quarta-feira, 13 de novembro de 2019

FLORES

de Afonso Cruz

Companhia das Letras, São Paulo (2019)


por Marília Macedo Klotz

SOBRE O AUTOR

            Afonso Cruz, nasceu na cidade de Figueira da Foz em Portugal em julho de 1971, hoje com 48 anos de idade. 
            Ainda criança mudou com a família para Lisboa, onde estudou na Escola Secundária Artística Antônio Arroio, nas Belas Artes e no Instituto Superior de Artes Plásticas da Madeira.
            Desde sempre foi ligado as artes em especial a música, embora fosse considerado um “duro de ouvido”.  Com 18 anos comprou uma guitarra e aprendeu a tocar sozinho.  Entretanto, seu  primeiro emprego como profissional  não foi com a música, mas sim com a animação. Segundo ele não era uma vocação , mas um trabalho para sustentar o modo de vida que desejava ter , ou seja, trabalhar 6 meses e viajar os outro seis.
            Em 10 anos conseguiu visitar 60 países e dentre os que mais gostou destaca-se o Brasil e a Síria.  Dessa lista,  a Índia foi motivo de expectativas e grandes decepções.
            Passado o tempo da viagens e com a chegada de seu primeiro filho decidiu com sua mulher Maria João sair de Lisboa para morar em um sítio. Assim fizeram e foram para Monte Novo no Alantejo que fica mais ou menos uma hora de Lisboa, onde moram até hoje.
            Nessa época das mudanças, iniciou carreira de escritor, de ilustrador e criou um grupo musical chamado “The Soaked Lamb” ( O cordeiro ensopado), uma banda de Blues.
            Afonso Cruz é escritor, ilustrador, cineasta e músico. Publicou mais de 30 livros, tendo estreiado na literatura com o romance “ A Carne de Deus”.  Em 2009 ganhou o Prêmio de Conto Camilo Castelo Branco com o livro “Enciclopédia da Estória Universal “.
            Na lista de suas publicações encontramos: “Os livros que devoraram meu pai “ – 2011;
“A Boneca de Kokoschka” – 2012, que ganhou o prêmio da União Européia para a Literatura ;  “ Jesus bebia Cerveja”, considerado o Livro do Ano e ganhador do Time Out.
            No ano seguinte 2013 , se destacou com “O Cultivo da Flores de Plástico” feito essencialmente para o teatro e, também, “Para onde vão as Grandes Chuvas”.
            Em 2015, venceu o prêmio de Ilustração pela obra  “ Capital “  e também lançou “Flores “, um romance inquietante que fala sobre amor, a falta de memória e as perdas em geral.
            Este ano – 2019 , publicou “Como Cozinhar uma Criança “ e o ensaio “ O Macaco Bêbado foi a Ópera “.
            Além das obras literárias esse jovem escritor português também fez filmes entre os quais “Planets Aren’t Going Anywhere “  e  “Misanhopo “ que foram os mais conhecidos.
            Com sua Banda de Blues fez inúmeras apresentações sempre criativas e de boa receptividade.
            Segundo os críticos Afonso Cruz é  “uma das vozes mais criativas da nova literatura em língua portuguesa (Mia Couto) e, certamente “ alcançará um lugar de grande destaque” (El País).  

                                               SOBRE O LIVRO

            “Flores” é um romance instigante, de leitura fácil que fala sobre o amor, a perda da memória, da morte, das referências familiares e culturais que compõem nossa identidade.
            “Flores” é também o sobrenome de um trio de irmãs – Dália, Margarida e Violeta, que foram as protagonistas dos desejos adolescentes de um tal Sr. Manuel Ulme e seus amigos de infância de quem o narrador se encarrega de esclarecer.
            A história começa com a morte e enterro do pai do protagonista, um jornalista que vive uma vida sem graça com sua mulher Clarisse e sua filha Beatriz.
            Nesse momento de despedida fúnebre, como diz o narrador,” estava com os sentimentos à deriva, sem correr uma lágrima, mas com os destroços da morte que compareciam por todo lado diante da triste realidade da perda do pai”. Apesar do impacto, intensificado pela concretude do fato e da expressão de dor de sua mãe, veio-lhe o contraditório pensamento de que ao invés do imaginado odor de coisa podre a morte cheirava a Flores , neste seu trabalho de transformar tudo em terra e em pó.  O jornalista, então, se dá conta de que as perdas não são todas iguais assim como as lágrimas que derramamos por uma cebola ou pelo coração.  A partir daí passa a notar o comportamento de seus vizinhos, antes desapercebidos, em especial do Sr Manuel Ulme que perdeu a memória em consequência de um aneurisma cerebral.  Esse senhor não lembra da infância, do primeiro beijo e muito menos de ter visto uma mulher nua em sua vida.
            Comovido, o jornalista se propõe ajudar o vizinho na recuperação da memória perdida e da sua história de vida. Faz uma pesquisa empírica, visitando a aldeia onde ele morou, procurando seus conhecidos, amigos e todos que pudessem revelar algo sobre a identidade daquele senhor.
            Esse trabalho lhe dá uma grande “dor de cabeça” e faz ele pensar “como seria possível caber tanta dor em tão poucos centímetros de crânio”.  Descobre uma dualidade acerca daquele homem que era bom e perverso ao mesmo tempo. Porém não percebe em si mesmo a contradição entre não se achar supersticioso e não aguentar um chapéu jogado displicentemente sobre a cama. Tempos de desconhecimento e resistência ao saber!
            O casamento com Clarice está em crise e vive uma enorme rotina sem emoção. Para piorar as coisas sua filha presencia um momento de traição conjugal que abala a relação entre pai e filha, daí para frente sem aproximação e afeto.
            Em alguns momentos o personagem principal – narrador, tem diálogos consigo mesmo e com o espelho que lhe dá a violenta consciência da realidade.  Mostra-lhe a imagem de um homem deprimido, pouco sociável, que busca saber o que é o amor.  Além do espelho, os diálogos com o velho Sr. Ulme lhe mostram que a vida não é o que parece e que é a reflexão da luz interior que faz com que cada pessoa tenha cor própria. Nesse sentido, cada vivência conta e por isso cada pessoa tem o tamanho do universo que merece. (pg 25)
            Por outro lado, e junto com a percepção do Sr. Ulme frente as tragédias que se apresentam diariamente nos jornais e TV, reconhece que andamos pouco solidários e muito anestesiados diante do humano.
            Escuta a reflexão do velho quanto a realidade ser responsável pela falta de felicidade. Segundo ele o sonho nos conforta, mas a realidade nos trás medo, solidão e desespero. Precisamos Sorrir, “pois um sorriso transforma o homem e lhe trás a promessa de alegria e satisfação”.  Essa reflexão não será esquecida e seguirá o narrador até o final de sua relação com o vizinho que no fim da vida tinha sua debilidade física coberta com recortes e fotografias de sorrisos que lhe eram colados na boca por ele e por Beatriz. Além do sorriso fala da importância da poesia que “adoça a vida e ameniza os efeitos da dura realidade.
            Quanto a infância, reconhece como é difícil esse tempo do desenvolvimento humano e comove-se com sua filha Beatriz no enfrentamento das mazelas da vida e no aprendizado de tantas coisas estúpidas que são transmitidas às crianças.  Faz uma crítica a condição social das crianças e das mulheres daquele tempo, onde viviam em um canto sem prestígio e sem  reconhecimento, mas conclui que hoje não é muito diferente. Margarida, uma das irmãs Flores e eterna paixão do Sr. Ulme,  contribuiu para essas concepções. Para contrariedade da família e de todos, tornou-se cantora de Fado, seguindo e sustentando seus próprios desejos.
No resgate da história do vizinho, o narrador faz uma viagem pelos vários aspectos de sua própria vida, inclusive na questão religiosa. Mas, durante esse processo de conhecimento Clarice e ele se separam, porque viver realmente não tem nada a ver com a rotina e com aquilo que as pessoas fazem todos os dias. “Viver é precisamente o oposto”.  Desde então, começa outro tipo de convivência com a ex-mulher e com sua filha que acompanha o pai nos cuidados com o Sr. Ulme servindo-lhe de tradutora e mediadora diante da incapacidade de compreensão e sensibilidade do pai.
Na busca obessiva do narrador pela história e identidade do Sr. Manuel Ulme confronta-se  com as verdades, mas “elas não se ouvem “ já que ninguém verdadeiramente quer saber disso. Diz ele: “ quando se vive privado de tudo a verdade importa, mas quando a temos por todo lado, parece uma ficção” (pg89) O que importa é termos coração !!!!
            Assim que seguindo as palavras do Sr. Ulme o narrador vai “ entrando cada vez mais na espessura”, aprofundando a pesquisa sobre o vizinho, mas sobretudo sobre si mesmo. É uma viagem as profundezas do ser humano e conclui que “precisamos ir falando para dentro de nós” (pg 109)
Essa é a verdadeira chave que o Sr Ulme trás consigo pendurada no pescoço.  Sua função – metafórica o jornalista só vai conhecer no final do livro, quando finalmente encontra a porta que abre  para desvendar o mistério da vida sempre presente no cotidiano e nada surpreendente.
“Entremos mais dentro da espessura”, ou seja,  vamos mais a fundo para não envergonhar Darwin , quanto a evolução humana. Para tal, na sua lucidez o Sr. Ulme coloca a questão de não perder tempo a morrer enquanto pode estar vivo! Como nos diz o ditado a realidade se impõe, mas a esperança é a última que morre.  O diálogo entre eles ilustra isso. O narrador pergunta ao vizinho depois de uma consulta médica: Quanto tempo lhe deram de vida? Ele reponde: A eternidade. Estou cada vez mais próximo dela. Deram-me a porra da esperança que é infinita.... então, o que custa acreditar na eternidade? (pg 172)
Finalmente, o livro termina mostrando ao narrador que apesar do espelho mostrar –lhe  a realidade de não saber dançar, não ter jogo de pés, não espancar a realidade, não juntar Box e canção lírica,  devemos resistir com amor e solidariedade tal qual o Sr. Ulme e a doce Beatriz.
Entremos mais dentro da espessura e assim poderemos tolerar o “chapéu sobre a cama” e agir com” Altitude “!!!!
O livro é uma dose de realidade, mas uma grande mensagem de esperança!!!!
Gostei e recomendo.

terça-feira, 12 de novembro de 2019

FLORES

de Afonso Cruz

Comentários de Carlos Guido Azevedo


Alguns autores se identificam conosco de maneira direta e sólida, outros demoram mais um pouco, precisamos conhecer melhor seus estilos e valores para que entrem no restrito campo dos amados, admirados e respeitados.
Mas, há aqueles que gozam do direito inquestionável de não agradar. São os que abrem novos estilos, os que avançam mostrando novos caminhos e não comungam com seus contemporâneos, nem buscam modelos já aprovados dos grandes sucessos. Parece-me ser o caso do Luiz Ruffato no Eles Eram Muito Cavalos e de Afonso Cruz agora no Flores.
Não encontrei o lugar comum em seu livro, não vi a construção de um herói, nem a linhagem do bem contra o mal. Seus personagens parecem de carne e osso, não são bons e às vezes são inquestionavelmente humanos.
Vejo o quebra cabeça com que ele conta a estória em primeira pessoa, se assumindo como um cidadão em pleno gozo de sua incapacidade de amar e se definir como uma pessoa feliz. Vejo sua insegurança doméstica, sua dificuldade de estar inteiro na ação, ausente mesmo quando está em casa, incapaz de observar os detalhes. Sua conversação é sacrificada e quase sempre involuntária. Fala pouco até ao seu espelho e menos se compreende.
No livro Flores, Afonso Cruz deixa um legado de lições, para homens e mulheres contemporâneos, escondido numa estória a princípio trivial de um casamento desfeito, uma filha incompreendida, um vizinho sem memória e uma instigante e inconsequente busca do personagem pela memória do outro, como se coscuvilhasse a própria vida.
Gosto de livros que deixam lições intrigantes. Que não se esvaem com o fim da leitura ou com o desenlace da trama urdida para manter a atenção do leitor.
Será que um chapéu em cima da cama quer dizer mais que simples desleixo? Já li esta ojeriza em outros autores. E comer o melhor da torrada ou quebrar a gema do ovo preferido é motivo para briga, contestação e separação?
Até que ponto o espelho fala a verdade?  Por que o desvendar das maldades e perversidades do senhor Ulme não o levou a se eximir ou expiar qualquer culpa?  Por que ele foi até admirado em suas ousadias e maldades, como a capacidade de vender ingresso para a sua lua de mel; de entregar sua amada para ser torturada pela DIP e de construir um GOLEM para denunciar a maldade no mundo? 
Porque, penso eu, ele representa o alerta para que tenhamos mais profundidade na espessura dos nossos pensamentos e mais elevação em nossas ações. Que estejamos atentos aos outros em detalhes e tenhamos, por fim, cuidados para não sermos transformados em GOLENS vivos consubstanciados pela maldade exalada pelos meios de comunicação que nos mergulham em notícias catastróficas, em detalhes de crimes hediondos, crimes ambientais, crimes de toda espécie que põem em risco nossa sobrevivência como espécie.
Afinal, um corpo de mulher nua é o supremo perdão!    Gostei - Recomendo

terça-feira, 15 de outubro de 2019

O Triste Fim de Policarpo Quaresma

de Lima Barreto




por Carlos Guido Azevedo

Quase todas as resenhas que li dos livros de Lima Barreto começam assim: Afonso Henriques de Lima Barreto nasceu em 13 de maio de 1881 na cidade do Rio de Janeiro. Sua família era negra e humilde e seus pais descendentes de escravos. Ele ficou órfão de mãe quando tinha apenas 6 anos de idade. Lima Barreto foi um dos principais escritores do pré-modernismo brasileiro. Além de escritor, ele foi jornalista e suas obras estão relacionadas com temáticas sociais e nacionalistas, esta não será diferente.
Uma síntese do livro em grandes pinceladas:
Triste fim de Policarpo Quaresma foi escrita em 1911 nos folhetins da época, eram as novelas de então. Narrado em terceira pessoa em três partes bem diferenciadas:
Primeira parte - A lição de Violão - Na qual Policarpo Quaresma é apresentado como um funcionário público preocupado em valorizar a nacionalidade, dando maior consistência à cultura verdadeiramente brasileira e vencendo as representações e valores coloniais. Sem muitos amigos, vive isolado com sua irmã, mantendo hábitos metódicos há trinta anos. Com vasta biblioteca de autores nacionais, acaba por acreditar que tudo no Brasil é superior aos outros lugares. Buscando uma cultura nata, ele propõe a substituição do português pelo tupi, a verdadeira língua do Brasil. Objeto de ridicularizarão e escárnio público é aposentado por invalidez, depois de passar alguns meses no hospício.
Segunda parte – No “Sossego” – Na qual Quaresma se recolhe a uma fazenda e procura realizar seus delírios de grandeza de produção agrícola na terra que julga mais fértil do mundo. A ponto de dispensar a adubação e ir buscar esse ideal de produção com esforço pessoal, muitos livros sobre agricultura e maquinarias específicas, mas logo seu projeto agrícola é derrotado por três inimigos implacáveis: A política local, a ausência de infraestrutura e a saúva. Desanimado, estende sua dor à pobre população rural, compreende sua anomia, antes criticada, e verifica a necessidade de uma nova administração, que resume em um “Projeto Agrícola” entregue ao Presidente Floriano, seu conhecido do Arsenal do Exército.
Terceira parte – Patriotas – Narra as aventuras militares de Quaresma em apoio ao Marechal Floriano que assumira a presidência por renúncia do Marechal Deodoro e estava sendo contestado por políticos monarquistas regionais com apoio da Marinha, que com alguns navios bombardeavam o Rio de Janeiro, pois não aceitavam a substituição dos governadores de províncias e a colocação de civis no poder, nem a preponderância do exército. 
Quaresma que conhecia Floriano alistou-se como voluntário e mais uma vez se dedica a estudar artilharia, balística e mecânica. Mas nada disso conta num ambiente de caserna sem recursos, sem valores e com pessoas que só pensavam em promoção e no soldo. 
Chamado por Floriano de “visionário” ele se desesperou e percebeu a inutilidade de seu sacrifício de vida, mas permaneceu na caserna até o dia em que vencida a sublevação, assistiu a vários prisioneiros serem levados durante a noite para execução sumária, sem julgamento ou causa formada.
Indignado escreve a Floriano contando o que viu e é tratado como traidor da república, condenado ao fuzilamento, abandonado pelos seus amigos e companheiros, teve a morte como seu triste fim. 
Comentários
Antes de mais nada quero registrar minha admiração, respeito e verdadeira surpresa com a qualidade, atualidade e a atemporalidade deste jovem escritor brasileiro, que nas circunstâncias e limitações pessoais em que viveu, tenha produzido um clássico de tamanha envergadura e tenha deixado um acervo literário tão significativo.
Visto como um clássico da literatura pré-modernista, posto que anterior à semana de arte moderna, ele foi usado como exemplo de escrita leve e coloquial que se contrapunha ao nacionalismo exacerbado, ao romantismo platônico e à escrita empolado dos gênios parnasianos e ufanistas de então. 
Um brasileiro que soube ler os mandos e os desmandos da sua época, com precisão de escultor e com capacidade de construção de tipos característicos, não apenas de época, mas da nacionalidade nascente: Os funcionários públicos e suas mediocridades; os militares e suas ânsias por promoção; as famílias de subúrbio e sua lógica casamenteira; os advogados e suas artimanhas; a classe política e sua degeneração moral; os agricultores e suas anomias; o deslumbramento com os títulos e a ignorância como marca geral.
Soube resistir ao modernismo da filosofia positivista que grassava na época, como a grande solução para o progresso da humanidade e iluminava a república de poucos, que surgia com as transformações institucionais decidida e executada pela elite, sem participação popular, que o fez afirmar uma realidade muito contemporânea:  “O Brasil não tem povo, tem plateia”.
Minha admiração não advém de sua cor, origem ou outras considerações de sua vida, que hoje se afirmam como observações fora da ética atual do Politicamente Correto. Minha admiração vem do produto, do realizado pelo autor em tais circunstâncias e em tão pouco tempo, posto que, trabalhou como jornalista  (Correio da Manhã e Jornal do Commercio), em revistas do Rio de Janeiro (Fon-Fon, Floreal, Careta, ABC, etc.) e, ainda foi funcionário da Secretaria do Ministério da Guerra até ser aposentado por invalidez em 1914 com depressão aguda, após alguns internamentos em hospícios por dependência química ao álcool, como seu pai. Faleceu em 1 de novembro de 1922 com 41 anos de idade, deixando obras a serem publicadas até 1956. 
Escreveu romances, contos, poesias e críticas, destacando-se: 
  • Recordações do escrivão Isaías Caminha (1909)
  • Triste fim de Policarpo Quaresma (1911)
  • Numa e Ninfa (1915)
  • Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá (1919)
  • Os Bruzundangas (1923)
  • Clara dos Anjos (1948)
  • Diário Íntimo (1953)
  • Cemitério dos Vivos (1956)
Lima Barreto é em si, um exemplo muito marcante do que a sociedade brasileira, em sua histórica concentração de riqueza, perde em capacidade produtiva da maioria do seu povo. Ele mostra como é real a plasticidade e possibilidades ascensionais no Braila, em contraposição ao determinismo social de outras comunidades mais avançadas, caso houvesse investimento na maioria dos cidadãos, o país seria uma potência criativa e produtiva. 
Sua sorte pessoal, (ou nossa sorte como leitores) o fez ser apoiado pelo Visconde de Ouro Preto, que lhe permitiu ter uma boa base educacional, com acesso ao Colégio Pedro II, uma educação ainda hoje militarizada e repressora, mas que tem sido um celeiro de lideranças proeminentes na política, na arte e na cultura brasileira. 
Mesmo com muitos problemas ao seu redor e tantas limitações, continuou sua formação e chegou a cursar engenharia, tendo abandonado o curso para trabalhar e ajudar nas despesas de casa, como tantos outros jovens brasileiros ainda o fazem na atualidade. 
Contemporâneo da proclamação da república, da guerra do Paraguai e da Revolta da Armada, soube registrar estes momentos importantes da república nascente, com pinceladas certas e objetivas que parecem os momentos atuais, como se vivêssemos numa janela de seriado, como Sísifo a repetir ad infinitum os mesmos sentimentos, os mesmos erros, as mesmas incompreensões e vaidades.

Sem exagero, comparo Lima Barreto a Miguel de Cervantes e identifico em suas vidas, semelhanças nas tribulações e sofrimentos e identidade entre seus melhores personagens, sendo Policarpo Quaresma o Don Quixote brasileiro sem Dulcineia, sem Roscinante e sem Sancho Pança, mas com os mesmos sonhos e fantasias de amor e honra à pátria, sonhos de identidade, fantasias de realizações e desejos de reconhecimento e progresso. 
Don Quixote influenciado pelo excesso de leituras das aventuras de cavalaria, Policarpo enganado em sua ingenuidade pelos romances ufanistas, pelo nacionalismo exacerbado idealizado por um positivismo científico nascente, sem respaldo na realidade e na cultura da comunidade.
Dom Quixote foi o romance inaugural da nova literatura ocidental e Triste Fim de Policarpo Quaresma o romance inaugural do modernismo brasileiro. Até na história se assemelham. 
Acho as aventuras de Quaresma menos universais, mas mais realistas, enquanto o famoso cavaleiro de La Mancha tem mais amor e mais humor, permitindo a todo humano vestir sua armadura e lutar por seus sonhos. Mas ambos os sonhadores espalham simpatia, bondade e dignidade.
Don Quixote fala dos sonhos pessoais de glória e de fama. Quaresma fala dos sonhos de identidade para um povo que deseja educação e progresso, reconhecimento e respeito no enquadre das nações.
O da Mancha pôde usufruir com seus amigos e colegas o reconhecimento da própria loucura e veio a ter morte natural em sua casa, acompanhado dos familiares. O do Rio de Janeiro sofreu o abandono, a incompreensão e morreu na mão daqueles a quem defendia. 
Um se tornou herói universal, o outro motivo de chacota e humilhação. Um tornou-se poderoso instrumento de transformação de fantasia em realidade, o outro não conseguiu converter seus concidadãos em heróis da própria história, preferiram viver a própria ignorância. 
Quaresma não era um sonhador na medida em que tinha base de concretude em todas as suas considerações e perspectivas de futuro que construía para a nação, para a agricultura, para a educação e para a política. Apenas exagerava no tom.
Lima, em todos os seus escritos procurava mostrar aos seus leitores que precisavam perceber a própria realidade em que viviam, buscando um ideal de nação, de povo de futuro, queria que eles construíssem uma concepção de futuro original, idealizado, apoiado nas potencialidades de sua terra, nos seus valores e na sua história. 
Formatou um patriota exaltado que enxergava o país como um lugar esplêndido, maravilhoso, cheio de fartura e facilidades caso realizasse as reformas necessárias (cultural, política e econômica), assim sendo, uma reforma na língua portuguesa (substituindo-a pela língua indígena tupi), na agricultura (o Brasil deveria ser um país agrícola, por possuir terras fartas) e política (tornando o Brasil um país forte, com um governo poderoso e enérgico), entre outros ideais, para despertar o gigante adormecido, desconstruindo na narrativa, de maneira crítica, o ideal romântico espelhado pela literatura da época, que exagerava nos elogios à pátria e se fixava no parnasianismo francês. 
A obra, tem um perfil irônico e mesmo sarcástico do funcionalismo público e dos quartéis e da política. Dos funcionários públicos realçava a incompetência e a concentração na promoção pessoal. Dos quartéis ridicularizava os generais sem batalhas e os almirantes sem esquadras, além da penúria, vaidade e carência geral de meios e de ânimo. Na política a velha senhora corrupção e o autoritarismo ditatorial.
Descreve as relações sociais e interpessoais com precisão e afeto entre as diferentes classes sem exprimir ódio ou ressentimento entre grupos sociais, e relata poucas distinções além da capacidade financeira, mas registra um relacionamento social sempre integrado e afável sendo essa, a maior fragilidade do personagem Quaresma, por sua absoluta ingenuidade. 
Aliás, a ofensa que mais doeu em Quaresma foi justamente o comentário do Presidente Floriano ao lhe chamar de “visionário”. Ele não admitia, que seu sonho não pudesse ser concretizado, se houvesse decisão política e trabalho honesto.
A concepção de que Lima era um escritor voltado para a temática social, preocupado em demonstrar as injustiças sociais, os preconceitos e o racismo, me parece sempre uma avaliação reducionista e depreciadora, tendo em vista a sua visão construtiva de uma sociedade mais bem organizada e orientada por valores mais adequados e mais raiz, do que os que eram levados em conta para buscar o progresso da nação, como a República e o positivismo. Foi, como toda a intelectualidade da sua época simpatizante do socialismo e do anarquismo, rompendo e mesmo ridicularizando o nacionalista ufanista.
Vivenciou alguns momentos importantes da história e soube registrar com profundidade a ausência de interesse do povo, por cada uma delas. Em particular a Revolta da Armada um movimento de rebelião ocorrido em 1893 e liderado por algumas unidades da Marinha Brasileira contra o governo do presidente Floriano Peixoto.

Como Deodoro da Fonseca renunciou à presidência antes de completar dois anos, a posse do vice foi contestada como inconstitucional. Mas, na verdade, era resistência política dos governadores destituídos por Floriano que eram contrários a eleições de governadores civis, juntos aos monarquistas que se sentiram derrotados com a proclamação da república, juntos com a marinha que se sentia diminuída frente ao exército e ainda juntados aos militares da linha dura que não queriam eleição de civis para ocuparem cargos de poder. Assim, naquele tempo, como hoje, todos os inconformados se unem para lutar contra a renovação política, o avanço social e obstaculizar o poder civil.

O filme de longa-metragem baseado no livro se chama “Policarpo Quaresma, Herói do Brasil” é uma comédia com roteiro adaptado por Alcione Araújo e teve como diretor Paulo Thiago, gostei muito e revi Carlos Gregório meu primo que faz o corrupto presidente da Câmara local.

Frases de Lima Barreto:
  • “O Brasil não tem povo, tem público.”
  • “Não é só a morte que iguala a gente. O crime, a doença e a loucura também acabam com as diferenças que a gente inventa.”
  • “É chegada no mundo, a hora de reformarmos a sociedade, a humanidade, não politicamente, que nada adianta; mas socialmente, que é tudo.”
  • “Por esse intrincado labirinto de ruas e bibocas é que vive uma grande parte da população da cidade, a cuja existência o governo fecha os olhos, embora lhe cobre atrozes impostos, empregados em obras inúteis e suntuárias noutros pontos do Rio de Janeiro.”
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