), J. M. Coetzee e Susan Sontag. Desde então, Cercas se dedica exclusivamente à escrita literária e à produção de artigos para a imprensa sobre os debates culturais e políticos na Espanha.

Em 2003, Soldados de Salamina foi adaptado, com o mesmo título, para o cinema pelo cineasta espanhol David Trueba, o que rendeu também um outro livro-ensaio, “Diálogos de Salamina”, em que Cercas e Trueba passeiam pelos cruzamentos de linguagens do cinema e literatura na experiência de transpor o livro para a tela.

Nesses ‘Diálogos’, Cercas-autor pontua que a narrativa não é sobre a Guerra Civil Espanhola:

La novela, básicamente, habla de los héroes, de la posibilidad del heroísmo; habla de los muertos, y del hecho de que los muertos no están muertos del todo mientras haya alguien que los recuerde; habla de la búsqueda del padre, de Telémaco buscando a Ulises; habla de la inutilidad de la virtud y de la literatura como única forma de salvación personal...

Javier Cercas, Diálogos de Salamina (2003)

Mas é inegável que a Guerra Civil (1936-1939) e os 37 anos do reinado franquista são mais do que pano de fundo na obra de Javier Cercas, que é filho de pai e mãe simpatizantes do falangismo. Vários de seus outros romances (como Anatomia de um Instante e Rei das Sombras) desfiam e desafiam a narrativa oficial (institucional e familiar) da história espanhola no século XX e as cicatrizes do fascismo que marcam aquela sociedade até hoje, propondo a ficção literária como única mentira que nos leva à verdade. (https://www.youtube.com/watch?v=8_PnzSMl2bA&t=276s)

Javier Cercas é autor e narrador-personagem de Soldados de Salamina, nesse livro classificado por uns como faction (fact + fiction) ou narrativa híbrida e também visto como uma metaficção historiográfica. Cercas-personagem persegue uma narrativa real, um relato real com base em atividade investigativa, que no entanto só se completa, quando o Cercas-autor preenche as lacunas com a ficção e heróis desconhecidos e esquecidos.

A obra é dividida em três partes. A primeira parte, ‘Amigos do Bosque’, versa sobre como o Cercas-narrador, um escritor frustrado que não se acha mais escritor, se aproxima e fica curioso sobre a trajetória de vida de Rafael Sanchez Mazas, ideólogo falangista e ‘também em relação à Guerra Civil, da qual até aquele momento não sabia mais do que sabia sobre a batalha de Salamina ou sobre o uso exato da plaina...”. O título do livro deriva dessa batalha no estreito de Salamina, batalha naval crítica em que os gregos venceram os persas. Sanchez Maza tinha um interesse particular nessa batalha e pretendia escrever um livro sobre ela. Mas aparentemente a escolha de Cercas pelo título é uma forma sutil de abordar um assunto, o da Guerra Civil, que ficou por muito tempo abafado na sociedade espanhola e só começou a ser revisitado após a morte de Franco.

Cercas-narrador se pergunta como um escritor, homem culto e bem-educado se dedica a construir uma estética e moral fascista; depois fica intrigado com o relato do filho de Sanchez Mazas sobre como o pai escapou do fuzilamento no Collel. Como um detetive, através de conversas com estudiosos, parentes e outros personagens ainda vivos, o narrador vai, de uma forma quase obsessiva, montando os pedaços do episódio do fuzilamento no Collel, quando os republicanos, já quase no final da guerra, reúnem em uma clareira expoentes importantes dos falangistas nacionalistas e os fuzilam. Sanchez Mazas escapa para dentro do bosque e é achado por um jovem soldado republicano, que o vê mas não o mata ou denuncia. O escritor então vaga pelo bosque e recebe ajuda de uma família da comunidade local e de soldados republicanos desertores, ‘os amigos do bosque’.

Na segunda parte, que tem o mesmo título do livro, é desenvolvida a narrativa sobre Sanchez Mazas, com os detalhes de sua vida, carreira literária e política antes e depois do episódio do Collel, os relatos dos amigos do bosque, seu apoio ao Generalíssimo Franco e seu ofuscamento depois, nos seus últimos 20 anos de vida. É o livro dentro do livro, como uma crônica que deixa transparecer o espírito do tempo, como forma de trazer à superfície as circunstâncias e barbaridade da guerra por meio de um episódio obscuro da vida de um dos personagens do falangismo.

Na terceira parte, ‘Encontro marcado em Stockton’, encontramos Cercas-personagem já tendo desistido do livro sobre Sanchez Mazas, entrevistando o escritor chileno Roberto Bolaño, que lhe conta sobre um homem extraordinário que conheceu quando jovem em um camping em que trabalhava de vigia no interior da França. Miralles tinha sido soldado na Guerra Civil, lutado ao lado general republicano Lister, e depois em batalhas da Segunda Guerra pelas tropas francesas na África e na França. Detalhes contados por Bolaño nessa ocasião levam o narrador a acreditar que Miralles poderia ser o soldado que poupou a vida de Sanchez-Maza. Movido pela questão do que pensou esse soldado naquela hora em que poderia ter eliminado um dos mais importantes arquitetos do fascismo espanhol, Cercas vai encontrar Miralles em uma casa de repouso em Dijon para lhe fazer essa pergunta e entender-se de novo como escritor.

Nomes, lugares, pessoas e acontecimentos reais fazem parte da narrativa oficial da história, em tempos de guerra ou em tempos de paz. Mas não é toda a história. Em geral deixa para trás, sem reconhecimento e invisíveis, as inúmeras memórias individuais ou familiares, versões, e feitos heróicos dos que não foram os vencedores e dos que nem estavam interessados na guerra. “Desde que a guerra terminou não se passou um só dia sem que eu pensasse neles. Eram tão jovens... Morreram todos. Todos mortos. Mortos. Mortos. Nenhum provou as coisas boas da vida: nenhum teve uma mulher só para ele. Nenhum conheceu a maravilha de ter um filho nem viveu a maravilha de ter esse filho, com três ou quatro anos, se enfiando em sua cama, entre sua mulher e ele, num domingo de manhã, num quarto com muito sol.” O Miralles ficcional de Cercas não se via como herói, era ‘um homem acabado que teve a coragem e o instinto da verdade e por isso não errou nunca ou não errou no único momento em que de fato importava não errar’.

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Há bons recursos para quem se sentir curioso sobre a obra de Javier Cercas:

Victor Lemus. Un secreto esencial: Literatura y memoria histórica en Soldados de Salamina, de Javier Cercas. UFRJ Ipotesi – Revista de Estudos Literários, vol 11 (2), 2007.

https://periodicos.ufjf.br/index.php/ipotesi/article/view/19349

 Aurelio Ramos Caballero. THE SPANISH CIVIL WAR IN CONTEMPORARY SPANISH FICTION: SOLDADOS DE SALAMINA, LA MULA AND LOS GIRASOLES CIEGOS. University of Birmingham. M.Phil. 2010. https://etheses.bham.ac.uk/id/eprint/417/

 Vinicius Gonçalves Mazzini. O EX-CÊNTRICO COMO HERÓI: UMA COMPARAÇÃO ENTRE JOÃO TORDO E JAVIER CERCAS. UFGD, 2021.

https://repositorio.ufgd.edu.br/jspui/bitstream/prefix/5278/1/ViniciusGon%C3%A7alvesMazzini.pdf

 

 

terça-feira, 14 de fevereiro de 2023

Salvatierra - Pedro Mairal


 

 Comentários: Ana Studart


Salvatierra, de Pedro Mairal, é um livro muito festejado no meio literário. 

Segundo Mairal, a ideia de escrever esse livro surgiu ao assistir na televisão um documentário sobre o pintor Jackson Pollock, que um dia não conseguiu mais pintar, ficou paralisado, por excesso de exposição. Então lhe veio a ideia de Salvatierra, um artista plástico autodidata desbloqueado, que pinta todo dia. Um pintor que não almeja sucesso e vai pintando um quadro infinito, sem interrupções, num galpão. E pinta para ele, sem desejar tornar sua obra pública.E logo lhe surgiu o personagem central, que seria mudo, e assim usaria sua arte como meio de expressão. [http://pedromairal.blogspot.com].


Sobre o enredo: Escolhi comentar Salvatierra pelo tema inusitado. Uma criança que, por acidente, fica muda, e vai crescendo como uma pessoa à margem da família, quase um bobo - nas palavras de Mairal, visto quase como um “ freak” Apesar disso, Salvatierra se casa e tem três filhos- Miguel, Luís e Estela, que faleceu prematuramente,

A história acontece num pequeno povoado argentino, Barrancales, na proximidade de um rio que faz fronteira com o Uruguai- o Rio da Prata. O enredo se desenvolve de maneira  despretensiosa - o simples contar de uma historia que se desenrola como o curso de um rio, o mesmo rio que povoa  as pinturas de Salvatierra. 

As pinturas de Salvatierra parecem  formar uma biografia, um diário interessante produzido  por uma pessoa muda, que só se revela ao mundo após a sua morte, quando os  filhos Miguel e Luis encontram num galpão os rolos de tela intermináveis. Eles mostram,  em desenhos, ano a ano, os sessenta anos da vida desse homem, uma vida que acaba se revelando  surpreendente. 

Querendo divulgar a obra do pai, os filhos, depois de várias tentativas, recebem uma oferta do livro de recordes, (seria o quadro mais longo do mundo, com  quase 4 kms de extensão),mas optam por vender a obra  a um museu em Amsterdã, que a digitaliza e envia para a Holanda, pouco antes de um incêndio em Barrancales transformá-la em cinzas…

O povoado de Barrancales  que ambienta o livro,  foi criado pelo autor, e  apresenta a vida numa cidade interiorana da Argentina, onde a lei nem sempre é respeitada, e a burocracia é um obstáculo difícil de ser superado. É interessante a comparação que Miguel faz de Barrancales cheia de cores nas pinturas do pai, com as vidas cinzentas que ele e  Luis vivem em Buenos Aires:

 “Como havia sido a vida do meu pai? Por que ele precisou assumir esse trabalho tão imenso? O que tinha acontecido comigo e com Luís para acabarmos assim, vivendo essas vidas tão cinzentas e tão portenhas, como se Salvatierra tivesse monopolizado todas as cores disponíveis? Parecíamos mais vivos na luz da pintura, em alguns retratos que ele fizera de nós aos dez anos, comendo peras verdes, do que agora, na nossa vida de cartórios e contratos. Era como se a pintura tivesse engolido nós dois, Estela e mamãe.” 

O livro se concentra no relacionamento entre pais e os filhos, que crescem e vão para longe, para estudar e trabalhar, e se desconectam da vida que tinham anteriormente. Se afastam dos pais, que reencontram apenas em datas festivas. A pergunta de Miguel, “Como havia sido a vida do meu pai? Por que ele precisou assumir esse trabalho tão imenso?” mostra uma realidade, que ele lamenta. E vai conhecendo o pai através das telas, que retratam a fase em que conheceu a esposa, Helena Ramirez, o casamento, o grande incêndio, estudos com plantas e insetos, o rio, a filha Estela morta afogada, descrita assim, em outra primorosa passagem:

“Salvatierra queria pintar a força do rio na sua tela e o rio lhe pedira em troca sua filha de doze anos. O rio a levava devagar, porém implacavelmente, sem que ele pudesse dete-lo E foi assim que a pintou: Estela afogada no remanso dos salgueiros”. Mais adiante, Miguel comenta o efeito dessa morte na mãe; “Com os anos, foi ficando cada vez mais seca e severa. A morte da minha irmã a endureceu para sempre. Nunca mais a vimos sorrir”.

As telas continuam surpreendendo Miguel, e seleciono esse trecho para transcrever- “…nunca tive vontade de pintar. Sempre senti que não havia nada que não estivesse pintado por ele.Lembro-me de ter-lhe mostrado um rabisco que fiz aos dez anos, de submarinos e foguetes. Eu estava orgulhoso de como eles tinham ficado. Uma semana depois entrei no galpão e os encontrei pintados na sua tela, o submarino e o foguete, gigantescos e mais coloridos, e minha sensação não foi de que ele havia me copiado, mas de que eu os copiara dele, sem saber.”

O capitulo 28 é o que mais revela esse descompasso familiar: o desejo de Miguel de se afastar de Barrancales e dos pais, e o amor que Salvatierra sentia pelos filhos.

“ Primeiro Luís tinha ido embora para Buenos Aires, e pouco depois, eu. Supostamente ia para estudar mas eu queria era fugir de Barrancales, da casa, e sobretudo, do quadro, do vórtice do quadro que eu sentia que ia me engolir para sempre… Salvatierra tinha pintado minha fuga como se quisesse me proteger…porque as janelas do trem  se transformavam depois nas janelas do prédio da faculdade, e ali estava eu de novo, seu filho caçula… Fiquei impressionado por Salvatierra pensar tanto em mim. Fiquei impressionado por me ver através dos olhos dele, pois dava para notar o quanto sofrera com minha partida. Senti que ele me falava com seu quadro e vencia o silêncio enorme que existira entre nós dois. Agora ele me falava com amor de sua pintura, e me dizia coisas que nunca havia conseguido dizer."


Sobre o autor: Pedro Mairal nasceu em 27 de setembro de 1970, e é escritor, poeta e músico.  Publicou mais de uma dúzia de livros, entre eles La Uruguaya, vencedor do premio Juan Tigre em 2017 e já traduzido para vários idiomas. O romance Salvatierra foi escrito em meados de 2000 e lançado na Argentina em 2008. Chegou ao Brasil em 2021. Tanto no romance A Uruguaia quanto no romance Salvatierra, os personagens de Mairal cruzam o Rio da Prata, e,curiosamente, depois deles, cruza o rio  o próprio Mairal, que há poucos anos se mudou para o Uruguai com a família. Ele explica assim: “Nos meus livros, cruzar o rio até o Uruguai é quase uma travessia metafísica, como Alice atravessando o espelho.”

Mairal quis ser médico, mas foi derrotado pelas ciências, em suas próprias palavras. Gostava também de escrever, de fazer poesias. Quando a família descobriu que ele matava as aulas da faculdade, Pedro pediu para cursar letras, mais a seu gosto. Pediu aos pais que assistissem ao filme “Sociedade dos Poetas Mortos”, onde um jovem se mata porque os pais o proíbem de seguir a carreira teatral….Depois de ver o filme os pais, impressionados, concluíram que seria importante o filho estudar o que quisesse. Mas segundo Mairal, ele nunca pensou em se suicidar, "foi apenas uma manipulação que deu certo"…

Nas palavras de Pedro Mairal:  “Meu desejo de escrever sempre me levou a superar obstáculos. Sou capaz de mover montanhas para escrever. É minha vocação, meu chamado”.


Sobre o romance: Salvatierra contém 112 páginas e foi publicado Brasil em 2021 pela Editora Todavia. São ao todo  39 capítulos,

O PDV é de Miguel, filho de Juan Salvatierra, e narrador da obra. A capa do livro, de Julia Masagão mostra rolos e rolos de tela para pintura, em vermelho, sobre fundo preto, já apresentando o tema do livro. E o capítulo I, curiosamente, começa contando o seu final:

“O quadro (sua reprodução) está no Museu Roell….descendo as escadas você pensa que chegou a um aquário…por toda a parede …de quase trinta metros, o quadro vai passando como um rio…há um banco em que as pessoas sentam para descansar e olham o quadro passar lentamente…quase 4 quilômetros de imagens.”

Seu texto tem ritmo, suas descrições e reflexões, são, muitas vezes, deliciosas, como essa:”…no quadro não há um único autorretrato. Ele não aparece em sua própria pintura. Nessa espécie de diário pessoal em imagens, ele mesmo não figura. É como escrever uma autobiografia em que você  não esteja.”

Seria longo demais pinçar todos os parágrafos líricos,  que tornam a leitura tão  leve e interessante, então me limito a recomendar a leitura desse livro, que deixa a gente com o desejo de quero mais.

Devo ainda dizer que Salvatierra não é um livro que “pega a gente”, daqueles que não se consegue parar a leitura. Apesar de não ser volumoso,  é para ser lido devagar, apreciando seu desenrolar. Mesmo quando os filhos de Salvatierra Miguel e Luís, descobrem que misteriosamente, falta uma parte da obra, um ano de vida do pintor, o de 1961, e começam a investigar o porquê, o suspense é calmo e vai se resolvendo em doses homeopáticas. Posso dizer que os filhos descobrem, depois de inúmeros  percalços,  o rolo de pintura referente ao ano de 1961  que faltava, mas prefiro não revelar ao leitor o seu conteúdo…porque melhor mesmo é ler o livro.















terça-feira, 13 de dezembro de 2022

O Homem que sabia javanês - Lima Barreto


Por Cristiane Vianna Rauen

A escolha desse conto não poderia ser mais oportuna, pois, este ano marca o centenário da morte de Afonso Henriques de Lima Barreto, jornalista e escritor brasileiro, com vasta produção literária no início do século XX.

Nascido em 1881, em Laranjeiras, no Rio de Janeiro, Lima Barreto era neto de escravos de ambos os lados e presenciou, aos 7 anos, a abolição da escravatura com seu pai, no Paço Imperial.

Por ser afilhado de visconde, obteve boas oportunidades de estudo, como o Colégio Pedro II e a Escola Politécnica do Rio de Janeiro, onde cursou engenharia. Em 1904, assumiu um posto de trabalho no Ministério da Guerra, onde permaneceu até sua aposentadoria. Em paralelo ao cargo burocrático, exerceu a função de jornalista, e foi nesse meio que deu início a sua produção literária.

Sua obra de estreia, em 1909, foi “Recordações do Escrivão Isaías Caminha”, que, em tom autobiográfico, retrata a vida de um jovem mulato que sofre preconceitos raciais. Em 1915, publicou sua obra mais conhecida “O Triste Fim de Policarpo Quaresma”, que descreve a vida política brasileira após a Proclamação da República, por meio da visão de um funcionário público ultranacionalista.

Barreto sempre se apresentou como escritor negro e sempre escreveu para as massas. Em vários momentos recebeu críticas por eventual descuido com o português culto em sua linguagem escrita, no entanto, essa foi uma reconhecida estratégia do autor para chegar ao público mais amplo. 

Sua obra ganhou maior reconhecimento após sua morte, quando o jornalista Chico Barbosa iniciou, em 1946, um projeto de edição das obras completas de Lima Barreto. A coleção foi lançada pela Editora Brasiliense, sob o comando do historiador Caio Prado Júnior, com prefácios que contaram com nomes influentes à época, como Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda.

Nesse período, Lima Barreto foi reconhecido como precursor de grandes obras populares e críticas duras à política e à burguesia brasileira. Muitos analistas o identificavam com um escritor ressentido de sua origem e raça.  

E foi assim que a obra de Lima Barreto passou a ser reconhecida, a partir da edição de suas obras, na década de 1950: “frequentemente associada a uma percepção da realidade social brasileira vista de baixo para cima, ‘julgando os poderosos pela indignação dos injustiçados’, como sugeriu o historiador Nicolau Sevcenko” (Piauí, Ed. 194, nov. 2022).

A tentativa de editar as obras de Barreto não foi tarefa fácil já que muitas editoras do pós-guerra as viam um “mau negócio”, principalmente devido a seu tom anti-americano, muito focado em questões raciais e, por vezes, pró revolução bolchevique.

Lima Barreto foi retratado, durante muitos anos após a reedição de suas obras, como um “mulato ressentido”. No entanto, uma geração de novos escritores buscou, a partir dos anos 1980, reinterpretar as obras de Barreto sob um diferente prisma: não o do mulato ressentido, mas o do “típico brasileiro submetido a fortíssimas pressões raciais” (Piauí, Ed. 194, nov. 2022).

A mais recente biografia dedicada a Lima Barreto, da historiadora Lilia Schwarcz (“Lima Barreto: Triste Visionário”, de 2017) também surge como contraponto à visão dos historiadores de Barreto no pós-guerra. Ao invés de um triste e ressentido escritor, Lima Barreto retratado como um visionário, em particular por seu pioneirismo em inserir a pauta antirracista em textos do começo do século XX e de seu reconhecido diálogo e preferência pelas questões relacionadas ao público não erudito.

Não à toa, Lima Barreto foi o autor homenageado na Flip de 2017 e, neste ano, tivemos como homenageada a primeira autora negra a publicar uma obra no Brasil, Maria Firmina dos Reis, com sua “Úrsula”, de 1859. 

Sobre o conto

Publicado pela primeira vez no jornal “Gazeta da Tarde” do Rio de Janeiro, em 28 de abril de 1911, e posteriormente incluído na coletânea “O homem que sabia javanês e outros contos”, o conto traz a história narrada por Castelo ao amigo Castro do golpe que ele aplicou num barão que queria aprender javanês. O golpe acabou rendendo a Castelo um cargo público diplomático e Castelo narra o feito com grande orgulho.

O Barão em questão era o Barão de Jacuecanga, que herdara do avô um livro em javanês, que, dizia-se, trazia fortuna e prosperidade a quem o lesse. O livro foi sendo passado de pai para filho, até que chegara o momento da velhice do Barão e do seu interesse em lê-lo para não interromper o ciclo de prosperidade da família. O Barão, então, coloca um anúncio no jornal em busca de um professor de javanês que pudesse auxiliá-lo na empreitada.

Eis que Castelo lê o anúncio e, apesar de não saber javanês e diante da suposição de que não haveria grandes concorrentes ao posto, identifica a oportunidade de ganhar algo com isso, já que estava em completa miséria naquele momento.

A história é narrada de maneira divertida, irônica e debochada. Mostra como Castelo consegue, com destreza e um pouco de sorte, convencer todos ao redor do Barão de que sabia javanês de fato, incluindo o seu genro, desembargador muito bem relacionado, que, admirado pelo javanês de Castelo, o recomenda ao Visconde de Caruru para um posto na Secretaria dos Estrangeiros.

A partir daí, o reconhecimento e a fama de Castelo só cresceram, a ponto de escrever colunas em jornais sobre a literatura javanesa antiga e moderna, e ser indicado a representar o Brasil num congresso internacional de linguística. No retorno do congresso, foi recebido no cais do porto com festa pelas massas e convidado a almoçar com o presidente da república.

No diálogo final de Castelo e Castro, Castelo se mostra bastante satisfeito com a posição de Consul em Havana, onde morou por mais de 6 anos, mas indaga ironicamente ao amigo que, caso não estivesse feliz com tudo o que havia conquistado, poderia tentar a carreira de “bacteriologista eminente”. 

Esse divertido conto de Lima Barreto traz uma crítica importante a uma sociedade brasileira supersticiosa e preconceituosa, formada por intelectuais oportunistas, por uma burocracia medíocre e por anti-heróis, que não têm vergonha de se vangloriar da desonestidade. 

Acima de tudo, “O homem que sabia javanês” é uma crítica à elite brasileira e, a partir desse conto, Lima Barreto expressa toda a sua indignação aos inúmeros “professores de javanês” que o Brasil já indicou a representações internacionais. Postos esses aos quais Barreto jamais fora indicado, tendo, fatidicamente, terminado seus dias num manicômio.  

“De tanto ver triunfar as nulidades; de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça. De tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto”, Rui Barbosa, 1914.


terça-feira, 8 de novembro de 2022

A vergonha - Annie Ernaux

Por Christiane Girard



    A escrita como forma do vivido, vida, obra e singularidade.   

Para compreender melhor a obra de Ernaux é necessário pensá-la junto com a história de vida da autora. É a partir desse cenário que a obra se constrói. A obra é um produto dessa realidade e permite uma interpretação sem fim do que foi vivido. Numa entrevista, a autora expressa essa ideia de maneira precisa: “Eu escrevo a vida e vivo a escrita”.

Annie Ernaux nasceu em 1940, em Yvetot, cidade localizada na região da Normandie (França), durante a segunda guerra, filha única de um casal de origem camponesa, que quando jovens foram operários e depois comerciantes. O que é valorizado por eles nessa última atividade é o fato de não terem chefe. Faz parte de um desejo de ascensão social.

Eles têm um comércio no bairro, ou seja, seus clientes são seus vizinhos. Acoplado ao café eles têm uma mercearia. O café é frequentado entre outros clientes pelos trabalhadores da construção civil, pelos moradores mais solitários e pelos alcoólatras do bairro. Vivem num apartamento sem conforto que é colado ao café. Não há banheiro, não há chuveiro. Assim, mesmo, é o mundo da Annie, seu mundo não questionado até que encontra o mundo da escola.

Sendo filha única, foi possível para os pais que ela frequentasse a escola privada religiosa da cidade. Há uma possibilidade de obter bolsas no quadro das obras sociais educativas, oportunidade que ela pôde aproveitar já que era excelente aluna e sua mãe era uma católica fervorosa. Na grande maioria lá vão os filhos da burguesia da província.

Oficialmente, a escola pública não oferece ensino religioso, de fato, com sua forma de escrever (escrita realista) ela revela ambiguidade da realidade da democracia francesa daquela época: os ricos e as pessoas de renome se socializam no mesmo espaço. A convivência interclasse não é favorecida. É difícil depois de ter lido “a distinção" de Bourdieu deduzir outra leitura. O que Annie vai mostrar é o caminho para reencontrar a emoção, a sensação, a experiência do que foi vivido (por exemplo, a vergonha) produto de um contexto e de uma história singular. Essa forma de escrever é perturbadora porque não permite contestar os fatos descritos já que representam experiências, representam a própria vida.

Na escola, rapidamente, ela vai perceber seu lugar no meio das outras alunas: o lugar das mal-educadas, no sentido próprio da expressão. Aquelas alunas que não dispõem de capital cultural. Não conhecem as regras e os costumes de classe. Os padres organizam as confissões semanais e lhe parece que apenas ela é suja e cometeu pecados graves, apenas ela parece ser agitada pelas emoções sexuais da puberdade (ver neurose de classe). Nas camadas populares as crianças amadurecem mais cedo. Na burguesia parecem protegidas mais tempo do contato com a realidade.

Annie é a melhor aluna da sala durante toda a escolaridade. Ler, escrever sempre fará parte de sua vida, o que lhe permitirá cursar letras na universidade. Até agora é interessante notar que a vida dela que estou resumindo é aquela descrita nas obras. Os livros são historicidade de seu percurso. Ela decide ser professora e passa brilhantemente nos concursos necessários. Assim, mesmo no coração permanece a certeza de não estar no lugar previsto por alguém como ela. A noção de trânsfuga de classe se enrijece.

Viver da escrita é para ela durante muito tempo impensável. Ela não pertence ao mundo de quem escreve. Por essa razão, seu trabalho de professora lhe permite escrever sem a tensão de ter uma atividade reservada aos letrados. Ela começa a escrever aos 19 anos e se casa com um jovem de família da burguesia da província com quem teve dois filhos. Durante esses anos de vida familiar ela interrompe a escrita, mas diz saber que quando voltar a escrever com seu estilo de escrita que poderíamos comparar ao “cinema realité”(documentário ao vivo), ela provocará uma separação. Efetivamente, ela faz o livro e se separa do marido, mas nunca mais deixará de escrever.

 A problemática da obra

Sua problemática é a consciência de estar morando em dois mundos! Mas, sobretudo, o preço que se paga por isso. Os lugares de origem e a socialização neles não podem ser arrancados. É uma raiz que faz parte da árvore que somos. Deve-se acrescentar a esse fato que existe um sentimento ambivalente de traição à família de origem nos casos de trânsfugas de classe. Uma ambivalência que se expressa por não poder fugir do peso de ter vergonha de seus pais quando se ascende a uma classe superior. Eles não conhecem os códigos, aparecem como vulneráveis e, consequentemente, não protegem seus filhos, pelo contrário, os desnudam. É uma violência.

Entre outros aspectos a vergonha de ter vergonha de quem amamos. Uma violência de classe lida além do marxismo. Vivida, observada, a escrita de Annie Ernaux é a matéria dessa violência. Sua escrita é concreta, sem florear, sem bálsamo para acalmar. Toda a sua obra expressa essa tensão. Não se trata de uma obra intimista. É uma análise preciosa das dinâmicas sociais coletivas. É uma obra onde o social é responsabilizado, não culpabilizado. A autora não conta sua história pessoal, ela compartilha o mundo que viveu de 1940 até os dias atuais a partir do seu lugar. A esse respeito sugere-se a leitura do livro “Os anos”.

Ela compartilha por meio da sua obra a leitura dos valores, a cultura letrada e popular, os acontecimentos do momento e é impossível não interpelar o leitor, sobretudo quando as gerações são próximas. Por exemplo, ela explica que quando está escrevendo um dos seus livros está acontecendo a guerra em Sarajevo. Mesmo não sendo tema da obra, a autora não é indiferente a esse fato, que considera importante para compreender a época onde se escreve o texto.

Nos estudos de sociologia clínica percebe-se que muitas perturbações psíquicas têm origem social tal como a neurose de classe que se vivencia de diversas formas. Uma das manifestações é que os filhos são incentivados a galgar posições valorizadas, mas quando conseguem acabam afastando-se da família de origem, a mesma se distanciando igualmente por não possuir as regras do novo meio dos filhós. E os filhos passam a viver a dor de não pertencer por inteiro a nenhum dos grupos.

A obra de Annie Ernaux foi visitada pela sociologia clínica e o estudo foi muito precioso. Nesse campo dizemos que o indivíduo é produto de uma história da qual ele tenta ser Sujeito, produzindo por sua vez história. Isto significa que ser consciente de sua história é entender o que nos submete. Annie usa várias vezes a frase bíblica: a verdade te libertará. E ela busca sua verdade por meio da escrita.

A verdade da emoção em primeiro lugar e depois a palavra. É o que sentimos, a verdade da experiência do sentir. Por exemplo, quando a mãe de Annie diz “seu pai morreu”, o que nos faz captar a cena e vivenciá-la é o trecho em que a autora descreve a mãe apertando em suas mãos o pano de prato! Uma figura do desamparo. Algo familiar para suportar o estranho. Não é uma clínica do sujeito, é uma clínica do social. No caso citado, o pano de prato se reporta à convivência com o marido na cozinha, trata-se do marido, o companheiro com quem se compartilhava as refeições onde se vivia na cozinha, a convivência subtraída de repetente e o desamparo, o pano é apertado na mão.

A obra é grande: la place, la femme gelée, l’evenement, les armoires vides, passion simple, les années.... Como classificar uma obra tão singular? Considera-se que uma escrita realista tem sido uma opção. A autora não escreve romances, não há ficção, nem autobiografia. Mas, então, é literatura? Ela mesma diz: é sociologia, é história, é literatura. Felizmente ela não se importa mais, diz ela, com o purismo do campo. Ela sabe que é literatura viva e não poderia viver sem escrever.

Ela tem muitos detratores masculinos, as críticas são que ela escreve como os homens escrevem (?!) ou, outra crítica, consiste em acusá-la de colocar em cena uma personagem de “midinette” (adolescente atrasada) no livro “la passion simple”. O que ela responde, além do que já foi dito, é que sua maior alegria é quando um leitor diz que ela escreveu a história dele. Revela, também, o machismo atual. No entanto, agora que lhe foi atribuído o Prêmio Nobel de Literatura, o quanto é uma é literatura inovadora.

Gostaria de acrescentar duas linhas sobre a obra. A sua originalidade no estilo de escrita é uma crítica social na concepção de uma sociologia crítica e sociologia compreensiva (levar em conta o sentido que as pessoas dão a suas ações). Na sociologia clínica, já que a autora diz que suas obras são também obras sociológicas, tentamos evitar o perigo do vivido sem conceito e do conceito sem vida. Essa metodologia tende a dialetizar a relação entre a análise e a experiência evitando cometer um erro: estar no plano do vivido, como se ele tivesse seu sentido em si. 

O saber do homem não vem de seu interior, mas é uma ilusão empirista que assimila o real a percepção subjetiva do mesmo. Mergulhar no vivido permite produzir representações, ou seja, são expressões da relação imaginária que cada indivíduo tem com suas condições de existência. A análise dessas condições é indispensável para compreender o vivido. E é para guiar essa análise que a teoria é necessária. Os conceitos que nos parecem importantes na obra: o vivido, as experiências, o concreto, a historicidade.

O livro “A vergonha”

O estudo da vergonha foi e é um tema fecundo a estudar tanto na literatura como no campo das ciências sociais pelos múltiplos níveis de reflexão que permite. O livro começa com um quase crime presenciado pela narradora quando tinha doze anos. Seus pais são apresentados por ela do ponto de vista ideológico e social. Ela os situa economicamente, culturalmente e mostra a trajetória social deles. São percursos fiéis da história. Na relação de casal, a mãe parece ter autoridade e o pai seria mais submisso.

Entretanto, em um domingo de junho de 1952, o pai fora de si tenta matar a esposa. A filha (Annie Ernaux) descobre a cena e aterrorizada pede para parar. Nunca mais a cena será esquecida. Há um antes e um depois do ocorrido. O que foi descortinado é a realidade de seu mundo, no qual ela é testemunha e atriz. Ela vive a experiência e a compartilha. O “JE” (“eu” em português) da narrativa permite uma interação. Para o leitor é fundamental. Não está no exterior, mas sim na relação com a escritora. Parece que antes daquele domingo de junho de 1952 ela era criança, depois já está num outro momento de vida, mas a marca deixada é como uma cortina que foi aberta e que não pode ser fechada.

Talvez seja isso que nos toca: o impacto do medo e da violência na experiência real de uma vida e a literatura restituindo exatamente o que queima ainda.

quarta-feira, 19 de outubro de 2022

Tudo é rio - Carla Madeira


Por Maria Albeti

Tudo é Rio, livro de estreia da jornalista e publicitária mineira Carla Madeira, foi lançado, em 2014, pela editora independente Quixote+Do, de Belo Horizonte. Posteriormente, em fevereiro de 2022, ganhou nova edição pelo Grupo Editorial Record.  De acordo com a Lista Nielsen-PublishNews, que elabora a relação dos livros de ficção, de autores nacionais, mais vendidos, nas livrarias em todo o país, o livro Tudo é rio tem obtido excelentes colocações. Em março de 2022, ficou na nona colocação e em setembro último alcançou a segunda colocação. 

Carla Madeira entrou na literatura por meio da música, mais especificamente da Música Popular Brasileira (MPB). Começou a escrever para experimentar a musicalidade das palavras. Depois de uma pausa de 14 anos, após escrever o capítulo que foi colocado no início do livro (capítulo 3), escreveu durante oito meses, praticamente todos os dias. 

O livro tem capítulos curtos e linguagem simples que permitem uma leitura rápida. Principalmente nos capítulos em que aparece a prostituta Lucy, a autora não faz concessões, usa linguagem direta, sem subterfúgios, para descrever as cenas de sedução e sexo. Os diálogos são apresentados sem identificação específica, mesclando a voz da autora com a fala dos personagens. Não existe a forma tradicional de utilização do travessão (−), nem aspas (“”) como ocorre na maioria dos livros e/ou contos. Destaca-se um capítulo com uma única palavra “dor”, um recurso bastante interessante que possibilita ao leitor dar “asas” à imaginação.

O romance concentra-se em três personagens, que vivem em uma pequena cidade, localizada em qualquer lugar deste país: a puta Lucy, como ela prefere se identificar, e o casal formado por Dalva e Venâncio. Existem outras narrativas, secundárias, que se entrelaçam com a vida dos personagens centrais, mostrando acontecimentos que deixaram marcas na personalidade de cada um deles, influenciaram o comportamento e definiram seus destinos.

Assim, a autora caracteriza os personagens a partir daquelas narrativas, do ambiente familiar em que cada um deles foi criado, com suas alegrias, tristezas, rejeições e violência.  Todos esses aspectos moldaram a forma de sentir e agir desses personagens e maneira como se relacionam com as demais pessoas. 

Lucy é uma prostituta que se destaca pelo comportamento atrevido, despudorado e arrogante. Filha única, teve uma infância feliz, até perder pai e mãe, ao mesmo tempo. Passa a ser criada pela tia, que tem duas filhas, e em relação às quais se sente preterida. Nesse ambiente, nasce e cresce o sentimento de raiva e o rancor por tudo em que a tia acredita e, em consequência, o desejo de vingança. Descobre que pode usar seu corpo para executar sua vingança, a começar pela conquista do marido da tia. 

Segura do que quer e pode fazer com seu corpo, planeja sua despedida com o tio, quando são descobertos pela própria tia.  É expulsa de casa e vai residir em outra pequena cidade, onde sua fama já é conhecida. Assim consegue obter todas as regalias na Casa de Manu, onde vai morar e trabalhar. Decide se tornar prostituta, não por necessidade, mas por prazer, quer ser uma “puta feliz”.  

Lucy se orgulhava de gostar de ser puta, mas acima de tudo ela gostava de exercer o poder sobre os homens, muitos dos quais ela tripudiava, e sobre as mulheres, que ela humilhava. Esse comportamento deve estar relacionado ao sentimento de rejeição que sofria na casa da tia. 

Venâncio, também, filho único, vive em uma família marcada pela tirania e violência do pai, sente medo, vergonha, revolta e raiva. A mãe temendo que algo possa acontecer, entre pai e filho, prefere afastá-lo desse ambiente familiar conturbado. Fica morando com uma tia e retorna para a cidade, quando seu pai já se encontra moribundo. Mostra-se um rapaz trabalhador e responsável, mas sempre calado, distante e dono de uma tristeza profunda. 

Dalva vive em uma família alegre, com vários irmãos e irmãs, onde a música está sempre presente. Tem uma mãe compreensiva, acolhedora que consegue compreender os dilemas e as dificuldades não só da família, mas das pessoas que vivem ao seu redor. Dalva e Venâncio se apaixonam, se casam e passam a viver um em função do outro, em um clima de plena entrega e felicidade. Porém, sobre eles “Paira, monstruosa, a sombra do ciúme” (Caetano Veloso) 

Esse sentimento começou a se tornar mais forte quando Dalva engravidou e Venâncio viu, pela primeira vez, ela amamentar a criança. Sentiu-se roubado, traído e num rasgo de loucura pega a criança, joga longe e espanca Dalva. A partir desse momento, começa o inferno para os dois. Com a perda do filho e a violência de Venâncio se estabelece um muro entre eles. Continuam na mesma casa, mas nem ao menos se olham, não se acusam, impera o silêncio e o desprezo por parte de Dalva.  A autora explica o comportamento violento de Venâncio como resultado do seu relacionamento com o pai. Assinala que “[...] no fundo estamos presos à incapacidade de ser outra coisa diferente do que somos, do que a história da gente tramou” (p. 156)

Com o passar dos anos, Venâncio começa a frequentar a Casa de Manu e torna-se um enigma e, também, um desafio para Lucy, que não consegue tê-lo na cama. Acaba se apaixonando por ele, que depois de muitas negativas acaba cedendo e se torna seu parceiro por alguns dias. Lucy, apaixonada e grávida, começa a fazer planos de vida em comum com Venâncio. Porém, tudo acabou, também, com violência, sendo salva por Dalva, a quem ela muitas vezes tinha agredido, inclusive fisicamente. 

Nasce o filho de Venâncio e Lucy que ela entrega para Dalva criar. Essa criança traz vida nova para Dalva e para Venâncio, que, ainda de maneira tímida, começam a quebrar a barreira que existe entre eles. E nesse momento de renascimento, eis que surge a grande surpresa do livro, Vicente, o filho que Venâncio “jogou fora” está vivo. Dalva soube disso algumas semanas depois do que aconteceu, mas preferiu manter o filho com uma amiga de sua mãe, indo visitá-lo todos os dias.

E nesse momento, surge a questão: Dalva é a única entre os personagens centrais que teve uma família ajustada, foi criada em um ambiente amoroso e leve. Então, por que manteve esta situação? Por que não foi embora, morar com seus pais, levando a criança? Para castigar Venâncio?  Por que se martirizava dessa maneira? 

Parece que “Viver a ressureição do filho não foi suficiente para cancelar o que tinha sido posto em andamento. Dalva não sabia interromper a morte que se apossou dela. Continuou arrastando a corrente pesada e infeliz que prendia Venâncio e ela naquele inferno” (p.197).

O livro aborda questões como ciúme, abandono, violência doméstica, entre outros. A autora pretende mostrar que somos todos capazes do bem e do mal. Carla Madeira mostra talento, nesse seu primeiro livro, com possibilidade de se tornar uma escritora de sucesso na cena contemporânea. 

Algumas frases que merecem destaque: 

“Mas e o amor? O que é senão um monte de gostar? Gostar de falar, gostar de tocar, gostar de cheirar, gostar de ouvir, gostar de olhar. Gostar de se abandonar no outro. O amor não passa de um gostar de muitos verbos ao mesmo tempo” (p. 19)

“A loucura começa como a doença, miúda. Vai se alastrando célula a célula, ocupando tudo, destruindo a saúde, acabando com a vida de quem não encontra recurso para deter os pensamentos ruins, fazedores dos mais profundos infernos” (p. 20) 

“[...] o ciúme pode destruir qualquer amor. Dá muito trabalho não deixar ele devorar a alegria de ficar junto” (p. 103) 


terça-feira, 9 de agosto de 2022

A senhoria - Fiódor Dostoievski

Por Lenita Turchi


Em 1857, Dostoievski escreve ao seu editor, após o sucesso “Gente pobre “, para solicitar mais tempo e recursos para terminar “A senhoria” usando a seguinte justificativa:

“Para manter minha palavra e entregar o texto no prazo, eu me violentava e escrevia coisas tão ruins como “A senhoria”, o que me levou a mergulhar na perplexidade e na auto difamação a ponto de que, por muito tempo, não escrever nada bom e adequado. Cada um dos meus fracassos desencadeava em mim uma doença.”[1]

De fato, Gente pobre, foi considerado o primeiro romance social russo que entusiasmou desde a primeira leitura Bielinski, um dos críticos mais severos da literatura russa da época. Nasceu um novo Gogol dizem os amigos que de madrugada levam a visão do crítico para Dostoievski. Afinal, quem é esse escritor que foi capaz de aos 25 anos, escrever uma novela com tamanha compreensão da vida e do sofrimento?

Dostoievski; origem e contexto histórico

Fiódor Dostoievski é de origem nobre russa, uma nobreza sem recursos, mas que teve acesso à educação.  Dostoievski era filho de médico, alcoólatra e de uma mãe culta que amava livros, gostava de poesia e cantava. Segundo o historiador Virgil Tanasse. analisando cartas de Dostoievski para seu irmão Andrei, os pais são descritos pelo autor como “a frente do seu tempo “essa ideia de querer estar sempre entre os melhores (no sentido literal o mais elevado do tempo) foi o princípio fundamental do nosso pai e nossa mãe apesar de todos os desvios”.

A noite os pais se revezam na leitura dos grandes autores da época: Derzhavin, Jukokvi, Púnchin e Karamzin / História da Rússia, autores que fazem apologia da mãe Rússia e da aristocracia imperial. É alfabetizado pela mãe usando a Bíblia e essa religiosidade perpassa toda sua obra literária. Ao mesmo tempo é fascinado pelos contos populares que as servas da casa contavam e que mais tarde usará para construção de personagens e ambientes em seus escritos.

Desde a infância o autor é exposto a diversidade social cultural da Rússia, convive com pais letrados e servos que contam estórias místicas e lendas das diferentes regiões da Rússia. Na juventude já escritor, na condição de preso exilado, Dostoievski conhece a miséria a que era submetida o povo russo, assim como a repressão czarista aos movimentos populares que buscavam mudanças econômico socais.

Aos 18 anos ainda cursando engenharia militar escreve para seu irmão “O homem é um mistério que precisa ser elucidado. Mesmo que passemos a vida inteira isso, não devemos dizer que perdemos tempo. Estou ocupado com esse mistério porque quero ser um homem.”[2]

Em 1843 termina os estudos, promovido a subtenente e nomeado para o Departamento de Plantas da Direção de Engenharia de São Petersburgo. Trabalha, lê escreve, esbanja, é generoso e em 1844 escreve seu primeiro romance/ novela. O sucesso o introduz no mundo literário e na roda viva de festas, dívidas e promessas aos editores. Frequenta reuniões literárias e políticas e participa de sociedades secretas para discutir sobre literatura e arte. Numa destas reuniões, declama o poema de Púchin, “O campo”, que termina com a pergunta retorica “Quando ó vou ver meus amigos, o povo libertado da opressão”

A abolição da monarquia na França e a contestação dos regimes autocráticos de outros países europeus são a fonte de inspiração dos movimentos de oposição na Rússia tzarista. Os movimentos libertários, da Rússia tzarista, no período da juventude de Dostoievski, são liderados por pessoas dos segmentos médios e pobres que tiveram oportunidade de estudar e seguir carreiras administrativas. Dado a necessidade de uma elite administrativa capaz de gerir o vasto império o tzar Nicolau I, permitiu e mesmo incentivou que jovens oriundos de camadas pobres e médias a estudarem e seguir carreiras que eram exclusivas da nobreza. Os movimentos revolucionários deste período são apoiados e mesmo, em alguns casos, liderados por esses jovens educados para defender uma classe a que não pertencem.

Em abril de 1849, Dostoievski é julgado e condenado a ser fuzilado. No último momento a pena é comutada e o autor passará 10 anos na Sibéria, sendo que destes, quatro anos esteve preso e isolado tendo com possiblidade de leitura apenas a Bíblia. Segundo Virgil Tanase [3] a vida e obra do Dostoievski se confundem a tal ponto que:

“Se tivesse escrito a própria biografia, a obra poderia passar, aos olhos de quem desconhece a história de sua vida como por de seus romances. A tal ponto o herói, paradoxal e de atitudes tão surpreendentes, encontra-se as voltas com histórias tão inverossímeis que parecem inventadas. Não são. Essas histórias vão submeter o escritor a provações terríveis: para sobreviver será obrigado a visitar recantos obscuros da alma, que escondem mecanismos do comportamento humano. Uma vez ali, Dostoievski aproveita para revelá-los, conduzindo os personagens, não causa espanto que as criaturas se pareçam com o criador, tão surpreendente profundas quando roçam os mistérios da existência, tão banais no dia a dia, em que são como ele, iguais a qualquer um”.[4]

A senhoria

O conto, A senhoria, se desenvolve em torno de 3 personagens centrais sendo 2 jovens, Vassili Ordínov, Katierina, e um velho, Muri, que não se sabe se é marido protetor ou carcereiro da bela Katierina.  O conto narra a estória do jovem Vassíli Ordínov, que após a morte da mãe, se isola num quarto alugado para se dedicar aos estudos e a busca de conhecimento. Quando a casa é vendida Vassíli, sai pela cidade a esmo buscado um novo lugar para morar e nestas andanças, já nos arredores da cidade, entra numa igreja e se depara com uma bela jovem rezando de forma mística e perturbadora. 

Vassili a segue em várias ocasiões, imaginado quem seria a jovem e o velho que a acompanha, e acaba alugando um quarto no pequeno cômodo do casal.  A trama se desenvolve neste local com foco na paixão do jovem Vassili por Katierina e a aura mística e fantasiosa que a jovem Katierina traz para a relação. O autor nos deixa em suspenso sobre quem é a senhoria e as relações dela com o marido, que as vezes é visto como protetor, outras como carcereiro e finalmente como uma vítima das alucinações de Katierina. Ou seria a senhoria uma síntese do misticismo, costumes e lendas do povo russo, que nos envolve em suas visões dantescas e mantem os leitores presos as suas teias?

Embora inicialmente o conto tenha sido recebido de forma pouco entusiasta pela crítica literária da época e mesmo Dostoievski o tenha considerado pouco relevante, o conto releva a capacidade do autor de captar a natureza humana na sua complexidade e contradições assim como explorar o rico universo das crenças e tradições russas.

Recomendo com entusiasmo a leitura do conto A senhoria.



[1] Tanase, Virgil (1945). Dostoievski Biografia, 1ª edição, Editora L& PM POCKET vol 1270

[2] Correspondência de Dostoievski para seu irmão Andrei In Tanase, Virgil (1945). Dostoievski Biografia, 1ª edição, Editora L& PM POCKET vol 1270, p26

[3] Tanase, Virgil (1945). Dostoievski Biografia, 1ª edição, Editora L& PM POCKET vol 1270.

[4] Idem. p106

 

A senhoria - Fiódor Dostoievski

Por Lenita Turchi



Em 1857, Dostoievski escreve ao seu editor, após o sucesso “Gente pobre “, para solicitar mais tempo e recursos para terminar “A senhoria” usando a seguinte justificativa:

“Para manter minha palavra e entregar o texto no prazo, eu me violentava e escrevia coisas tão ruins como “A senhoria”, o que me levou a mergulhar na perplexidade e na auto difamação a ponto de que, por muito tempo, não escrever nada bom e adequado. Cada um dos meus fracassos desencadeava em mim uma doença.”[1]

De fato, Gente pobre, foi considerado o primeiro romance social russo que entusiasmou desde a primeira leitura Bielinski, um dos críticos mais severos da literatura russa da época. Nasceu um novo Gogol dizem os amigos que de madrugada levam a visão do crítico para Dostoievski. Afinal, quem é esse escritor que foi capaz de aos 25 anos, escrever uma novela com tamanha compreensão da vida e do sofrimento?

Dostoievski; origem e contexto histórico

Fiódor Dostoievski é de origem nobre russa, uma nobreza sem recursos, mas que teve acesso à educação.  Dostoievski era filho de médico, alcoólatra e de uma mãe culta que amava livros, gostava de poesia e cantava. Segundo o historiador Virgil Tanasse. analisando cartas de Dostoievski para seu irmão Andrei, os pais são descritos pelo autor como “a frente do seu tempo “essa ideia de querer estar sempre entre os melhores (no sentido literal o mais elevado do tempo) foi o princípio fundamental do nosso pai e nossa mãe apesar de todos os desvios”.

A noite os pais se revezam na leitura dos grandes autores da época: Derzhavin, Jukokvi, Púnchin e Karamzin / História da Rússia, autores que fazem apologia da mãe Rússia e da aristocracia imperial. É alfabetizado pela mãe usando a Bíblia e essa religiosidade perpassa toda sua obra literária. Ao mesmo tempo é fascinado pelos contos populares que as servas da casa contavam e que mais tarde usará para construção de personagens e ambientes em seus escritos.

Desde a infância o autor é exposto a diversidade social cultural da Rússia, convive com pais letrados e servos que contam estórias místicas e lendas das diferentes regiões da Rússia. Na juventude já escritor, na condição de preso exilado, Dostoievski conhece a miséria a que era submetida o povo russo, assim como a repressão czarista aos movimentos populares que buscavam mudanças econômico socais.

Aos 18 anos ainda cursando engenharia militar escreve para seu irmão “O homem é um mistério que precisa ser elucidado. Mesmo que passemos a vida inteira isso, não devemos dizer que perdemos tempo. Estou ocupado com esse mistério porque quero ser um homem.”[2]

Em 1843 termina os estudos, promovido a subtenente e nomeado para o Departamento de Plantas da Direção de Engenharia de São Petersburgo. Trabalha, lê escreve, esbanja, é generoso e em 1844 escreve seu primeiro romance/ novela. O sucesso o introduz no mundo literário e na roda viva de festas, dívidas e promessas aos editores. Frequenta reuniões literárias e políticas e participa de sociedades secretas para discutir sobre literatura e arte. Numa destas reuniões, declama o poema de Púchin, “O campo”, que termina com a pergunta retorica “Quando ó vou ver meus amigos, o povo libertado da opressão”

A abolição da monarquia na França e a contestação dos regimes autocráticos de outros países europeus são a fonte de inspiração dos movimentos de oposição na Rússia tzarista. Os movimentos libertários, da Rússia tzarista, no período da juventude de Dostoievski, são liderados por pessoas dos segmentos médios e pobres que tiveram oportunidade de estudar e seguir carreiras administrativas. Dado a necessidade de uma elite administrativa capaz de gerir o vasto império o tzar Nicolau I, permitiu e mesmo incentivou que jovens oriundos de camadas pobres e médias a estudarem e seguir carreiras que eram exclusivas da nobreza. Os movimentos revolucionários deste período são apoiados e mesmo, em alguns casos, liderados por esses jovens educados para defender uma classe a que não pertencem.

Em abril de 1849, Dostoievski é julgado e condenado a ser fuzilado. No último momento a pena é comutada e o autor passará 10 anos na Sibéria, sendo que destes, quatro anos esteve preso e isolado tendo com possiblidade de leitura apenas a Bíblia. Segundo Virgil Tanase [3] a vida e obra do Dostoievski se confundem a tal ponto que:

“Se tivesse escrito a própria biografia, a obra poderia passar, aos olhos de quem desconhece a história de sua vida como por de seus romances. A tal ponto o herói, paradoxal e de atitudes tão surpreendentes, encontra-se as voltas com histórias tão inverossímeis que parecem inventadas. Não são. Essas histórias vão submeter o escritor a provações terríveis: para sobreviver será obrigado a visitar recantos obscuros da alma, que escondem mecanismos do comportamento humano. Uma vez ali, Dostoievski aproveita para revelá-los, conduzindo os personagens, não causa espanto que as criaturas se pareçam com o criador, tão surpreendente profundas quando roçam os mistérios da existência, tão banais no dia a dia, em que são como ele, iguais a qualquer um”[4].

A senhoria

O conto, A Senhoria, se desenvolve em torno de 3 personagens centrais sendo 2 jovens, Vassili Ordínov, Katierina, e um velho, Muri, que não se sabe se é marido protetor ou carcereiro da bela Katierina.  O conto narra a estória do jovem Vassíli Ordínov, que após a morte da mãe, se isola num quarto alugado para se dedicar aos estudos e a busca de conhecimento. Quando a casa é vendida Vassíli, sai pela cidade a esmo buscado um novo lugar para morar e nestas andanças, já nos arredores da cidade, entra numa igreja e se depara com uma bela jovem rezando de forma mística e perturbadora. 

Vassili a segue em várias ocasiões, imaginado quem seria a jovem e o velho que a acompanha, e acaba alugando um quarto no pequeno cômodo do casal.  A trama se desenvolve neste local com foco na paixão do jovem Vassili por Katierina e a aura mística e fantasiosa que a jovem Katierina traz para a relação. O autor nos deixa em suspenso sobre quem é a senhoria e as relações dela com o marido, que as vezes é visto como protetor, outras como carcereiro e finalmente como uma vítima das alucinações de Katierina. Ou seria a senhoria uma síntese do misticismo, costumes e lendas do povo russo, que nos envolve em suas visões dantescas e mantem os leitores presos as suas teias?

Embora inicialmente o conto tenha sido recebido de forma pouco entusiasta pela crítica literária da época e mesmo Dostoievski o tenha considerado pouco relevante, o conto releva a capacidade do autor de captar a natureza humana na sua complexidade e contradições assim como explorar o rico universo das crenças e tradições russas.

Recomendo com entusiasmo a leitura do conto A senhoria.



[1] Tanase, Virgil (1945). Dostoievski Biografia, 1ª edição, Editora L& PM POCKET vol 1270

 [2] Correspondência de Dostoievski para seu irmão Andrei In Tanase, Virgil (1945). Dostoievski Biografia, 1ª edição, Editora L& PM POCKET vol 1270, p26

[3] Tanase, Virgil (1945). Dostoievski Biografia, 1ª edição, Editora L& PM POCKET vol 1270.

[4] Idem. p106