terça-feira, 9 de abril de 2019

Thérèse Desqueyroux


de François Mauriac
Comentários de Carlos Guido Azevedo
Registro uma sensação profunda de incompetência que esse livro me causou. Não sei se foi o momento que ele me chegou às mãos, se foi o desejo de ler em francês, ou o estado de espírito em que o li.
Sei apenas que me causou um profundo desconforto, dificuldade mesmo de compreender os personagens e suas complexidades, acho que fui desafiado pela linguagem e pela língua e constatei que realmente não sei francês para ousar ler um livro de Mauriac.
Mas minha surpresa foi que, quando passei a ler de forma alternada, também em português, voltei a ter a mesma sensação, também não sei português suficiente para uma interpretação escorreita desse autor e, humilhado por saber quem o traduzira não pude nem usar o termo “traductore, traidore”.
Sabe aquela sensação de desamparo quando se navega contra a maré, querendo gostar da Therese e detestando a desde as primeiras páginas. Sentindo aquela sensação de reserva e frustração quando não consegue sintonia com o personagem principal e acaba achando os outros vilões muito melhores que a heroína.
Sei o quanto é difícil justificar o comportamento do pai de Therese no esforço vão de coloca-la na normalidade da vida rural francesa, quando se sabe que ela tem potencial para uma vida na cidade grande, assim, todos os personagens que contracenam com ela são descritos em suas mais medíocres posições, valores e comportamentos mesquinhos, não tenhamos dúvidas.
Mas, Therese é uma assassina em potencial. Tentou matar o marido, sem qualquer justificativa plausível e foi inocentada por ele, mas não perdoada.
Therese é uma psicopata capaz de destruir quem quer que que desfrute de sua intimidade? Essa foi a minha sensação inicial e que persistiu por toda a leitura. A falsa explicação que ela dá para a aquisição dos venenos é tão esdrúxula que o pai logo recomenda, “Inventa outra desculpa!”. 
As relações de Therese são obsessivas e dominadoras, quase consumistas, ela anseia o interior das pessoas, de Ana quer saber todos os seus pensamentos e sentimentos ao ponto de recuar e se defender: “Todo dia não Therese!” 
As suas percepções sobre o João Azevedo e seu sentimento de perda quando Ana se apaixona por ela

terça-feira, 12 de março de 2019

Maldito seja Dostoiévski

de Atiq Rahimi



Comentários de Carlos Guido Azevedo

O romance está todo ambientado em um Afeganistão em guerra civil depois da ocupação russa em 1990. Rassul o personagem principal, teve formação russa e é leitor assíduo de Dostoiévski, seu tema principal em todas as conversas.
Engendra assassinar a uma velha má - nana Alia - que quer desencaminhar sua noiva Sufia, forçando-a ao trabalho exaustivo doméstico e buscando leva-la para uma casa de prostituição.
Justo no instante de execução do crime, quando estava a aplicar o golpe decisivo, lhe veio à mente o personagem Raskólnikov de "Crime e Castigo", o que lhe causou uma tremenda confusão mental.
Saiu do local do crime sem levar o dinheiro e as joias, seu objetivo complementar, pois com isso resolveria o problema de sua noiva e de sua sogra.
Quando resolveu voltar a cena do crime, nada encontrou do que queria, apenas vislumbrou uma mulher de burca azul se evadindo do local e nem a vítima lá permanecia.
Numa profunda decepção passou a perseguir a mulher de burca azul e acaba se aprofundando cada vez mais numa crise de consciência.
Sente que cometeu um grande crime, que precisa ser castigado, por isso, vai em busca da lei que precisa lhe ser imposta.
Muitas aventuras depois, já sem voz e com muitas tragadas de haxixe, volta a seu quarto e resolve se entregar a justiça em uma Cabul em guerra, com o sistema de justiça destroçado, grupos guerrilheiros em constante escaramuças, bombas caindo, e uma profunda mudança de mentalidades a partir da saída dos russos, derrocada do comunismo e assunção dos mulás.
Vemos um Rassul afundado em pensamentos filosóficos sobre a vida, a autodeterminação dos humanos, o senso de justiça universal que não pode depender de situações locais e circunstâncias especiais.
O certo e o errado estão sempre lá para serem definidos por alguém, como um juiz, Ele quer ser ouvido, explicar o seu intento, justificar seu ato e assumir a pena.
Ele quer ser julgado, condenado segundo o seu crime, que todos conheçam seu erro e que ele sirva para que outros compreendem que todo crime deve ter seu castigo.
Assim, afundado em seus pensamentos, retirados do arcabouço de ideias de Dostoievski, ele empreende seu esforço em busca de concretizar primeiro a verdade de seu crime, o que vai ficando cada vez mais difícil, porque ninguém dá conta da morte de nana Alia, todos acham que ela viajou e levou suas joias e seu dinheiro.  
Um crime sem vítima, que não é levado a sério nem pelos seus amigos, nem pelos que deveriam fazer justiça vai complicando cada vez mais as ideias de Rassul e fazendo com que ele busque cada vez com mais afinco algum juiz que o julgue e dê sua sentença.
Mas o juiz não se interessa em lhe sentenciar, mas em saber onde está a fortuna de nana Alia. Sem a informação desejada condena Rassul a ter as mãos cortadas e ser enforcado em praça pública.
Seu amigo o comandante Pervez parece entender a luta de Rassul para ser justiçado, para explicar seu crime, receber o reconhecimento por ele.
Só Pervez, depois de lutar para superar essa necessidade em Rassul, compreendeu sua demanda e percebeu o horror do momento que estavam vivendo. No ápice da história, quando Rassul é levado à forca, ela se encontra já utilizada.
Era Pervez que tendo sido responsável pela morte do assassino de seu filho adotivo e tendo matado no embate a mulher e o filho do assassino, se julgou culpado e se condenou à forca, utilizando aquela que mataria a seu amigo Rassul, tomando assim o seu lugar na execução que havia sido planejada com muita assistência.    
Comentários
Estamos sem dúvida diante de uma obra de alta qualidade, de arquitetura complexa e execução primorosa.
Já tivemos oportunidade de ler muitas obras que referenciam outras em sua composição ou seu enredo, mas esta absorve os principais conceitos filosóficos de Crime e Castigo e remonta a luta do personagem em busca de uma justiça, em um ambiente absolutamente impermeável a ela.
Na verdade, durante toda a leitura estive em minha memória outro livro que discutimos aqui e de temática parecida. Em um ambiente de guerra, de selvageria o ser humano parece perder qualquer senso de justiça e humanidade. Em “O Coração das Trevas” de Joseph Conrad, "o horror, o horror" estava também, no coração dos homens e um personagem meio louco, meio lúcido procura mostrar essa linha tênue entre civilização e barbárie.                

Recomendo com louvor.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

DESENCONTOS

de Claudine M. D. Duarte


















Comentários de Lenita Turchi

O título já faz o leitor pensar. Contos ou poemas? Serão contos sobre desencontros?  Em seguida, outras indagações: porque a autora escolheu tornar público a sua produção literária iniciando com o que me parece mais difícil na área?  Existe um fio condutor que unem os 43 contos da publicação? Porque iniciar com Ausência e concluir com Quimera? O que guiou a autora na apresentação da sequência dos contos?
Na primeira leitura confesso não entendi bem. Busquei nos contos estórias e não as encontrei. Foi na leitura seguinte sem ansiedade de entender a obra de uma vez, de quem lê um conto de cada vez, fecha o livro e reflete sobre ele, que penso ter sido capaz de usufruir a riqueza contida em Desencontos.    
De fato, Claudine nos oferece muito mais que estórias em Desencontos. Seus contos são emoções em estado puro e ao leitor cabe o desafio e porque não, o prazer de construir a(as) estória (as) partir destas emoções.  Imagino que a autora tenha trabalhado nas estórias e extraído dela o sumo, a essência ou seja as emoções. Trabalho comparável ao do pintor que esboça 100 vezes a mesma figura até que os traços resultantes deste exercício sejam capazes de inspirar sensações e emoções. Ou de um produtor de olivas que durante anos busca a melhor combinação de terra, clima e cepa para no final extrair o sumo/suco das melhores.  
“Dúvida”, que me abraçou desde o início me contou a seguinte estória. Dois seres, confidentes, amigos amantes que se admiram, e um deles faz um pedido: me “ensina a conquistar a mundo”, “preciso de mim". De fato é um pedido de ensinar a viver plenamente porque isso é o mundo e é através de outro, da nossa relação que eu me conheço melhor. O outro tem dúvidas e se inquieta. É um pedido forte demais, ajudar alguém a se conhecer melhor e ser pleno. A dúvida e o vacilar é o segredo deste conhecimento pois só ela nos faz crescer. As certezas de ter necessidades básicas como, abrigo, comida, afeto atendidos são confortáveis e nos acalmam. Mas o mundo, nosso mundo interior é conquistado na busca, na dúvida e nas incertezas.
“Sina”, feminismo poético na veia. Tanto nas palavras como na diagramação. O chão é o mesmo e não é de ninguém. Andamos lado a lado e porque uns miram o infinito e outros olham o chão? Aqui mais que estória é um lamento. Triste e bonito demais.
“Norte", para mim o conto evocou uma reflexão sobre a vida e morte sem dramas, constatação de alguém que já viveu muito. Vida, estrada sem volta, que não adianta muito usar bússola, instruções e receitas. Caminho sem certezas (sem chão).         
Desencontos, primeira publicação de Claudine, reflete a maturidade e trajetória de quem escreve há muito tempo mas só agora torna pública a sua criação. Sofisticação em todos os detalhes. Da escrita à diagramação. Parabéns e obrigada pelo privilégio de discutir conosco seu trabalho.
Recomendo e darei de presente aos amigos (as) que apreciam poesia e leitura mais elaborada. Não é livro para leitor desatento ou só na busca de entretenimento. 
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ilustração de Tâmara Habka para o livro Desencontos